Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Coração de Jesus: mais uma festa do Matosinhos antigo

Mais notícias de festas religiosas no Bairro Matosinhos vem à tona neste blog, trazidas das velhas páginas jornalísticas da cidade de São João del-Rei. Desta vez em honra ao Sagrado Coração de Jesus, devoção que ganhava força com o processo de romanização implantado pela Igreja. Mesmo antes de acontecer já se previa o grande número de comunhões, clara tônica do discurso romanizador, que destacava o sacramento da Eucaristia. A procissão seria pomposa, cheia de andores e estandartes. Velhos hábitos de uma antiga cidade impregnada pela cultura barroca. 

O jornal Acção Social, assim noticiou (transcrição respeitando a grafia da época)

Mattozinhos
Iniciar-se-ão hoje as festividades em honra ao Sagr. Coração de Jesus. Esperamos muitas comunhões e o maior respeito do povo religioso de Mattozinhos durante estes dias.
Na procissão de Domingo próximo serão conduzidos 5 lindissimos e riquíssimos andores e vários estandartes.
Agradecemos de antemão aos dois incansáveis Zeladores, os srs. Pedro Ferreira e João Pedro de Oliveira, que não pouparam esforços pelo melhor exito das festividades.
O coro está em efetivas condições e executará seu repertório com brilho e capricho, graças a infatigavel Directora Dª Amanda Telve de Faria Pereira. Que o sagrado Coração abençoe estes dias festivos.
O correspondente.


Referência

Acção Socialnº 423, de 28 de junho de 1928, São João del-Rei. 

Créditos

- Texto e fotomontagem: Ulisses Passarelli.

Notas

- Acervo hemerográfico: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.
- Revisão: 13/06/2025. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Grutas religiosas em São João del-Rei - parte 2

A tradição das grutas religiosas é muito arraigada em nossa região. Em São João del-Rei essas construções de pedra são especialmente abundantes e queridas. Em torno delas se aglomeram os fiéis das pequenas comunidades para a reza dos terços, para festejos do orago, coroações de Nossa Senhora e por vezes, para recepcionar as Folias de Reis que de passagem por sua área as visitam.

A imagem posta em seu interior é tratada com veneração. Amiúde recebe flores e velas.

Procuram via de regra dar um tratamento urbanístico ao redor, com calçadas de pedras ou concreto magro, instalação de bancos e mesas, jardins, iluminação, grades e lixeiras. Tudo é instalado e mantido pelos devotos da comunidade que assim convertem o aspecto de praças, largos, cantos de rua fora do alinhamento geral. O fato motivado a princípio pelo elemento religioso, termina por ultrapassá-lo pois este espaço se torna uma área de socialização comunitária, uma referência: as crianças para iniciar uma brincadeira marcam de se encontrar na gruta, tal hora; senhoras sentam-se nos bancos na fresca da manhã para fazer um crochê; alguns homens se aproveitam do banco largo ou da mesinha para uma partida de damas ou de xadrez, dominós, dados ou purrinha. Demonstra também o desejo da população pela melhoria do espaço urbano, tomando a atitude de fazê-lo da sua forma e por seu meio, onde o poder executivo municipal deixa a desejar.

A edificação das grutas não raro obedece a regime de mutirão.

Embora existam noutras regiões, aqui são abundantes e sua construção é um fenômeno crescente nas duas últimas décadas. São numerosas na zona urbana de São João del-Rei e começam também a se expandir para a zona rural.

É um fenômeno a ser devidamente estudado. O ponto de partida da investigação talvez seja o caminho inverso ao êxodo rural, que traz a cultura das roças à cidade. As populações distritais, com dificuldades de acesso a vários serviços ou tendo de se deslocar com muita frequência à cidade para acudir às suas necessidades mensais, tem contato na cidade com essas construções singelas e não tarda a instalá-las também nas vilas. Por outro lado existe a questão da própria liberdade religiosa. Nas igrejas existe um sistema hierárquico vigente a ser respeitado e os agentes eclesiásticos controlam as atividades conforme as normas católicas. Ali se congregam irmandades, pastorais, movimentos, cada qual delimitando sua função, espaço, prestígio e influência. Já as grutas não tem isto definido. Seus zeladores podem agir livremente, o que não significa que o façam de forma desenfreada, pois se obedece a uma norma social, e existe coerência com a doutrina religiosa. Contudo, é inegável que estejam mais soltos. O agente leigo trata mais perto de sua comunidade do elemento religioso e busca integrar as atividades da gruta à programação religiosa do lugar. Não é raro que convidem um padre para celebrar uma missa campal nas grutas.

Além da motivação propriamente de pesquisa antropológica, as grutas bem serviriam para desenvolvimento de um roteiro turístico-religioso, demarcadas em mapa, com georeferenciamento, etc. E o estímulo ou incremento criterioso e dialogado com a comunidade seria uma ação a se pensar.

Em São Gonçalo do Amarante (ex Caburu) a gruta foi construída com recursos angariados pela folia do Divino local, em jornada de visita às casas da própria comunidade. Ainda hoje serve também de local onde se concentra o reinado na Festa do Rosário. Os congados vem até ela recolher os reis, rainhas, príncipes e princesas para escoltá-los até a igreja.



Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, 29/05/2013.
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei). 

Gruta do Divino Espírito Santo, 10/06/2010.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei).  

Gruta de São Pedro, 24/10/2016.
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei).

Para saber mais sobre este assunto acesse o link abaixo e leia a seguinte postagem, ora revista, ampliada e acrescida de fotografias: Grutas Religiosas em São João del-Rei.

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

domingo, 11 de agosto de 2013

A Folia na Mídia

Memórias...

As Folias de Reis de nossa região conseguiram conquistar uma posição relativamente importante em parte da mídia local. O primeiro destaque foi o radiofônico. A emissora Rádio São João del-Rei, AM, abriu as possibilidades com as apresentações ao vivo no auditório de sua antiga sede, por mais de três décadas com o radialista sr. Vieira Portela, no programa sertanejo "Rancho do Cumpadre Vieira", de saudosa memória. 

Folia de Reis da cidade de Resende Costa se apresenta no palco da Rádio São João. "Cumpadre Vieira", o radialista, em pé, à direita (camisa cor de vinho), observa atentamente o folião Heitor ao violão (de camisa vermelha). 

Com um poder extraordinário de audiência, um verdadeiro fenômeno, tanto na zona rural quanto urbana, entre as propagandas, notícias e avisos, vinham as músicas de raiz e entre dezembro e janeiro as folias chegavam a convite do próprio Vieira, que se punha a chamá-las ao microfone, mandando recados para os que ainda não tinham se apresentado. Sabia o nome dos foliões todos, de cada povoado recôndito: "ô seu Luís Candinho... Olha aí, seu Candinho, no Fé, tô esperando sua folia aqui no Rancho do Cumpadre Vieira"! Os foliões, com grande satisfação vinham, atenciosamente. 

Para matar as saudades: Zé Moreno, na sanfona, canta folia na Rádio São João, 
com filhas e demais companheiros da tradição. 

Presenciei muitas vezes estas cenas in loco, e o carinho mútuo que foliões e radialista tinham mutuamente, um respeito digno de nota. Pelo microfone o folião mandava recados, avisava qual o próximo local a ser visitado, que Dona Maria preparasse o café com broa, que Dona Antônia pusesse água no feijão, que seu Zé abrisse a porteira do sítio que estavam chegando. Agradecia os lugares que já tinha passado, oferecia "esse número de folia" à comadre fulana, à esposa, ao vizinho, ao amigo, ao netinho, como se oferece qualquer música pelo rádio. 

Ao mesmo tempo era muito comum o contrário: o telefone da emissora tocava porque o ouvinte gostou daquela toada folieira e convidava o grupo a visitar sua morada após a apresentação radiofônica, na rua tal. O amor de Vieira pelas tradições era imenso e me lembro que nos idos dos anos 1980 chegou algumas vezes a ser Rei de congado nas festas do Rosário no Bairro São Dimas. 

O falecimento do locutor consternou toda a cidade e redondeza. A imensa lacuna foi profundamente lamentada em versos cantados por todos os foliões que continuaram a passar pela emissora, que prosseguiu aberta a eles pelo programa da sra. Stella Portela, viúva de Vieira, que mantinha o programa "Manhã Sertaneja". 

"Eu agora me lembrei
de quem hoje tá no céu
o nosso cumpadre Vieira
todo coberto de véu."

Ouvi um folião cantar isto naquela época triste, não lembro mais qual. Só memorizei a composição. 

"Cumadre Stella" manteve uma linha semelhante de programa até seu lamentável falecimento, sempre com as folias natalinas, porém já em diminuição por conta de mudanças de horários que dificultaram as presenças. No mais, também, o número de folias ativas na região decaiu drasticamente. A continuidade se deu com Emanuel Machado, nessa linha sertaneja e ainda esse ano a emissora recebeu folias, já em sua casa nova. 

Cumpre ainda ressaltar que o excelente programa "Fala, São João!", do radialista José Mário de Araújo, muitas vezes já promoveu rodadas de entrevistas sobre folias de Reis, dos quais eu mesmo participei de vários, alguns juntos com outros foliões, como João Batista do Nascimento ("João Matias"), Luthéro Castorino da Silva ("Zé Mineiro"), Luiz Carlos Rosa ("Luizinho Sanfoneiro") e a mestra de Pastorinhas, Júlia Lacerda. Aliás, diga-se de passagem, as pastorinhas também se apresentavam tal como as folias na emissora. 

Lembro-me ainda de "Tião do Fole", célebre violeiro e sanfoneiro, folião de raiz, que tinha também seu programa na emissora, sempre que possível abordava o tema reiseiro. 

Por tudo isto é admirável o papel radiofônico dessa tradição na região. No auge reunia um grande número de folias de São João del-Rei e municípios vizinhos, que chegavam a "congestionar" o auditório da antiga sede, como sou testemunha e a meu favor conta uma foto publicada pelo jornal Gazeta de São João del-Rei, em sua edição n.26, de 16/01/1999. 

Com tudo isto criou-se o costume de aguardar a música folieira no radinho de pilhas nas manhãs de dezembro e janeiro, na beira do curral, enquanto se ordenha o rebanho, no batente da janela da cozinha enquanto se coa o café matutino, nas oficinas, estabelecimentos diversos, etc. 

Justiça seja feita também à emissora Rádio Emboabas, que foi um importante canal de difusão dessa tradição através do radialista "Zé Mineiro", que nunca mediu esforços para difundir todos os autênticos valores culturais da terra, como congados, folias, bandas e outros, por mais de uma década. Na atualidade a oportunidade tem sido dada pelo radialista Fábio da Silva, que já por diversas vezes possibilitou o acesso das folias às novas instalações para apresentações a esse Campo das Vertentes. 

Essas apresentações supracitadas não foram e nem são forjadas com grupos improvisados de última hora; acontecem sim com os grupos autênticos da cultura popular, manifestações de raiz, revestidas de genuinidade. 

Ainda um aspecto a ser destacado é o das folias nos jornais escritos, pois de fato já foram alvo de muitas matérias em vários órgãos da imprensa regional, dos quais fiz um breve apanhado [1], que se segue abaixo listado, para servir de referência hemerográfica a quantos queiram aprofundar nessa pesquisa. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

Notas

[1] Alguns textos jornalísticos sobre folias publicado no Campo das Vertentes: 

- 8º Festival de Folias de Reis. Cidadania, São Tiago, n.45, fev.mar.2006.
- I Encontro de Folias de Reis. Informe Universitário, Lavras, UEMG/Campus Fundacional de Lavras, n.4, jun/1999, ano 2.
- Folia de Reis. Informativo Caminhos & Trilhas, Tiradentes, Agência Caminhos e Trilhas, n.7, jan.2005.
- Folias de Reis. Cidadania, são Tiago, n.35, fev/mar 2005.
- SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Dia de Santos Reis, Tribuna Sanjoanense, n.1055, 23/01/2001.
- SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Um pouco de história: sobre a epifania e Folias de Reis. O Grande Matosinhos, Coluna Gente & Notícia, n.39, jan.2003.
- São Tiago cada vez mais inserido no Circuito Turístico de Minas. Cidadania, São Tiago,, n.86, maio/jun.2010.
- Encontro reúne folias das Vertentes na Colônia: entronização dos reis magos acontece hoje. Gazeta de São João del-Rei, n.540, 03/01/2009.
- Folclore. Folha das Vertentes, São João del-Rei, n.118, jan.2009.
- Folias visitam largo de São Francisco. Gazeta de São João del-Rei, n.281, 10/01/2004.
- Folia de Reis ainda sobrevive em São João. Folha das Vertentes, n.21, jan.2005.
- Folias de São Sebastião visitam casas até o dia 20. Gazeta de São João del-Rei, n.128, 13/01/2001.
- Tradição da Folia de Reis na Rádio São João. Gazeta de São João del-Rei, n.26,16/01/1999.
- São João del-Rei se despede das luzes de natal. Gazeta de São João del-Rei, n.230, 11/01/2003.
- Folias de Reis visitam o Presépio da Muxinga: evento marca fim da programação natalina. Gazeta de São João del-Rei, n.229, 04/01/2003.
- Folia de Reis no Largo São Francisco. Tribuna Sanjoanense, n.1.142, 20/01/2004.
- 4º Encontro de Folia de reis e Pastorinhas vai ao Canal Rural. Folha das Vertentes, n.45, jan.2006.
- Folia de Reis encerra eventos do S.Francisco: grupos resgatam tradição difundida pelos europeus. Gazeta de São João del-Rei, n.488, 05/01/2008.
- São João del Rei mantém tradição das Folias de Reis. Jornal do Sindcomércio. n.70, dez.2007.
- Folias Eternas. Gazeta de São João del-Rei, n.540, 03/01/2009, editorial.
- Folia de Reis é atração em São João: encontro acontecerá no Largo do Rosário na próxima quarta-feira, 6. Gazeta de São João del-Rei, n.592, 02/01/2010.
- Folia de Reis. Gazeta de São João del-Rei, n.541, 10/01/2009.
- Tradição e fé marcam Folia de Reis em São João. Folha das Vertentes, n.142, jan.2010.
- Festa folclórica apresenta música, dança e comida. Gazeta de São João del-Rei, n.212, 31/01/2002.
- Folia de Reis. Gazeta de São João del-Rei, n.489, 12/01/2008.

- Revisão: 19/04/2026  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Criança Perdida

Numa enorme fazenda nos ermos do interior, uma pequena criança, filha do fazendeiro, brincando no terreiro como de sempre, longe dos olhos tutelares, saiu andando sem rumo pelo mato e se perdeu. Na boca da noite [1] não tinha voltado.

          O desespero se apossou dos pais. Saíram à sua procura, luzes à mão, junto com os empregados da fazenda. Foram mata adentro, beira-córrego, nas grotas, brejos, cerrados. Noite inteirinha... nada!

          A estrela d’alva já anunciava o novo dia, que se abriu em clarão. A busca incessante parecia fracassada. Já sem esperanças, temerosos da criança ter sido atacada por uma cobra ou onça, foram surpreendidos com a chegada da mesma sozinha, no terreiro da fazenda.

           Todos em prantos foram a ela, abraçando-a intensamente. Era visível o seu cansaço. A criança não soube dizer por onde esteve. Apenas afirmava que uma moça muito bonita a trouxera em casa e que agora queria dormir.

              Os de casa se indagaram por muito tempo que moça seria aquela. Quem era a benfeitora?

         Num domingo foram à missa dominical na capela do povoado. A criança puxou insistentemente o vestido da mãe, dizendo: “_ mãe, mãe... Olha lá a moça que me trouxe em casa!”. A progenitora, cheia de ansiedade para conhecer e agradecer à bendita mulher, ficou pálida e surpresa, tomada de emoção, quando a criança, apontando para o altar, mostrou-lhe a imagem de Nossa Senhora.

Nossa Senhora da Lapa, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
 São João del-Rei/MG.


Notas e Créditos

*Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei/MG, jan.1994.
*** Fotografia: Murilo, Master Foto, 2004.



[1] - Boca da noite: o crepúsculo. A expressão popular evoca uma imagem ancestral da noite, como um gigante tenebroso, cheio de mistérios e perigos, que abocanha o dia. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A Primeira Festa de Santo Antônio em Matosinhos

Dentre as muitas devoções católicas que se festejam no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, figura também a de Santo Antônio de Pádua, que já foi alvo de comentários neste blog. Porém a presente postagem traz à lume uma notícia veiculada pelo órgão de imprensa são-joanense, Acção Social. Seu texto menciona que a primeira festa dedicada a esse santo no bairro aconteceu em 1928. Eis sua transcrição (respeitada grafia da época), seguida de fotomontagem da matéria:

Mattozinhos
Celebraram-se aqui  no domingo passado, as solemnidades em honra a S. Antonio na egreja de Bom Jesus. Foi pela primeira vez que o grande thaumaturgo recebeu aqui homenagens do povo (... ilegível).
Houve grande numero de comunhões nesse dia e de tarde percorreu a vasta praça deste pittoresco logar uma (...) procissão. Subiu á sagrada tribuna o Rev. Pe. fr. Cherobin cheffe (?) do Gymnasio Sto.Antonio, que em palavras bem escolhidas nos mostrou o grande santo como modelo de vida pura com Jesus Christo. A banda de musica do 11 Regimento abrilhantou a procissão e o leilão, que foram muito concorridos. (ilegível) eclesiástica approvou a mesa recém-eleita para o anno vindouro.

Foto1: notícia da Festa de Santo Antônio.

O texto revela a simplicidade da programação, nada excepcional, com procissão, leilão e sermão; destaque para as comunhões, comum nas notícias de festas religiosas deste período. Elementos enriquecidos com a música da banda militar, que ainda hoje traz vasto e ativo trabalho cultural. A popularidade do santo garantia a continuidade da festa, visível na aprovação eclesiástica dos festeiros do ano seguinte. 

Foto 2: Santo Antônio na liteira. 

Sabe-se que em um passado bem mais remoto, um século antes, Santo Antônio dava à festa pentecostal de Matosinhos um ar muito pitoresco com sua eleição para o cargo de Imperador Perpétuo da Festa do Divino. Como tal era o principal protagonista de uma procissão que descia da Igreja de São Francisco de Assis rumo à de Matosinhos, quando a imagem do taumaturgo vinha em movimentos pendulares dentro de uma liteira, com grande acompanhamento de fiéis. Mais detalhes sobre este assunto estão em outra postagem neste blog. Este item foi resgatado na reativação da Festa do Divino de 1998. Prossegue até os dias atuais a Procissão do Imperador Perpétuo, sendo o santo também festejado no seu salão comunitário na Vila Santo Antônio (parte do bairro) e na capela rural da qual é orago, no povoado do Carvoeiro, dentro da mesma paróquia e município.

Foto 3: Capela de Santo Antônio do Carvoeiro, 09/07/2013. 

Referência

Acção Social, n. 422, 21 jun. 1928. Acervo Digital Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei.

Créditos

- Texto, fotomontagem 1, efeito artístico da fotografia 2, fotografia 3: Ulisses Passarelli.
- Fotografia 2: Iago C.S. Passarelli.
Notas

- Infelizmente, a má qualidade da fotodigitalização disponível no acervo digital deste jornal, dificulta ou mesmo impede a leitura de alguns trechos da matéria. 
- Revisão: 10/04/2025. 
- A Capela do Carvoeiro foi incluída formalmente na lista de bens protegidos em nível municipal  (Decreto nº 11.558, 16/12/2024, São João del-Rei), graças à aprovação e validação do Inventário de Patrimônio Cultural (IPAC/2018, Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural / Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal). Mudou de jurisdição eclesiástica: passou a pertencer à nova Paróquia do Menino Jesus de Praga, com matriz no Bairro Pio XII, criada em junho e instalada em setembro de 2022, tendo como primeiro pároco o Padre Odair José de Carvalho. Fonte: 

SILVEIRA, Lucas. Paróquia Menino Jesus de Praga é instalada na Diocese. Diocese de São João del-Rei, 19 set. 2022. Disponível em: https://diocesedesaojoaodelrei.com.br/paroquia-menino-jesus-de-praga-e-instalada-na-diocese/  Acesso em 10 abr. 2025. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Recordando o Mestre Dinho

Hino de São Sebastião


Em 1993 realizei algumas entrevistas com o experiente folião sr. José Orlando da Silva, carinhosamente conhecido como “Dinho”. Mantinha um grupo de Folia de Reis e Folia de São Sebastião na Rua Antônio de Abreu (Arraial das Cabeças), no Bairro Bonfim, São João del-Rei/MG.

Mestre Dinho.
Era um grande instrumentista, tocando sua oito baixos, uma sanfona diatônica, vermelhinha, sonora que só ela, marcando muito bem as quadrilhas de inverno e imbatível nas folias de verão, acompanhando a voz do grande mestre da cultura popular.

No dia 11 de janeiro daquele ano, Dinho passou-me extensa versalhada das folias que tocava, do alto de seus então 54 anos de experiência folieira. Parte desses versos já foram publicados[1] e ora apresento o hino em honra a São Sebastião que cantava, tal como me ditou de memória e fui anotando num caderno à caneta esferográfica, ambos sentados no batente de uma porta, daquele saudoso momento.

Dinho dissera-me que havia aprendido este hino anos antes em Volta Redonda, no estado do Rio de Janeiro, onde o ouvira de uma folia. Trazendo-o para São João del-Rei, adaptou os versos ao seu ritmo e fez pequenas alterações na letra, provando mais uma vez que o folclore extrapola fronteiras. 

*  *  *

A vida de São Sebastião
No tronco de uma oliveira
Agora vou repetir,
São Sebastião foi amarrado,
Para este povo cristão
Com uma corda de piteira
Que gostaria de ouvir.
Para ser martirizado.


No ano de 1329
O arqueiro apontou
Foi que nasceu São Sebastião
A flecha na direção,
Nasceu de família nobre,
A primeira que atirou
Mas porém era cristão.
Foi em cima do coração.


Foi um soldado guerreiro
A segunda na barriga
Que os fracos defendia,
lhe causou grande aflição,
Amava a Deus verdadeiro
Outra na perna dolorida
E de nada ele temia.
E a quarta caiu no chão.


Por ser um bom soldado
Depois foi desamarrado
De tão grande confiança,
E o rei apresentou,
Pelo rei foi nomeado
Depois de o ver martirizado
Para ser sua ordenança.
Sua cabeça cortou.


Pedia auxílio ao nobre
Seu sangue foi derramado
E repartia com a pobreza,
E escorrido sobre a terra.
Sempre viveu como pobre
Hoje ele é nosso advogado
No meio de tanta riqueza.
Contra fome, peste e guerra.


No império de Diocleciano,
Desta pátria tão querida
Já era chefe da guarda,
Ele é nosso padroeiro,
Esse soldado romano
Nas batalhas desta vida
Sempre honrou sua farda.
É o nosso mestre guerreiro.


Ensinando seus amigos
Mártir São Sebastião,
O caminho de cristão,
Santo de Jesus querido,
Por isso veio os inimigos
Pedimos em oração
E lhe deu voz de prisão.
Para sermos favorecido.

Dia 20 de janeiro
É seu dia consagrado
Este santo padroeiro
Que no céu foi coroado.

Folia de São Sebastião do Mestre Dinho. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli, 1993. 



[1] - PASSARELLI, Ulisses. Adoração ao presépio. Revista da Comissão Mineira de Folclore, n.20, ag.1999. Belo Horizonte. p.144.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Procissão Motorizada de 2013

Aconteceu no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, neste fim de semana, a tradicional Procissão de São Cristóvão. Este evento religioso se reveste de um particular aspecto graças ao cortejo automotivo e motociclístico. Sendo este santo padroeiro dos motoristas, nada mais adequado que este tipo de comemoração. 


No dia 04 de julho de 2013, às 15 horas, houve no Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos uma missa festiva em honra a São Cristóvão, celebrada pelo pároco e reitor Padre José Bittar, com grande afluência de fiéis. A parte musical coube ao coro paroquial. 


Finda a celebração os fiéis se concentraram na praça principal do grande bairro, onde muitos carros, caminhões, caminhonetes, vãs e motocicletas já aguardavam a saída.


A procissão saiu em meio ao festivo repique dos sinos e toques incessantes das buzinas dos veículos. Motocicletas na frente, seguidas dos carros de passeio e por fim dos caminhões. 


O longo e barulhento cortejo seguiu buzinando em direção à Ponte do Porto, Santa Cruz de Minas, Colônia do Marçal, Av. Leite de Castro, Centro da cidade e daí ao Tijuco, pela Rua General Osório. O retorno foi pela Rua São João. De passagem pelo Centro, subiram pela Oito de Dezembro e por esta avenida ganharam a BR-265, passando pela Gruta de São Cristóvão, na paragem do Cala Boca. Para encerrar voltaram à cidade pelo Trevo do Elói, na retaguarda de Matosinhos, descendo o Pio XII, Bom Pastor e Vila Santa Terezinha, pela principal artéria de trânsito, a Avenida Josué de Queiroz, para encerrar na frente do santuário.

Sr. Gilberto de Sousa, baluarte e fundador 
da Festa de São Cristóvão em Matosinhos.

Resta dizer, que todo o trajeto teve entre os veículos, um caminhão de abre-alas com uma grande cruz iluminada presa na vertical, na carroceria, ladeada por duas bandeiras, uma do Brasil e outra da diocese. Outro caminhão, trazia na carroceria a imagem de São Cristóvão, cuidadosamente ataviada de flores em seu andor sobre cavaletes. Neste ano usou-se um andor convencional, em vez do tradicional, em forma de carroceria de caminhão. 

A procissão deste santo aconteceu neste ano em data mais tardia, no primeiro final de semana de agosto, quando normalmente ocorre no último de julho.

Créditos

Texto e fotografias (04/08/2013): Ulisses Passarelli.

Notas 

Revisão: 15/04/2025. 
Clique neste link para visualizar melhor o aspecto da Procissão de São Cristóvão.

domingo, 4 de agosto de 2013

Mestre Matias

Folia do Mestre "João Matias", do Guarda-mor (Bairro Tijuco) em visita ao Araçá (Bairro das Fábricas), durante a festa de São Sebastião no Salão Comunitário de Santa Rita de Cássia. Excepcionalmente estavam com uma bandeira de São Vicente de Paula, pois a coleta de ofertas da ocasião se destinava especificamente à ajuda de necessitados, socorridos por uma conferência vicentina. Na sanfona outro mestre, Antônio Ventura, que nesta época saía junto com Matias, aqui encarnando o palhaço (bastião da folia). Foto: Ulisses Passarelli, jan.1997. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O blog blogou bem blogado

Os Trava-línguas

“O povo brinca com a linguagem, como se pode observar à farta no folclore infantil. Chega a fazer dela um objeto com o qual também consegue se divertir: divertir e aprender.” (Weitzel)


                O vasto campo da oralidade se descortina com grande amplitude de opções ao pesquisador folclorista; algumas raras, outras bem populares, se não mesmo próximas, como diversão praticada em nossa própria infância.

                Nos momentos de lazer uma das diversões são os jogos de linguagem, joguetes da fala, dentre os quais um dos mais conhecidos é o trava-língua. Assaz difundido, algumas versões ultrapassam as fronteiras regionais e se estendem pelas vastidões nacionais.

               A.H.Weitzel  estudando-os junto com a linguagem secreta, outra preciosidade oral popular, sugeriu o uso dessas manifestações para trabalhos de dicção pelos terapeutas da fala. Sugeriu uma classificação dos trava-línguas em simples, compostos e complexos conforme a predominância dos fonemas consonantais e pontos de articulação.

                Observando a pequena coletânea recolhida nas pesquisas de campo em São João del-Rei e em Santa Cruz de Minas, foram constatados pelo menos três formatos, que obviamente não invalidam a classificação proposta pelo notável estudioso. Primeiro vejamos alguns trava-línguas típicos, digamos assim [1]:

1) O rato roeu a roupa do rei Ricardo de Roma.
2) O peito do pé de Pedro é preto.
3) O homem da horta humilhou ontem o hortelão honesto.
4) O galego gago vigia o gageiro e joga gagau [2] com o gigante.
5) Três pratos de trigo para três tigres tristes.
6) Sabia que o sabiá sabia assobiar?
7) Casa rasa, chão sujo.

Dos exemplos acima o 3 e o 4 denotam grande antiguidade, visível nas palavras em desuso.

Em alguns casos o trava-língua se processa repetindo-se a frase sucessivas vezes e cada vez mais rápido, e com a mistura dos sons e gera-se o erro de pronúncia: “macarrão, camarão, caramujo”O mesmo processo induz o som de alguma outra palavra não enunciada, por vezes chula: “burro do sertão”. E que ninguém julgue mal a este blog por estas e outras, porque ainda está por se escrever o “folclore do sexo” ou algo assim, que é de uma extensão admirável no universo cultural do brasileiro.

Outro formato é o de estrofes; quadras, abordando geralmente o tema amoroso[3]:

Com pena peguei na pena,
Com pena não te escrevi;
Com pena peguei na pena,
Com pena não te esqueci...  [4]

Não sei se é fato ou se é fita,
Não sei se é fita ou se é fato;
O fato é que ele me fita,
Me  fita mesmo de fato.

Não sei se sei...
Se sei, não sei;
Só sei que sei,
Que por ti me apaixonei...

Desejo que sua vida
Seja uma sucessão de sucessos
Que se sucedam sucessivamente
Sem cessar.

Gostei, gosto, gostarei,
Do gosto gostoso
De gostar de você...
Gostou, gostoso?!

O exemplar mais insólito de trava-línguas observamos cantado num congado, a guarda de catupé “São Benedio e Nossa Senhora do Rosário”, de São João del-Rei, no Bairro São Dimas, do Capitão Luís Santana, pelos idos de 1993:

Eu vim de Baretama,
Vou pro “toma!, dê cá!”
Não há “cá!”, sem “toma!”,
Nem há “toma!”, sem “dê cá...”

       É uma referência enigmática ao mercado de trocas, posto de barganhas, onde se entrega uma mercadoria (toma!) recebendo-se outra como paga (dê cá!).

Outra fórmula se faz prosaica. Ouvi muitas vezes enunciada pelos moleques de meu tempo:

O doce perguntou pro doce, qual era o doce que era mais doce.
O doce respondeu pro doce, que o doce que era mais doce, era o doce de batata-doce.

Os trava-línguas demonstrados geralmente consistem numa brincadeira entre duas pessoas: a mais habilidosa desafia a outra a repetir o enunciado, sem tropeçar nas palavras. O desembaraço consiste em grande habilidade com as palavras e o exercício dessas expressões um passatempo e treino de linguagem.

Referências 

WEITZEL, Antônio Henrique. Folcterapias da Fala. Revista da Comissão Mineira de Folclore, n.20, ag.1999, Belo Horizonte.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 14/07/2025. 


[1] - Informantes, todos de São João del-Rei: 1 e 2, memória da própria infância do autor; 3 e 4, Aloísio dos Santos, Centro, 1995; 5 ,6 e 7, Iago C.S. Passarelli, Caieira, 2013.
[2] - Substantivo masculino. “Conjunto de ossos de cabrito e de hiena misturados com seixos brancos e pretos e que constituem o oráculo dos negros de Moçambique” (Fonte: http://www.dicionarioinformal.com.br/gagau/ - acesso em 02/08/2013, 18:58h)
[3] - Informantes, ambos de Santa Cruz de Minas, Córrego,1997: a primeira quadra, Elvira Andrade de Salles, as demais, Maria Aparecida de Salles.
[4] - Variante: “Com pena peguei na pena, / com pena te escrevi; / sem pena, tu me esqueceste, / com pena, não te esqueci.” (Inf.: Maria Aparecida de Salles, agosto /2013, Santa Cruz de Minas).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O que é, o que é? Adivinhe se puder!

Adivinhações & Enigmas

O universo do folclore se descortina abrangente no horizonte da cultura. Existem muitas expressões culturais que nem sequer imaginamos, à primeira vista, que façam parte deste contexto das ciências humanas. Porque nós mesmos somos portadores de certos saberes que nos parecem tão simplórios, comuns, que não sugerem necessidade de abordagem especial.

Ledo engano. Tudo no folclore é importante. Uns folcloristas se especializam numa certa área, focam um tema em especial e, por vezes, algumas áreas ficam mais privilegiadas em volume de estudos. Brincadeiras de nossa infância passam-nos despercebidas na fase adulta, o que é o mesmo que matar a criança que há em nós.

No campo da literatura popular e da folk-comunicação se encontram muitas manifestações típicas do saber humano nessas condições supra. Este Blog nas próximas postagens fará breves revistas nesses temas a começar das adivinhações [1].

Alguns folcloristas tem se debruçado sobre a coleta e o estudo das advinhas. Elas não são exclusivas de nosso país, muito menos da região aqui estudada. Contemplando esta proposição, segue exposta uma curta coletânea de advinhas do Campo das Vertentes, especialmente ouvidas em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, durante a década de 1990, exceto indicação em contrário.

***

É uma casinha de bom parecer,
Não há carpinteiro que saiba fazer...

(Resposta: amendoim em casca. Referência à casca seca com duas metades, que se prende às raízes da planta, dentro da qual ficam os grãos comestíveis.)

Trempe de ferro,
Barriga de pau,
Três crioulinhos
Tocando berimbau...

(Resposta: feijão, cozinhando na trempe. É uma referência às velhas panelas de ferro de fundo arredondado, com três pontas de ferro no fundo, fazendo de “pé” ou suporte. Ficam sempre tisnadas pelo fogo do fogão à lenha).  

Subi em cima de você,
Fazendo meu vai-e-vem;
N’eu subi, o leite desce,
N’eu descê, o gostoso vem...

(Resposta: a colheita do mamão. Quando se tira o fruto do mamoeiro escorre parte da seiva leitosa).

Menina vamos deitar,
Fazer o que Deus mandou;
Um por baixo, outro por cima,
A menina presa ficou.

(Resposta: menina dos olhos. Referência às pálpebras, que cerradas pelo sono escondem a pupila, popularmente chamada “menina dos olhos”).

Preto por fora,
Amarelo por dentro.
Tacho é, tacho é...

(Resposta: tacho de cobre. A resposta vem no próprio enunciado, curiosamente armado para causar confusão. O tacho, usado na produção caseira de doces, tem pelo lado interno a viva cor deste metal e pelo exterior o escuro do uso no fogão à lenha.)

Sou branco por nascença,
Preto por natureza,
A morte me faz alegria,
A vida me traz tristeza.

(Resposta: urubu. Esta ave necrófaga, da família cathartidae, Coragyps atratus, ainda ninhego, tem as penas brancas. Só na fase juvenil passa por muda, surgindo a plumagem preta).

A mãe é verde,
A filha encarnada;
A mãe é mansa,
A filha danada.
(Resposta: pimenta e pimenteira)

Um sobrado,
com duas janelas,
Que abre e fecha
Sem ninguém tocar nelas.
(Resposta: olho.)

Verde nasci,
De luto me cobri,
Para dar gosto ao mundo,
Para os ares me sumi.
(Resposta: tabaco)

Nasci no meio dos espinhos,
Nos espinhos fui criado.
Eu trouxe o nome de Ana,
Por Ana fui batizado.
(Resposta: ananás)

Meu estado é verde,
Visto-me de luto para morrer arrebentada...
(Resposta: jabuticaba)

O que é, o que é:
Que entra duro e sai mole pingando?
(Resposta: macarrão cozinhando)
O que é, o que é:
Que cai em pé e corre deitado?
(Resposta: chuva)

Qual é o céu que não tem estrelas?
(Resposta: palato, “céu da boca”)

O que é, o que é:
Que tem bico e não belisca,
Tem asa mas não avoa?
(Resposta: Bule)

Xará no nome,
Não no parecer;
Um canta dentro do outro,
O quê que pode ser? [2]

(Resposta: capoeira. A palavra capoeira tem aqui duplo significado: porção de mato no meio do campo ou cerrado, com árvores altas; pequena mata ou capão. Outro significado: nome de uma ave galiforme, odontoforídea, Odontophorus capueira, também conhecido por uru. A ave chamada capoeira canta dentro da mata chamada capoeira.)

As advinhas do tabaco e da pimenteira foram registradas há  muitos anos no Ceará por Leonardo Mota em variantes praticamente idênticas às apresentadas no presente texto [3]Algumas usam as palavras com um sentido duplo, que induz ao pensamento de uma resposta chula, de conotação erótica, como as adivinhações da menina dos olhos, do macarrão e do mamoeiro. Outras tem uma conformação tipicamente rural, cuja linguagem fica com a compreensão limitada aos que não são afeitos ao palavreado da roça. A este exemplo estão as adivinhas da capoeira e da panela de feijão.

Câmara Cascudo revela de forma magistral e de leitura indispensável a universalidade das adivinhas, denotando interpretações e processo classificatório. Ensinou: “as fórmulas são rápidas, na maioria susceptíveis de metrificação para facilitar a assimilação mnemônica” [4].

Nos exemplos acima nota-se formulações muito simples, de frase única, como uma mera pergunta (“Qual o céu que não tem estrelas?”). Em São João del-Rei, nos anos 70 e 80 do século passado, havia esta adivinha: “Qual a diferença entre o bule e o padre?”. A resposta típica é curiosamente versejada: “O bule é de por café; o padre é de muita fé”. O enunciado sob o sotaque mineiro soa como "pô café". No ritmo do enunciado parece que se diz "pouca fé"... Portanto, uma adivinha bem humorada. Existem várias adivinhações no padrão de simples perguntas constituindo um passatempo brincar com elas.

Certas adivinhações assumem a forma de enigmas, distantes da fórmula típica do “o que é, o que é”. Os enigmas são adivinhações mais intrincadas, que não fazem necessariamente perguntas. São enunciados aparentemente sem nexo:

Quatro pés, em cima de quatro pés, esperando quatro pés.
Quatro pés não veio, quatro pés foi embora, quatro pés ficou.”

(Resposta: um gato sobre uma mesa esperando a passagem de um rato. O rato não veio, o gato foi embora, a mesa ficou.)

Eu vi um morto,
Carregando um vivo...

(Resposta: um cadáver descendo o rio boiando e o urubu em cima por causa da carniça.)
 
Passei na porteira: bá!
Toco minha galinha: xi!
Chamo meu cachorro: cá!
(Resposta: abacaxi)

Galinha no choco...
Cachorro late...
(Resposta: chocolate)

Um morreu,
Outro, está entre nós;
O terceiro, ainda vai nascer.

(Resposta: passado, presente e futuro)

            O gosto pelas advinhas se configura em outros formatos a exemplo dos jongos de roça ou jombas de roça, assim chamados certos cantos de trabalho de turmas de capinadores, que cantam em sistema de pergunta e resposta enquanto trabalham. Aqui em São João del-Rei o finado “Chico Cumbuca” saía com esta jomba:

O quê que nasceu suruco,
No alto do chapadão?

(Resposta: inhambu, ave tinamídea. Suruco (a): diz-se do animal sem cauda ou de rabo curto)

            Neste caso a adivinhação não é típica, porque se faz cantada em vez de enunciada. Mas o espírito de entretenimento e desafio é o mesmo. Um jongueiro de Santa Rita do Ibitipoca, “seu Júlio”, cantou-me um velho ponto de capina:

Olha o sapo de cangalha,
O mantimento, de quem é?

O outro trabalhador da turma respondeu ao desafio com este canto, emendando de imediato:

É da Fazenda do Rufino,
É do tenente-coroné!” [5]

Estas fórmulas se infiltraram de forma adaptada nos calangos como desafios de perguntas e respostas aos desafiantes; assim também nas chulas dos palhaços de folias de Reis, desafiando outros palhaços nos encontros de duas folias ou apenas brincando com o público da assistência. São extensões do processo de adivinhação, além das formas típicas.

       Assim, enigmáticas são as adivinhações. Linguagem cifrada, estimuladora do raciocínio, diversão simples das horas de vacância, de guris e adultos. Cultura popular genuína, antiguíssima, cosmopolita, mencionada desde a esfinge egípcia.

       E para encerrar, deixo esta para os leitores e leitoras decifrarem:

Vinte e cinco boi parado,
Vinte e cinco boi andando,
ganhando quinhentos réis,
quantos contos dá no ano? [6]


 Créditos

Texto: Ulisses Passarelli.
Informantes: Júlio Prudente de Oliveira, Aloísio dos Santos, Maria de Carvalho Santos, Elvira Andrade de Salles, Maria Aparecida de Salles, José Cândido de Salles, Francisco de Assis Cipriano.

Notas


[1] Para maiores referências às adivinhações, ler: 
OLIVEIRA, Sebastião Almeida. Cem Adivinhas Populares. In: Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Departamento de Cultura, 1940. n.66, p.59-76.
[2] Luís da Câmara Cascudo, no seu livro Folclore do Brasil (p.96) registrou a seguinte advinha tradicional, que se desenvolve de forma mais elaborada que a do capoeira, contudo, no mesmo padrão: 

"Somos iguais no nome,
desiguais no parecer;
meu irmão não vai à missa,
eu não a posso perder.
Entre bailes e partidas
todos lá me encontrarão,
nos trabalhos da cozinha
isto é lá com meu irmão."
(Resposta: o vinho e o vinagre)

[2] MOTA, Leonardo Ferreira da Mota. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearence. 3.ed. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1961. 302p. p.273.
[3] CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.il. Verbete: adivinhas.
[4] Com procedência de Bias Fortes/MG, colhi como peça solta do cancioneiro, em variante: “Olha o sapo de cangalha / mantimento de  quem é? / É do homem da beirada / que não cuida da mulhé.”
[5] Contos: contos de réis, antiga designação monetária.