Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Aldeia Africana

Ofereço a José Cláudio Henriques, incansável estudioso da história de Matosinhos
Agradeço a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo apoio à pesquisa



Setenta e sete anos atrás um novo bloco desfilava em São João del-Rei, sob o enfático nome de "Aldeia Africana". Foi criado pelo folião de momo "Zé da Igrejinha", em Matosinhos e lamentavelmente a história não lhe registrou detalhes para a posteridade, tão pouco o próprio nome de batismo de nosso protagonista.

Seja como for, o Zé da Igrejinha já era um carnavalesco conhecido e antes tinha o Bloco do Tatu, de que este blog já se ocupou, e que se pode ver em foto abaixo, datada de 1937(*), na qual ele aparece bem ao centro, sentado, tocando sanfona.

Bloco do Tatu em 1937, na Vila Santa Teresinha. 

No ano de 1938, Zé da Igrejinha fundou uma nova agremiação carnavalesca que buscava valorizar valores da negritude no carnaval da cidade. Até o momento não veio a lume fotografia de época desse bloco ou maiores detalhes descritivos para avaliar o que de fato trouxe às ruas. Mas a modesta notícia jornalística abaixo, publicada nesta cidade, pode trazer algumas pistas:


Aldeia Africana. É mais um rancho que se filia á galeria dos novos. Surgiu bem disposto na arena dos peleadores, trazido pelas mãos desse esforçado folião, o Zé da Igrejinha.
Ao aprecial-o é mister levar em conta o esforço de seu creador, que vencendo obices de toda sorte, veio do antigo 'Capão da Traição'  para mostrar que mesmo lá é sempre fiel aos seus impulsos carnavalescos, fazendo por isso questão de apresentar a sua parceirada em forma, empunhando cantaros e lanças precedidos de uma porta bandeira do barulho e escoltada por um chôro daquelle geito. Agradou.

Notícia jornalística d'Aldeia Africana.

O jornalista previne o leitor para considerar as dificuldades enfrentadas para por o grupo à rua, mas diz que o desfile agradou. Na notícia, Matosinhos surge entre aspas com a alcunha de "antigo Capão da Traição", fruto da ideia equivocada mas então em voga, que o mais sangrento episódio da Guerra dos Emboabas, conhecido sob este nome, teria acontecido nesse bairro. 

A porta-bandeira era "do barulho" e um coro de vozes fazia acompanhamento, sob a forma de "um choro daquele jeito". Está aqui insinuada a musicalidade e a ginga que herdamos do africano, que tanto engrandece a cultura nacional. 

A citação específica à presença de cântaros e lanças evoca de imediato valores africanos. Os cântaros ou potes cerâmicos, são muito usados no cerimonial dos terreiros de religião de matriz africana, as quartinhas, quartilhões e porrões, contendo água perfumada com ervas votivas próprias de cada orixá, concentrando o axé; jarras cheias desse preparo perfumoso com que se lavam as escadarias de algumas igrejas, a mais clássica de todas, a do Bonfim na capital baiana. No passado houve mesmo, em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e donde se trouxe também ao Rio de Janeiro, um préstito de mulheres africanas e afro-descendentes chamadas originalmente "talheiras", porque traziam à cabeça no ato do desfile, talhas ou potes de barro, com seus líquidos preparados. As talhas ao longo dos anos foram abandonadas. Logo o nome foi corrompido para "taieiras" e tiveram sua importância como matriz das agremiações do final do século XIX (**).

Quanto às lanças parece que Zé da Igrejinha quisesse simbolizar alegoricamente elementos tribais e não é possível resistir à tentação muito forte de rememorar o desfile carioca (embora os houvesse também em Salvador, donde possivelmente procedem) dos cucumbis ou quicumbis, espécie de congados, digamos assim por questão didática de mera assimilação. Eram grupos formados por negros que também difundiam valores culturais africanos no carnaval oitocentista e entre seus vários grupos no Rio de Janeiro à época da abolição, havia um cujo nome de batismo era "Lanceiros Cucumbis". Em São João del-Rei a terminologia não é desconhecida, tanto que no Bairro das Fábricas no final do século XIX havia a Chácara do Quicumbi, entrecortada por um diminuto córrego homônimo, hoje quase sem água e perdido no escuro das galerias urbanas. Esta chácara foi desapropriada para dar lugar ao Cemitério Municipal, ainda hoje conhecido popularmente por "Cemitério do Quicumbi". 

É mera cogitação, leviana até, mas tentadora, ou provocadora de novas pesquisas: o que foi realmente essa Aldeia Africana? Um bloco ou rancho que figurasse na medida das possibilidades uma reprodução dos quicumbis e talheiras cariocas que acaso o Zé da Igrejinha tivesse conhecido? Ou nada disso, apenas coincidência de alegorias... Seja como for ele teve a coragem de naquela época afirmar publicamente seus valores étnico-culturais, deixando consignado que o carnaval é cultura herdada também do preto, que muito contribuiu para o momo. É bastante arrojada sua iniciativa numa época que se buscava o luxo dos desfiles e o que se tentava era imitar o carnaval carioca através de seus famosos clubes e cordões e buscar inspirações no glamouroso carnaval europeu.

Está claro que o elemento cultural evocador do africano estava vivo no carnaval daquela época. A mesma fonte jornalística nos diz que no mesmo ano saiu também às ruas da cidade o Bloco Esperança do Amor, do qual disse expressamente: 

É outro iniciante que vem de alcançar satisfactorio successo. Pequeno, porem bem ensaiado, com jogos e evoluções interessantes, fazendo recordar o vilão, dança de origem africana, como a cuíca, usada pelos congadeiros, e agora trazida para o carnaval. Mereceu palmas, que o povo não lhe regateou.

Pelas curtas notas acima fica consignada a homenagem à negritude, que seja nesta terra seja em muitas outras, o preto deixou e deixa seu imenso legado cultural para contribuir amplamente com a construção da identidade brasileira. 

Referência Hemerográfica

O Correio, n.595, 06/03/1938, São João del-Rei


Referência na Web

BRASIL, Eric. Cucumbis Carnavalescos: Áfricas, carnaval e abolição (Rio de Janeiro, década de 1880). In: Afro-Asia, n.49, 2014. p.273-312. Disponível em: https://www.scielo.br/j/afro/a/hTh6KVcYpRn4qKrzZ9w5Qgd/?format=pdf&lang=pt 

Notas 
* Fotografia cedida gentilmente para reprodução pelo sr. Luís Pereira dos Santos, cujo pai e avô  participaram do grupo. Autor não identificado. 
** Um dos últimos ou talvez o último grupo remanescente de taieira resiste em Laranjeiras/SE, agregado à Festa de São Benedito e Santos Reis, a 6 de janeiro. 

Créditos

Texto e fotomontagem da nota de jornal: Ulisses Passarelli.
Revisão: 28/03/2025.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Assombrações e Penitência

A quaresma começou ...


Vencida a Terça-feira Gorda, concluiu-se mais um ciclo festivo anual. O primeiro é o natalino, que nas tradições populares começa no dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e vai até o de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro), data limite, já cruzando com as batucadas carnavalescas.

Se o primeiro é o tempo da esperança, o segundo (carnaval) da alegria extravasadora, o terceiro, o quaresmal, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é o período da penitência, do recolhimento. A admoestação voeja em redor dos pecadores, pesando-lhes os abusos cometidos no carnaval, e convida-os sob a imposição da cinza na testa, diante dos altares, a voltar-se ao Criador. 

São dias de penitência todas as sextas-feiras, e ainda e em especial, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão.

Na penitência o cristão evita a carne vermelha. Deve substituí-la pelo ovo ou pelo peixe. É tradição muito antiga, inalienável ao fiel tradicionalista. Obviamente a penitência não se resume apenas a esse gesto alimentar.

O povo acredita que não fazendo penitência na quaresma ou cometendo abusos em horas impróprias na rua, entregando-se à jogatina ou à bebedeira, aos bailes e cantorias, se tornará alvo fácil dos espíritos do mal, que surgem sob os mais diferentes aspectos. Alguns, por sinal, bastante curiosos. 

Assim, na região, ouve-se falar do pinto pelado, uma aparição demoníaca de um pintinho misterioso, desacompanhado de sua mãe, piando sem parar, implume, imortal, arrepiante... [1]

Tanto mais aparecerá ao incauto a porca com os pintinhos, uma assombração que surge na quaresma, tanto mais a horas mortas, pelos caminhos e encruzilhadas. A disparidade se evidencia no nome do espectro, com mães trocadas. Assim pode surgir também como a galinha com os leitões. Um canto de calango alude a este assombro [2]: 

“Calango tango, 
no calango dessidão, 
nunca vi cantá calango 
Sexta-feira da Paixão... 
vem a Porca com os Pintinho 
e a Galinha com os leitão!” 

São bichos fantasmagóricos, de outro mundo. Não são animais do mundo físico... Em São Paulo corre um mito equivalente, a “porca dos sete leitões” (Araújo, 1967). E assim a velha quaresma era povoada dos mais estranhos seres sobrenaturais, tais como o saci-pererê com suas traquinagens, a mula-sem-cabeça chispando fogo, o lobisomem, ameaçador, com sua dentaria aguçada. A modernidade baniu o sobrenatural. A incredulidade é o assombro hodierno. 

De volta à penitência é de se lembrar nesse tempo de pouca chuva, que outrora era usual a Procissão da Penitência, destinada a redimir as faltas da comunidade, para que Deus, num ato de perdão, cesse um determinado flagelo - seca, enchente, peste, fome, etc. Procede-se de ordinário em horários de calor, por longas extensões, estradas ruins, justamente para aumentar o grau de dificuldade, como um explícito sacrifício penitencial.

Uma dessas procissões de antanho, partiu da primitiva Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, na Serra de São José, desde longa data demolida. Num tempo de seca a procissão seguiu para Tiradentes (antiga São José del-Rei), levando a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz de Santo Antônio. Ocorre que naquele caso específico a irmandade também se transladou e nunca mais voltou à pequena capela em questão, que terminou em ruínas (Santos Filho, 1996). 

Bem menos dramático e, contudo, mais anedótico ou caricato, é o causo de uma procissão da penitência, também para atrair chuva. Contava-se [3], que em um tempo de calor implacável, o padre dissera em sermão, do púlpito aos fiéis, que a culpa da seca era deles, por causa do acúmulo de pecados. Deus estava bravo. Daí, só tinha um jeito: fazer penitência! Marcou a data e a hora, 15 horas _ 3 da tarde _ sol no calor máximo. O sacerdote foi na sombra durante toda a procissão, protegido pelo pálio. Todos os demais torrando no calor. No momento de um canto religioso, após o refrão, o padre entrou em voz solista, no ritmo da música, dando ordem para soltar os fogos de artifício, mas mudando os versos para provocar o sacristão, com quem andava meio enraivecido, porque ele fizera beberagem do vinho eclesiástico: 

"Seu sacristão, 
solte essas bomba, 
vocês vai no sol,
eu vou na sombra..."

Na virada da estrofe o sacristão não deixou por menos e no mesmo tom retrucou em reclamação aos abusos do padre: 

"É isso mesmo 
que vancê tá dizêno,
nóis que trabáia,
você vai comendo..."

Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. 

Referências

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego - memória histórica.  Inconfidências. Tiradentes: Sociedade Amigos de Tiradentes, ano1, n.6, jul./1996. p.3. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

[1] Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
[2] Informante: idem, referindo-se a uma cantoria da zona rural de Bias Fortes, informada em 1997. 
[3] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1994. Avô materno do autor desta postagem. 

- Revisão: 24/06/2026. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Folclore do Tabaco: as múltiplas faces do fumo na cultura popular

O tabaco ou fumo procede da América. É o nome de várias espécies de plantas solanáceas do gênero Nicotiana cujo cultivo se esparramou pelo mundo levado pelos colonizadores no século XVI. Fato é, que o uso pelos indígenas inspirou os europeus. Diferentes formas de uso das folhas secas e enroladas, em tubo ou em corda se difundiram amplamente.

A origem da palavra deixa algumas dúvidas, talvez indígena segundo uma versão, possivelmente árabe, segundo outra, de tabbaq. Já a palavra fumo tem procedência latina.

A produção agrícola do fumo no Brasil concentra-se principalmente no sul, que responde em seus três estados a 96% da produção nacional. O restante procede, sobretudo, da Bahia e Alagoas. O país é o seu maior exportador e o segundo maior produtor.

Afora a produção fumageira em larga escala, pequenos produtores plantam o fumo para conservar uma produção artesanal, com algumas peculiaridades que podem mudar conforme a região. Nesse sistema, aqui nas Vertentes, após a colheita, as folhas de fumo são postas a secar protegidas da chuva e sol diretos, sob uma área coberta de telhas, prendendo-se as grandes folhas em jiraus de bambu, chamados pindoba, entre duas lascas. Ali se desidratam, por oito dias. 

Depois, num trabalho que exige destreza, são torcidas formando uma espécie de corda, com o auxílio de mecanismos de madeira em forma de carretéis e manivelas. A corda será enrolada em torno de um pau constituindo um rolo de fumo, posto em descanso por alguns meses, podendo então ser molhado na medida e tempo certo, por água em alguns lugares, por garapa em outros. Nesta fase de maturação e secagem, deixam escorrer e pingar uma substância escura e viscosa, de odor forte, conhecida como mel de fumo, altamente tóxica, que pode levar à morte caso ingerida.

O consumidor do fumo de rolo (ou de corda como também se diz), sabe escolher o produto com a qualidade de sua preferência, analisando a textura, a cor, o cheiro e o sabor no ato de fumar. Entre fortes e fracos, finos e grossos, claros e escuros, uma vasta gama de fumos formam um cenário peculiar nos mercados e feiras populares das cidades interioranas. 

Na terminologia própria conforme anotado em São João del-Rei, além do fumo de rolo, ouve-se:

- fumo-confete: tabaco de qualidade superior, especial, picado em lascas pequenas à guisa de escamas, próprio para uso em cachimbo;

- fumo-de-paçoca: tabaco de qualidade inferior, socado em pilão (daí o nome, devido à soca, como na produção do doce paçoca), aproveitando-se restos de diversos fumos da produção, descartados. Usa-se para confecção de cigarros grosseiros;

- fumo-de-quilombo: tabaco de rolo, grosso, bem escuro, muito forte. “Fumo de quilombo, cada tragada é um tombo!”, diz a expressão popular.

O uso do fumo nos meios populares vai além do simples consumo tabagista. Vício, aliás, que houve tempo não era considerado como tal, mas sim, como um gesto chique, um charme, um diferencial da pessoa refinada e alinhada com a boa sociedade. 

Ao jovem, não se admitia fumar quando ainda menor de idade e muito menos diante dos pais, considerando-se uma grande falta de respeito com os progenitores.

Mas, sem aprofundar nessa linha, voltemos o olhar aos usos propriamente folclóricos, conforme anotado em São João del-Rei, mas certamente usados noutros municípios da região: 

- o fumo na agricultura é usado como inseticida, fervido intensamente até produzir uma calda, com que se borrifa as plantas após esfriar, coar e diluir, para espantar pragas (pulgões, ácaros, cochonilhas, percevejos, tripes);

- como remédio da medicina popular, que este blog não aconselha, apenas registra o uso tradicional pelo valor etnográfico, é usado após fervuras para banhar feridas, calos, além dos afetamentos causados pelo bicho de pé (Tunga penetrans, inseto da ordem siphonaptera), passando por intermédio de um algodão embebido. O fumo desfiado e misturado à urina forma uma calda usada para banhar machucados com dificuldades de cicatrização e ferimentos por objetos metálicos. Se a urina for de criança abaixo de nove anos é considerado remédio mais eficaz;

- é oferenda tradicional que os pescadores carregam na canoa, para jogar no rio ao caboclo d'água, ou deixar junto à base ("pé") de uma árvore ribeirinha, impedindo assim, que esse ser mitológico ataque-os, virando a embarcação e puxando-os para o fundo das águas;

- guardar um pedaço de fumo de rolo escondido entre os pertences atrai boa sorte, fartura.

Tem largo uso nos terreiros de umbanda. Usado também como oferenda e firmeza para os guias - caboclos, pretos-velhos e boiadeiros - seja na forma do pedaço de fumo de rolo em si, seja sob a forma de uso em cachimbo, cigarro de palha e charuto. Tem uso também fervido e adotado como banho de descarrego, misturado a diferentes ervas específicas de cada linha.

O tabaco aparece ainda em algumas expressões:

- Levar fumo / tomar fumo / levar fumada: dar-se mal numa situação; ter prejuízo; ser xingado pelo superior hierárquico;

- Fumo: 1- situação difícil; 2- Pessoa complicada de se conviver: "é fumo!";

- Fumo bravo: mesmo sentido do item anterior, com a conotação depreciativa intensificada;

- Fumarada: baforada, muita fumaça de cigarro;

- Fumal: 1- plantação de fumo; 2- nome de uma localidade no município de Resende Costa. Não confundir com o termo fumeiro, nome de um jirau improvisado sobre o fogão à lenha para se pendurar linguiça e toicinho a defumar.

Não é sem tempo lembrar de duas formas muito tradicionais de se usar o fumo nos meios populares: cheirar rapé e mascar fumo.

O rapé é o fumo moído em pó, que se usa cheirando diretamente um pequenino punhado, preso entre os dedos, levando diretamente às narinas para ser aspirado com força. Muitos há que o cheiram vez por outra, mas muitos viciam no rapé. De ordinário se tampa a narina de um lado e se aspira do outro, logo em seguida a operação se repete mudando o lado. O rapé é conservado em latinhas para se trazer ao bolso e outrora, em pequenas bolsas de couro chamadas bolsetas. O rapé é famoso por provocar espirros e de tal forma, acredita o povo que sirva para expectorar. Outros há que lhe acrescem pós homeopáticos, tal como a imburana, ou semente de girassol moído, carapiá, canela, gerando um rapé muito apreciado. Atribui-se ao rapé um elemento de firmeza espiritual na linha africana (tradição de algumas religiões de matriz africana). Por outro lado, é extensamente difundida a cultura indígena de tratamento xamânico com rapé, quando seu pó preparado e consagrado é soprado pelo pajé para o interior das narinas da pessoa em tratamento, por meio de  cânulas de origem vegetal. 

O costume de mascar o fumo é muito antigo e noutros tempos não era raro de se ver senhoras e senhores a morder por longo prazo uma lasca de fumo de rolo, como se fosse um chiclete, de tanto em tanto cuspindo um punhado de saliva. Imaginavam com semelhante prática prevenir cáries e verminoses. 

Longe de incentivar o tabagismo ou o suposto uso como remédio aqui anotado, esta postagem espera apenas ter contribuído modestamente para registro da etnografia do tabaco nessa região mineira.

1- A palha de milho no bolso traseiro da calça denuncia o hábito de enrolar cigarros artesanais
 de fumo de rolo. Caquende (São João del-Rei/MG), 04/05/2014.
 
2- Plantio de fumo em Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG), 31/01/2016. 

3- Moendo fumo picado para fazer cigarro de palha. 
Restinga de Baixo (Ritápolis/MG). Data: 24/01/2016. 


Referências 


Tabaco. Site da Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabaco (acesso em 12/02/2015, 06h)

Produção de Fumo. Site da Abifumo, http://www.abifumo.org.br/produ.htm (acesso em 12/02/2015, 06h 36m)

Fumo de corda produção. Leandro Waidemam, You Tube, https://www.youtube.com/watch?v=o4v8nKbA6Eg (acesso em 12/02/2015, 07h 05m)

Homem toma mel de fumo e morre na Colônia Treze. Lagartense, http://www.lagartense.com.br/?irPara=noticias&cod=4557 (acesso em 12/05/2015, 07h 13m)

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2 e 3 - Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão e acréscimo de fotografias: 11/03/2026. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O querido carnaval são-joanense

O tempo do carnaval, o imenso ciclo festivo da batucada de verão chegou fazem vários dias, extrapolando os quatro dias tradicionais ou oficiais. Várias cidades da região já tem suas atividades começando, com excelentes carnavais, mas de todas, São João del-Rei é que tem um pré-carnaval gigante. 

Desde dia 31 de janeiro os blocos começaram seu desfile. As escolas de samba com seus animados ensaios troam seus tambores por diversas noites. Enfim, não é fácil conservar o título honroso de um dos maiores carnavais do Brasil e um dos melhores de Minas Gerais, que tantas vezes ouvimos ao longo dos anos. E esse título não é definitivamente novo como pensávamos ou não procede unicamente do tempo áureo das magníficas e memoráveis escolas dos anos 70. No remoto 1932 um jornal da terra já o chamava de "melhor carnaval de Minas", como o prova o recorte abaixo. 



E não pensem que essa história de carnaval comprido é de pouco tempo para cá. Quem diria, no passado já tínhamos alguns prazos dilatados. Ainda em 1932, além do carnaval tivemos a micareme, em março, em pleno período quaresmal! Desfilaram as agremiações da cidade e o povo foi convocado, mostra o Folha Nova.





Na época, a Prefeitura mandou iluminar e enfeitar a Avenida Tancredo Neves (que já foi chamada de Rui Barbosa e de Carneiro Felipe) e armar coretos para as bandas de música. Os carros antigos desfilaram no corso. 

Desde sempre esta avenida foi a artéria-mestra de nosso carnaval. Todos os antigos cordões, ranchos, blocos, escolas de samba, desde os zé-pereiras e blocos de sujos até as agremiações de hoje, desfilam pelo centro histórico e confluem para a via em questão. 

Novamente a história se repete. Repiniques e surdos, tamborins e bumbos batucam por aí, pelos morros, pelo centro, pela alma da cidade, ecoando entre essas montanhas das Vertentes, enaltecendo os foliões e carnavalescos, de ontem e de hoje. 

Créditos

- Textos e fotomontagens: Ulisses Passarelli

Notas  

- Fonte: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 

- Revisão: 23/02/2025. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Capitães de Areia

A tradição popular nos transmite a cada geração uma profunda essência religiosa que dita as regras do relacionamento entre o sagrado e o profano, o cotidiano e a festividade. Neste sentido, desde remota antiguidade, o respeito aos antepassados, aos pioneiros, aos mestres que partiram dos folguedos do povo, permanece como um laço de carinho. Nossa complexa formação étnica recebeu esse legado de muitas fontes, que se mesclaram num saber bem à brasileira. 

Em especial no caso dos congados corre a crença em alguns grupos ou entre certos dirigentes por ventura mais espiritualistas, que a alma do capitão de congado que já desencarnou a algum tempo, tendo passado pelos estágios necessários de correção, arrependimento e aprendizado no plano espiritual do umbral, tornando-se um espírito capaz de ajudar a quem lhe roga auxílios, caso invocado pelo nome que teve na Terra, na devoção ao rosário, poderá ajudar àqueles que dão seguimento à sua prática missionária. São os "capitães de areia".

Não se trata de um culto, mas antes uma lembrança; nem tão pouco se equipara a uma veneração como à dos santos, mas sim, uma sintonia de continuidade. É seguramente um gesto de irmandade estendido àqueles que se esforçaram no fazer e no manter, que se espera continuem próximos na memória, através da evocação de sua sabedoria. Também não é prática mediúnica de terreiro, pois os capitães de areia não são guias nem orixás e não incorporam. Só se lida com eles com preces e no máximo uma vela branca, tal como se reza por qualquer alma de antepassado. 

Neste contexto alguns ternos cantam versos a capitães que morreram. Como se fossem homenagens, observamos em São João del-Rei, em 1996, o catupé do Capitão Luís Santana cantar os seguintes dísticos: 
“Eh, João Lopes! Êh, João Lopes! 
Zé Francisco e Barnabé!” - bis; 

“Êh, Zé Elias! Êh, Zé Elias! 
Carioca, Capitão!” - bis. 

João Lopes e José Francisco eram capitães regentes de congo no Bairro Tijuco, em São João del-Rei, até a década de 1940, o primeiro no terno da “Rua das Flores” (Rua Maestro Batista Lopes) e o segundo no da Rua São João; José Elias era capitão-meirinho da cidade de Ritápolis (do catupé, do capitão Pedro Ribeiro); Carioca foi capitão afamado de catupé em Coronel Xavier Chaves, da Vila Fátima, e Barnabé de um antigo grupo que existiu no seu distrito de Cachoeira. 

A prática das manifestações folclóricas não é mera repetição de algo treinado. Demanda uma vivência, temperada pelo elemento cultural e movida pela religiosidade. Existe a crença comum de que assim como nós progredimos na vida terrena, também a alma progride na espiritual. As fases da vida trazem seu ensinamento, perpetuado na memória, cantado nos versos do povo e transmitido a quem que está em redor ouvindo ... 

"Oi, Nossa Senhora me disse, 
que esse mundo não é tão cruel.
Eu já fui joão-de-barro da terra, 
eu já fui saracura do brejo, 
hoje eu sou periquito do céu ...” 
(Moçambique, Passa Tempo/MG, 2000 - Capitão Luís Maurício)

Caixas de Congado.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli.

Notas 
- Revisão: 18/07/2025. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bandeireiro

Bandeireiro é um personagem importante dos folguedos do povo. É aquele que carrega a bandeira ou o estandarte da manifestação cultural. Embora o termo “porta-bandeira”  e “porta-estandarte” existam nos meios folclóricos, tem origem em fonte culta. Bandeireiro é sempre o termo que prevalece. Tem como sinônimos: Bandeirista, Bandeira, Alferes e Alferes da Bandeira [1]. Geralmente carrega uma sacolinha ou embornal para depositar os óbolos oferecidos voluntariamente à bandeira ou pedidos pelo grupo em cantoria. 

Nem sempre usa uniforme, mas em geral é o mesmo fardamento do grupo ou, noutros casos, semelhante, porém mais simples. Em alguns grupos o bandeireiro dança, de forma comedida ou até exuberante; noutros grupos isto é vetado. A regra varia conforme a manifestação e grupo. Seu comportamento exige postura exemplar, com seriedade, máximo respeito ao símbolo religioso que carrega. Deve saber executar os rituais próprios que exigem a participação da bandeira em cada folguedo que participa; saber o momento de entregar e recolher a bandeira a um devoto que a pede para segurar, ou que o mestre do folguedo determina que segure. Precisa reparar se alguém lhe tirou algum enfeite ou acresceu outro e desta sorte avisar ao mestre. Tanto mais se foram afixadas cédulas monetárias, ex-votos ou jogado perfume, para que o mesmo providencie o ritual de resposta  em versos de cada fato destes. 

Compete ao bandeireiro conhecer todos os sinais e gestos do chefe do folguedo. Saber receber outra bandeira e passar a que carrega, no caso do encontro entre grupos rivais ou amigos. Em algumas folias de Reis e folias de São Sebastião das Vertentes, o Palhaço (Bastião ou Marungo) faz papel de bandeireiro, fato inadmissível noutras regiões. 

Ainda nas folias, seja ela de qual santo for, por vezes o bandeireiro passa temporariamente sua função a uma pessoa que não faz parte do grupo, por razão devocional. Por exemplo: um morador pede ao mestre para carregar a bandeira até a próxima casa a ser visitada, ou nas próximas três, ou por toda aquela noite. É autorizado. Enquanto carrega vai rezando e pedindo as graças ou pagando promessa e o bandeireiro, ladeando-o, zela por ela e orienta o devoto no que for necessário para o cumprimento temporário do papel.  

Em algumas circunstâncias surgem outras personagens:

- Madrinha da Bandeira: aquela que confecciona uma nova bandeira ao grupo e a doa, ou apenas a reforma, carinhosa e devotamente;
- Rainha da Bandeira: bandeireira que nalguns congados vem vestida de rainha e tem a mesma dignidade das demais;
- Rainha da Sacolinha: rainha de congado que anda ao lado do bandeireiro propriamente dito, carregando uma pequena sacola onde os devotos que beijam a bandeira depositam espórtulas. Habitualmente esta função é acumulada pelo bandeireiro [2].

Por fim é mister informar que alguns grupos trazem na dianteira mais de uma bandeira, podendo ter duas ou três diferentes. 

Bandeireiro de Congado. 2014.
Moçambique Afro-descendentes, Macaia (Bom Sucesso/MG)
.

Bandeireiro de Folia. 1995.
Folia de São Sebastião, Barreiro (Coronel Xavier Chaves/MG).

Notas

[1] - Alferes da Bandeira pode ter outro sentido no contexto de algumas festas populares. É o indivíduo responsável pela bandeira emoldurada que se levantará no topo do mastro. 

[2] - Madrinha da Bandeira: São João del-Rei, 1994; Rainha da Bandeira e Rainha da Sacolinha, Resende Costa, 1998. São personagens pouco frequentes. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli

- Fotografias: congado, Iago C.S. Passarelli; folia, Ulisses Passarelli 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 9

Abilolado – sem juízo perfeito; doido; de baixo intelecto e ações inconsequentes.

Andaço – virose; epidemia. O povo a vincula ao extremo climático de frio ou calor.

Beleza de Creuza – expressão de intensificação da estética: maravilhoso, excelente.

Boca de siri! – expressão de solicitação de segredo, silêncio absoluto sobre um fato.

Branquinha – cachaça, aguardente de cana de açúcar.

Cagaço – medo extremado. “Passou um cagaço”: teve muito medo.

Cheio de banca – fazendo-se de poderoso, influente, rico, sem de fato o ser.

Deixar a vaca ir pro brejo – perder o controle de uma situação; ser derrotado; falir.

É fria! – expressão que indica uma complicação intensificada, risco ou prejuízo iminente: “_ não aceita esse negócio que é fria!”

Encher o rabo – 1-embriagar-se; 2- comer demais, empanturrar-se; 3- ter um lucro imenso.

Esbudegar – estragar, dar grande desgaste a algo. “Esbudegou o carro”.

Escreveu, não leu, pau comeu! – Expressão indicativa que a desobediência a um aviso terá consequência extremada, sem chance de novo alerta.

Estar comendo o gambá errado – diz-se de quando se atribui a culpa a alguém que de fato não está envolvido no caso. Culpar um inocente.

Fazer de bobo para viver – fingir-se de desentendido para se dar bem na situação.

Gambiarra – 1- reparo ou serviço provisório, feito sem esmero;  2- amante, concubina.

Guéri-guéri – frescura, mania, cerimonial desnecessário. “Fulano é cheio de guéri-guéri”.

Ideia de girico – pensamento ruim, ideia infrutífera, solução inadequada para um caso, ação inconsequente.

Influenza – gripe ou resfriado, indistintamente. “Peguei uma influenza”. “Estou de influenza”. Referência ao vírus Influenza, causador da gripe.

Lambisgóia – termo pejorativo aplicado a mulheres com baixo conceito em educação, comportamento social, reputação, personalidade.

Lavar a égua – se dar bem numa situação; alcançar elevado lucro; ser beneficiado. “Casou com um ricaço, lavou a égua.”

Lestreque – ótimo; delicioso. “Almoço lestreque”. Bonito, bem aparentado: “terno lestreque”.

Macacoa – urucubaca, azar, agouro, zebra, indaca, ziquizira, quizumba.

Mais velho que a mãe do sarampo – antiguíssimo; muito velho.

Mala e cuia – completo; com tudo o que pertence. “Mudou de mala e cuia” (não deixou nada para traz, levou tudo o que tinha).

Mamão com açúcar – muito bom, favorável, fácil. “A avaliação foi mamão com açúcar”.

Mandinga – feitiço, magia, ebó, trabalho espiritual. Referência à etnia mandinga, grupo de africanos islamizados trazidos escravos ao Brasil. Mandingueiro: quem faz mandinga.

Manduca – pejorativo: sujeito de aparência roceira, acaipirado. Cara de bobalhão.

Maniento – cheio de manias; quem ritualiza as ações mais simples da vida.

Manota – gafe; equívoco, embaraço.

Mão de vaca – sovina, usurário, ganancioso.

Mão na roda – facilidade, conveniência. “Sua ajuda foi uma mão na roda”.

Marafo(a) – cachaça. Africanismo. A palavra tem largo uso como terminologia dos terreiros de umbanda.

Maritaca – prolixo. Pessoa que fala muito como uma maritaca, ave que faz muito barulho, palradora.

Marmota – 1- feio, sem combinação estética: “essa roupa ficou uma marmota”; 2- atitude execrável: “fez uma marmota no meio da reunião”. Marmotagem: fazer marmota, comportamento ruim.

Matinada – grande barulho, gritaria, algaravia. Um dos orixás guerreiros de umbanda: Ogum Matinada, sincretizado com Santo Antônio de Pádua.

Matraca – falação. Conversa excessiva e sem sentido. Alusão ao instrumento idiofônico homônimo que produz muito barulho. “Fecha a matraca!” (cala a boca!)

Meganha – policial, guarda, na gíria popular, em tom um tanto depreciativo.

Meia-colher – diz-se do pedreiro que faz serviços de má qualidade. Pedreiro ruim. Mau profissional.

Melzinho na chupeta – o mesmo que “mamão com açúcar”. Situação muito favorável; coisa fácil demais; caso cuja resolução não tem a menor dificuldade.

Meter a boca no trombone – contar segredos a alta voz; revelar ao público questões ocultas; contar situações embaraçosas e comprometedoras sobre algo ou alguém. Denunciar.

Meter a língua nos dentes – tem o mesmo sentido de “Meter a boca no trombone”. Dedurar.

Mexer em caixa de marimbondo – envolver com algo perigoso; aproximar-se de uma pessoa perigosa; entrar numa situação arriscada.

Mingau das Almas – remela. Secreção mole e esbranquiçada, que se forma no canto dos olhos, logo cedo ao se acordar ou nos casos de certas inflamações. A expressão é uma comparação grosseira à oferenda dada às almas nos dias de segunda-feira (seu dia votivo) nos cruzeiros, constituída por um mingau de farinha de trigo bem ralo, servido num prato branco.

Miolo mole – “cabeça fraca”, “ideia runhe”: pessoa de pensamentos volúveis, inconstante, inconsequente.

Mironga – firmeza espiritual secreta, que não se revela a ninguém por questão de segurança, pois em seu segredo reside sua força protetora. Pode ser um patuá ou um objeto qualquer contendo o axé. Talismã. Mirongueiro: quem faz mirongas para si ou por encomenda para outrem.

Miserê – miséria; falta de dinheiro, crise financeira. “Vive no miserê”.

Mistereco – pouco, quase nada, resto. “Tem de fazer as compras do mês. Só tem um mistereco de mantimento na dispensa.”

Mixuruco – insignificante, desqualificado, de má qualidade, parco.

Mocorongo – cujo comportamento social se mostra desalinhado com as tendências modernas e urbanas; antiquado. Referente ao caipirismo. Retrógrado.

Modo de comer – expressão que equivale a “algo de comer”, comestível. “Estou com fome. Vou caçar um modo de comer.”


sábado, 31 de janeiro de 2015

Folias... em memória de dois mestres

"Dia hoje"(*), no poente do mês das folias, recordei de dois grandes mestres de nossas folias de Reis aqui em São João del-Rei, já chamados pelo Criador para o plano maior. Seus ensinamentos ficaram na minha alma de folião e na de tantos que com eles saíram e aprenderam: Antônio Carvalho da Silva e Luís Santana (que também era capitão de congado). 

Ambos, por coincidência, eram bondosas almas que ajudaram a muitos com suas gratuitas benzeções, tanto que Antônio era, inclusive, carinhosamente alcunhado "Totonho Benzedor". Residiam no mesmo bairro, São Dimas, embora tivessem origens diferentes, respectivamente nos povoados do Mama Rosa e Pombal. 

Não posso negar que questões de especial consideração me ligam aos dois: fui herdeiro da folia de Antônio vários anos após seu desenlace e a conduzi com muita honra; Luís foi meu principal mestre na formação para a prática do congado e da folia, sem contar os laços de amizade desenvolvidos. Não poderia pois deixar de ser esta postagem um momento muito subjetivo. 

Segue para registro e como humilde homenagem e recordação, alguns poucos cantos dos muitos que entoaram pelas casas que visitaram com seus grupos folclóricos.


1- Cantos de Antônio Carvalho da Silva, 25/12/1992:


Palhaço da folia do Mestre Antônio Carvalho da Silva, janeiro/1995.


1ª toada:
Nesta hora que é presente,
O mártir São Sebastião, oi ah!
Vai saudar o Santo Reis
E também os folião, oi ah!



2ª toada: 
Refrão
Caminhamos, caminhamos,
Pela Gruta de Belém, ai, ai, ai!
Procurando o Deus Menino,
Ele só fará o bem, ai!

Estrofes:
A essa linda bandeira
E os folieiro também,
Eu com todos meus amigos
vamos dar os parabéns.

Que bandeira tão bonita
Na minha frente parou
Jesus e Santos Reis
Todo coberto de flor.

Quero desejar saúde
Tá na hora da partida
Quero desejar saúde
E muitos anos de vida.

Santo mártir aqui despedi
Com alegria até chorando
Amigo e companheiro
Adeus até para o ano.


Versos extraídos de outra gravação da mesma folia – 07/01/1993:
1ª toada:


Dia 20 de janeiro
com o mártir São Sebastião
Nós viemos nesta casa
Por pedido e devoção.

Deus que pague a bela esmola
Deste nobre cavalheiro
Quem há de dar o pago
É o santo mártir guerreiro.

Deus que pague a bela esmola
Quem nos deu foi o menino
O Divino Espírito Santo
Que te dê o bom destino.

2ª toada:
Refrão:
Caminhamos, caminhamos, 
para a Gruta de Belém,ai,ai,ai!
procurando o Deus Menino, 
Ele só fará o bem, ai!. 
Estrofes:

Deus que abençoe a sua casa
Esta casa de alegria
Quem há de te abençoa
São José, Santa Maria.

Santo mártir aqui chegou
Viajando por terra,
Ele veio nos defender
Contra peste, fome e guerra.

3ª toada:


Santo mártir aqui despedi – bis
com alegria até chorando! – bis
Meu amigo e cavalheiro – bis
Adeus, até para o ano – bis

Santo mártir vai embora – bis
Despedindo com alegria – bis
Ele vai deixar uma bênção – bis
Pra toda essa família – bis



Santo mártir agradece – bis
também pelo bom agrado – bis
Todos passos que vós deres – bis
Santo mártir vai de um lado - bis

2- Cantos de Luís Santana, Embaixador e Folião de São João del-Rei (25/03/2000) – informações pessoais (**)  

Folia do Mestre Luís Santana em fotografia de data e autor não identificados,
gentilmente oferta para reprodução pelo próprio mestre. 

Bem podia Deus nascer
num colchão de ouro fino
para dar exemplo ao mundo
foi nascer tão pilingrino (peregrino).

“Os três Reis lá no deserto/vem rompêno a iscuridão...”

“ Bem podia Deus nascer / em pedrinhas de briante...”

“Encontrei co’as três Maria
numa noite de luá
percurando o Deus Minino
sem nunca podê achá...

Foram dar com ele em Roma
rivistido no artá
co’o cális bento na mão
missa nova ia cantá.”

“Os três Reis foi viajâno
o carnêro foi na guia
perguntaram por Jesus (ao carneiro)
com prazer e aligria.

Respondeu, lá em Belém!
nasceu da Virgem Maria!”


* Dia hoje: expressão popular que equivale a hoje mesmo; a pouco; ainda hoje.
** Foi conservada a grafia que reproduz a pronúncia original, a título meramente ilustrativo.
***Texto: Ulisses Passarelli.
**** Foto do palhaço: Ulisses Passarelli; edição de imagem: Iago C.S. Passarelli.
***** Sobre a expressão cultural das folias de Reis assista ao vídeo: 

ENCONTRO DE CAPELINHA, 2014