Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Simpatias e Crendices

O povo tem uma forma muito peculiar de encarar as coisas da vida, os fatos, os acontecimentos. Sobre eles vai secularmente tecendo sua livre interpretação e cria aconselhamentos que supõe prevenir malefícios. O poder da observação, a força das coincidências, as leis que regem a espiritualidade, tudo conflui - sob a ótica popular - para justificar crendices, superstições, simpatias, benzeções, etc., legitimando-as.

Nesta postagem o Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta uma coletânea de trinta simpatias e crendices tradicionais coletadas em São João del-Rei/MG, sendo de prática comum, desde longa data, algumas ainda em voga, não obstante a modernização desses tempos de tecnologia digital.

* * *

01 - Contra soluço: soluço é uma sequência de contrações espasmódicas do músculo diafragma, separadas por um curto espaço de tempo. Aos recém-nascidos, com frequência a soluçar, usa-se colocar um pequeno pedaço de papel embebido na saliva da mãe, que se adere à testa da criança. Mantém-se até o soluço passar.

02 - Contra doenças de pele: antigamente, nas roças, quando o pai caçava um tatu, esfregava-se o sangue deste animal no corpo das crianças da casa, acreditando-se com este banho inusitado prevenir-se doenças de pele.

03 - Crista de galo: 1- Nome popular de uma doença infecciosa, sexualmente transmissível, que atinge as partes pudendas; cancro mole. É causada pela bactéria Hemophylus ducreyi. 2- Símbolo de domínio, força, física, “macheza”. A expressão popular ""quebrar a crista" indica romper com a valentia de alguém. 3- Excrecência vermelha, carnosa na cabeça do galo doméstico, que é dada à criança para comer como simpatia para curar a incontinência urinária noturna, ou seja, para quem urina na cama.

04 - Cana debaixo da cama: para aliviar dor na coluna, corta-se uma cana de açúcar, a mais reta quanto possível; exclui-se a folhagem e as raízes e o colmo é cortado no tamanho exato da pessoa, com medida pelas costas, com os calcanhares juntos e o queixo paralelo ao solo. A cana assim preparada deve ser posta debaixo do colchão e sobre o estrado da cama, pelo prazo de pelo menos um mês, após o qual deve ser jogada pelo rio abaixo. Se o início da simpatia coincidir com a lua minguante, tanto melhor, pois míngua a dor. 

05 - Contra verruga: 1- Corta-se uma pequena batata-inglesa e esfrega-se sobre a verruga por algum tempo. A batata é posta a secar nas imediações de um fogão à lenha. A medida que a batata seca, a verruga seca também, depois cai. É o que prescreve a simpatia popular. 2- Uma variante usa a ponta cortada de um quiabo que depois de esfregada sobre a verruga deve ser posta grudada na tábua da porta de entrada da casa, na parte de trás. Quando o quiabo secar e cair, acredita-se que a verruga cairá também.

06 - Para afastar males e doenças: na Sexta-feira da Paixão, na hora que Jesus morreu (15 horas), abre-se um pequeno buraco na terra do quintal e cospe-se dentro. Imediatamente se enterra a saliva, pedindo-se pela Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que seja enterrado tudo que é contrário.

07 - Para fortalecer e trazer saúde: na Sexta-feira da Paixão, na hora que Cristo morreu (15 horas), tomar um copo de chá de erva-cidreira, pedindo-se pela Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, que seja fortalecido e abençoado na saúde.

08 - Para prosperidade: no Dia de Santos Reis (06 de janeiro), tomar nove caroços de uma romã e proceder assim: três caroços devem ser jogados para trás, por cima dos ombros, sem olhar onde cairão, pedindo-se aos Reis Magos para desterrar todos malefícios; outros três devem ser engolidos, rogando-se saúde e proteção; finalmente os últimos três serão guardados na carteira para não deixar faltar dinheiro, tanto melhor se forem acondicionados num patuá de pano vermelho virgem, costurado junto com uma moeda.

09 - Para espantar visita indesejável: colocar uma vassoura atrás da porta de entrada. Isto evitará que a visita venha. Se a visita veio porque a simpatia não foi feita, então discretamente se pega a vassoura e sem que perceba, deve ser posta atrás da porta em disposição invertida, ou seja, com os pelos para cima e isto faz que logo a visita vá embora. Após a visita sair, se varrer seu rastro dentro da casa até abrir a porta da rua e tocar o cisco para fora, esta visita não voltará. O gesto de varrer enquanto a visita está presente é vetado por convenção social, já é considerado ofensivo, grosseiro, demonstrativo de não se querer a presença, mesmo que a intensão real não seja esta.

10 - Para não casar: quando não se quer que alguém não case, basta varrer o pé desta pessoa, ou seja, passar a vassoura sobre o pé, em gesto de quem varre.

11 - Para fechar o corpo ao mau olhado: 1- trazer três dentes de alho no bolso. Será mais eficiente se for no bolso esquerdo e se for de alho roxo. 2- trazer um ramo verde de arruda atrás da orelha esquerda. Quando a arruda murchar deve ser descartada, pois é sinal que já absorveu os males. 3- trazer pendurado ao pescoço um bentinho, patuá, terço, escapulário, medalha de santo ou guia. 4- Outros objetos capazes de prevenir mau olhado são as semente de tento, olho de boi, timbó e ainda lascas ou cavacos de candeia, para-tudo (raiz), milhomem, cipó-cruzeiro e de pau-pereira.

12 - Para sobrepujar inimigo: escrever o nome do inimigo num pequeno pedaço de papel, por dentro do sapato e calçá-lo. Pisa-se o inimigo. Se for no sapato esquerdo é mais eficiente. 

13 - Para nenhum inimigo alcançar sucesso na demanda: por um folha de comigo-ninguém-pode dentro do sapato à guisa de palmilha e calçá-lo. Usar meias para evitar a toxicidade da planta. Isto geralmente se faz quando se vai fazer a uma incursão no território do inimigo, pisar em terra alheia por uma necessidade, não por abuso ou atrevimento. 

14 - Para refletir o mal: 1- enfeitar o chapéu com um pequenino espelho (muito usado por folias de Reis e congados). 2- riscar o ponto de uma entidade espiritual num papel e afixar escondido atrás de um espelho. Se alguém tiver com inveja, o mal se reflete de imediato em retorno. 3- fazer uma ponta extra numa vela branca; acender as duas pontas e firmar no chão com a ponta original para baixo. Isto devolve o mal a quem o mandou. 4- Fazer uma cruz de espelhos e fixar à entrada da casa ou loja. 

15 - Usar roupa do lado do avesso: tem duas interpretações: 1- se a pessoa assim vestiu de forma inadvertida, é uma crendice que em breve ganhará uma roupa nova; 2- se a pessoa assim vestiu de forma deliberada, é uma simpatia, adotada quando se vai a algum lugar cheio de inimigos, má querência, desafetos, visando se proteger de mau olhado, pois o lado inverso da roupa não deixa o maligno pegar na matéria.

16 - Proteção contra intempéries: guardar dentro de casa as palmas bentas da Procissão de Ramos protege contra raios, ventanias, chuvas fortes. Se a ameaça se fizer acentuada, queima-se a palha, e sua fumaça, assim como um incenso, protege o lar. A palma será trocada apenas pela do ano seguinte, renovando-se seu poder protetivo. A palma de ordinário se conserva dentro do oratório ou sobre o guarda-roupas. Quando se consegue duas palmas se usa amarrá-las uma à outra em cruz para mais efetividade na proteção do lar, afixando-as à parede. 

17 - Golo para o santo: costume de, ao se tomar uma bebida alcoólica, derramar propositalmente uma pequena porção no chão dizendo-se: “para o santo”. Talvez tenha ligação a oferendas de pinga (marafa ou marafo) a algumas entidades espirituais da banda esquerda. Em um terreiro, se está presente certo exu doutrinado, geralmente ele não permite que se derrame cachaça no chão, exceto se ele o fizer por si mesmo, sobre o ponto riscado. Outra forma do fato é servir uma dose da pinga em um copo e colocar-se diante da imagem de São Benedito ou de Santo Antônio; ou ainda, por a imagem de Santo Onofre imersa dentro do copo com a bebida, junto com algumas moedas. Considerando-se Santo Onofre padroeiro dos alcoólatras, talvez não seja adequado julgar este caso como um castigo ao santo. Acredita-se que são formas de agradá-lo, que então retribui com graças e bênçãos.

18 - Galinha Preta: é reconhecida como “galinha de macumba”, numa expressão discriminadora. Deve-se ao fato de serem usadas como oferendas em rituais de sacrifícios a certas entidades em ritos específicos. Na crença popular é bom ter algumas galinhas de penas pretas no terreiro junto às demais, pois, por sua simples presença, livram a todas as outras aves de certos males, que atraem para si, desviando-se assim das demais criações e de seu dono.

19- Cuidados com o pagão: para salvar a alma de uma criança (natimorto), que morreu repentinamente, sem o batismo, a medida é sepultá-la sob uma roseira, fazer uma cruz de sal sobre o seu túmulo e plantar arruda por cima do mesmo. Este o era o costume nas roças.

20- Apadrinhamento: quem está noivo não deve apadrinhar ninguém, pois prejudicará seu próprio casamento.

21- Quizila: grosso modo ou por assim dizer, seria uma espécie de ojeriza que um espírito toma de um encarnado; incompatibilidade energética com uma linha espiritual, gerando desequilíbrios. Procurar quizila: desrespeitar a espiritualidade, adquirir dívida com o mundo espiritual. Enquizilado: indivíduo com a vida travada, caminho fechados, quando tudo que faz dá errado. “Maré de azar”. A solução para quizila é descobrir qual é a dívida espiritual e pagá-la, o que se faz com oferendas e banhos de descarrego e outras medidas rituais. A palavra é uma africanismo presente na língua portuguesa, procedente de algum idioma banto. Seu equivalente na cultura iorubá é o ewó. Quizila ou ewó representa tabus e interdições para se evitar o confronto ou desalinhamento ofensivo com as divindades. 

22- Margarida: flor branca, do agrupamento botânico das compostas, de pétalas raiadas em torno de um “miolo” amarelo, em que o povo vê a figura simbólica solar e, portanto, a consideram importante de se ter em jardins, de se enfeitar santos, sempre evocando a luz, a força benéfica do sol. Flor positiva. O girassol tem a mesma característica mística.

23- Escada: 1- Invocação mariana, Nossa Senhora da Escada, praticamente desconhecida no Campo das Vertentes. 2- Símbolo da subida, da gradação evolutiva, do progresso espiritual. Ao contrário, passar sob a escada traz fatalidades, atrasos. Deve-se evitar ao máximo e caso seja impossível, passa-se fazendo figa com a mão esquerda.

24- Cágado: réptil quelônio, tartaruga de água doce, com várias espécies. No Campo das Vertentes existe o chamado cágado-preto (Acanthochelys spixii). Credita-se ao cágado o mal costume de devorar gente afogada, cujo corpo ficou perdido no rio ou represa. Outra crendice é lhe atribuir uma violenta mordida: ele somente solta a boca dura se alguém tocar uma sineta junto ao seu ouvido. Obviamente que se trata de crendices desprovidas de fundamento. É animal votivo de Xangô, não devendo ser morto ou sacrificado, pois se provoca a ira deste orixá justiceiro.

25- Perna fina: é sinal de que o indivíduo é trabalhador, ágil e ativo. Ao contrário, o homem de perna grossa é tido como preguiçoso, dolente. 

26- Cordão bento: considerado de grande proteção contra espíritos do mal. Passar na cintura um cordão de São Francisco (ou de São José, ou de Santa Bárbara, ou de Nossa Senhora, ou de Santa Filomena) resguarda a pessoa de todos perigos, males e obsessores. Era costume amarrar o cordão à cintura do defunto, mesmo que não pertencesse a uma irmandade religiosa e enterrá-lo assim, suposta garantia de que sua alma nos caminhos do além teria com que rebater os assombros do outro mundo. 

27- Corno – O chifre de boi pendurado atrás do portão, ou na fachada, ou num barracão, afasta todo mal, concentra em si os perigos imateriais que viriam para a casa. O chifre de bode traz fortaleza espiritual. O chifre de carneiro garante bons fluidos e suas aparas raspadas à faca, se fervidas, são dadas a beber a quem sofre de cólicas, para alívio das dores. Obviamente que semelhante crendice não é recomendada como prática por este blog, que apenas a registra pelo valor etnográfico da cultura folclórica. O uso do chifre é ancestral e cosmopolita e há um elemento especial, chamado "cornucópia", representado artisticamente por um chifre cheio flores ou frutos no seu interior, que é um símbolo clássico e universal de fartura e fertilidade. O povo instintivamente e sem saber de seu nome a reproduz ao seu modo, quando as coisas não andam bem, metendo pelo oco de um chifre ramos de arruda, guiné, comigo-ninguém-pode, alecrim, espada de São Jorge ... Ervas votivas e de proteção. 

28- Proteção ao casamento: 1- no dia do casamento, nem o noivo nem a noiva devem comer na panela, nem para provar, pois choverá na hora do casamento; 2- no dia do casamento, o noivo não deve ver a noiva antes da cerimônia, pois traz azar para a felicidade dos dois; 3- na saída da igreja após a cerimônia é costume jogar arroz cru sobre os noivos com o intuito de abençoá-los com alegria e fartura. 

29- Mau agouro: 1- copos, pratos, talheres ou panelas caindo dentro de casa com muita frequência, indicam alguma desgraça iminente na família; 2- urubu pousado sobre a casa prenuncia morte na mesma; 3- coruja cantando sobre a casa chama má sorte para a residência; 4- os anus (aves cuculiformes), quando rodeam o portão de entrada do lar, denunciam a presença de almas penadas; 5- cachorro uivando desmedidamente anuncia mal sortilégio para a casa; 6- cachorro escavando na frente da casa é sinal de sepultura que logo será aberta, ou seja, sairá um defunto daquela casa; 7- galo cantando fora do horário habitual no terreiro má sorte anuncia. 

30- Água de São João: na noite de São João Batista (23 para 24 de junho), a água corrente das fontes e riachos é considerada benta, capaz de curar males diversos e prevenir outros tantos. Motiva alegres e devotos rituais: 1- coleta de água em garrafas, guardando-as em casa para usos medicamentosos e espirituais, ao longo do ano; 2- banho votivo, de corpo todo ou só da cabeça no fluxo d’água.

Anjinho segurando uma cornucópia.
Adorno do presbitério da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
São João del-Rei/MG. 

Créditos


-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 11/12/2014.

Notas 

- Revisão: 14/06/2026. 
- Leia também neste blog:

SUPERSTIÇÕES
SUPERSTIÇÕES DO ESPELHO

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A crendice da transmutação

No passado havia a crença da transmutação, cuja essência era a possibilidade de, em situações tais, uma forma de vida se transformar em outra. A biologia revela a impossibilidade deste acontecimento. Chegou-se a teorizar o assunto como se fora científico, justificando por este artifício o surgimento de bichos na "carne morta" [1]: os devoradores gerando podridão, nada mais seriam que carne transformada em larva. 

Claro que a evolução da ciência derrubou por terra semelhante crença, ao provar cabalmente, que as larvas surgiram de ovos depositados por moscas, atraídas pelo cheiro da carne em putrefação. Num experimento, se a carne for isolada das moscas por uma tela-mosquiteiro, não surgem as larvas.

Mas a crença da transmutação, tão propalada pelos alquimistas, persistiu nos meios folclóricos. Nos anos noventa uma sexagenária em Santa Cruz de Minas, dizia que crina de cavalo, cortada e atirada num córrego de águas ferruginosas, teria o poder de se transformar em serpentes depois de um certo prazo.

Numa postagem anterior, o Folclore das Cobras - parte 1, foi descrita a mudança da raiz da guaipeva em serpente.

Decerto a mais popular das transmutações é a do morcego, muito popular aqui em São João del-Rei na década de 1970 e ainda ouvida por aí: o morcego é um rato, que depois de velho cria asa e perde a cauda. Escrevendo sobre a vizinha cidade de São Tiago, a Professora Ermínia Resende também aludiu a esta transformação imaginativa: "há muita crença de que morcego é rato velho". De fato é uma crendice de expansão geográfica bem mais larga, mostra-nos Hitoshi Nomura, posto que conhecida em terras paulistas e outras. Monteiro Lobato aproveitou-a no conto 'Os negros': “Mal entramos, morcegos ás dezenas, assustados com a luz, debandaram ás tontas, em voejos surdos. _ Macacos me lambam se isto aqui não é o quartel-general de todos os ratos de asas deste e dos mundos vizinhos”. 

O morcego é animal considerado tenebroso, cuja figura é vinculada ao sombrio, ao mal, associação de imagens ao seu hábito de vida. Contudo, nos terreiros de umbanda o povo reconhece o Exu Morcego, entidade da linha esquerda, muito prestigiado. 

Em verdade, o morcego desperta relativamente poucas crendices, quiçá pela repulsa que o homem nutre por ele. É devido aos seus hábitos e aspecto, sobretudo, pela hematofagia, característica de um número limitado de espécies. Obviamente a temida transmissão da hidrofobia contribui para esta aversão.

Morcegos em repouso numa mangueira em São João del-Rei.

Referências 

LOBATO, Monteiro. Negrinha. 22.ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. p.51. 

NOMURA, Hitoshi. Os mamíferos no folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, n.890, série C, 146p. Verbetes: Morcego e Vampiro.

RESENDE, Ermínia de Carvalho Caputo. Acaso são estes os sítios formosos? Brasília: Estações, 2008. 211p. p.72-74.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 25/07/2011.

Notas 

[1] Carne morta: expressão indicativa de carne exangue. O sangue é símbolo vital. Carne ainda com sangue é "carne viva", expressão coloquial, consagrada pelo uso.  

Revisão: 30/07/2025. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Ar, terçol e bonitinha... que combinação é esta?

Boas e más energias nos chegam pelo ar. É o que assegura a crença popular. “Bons ares te trazem!”, dizemos alegremente quando chega-nos uma visita desejável e/ou providencial. Por outro lado, diante de uma cisma, logo se diz: "tem uma suspeita no ar..." 

Existe “ar” de tudo, cada qual com sua própria força: ar dos olhos, ar de gripe, ar de inveja, etc., cada um afetando o que traz na própria designação, conforme a influência do meio etéreo e das poeiras que carrega. O “ar da noite” é aquele ambiente sombrio típico do anoitecer, com a queda da temperatura, brisa fresca, diminuição da luminosidade. O povo em precaução, busca então o agasalho. Os antigos evitavam sair fora da casa, pois é o ar propício para se pegar um resfriado. Traz também os espíritos noturnos; assombros. Por isto fecham-se portas e janelas a partir das 18 horas, “hora da Ave-Maria”, tempo das almas, rezando-se a Nossa Senhora para livrar a casa dos males trazidos pelo ar da noite.

A crença no ar como transmissor de malefícios e doenças é bastante antiga e arraigada. No começo do século XIX a Câmara de São João del-Rei andou às voltas com medidas que visassem combater uma epidemia que grassava a então vila. As autoridades em 1808 convocaram os "professores desta Vila de Cirurgia e Medicina que por ora há no país para assentarem no melhor meio e modo da saúde pública." Os mesmos deram as orientações e os vereadores o determinaram em edital para a população: "farão fogueiras todas as noites de espaço em espaço nas quais farão queimar hervas aromáticas como são as resinosas, rosmaninhos, manjericão do campo, pinheiros e coqueiro da serra, sassafrás, disparar tiros, queimar pólvora em casa, lançar vinagre em ferros em brasa, tomar ponxes e vinagradas quentes, e uso de vegetais adubados com bastante vinagre, o que tudo foi assentado pelos ditos professores e se continuará durante a dita epidemia em refrigério e benefício dos corpos." (SOBRINHO, 2010, p.111-112). 

Está claro pela citação acima a intensão de produzir fumaças e vapores, que por seu odor forte e substâncias emanadas, supostamente afastariam a causa da doença. Ainda hoje sob o rito do incensamento, reside, outrossim, o objetivo de afastar os males.

Em Santa Cruz de Minas, havia uma benzedura específica para os casos de afetação pelo ar, com os seguintes dizeres [1]

"(Fulano...), criatura de Deus, Deus quem te criou, Deus quem te gerou, Deus quem te livre dos males, dos ar ruim que seu corpo entrou: ar do sol, ar da lua, ar das estrelas, ar dos males, ar do dia, ar da noite, de todas as dores, todos os males, todos os ar ruim que tiver no teu corpo, que vai tudo pelas ondas do mar, com os poderes de Deus, da Virgem Maria, das três pessoas da Santíssima Trindade, com São Clemente. Como Deus e São Clemente não mente, essas dores, esses males, esses ar ruim que tiver no teu corpo, não há de ir adiante. Nossa Senhora do Desterro, que desterre esses males, esses ares e mande pelas ondas do mar. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém!"

Um dos tipos de ar, o ar de vento, que se manifesta como uma rajada, costuma segundo a crença, causar um lesão nodular nas pálpebras, com pequena elevação da pele, devido ao vento forte batendo nos olhos. Causa então o terçol, curando-se em geral por meio de benzeção. É dolorido e causa irritação local. Na verdade o terçol é um processo infeccioso.

Há porém outras formas de se tratá-lo na cultura popular. O tratamento tradicional para o terçol, terçolho ou hordéolo é feito passando-lhe uma aliança de ouro, que deve previamente ser esfregada sobre a pele em qualquer parte do corpo, até ser aquecida pela fricção e imediatamente se põe sem atritar sobre o nódulo. Ao esfriar repete-se, e assim, indefinidamente. Acredita-se que o calor do corpo transmitido pelo ouro cure o mal. Também acreditam que na falta da aliança é possível alívio ao esfregar-se bastante o dedo sobre uma superfície qualquer, até a pele aquecer por atrito e imediatamente aplicar a parte digital aquecida sobre o terçol.

Outra forma é esfregar sobre o terçol um dente de alho cortado, para que seu sumo molhe o local com o cuidado de não esbarrar no interior do olho, devido a grande ardência que causa.

Existe ainda a aplicação popular de arruda, macerada num copo com água filtrada, e aplicada por meio de algodão limpo, lavando as pálpebras afetadas. O povo acredita que se esse copo com água de arruda de molho passar a noite exposto ao sereno, será mais efetivo.

Uma simpatia difundida em São João del-Rei é passar sobre o olho afetado pelo terçol o rabo de uma gata, por duas vezes, em forma de cruz. Na mesma cidade outras simpatias são difundidas contra este mal; pingar nos olhos algumas gotas de "leite de peito", assim chamado o leite materno humano. Outra receita é esfregar sobre o terçol três grãos de milho e a seguir jogá-los por sobre os próprios ombros para trás, sem ver onde cairá, na direção de um galinheiro. Não se deve olhar para trás. As galinhas ao comer o milho, "comem" também a infecção, uma forma de magia simpática, por transferência do mal [2]

Um tipo especial de terçol é a chamada bonitinha, bolinha ou joaninha. Manifesta-se de forma muito semelhante, pelos sinais e sintomas, mas não é gerada pelo ar de vento. A bonitinha é causada quando se está comendo algo e uma mulher grávida vê o alimento e não lhe é oferecido. Basta outrossim a grávida desejar aquela comida e não pedir por vergonha que também se pega a bonitinha nos olhos. Cura-se com uma simpatia, pedindo comida por caridade na casa de três mulheres chamadas Maria. Prende-se esta superstição ao tabu das gestantes.

Por fim é necessário ressaltar que este blog não incentiva nem recomenda a execução das técnicas e remédios da medicina popular, devido aos eventuais riscos à saúde. Um médico deve ser sempre procurado. Apenas registra-se as práticas folclóricas pelo seu valor etnográfico e como mecanismo de valorização da cultura popular, alertando para que o uso pode gerar malefícios para a saúde. 

A seta indica edema e rubor gerados por um terçol, 
segundo interpretação da cultura popular. 

Referências 

SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli .

Notas

[1] Benzimento informado pela sra. Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas (1997).
[2] Simpatias  e superstições mencionadas informadas em São João del-Rei (Aluísio dos Santos e Luís Santana, 1999; Édila Santos Passarelli, 2014). 

- Revisão: 24/12/2025. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Algumas crenças sobre a urina

O universo da cultura popular possui algumas tradições sobre a urina (mijo ou xixi, nos dizeres populares), aqui apontadas como elementos da cultura e não da medicina, que demanda longos estudos bibliográficos e pesquisa científica, laboratorial e clínica, com aprimorados testes. 

É usada como remédio contra inflamação de machucados, sobretudo aqueles causados por objetos metálicos enferrujados. As feridas são banhadas com uma infusão de urina e fumo de rolo desfiado, preparada numa bacia. Este preparado também é usado contra picada de insetos. Esta receita escatológica terá maior eficácia se for colhida a primeira urina da manhã e ainda mais se for de uma criança abaixo de 9 anos (tentativa de excluir a presença de frações de hormônios sexuais na urina). Outro uso como remédio é para tratamento de rachaduras no calcanhar, passando-se urina de bebê, segundo uso em São João del-Rei, na década de 1950, quando era comum nas crianças após uso generalizado de tamancos de madeira. 

O ato de urinar sobre algo é sinal de desprezo. “Ainda vou mijar na sua cova” é uma expressão popular. Indica que o outro a quem se dirige morrerá primeiro. 

Sonhar com urina, ou que se está em micção é índice de purificação espiritual; sinal de descarga das impurezas imateriais.  

A urina possui na tradição popular uma ação anti-feitiço: ela corta as piores mandingas. Se for derramada sobre um despacho ou objeto, neutraliza o suposto mal ali contido. Uma pessoa passando muito mal por causa de magia feita contra ela encontrará recurso pingando-se três gotas de urina em sua boca, ou uma gota sobre cada pé descalço. 

Essas são as crenças sobre a urina, colhidas de populares na tricentenária cidade de São João del-Rei, decerto são conhecidas em muitos outros rincões brasileiros, herdeiras de preceitos perdidos na distância temporal.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informantes: diversos, 1992-2014. 

Notas 

- Este Blog não recomenda o uso de nenhuma substância para qualquer tipo de tratamento, devido aos eventuais riscos à saúde, tão pouco a urina como remédio, devendo-se sempre buscar orientação médica. O registro de uso neste texto tem valor unicamente etnográfico, como tradição popular, sem fundamento científico. 
- Revisão: 24/12/2025. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Os presentes na tradição popular

O intenso costume de dar presentes encontra sua culminância no ciclo festivo do Natal. Ainda é tempo de tecer alguns breves comentários a este respeito, pois segundo as tradições populares este período só encerra no dia de Nossa Senhora das Candeias (02 de fevereiro). 

A pesquisadora paraense Maria Brígido estudou a origem da troca de presentes natalinos, atribuindo-a a antiquíssima tendência gregária humana, desde os clãs primitivos, passando pelos pagãos da antiguidade, lembrando das ânforas de perfume nos túmulos reais egípcios; os presentes fartos a Janus, deus romano do primeiro mês do ano; os Pastores de Belém, ofertando na tradição oral leite e lã ao Deus Menino, ou os Magos do Oriente, trazendo o ouro, o incenso e a mirra; os presentes de fundo fetichista dado às crianças, como amuletos para lhes livrar de mal olhado e os presentes doados pelo bispo europeu de Myra, São Nicolau, origem do personagem Papai Noel. 

Outrora o costume rural do leste das Vertentes (Bias Fortes, Antônio Carlos) adentrando pela Zona da Mata era uma troca de presentes em seqüência: quem o recebia no Natal, retribuía na passagem do ano. Entre estas pessoas, novo presente era dado no Dia de Reis e retribuído no Dia de São Sebastião, segundo nos informou a saudosa dona Elvira Andrade de Salles, nos idos dos anos noventa.

A crença popular, segundo anotações feitas de diversos informantes de São João del-Rei, enxerga alguns sinais indicativos de que a pessoa ganhará algum presente: 

1) se lhe pousar na roupa uma joaninha irá ganhar uma roupa nova; 
2) vestir por distração uma roupa do lado avesso, sem o propósito de fazê-lo; 
3) se a manga da camisa ficar virando do avesso sozinha, mesmo se for repetidas vezes desvirada; 
4) se aparecer uma mancha branca na unha (leuconiquia), circunscrita, à guisa de pinta. 

Mancha na unha à qual se credita um sinal de que a pessoa em breve ganhará um presente. 

A tradição da mancha na unha pode ter porém um sentido muito diverso. Entre 1992 e 1998, residindo em Natal/RN, ouvi várias vezes dizer que mancha na unha é sinal de que a pessoa falou alguma mentira. 

Como práticas favoráveis ao recebimento de presentes,  colhidas ainda em São João del-Rei, registra-se: 

1) o papel de presente deve ser guardado debaixo do colchão, entre este e o estrado da cama, pois logo se ganhará outro presente. O próprio presente de Natal que recebem as crianças é posto sob a cama, exceto se seu tamanho for muito grande, quando então é posto junto à árvore natalina. 
2) pendurar numa janela uma meia ou sapatinho de criança, às vezes alegórico, dentro do qual se põe uma cartinha a Papai Noel, com o pedido deste ou daquele presente. 

O conteúdo destas cartas, que as crianças escrevem, serve de excelente motivo à pesquisa de folk-comunicação, conforme será abordado neste blog oportunamente.

Carta a papai-noel. São João del-Rei, Centro, 1996.

 Referência Bibliográfica

SANTOS, Maria Graziela Brígido dos. Coletânea de textos sobre o Ciclo do Natal. In: Cadernos de Folclore, São José dos Campos, Museu do Folclore, [s.d.]. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Ulisses Passarelli  (carta) e Iago C.S. Passarelli (unha)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Superstições

Uma pequena coletânea 

Por todo o mundo o homem criou em sua relação com o elemento natural um imenso misticismo, um complexo sistema de crenças ditando regras para o convívio. As superstições são como restrições que freiam certos atos sob a ameaça de algo dar errado. Elas são como guias diante de algumas circunstâncias pouco convencionais.
Esta postagem enumera uma pequena coleção de superstições coligidas em São João del-Rei e na contígua Santa Cruz de Minas, centro-sul mineiro, Campos das Vertentes, durante a década de 1990.

01- Anel, pulseira, colar, brinco ou aliança de ouro escurece quando o usuário está triste;
02- anel com pedra preta é bom contra mal olhado e melancolia;
03- se achar um diamante no ato da garimpagem deve-se batizá-lo com sangue para quebrar seu encanto senão ele desaparece misteriosamente. Dá-se um pequenino furo ou talho na pele e deixa-se pingar uma gota sobre a pedra preciosa;
04- faz mal socar um pilão vazio. Sem conteúdo, espiritualmente, soca-se a família;
05- matar o pássaro chamado lavadeira (Fluvicola nengeta, tiranidae) dá azar pois é bento. Diz o povo que a lavadeira é uma ave que lavou a roupa de Nossa Senhora;
06- matar a ave anu (gêneros Guira e Crotophaga, cuculidae) dá azar;
07- matar o pássaro garrincha (Troglodytes musculus, trogloditidae) dá azar. Quem o fizer leva um coice de cavalo e se for criança “toma bomba” na escola (é reprovado, torna-se repetente);
08- joaninha (inseto coleóptero, coccinellidae) pousando sobre a roupa é sinal que a pessoa vai ganhar uma roupa nova;
09- coruja (aves estringiformes) cantando perto de casa dá azar para os moradores. Se cantar em cima da casa é prenúncio de morte de um morador. Previne-se o agouro dizendo quando ela canta: “vai pra missa”;
10- não é bom varrer casa com gente dormindo dentro;
11- patuá (amuleto) feito com couro de lobo previne contra picada de cobras;
12- ter um galo ou galinha pretos no terreiro da casa previne coisa ruim;
13- ter três galos no terreiro afasta a pessoa dos inimigos;
14- só segurar faca quando necessário. Segurar uma faca na mão sem necessidade o diabo atenta e a pessoa pode cometer um ato involuntário com a arma branca;
15- apontar para uma estrela dá verruga no dedo;
16- apontar para uma fruta na árvore ou abóbora no pé, faz com que ela seque, apodreça, caia;
17- andorinha (ave hirundinídea) voando baixo é sinal de chuva;
18- quando um beija-flor do rabo branco (troquilidae) entra em casa é prenúncio de uma visita ou carta chegando;
19- joão-bobo (capitonidae, Nystalus chacuru) cantando é indicativo certo de mudança no tempo: se aberto, vira para chuva;
20- formiga de correição (taoca) andando no terreiro indica que em até três dias vai chover. Para que não entrem em casa se risca a carvão cruzes no passeio;
21- gato ou cachorro emagrecendo é porque comeu cobra ou sapo, ou porque está dormindo sobre cinzas;
22- não se deve falar enquanto passa uma estrela cadente (meteorito), senão a pessoa fica linguaruda (maldizente). Para curar deve-se beijar o pano do altar;
23- calo doendo: indicativo de chuva;
24- osso que já quebrou um dia doendo: indica mudança da fase da lua;
25- lugar que cai muito raio é porque tem ouro enterrado. O ouro atrai os relâmpagos;
26- quando se varre uma casa não deve deixar o cisco parado pois acontecem desgraças. O demônio pediu a Deus licença para assentar sobre três coisas: a dança da quadrilha, o jogo e o lixo;
27- criança que morrer pagã vira anjo do mau;
28- não pode ir no chiqueiro ou galinheiro depois da meia-noite (zero hora), pois são lugares frequentados por espíritos imundos. O porco sai três vezes para comer a horas mortas e então come tudo o que vê pela frente, até o próprio dono. 


Notas e Créditos

*Texto: Ulisses Passarelli