Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 24 de junho de 2013

A Visita

A Visita [1]
Ulisses Passarelli

            Foi numa noite dos tempos de Natal, ou do comecinho de janeiro, com garoa manhosa e intermitente. Na casa de vô Aloísio, eu brincava no chão da sala com meus brinquedos novos. Os adultos se ocupavam de seus assuntos esquisitos.

            De repente o chamado estridente de um apito impôs o toque de vários instrumentos musicais e um grito firme chamou lá fora pelo dono da casa: “ôh...patrão! Olha só quem tá chegando!”

            Na carreira o menino de curioso foi ao portão e estancado pelo medo, se deparou com um monte de homens de chapéus enfeitados de fitas e flores, tocando uma música diferente; adiante uma bandeira colorida e ao seu lado uma figura extravagante, de roupa colorida e folgada no corpo, máscara horrenda, chapéu de cone, porrete à mão, dançando com trejeitos e  sons estranhos: “ pruuuuuuu....” Gargalhava de tanto em tanto.

             Ainda menino, em um instante observei e noutro corri para dentro. Tomado de uma mistura indescritível de pavor e curiosidade, me escondi em um cômodo, de ouvido atento porém, a olhar pelas gretas da velhíssima porta de tábuas.

            Os adultos da casa se agitaram _ “vamos, gente, a folia de Reis chegou! Abre lá...” _ pois o mestre já cantara da rua:

“ Vem abrir a sua porta
E acender a sua luz,
Hoje veio lhe visitar
Os mensageiros de Jesus.”

            O avô tomou a frente, virou a chave no cadeado ferrugento e trouxe atrás o portão de ferro trabalhado de duas bandas. Com uma genuflexão recebeu a bandeira, passou para a vó Maria, que a beijou e ofereceu a cada um dos presentes. Por essas alturas o menino já olhava de esgueio da quina do alpendre. Os visitantes foram convidados a entrar, sempre com toque e cantoria, enquanto o mascarado dançava sem parar (e só ele dançava) _ “ dá licença, nhônhô! Dá licença, iaiá!”_ e foram até a sala.

            Havia um presépio armado, humilde e devoto, com bichinhos ao redor do Menino. “_Ôôô...que beleza! Olha só embaixador que encontramos!” e assim ajoelhou-se e tirou a máscara diante daquela Belém doméstica. Foi aí que o medo foi deixando o menino, seguro do lado humano do Bastião da Folia de Reis.

            O Mestre cantou o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos, verso a verso, respondido pelos companheiros de folia numa voz fininha que ecoava pela sala cheia de lamentosos “ais”, delongando as notas como num eco. A bandeira já estava sobre a cama de casa. Benção para a família.

“Que senhores são aqueles
Que en’vém beirando o mar?
É os três reis do oriente
Que Jesus vão adorar!”

            E pelos versos seguiam as lições morais:

“Bem podia Deus nascer
Num lençol de ouro fino
Para dar exemplo ao mundo
Nasceu pobre e pequenino.”

            Vencida a praxe religiosa, o Bastião ergueu-se, recolocou a máscara e retomou a dança.

            O mestre voltou-se ao povo da casa e pediu em versos a oferta para a caridade. Deram algumas notas e foram agraciados com versos gentis que prometiam a paga celeste, até que, umas moedas em reservado foram entregues na sacolinha do Bandeireiro com a recomendação de serem na intenção de um falecido. Respeitosamente ecoou...

“Essa oferta da saudade
Jesus Cristo anotou,
Uma joia dessa casa
Os anjo pro céu levou...”

            O dono da casa a meia voz chegou-se ao mestre e convidou-o a tomar um café. Completou-se a harmonia das cordas e fole. “_ Viva Santos Reis! _ Viva!” Deixaram os chapéus e instrumentos junto à poltrona. Na cozinha uma breve oração para a benção da mesa. Descontração.  Os já satisfeitos com as quitandas foram lá pro alpendre pitar um cigarrinho de palha e entre baforadas surgiam comentários sobre a afinação da folia ou o jeito de tocar caixa, ou velhas lembranças, embaçadas como a fumaça do pito: “_ É sô, tempo bão era da folia do sô Zé Franguinho, folião de peso. Aquele era entendido nos fundamento!”

            O mestre apitou de volta lá na sala. A música retomou louvando a benesse:

“Lá no céu tem uma estrela
Que ilumina São José
Ela há de iluminar,
Quem nos deu tão bom café”.

            No “devorteio” dos instrumentos (interlúdio diriam os técnicos) o Marungo de máscara peluda gritou pedindo licença, se podia fazer um agrado, quer dizer, um brinquedinho.

_ “Pode sim, xará!”
_“Então lá vai, patrão! Catuca moçada!”

E os instrumentos irromperam a pururuquinha, um ritmo afogueado, que fez com que o Palhaço dançasse sobre o porrete que tinha posto no chão, em passos graciosos e cruzados, sem esbarrar na madeira, muito compassado e habilidoso. Só parou a música quando tirou o bastão do assoalho de tacos e o ergueu como sinal. Ofegante declamou com voz cavernosa:

“ O meu pai era João Caco,
Minha mãe era Caca Maria
Ajuntando caco com caco
Eu sô filho da cacaria...”

            E foi por essa linha afora, narrando palhaçadas de memória e de improviso, provocativo, porém respeitador. Todos se divertiam e até eu gostei, já sem medo, senão mesmo cativado pela novidade. Recebi até balas do embornal do palhaço.

Por fim, o tal pediu o dele:

“ _ ô meu patrãozinho!
_  Que foi Bastião!
_Miserenobe, miserenobe, pelo amor de Deus me dá um cobre...”

            Vovô deu-lhe umas moedas de bom grado. 

“_Deus lhe pague padrinho!”
“_ô sinhá! Ô sinhá! Tô vendo ali de banda um punhado de banana naquele balainho lá do canto, senhora sabe como é que é... Tem lá em casa a minha dona Catirina, esganada que só, a mulecada tá com fome... Coisa e tal, tal coisa...
 _ Você não trabalha pra plantá não, pidão? (mas não era grosseria da vovó não, que faz parte da brincadeira embromar o Bastião e no mais dar algo à folia é crença de fartura que retorna à casa).
_Oh, ah! Inté demais patroa! Vô contá como é que é...

Catirina casô comigo
Que eu sô bom trabalhadô,
Com chuva num vô na roça,
Com sol também num vô...

_ Ah! Num tem jeito com’ cê não... Toma essa penca.
_ Há, há! A criança chora é pra mamá, eu choro é pra ganhá! Deus me pague, Deus me ajude...”

            Cantou o Folião pedindo a bandeira, que a hora era vencida. Outra família esperava a santa embaixada dos mensageiros de Jesus. Lá veio ela do quarto mais de dentro, balanceando nos braços de Maria, cheirosa e agraciada, de cômodo em cômodo, arrastando todos os males, expurgados por palavras inconfessáveis que os lábios de vovó balbuciavam. Eu vi tudo. Gravei tudo na mente.

            Todos beijaram seu pano já desbotado de andanças jornadeiras. Marcas de baton das fiéis maculavam o tecido. Raminhos secos de alecrim e manjericão ainda a perfumavam. Muitos devotos já receberam a bandeira de joelhos ao chão e enxugaram lágrimas em seu pano bento. Sobre a minha cabeça a bandeira foi passada, para dar juízo e boa sina.

            Entre o “muito obrigado” e o “viva” partiu na guia a bandeira em missão, qual a estrela do oriente, servindo de luz aos foliões, que naquele momento eram como uma reencarnação dos magos, a comitiva dos primeiros romeiros da cristandade.

            Saudade partiu; saudade ficou. “Até para o ano, se Deus quiser!”. Fui dormir. Ainda não acordei. Muitos janeiros passaram, mas continuo sonhando com o batido da caixa. É o mesmo compasso do meu coração. 

O dono da casa recebe a bandeira da Folia de Reis ...
É o saudoso sr. Aloísio dos Santos, o Vô Aloísio do texto, avô materno do autor.
Foto: Ulisses Passarelli, 1993. 

*Obs.: 
- esta foto não fazia parte da publicação original. 
- o texto original não transcorre na primeira pessoa: o "eu" era substituído por "Carlinhos", nome fictício. 
- texto escrito em 2010, sobre memórias da década de 1970. 
- revisado em 06/01/2025. 





[1] - Publicado pela Atitude Cultural, impresso como cartilha com ilustrações de Bruno Grossi Begê, com o título de “Folia de Reis e Pastorinhas”, por uma grande gentileza de Alzira Agostini Haddad. Publicado também no site da Atitude Cultural: http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/galleries/view/310   


domingo, 23 de junho de 2013

A reza do velho escravo

Um conto da escravidão

            O escravo idoso vivera muitos anos de intensa labuta naquela fazenda. Humildemente suportou toda espécie de maus tratos e serviços pesados. Agora seu corpo já não permitia semelhante trabalho. Tornou-se então tratador dos cavalos do seu senhor.
            Uma vez no mês arriava a melhor montaria para levar o fazendeiro à missa na capela do arraial. Sempre ia também, mas a pé, andando atrás de seu dono, num andar acelerado para conseguir acompanhar, com muito esforço para superar as dificuldades que a idade e o sofrimento de um corpo judiado já lhe impunham.
            Porém, o escravo nunca entrava na capela. Só o branco podia. Enquanto rezavam sinhôs e sinhás, negro velho dava água ao alazão, afrouxava sua barrigueira para o descanso, escovava seu pelo brilhoso.
            Não obstante a distância com que era tratado e a habitual grosseria, o fazendeiro tinha por aquele escravo em especial uma certa predileção. E uma vez, de retorno d’uma celebração domingueira...

_ Viu só negro, que beleza a reza de branco?
_ Vi não sinhô, que nêgo tava escovando animal.
_ Também você num chega na igreja que lá num é seu lugar. Mas, oh, vô te falá: esses ano tudo você tem sido um escravo bom, num dá trabalho. Muito anos comigo. Vou te dá esse presente: próxima missa vou te permitir entrar na igreja.
_ ô patrão, Deus que pague sua bondade!

            As luas se alternaram. Sóis vieram e se foram. Mês passou.
            O escravo estava ansioso, mas em silêncio como sempre. Afinal como seria que conversavam com Zambi?

_ Nêgo, não esqueci minha promessa que sou homem de palavra. Dá água pro cavalo e vem.
_ Sim, sinhô.

            Fazendeiro ficou soberbo lá nos bancos da frente; escravo, na porta, chapéu esfolado saiu da cabeça e segurado na mão esquerda pendia ao longo do corpo. Encarquilhado pelo tempo ele era uma silhueta sofrida na porta da capelinha. Enquanto o padre engrolava seu latim, o escravo ora olhava o altar ora o chão ora o alto. E vez por outra batia a mão direita no peito, junto ao coração.
            Acabou a missa, caminho de volta poeirento, sol alto, fazendeiro perguntou:

_ Viu que beleza? Num é aquelas cantoria feia de senzala não.
_ Muito bonito sim sinhô. Nêgo gostô. Deus que pague.
_ Mas onde que você tava que num te vi?
_ Lá na porta, nhônhô.
_ Por que não entrou? Não deixei?
_ Porque nêgo ficô sem jeito, né...
_ Como assim?
_ É que num sei rezar como os branco e também porque vassuncê e todos mais tava cum saco nas costa, inté o padre, menorzinho ansim mas tava tamém. Eu olhei pra minhas costas não vi; daí num entrei.
_ Com’é que é? Saco?! Você tá é caducando nêgo, tá muito velho.
_ Verdade patrão, incrusive o do sinhô era dos maió...
_ Arre! Cala a boca. Chega disso. Vamos apertar o passo que sol tá começando a queimar e tô com fome.

            Mas o homem ficou cismado com aquela fala do escravo, estapafúrdia sim, mas parecia sincera.
            No fim da outra missa, o fazendeiro foi na sacristia e narrou o fato ao padre. Ele foi e respondeu:

_ ô meu filho, o seu escravo não está perturbado não, nem zombando. Ele está em estado de graça! Esses sacos que viu em nossas costas são os pecados que estamos carregando! Serve de alerta para nós todos... Pergunta ele, qual reza ele fez porque deve ser muito forte. Temos que aprendê-la. 

            Assim fez.

_ Nêgo, lembra aquele dia que você viu os sacos nas costas dos brancos na missa?
_ Sim, ioiô!
_ O quê que você rezou naquele dia?
_ Nêgo num sabe rezá, né, então oiava lá pra nosso sinhô pregado naquela cruiz grande, batia a mão no peito e falava: sinhô, seu nêgo tá aqui! Sinhô, seu nêgo tá aqui!”

Montagem em memória dos escravos.
Festa do Rosário, Passa Tempo/MG. 21/10/2013.
Notas e Créditos 

*Informante: Aloísio dos Santos, São João del-Rei/MG. Década de 1990. 
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Festas Juninas e os Três Santos

Considerações Gerais sobre as Festas de Inverno

Há um santo para cada dia e um dia para todos os santos. Cada qual com sua particularidade comemorativa, mais ou menos popular, por vezes muito querido numa região e completamente desconhecido noutra área. Mas no Brasil, de uma forma toda especial, três santos festejados em junho se destacam por sua expressão devocional parametrizada pelos padrões dos valores rurais.

Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), São João Batista e São Pedro Apóstolo tornaram-se muito populares de norte a sul, com festas praticamente contíguas e de tão sintonizadas, constituíram um ciclo festivo que chamamos junino

Uma constante nestas festas é o costume de soltar fogos de artifício, alcançando em alguns locais uma prática ostensiva, entre espadas de fogo, rojões, busca-pés, traques, estalinhos, peido-alemão, espanta-coió, bombinhas, etc. No final do século XIX, Manoel Messias do Nascimento Brito obtinha da Câmara Municipal de São João del-Rei licença para instalar uma fábrica de foguetes, conforme anunciava um antigo jornal da cidade (S.JOÃO DEL-REI, 1899). Outro jornal local, igualmente do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, anunciava a venda de fogos de artifício para as festas de junho no comércio desta urbe: “Para os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro grande variedade no BAZAR JAPONEZ. Rua Municipal, 5 – preços especiaes para quantidade.” (A TRIBUNA, 1925).

Tal a sua força cíclica, que os festejos desse período em muitos lugares estenderam-se julho adentro, com aspectos similares, mas com os santos meio de lado, nas já comuns festas julinas. Mas que não crie ilusão esta extensão de datas como sendo coisa recente. Um precioso informante, o senhor Luís Santana (nascido em 1926), natural do povoado do Pombal, em São João del-Rei/MG, narrava que na primeira metade do século XX já havia um período longo de festividades rurais naquele povoado, começando no dia da Santa Cruz, dia 03 de maio (data da primeira fogueira e de erguer os mastros) e ia até o dia de Santana (26 de julho), data da última fogueira e de descer os mastros juninos[1]. Alceu Maynard de Araújo já apontava essa tendência de as festas de Santa Cruz serem praticamente um prenúncio das festas juninas na cultura caipira (ARAÚJO, 1964).

Esses mastros de junho muitas vezes vem enfeitados de frutas, conforme observado em Passos, no sudoeste mineiro (1997), ou de flores do cipó de São João (Pyrostegia venusta, bignoniaceae), como era usado em São João del-Rei e Bias Fortes (1999). No norte do Brasil são enfeitados com ramos, flores, frutos e alimentos. São sinais vestigiais de fitolatria, dizem uns pesquisadores, mas outros apostam apenas no simbolismo da pujança alimentar desses festejos, que acontecem quando no campo, findas as colheitas, a lavoura descansa até o replantio[2].

O cronista inglês Richard Francis Burton, no ano de 1867, passando pelo Caminho Novo na Serra da Mantiqueira, nos arredores de Barbacena, entre esta e Juiz de Fora, notou: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro” (BURTON, 1976).

Ainda o mesmo autor, assim se expressou conforme o linguajar e visão estrangeira de sua época sobre as festas juninas de 1867:

“(...) os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “Mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândolas começam antes do amanhecer. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornam as ruas supinamente desagradáveis, lançando busca-pés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas” (BURTON, 1976).

O devocionário popular enxergou em Santo Antônio o casamenteiro. O taumaturgo lisboeta é festejado a 13 de junho, antecedido por treze dias de rezas preparatórias (trezena). Seu festejo via de regra contém celebrações nas igrejas, procissões, levantamento de mastros, arraiais com fogueiras e brincadeiras, como o pau de sebo e o leitão ensebado, quadrilhas, comes e bebes típicos nas barraquinhas enfeitadas de folhas de coqueiro e pita, soltura de balões, bailes à sanfona. É o santo mais popular do cristianismo e sua oração mais conhecida é o responsório, conhecidíssimo no Brasil e Portugal, com alguns variantes, como esta são-joanense (1998):

Quem milagres quer achar
Aplaca a fúria do mar,
Contra os males e o demônio,
Tira os presos da prisão,
Busque logo a Santo Antônio
Os doentes torna sãos 
Que aí há de encontrar.
E faz achar.

Sem respeitar qualquer anos
Socorre a qualquer idade,
Abone esta verdade
Os cidadãos paduanos.


Uma antiga procissão de Santo Antônio no Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante 
(São João del-Rei/MG). Data e autor não identificados. 
Fotos gentilmente cedidas por João Bosco Alves.

Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 2019,
comunidade rural do Carvoeiro, distrito Sede,
São João del-Rei/MG. Impresso em papel-couché; não medido.  


Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 1992,
distrito de Joaquim Murtinho, Congonhas/MG.
Destaque para o ritual de levantamento dos mastros a partir da casa dos mordomos, com cortejo; 
 comidas típicas, fogueira, quadrilha, presença de banda de música.
Impresso em papel-jornal; medidas: 
21,5 x 31,5cm.


São João Batista [3] vem na mesma linha de festejos, mas a 24 de junho, sendo em muitos lugares a festa mais importante do ciclo junino. Sua noite é tida por mágica, propícia a vários sortilégios. Quase correspondendo ao solstício de inverno do hemisfério sul é dita a noite mais fria do ano, o que nem sempre se concretiza. A água de 23 para 24, antes do raiar deste, é benta nas fontes, rios e córregos[4]. Em garrafas e potes a água é recolhida para fazer remédios o ano todo, para se beber pouco a pouco, para banhar uma ferida ou o corpo todo, banindo males e doenças. Em muitos lugares, noite tardia, é usual a procissão da lavagem do santo, quando a imagem é levada ao rio e banhada ante o canto de benditos e rezas. O carvão ou tição da fogueira joanina é bento, conservado para o ano todo riscar cruzes e estrelas protetivas nas portas, muros e porteiras. Jogado no terreiro durante uma tempestade, amansa a tormenta, previne o raio fulminante. 

Na Colônia do Marçal, em São João del-Rei era corrente esta simpatia para se fazer no dia de São João ou no de São Pedro (coletada em 1999):

“escreva no papel branco os nomes das pessoas que você gosta e depois enrola esses nomes como se estivesse enrolando um cigarro e coloque num copo com água com os papéis dentro. Tampa o copo com a mão e coloca perto do fogo e reze uma salve-rainha, até chegar ao “mostrai”. Depois coloque debaixo de uma folhagem todos os nomes que estão no copo. No outro dia sem falar com ninguém vai até a folhagem e termine a salve-rainha e fala pra São João e São Pedro com quem você vai se casar e olha o papel que está aberto”.

Um costume assaz interessante que acontecia em São João del-Rei, no Bairro Senhor dos Montes, e em Santa Cruz de Minas, no Bairro Córrego: no dia de São João, tomando-se à mão varas, correias e chicotes, se dava uma surra no tronco das fruteiras, enunciando-se o seguinte ensalmo:

Fogo na fogueira,
Estava para queimar,
O que não deu esse ano,
Para o ano vai dar!

Esta fórmula mágica é um mecanismo de catarse que garante a queda dos ramos doentios, dos frutos secos e “aluados”[5], das flores estéreis, banindo pragas e mau olhado. Então, no ano seguinte o pomar aumenta a produtividade. Eis um elemento claro da força agrária dessa festa.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa de São João Batista, 
Rua São João, São João del-Rei, 1992. 
Impressão em papel-jornal; medidas: 24 x 33cm. 


São Pedro vem por último, protetor das viúvas, com festejo a 29 de junho. Sua festa ultimamente esmaeceu, mas tem as mesmas linhas gerais. É em geral mais forte onde o mar ou os grandes rios tem importância econômica para as comunidades de pescadores, sendo então comuns as procissões marítimas ou fluviais com barcos enfeitados e as puxadas de mastro. São Pedro, tido como o primeiro papa, é o guardião das chaves do céu. São muitos os contos populares que narram suas peripécias apostólicas, colocando-o como um turrão, que faz trapalhadas ante Jesus. A crença indica a mãe de São Pedro como uma verdadeira megera. 

É no dia de São Pedro que o homem do povo toma de um facão ou machadinha e dá piques (talhos) no tronco das mangueiras em sentido perpendicular ou diagonal como método que garante uma melhor produtividade. Naquele talho escorre parte da seiva, num mecanismo de sangria. Ainda é muito frequente esta prática em São João del-Rei e arredores. 

 

                                                   Piques no tronco de uma mangueira, fotos do autor, 2013.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa conjunta de São Pedro e São Paulo,
Capela de N.S. da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
afamada pela boa qualidade das danças de quadrilha. 
Impresso em papel off-set, tamanho 32 x 21,5 cm. 


No Maranhão e Amazônia as festas desses santos são animadas pela presença de numerosos grupos dançantes de bumba-meu-boi / boi-bumbá e os de tambor-de-crioula. No agreste e sertão acorrem os bacamarteiros, os ternos de zabumba. Pelo litoral e agreste são as rodas de coco, improviso ao som ritmado do ganzá; zambê, bambelô. Ainda em 1997 na praia de Caraúbas (Maxaranguape/RN), a capelinha de melão, espécie de pastorinhas do inverno, cantavam não ao Menino Jesus mas a São João Batista.

Vários terreiros de religiões de matriz africana por via sincrética participam do complexo devocional envolvendo estes três santos. Muitos terreiros fazem festas nos seus dias votivos. O sincretismo é variável de uma região para outra, e mesmo com o rito religioso em si, mas via de regra é o seguinte: Santo Antônio se vincula ao Orixá Exu; São João e São Pedro respectivamente ao falangeiro Xangô do Oriente e a qualidade de orixá, Xangô Agodô [6]:

Santo Antônio e meu São Jorge
São dois santos guerreiros,
Santo Antônio firma ponto,
São Jorge firma terreiro.


Outro:

Meu Pai São João Batista é Xangô,
O dono do meu destino até o fim.
Se um dia me faltar, a fé no meu Senhor,
Derruba essas pedreiras sobre mim.

Para o ciclo junino as festas externas às igrejas se climatizam na configuração cenográfica de um ambiente rural, ou pelo menos, supostamente do campo. É uma imagem idealizada, a bem da verdade, meio às avessas, porque, à primeira vista ridiculariza os valores rurais levando ao exagero o aspecto e o comportamento do rurícola. Assim os dançantes da quadrilha, a dança típica dessa quadra do ano, põe roupas com remendos avantajados, chapéus desfiados, calças esgarçadas, rabiscam no rosto cavanhaques e bigodes desgrenhados, cigarrões de palha são adereços indispensáveis. Botinas graúdas favorecem o andar trôpego. As mulheres não ficam para trás com seus vestidos de chita e outras estampas berrantes, fora da moda; tranças postiças, maquiagem exagerada e até por vezes um dente é borrado de preto simulando vasta cárie ou ausência de elemento dentário.

O local das danças é chamado arraial, ou melhor, “arraiá” e ganha nomes próprios: Arraiá do Arranca-unha, Arraiá do Pito Aceso, Arraiá da Vila Mendes, etc. É limpo e enfeitado. De terra batida, gramado ou cimentado, não importa, ganha arcos de bambu, carreiras de bandeirolas e rabiolas coloridas, balões multicores nos cantos, espigas de milho atadas às varas das barraquinhas de vender comida típica do período, sujeita a regionalismo: por aqui, canjica, quentão, broas, pamonhas, curau, pé de moleque, batata doce assada na brasa; no vasto Nordeste onde estas festas alcançam uma dimensão extraordinária e economicamente importantíssima, geradora de fluxo turístico, surge dentre outros a indispensável canjica, o mungunzá, os bolos variados (preto, de milho, de carimã, da moça, etc.). E por aí vai. Nas áreas frias sulinas o consumo do pinhão é querido e o vinho.

A música se faz fartamente presente através da sanfona, ou seu irmão _ acordeon. Outros instrumentos acompanham e marcam: quadrilhas, xotes, baiões, xaxados, forrós, arrasta-pés ...

Na apresentação das quadrilhas um dos momentos mais aguardados é o casamento caipira (matuto, tabaréu), um entrecho muito apreciado já comentado na postagem sobre as quadrilhas. É bem visível que esta representação é um entremeio dramatizado que foi enxertado nas quadrilhas, não fazia parte do modelo francês original. É uma criação brasileira, e em tamanha sintonia com a quadrilha que com elas compôs um corpo perfeito. Ora, um antigo jornal de São João del-Rei / MG, noticiou há um século esta representação teatral: “casamento do caipira (Nhô) é uma pantomina de successo” (O REPÓRTER, 1912). Seria uma pista? O casamento hilário foi uma representação de palco que rodou Brasil afora, caída nas graças do povo que a manteve no contexto das quadrilhas? É só uma possibilidade, aguardando pesquisa.

Por estas alturas é interessante repensar o significado do universo rural colocado com jocosidade nas festas juninas. Aqueles remendos das roupas, os trejeitos dos dançantes, os babados dos vestidos e toda a irreverência dos arraiais e seus figurantes, seria apenas mero deboche? O corre-corre urbano, a vida na selva de pedra não induz a horas tantas a saudade da paz campesina? A figuração do mundo rural nestas festas e danças parece puramente alegórica. Por fim faz parte da própria identidade destas manifestações. O olhar mais focal pode ser assaz revelador.

Estas festas além de quebrarem a rotina como todas em geral o fazem, podem também ser um oportuno canal de manifestar os valores da ruralidade, ainda que sob a ótica urbana calcada pela ironia, mas isto pode ser um disfarce social. O roceiro ainda vive em cada um de nós? Caso positivo, para manifestá-lo precisamos de uma fantasia e um contexto? Esta ambiguidade é que justifica a “imagem idealizada às avessas”. Toda esta provocação (e não afirmação) visa apenas induzir pesquisas futuras neste ramo, que quiçá podem ser frutíferas.

Referências Bibliográficas

- ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 930p.il.
- IHG. Os cronistas viram e disseramRevista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.4, 1986. p.55
- LIMA, Rossini Tavares de. Folclore das Festas Cíclicas. São Paulo: Irmãos Vitale, 1971.
- PELLEGRINI FILHO, Américo. 2.ed. Folclore Paulista: calendário & documentário. São Paulo: Cortez/Secretaria Estadual de Cultura, 1985. 240p.il.
- SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ: 2010. 260p. p.34 e 95. 
           
Referências Hemerográficas

- A Tribuna, n.651, 31/05/1925. São João del-Rei. 
- O Repórter, n.312, 02/05/1912. São João del-Rei. 
- S.João del-Rei, n.6, 04/03/1899. São João del-Rei. 

Informantes (São João del-Rei e Santa Cruz de Minas)

- Aluísio dos Santos (piques nas mangueiras, Centro, São João del-Rei)
- Cláudia Aparecida da Costa (simpatia para casamento, São João del-Rei)
- Elvira Andrade de Salles (surra nas fruteiras, mastros - Santa Cruz de Minas / Bias Fortes)
- José Camilo da Silva (mastros, São João del-Rei)
- Luiz Antônio Sacramento Miranda (surra nas fruteiras - Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei)
- Luís Santana (festas no Pombal, São João del-Rei)
- Luthero Castorino da Silva (responsório, São João del-Rei)

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Ulisses Passarelli (mangueira); procissão de Santo Antônio: autor não identificado, gentilmente cedidas por João Bosco Alves, a quem este blog agradece. 

Notas 
- Revisão: 04/07/2025. 



[1] - Fogueira em agosto, nem pensar! Faz mal, afirmava Luís Santana. Aliás agosto é mês do desgosto, de São Lourenço, senhor dos ventos, que morreu queimado numa grelha, dia 10 de agosto. No dia dele não se pode queimar pastos nem coivaras nos roçados. É a lógica da cultura popular. 
[2] - A origem pagã e agrária destas festas é clara e fartamente documentada por eminentes folcloristas, que sobejamente demonstraram os reais valores das festas rurais: Alceu Maynard Araújo, Américo Pellegrini Filho, Luís da Câmara Cascudo e Rossini Tavares de Lima, referenciados nesta postagem. São de consulta indispensável. Não é plano desta postagem, discorrer sobre o histórico das festas juninas. Para esta finalidade fica como sugestão este vídeo: As origens da festa junina. In: Cortes do Estranha História, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y80UgePJzWs  Acesso em 04/07/2025. 
[3] Sobre a antiguidade da Festa de São João Batista em São João del-Rei, uma referência significativa é esta, dada por SOBRINHO (2010): "1719 - REC 168 PG 03 - Por trinta e duas oitavas de ouro que deu ao Pe. Fr. Antônio Xavier de Santa Rosa pelo Sermão da festa de São João de que se lhe passou mandado em 14 de setembro." (p.34). Da mesma fonte do recibo anterior emitido pelos vereadores é este acórdão de vereança: "ACOR 09 PG 69: EM 24 DE JUNHO DE 1799 - Acordaram em ir à Matriz desta Vila digo em ir assistir à Missa conventual na Matriz desta Vila como foi obrigado por ser dia de São João Batista, como de fato foram." (p.95). 
[4] - Dêniston Diamantino produziu um documentário de alta qualidade sobre as tradições juninas no vale do Rio São Francisco, vídeo “São João na Roça” (Opará Vídeos, Belo Horizonte, 2000), de consulta fundamental como fonte fidedigna de pesquisas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&list=RDmc6U1alhO2A&start_radio=1  Acesso em 04/07/2025. 
[5] - Aluado: aquilo ou aquele que pertence à lua. A informante, Elvira Andrade de Salles dizia que a lua sugava a energia do fruto, que assim ficava “aluado”: de crescimento afetado, sem polpa, sem adocicado, com baixo poder nutricional.
[6] - Concepções de um zelador de umbanda e uma ialorixá de candomblé de São João del-Rei. Os pontos foram ouvidos em outros terreiros da cidade, que não os dos informantes, por volta de 2001.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Lobo do Cu Queimado

A esperteza vence a brutalidade: mais uma fábula do ciclo de contos do coelho


            Um lobo veio no rastro de um coelho desde lá do cerradão até a horta do fazendeiro. Apurou o faro e achou-o preso numa armadilha no meio da grande horta.

_ Ah! Você tá aí, né seu danado! Agora num escapa, já tá preso nessa gaiola... Hoje eu te como! , disse o lobo.

Mas o coelho muito esperto respondeu com malícia:

_ Me comê?! Pra quê? Deixa de sê bobo seu lobo! Num vê que eu sô magrinho, num rendo carne nenhuma? Óh, eu aqui nesse mundéu, tô enjoado de comê carne ...
_ Num me vem com essas presepada não, que agora você não escapa.
_ Não acredita? Tô falando sério. O dono dessa horta aí é um home bão que gosta de bicho. Todo dia vem cá trazê um trato pra mim, muita carne, de todo tipo, só cê vendo que fartura!
_ Coelho...
_ Sério, lobo. Óh, chega ele aí basta eu pedi: hoje eu quero carne assada, e ele traz; agora eu quero frita... vem!
_ Mas num pode sê... disse o lobo com o boca cheia d’ água.
_ Tô te falando, pode acreditar. Eu tô enjoado de carne. Tô querendo mesmo é uma verdurinha dessas aí de fora... E você pensando em comer um coelhinho quando pode ter tanta fartura de carne...
_ Ai coelho, troca de lugar comigo então. Troco uai, já que você quer... Quando o homem chegar é só fazer sua exigência.

            O lobo suspendeu a porta do mundéu e pulou para dentro para esperar o homem. O coelho passou para fora como um raio e sumiu mato afora em disparada.

            Lá veio o fazendeiro, dono da horta.

_ O quê?! Minha armadilha pegou um lobo!!! Num pode ser... Pensei que fosse um coelho que tava acabando com minhas verduras.
_ Traz pra mim um bife bem passado, mandou o lobo.
_ Óh, tá fazendo exigência... ! Vô trazê pra você um bife bem passado, cê vai vê que beleza...

            O homem saiu raivoso e o lobo ficou lá preso, babando de vontade e já imaginando o cardápio ao seu alcance.

            O fazendeiro foi na tenda, meteu um ferro comprido no braseiro e quando avermelhou a ponta, tirou do fogo e correu até o lobo preso.

_ Cê qué bem passado, né?
_ É, essa é minha exigência.
_ Então toma seu bife!

            E meteu o ferro pra bunda do lobo adentro que num terrível urro de dor deu um pinote, sacudiu a armadilha com tanta força que a quebrou toda e saiu correndo feito louco, uivando, fumengando o traseiro que ia raspando pro chão afora no desespero de aliviar a dor, carregando no lombo restos da porta do mundéu arrebentado.

            Foi pra beira de um córrego aliviar sua dor. Estava com muito ódio do coelho, que naturalmente estaria rindo dele nalguma canto daquele matão. Planejava uma vingança.

            Com pouco foi de novo rastreá-lo e não demorou achar sinais de sua passagem. Procura, procura... correu atrás do coelho e esse fugiu até uma beira de barranco onde um coqueiro inclinou muito, quase tombando na ribanceira e o coelho na carreira que vinha, se aproveitou da inclinação de seu tronco e subiu até junto às folhas.

_ Desce aqui sem vergonha!
_ Eu não, cê vai me comer...
_ Mas é claro que vô coelho, quê que ocê quiria? Ordinário, me tapiô, fiquei com o traseiro tudo queimado! Desce aqui, anda!
_ Vô nada!
_ Eu espero, disse o lobo. Não tô com pressa. Um hora cê tem que descê e fico aqui te esperando.
_ Pra quê que eu vou descer? Aqui no alto do coqueiro tem muita folha e água, do coco e do orvalho.
_ Uma hora acaba. Tenho todo o tempo do mundo.

            E não arredou o pé de sua vigília. O coelho ficou preocupado. Não tinha como escapar. Pensou um plano. Começou olhar para longe, tampando o sol com a patinha e a gritar como se tivesse chamando alguém:

_ Oi! Tá aqui, óh!
_ Que gritaria é essa, coelho?
_ Vem cá, o lobo tá aqui!
_ Tá doido, coelho, que gritaria é essa?
_ Agora cê tá no aperto, lobo. O homem da horta en’vém lá adiante com uma cachorrada medonha, armado de espingarda pra te caçar. E olhando pro horizonte: _ aqui!!!
_ Pelo amor de Deus, coelho, cala a boca, não grita não!
_ O lobo tá aqui, vem cá!

            E o lobo fugiu para muito longe, com medo do homem. O coelho rindo do sucesso de sua artimanha desceu do coqueiro todo tranquilo e foi comer umas folhas. 

O informante, Zé Cristino Boiadeiro.
Notas e Créditos

* Informante: José Cândido de Salles ("Zé Cristino Boiadeiro", foto abaixo), Santa Cruz de Minas, 1999.
** Texto e fotografia do informante: Ulisses Passarelli