Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 13 de maio de 2016

Salve! Salve! Salve o Treze de Maio...

As duas breves notícias que se seguem foram extraídas de antigos jornais de São João del-Rei [1] revelam uma esquecida parcela das antigas comemorações da data da libertação dos cativos, o fim oficial da escravidão no Brasil. Ainda traz em si a curiosidade da segunda notícia, um réquiem pelo velho monarca, em pleno regime republicano!

13 de maio. Corre, amanhã, mais um aniversario da Lei aurea, que extiguiu a escravidão no Brasil. Segundo disposição municipal, de 19 de Setembro de 1906, o commercio deve, ao meio dia, cerrar suas portas, em comemoração ao grande acontecimento. (O Repórter, 1907-A) 

No dia 13 do passado mez de maio, no visinho arraial do Rio das Mortes, por iniciativa do liberto Antonio Francisco Tavares, foi festejada de maneira condigna a gloriosa data nacional da libertação dos captivos. Houve missa em acção de graças pelo auspicioso anniversario e por intensão de Izabel, a Redemptora, Terço e Te-Deum, não tendo sido esquecido o velho monarca, que teve requiem por seu descanso eterno. Não é tarde para darmos noticia deste facto que tanto ennobrece os sentimentos dos libertos do Rio das Mortes. Convem salientar que desde muitos annos, é a data ali festejada com suas mesmas festas que estamos agora noticiando. (O Repórter, 1907-B) 

A data ultimamente não tem uma forma festiva propriamente dita, nem a nível cultural tampouco cívico.  A bem da verdade, as tristezas e infortúnios da escravidão são alvo de profundas críticas e análises sobre o estado de desamparo total a que o negro ficou submetido após a abolição. Não obstante este aspecto a data é sempre lembrada espontaneamente nas cantorias congadeiras. Em muitos terreiros de umbanda o dia 13 de maio é o escolhido anualmente para as Festas dos Pretos Velhos, data muito significativa para essa religião. 

Neste ensejo compartilhamos um link ao final da postagem, que nos remete a um conto da escravidão, que como tantos outros é o reflexo das influências culturais afro-descendentes legadas à formação da cultura popular brasileira [2].

"No dia 13 de maio,
assembleia trabalhou;
negro velho era cativo
e a princesa libertou!"
(canto de moçambique, parte do "Lamento do Negro",
muito difundido entre várias guardas)

Grilhões abertos. Elemento decorativo e simbólico da portada da
Igreja de Nossa Senhora das Mercês, São João del-Rei/MG. A confraria
mercedária tinha originalmente ligação com alforria de escravizados. 17/09/2014. 

Recitativo do Moçambique "Nossa Senhora Aparecida" junto 
ao andor de Nossa Senhora da Lapa, no altar-mor do Santuário do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei, 
durante a Festa do Divino. Canto: 

"Bate a gunga, negro!  BIS
Capitão foi quem mandou...

Nos pés de Nossa Senhora, 
é lá que no negro chora,
é lá que o negro implora,  BIS
cantando em seu louvor!"
(Capitão Luís Maurício, Passa Tempo/MG)

Referências

O Repórter, n.14, 12 maio1907. São João del-Rei. (A)

O Repórter, n.19, 13 jun.1907. São João del-Rei. (B)

Créditos

- Texto, fotografia e vídeo: Ulisses Passarelli. 

Notas

[1] Fonte: acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 


- Revisão e melhoramentos: 22/09/2026.

Marungo da folia de Santo Antônio do Amparo


Palhaço (marungo ou bastião) de folia de Reis, de Santo Antônio do Amparo/MG,
aproveitando o ritmo de calango, se exibe para a assistência no
17º Encontro de Folias de Capelinha, em Mercês de Água Limpa
(São Tiago/MG), 31/01/2016. 

Créditos

- Fotografia, texto, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 06/06/2025. 

domingo, 8 de maio de 2016

Folia da cidade de São Tiago

Folia de Reis "São Sebastião", da cidade de São Tiago/MG,
em participação na Festa de Sebastião na Restinga de Baixo
(Ritápolis/MG), 24/01/2016.
Assista a cenas desta folia clicando no link de vídeo abaixo:  


Notas e Créditos

* Texto, fotografia e vídeo: Ulisses Passarelli
** Veja mais detalhes deste evento lendo a postagem:

 A FESTA DE SÃO SEBASTIÃO NA RESTINGA

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Santa Cruz de Minas resgata a Festa da Santa Cruz

Ofereço com encômios a Betânia Nascimento Resende,
que não mediu esforços para o êxito deste evento




O município de Santa Cruz de Minas é um destaque no Campo das Vertentes na produção de artesanato e móveis, verdadeiro polo produtivo neste setor. A Festa de São Sebastião é tradicionalíssima e congrega em janeiro um grande número de fiéis daquela urbe, além de muitos visitantes. Na imponente Serra de São José, de inestimável patrimônio natural, existem cachoeiras e notáveis vestígios históricos dos primeiros tempos da mineração aurífera. 

Neste último dia 03 de maio, em Santa Cruz de Minas, exatamente na Praça do Cruzeiro, centro da cidade, aconteceu numa noite fria o resgate da tradicional Festa da Santa Cruz, há muito perdida no rastro do tempo. 

O grande cruzeiro estava iluminado e enfeitado com esmero e longas faixas de tecido desciam de seu alto até o gradil de cercamento. Diante dele, atrás e ao redor, muita gente em espírito familiar estava unida em preces comunitárias. Cristo já dissera: "Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles." (Mt 18, 20) O recitativo do terço corria com grande concorrência de fiéis. Logo após houve uma missa campal, pelo Pároco Padre Pedro Wiermann, com a participação de afinado coral. 

Concluída a celebração, a guarda de moçambique da cidade de São João del-Rei, Bairro São Geraldo, apresentou-se no largo, cantando em redor do cruzeiro seus louvores em toques de jomba e carijó, sob o comando dos Capitães Tadeu Nascimento de Sousa, Jailton Antônio Braga e Danilo Francisco de Assis, este último de Santa Cruz, mas que participa e ajuda na mencionada guarda. 

Na sequência tocou a banda de música de Santa Cruz de Minas, sob o título de São Sebastião, padroeiro daquele município. Sua formação congrega crianças e adolescentes num importante trabalho cultural com a juventude. 

Enquanto a banda e o moçambique tocavam, servia-se à vontade café com quitandas, que impressionaram pela fartura e qualidade. Isto foi possível porque atrás do cruzeiro foi armada uma grande mesa. Finalizando, os congadeiros do moçambique (moçambiqueiros) deram sua despedida num giro por dentro do gradil do cruzeiro. 

Em tudo e por tudo, o que se viu e ouviu foram elogios e louvores. Criteriosamente preparado e contando com boa divulgação e realização pela municipalidade, o resgate se revestiu de um sentido notavelmente simbólico pelo próprio nome do município e em verdade é um festejo natural, típico do povo do lugar, que a correria da vida moderna fizera arrefecer e ora os esforços o soerguem. 

O cuidado nos pequenos detalhes revelou criterioso planejamento prévio, envolvimento da comunidade e respeitoso trabalho com elementos da cultura popular. Nem sequer foi esquecido de dar grande destaque às tradicionais cruzinhas de fachada, primorosamente adornadas com papel-crepon de várias cores, postas numa mesa adrede para a devida distribuição. Logo se denotava que tal feito só se concretizou por se tratar de trabalho de equipe, sob a idealização do Conselho Municipal de Política Cultural e Patrimônio e apoio de diversos parceiros de peso que tornaram possível a concretização, que, indubitavelmente, deixou em geral o desejo de continuidade. Que assim seja, amém!  

Convite oficial do evento.
Fonte: Prefeitura Municipal de Santa Cruz de Minas.

Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. Evangelho de Mateus. São Paulo: Ave Maria, 1965. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 04/05/2025. 

domingo, 1 de maio de 2016

Congo do Rio das Mortes: festa de 2014

"Congada Nossa Senhora do Rosário" _ guarda de congo do distrito
 de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG), Terra da Beata Nhá Chica,
durante a Festa do Rosário naquela vila, a 19/10/2014.
Assista ao vídeo produzido a partir de cenas captadas na mesma ocasião 
clicando no link abaixo. 



Notas e Créditos

* Fotografia, vídeo e edição: Iago C.S. Passarelli
** Texto e acervo: Ulisses Passarelli

sábado, 30 de abril de 2016

Caquende: cenas do encontro cultural

Esta postagem é a continuação da anterior, dedicada ao IX Encontro da Cultura Popular do Caquende (São João del-Rei/MG). Ora apresentamos uma seleção de fotografias que ilustram parcialmente a riqueza deste evento de celebração da fartura, da cultura de raiz, da força comunitária de união, da alegria e da fé. 

Nestas imagens avulsas e aleatórias se revela um fragmento da imensa cultura popular dos Campos das Vertentes, que ainda viceja nas cidades e distritos, bairros e roças. Louvado seja!

É mister registrar um voto de gratidão ao autor das fotografias que gentilmente as cedeu para composição desta postagem, Daniel Willian Dias Nascimento. 

Junta de bois.

Largo em festa: sá rainha, carro de bois, dançantes...

Chegada do moçambique de Ibituruna, tocando a jomba.
A sombra das árvores guarnece a assistência. 

Moçambique de São João del-Rei, Bairro São Geraldo. 

Congo de Carrancas.

Catupé de São João del-Rei (à direita) e Congo de Carrancas (ao fundo). 

Moçambique de Ibituruna.

Folia do Mestre João Matias canta sob a tenda. 

Cuidando do fogo no fogão improvisado, para garantir café a todos.

João do Mato na entrada da roça. 

Aspecto da colheita.

Após a colheita, os trabalhadores rurais fazem uma pausa para comes e bebes.

Broa na peneira para distribuir ao povo. 

Aspecto da distribuição alimentícia. 

Transporte festivo do milho colhido. 

Sob a tenda dançam o engenho novo (esquerda) assistidos pela folia das mulheres (direita),
congadeiros e povo em geral. 

Cortejo de congados e folias pelo largo.

Cena parcial da chegada do cortejo, vendo-se ao centro
alguns componentes do Pilão de Nhá.

A comunidade deixa água à disposição do povo.

Balsa entre o Caquende (São João del-Rei) e Capela do Saco (Carrancas)
atravessando a Represa de Camargos.

Notas e Créditos

 * Texto e legendas: Ulisses Passarelli.
** Fotografias: Daniel William Dias Nascimento, 24/04/2016, a quem agradecemos pela cessão das mesmas.

terça-feira, 26 de abril de 2016

IX Encontro da Cultura Popular do Caquende

Pequena crônica descritiva

Conclui-se no último domingo, dia 24 de abril, o 9º Encontro da Cultura Popular do Caquende, no extremo sudoeste da zona rural de São João del-Rei, às margens da represa de Camargos, no Rio Grande. Mais uma vez revelou ser um evento bem organizado e concorrido, graças à imensurável dedicação da equipe organizadora [1]. 

A movimentação começou em verdade na quarta-feira, dia 20, com contação de estórias e abertura de exposição. No dia seguinte, foi a vez das lúdicas infantis, cordel de poesias em homenagem a Casimiro de Abreu, terço cantado e, mais tarde, cantorias...

Sexta, 22, pela manhã, o autor deste blog teve oportunidade de estar reunido com a comunidade em palestra e diálogo sobre a inserção da cultura popular na sociedade moderna, os processos de construção e desconstrução da mesma e, sobretudo, de seus valores rurais. A fala transcorreu no salão comunitário, onde acontecia, como em anos anteriores, uma exposição de fotografias recentes e antigas de momentos importantes da vida social do lugar; peças antigas do mundo rural, como máquinas de costura, lamparina, ferramentas, mó (pedra de moinho), vasilhames, etc. Também exposto uma imensa série de troféus esportivos conquistados pela equipe de futebol do lugar. Além disto, significativo artesanato à venda, tudo produção local. 

Sábado teve mais palestra, teatro, encontro de corais e forró.

No dia maior, pelas oito da manhã, o povo reunido na praça sob uma grande tenda, enfeitada com elementos que evocam coisas da roça, como palhadas de milho, pilão, espantalho, jacá (balaio), carro de boi, etc., sediou o "Café com a Padroeira", antecedido de fala do Curador do Evento, Sr. Vicente Mário dos Santos, que culminou com uma prece coletiva, a oração que o Senhor nos ensinou, e por fim, graças a um fogão à lenha armado adrede, serviu-se a todos, gratuitamente, farto café, com quitandas típicas de forno, mandioca e inhame cozido, melado, leite acondicionado em "ciculatêra" [2], café em bule esmaltado e chaleira de ferro; canecos da roça, tudo, absolutamente tudo, em seus mínimos detalhes reproduzindo a moda do campo, os hábitos da roça, os costumes da lavoura, como era antigamente. 

A medida que ia acabando uma rosquinha de nata, uma broa de fubá, logo aparecia uma pessoa com uma gamela cheia e reabastecia; outra renovava o conteúdo dos bules e chaleiras; outras mais cuidavam da higiene de copos e canecos, tudo com muito zelo e prontidão, ficando evidente o dedicado trabalho de equipe e a solidariedade, coisa cada vez mais rara. 

Enquanto isto, daqui e dali a criançada brincava livremente pelo largo gramado, em absoluta tranquilidade como convém a um povoado. O carreiro chegou trazendo uma junta magnífica de bois pretos, já atrelados à canga, para prender ao carro. Chegou uma folia. Depois um congado. E mais outro. O movimento cresceu. Sob a sombra das grandes árvores, numa mesinha, uma turma disputava no baralho uma partida de truco. Na barraca o freguês saboreava uma porção de dobradinha ou de canjiquinha, e achava uma da boa, branquinha, cachaça. Encontros, reencontros, amigos, compadres, congadeiros, foliões. Por toda parte o povo conversava, sorria, estava descontraído e ao mesmo tempo indignado, porque a capela não foi aberta à visitação como antes ocorria. Infelizmente nem sempre se pode contar com a sensibilidade da Igreja, que ao dar as costas para um evento desta natureza perde a oportunidade de estar junto aos fiéis, povo de Deus. Lastimável retrocesso!

Pelo fim da manhã, apareceram os trabalhadores rurais, homens de lavoura, para a colheita do milho. Vieram vestidos à caráter, de botinas, chapéus, facão à cintura e roupa da lida. Nos fundos da praça um cercado delimitava um milharal arranjado especialmente para o evento. Abriu-se a tronqueira. Um boneco na entrada fez as vezes do joão do mato. Rezou-se para São Bento livrar "dos bicho mau peçonhento". Entraram e se puseram a quebrar as espigas e a colheita foi ajuntada num jacá de trançado de taquara. O povo em volta via tudo, adorava, filmava, fotografava. Congadeiros e folieiros também rodearam. Daí, chegaram as senhoras da comunidade trazendo uma peneira trançada (urupema) dessas de colheita, cheias de pedaços de bolo de fubá e oferecem aos trabalhadores da colheita; outra trouxe o bule de café quente e canecos esmaltados para servi-lo. Já chegava alguém com uma garrafa de pinga e tomava um gole, motivo de alegria. Por fim veio a Lia com um caldeirão e colher de pau. Era angu doce que trouxe, delícia de fubá cozido, cheio de pedaços de queijo. Para servir, arrancavam palhas de milho e fazendo-as de tigelas comiam à vontade. Teve cantoria também, de ronda de roça, canto de mutirão, tradicional. O carro de bois entrou na roça: "vai, Gigante!", gritou o carreiro com um boi, brandindo sem fincar a vara de ferrão. O jacá de milho colhido foi despejado em cima do carro. Um trabalhador tomou de uma palha, picou fumo de rolo, enrolou um cigarro e deu uma baforada. 

O carro saiu pra'li afora, gemendo e os trabalhadores em cima, e em desfile foram à tenda, onde o milho foi descarregado. Um deles veio com um pé de milho, grande e seco. É a "bandeira". Entregar a bandeira ao dono da roça é entregar um ramo em sinal de fim dos trabalhos, sucesso na colheita. Poderia ser também um pé de cana. 

É preciso comemorar a colheita. Deus deu a terra, a água e a semente. A colheita é fruto desta graça com o suor do trabalho. Agradecimento que se preze é com cantoria e dança - é a vez do engenho novo! [3]

Em torno do pé de milho da bandeira, se entrelaçam pelos braços homens e mulheres, em roda, homens virados para fora do círculo de dançantes, mulheres para dentro. Quando a música irrompe, balanceiam no ritmo e como numa corrente, ao comando verbal, "vai!", soltam os braços e entrelaçam de novo, agora invertido, quem estava virado para fora fica voltado para dentro, e vice versa. 

"Meu engenho novo, morena!
Deixa muê!

Meu engenho novo, morena!
É da Tutuca!
Bota a cana nele, morena!
Faz o açúcar..."

Depois foi o almoço. Os grupos culturais o receberam de bom agrado; abundante, bem temperado, saboroso! 

De tarde foi a vez do cortejo, de todos os grupos rodeando a praça e depois a hora das apresentações individuais na tenda, anunciando-se previamente ao microfone. Ei-los, na ordem da apresentação: "Congada Nossa Senhora do Rosário", de Carrancas, do Capitão José Geraldo Barbosa (congo); "Moçambique Nossa Senhora do Rosário", de Ibituruna, Capitão Adeildo Alves (jomba); Folia do Divino do Bairro Guarda-mor, São João del-Rei, do Mestre-folião João Batista do Nascimento ("João Matias"); Grupo Pilão de Nhá, do Caquende, sob a Coordenação de Maria de Sousa (Lia); "Congado São Benedito e São Sebastião", do Bairro Matosinhos, São João del-Rei (catupé); "Moçambique Santa Efigênia", de São João del-Rei, Bairro São Geraldo, Capitão Tadeu; Folia do Jardim São José, Bairro Tijuco, São João del-Rei, Mestra-foliã Lilia; "Coral de Seresta Viva Voz", do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier, São João del-Rei, sob a coordenação do Professor Paulo Miranda (com repertório todo pautado em temas da cultura popular); Banda de Música de Nazareno. 

Tudo que acontece neste evento é prestigiado. Ninguém arreda o pé. O povo fica contagiado pela beleza da festa, enebriado de saudosismo, lembrando que era assim na época do papai ou quando se era criança. Daqui e dali se ouve muita palavra de elogio, que não pode deixar acabar, que merece mais apoio, etc. O encontro parece um reflexo de nosso passado perdido. A correria da vida moderna remete a uma introspecção ao ver este evento... Para quê correr tanto? Por que tanta loucura atrás do dinheiro? A vida na roça não traz mais paz e qualidade? Parece que é uma festa feita para mexer com a emoção das pessoas. Sem dúvidas é um momento importantíssimo de valorização da cultura popular rural. Ali se revê dentro de uma estrutura festiva criteriosa e digna de encômios os elementos em ocaso desse universo interiorano mineiro. 

A toda equipe organizadora é devido o mais sincero parabéns e o reconhecimento do êxito alcançado. Esperamos que no ano vindouro, quando se comemorará a décima edição do evento, que o mesmo seja repleto de sucesso e revestido de grande animação. 

Cartaz do evento em papel couché, 29 x 41,5 cm. 

Créditos

-Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Leia também neste blog sobre o VII Encontro da Cultura Popular do Caquende, no qual se pode apreciar algumas fotografias da ocasião (maio/2014): CAQUENDE HOMENAGEIA O LAVRADOR

[2] Ciculatera ou chiculatera são corruptelas frequentes de "chocolateira", vasilha de alumínio de fundo largo e circular e boca estreita e afunilada, munida de alça, usada nos fogões à lenha. O mesmo que "sapona" e "maxambombe". 

[3] A dança do Engenho Novo, também chamada em alguns lugares de Guarapá, foi registrada pelo escritor paulista Valdomiro Silveira (1873-1941), cuja obra, publicada em São Paulo, captava a vida do homem no interior brasileiro e continha importantes informações sobre o folclore: Os Caboclos, 1920; Nas serras e nas furnas, 1931; Mixuangos, 1937. Sua descrição do Engenho Novo é bastante semelhante à observada no Caquende, no que diz respeito à movimentação coreográfica. Uma das estrofes cantadas dizia: "Engenho novo, menina, / 'tá de tremer... / Bota a cana nele, menina, / deixa moer..." (in: CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 3.ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1965. v.2, 355p. p.162-165.). 

- Agradecimentos especiais: a Daniel Willian Dias Nascimento, por cuja gentileza e apoio para participar deste evento, ofereço esta postagem. 

- Revisão: 30/04/2026 e 13/08/2026 (com acréscimo de referência). 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Entendendo a Imagem do Divino

Elementos artísticos e interpretação do sagrado [1]


Em geral as principais representações materiais do Paráclito são em forma de pomba e de língua de fogo, inspiração livre nas escrituras bíblicas. Pomba e fogo aparecem artisticamente aplicados sobre uma pintura em estandarte, bandeira, flâmula, quadro, painel, medalhão ou escudo e em especial a pombinha branca aparece esculpida ou moldada sob a forma de imagem. É tal como o vemos no retábulo ou no forro de várias capelas e igrejas e ainda, na arte popular, figurando airosa nos estandartes de procissões e nas bandeiras de grupos de folia do Divino e alguns ternos de congado .

Perpassando estes elementos vemos que o artista executor da imagem ou da pintura, nas mais diferentes flâmulas e na imaginária, se vale de alguns artifícios para fixar a simbologia agregada ao Espírito Santo. Muitas vezes é acrescida de elementos simbólicos que reforçam as impressões populares pela adição de efeitos. Na tentativa de um entendimento, os elementos artísticos podem ser contemplados sob a forma de efeitos: 

efeitos luminosos: halo, fachos, raiadas, línguas de fogo, brilho, clarão;
efeitos de santidade: auréola, resplendor;
efeitos de poder: coroa, cetro;
efeito de pacificação e esperança: ramo verde no bico, interpretado como de uma oliveira;
efeitos sacramentais: 1- figuração de água – lembrança do batismo de Cristo no Rio Jordão; 2- pombinha ao centro de uma custódia – representação bastante generalizada;
efeitos de divindade: 1- pintura de nuvens se afastando para aparição da pomba; 2- nuvens em torvelinho ao seu redor, acinzentadas, em cataclismo; 3- céu se abrindo como se tragado de um plano superior donde emana luz, representado em gradação branca-amarela-laranja;
efeito de efusão: vento representado como tracejado paralelo branco-azulado-cinzento, saindo da pomba em direção à Terra;
efeito de movimento: quase sempre a pomba está de asas abertas, voando em graciosa lateralidade ou em fase de descida. Por estar suspensa em voo, confere a ideia de estar acima de nós, de um ser superior.

O lado místico se revela pela própria condição de uma devoção não antropomórfica, ou seja, existe uma dificuldade em confeccionar uma imagem do Divino ou pintá-lo, pois que o Espírito Santo não apareceu sob forma humana; não é como os santos, que foram gente. Daí o artista buscar os artifícios acima enumerados para melhor fixá-lo a partir da abstração natural.

A imagem do Divino Espírito Santo existente no Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, é extremamente significativa como arte religiosa, por sua origem e elementos simbólicos. Ela é do século XIX. Traz a estética de seu tempo, mas ainda que tardiamente, está impregnada pelo barroquismo típico da cultura do Ciclo do Ouro em Minas Gerais. O simbolismo da vivência religiosa do período colonial nas "cidades históricas" reverberou além de sua duração formal. Foi doada pelo Imperador do Divino Tomaz Antônio Gonçalvez. Tem a forma de custódia. Atrás dela existe a seguinte inscrição: “Feita nesta cidade de São João del-Rei, em maio de 1868, por Manoel Pereira Maya, natural de Piracatu, por mandado do Imperador do Espírito Santo Thomaz”. Piracatu, ao que parece, é uma corruptela de Paracatu, cidade do noroeste mineiro. A inscrição foi descoberta numa restauração. Naquela ocasião foram retiradas dezesseis lâmpadas coloridas, com as respectivas boquilhas, que de forma inconsequente se fixara nas raiadas da imagem, descaracterizando-a. O acréscimo de gosto duvidoso fora realizado na segunda metade do século XX. Atrás, sobre a dita inscrição, um terrível emaranhado de fios punha a peça sacra sob o risco de incêndio, por um muito plausível curto-circuito. Considere-se que é feita de madeira. Retomou sua autenticidade.

Nela vemos a pombinha presa à peça principal por um pequeno gancho nas costas, o que a torna pendente de fato, pelo que, em procissão, conforme o balancear do andor, parece mesmo que está voando... Como plano de fundo existe o recorte de um triângulo equilátero, simbologia representativa da Santíssima Trindade, da qual o Espírito Santo é a Terceira Pessoa. Acima dela está esculpida uma coroa e dois cetros cruzados, elementos da realeza simbólica, poder, reinado, império, súditos que são os fiéis do Espírito Santo, o povo de Deus. O fato de serem dois cetros talvez ultrapasse a pura estética da composição: lembremos que se hoje temos apenas o Imperador do Divino, na festa do passado também tínhamos a Imperatriz. É plausível que os dois cetros possam ser alusão ao casal imperial.

1- Bandeira de congado,
Moçambique "Divino Espírito Santo", Piracema/MG
durante do jubileu em Matosinhos, São João del-Rei, 28/05/2012.

2- Medalhão aplicado a um estandarte de procissão.
Acervo da Comissão Organizadora da Festa do Divino, Matosinhos,
São João del-Rei/MG, 28/05/2012.

3- Quadro de mastro fincado diante da Igreja de Santa Teresinha,
Matosinhos, São João del-Rei, durante a Festa do Divino.

4- Imagem do Divino, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
São João del-Rei/MG, 18/05/2013.

5- Bordado representativo do Divino numa antiga dalmática.
Acervo do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
São João del-Rei/MG, 25/03/2012.

6- Bordado representativo do Divino numa antiga dalmática.
Acervo do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
São João del-Rei/MG, 25/03/2012.

7- Pintura do Divino de autoria do artista sacro Osni Paiva, na bandeira da Folia do Divino "Embaixada Santa",
São João del-Rei/MG, 04/04/2012. 


8- Bandeira de Congado.
Marujos "Divino Espírito Santo", Conselheiro Lafaiete/MG,
durante o Festival de Congados daquela cidade. Foto: Ulisses Passarelli, 18/07/1999. 



9- Estandarte conduzido por rainhas de congado,
Caboclos "Divino Espírito Santo", Vespasiano / MG, 
durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei / MG, 03/06/2001. 



10- Bandeira de congado, 
Caboclos "Divino Espírito Santo", Raposos / MG, 
durante Encontro de Congados em Tiradentes / MG, 26/07/2015. 



11- Bandeira da Folia do Divino "Embaixada do Bom Pastor", 
Bairro Bom Pastor, São João del-Rei / MG, sobre a cama de um devoto
durante a visitação do lar promovida pelos folieiros. 06/06/2014. 



12- Bandeira de uma Folia do Divino da década de 1960, já recolhida (grupo extinto), 
então sob a guarda de seu folião, Sr. "Geraldo Teixeira". A folia era situada no povoado do Brumado de Cima, distrito de São Gonçalo do Amarante, São João del-Rei/MG. Março/1999. 


Créditos

Texto e fotografias (5-10, 12): Ulisses Passarelli.
Demais Fotografias: Iago C.S. Passarelli.

                                                                                                 Notas 

[1] - Texto adaptado para este Blog; originalmente publicado no Informativo do Jubileu do Espírito Santo, n.19, maio/2016, São João del-Rei, Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo. 

Revisão e acréscimo de fotografias: 18/04/2025. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Santo Expedito, Santo do Último Pedido!

Esta postagem é dedicada unicamente à exposição do pseudovídeo que se segue, referente à Festa de Santo Expedito, na Igreja de São Gonçalo Garcia, em São João del-Rei/MG, a 19/04/2016. A produção é uma montagem sobre fotografias produzidas no decorrer dessa festividade no ano em foco. Santo Expedito é o santo que o povo acredita ter maior expediente no céu, o que mais imediatamente atende, aquele que expede as graças imploradas pelos fiéis desesperados. Quando nenhum santo consegue intermediar, ele vence o contrário com celeridade, pois dizem que é "O Santo do Último Pedido"...



 Créditos

- Autoria: Ulisses Passarelli

Notas

- Para saber mais sobre este assunto leia neste blog: SANTO EXPEDITO, O SANTO DA HORA!  
- Revisão: 27/07/2025. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Tamborim é que bate raia!

O comando de uma guarda de congado é exercido por um capitão ou capitã [1], assim chamado o (a) congadeiro (a) que exerce a liderança e o controle dos cantos, danças, toques e movimentações. É o solista. Possui dentre os demais elevada experiência e domínio do conhecimento de conteúdo mítico e místico, o que popularmente chamam de "fundamentos" - garantia de conexão com o sagrado intangível. 

Os capitães se distinguem por vezes em detalhes da vestimenta, habitualmente mais elaborada ou enriquecida; outras vezes, por trazer consigo algum objeto específico. Assim, se em algumas guardas de congado tocam um instrumento como, por exemplo, sanfona ou mesmo uma caixa, em muitos, ou mesmo na maioria, para melhor desenvoltura de seu comando e à guisa de distintivo, traz um bastão especial (bengala, manguara...), ou uma espada ou ainda um tamborim, alvo deste texto. 

O tamborim é um pequeno instrumento musical de percussão indireta, de construção artesanal, estrutura em madeira, revestido de couro cru, pregado por meio de pequenos pregos, cravos ou tachas. Através de uma pequena baqueta de pau se faz a percussão. 

Nos municípios da Mesorregião Campo das Vertentes o tamborim é mais frequente nas guardas de catupé. Suas características regionais são as seguintes: o formato é via de regra quadrangular ou retangular; tamanho relativo de pequeno a médio, com couro de um lado só, sendo o outro aberto [2]. De ordinário tem uma alça curta, resistente para se segurar diretamente na mão, não sendo usado a tiracolo nem pendente nos ombros como os tambores (caixas). Em suma é isto, muito embora, eventualmente, vejamos algum capitão munido de um tamborim de confecção industrial, de estrutura metálica circular revestida de membrana de nylon, desses que se usa em bateria de escola de samba e blocos de carnaval, mas não é tão comum. A afinação do tamborim se faz pelo calor, bastando deixá-lo algum tempo exposto ao sol para retesar o couro, ou aproximá-lo do fogo.

No aspecto musical, o papel deste instrumento é marcar o ritmo, chamar os instrumentos à correção da cadência, pontuar momentos específicos da estrutura musical com seu toque cuja tonalidade se sobressai acima de todos. Também marca instantes de mudança rítmica. Por isto mesmo o tamborim não toca de maneira contínua. Boa parte do tempo o capitão apenas o carrega e só bate nas precisões, como dizem. 

"Êh, ti maia!  -   bis
Tamborim é que bate raia!"  -  bis [3]

Esteja claro que é um instrumento privativo do capitão. No desenrolar de uma apresentação cultural ou de uma participação em festa religiosa, somente circula entre os capitães da guarda, ou seja, do primeiro para o segundo capitão, ou para o capitão-meirinho, ou no máximo momentaneamente para a mão de um soldado de destaque, aprendiz de capitão. Não obstante aconteça de confeccionarem pequenos tamborins efetivamente de pequeno efeito musical e o darem para as crianças tocarem, como forma de incentivo à participação e ferramenta de aprendizado; ainda assim, é um instrumento de comando.

Importante notar que o jeito de bater o tamborim é algo muito subjetivo. Não é só percutir. Com ele em mão, dança-se além do ritmo próprio daquele congado, imprimindo com o instrumento, meneios e mesuras muito particulares, como se o objeto transmitisse ao seu portador uma energia específica que lhe incrementa os salamaleques. Ora bate-o no alto, acima da cabeça, ora baixo, rente ao chão; sucessivamente à direita é à esquerda demonstrando movimentos coreográficos que são prontamente entendidos e seguidos, como se fossem parte de um código ou linguagem corporal. Na empolgação, tem capitão que daqui e dali joga o tamborim para o ar e o ampara de novo, a que chamam "serenar o tamborim", algumas vezes girando o corpo com rapidez enquanto o instrumento sobe e desce; se acostam a um tocador novato que está errando os batidos de caixa e bem junto dele bate no tamborim o ritmo certo para que o caixeiro emende; percutem insistentemente na passagem das encruzilhadas e obstáculos (porteiras, valas, cavas, vias férreas, pontes), mesmo que em si a música esteja toda correta ("raiar o tamborim"). 

Deste último uso, se depreende com evidências numerosas, que o instrumento vai além da música aparente e serve de mecanismo de comunicação com o universo sagrado do congadeiro. O tamborim goza de muito respeito e por força do hábito, nem sequer é usual tocar-lhe as mãos, que não seja o capitão, e se o fizer, há de se pedir permissão ao capitão, bem como, licença. É óbvio que se trata de uma firmeza, um elemento preparado para a função em termos de preces e ritos, como cabalmente se afiguram pontos riscados em seu couro (por vezes no verso, longe das vistas dos curiosos), medalhas de santos pendentes, estrelinhas, figas, penduricalhos, fitas de cetim nas cores votivas que lhe amarram; cordões trançados de palha da costa por vezes com búzios, terços de contas de lágrimas presos a ele, cruzinhas de arruda e guiné e outros amuletos. Os pontos riscados nos tamborins habitualmente são abertos, ou seja, sem traçado de círculo ao redor, como geralmente se faz nos terreiros de umbanda. Se nos terreiros o circular o ponto é um procedimento habitual para não deixar a energia se esvair e assim invocar ou manter a entidade em terra, no caso do tamborim aparenta ser o contrário: o não circular esparge a energia por todo o grupo de dançantes.

O tamborim bate saudando o mastro desde o pé até apontar ao alto e dando-se três voltas em seu perímetro. Quando o mastro é arrancado, enquanto alguém se apressa para buscar terra e tampar o buraco onde estava fincado, o capitão o cobre com o tamborim para que ninguém jogue nada de ruim lá dentro _ objeto ou pedido escrito. É o instrumento que pede licença às entidades espirituais para se alcançar forças para seguir em frente. O batido do tamborim afugenta o mal. O toque seco de seu couro estirado tira as forças contrárias do inimigo invisível. Se um objeto suspeito de conter um feitiço está no chão no caminho do congado, o capitão o cobre com o tamborim enquanto canta o contrafeitiço e os dançantes executam uma coreografia de meia-lua. Se bater o tamborim três vezes às três da tarde (15 horas), da Sexta-feira da Paixão, pensando no inimigo renitente, pode tira-lhe a vitalidade. Tamborim caindo ao chão com frequência indica mal augúrio. Parece que tem vida própria, anímica, misteriosa: 

"Eu passei na ponte, 
a ponte tremeu, 
debaixo da ponte,
oi, tamborim gemeu..."

O couro em si goza também de seus cuidados próprios. De bezerro é o mais usado. O de cabrito goza de fama elevada porque acredita-se que confere ao capitão uma força extraordinária contra a qual não se pode trabalhar. Célebre é o tamborim de couro de gato, tanto mais de gato preto, dizem que dá ao capitão agilidade, destreza, esperteza, que não há quem alcance. Para tratar o couro em momentos que o capitão julga adequados, passa sobre ele cachaça (com ou ervas misturadas) ou azeite de dendê, sebo bovino e defumações. Preparar um tamborim no dia treze de maio (data da libertação dos escravizados) rende-lhe de imediato uma benção inextinguível. O mesmo no dia de São Benedito, que estimam como o maior dos capitães:

"Benedito Santo, 
filho de Nossa Senhora:
êh... Capitão Benedito, 
esta é nossa hora!"

"Benedito Santo,
filho da Virgem Maria:
olha lá, Capitão Benedito,
hoje é o nosso dia!"

Assim é o congado, cheio de detalhes em seu universo cultural. Um instrumento rude na aparência mas que conserva em si uma riqueza cultural que extrapola as mais otimistas previsões. Não é apenas um conjunto de homens dançando e cantando coisas ininteligíveis; é um exercício de louvação ao rosário, com todo um harmônico e bem elaborado conjunto de valores e símbolos do mais elevado significado religioso, cultural e social, digno de conhecimento e preservação:

"Se a morte não me matar, tamborim!
Se a terra não comer, tamborim!
Ai, ai, ai, tamborim!
Eu volto aqui pra você ver, tamborim!"

"Se a terra não me comer, tamborim!
Se a morte não me matar, tamborim!
Ai, ai, ai, tamborim!
Eu aqui torno voltar, tamborim!"

Capitão Zé Carreiro, de Coronel Xavier Chaves, maneja o tamborim
junto a um mastro, com toda experiência de décadas de dedicação. 1995. 

Catupé de Piracema em coreografia dos tocadores de ganzá,
sob o comando do capitão com o tamborim, em movimentos de lateralidade. 01/11/1998. 

Capitão Sebastião Ezequiel na dianteira do congado da
Restinga de Baixo (Ritápolis), batendo o tamborim inseparável. 04/06/2006.
   

Capitão Ernane Luís da Silva com o tamborim
à frente do congado da Restinga de Baixo (Ritápolis). 2000.
 
Tamborins: Coronel Xavier Chaves (esquerda) e Restinga de Baixo (direita). 24/09/2000.
Tamborim: desenho de Ulisses Passarelli a partir do original, observado em janeiro/1996.
Restinga de Baixo (Ritápolis/MG). 

Créditos


- Texto, fotografias e desenho: Ulisses Passarelli.  

- Cantos: congados de São João del-Rei, década de 1990, muito embora sejam cantos bastante difundidos e de uso ainda hoje em vários congados regionais, admitindo variações nos versos. 

Notas 
Revisão: 22/10/2025. 

[1] Capitã: entre os congadeiros também corre o sinônimo Capitua, o qual muitos consideram como a forma correta. 

[2] Em alguns congados do centro-oeste mineiro aparecem tamborins retangulares relativamente grandes, às vezes, com couro nas duas faces. Também usam tamborins de forma sextavada. 

[3] Variante do cancioneiro popular: "Maia, Lourenço, maia! / Lourenço, que bate raia!"  ou "Maia, ferreiro, maia! / Ferreiro, que bate raia!" (Jongo, Quilombo do Paiol - Bias Fortes/MG). Informante: Elvira Andrade de Salles, natural daquele município, mas então residente em Santa Cruz de Minas. Maia: corruptela de malha, 2ª pessoa do presente do verbo malhar (bater com o malho; martelar; em sentido figurativo, percutir, bater). Raiar o tamborim é batê-lo de forma rápida e persistente, chamando a atenção para o ritmo e evocando a força espiritual da qual se acredita estar revestido.