Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 9 de junho de 2015

Adeus, Padre Pedro ...

É com grande pesar que São João del-Rei despediu-se hoje do queridíssimo Padre Pedro Teixeira Pereira, sepultado no Cemitério das Mercês, nesta cidade. Com uma vivência em plenitude na vida religiosa, 62 anos de sacerdócio, era em geral reconhecido pelas suas virtudes, pelo carinho extremado com os fiéis, sobretudo aos doentes, e pela pregação, que unia o lado catequético à elevada profundidade da palavra. 

Matosinhos se habituou a vê-lo no santuário, celebrando a missa das 15 horas das sextas-feiras, sempre muito concorrida. 

De sua popularidade servirão de testemunho os muitos relatos de quantos se sentiram beneficiados por suas orações e palavras e ainda, a missa de corpo presente na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, absolutamente lotada de devotos e com a presença maciça do clero. Os sinos anunciaram o lutuoso acontecimento o dia todo. A orquestra fez os violinos chorarem no coro da igreja. A banda em tom funéreo, o imortalizou com uma marcha. Na frente do hospital, funcionários o aplaudiram comovidos à passagem do féretro, membros de muitas irmandades, cingidos de opas, caminharam cabisbaixos no seu enterro. Entre pai-nossos e ave-marias, o povo desconsolado o encomendou. 

Este blog consternado manifesta condolências à família, parentes e amigos, rogando ao Espírito Santo a consolação para os que ficam com saudades e luz para o seu caminho na Casa do Pai. 

Padre Pedro Teixeira em 2006, durante a
Procissão do Imperador Perpétuo, no 

Jubileu do Divino. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 
Notas

- Revisão: 08/05/2025. 

Festa de Tiradentes

A Mesorregião Campos das Vertentes é abundante em festas religiosas e nelas o povo manifesta sua cultura. Na Microrregião de São João del-Rei, algumas se destacam pelo aspecto de romaria que conseguiram adquirir ao longo de muitos anos de desenvolvimento, elevando-se a devoção a um grau de extrema popularidade. Isto faz com que, não um grande público, mas sim uma multidão, encha a igreja em festa e seus arredores.

Como tal poder-se-ia listar de imediato a Festa de Nossa Senhora do Livramento (na zona rural de Prados), que acontece no último domingo de junho; a Festa de Nossa Senhora do Rosário (em Resende Costa), no primeiro domingo de novembro, e os grandes jubileus: de Santa Rita de Cássia (em Ritápolis), o de Nossa Senhora de Nazaré (em Nazareno), o do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e o do Divino Espírito Santo (ambos no Santuário de Matosinhos, em São João del-Rei) e por fim o da Santíssima Trindade (em Tiradentes). Estas são certamente as maiores festas religiosas regionais.

Cinquenta dias após a Páscoa é a grande festa de Pentecostes. Pois bem. O domingo seguinte a Pentecostes é o dedicado à Santíssima Trindade, que merece na cidade de Tiradentes uma grande festa jubilar centrada no santuário desta invocação, que remonta ao ano de 1776. Popularmente o povo a chama "Festa de Tiradentes", o que a estranhos pode soar como um evento dedicado ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, mas não é nada disso. Esta grande comemoração é concretizada em grande parte devido aos esforços e dedicação da Arquiconfraria da Santíssima Trindade.

A devoção é muito antiga e enraizada e tem sua base calcada em lendas populares, que este blog já registrou. Construído sob o regime de romarias, o jubileu é uma ocasião que movimenta um número enorme de devotos que demandam de toda a redondeza em prece aos pés "da santa", como habitualmente se referem à Santíssima Trindade. É comum o tratamento no feminino: "ela (a Santíssima Trindade) me deu uma graça de cura!" Apesar da referência no gênero feminino a representação material é por uma imagem de feição masculina marcante: um senhor de farta barba branca, olhar sério, sentado num trono, trajado em vestes sacerdotais, tiara papal, um Divino em forma de pomba aplicado no peito e mãos espalmadas em atitude de imposição, de bênção. Uma longa fita atada em seu punho vai até os fiéis em imensa fila, que nela beijam e se persignam pedindo a graça.

O Santuário da Santíssima Trindade é uma igreja setecentista, munida de amplo adro gramado e com os anos recebeu melhoramentos e benfeitorias para bem servir aos romeiros.

É comum a presença de gente vindo a pé de localidades vizinhas. De São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, por exemplo, caminham pela "Estrada Velha" (Estrada Real), beirando a Serra de São José, muitas vezes de madrugada, para alcançar a primeira missa, na alvorada. Quantas vezes, fui com meus pais nessa caminhada ainda na infância! Juntava-se uma turma familiar, com tios e primos, levando alguma sacola com uma merenda. A saída era entre 2 e 3 horas, com um frio medonho, e muita poeira. A luz elétrica cessava logo após a última casa de Santa Cruz e em toda a beirada de serra vinha-se no escuro total e com muita poeira. Via-se muitos grupos de pessoas fazendo a mesma jornada, romaria de várias famílias. Na chegada, uma breve parada junto ao chafariz para lavar a poeira das mãos e do rosto e reabilitar as energias com um cafezinho. E logo, assistir a missa das 5 horas, que terminava com o dia clareando.

Esta tradição diminuiu sensivelmente por conta do intenso fluxo de veículo na estrada nesse período, gerando nos romeiros a pé o temor de atropelamento, que aliás já aconteceu. Da mesma forma existe atualmente o medo de assaltos. Era muito comum o romeiro vir à pé de São João e voltar de trem, pegando a maria fumaça que até o começo da década de 1980 rodava de hora em hora nessa festa, por assim dizer, sempre lotada e costumava parar em Chagas Dória para os desembarques. Os jornais antigos de São João del-Rei registram com frequência notícias dos horários ferroviários especiais para servir a esta festa (*). Muitos romeiros vinham ou ainda vem de outras localidades vizinhas a pé ou a cavalo, ou mesmo de bicicleta, mas atualmente o maior volume é por meio de veículos automotores.

A poeira intensa na estrada que vem de São João, de uns anos para cá foi amenizada por caminhões pipa que pulverizam água sobre ela, no trecho do Morro da Mandioca. Já a subida pelo Morro do Pacu não tem mais poeira, posto que pavimentada por paralelepípedos.

A novena preparatória é movimentada, mas nos últimos dias o fluxo aumenta muito. No largo diante do santuário, na rua que lhe segue e mesmo na lateral do templo, externamente, muitas barracas dividem espaço no comércio de gêneros alimentícios, roupas (sobretudo de inverno), utensílios, ferramentas, brinquedos, diversos. Cumprida a parte religiosa, o visitante acorre às barracas e no comércio ambulante faz suas compras. Isto também faz parte da característica desta festa. Muita gente junta um dinheiro ao longo dos meses que lhe antecedem para justamente comprar algo interessante nessas barracas. Nas horas de pico o movimento de ir e vir de pessoas é enorme e chega a ser difícil transitar entre as barracas.

Dentre tantos produtos um muito típico, embora hoje bem menos abundante nesse festejo é a mexerica-pocã (ponkan). Eram vendidas em enfieiras. Hoje em redinhas de nylon amarelo.

A gaiatice popular não tardou alcunhar este jubileu de “Festa do RPM”. Sigla um tanto irônica, mas antes brincalhona que pejorativa, que resume algumas características que se via noutros tempos no Jubileu da Santíssima Trindade, de Tiradentes: Romaria, Poeira, Mexerica.

Alguns momentos do jubileu em especial merecem destaque. No Domingo da Santíssima Trindade, a missa das 10 horas, celebrada pelo bispo, com a parte musical a cargo da centenária e respeitada Orquestra Ramalho, de Tiradentes; a Procissão de São Vicente de Paulo, que sobe entre as barracas partindo da Matriz de Santo Antônio ao Santuário, que já a muitos anos vem sendo musicada pela Banda de Música Municipal Santa Cecília, de São João del-Rei, sob a batuta do competente Sr. José Antônio da Costa; a solene e grandiosa Procissão da Santíssima Trindade, que reúne uma multidão imensa de tiradentinos e visitantes; e, por fim, o concorrido leilão de gado.

Também merece uma especial atenção, sobretudo de quem tem um olhar mais investigativo nas questões etnográficas, a "Sala dos Milagres", onde se concentra um grande número de ex-votos variados, atestando graças alcançadas pelos fiéis. Outro ponto de especial interesse é o velário ao seu lado, no qual ardem dezenas de velas, sobretudo de cera, elevando súplicas e gratidões.

Seria muito interessante e útil o desenvolvimento de uma pesquisa a fundo do passado desta festa, e talvez já exista. Pequenos fragmentos visíveis em jornais antigos publicados em São João del-Rei, além de atestarem o imenso fluxo de fiéis são-joanenses para Tiradentes durante esta festa e sobretudo falando acerca do grande número de trens especiais para atender aos romeiros, também deixam ver nas entrelinhas algumas informações que a princípio sugerem que a estrutura festiva do passado pode ter tido uma certa similitude com o antigo Jubileu do Divino de Matosinhos. A título breve de exemplo, em 1883, descobriu a pesquisa séria do Sr. Kleber do Sacramento Adão (**), houve em Tiradentes a cavalhada durante o jubileu. Pois bem: no ano seguinte, a cavalhada aconteceu na festa de Matosinhos, graças aos esforços de Herculano de Assis Carvalho.

Na verdade a festa abarcava um grande número de cargos/personagens, que permitiam a participação de várias pessoas em diferentes e estratégicas funções. A esse respeito, vale conferir a relação seguinte[1], excluída a longa lista de nomes dos mordomos e juízes, estes, sempre aos casais:

Pauta dos Mesários da Confraria da Santíssima Trindade para o anno de 1927
Império: Imperador, Imperatriz, Alferes da Bandeira, Pagem do Estoque, Procurador dos Pobres, Esmoler-mor;
Mesa Administrativa: Presidente, Vice-Presidente, Secretário, Síndico, Procurador; Irmã Presidente, Irmã Vice-presidente, Vigário do Culto Divino, Vigária (sic) do Culto Divino, Mestra Assistente, Irmã Enfermeira, Zeladoras;
Juízes e Juízas: do Divino Espírito Santo ..., Senhor Bom Jesus de Matosinhos..., Nossa Senhora das Dores..., São José..., São João da Matta..., Nossa Senhora do Carmo..., Santo Antônio..., Menino Jesus...
Mordomos ...
João Trindade Nascimento - Secretário - 31/12/27

A maioria destes cargos tem procedência portuguesa e sobretudo açoriana. Surgem assim igualmente nas Festas do Divino Brasil afora e por extensão nesta da Santíssima Trindade de Tiradentes. Notar inclusive a presença de cargos consagrados ao Divino Espírito Santo e Senhor de Matosinhos[2]e até um imperador, aliás um sacerdote, o Padre João Theodorico Vellozo. 

Fica pois a sugestão à pesquisa, diga-se de passagem, tentadora. As antigas notícias jornalísticas e outras fontes documentais poderão mesmo comprovar que o Jubileu da Santíssima Trindade era muito parecido às antigas festas de Matosinhos? Talvez, umas e outras tenham de fato sofrido grandes mudanças ao longo dos anos ...


Aspecto do Santuário da Santíssima Trindade durante uma celebração. 
Uma parte da fila de fiéis para beijar a imagem da Santíssima Trindade. 

Barracas. 

Notas e Créditos

* Leia também sobre as lendas de surgimento da devoção à Santíssima Trindade em Tiradentes, clicando neste link: TIRADENTES/MG: duas lendas religiosas.
** ADÃO, Kleber do Sacramento. Devoções e diversões em São João del-Rei: um estudo da festa do Bom Jesus de Matosinhos, 1889-1924. Campinas: UNICAMP – Faculdade de Educação Física, 2001. Tese de Doutorado.
*** Por exemplo, O Correio, n.398, 26/05/1934, comenta sobre o movimento de trens partindo de São João del-Rei e da estação de Prados.
**** Texto: Ulisses Passarelli.
***** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 31/05/2015.



[1] - Extraída em 2003 de um quadro afixado na parede do vão lateral direito do Santuário da Santíssima Trindade, debaixo da escada que dá acesso à sua imagem. Há também fotos históricas dos romeiros e ainda do mutirão, com vários carros-de-boi, levado a efeito durante a construção da murada do templo, de 13 de junho a 9 de outubro de 1933. Para maiores detalhes sobre este jubileu irmão do são-joanense ver: MAIA, Pedro A., Padre. Peregrinos da Santíssima Trindade. São Paulo: Loyola, 1986.
[2] - O Jubileu do Sr. Bom Jesus de Matosinhos de 2009 teve a visita da imagem da Santíssima Trindade de Tiradentes, a cargo da Arquiconfraria da Santíssima Trindade. Como retribuição o Jubileu da Santíssima Trindade de Tiradentes do ano seguinte contou com a presença da imagem do Senhor de Matosinhos, com o aval das respectivas autoridades eclesiásticas e neste último caso, sob a incumbência dos festeiros do Divino de Matosinhos. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 12

A torto e a direito – de qualquer maneira; sem critérios; de um modo ou de outro.

Abobrinha - mentira, algo sem fundamento, equívoco, diálogo vazio, conversa fiada. Diz-se "escrever abobrinha" ou "falar abobrinha"

Abotoar o paletó – morrer.

Batata - o mesmo sentido de "abobrinha". "Falô cada batata...". 

Batata assando - confusão se aproximando, problema próximo, dificuldade à vista. "Minha batata tá assando". O mesmo que "batatinha assando".

Bater com o rabo na cerca – morrer.

Batume – emboleira, cipoal, amontoado de ramos ou cordas, embaraço.

Broca – fome extremada. “Está numa broca danada!” (isto é, faminto).

Bruto – um dos muitos cognomes do capeta. Diabo.

Caçar rumo – ir embora; buscar um destino; encaminhar-se.

Caçar sua turma – expressão de expulsão do ruim: “Vá caçar sua turma!”, ou seja, vai ficar junto com as pessoas que tem seu mesmo caráter e personalidade.

Cacife – status, entendimento, influência, respeitabilidade, expertise.

Cacumbu – lâmina desgastada; faca velha. Traste.

Capiroto – demônio.

Catimbar – fazer catimba: agir propositalmente de modo a atrasar ou atrapalhar algo. Neste sentido, “enrolar”. Catimbeiro: quem costuma fazer catimba.

Catraia – sinônimo pejorativo de baixa meretriz.

Chapar a mão – bater, dar um tapa, esbofetear. “Chapar a mão na orelha”; “Chapar a mão no pé do ouvido”.

Chorar a pitanga – 1- regatear, implorar por algo ou para baixar um preço (“chorei a pitanga, aí ele fez mais barato”); 2- surrar, bater, dar pancada (“tava insultâno, chorei a pitanga nele”).

Chupar o olho e lamber o buraco - trapacear num negócio, tirar lucro imenso, passar adiante algo de pouco valor como se valesse muito. "Chupou o olho dele e ainda lambeu o buraco". 

Coco – pessoa resistente a uma doença ou à idade; tenaz: “o velho é coco, tá com noventa e tantos...” (anos)

Comer capim pela raiz – falecer; ser enterrado.

Confundir alho com bugalho - misturar os assuntos, ou os conceitos. Julgar uma coisa por outra. Não entender uma questão. "Misturou alhos com bugalhos..."

Coração a cento e quarenta - acelerado, fortemente emocionado, agitado. Também se diz a cento e vinte. "Meu coração ficou a cento e quarenta!"

Descansar o esqueleto – repousar. Deitar-se. O mesmo que “descansar as canelas”. Habitualmente se diz após um dia exaustivo de serviço. Ver: esticar o esqueleto.

Descer a ripa – bater, surrar. O mesmo que “sentar o bambu”, “descer o bambu”, “descer a catana”.

Encardido – o satanás. O mesmo que “o imundo”. Pode-se considerar apesar do caráter ofensivo da palavra, uma forma eufêmica, evitando-se pronunciar o seu nome, que se acredita, o atraia. Muito usado nas narrativas de contos populares.

Esticar o esqueleto – morrer. O mesmo que “descansar as canelas”.

Fofar o olho – bater, espancar. O mesmo que “copar o olho”.

Latumia – algaravia, mistura caótica de sons e vozes, barulhada.

Leão da Biquinha – aquele que se faz de bravo, nervoso, perigoso mas é inofensivo. Quem finge uma vitalidade que de fato não tem. Referência às carrancas de leão esculpidas em pedra que ornam chafarizes, dando saída à água em bica, por um cano instalado na boca [1].

Magrela - bicicleta. "Montar na magrela": subir na bicicleta para pedalar.

Miussaia  - miúdo.

Montar no porco – ir embora, fugir, partir, debandar, escafeder-se, “picar a mula”.

Não é flor que se cheire... – diz-se daquilo ou daquele que não é confiável.

Não tem tu, vai tu mesmo - se não tem algo melhor, então se vale daquilo que está disponível. 

Nascer cabelo no ovo - diz-se de algo impossível de acontecer. Expressão comparativa do inimaginável. Referência para frisar o que não acontecerá: "é mais fácil nascer cabelo no ovo que ela gostar de mim..."

O pato cagou é dia! – expressão usada para acordar ou incentivar um preguiçoso, que não gosta de acordar cedo ou de desenvolver atividades matutinas.

Parangolé - confusão, discussão, "bate-boca", mistério, algo oculto impedindo a verdade de aparecer, armação, "treta". "Armou um parangolé com o vizinho". 

Pegar o boi – 1- lucrar, ter vantagem. “Comprou o carro barato, pegou o boi...”; 2- “pegar o boi pelo chifre”: enfrentar um problema grande, afrontar a questão, assumir uma demanda com todo o vigor.

Pirulitar - sumir, fugir, desaparecer. 

Por um triz – quase, por muito pouco, na iminência de... “por um triz não caiu na pirambeira”

Pra tudo que é quinze bandas – para todo lado, por toda parte. Debandada geral. Fuga espavorida: “quando a bomba explodiu foi gente pra tudo que é quinze bandas!”

Quadrado – desatualizado, anacrônico, atrasado. Aquele que não acompanha as mudanças de conceito da sociedade e permanece com um pensamento antiquado à sua época.

Quebra-torto – mexido, mata-fome. Pequena refeição improvisada para sanar uma fome atroz.

Reboleira – emboleira. Qualidade do que está embaraçado ou burocratizado: “buscou a papelada da empresa, uma reboleira de documentos”. Tumultuado: “reboleira de gente”.

Rôia - corruptela de rolha. Sentido: sujeito ruim de negócio, pessoa de convivência difícil, pessoa que atrapalha o andamento natural das coisas, indivíduo que atrasa os procedimentos. Aquele que dificulta. Pessoa desagradável, indesejável. Neste sentido, o mesmo que "fumo" ou "fumo bravo". "Fulano é rôia!". 

Tanjão - mal enjambrado, largo, fora da medida, desajeitado, deselegante, traje além da medida corporal. "Roupa tanjona".

Tchongo (a) – idiota, bobalhão, de pensamentos lentos. Abestado.

Tiririca – nervoso, irritadíssimo. “Ficou tiririca!”. “Fulo de raiva”.

Traulitada – 1- pancada, batida; 2- má resposta, grosseria, chamada de atenção. “O chefe deu-lhe uma traulitada.” 

Treta - cambalacho, maracutaia, confusão, briga, negócio escuso. "Arranjou uma treta danada com o irmão..."

Xexelento - manhoso, preguiçoso, cheio de manias e não me toques.

Xinxa - aperto, dificuldade, limitação, impedimento. "A autoridade botou ele na xinxa!" O termo se refere a um artefato usado pelos boiadeiros quando vão conduzir um touro muito grande, forte e agressivo: para impedir que fuja ou ataque alguém numa investida, atam-lhe por uma corda uma pata traseira com uma dianteira ("mão"), sempre cruzada: a direita com a esquerda ou vice-versa. "Por o boi na xinxa". A corda tem a dimensão apenas suficiente para um passo. Se o boi correr, embaraça e cai, sendo logo dominado.


Escultura zoomórfica em pedra, figurando um leão,
que servia à saída de água. Praça da Biquinha,
Bairro Tijuco, São João del-Rei. 21/04/2015. 
Uma das bicas d'água com cara de leão esculpida
em pedra, no Chafariz da Santíssima Trindade, sito
no adro do santuário da mesma invocação. Tiradentes. 31/05/2015. 

Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli 
** Fotografia chafariz SS.Trindade: Iago C.S. Passarelli



[1] - Essas carrancas de leão existem em outras cidades, como por exemplo no Chafariz da Santíssima Trindade, em Tiradentes. Mas em São João del-Rei ouvi uma explicação muito específica, que a expressão "Leão da Biquinha" pode também ser uma referência a uma escultura de leão (de corpo inteiro), que existe nesta cidade na Praça Dr. Fausto Mourão, (a popular “Praça da Biquinha”), afixada defronte o Estádio João Lombardi, do Minas Futebol Clube. “Leão da Biquinha” é também a alcunha carinhosa aplicada ao referido clube nos meios populares. Segundo Gaio Sobrinho, essa escultura de leão seria oriunda do antigo Colégio São Luiz, situado no quilômetro ferroviário 139 da extinta Linha do Sertão, da EFOM. O educandário, muitíssimo conceituado, era dirigido pelo famoso Padre Nicolau Badariotti, à época em terras do município são-joanense, atualmente território de Conceição da Barra de Minas. O padre seria o autor da escultura (Memórias de Conceição da Barra de Minas, Belo Horizonte: Imp. Universitária, 1990. 253p. p.92)  

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Dia Maior do Jubileu do Divino 2015

No último dia 24, Domingo de Pentecostes, encerrou-se em São João del-Rei a tradicional Festa do Divino, um jubileu que acontece no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. O dia maior foi o mais animado dos últimos cinco anos e a sua organização evoluiu.

Andor do Divino Espírito Santo. 
Como de costume, pelas oito da manhã começaram a chegar os dançantes de diversos congados convidados, que logo seguiam para o salão, onde lhes foi servido o café da manhã com pães e quitandas. Cada qual entrou e saiu cantando do salão e de praxe com versos de gratidão pelo desjejum oferecido.


A mesa do café da manhã. 

Na sequência, tomando o largo, apresentaram-se ao povo ou dançaram no adro quando a celebração festiva já tinha terminado. Então rumaram para o Salão de Santo Antônio, para recolher o reinado. Cantaram suas saudações aos reis, rainhas, príncipes e princesas. É de se notar que o referido salão ladeia a linha férrea e quando o trem passa, a atmosfera como que se carrega de nostalgia e simbolismo: os dançantes de fora da cidade, não afeitos a ver a maria fumaça, logo se voltam para vê-la fumegando e os passageiros por sua vez, turistas, fixam aquela visão colorida e fugaz dos congadeiros, em retratos e vídeos. O apito da locomotiva se mescla aos tambores e sua fumaça evoca um incenso. Cortejo de retorno formado, a guarda de Passa Tempo é a última, pois cabe ao moçambique mais antigo na festa trazer a 1ª coroa e seu Capitão-mor, sr. Luís Maurício, é o Capitão de Coroa desse festejo desde 1999.

A chegada à igreja é esfuziante e os coroados foram deixados no interior do templo, enquanto os congados passaram diante do altar e saudaram o sagrado com muito carinho. Seguiram para o almoço. A chamada dos reis e rainhas deu-se nesse momento.

O almoço é um momento de grande confraternização, instante no qual dançantes de várias guardas de congado e cidades se irmanam num burburinho imenso, conversando alegremente. A equipe da cozinha é grande e zelosa e todos os anos trabalha com afinco para servir centenas de refeições gratuitamente. Cada grupo agradeceu o alimento e saiu do salão dançando rumo à Praça de Santa Terezinha. Lá, onde um mastro sinalizou a comemoração, foram em visita à igreja, onde o andor do Rosário, muito bem enfeitado de flores, recebia uma verdadeira peregrinação de congadeiros. As guardas entravam dançando pela porta principal da Igreja de Santa Terezinha e saíam pela lateral, sucessivamente. Muita gente moradora dos arredores juntou na praça para assistir.

Montou-se o cortejo imperial, retornando ao santuário. A praça estava cheia de dançantes e de assistência. O vilão de Perdões após exímia apresentação individual, alegre e colorida com a percussão de varas enfeitadas, dividiu-se em duas alas e seguiu pela lateral do cortejo, de fora a fora, até a dianteira, assumindo-a, como sói acontecer com as guardas de corte. Na sua dianteira só o grande estandarte do Divino de abre-alas. Se o vilão é o primeiro, o moçambique é último, o do Capitão de Coroa, como já foi dito, seguido pela corte do Imperador, o próprio e seu futuro substituto, com todo aparato habitual e o andor do Rosário. Entre o moçambique e o vilão, seguiam os outros congados, cada qual com seu ritmo, fardamento peculiar, musicalidade específica, cantares, danças, adereços, instrumentos: pelo estilo dos catupés, vieram aqui mesmo da cidade, dos bairros: São Dimas (Capitão Moacir Santana), São Dimas (Capitã Maria Auxiliadora, uma guarda mista, que também bate moçambique), Matosinhos (Capitão Tadeu), Restinga (Ritápolis), Ritápolis (cidade), Resende Costa (Terno São Cosme e São Damião), Coronel Xavier Chaves, Conceição da Barra de Minas, Santa Cruz de Minas, Prados e Cláudio; marujos do Capitão Ganair (presença assídua desde 1998), de Conselheiro Lafaiete; congos de Itutinga, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei) e São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei); moçambiques bate-pau de Santana do Garambéu, Paraíso Garcia (Santa Rita do Ibitipoca) e Barroso; e ainda outros moçambiques, do tipo jomba: do Bairro São Geraldo em São João del-Rei (bandeira de Santa Efigênia), do Bairro Solar da Serra da mesma cidade (também uma guarda mista que bate igualmente catupé), de Macaia (Bom Sucesso), Bom Sucesso (cidade), Ibituruna e Pedra Negra (Ijaci). Notória a presença do grupo do Rio das Mortes, que não tem o costume de sair para outras festas como esta e foi por todos muito bem visto e admirado.

Reinado e Imperador chegam ao Santuário.

O cortejo serpenteou pelas ruas de Matosinhos até chegar ao santuário. A musicalidade impressionante tomou conta de todo o itinerário. Na entrada, já o Imperador Coroado sob a umbela recepcionava cada grupo e ofertava uma lembrança da festa, uma peça artesanal simbolizando a pombinha do Divino. Todos os grupos novamente fizeram entrada por dentro do Santuário lotado, sob uma assistência atenta, que também estava no adro, fazendo um corredor para a passagem dos congados. 

A missa solene, celebrada pelo Bispo Diocesano, Dom Célio de Oliveira Goulart, contou com a participação também do Vigário Paroquial de Matosinhos, Padre Geraldo Sérgio França e do Diácono Permanente Ademir Noel, aliás presente com muita dedicação à festa inteira, desde o primeiro dia da novena. A reflexão religiosa tematizada no "Espírito Santo na vida da Igreja", analisada a cada dia de novena sob a ótica dos seus sete dons, foi em verdade coroada no dia maior, tanto na missa festiva matutina quanto nesta, solene, por uma homilia muito bem pregada, que ressaltou a importância litúrgica da data, a bem da verdade, aniversário da Igreja. Em todo o mundo o Espírito Santo dá a luz e o vigor ao povo de Deus para não esmorecer em sua caminhada ao longo da vida. 

Apagando o Círio Pascal. 
Ao fim da celebração houve a cerimônia para apagar o círio pascal e na sequência a coroação do novo Imperador. O sr. Dácio Sebastião de Carvalho, portando as insígnias e trajes de costume, fez a entrada pelo centro do santuário, tendo de um lado a esposa e do outro o filho, até o altar, onde subiu e saudou as autoridades eclesiásticas. Com a ajuda do Mestre de Cerimônias, sr. Otávio Félix Pereira da Silveira, também festeiro do Divino a muitos anos, e sob a tradicional e indispensável locução do insigne Professor Abgar Tirado, que narrava aos fiéis as etapas da coroação, o Sr. Dácio entregou a salva, a coroa, o cetro, a capa e a faixa, nesta ordem, e assim descoroado voltou-se ao fiéis saudando-os alegremente e sendo ovacionado. Deixou então a parte do altar e veio se postar junto ao espaço reservado aos imperadores de outros anos que acompanhavam a cerimônia, desta feita sem participar do cortejo abre-alas de entrada desta cerimônia, o que, aliás, não foi em geral do agrado de alguns. O Sr. Francisco José do Nascimento, eleito imperador para o ano de 2015, já postado junto à porta de entrada, trajado de terno completo como é de praxe ao cargo, ladeado pela esposa e seguido por familiares, fez sua entrada ao som de três jovens músicos solistas da Banda Sinfônica do Santuário, sob a batuta do sr. Ronaldo Medeiros, que tocaram a Marcha Triunfal de Aida (Verdi). O Imperador Eleito subiu ao altar com a esposa, que foi convidada a afixar o brasão dos imperadores no paletó do esposo. Recebeu sequencialmente a faixa e a capa. Ajoelhou-se num genuflexório e o bispo o coroou, sob as palmas da igreja lotada. Recebendo a salva e o cetro, se ergueu e voltou-se aos devotos, com estampada alegria no rosto e a prerrogativa do papel assumido que demanda muito trabalho e dedicação para a preservação do jubileu. Muita gente acorreu para cumprimentá-lo e fazer fotografias. 

Cerimônia de coroação do novo imperador. 

No adro, após a missa, alguns congados fizeram apresentações. A procissão contou com uma grande massa de fiéis, sendo aberta pelos cavaleiros com estandarte e bandeiras. A Comissão do Divino em boa hora distribuiu velas aos devotos. A liteira ia na frente, o andor de Nossa Senhora da Lapa ao centro e o do Divino na retaguarda, os três iluminados e muito bem enfeitados por flores. Alguns congados acompanharam já que a maioria nessa hora já partira. Deles se destacou o de Passa Tempo que não parou de bater um minuto sequer desde a saída, com seu grande coro de vozes entoando vigorosamente os cantos de fundo religioso. Na chegada houve a bênção do Santíssimo Sacramento, conduzida pelo Pároco e Reitor do Santuário, Padre José Bittar. 

Andor de Nossa Senhora da Lapa no momento da chegada da procissão. 

Os mastros foram descidos pelas vinte horas, pelo congado do bairro, com o Capitão e Imperador José Tadeu do Nascimento, e a presença conjunta do Capitão de Mastro, José Adnei da Luz e da também bem vinda ajuda do Capitão de Ritápolis, Geraldo Marcelino, que conduziram o ritual. Tiveram ajuda imediata como todo ano tem acontecido do Capitão Luthero Castorino, um dos fundadores e imperador. Muita gente assistiu à descida. 

Descida do mastro de Santo Antônio. 
O show de encerramento iniciou imediatamente, cantando a dupla Márcio e Heleno para uma boa platéia. Na víspora e nas barraquinhas de comes e bebes havia grande movimento.

Mais um ano vencido, o 18º do resgate. A festa ganha maioridade em sua nova fase e isto exige muito de todos os membros da Comissão do Divino. Abnegação, maturidade, fé, disponibilidade e responsabilidade são indispensáveis a um festeiro de jubileu. Como ponto negativo somente há de se lamentar e muito à falta da Missa Inculturada, momento que rememora a saga do africano, a sua força, a sua luta. Em compensação não tivemos no seu dia a igreja lotada como antes... Muita gente reclamou a falta deste evento religioso e pôs esperanças no seu retorno para o próximo ano. 

Os carismas, os dons, os frutos se manifestam de muitas formas. Inclusive nas expressões culturais. Por elas o povo manifesta ao seu modo e em sua linguagem a fé mais legítima. O folião e o congadeiro tem muita espiritualidade, à flor da pele em verdade. Seu canto é um louvor genuíno, espontâneo, sempre com muita alegria, respeito e musicalidade, porque quem gosta de tristeza não é de Deus. E quem duvidar que venha ver: a cada ano a alegria do dançante e da assistência nesta festa gigante do povo de Deus. É pela sua felicidade que o jubileu se processa e consolida. Uma alegria jubilar, carismática, contagiante. É fácil encontrar no meio dos fiéis gente emocionada com a atmosfera envolvente que o evento cria. É um jubileu singular e a mais importante festa com elementos da cultura popular na região. 

É por causa desta verdade que não se acha palavras para expressar, apenas meios de sentir, que ouvi no meio da multidão alguém dizer: "toda festa da Igreja é boa, mas a do Divino, é especial!"

Imperadores de vários anos durante a Missa Solene. 

Imperadores de vários anos durante a Missa Solene. 
No salão, uma congadeira de Barroso saúda a bandeira do congado de Matosinhos,
que chegou para o café da manhã.
O congo de São Gonçalo do Amarante em marcha de rua. 
Congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno se apresenta no adro. 
  
Do Bairro São Dimas, o congado do Capitão Moacir, de São João del-Rei. 

O tradicional congado de Conceição da Barra de Minas. 

Congado de Cláudio adentra pelo santuário. 

Congo de Itutinga, com seus muitos reco-recos de bambu. 

Exuberância das fitas dos marujos de Conselheiro Lafaiete. 

Do município de Santa Rita do Ibitipoca, hábeis moçambiqueiros
percutem bastões num ritmo muito bem marcado. 

Guarda da cidade de Ritápolis, com seus grandes tambores de guia. 

Sempre presente, o congado de Santa Cruz de Minas. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli.
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 24/05/2015.
*** Para saber mais, leia também:

PROCISSÃO DO IMPERADOR PERPÉTUO 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Procissão do Imperador Perpétuo 2015

Encerrou ontem o grande jubileu em honra ao Espírito Santo, a tão querida e concorrida Festa do Divino, cuja beleza e valor religioso nunca é demais exaltar. O Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei, após os dias anteriores de novena, esteve lotado de fiéis nos dois últimos dias, favorecidos por um tempo aberto, embora frio. 

A Procissão do Imperador Perpétuo, no dia 23 do corrente, transcorreu bem na sua travessia pelo Centro Histórico, com certo atraso, verdade o seja, mas animadamente musicada pelas folias presentes, que ao longo de todo longo trajeto se alternaram na cantoria. Como de costume, o cavaleiro foi à frente em abre-alas, com o grande estandarte, ladeado pelos ponteiros, também a cavalo; na charrete veio o Mordomo da Bandeira, Sr. Mário Calçavara, folião respeitado e querido por todos. Muitas bandeiras vermelhas do Paráclito vieram na sequência, seguidas pelas folias, a corte, o Imperador Coroado, sob a umbela e guarnecidos pelos guarda-coroa de espadas em punho, e por fim, a liteira com Santo Antônio, trazida por soldados montanhistas do glorioso 11º B.I. 

O pároco de Matosinhos, ao centro da procissão, vinha com uma nova imagem do Divino em forma de custódia, abençoando os fiéis ao longo do caminho, com muito carisma. 

As casas em geral pelo itinerário foram receptivas, montando altares externos, enfeitando sacadas com toalhas e flores. Destaque para a comunidade da Gruta do Divino (onde aguardava a Folia do Carlão) e a de Santa Clara (onde ingressou o Imperador Eleito), bem como para a travessia Rua Bernardo Guimarães. 

A missa teve grande número de devotos e cada folia fez um canto da celebração.

Por fim, após um café com quitandas, as folias apresentaram-se no coreto para um excelente público. A apresentação contudo foi maculada por problemas de sonorização. 

Para registro segue o nome das folias do Divino presentes: folia das Águas Férreas, do folião Geraldo Elói; folia do Jardim São José ("Folia das Mulheres"), foliã "Lilia"; folia da Rua São João, folião Antônio Ventura (as três do Bairro Tijuco); folia do Guarda-mor, folião João Matias; folia da Colônia José Teodoro, folião "Carlão" (todas estas folias de São João del-Rei) e ainda, uma folia de São Sebastião, vinda de Coqueiros, distrito de Nazareno, do folião Celso Antônio da Silva, aliás, também presente no ano passado. 

O Imperador do Divino e o Pároco. 

Cavaleiros abrem alas. 


Aspecto geral da procissão. 


A cor de Pentecostes invade as ruas da cidade. 

Folia da Rua São João.

A tradicional Folia das Mulheres. 

Folia das Águas Férreas. 

Folia do Guarda-mor na Rua Getúlio Vargas,
primitiva Rua Direita. 

Folia de Coqueiros e ao fundo a Igreja do Rosário,
no centro histórico de São João del-Rei. 

Marungos da folia de Coqueiros. 

Folia da Colônia José Teodoro cantando durante a celebração
no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

A liteira no Santuário. 

Apresentação no coreto.
Nesta fotografia, a Folia do Carlão. 

Café dos folieiros, no Salão da Catequese. 

Último devoto.

Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotos: Iago C.S. Passarelli, 23/05/2015.

Notas 

- Revisão: 12/05/2025. 
- Para saber mais sobre esta festa leia também:

DIA MAIOR DO JUBILEU DO DIVINO 2015

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Notas sobre o uso das congonhas na cultura popular

O imenso interior brasileiro, sujeito que foi à hibridação cultural de várias etnias, desde data imemorial se valeu da química das plantas na medicina popular buscando a cura, tratamento ou alívio de muitas doenças. A natureza vasta e rica forneceu desde sempre a matéria prima. Em Minas Gerais não seria diferente. Vasconcelos (1994), no princípio do século XX já aludia ao uso dos vegetais como remédio pelo povo mineiro: "Os empíricos pelos sertões da capitania não curam com as drogas das boticas, senão com raízes vegetais, e avançam idades a que não chegam os habitantes das cidades e vilas." (p. 67)

Dentre tantas plantas medicinais estão as congonhas, que gozam de imenso prestígio. Por toda a região centro-sul do estado de Minas Gerais está presente o seu uso, aliás, muito arraigado. Sobretudo, nas áreas serranas do Lenheiro e São José, alguns moradores das cercanias as coletam tradicionalmente, a partir das comunidades do entorno. Colher congonha na Semana Santa é uma tradição muito forte, para guardá-la, desidratada, para uso ao longo do ano, supondo-a abençoada. Os molhos de ramas com folhas, colhidos na natureza, são amarrados e deixados a secar, pendentes em algum canto alto. Quando necessário, retiram-se algumas folhas para a decocção, infusão ou para moer e coar o pó com água fervente.

Congonha é o nome de algumas plantas cujo uso popular é muito disseminado, seja na fitoterapia - principalmente para os rins, sob a forma de chás. Sampaio (1987) explicou a etmologia: "CONGONHA: corr. Congõi, o que sustenta ou alimenta; é a erva-mate, variedade (Ilex congonha). Minas, Bahia."

O chá de congonha é de uso costumeiro, daí sua analogia ao mate. Em muitos casos é de uso diário. O consumo com finalidade medicinal é bem mais eventual. Burton (1942), em meados do século XIX, viajando por São João del-Rei e Lagoa Dourada, rumo a Morro Velho, passou por Congonhas em 1867 e anotou:

"Congonhas é chamada 'do Campo', para se distinguir de Congonhas de Sabará (1). O nome é comum no Brasil, sendo aplicado pelos tropeiros e viajantes a muitos lugares onde são encontradas as diversas variedades de iliciáceas, da qual a mais valiosa é o mate (Ilex paraguayensis) (2) (...) A palavra brasileira congonha é genérica, abrangendo todos os arbustos dos quais se faz "o chá do Paraguai". É também especificamente aplicado ao Ilex congonha, comum em Minas e no Paraná. O chimarrão de congonha é a única infusão bebida sem açúcar. A caraúna é uma congonha de qualidade inferior."

Entretanto, Brandão (2018), posiciona as congonhas do gênero Ilex na família Aquifoliaceae, mencionando a Ilex paraguariensis (chá mate), segundo a qual, o uso estimulante graças à presença de cafeína, foi aprendido com a cultura indígena, e menciona também a presença de "substâncias fenólicas com atividade antioxidante". Relata a ausência de estudos com a espécie Ilex dumosa, que supomos se tratar da congonha-amargosa, caúna ou caraúna. 

Buzatti (s/d), baseando-se no autor supracitado, deduziu: "É provável, portanto, que antes do aparecimento do café, a congonha tenha sido a bebida do dia-a-dia dos tropeiros e viajantes."

O uso é in natura, da folha verde, colhida de imediato, se não, dela seca: colhidas as folhas, são postas à desidratação sobre uma peneira, ou caso não estejam desfolhadas, se for apanhado o ramo, amarra-se em feixe e se pendura à secagem por vários dias. Depois de seca se faz o chá fervido. Existe outra forma de uso: as folhas secas são torradas, moídas e misturadas ao pó de café, com o qual é coada conjuntamente e bebida. Café com congonha tem um gosto muito peculiar. É bastante usado na zona rural, acompanhado das famosas quitandas, considerado como iguaria e remédio.

O povo distingue algumas variedades de congonha, dando preferência a esta ou aquela conforme o destino medicamentoso pretendido. As mais populares são a congonha-bugre, congonha de bugre ou apenas bugre (3) e a congonha bate-caixa, de folhas grandes, coriáceas, que percutidas uma contra a outra produzem um som inesperado, motivo do nome. É também alcunhada de forma bem humorada de "congonha-mijona", uma referência ao alto poder diurético a ela supostamente atribuído. Quem bebe congonha, urina muito ("mija", conforme o vocabulário popular), com alta frequência e volume, uma urina bem límpida e sem odor intenso. Mas também existe a congonha-amargosa, preferida para as questões hepáticas; a congonha-serrinha, de folhas pequenas e de bordas picotadas, como os dentes de um serrote, preferida para o estômago; a congonha-douradinha, de folhas miúdas, que secas ganham uma tonalidade amarelada e produzem um chá bem amarelo, procurada para limpeza de canais urinários, sendo predileta pelos homens para questões de próstata. A douradinha também tem uso em alguns terreiros, como erva votiva à orixá Oxum. 

Há quem considere outros tipos de plantas como variedades de congonha. Tal acontece com a caroba (ou carobinha do campo), a ticongô e a caraúna. A caroba é procurada sobretudo como depurativo. A ticongô não é para ingestão. É uma congonha buscada para banhos de descarrego, na linha africana, ou seja, dos pretos velhos, tradição de alguns terreiros de umbanda para firmeza dos trabalhos dos "vovôs" e "vovós", como habitualmente se diz. 

Esta planta nomina a famosa cidade histórica mineira de Congonhas, célebre pelas obras do artista Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho". Outra invocação à planta é o nome da cidade de Congonhal, no sul de Minas Gerais.

Conforme este blog sempre alerta nos casos de "medicina popular", os registros de uso relatados nesta página eletrônica tem valor meramente cultural, como relato etnográfico. Não recomendamos o uso, ou consumo, que depende de estudos específicos, devido a possíveis riscos à saúde.

01-Congonha Bate-caixa (Palicourea coreacea, rubiaceae).
Serra de São José, Santa Cruz de Minas, 30/11/2009.

02- Congonha bugre (Rudgea viburnoides, rubiaceae) alojando um ninho
 de saíra da mata (Hemithraupis ruficapilla, thraupidaeSão João del-Rei, 14/10/2013.  

 A

B
03 A e B- Congonha-serrinha. São João del-Rei. 14/05/2016. 

04- Ticongô, já desidratado, para banhos de descarrego.
São João del-Rei, 16/05/2015.  


04- Congonha-amargosa, vendida na Sexta-feira da Paixão
diante da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar,
juntamente com outras ervas medicinais e aromáticas.
São João del-Rei, 25/03/2016. 

05- Congonha-douradinha: folhas desidratadas e chá.
São João del-Rei, 24/03/2026. 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Plantas úteis e medicinais na obra de Frei Vellozo. Belo Horizonte: 3i Ed., 2018. 104 p.il. p. 43. 

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.

BUZATTI, Dauro José. Viagem as Minas dos Cataguases. Contagem: Fundação Mariana Resende Costa, [s.d.]. 123 p. p. 107.

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359 p. p. 225.

VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Estudo crítico por Carla Maria Junho Anastasia; transcrição e pesquisa histórica por Carla Maria Junho Anastasia e Marcelo Cândido da Silva. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. 188 p. (Coleção Mineiriana. Série Clássicos). 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: 01 e 05 - Ulisses Passarelli; 02, 03 e 04 - Iago C.S. Passarelli

Notas 

1- Congonhas de Sabará: atual cidade de Nova Lima. Ainda hoje é usual, embora não oficial, o topônimo "Congonhas do Campo". Não é caso único de um acréscimo de uso comum ao nome oficial de uma cidade. Por exemplo: "Santo Antônio do Salto da Onça", no Rio Grande do Norte, é oficialmente apenas Santo Antônio e "Aparecida do Norte", em São Paulo, é na verdade apenas Aparecida.
2- O nome oficial  é Ilex paraguariensis, mas o autor defendia a grafia paraguayensis.
3- Bugre era o termo depreciativo aplicado aos indígenas, na acepção de inculto, selvagem. 

- Revisão e acréscimo da fotografia 05: 24/03/2026.