As duas breves notícias que se seguem foram extraídas de antigos jornais de São João del-Rei [1] revelam uma esquecida parcela das antigas comemorações da data da libertação dos cativos, o fim oficial da escravidão no Brasil. Ainda traz em si a curiosidade da segunda notícia, um réquiem pelo velho monarca, em pleno regime republicano!
13 de maio. Corre, amanhã, mais um aniversario da Lei aurea, que extiguiu a escravidão no Brasil. Segundo disposição municipal, de 19 de Setembro de 1906, o commercio deve, ao meio dia, cerrar suas portas, em comemoração ao grande acontecimento. (O Repórter, 1907-A)
No dia 13 do passado mez de maio, no visinho arraial do Rio das Mortes, por iniciativa do liberto Antonio Francisco Tavares, foi festejada de maneira condigna a gloriosa data nacional da libertação dos captivos. Houve missa em acção de graças pelo auspicioso anniversario e por intensão de Izabel, a Redemptora, Terço e Te-Deum, não tendo sido esquecido o velho monarca, que teve requiem por seu descanso eterno. Não é tarde para darmos noticia deste facto que tanto ennobrece os sentimentos dos libertos do Rio das Mortes. Convem salientar que desde muitos annos, é a data ali festejada com suas mesmas festas que estamos agora noticiando. (O Repórter, 1907-B)
A data ultimamente não tem uma forma festiva propriamente dita, nem a nível cultural tampouco cívico. A bem da verdade, as tristezas e infortúnios da escravidão são alvo de profundas críticas e análises sobre o estado de desamparo total a que o negro ficou submetido após a abolição. Não obstante este aspecto a data é sempre lembrada espontaneamente nas cantorias congadeiras. Em muitos terreiros de umbanda o dia 13 de maio é o escolhido anualmente para as Festas dos Pretos Velhos, data muito significativa para essa religião.
Neste ensejo compartilhamos um link ao final da postagem, que nos remete a um conto da escravidão, que como tantos outros é o reflexo das influências culturais afro-descendentes legadas à formação da cultura popular brasileira [2].
"No dia 13 de maio,
assembleia trabalhou;
negro velho era cativo
e a princesa libertou!"
(canto de moçambique, parte do "Lamento do Negro",
muito difundido entre várias guardas)
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Grilhões abertos. Elemento decorativo e simbólico da portada da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, São João del-Rei/MG. A confraria mercedária tinha originalmente ligação com alforria de escravizados. 17/09/2014. |
Recitativo do Moçambique "Nossa Senhora Aparecida" junto
ao andor de Nossa Senhora da Lapa, no altar-mor do Santuário do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei,
durante a Festa do Divino. Canto:
"Bate a gunga, negro! BIS
Capitão foi quem mandou...
Nos pés de Nossa Senhora,
é lá que no negro chora,
é lá que o negro implora, BIS
cantando em seu louvor!"
(Capitão Luís Maurício, Passa Tempo/MG)
Referências
O Repórter, n.14, 12 maio1907. São João del-Rei. (A)
O Repórter, n.19, 13 jun.1907. São João del-Rei. (B)
Créditos
- Texto, fotografia e vídeo: Ulisses Passarelli.
Notas
[1] Fonte: acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG.
- Revisão e melhoramentos: 22/09/2026.
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