Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador boi-de-caiado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador boi-de-caiado. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de março de 2024

O folguedo do boi no Campo das Vertentes/MG

                                                                                                                                 Ulisses Passarelli (*)

 

"Praça de Touros – No Domingo effectuou a Companhia Tauromachica mais um concorridissimo espectaculo, tendo havido variadas sortes, nas quaes todos os artistas foram bastantemente applaudidos. Poderiam entretanto mais fazerem, serem muito mais felizes se tivessem encontrado rezes mais bravas. No Domingo haverá novo espectaculo.” (Jornal O Combate, n.171, 04/06/1902)



 
O texto em epígrafe revela como noticiou um antigo jornal de São João del-Rei acerca das touradas, àquela época muito queridas. Elas faziam as alegrias nas festas do Espírito Santo, no Bairro Matosinhos. Essas corridas de touro foram proibidas em 1934, durante o governo Getúlio Vargas. O desenvolvimento da consciência protecionista tem evoluído e combatido qualquer forma de entretenimento que implique em estresse ou maltrato ao animal, tal como a farra do boi no sul, a rinha de galos (desde longa data proibida) ou a de canários da terra, assim também as antigas praças de touros.

Mas no teatro folclórico o boi é personagem querido e persevera sua mística na representação dos folguedos, encontrando seu ponto mais elevado no Bumba-meu-boi, um dos mais expressivos autos da cultura popular nacional.

O bumba é o um dos folguedos mais importantes do país, vastamente distribuído em território nacional, praticamente conhecido em todos os estados, em versões simples ou complexas, congregando em torno de si muitos personagens, cantorias, músicas e um belo efeito visual. Sua matriz é um boi de fingimento, ou antes, armação imitando bovino, sob o qual se mete um sujeito (“tripa”, “miolo”) a dar cabeçadas nos circunstantes, com música, cantoria e dança.

Tem remota origem europeia, conhecida desde longa dada em Espanha, tal como em Portugal. Mas aqui o brasileiro soube inserir todo um complexo cultural formado em torno do gado, um verdadeiro ciclo temático que contribuiu para a nova fisionomia do folguedo, graças às múltiplas influências das culturas afro e ameríndia, que foram essencial para a composição dos grupos da manifestação em apreço.

A bibliografia especializada em folclore não traz informes substanciais sobre o Bumba-meu-boi em Minas Gerais. Entretanto, de versões mais humildes às elaboradas o folguedo aqui sobrevive. Neste texto está reunido um conjunto de informes de como a tradição do boi se desenvolve de forma simplificada no centro-sul deste estado, Mesorregião Campos das Vertentes, bacia do Rio das Mortes.

São João del-Rei conhece a tradição desde longa data, desgarrado no meio de blocos de carnaval, principalmente do Bairro Tijuco, vindo da comunidade das Águas Férreas. Pequenos grupos se divertiam pelas periferias desta cidade histórica fazendo desfilar o boi, tal como o do falado “seu Inácio”, dos lados da Vila São Bento (imediações da Igreja de São José Operário, Bairro Tijuco), além de outros. Desgarrado entre batuqueiros dando arrancos e chifradas rua afora, sempre atiçado e pondo crianças a correr. Não temos o folguedo do Bumba-meu-boi em sua complexidade estrutural, mas seu personagem central aqui surgia fazendo as alegrias do carnaval de rua, com o nome de “boi, boizinho e rancho do boi”. Dançava isolado, investindo com chifradas contra a meninada que lhe atiçava sem parar. Dançava aos volteios, descrevendo círculos e carreiras. Vinha acompanhado por uma charanga ou batucada, que executava os ritmos carnavalescos. Não há personagens senão o boi de fingimento, feito com uma armação coberta de pano, cabeça de caveira e rabo postiço. Um dançante movimenta o estafermo, oculto sobre ele. Ficou afamado o Rancho do Boi de “seu Fausto” (Fausto de Almeida, falecido em 19/05/1953), no Bairro das Fábricas.

Informações dão conta que no passado foi conhecido no distrito de São Miguel do Cajuru, em São João del-Rei, segundo Sacramento (2000), saindo na festa do padroeiro, São Miguel Arcanjo, em setembro: "Lembro-me de uma pessoa travestida de boi, cabeça com chifres, restante coberto por pano estampado animando e dando carreiras nos mais distraídos e nos meninos". O mesmo autor, em outro lúcido e importante registro (SACRAMENTO, 2010), informa ainda sobre o boi na Festa do Carmo, no povoado do Caquende, também em território são-joanense: “assustavam as pessoas, causando algazarra geral.”

Noutro distrito são-joanense, São Gonçalo do Amarante, também é conhecido, com a particularidade de sair no Domingo da Páscoa antecedendo a queima do judas, de rua em rua até terminar junto à chácara do judas onde concluía seu desfile dando lugar ao ritual de queima do boneco. É o Boi Malhado, nos dizeres do informante Lourival Amâncio de Paula, o Vavá, baluarte da cultura local. Este boi saiu pela última vez no ano de 1999 e depois somente em 2014 se repetiu e desde então não aconteceu mais. Confeccionado sobre um grande balaio emborcado, debaixo do qual se oculta o homem que lhe dá vida em movimento de avanço e recuo, se faz acompanhar de vários tocadores locais, de pandeiro, caixa, violão, bandolim, sanfona e xique-xique, todos eles congadeiros do lugar. O Boi Malhado faz a alegria da criançada. Com seus pegas rua afora, põe os pequenos a correr, mas que logo voltam para puxar o rabo do bicho ou fazer-lhe arruaças na dianteira, fingindo-se pequenos toureiros. Além do boi e das explosões de bombas da queima do judas a criançada de São Gonçalo do Amarante também tinha nesta ocasião o pau de sebo para se divertir.

Meu pai, David Passarelli, que em 1968 trabalhou na mineração do Penedo, no município de Ritápolis, teve oportunidade de lá ver um grupo desses pelas ruas poeirentas, a correr atrás da molecada em grande alarido. Infelizmente não se lembrava de qual era a festividade.

Pude observar um boi no carnaval da cidade de Ritápolis em 2001, inserido no bloco Enterro do Zé Pereira. O boi tinha a aberração de ter duas cabeças.

PELLEGRINI FILHO (2000) registrou em fotografia o boi no carnaval de Tiradentes. Naquele município tradicionalizou-se sob a alcunha do próprio organizador: "Boi do Culóia".

Notícias orais, ainda não confirmadas, dão conta que já houve também em Resende Costa.

Em Santa Cruz de Minas encontrei o boi em 2002, inserido no Bloco das Piranhas.

Ainda em tempo, vale mencionar o “Boi de Caveira”, tradição da comunidade de Pedra Negra, que originalmente se desenvolveu tendo ao centro uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, no município de Bom Sucesso, área limítrofe com o Campo das Vertentes, mas já na Mesorregião Centro-Oeste de Minas. Com a invasão das águas da Represa do Funil, a comunidade foi inundada. Na margem oposta do Rio das Mortes (esquerda), se formou a comunidade de Nova Pedra Negra, no município de Ijaci, este sim, no Campo das vertentes, Microrregião de Lavras.

Lavras, que aliás, possuiu segundo LIMA (1970) um bumba-meu-boi que, por sua descrição em um paper gentilmente ofertado pelo Professor Affonso Furtado, do Acervo do Projeto Reisados Brasileiros, tinha uma estrutura que recordava tanto os bois nordestinos quanto os catarinenses, distante do padrão regional dos outros bumbas citados nesta postagem. O Bumba-meu-boi de Lavras contava com um entrecho dramático no qual o Vaqueiro, ferido pelo boi, deitava em dores junto ao chão, onde era acudido pelo Doutor, que o curava com esfuziante alegria da troupe. Havia ainda um entremeio com a dança das fitas; e personagens animais e fantásticos, como o Cavalo Marinho, o Urso e até a Bernúncia. Sem dúvidas um caso inusitado para a geografia do boi e está a merecer uma análise meticulosa.

Mas se todos os bois acima enumerados desapareceram na poeira do tempo, ecoando do passado como memória e saudade da tradição, necessário se faz destacar aqueles outros que teimando contra os reveses insistem em se manter ativos nesta região mineira.

Sobrevive em Barroso, arrastando multidão na abertura do carnaval, sob o nome de “Boi-mamado”. Notícias jornalísticas do ano de 2019 davam conta que o bloco existia há catorze anos e ressentia naquele ano de desfilar acompanhado por carro de som em vez da tradicional bandinha, devido à falta de apoio do poder público municipal, segundo matéria consultada.

Dores de Campos mantém o “Boi do Major”, tradição arraigada, musicalizada por uma banda de metais, formada por músicos dorenses. Após um período de paralisação, foi revitalizado em 2017 e segue em atividade, movimentando o boi para alegria das crianças e adultos. O nome do bloco remete à alcunha do músico local Dácio Silva, trombonista muito querido na comunidade.

Em Coronel Xavier Chaves ainda é realizado com o nome de “Boi de Caiado”. O ritmo é alegre, com um cantador solista tirando versos improvisados insistentemente contraponteados pelo coro, com um refrão tradicionalíssimo:

“_ Esse boi é meu!

_ Êh, boi!

Esse boi de caiado!

_ Êh, boi!

O meu boi tá cansado!

_ Êh, boi!, etc.”

 



O Boi de Caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar. A comunidade partícipe mostra seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida.

O Boi de Caiado é um boi de carnaval ou bloco do boi, variante simples do bumba-meu-boi, que sobrevive na cidade de Coronel Xavier Chaves, com típicas características folclóricas. Atualmente seu organizador é o Mestre Zé Carreiro, alcunha do sr. José do Rosário Anacleto, natural daquela cidade, octagenário. Mestre no sentido exato que a palavra comporta no campo da cultura popular. Alma límpida e bondosa, memória notável, caráter ilibado. É capitão do congado local, responsável pela folia de Reis, canta calangos e se orgulha da longa experiência com carros de bois, que justamente lhe valeu a respeitosa alcunha. Informou ter aprendido o boi no povoado da Cachoeira, no mesmo município, ainda criança, aos oito anos de idade, quando sua mãe o levava na época do frio para acompanhar as festas juninas. Lá o Boi de Caiado dançava para alegria da petizada.

Passados os anos formou-se o grupo da cidade, com períodos mais e menos ativos e sob direção de outras pessoas até que o assumiu. Dele participam na instrumentação sobretudo seus companheiros de folia e congado, e outros amigos, que se desdobram em mais esta função. A bateria é formada por tarol, bumbo, surdos e caixas. A percussão forte e bem compassada, vai em batucada pelas ruas e cantam sambas e marchinhas típicas do carnaval, sem canto específico.

Saem do bairro Vila Fátima, antigo Tanque. O nome primitivo se referia a um tanque ou dique (mundéu) que retinha a água usada para mover a roda d'água do engenho de cachaça e para serviços de faiscagem de ouro. Tradicionalmente é uma comunidade negra, que conserva intensamente uma parcela importantíssima e fundamental da cultura xavierense e que merece toda atenção.

Os instrumentistas formam o âmago do bloco, após os quais seguem foliões, enfeitados ou não, que aderem à batucada rua afora. Os bois em si tem posição totalmente livre, com movimentação ampla pelas laterais, ora na dianteira correndo atrás das crianças ora de recuo vão à retaguarda como se numa ronda. Fazem mesuras para os adultos, salamaleques graciosos e despertam a empatia das pessoas. A alegoria de boi é movida por um animado brincante, que põe em polvorosa a criançada, que corre espavorida das investidas do bicho. O boi é bravo e sonso. Finge de manso e quando as crianças se aproximam confiantes, avança, mas logo recua. Faz volteios, corrupios. Não é agressivo. Correr atrás faz parte da brincadeira e em verdade é sua maior graça. Já por isto, dentro dessa regra, as próprias crianças provocam bastante o boi, estimulando-o à perseguição. Não há violência alguma. Tudo transcorre de forma espontânea, eivada de alegria e harmonia.

O bloco vai se encorpando pelo caminho rumo à área central da cidade. Mais gente vai aderindo ao seu balanceio contagiante. Seu ritmo não deixa ninguém parado...

Quanto ao nome, explicou Zé Carreiro que desde sua infância o nome já era este, boi de caiado, como se dizia na Cachoeira. Não soube explicar a origem. Apenas disse que é tradicional e foi mantido. É possível que "caiado" ser corruptela de "gaiado": chifrudo, o que tem gaias (galhas) grandes; ou ainda é um tipo de pelagem de animal fazendo redemoinhos dos pelos do peito ou pescoço; cavalo-gaiado: o que tem torvelinhos nos pelos. Ambas interpretações são possíveis.

Por fim destacamos a versão de bumba-meu-boi da cidade de Prados, onde a tradição se conservou forte sob o nome de “Boi-mofado”. Arrastando uma multidão atrás da batucada, movida por suas marchas e refrões... Sai acompanhado pela mulinha e pelo toureiro, e ainda, mascarados, que vem na esteira do cortejo. Conta-se que surgiu no período da escravidão, pelas mãos dos cativos. Terminados os festejos, em razão da dificuldade que tinham de conseguir material para um novo boi, guardavam-no num canto da senzala, em condições precárias de iluminação, ventilação e umidade. No outro ano, quando iam dançar com ele de novo, o pano de revestimento ("couro") tinha manchas de bolor. O mofo acumulara pela má conservação. O nome surgiu então pejorativo, mas com o tempo se fixou como identidade, perdendo o tom zombeteiro.

Seus grupos se mantiveram ao longo das gerações. A tradição oral diz que o grupo que havia na localidade do Muniz, na zona rural, era o mais antigo; mas, extinguiu-se. Em contrapartida formaram-se outros na cidade. Dos mais velhos era o do Bairro Pinheiro Chagas, ora desativado, mas com promessas de reativação. Perseveram três grupos de boi mofado em atividade, que tem seu próprio nome: o Boi Chitado, na Atalaia, o Boi Chitão, na Rua de Baixo e o Boi Topa Tudo, no Quebra Castanha. No ano 2000, acompanhando o encontro dos bois, nas ruas centrais da acolhedora cidade, ainda vimos os quatro grupos em ação.

Em essência se compõe de uma charanga de músicos da comunidade, com indispensável percussão (surdo, bumbo, tarol, pandeiro) e harmonizando vem um acordeon ou instrumentos de sopro (trombone, trompete, sax). Na frente surge o boi em bailado livre, negaceando para todas as direções; avança, recua, corre, gira, faz salamaleques, ataca repentino. Nessa movimentação brinca com adultos e crianças, mas são sobretudo estas que se envolvem em correria danada, rindo... As menorzinhas tem medo; as maiores são provocativas. Além do boi sempre aparecem mascarados diversos, gente enfeitada, foliões desgarrados que aderem à passagem animadíssima do boi, que carreia grande acompanhamento de gente fazendo coro. Alguns grupos mantém um personagem tradicional: o cavalinho, burrinha ou mulinha, feito de uma armação em balaio emborcado, revestido por um pano, no qual se mete o folião como se o cavalgasse. A cabeça e o rabo fingidos compõe a alegoria. O cavalinho rodeia o boi, como se o acompanhasse na movimentação. Por vezes também aparece um toureiro.

O boi em si é relativamente grande em relação a outros bois de bumbas. A estrutura corporal é rígida ("boi duro"), mas o pescoço, que é relativamente longo, mostra uma flexibilidade limitada. Os chifres são enfeitados de fitas coloridas e costumam ser argolados, como um boi carreiro.

Naturalmente existe uma certa rivalidade entre os bois de Prados; sadia, contudo. Um momento pitoresco é quando se encontram sob a tenda armada na praça: frente a frente se ameaçam cabeçada, como dois marruás brigando num pasto. Mas a briga de fato não acontece, a não ser no campo simbólico. Os grupos cantam. Ora música comum de carnaval, bem popular; ora a marcha própria do boi, com um verso solista intercalado com o refrão coral fixo, "êh boi":

 

"_ Esse boi não é meu...

_ Êh! Boi!

_ É da Rua de Baixo!

_ Êh! Boi!

_ Ele é muito macho!

_ Êh! Boi!" (Etc.)

 

Suas músicas são simples, próprias do tempo carnavalesco, além de marchinhas alegres com refrão curto:

_ "O meu boi é mofado!

_ Êh! Boi!

_ Ele é pintadinho!

_ Êh! Boi!

_ Esse boi é bonito!

_ Êh! Boi!"

_ Ô vem cá meu boi!

_ Êh! Boi!" (etc.)

 



Em tudo o Boi-mofado é espontâneo. Manifestação legítima da cultura popular ele é livre de amarras de formato. É aberto à adesão da assistência por onde passa. Sua passagem alegre contagia o folião, agita o turista e envolve as crianças. Percebe-se o carinho do pradense para com a manifestação, que indubitavelmente faz parte de seu folclore.

Basicamente assim são os bois das Vertentes, essa aprazível região mineira. Se a maioria dos grupos estão em ocaso em suas localidades, por outro lado sobrevivem vigorosamente em Barroso, Dores de Campos, Coronel Xavier Chaves e Prados. Que tenham vida longa, integrados ao patrimônio cultural de suas respectivas comunidades mantenedoras.

 

Referências bibliográfica

COIMBRA, Pedro (Org.). Às margens do Rio Grande: registro histórico-cultural das áreas diretamente afetadas, de entorno e de influência da UHE Funil. Consórcio do Aproveitamento Elétrico do Funil. Lavras, 2012. 230 p.il.

LIMA, Jacy de Sousa. O Bumba meu boi em Lavras. Comissão Nacional de Folclore, Rio de Janeiro, Documento n.576, 19 de março de 1970.

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Alguns Estudos Barroquizantes (ou "Estrondoso Brado") acerca do antigo arraial de São Miguel do Cajuru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.9, 2000.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Manole, 2000. 188p.il. Prancha 28E.

 

Referências hemerográficas


Prados faz a Festa do Boi Mofado. Gazeta de São João del-Rei, n.81, 12/02/2000.

Boi mofado completa 150 anos de folia. Gazeta de São João del-Rei, n.389, 11/02/2006.

Carnaval já faz sambar o Campo das Vertentes: em Prados. "Boi Mofado" anima foliões. Gazeta de São João del-Rei, n.544, 31/01/2009.

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Caquende. Jornal de Minas, São João del-Rei, nº125, ano 10, 28/05 a 03/06/2010.

Referências na internet

Boi Mamado abre o carnaval de Barroso nesta quinta-feira. Barroso em Dia, 28 de fevereiro de 2019. Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/boi-mamado-abre-o-carnaval-de-barroso-nesta-quinta-feira/ Acessado em 17/10/2021.

Bloco do Boi Mamado abriu o carnaval de Barroso 2019. Barroso em Dia, 01 de março de 2019. Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/bloco-do-boi-mamado-abriu-o-carnaval-barroso-2019/ Acessado em 17/10/2021.

Para a alegria da criançada dorense, o Boi do Major está de volta. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/para-a-alegria-da-criancada-dorense-o-boi-do-major-esta-de-volta/ Acessado em 17/10/2021, 16:35h. 

Organizadores do Boi do major estão pedindo ajuda dos dorenses. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/organizadores-do-boi-do-major-estao-pedindo-a-ajuda-dos-dorenses/ Acessado em 17/10/2021, 16:37h






Bloco do Bumba meu Boi, Bom Sucesso/MG. Autor: Ulisses Passarelli, 12/02/2024. 




Boi do Major, Dores de Campos. Autor: Ulisses Passarelli, 08/02/2024. 




Boi de Caiado. Coronel Xavier Chaves. Autor: Iago C.S. Passarelli, 13/02/2018.




Boi Mofado. Prados. Autor: Ulisses Passsarelli, 28/02/2019. 


Boi Mamado, Barroso. Autor: Ulisses Passsarelli, 27/02/2025. 




* Uma versão inicial deste texto, com o mesmo título e sem as fotografias foi publicado em: ABRÃO, Felipe Calil (Org.). Boiada Reunida. Goiânia: Alta Performance, 2023. 201p.


terça-feira, 5 de março de 2019

O Bloco do Boi de Caiado: uma ferramenta do resgate do tradicional carnaval de Coronel Xavier Chaves

Faz certo tempo surgiu na cidade de Coronel Xavier Chaves um evento pré-carnavalesco, que muito se afamou e cresceu. A proposta de tal evento acertou em cheio na visibilidade e atrativo de visitantes, tornando-se um dos grandes momentos do ciclo do momo na região das Vertentes. Não obstante este aspecto e a diversão que proporcionava, logo a expansão trouxe consigo os problemas de um carnaval de massa.

Neste ano contudo, a municipalidade apostou de forma arrojada numa outra forma de carnaval. O tradicional. Não que ele não existisse, mas focou-se nele em detrimento do evento massivo. A proposta foi de um carnaval para dentro e não para fora; para o xavierense, com o que ele tem de melhor e assim o vimos claramente in loco. É de se imaginar o dilema de tal decisão, que decerto não agrada a todos, mas certamente beneficiou aos milhares de moradores. Foi visto um verdadeiro resgate do carnaval tradicional, da cultura popular autêntica, não só um mero ato de economia, mas efetivamente de ação planejada de valorização do que há no município. 

Entendemos como atitude de coragem, que também abre discussões. Entretanto é sempre bom perguntar que tipo de turismo se quer, chamar isto à reflexão. Por toda parte há inúmeros exemplos que os eventos gigantes trazem consigo problemas proporcionalmente enormes e chega a hora de rever se de fato isto é bom ou é o que se quer.

O carnaval típico, tradicional, tem também o seu potencial turístico. Não atrai o grande volume de visitantes, mas a qualidade dos visitantes. O próprio povo fez o seu carnaval, de corpo e alma, com plenitude de sua criatividade e lavor artístico. No palco, os artistas da terra tiveram voz e vez, com toda capacidade e sucesso. Na grande tenda, moradores e visitantes se irmanaram indistintamente dançando com alegria e relembrando os carnavais dos velhos tempos, com muita tranquilidade. O boi-de-caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar ganhou as ruas sob a liderança do grande Mestre Zé Carreiro, verdadeiro ícone da cultura local. A comunidade mostrou seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida. O bloco veio bem mais forte que no ano anterior, por exemplo, conforme observamos. 

Ruas limpas, seguras, bem cuidadas, praças impecáveis, patrimônio cultural preservado, gente receptiva, pacífica e alegre. Carnaval típico do interior mineiro. Boa infraestrutura de evento. 

A opção de olhar para si e enfrentar as adversidades é uma atitude de responsabilidade social e de amor à cultura. Apostar na raiz de saberes do lugar e no potencial dos moradores é uma proposta louvável para uma administração pública, mesmo que não agrade por unanimidade.









* Neste blog, leia também: BOI DE CAIADO: O BLOCO DO BOI EM CORONEL XAVIER CHAVES     
** Fotografias (04/03/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli
*** Revisão: 12/02/2024

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Boi de Caiado: o Bloco do Boi em Coronel Xavier Chaves

(Oferecido muito respeitosamente ao grande Mestre Zé Carreiro, 
ícone e baluarte da cultura xavierense)




Em todo o Campo das Vertentes o carnaval põe nas ruas o povo do lugar e os turistas, na agitação das baterias, batucadas, blocos e escolas de samba. A maioria segue a um padrão, guardadas as devidas proporções da dimensão de cada agremiação e de suas próprias peculiaridades. Mas alguns... verdadeiramente se destacam pelo desenvolvimento singular.  

Entre estes está o boi de caiado, um boi de carnaval ou bloco do boi, variante simples do bumba-meu-boi, que sobrevive na cidade de Coronel Xavier Chaves, com típicas características folclóricas. Atualmente seu organizador é o Mestre Zé Carreiro (*), alcunha do sr. José do Rosário Anacleto, natural daquela cidade, 82 anos. Mestre no sentido exato que a palavra comporta no campo da cultura popular. Alma límpida e bondosa, memória notável, caráter ilibado. É capitão do congado local, responsável pela folia de Reis, canta calangos e se orgulha da longa experiência com carros de bois, que justamente lhe valeu a respeitosa alcunha. Informou ter aprendido o boi no povoado da Cachoeira, no mesmo município, ainda criança, aos oito anos de idade, quando sua mãe o levava na época do frio para acompanhar as festas juninas. Lá o boi de caiado dançava para alegria da petizada. 

Passados os anos formou-se o grupo da cidade, com períodos mais e menos ativos e sob direção de outras pessoas até que o assumiu. Dele participam na instrumentação sobretudo seus companheiros de folia e congado, e outros amigos, que se desdobram em mais esta função. A bateria é formada por tarol, bumbo, surdos e caixas. A percussão forte e bem compassada, vai em batucada pelas ruas e cantam sambas e marchinhas típicas do carnaval, sem canto específico.

Saem do bairro Vila Fátima, antigo Tanque. O nome primitivo se referia a um tanque ou dique (mundéu) que retinha a água usada para mover a roda d'água do engenho de cachaça e para serviços de faiscagem de ouro. Tradicionalmente é uma comunidade com características de quilombo urbano, que conserva intensamente uma parcela importantíssima e fundamental da cultura xavierense e que merece toda atenção. 

Os instrumentistas formam o âmago do bloco, após os quais seguem foliões, enfeitados ou não, que aderem à batucada rua afora. Os bois em si tem posição totalmente livre, com movimentação ampla pelas laterais, ora na dianteira correndo atrás das crianças ora de recuo vão à retaguarda como se numa ronda. Fazem mesuras para os adultos, salamaleques graciosos e despertam a empatia das pessoas. A alegoria de boi é movida por um animado brincante, que põe em polvorosa a criançada, que corre espavorida das investidas do bicho. O boi é bravo e sonso. Finge de manso e quando as crianças se aproximam confiantes, avança, mas logo recua. Faz volteios, corrupios. Não é agressivo. Correr atrás faz parte da brincadeira e em verdade é sua maior graça. Já por isto, dentro dessa regra, as próprias crianças provocam bastante o boi, estimulando-o à perseguição. Não há violência alguma. Tudo transcorre de forma espontânea, eivada de alegria e harmonia. 

O boi em si é simples, no estilo de feitura do chamado "boi mole" (sem arcabouço), cabeça natural (caveira do animal), presa a um pau de suporte. Cobertura por tecido estampado, tipo chita, relativamente curto, o que deixa visível as pernas do brincante que se mete debaixo da alegoria. O boi dança e corre em postura verticalizada. 

O bloco vai se encorpando pelo caminho rumo à área central da cidade. Mais gente vai aderindo ao seu balanceio contagiante. Seu ritmo não deixa ninguém parado...

Quanto ao nome, explicou Zé Carreiro que desde sua infância o nome já era este, boi de caiado, como se dizia na Cachoeira. Não soube explicar a origem. Apenas disse que é tradicional e foi mantido (*). 

No geral o boi de caiado se assemelha a outros bois de carnaval que ocorrem no sudeste brasileiro, independente de seu nome específico. Mas guarda em si o atrativo individual do seu modo de ser. Ele se aclimata às velhas ruas da antiga cidade mineira; ele se contextualiza à vivência comunitária. O boi de caiado é um patrimônio imaterial de Coronel Xavier Chaves e merece todo o prestígio. 

1- Boi de caiado: manifestação tradicional da cultura popular xavierense. 

2- Mestre Zé Carreiro no interior do salão comunitário explica sobre o boi. 

3- Aspecto do Salão Comunitário da Vila Fátima, de onde sai o boi. 

4- Gruta de Nossa Senhora de Fátima, ao lado do salão. 

5- Boi do outro grupo do lugar, também guardado no salão. 
6- Bloco do boi na rua, numa ladeira da Vila Fátima. 
7- "Boi Marchetado" (esquerda) e "Boi Marchante" (direita): os dois bois do bloco.  
  
8- Passagem do bloco do boi pelas ruas da Vila Fátima chama à atenção os moradores. 
9- O boi desperta empatia, carisma e alegria. 
10- Mestre Zé Carreiro puxa na dianteira junto aos amigos instrumentistas. 
11- Bloco em marcha. 

12- A criançada fica em polvorosa com a passagem do boi de caiado.
 
13- Outro aspecto da brincadeira de correr atrás das crianças.
 
14- O casario faz plano de fundo compondo a paisagem cultural. 

15- Os bois avançam e deixam a bateria para trás... 

16- Marcha da Vila Fátima ao Centro. 

17- A crianças provocam o boi, incitam alegremente as correrias.
 
18- As crianças não permitem descanso do boi!

19- O bloco animado transcorre em paz e harmonia. Cidade limpa e de jardins bem cuidados. 
  
20- Igreja do Rosário: cartão postal do município. Patrimônio rico e bem cuidado. 

Vídeo
Boi de Caiado, 13 de fevereiro de 2018

Notas e Créditos

* Obs.:
1- Após a publicação deste texto, uma gentil e pertinente observação do Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda, levantou a hipótese plausível do nome "caiado" ser corruptela de "gaiado": chifrudo, o que tem gaias (galhas) grandes. Numa segunda interpretação lembrou da designação aplicada ao tipo de pelagem de animal fazendo redemoinhos dos pelos do peito ou pescoço; cavalo-gaiado: o que tem torvelinhos nos pelos. Ambas interpretações são possíveis. Fica explicitada esta observação e com ela nossa gratidão. 
2- agradecimentos especiais ao Mestre Zé Carreiro, pelo gentil acolhimento e pelas informações prestadas.
3- Leia também neste blog a respeito de outro bumba-meu-boi da região:
BOI-MOFADO: pérola do carnaval de Prados  

** Texto e acervo: Ulisses Passarelli.
*** Fotografias: 3, 4, 5, 8, 12, 16 - Ulisses Passarelli; demais fotografias - Iago C.S. Passarelli.
**** Vídeo: Iago C.S. Passarelli.
***** Revisado e ampliado em 31/03/2024.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Bumba... meu boi!

“Praça de Touros – No Domingo effectuou a Companhia Tauromachica mais um concorridissimo espectaculo, tendo havido variadas sortes, nas quaes todos os artistas foram bastantemente applaudidos. Poderiam entretanto mais fazerem, serem muito mais felizes se tivessem encontrado rezes mais bravas. No Domingo haverá novo espectaculo.” (O Combate, n.171, 04/06/1902)



O texto em epígrafe revela como noticiou um antigo jornal de São João del-Rei acerca das touradas, àquela época muito queridas. Elas faziam as alegrias nas festas do Espírito Santo em Matosinhos. Essas corridas de touro foram proibidas em 1934, durante o governo Getúlio Vargas. 

O desenvolvimento da consciência protecionista tem evoluído e combatido qualquer forma de entretenimento que implique em estresse e maltrato ao animal, tal como a farra do boi no sul, a rinha de galos (desde longa data proibida) ou a de canários da terra, assim também as antigas praças de touros.

Mas no teatro folclórico o boi é personagem querido e persevera sua mística na representação dos folguedos, encontrando seu ponto alto no bumba-meu-boi, um dos mais expressivos autos da cultura popular nacional.


Curiosa fantasia carnavalesca flagrada no carnaval de São João del-Rei em 2013. 


O bumba é o um dos folguedos mais importantes do país, vastamente distribuído em território nacional, praticamente conhecido em todos os estados, em versões mais simples ou complexas, congregando em torno de si muitos personagens, cantorias, músicas e um belo efeito visual.  

Sua matriz é um boi de fingimento, ou antes, armação imitando bovino, sob o qual se mete um sujeito a dar cabeçadas nos circunstantes, com música, cantoria e dança. É de remota origem europeia, conhecida desde longa dada em Espanha, tal como em Portugal. Mas aqui o brasileiro soube inserir todo um complexo cultural formado em torno do gado, um verdadeiro ciclo temático que contribuiu para a nova fisionomia do folguedo. 
Mas por oras este post se limita a listar as poucas presenças do bumba-meu-boi aqui pelas Vertentes de Minas. 

Informações dão conta que no passado foi conhecido no distrito de São Miguel do Cajuru, em São João del-Rei, segundo SACRAMENTO (2000), saindo na festa do padroeiro, São Miguel Arcanjo, em setembro: "Lembro-me de uma pessoa travestida de boi, cabeça com chifres, restante coberto por pano estampado animando e dando carreiras nos mais distraídos e nos meninos". O mesmo autor, em outro lúcido e importante registro (2010), informa ainda sobre o boi na Festa do Carmo, no povoado do Caquende, também em território são-joanense: "assustavam as pessoas, causando algazarra geral." 


Noutro de nossos distritos, São Gonçalo do Amarante, também é conhecido, com a particularidade de sair no Domingo da Páscoa antes da queima do judas, de rua em rua até terminar junto à Chácara do Judas onde concluía seu desfile dando lugar ao ritual de queima do boneco. É o boi malhado, nos dizeres do informante Lourival Amâncio de Paula, o "Vavá", baluarte da cultura local. 


Meu pai, David Passarelli, que em 1968 trabalhou na mineração do Penedo, em Ritápolis, teve oportunidade de lá ver um grupo desses pelas ruas poeirentas, a correr atrás da molecada em grande alarido. Infelizmente não se lembrava de qual era a festividade. 


Pude observar um boi no carnaval da cidade de Ritápolis em 2001, inserido no bloco Enterro do Zé Pereira. O Boi tinha a aberração de ter duas cabeças. Em Muqui / ES, confirmou-me pessoalmente o folclorista Affonso Furtado, também foi registrado um boi de duas cabeças.


Em Coronel Xavier Chaves ainda é realizado com o nome de boi-de-caiado, originalmente no período junino na comunidade rural onde surgiu (povoado da Cachoeira) e depois, transposto à cidade, ingressou no ciclo festivo carnavalesco. 
Versão bastante simples do bumba-meu-boi, resumida ao boi de fingimento e aos tocadores (sanfona, caixa, pandeiro, violão e eventualmente outros instrumentos). Não há enredo, só a dança do bicho. O homem metido sob a alegoria de animal, promove correrias atrás dos circunstantes e aos corcovos deixa as crianças espavoridas. Sai em diversas épocas do ano, quando houver ocasião propícia, sobretudo nas festas juninas. O ritmo é alegre, com um cantador solista tirando versos improvisados insistentemente contraponteados pelo coro, com um refrão tradicionalíssimo: “_ Esse boi é meu! _ Êh, boi! / Esse boi de caiado! _ Êh, boi! / O meu boi tá cansado! _ Êh, boi!, etc.” (Coronel Xavier Chaves, 1995, informante José do Rosário Anacleto, carinhosamente conhecido por "Zé Carreiro"). É possível que nome do boi seja corruptela de "gaiado", ou seja, de grandes galhas, chifres avantajados. 

Em Santa Cruz de Minas encontrei o boi em 2002, inserido no Bloco das Piranhas.

PELLEGRINI FILHO (2000) registrou em fotografia o boi no carnaval de Tiradentes. Naquele município tradicionalizou-se sob a alcunha do próprio organizador: "Boi do Culote". 

Notícias orais dão conta que já houve também em Resende Costa

Sobrevive em Barroso, arrastando multidão na abertura do carnaval, sob o nome de "Boi Mamado". Notícias jornalísticas do ano de 2019 davam conta que o bloco existia a catorze anos e ressentia naquele ano de desfilar acompanhado por carro de som em vez da tradicional bandinha, devido à falta de apoio do poder público municipal, segundo matéria consultada. 

Dores de Campos mantém o Boi do Major, tradição arraigada, musicalizada por uma banda de metais, formada por músicos dorenses. Após um período de paralisação, foi revitalizado em 2017 e segue em atividade, movimentando o boi para alegria das crianças e adultos. O nome do bloco remete à alcunha do músico local Dácio Silva, trombonista muito querido na comunidade. 

São João del-Rei conhece a tradição desde longa data, desgarrado no meio de blocos de carnaval, sobretudo das bandas do Tijuco, como o boi flagrado na fotografia desta página, vindo das Águas Férreas, metido no homônimo Bloco das Piranhas. 

Boi-de-carnaval, das Águas Férreas, Bairro Tijuco, São João del-Rei, 1992.

Em Prados é onde a tradição se conservou mais forte, com alguns grupos bem preservados que conservam nomes próprios. São conhecidos como boi-mofado, arrastando uma multidão atrás da batucada, movida por suas marchas e refrões... Êh! Boi! Desce acompanhado pela mulinha e pelo toureiro, e ainda, mascarados, que vem na esteira do cortejo. 

Boi-mofado, Prados, 2000. 


Ainda em tempo, vale mencionar o Boi de Caveira, tradição da comunidade de Pedra Negra, que originalmente se desenvolveu tendo ao centro uma estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, no município de Bom Sucesso, área limítrofe com o Campo das Vertentes, mas já na Mesorregião Centro-Oeste de Minas. Com a invasão das águas da Represa do Funil, a comunidade foi inundada. Na margem oposta do Rio das Mortes (esquerda), se formou a comunidade de Nova Pedra Negra, no município de Ijaci, este sim, no Campo das vertentes, microrregião de Lavras. 

Lavras que aliás possuiu segundo LIMA (1970) um bumba-meu-boi que, por sua descrição em um paper gentilmente ofertado pelo Professor Affonso Furtado, do Acervo do Projeto Reisados Brasileiros, tinha uma estrutura que recordava tanto os bois nordestinos quanto os catarinenses, distante do padrão regional dos outros bumbas citados nesta postagem. O Bumba-meu-boi de Lavras contava com um entrecho dramático no qual o Vaqueiro, ferido pelo boi, deitava em dores junto ao chão, onde era acudido pelo Doutor, que o curava com esfuziante alegria da troupe. Havia ainda um entremeio com a dança das fitas; e personagens animais e fantásticos, como o Cavalo Marinho, o Urso e a Bernúncia. Sem dúvidas um caso inusitado para a geografia do boi e está a merecer uma análise meticulosa.


 Referência Bibliográfica

COIMBRA, Pedro (Org.). Às margens do Rio Grande: registro histórico-cultural das áreas diretamente afetadas, de entorno e de influência da UHE Funil. Consórcio do Aproveitamento Elétrico do Funil. Lavras, 2012. 230p.il. 

LIMA, Jacy de Sousa. O bumba meu boi em Lavras. Comissão Nacional de Folclore, Rio de Janeiro,  Documento n.576, 19 de março de 1970. 

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Alguns Estudos Barroquizantes (ou "Estrondoso Brado") acerca do antigo arraial de São Miguel do Cajuru. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.9, 2000.  

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Caquende. Jornal de Minas, São João del-Rei, nº125, ano 10, 28/05 a 03/06/2010.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Manole, 2000. 188p.il. Prancha 28E. 


Referências na internet

Boi Mamado abre o carnaval de Barroso nesta quinta-feira. Barroso em Dia, 28 de fevereiro de 2019
Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/boi-mamado-abre-o-carnaval-de-barroso-nesta-quinta-feira/Acessado em 17/10/2021, 16:17h.

Bloco do Boi Mamado abriu o carnaval de Barroso 2019. Barroso em Dia, 01 de março de 2019. Disponível em: https://barrosoemdia.com.br/destaque/bloco-do-boi-mamado-abriu-o-carnaval-barroso-2019/ Acessado em 17/10/2021, 16:20h. 

Para a alegria da criançada dorense, o Boi do Major está de volta. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/para-a-alegria-da-criancada-dorense-o-boi-do-major-esta-de-volta/ Acessado em 17/10/2021, 16:35h. 

Organizadores do Boi do major estão pedindo ajuda dos dorenses. Portal Dores de Campos. Disponível em: https://portaldoresdecampos.com.br/organizadores-do-boi-do-major-estao-pedindo-a-ajuda-dos-dorenses/ Acessado em 17/10/2021, 16:37h. 

Observações: 

* Para saber mais a respeito ver: 
 Pequena Bibliografia do Bumba-meu-Boi 
Origens do Reisados Brasileiros (sobretudo o item 04 - O Boi, um caso à parte)
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
*** Postagem revista e ampliada em 17/10/2021.