Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 5 de março de 2019

O Bloco do Boi de Caiado: uma ferramenta do resgate do tradicional carnaval de Coronel Xavier Chaves

Faz certo tempo surgiu na cidade de Coronel Xavier Chaves um evento pré-carnavalesco, que muito se afamou e cresceu. A proposta de tal evento acertou em cheio na visibilidade e atrativo de visitantes, tornando-se um dos grandes momentos do ciclo do momo na região das Vertentes. Não obstante este aspecto e a diversão que proporcionava, logo a expansão trouxe consigo os problemas de um carnaval de massa.

Neste ano contudo, a municipalidade apostou de forma arrojada numa outra forma de carnaval. O tradicional. Não que ele não existisse, mas focou-se nele em detrimento do evento massivo. A proposta foi de um carnaval para dentro e não para fora; para o xavierense, com o que ele tem de melhor e assim o vimos claramente in loco. É de se imaginar o dilema de tal decisão, que decerto não agrada a todos, mas certamente beneficiou aos milhares de moradores. Foi visto um verdadeiro resgate do carnaval tradicional, da cultura popular autêntica, não só um mero ato de economia, mas efetivamente de ação planejada de valorização do que há no município. 

Entendemos como atitude de coragem, que também abre discussões. Entretanto é sempre bom perguntar que tipo de turismo se quer, chamar isto à reflexão. Por toda parte há inúmeros exemplos que os eventos gigantes trazem consigo problemas proporcionalmente enormes e chega a hora de rever se de fato isto é bom ou é o que se quer.

O carnaval típico, tradicional, tem também o seu potencial turístico. Não atrai o grande volume de visitantes, mas a qualidade dos visitantes. O próprio povo fez o seu carnaval, de corpo e alma, com plenitude de sua criatividade e lavor artístico. No palco, os artistas da terra tiveram voz e vez, com toda capacidade e sucesso. Na grande tenda, moradores e visitantes se irmanaram indistintamente dançando com alegria e relembrando os carnavais dos velhos tempos, com muita tranquilidade. O boi-de-caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar ganhou as ruas sob a liderança do grande Mestre Zé Carreiro, verdadeiro ícone da cultura local. A comunidade mostrou seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida. O bloco veio bem mais forte que no ano anterior, por exemplo, conforme observamos. 

Ruas limpas, seguras, bem cuidadas, praças impecáveis, patrimônio cultural preservado, gente receptiva, pacífica e alegre. Carnaval típico do interior mineiro. Boa infraestrutura de evento. 

A opção de olhar para si e enfrentar as adversidades é uma atitude de responsabilidade social e de amor à cultura. Apostar na raiz de saberes do lugar e no potencial dos moradores é uma proposta louvável para uma administração pública, mesmo que não agrade por unanimidade.









* Neste blog, leia também: BOI DE CAIADO: O BLOCO DO BOI EM CORONEL XAVIER CHAVES     
** Fotografias (04/03/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli
*** Revisão: 12/02/2024

Lesma Lerda: o bloco gigante, que não é lerdo!

São João del-Rei ao longo de muitas décadas se celebrizou pela excelente qualidade de seu carnaval, o número de agremiações, pelos sambas e sambistas, pelos foliões e carnavalescos, tudo isto inserido em um cenário de beleza da cidade histórica e no seio acolhedor de seu povo. É bem verdade que teve altos e baixos. No entanto segue firme, atraindo milhares de visitantes. 

Pois bem, neste ano, cerca de 65 agremiações acorreram às ruas são-joanenses, vias urbanas e rurais. Dentre elas, antigas ou recentes, pequenas ou gigantes, ora este blog se debruça sobre o Bloco do Lesma Lerda, esse quarentão, que escoa lentamente com milhares de foliões pela Avenida Oito de Dezembro abaixo. 

Quando surgiu, aparentava ser apenas mais um bloco, mas o tempo mostrou que seria o bloco. Ainda na recordação vem à cena uma alegoria saudosa de uma grande lesma de pano, movida por foliões abnegados metidos debaixo de sua armação arqueada. A lesmona colorida e de carinha alegre e antenas salientes, serpenteava entre os participantes, qual um símbolo, assim como o boi o é para o bumba-meu-boi. Tal figura desapareceu no tempo. Mas aquela característica satírica inicial, a verve política com a situação focal da vez, o alerta de atenção sobre alguma situação imperativa no momento nacional... isto, o Lesma nunca perdeu! E com muito bom humor. 

Ainda agora o vemos, esse bloco "coroa", coroado, experiente, elegante, lotado (e muito lotado!) de jovens, afoitos para expor suas fantasias. O Lesma Lerda é de longe o bloco são-joanense que mais reúne fantasiados de toda estirpe. Se fosse só para apreciar essas fantasias já valeria a pena ir no desfile do Lesma Lerda. Para admirar a alegria e responsabilidade de Tutti Fonseca e parceiros de luta na organização, tanto mais vale a pena. 

No Lesma, a juventude se transfigura em personagens heroicos tão em voga, ou em anti-heróis que são os verdadeiros heróis, como as figuras da Turma do Chaves; políticos em tela na mídia; o mosquito da dengue; o Presidente de cada período; personagens das novelas e filmes; das estórias em quadrinhos e fabulário em geral, dos contos de fadas (quantas Brancas de Neve este ano!), fantasia de água, árabes, marujos, cowboys, etc. Um dos mais velhos blocos atrai a moçada da cidade e turistas, para se expressarem como quiserem, livremente... sadiamente! No Lesma interagem veteranos e calouros, diversas gerações, que se complementam na arte de bem viver o carnaval. Eis o Lesma, sempre tão aguardado e querido. Um verdadeiro gigante do carnaval de São João del-Rei. 

Aspecto geral do Bloco Lesma Lerda, com apresentação de capoeiristas no momento que dançavam o maculelê. 


* Fotografia (27/02/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli.
** Revisão: 12/02/2024. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Os Caveiras: um bloco especial no carnaval são-joanense

No carnaval de São João del-Rei desfila um bloco típico, que é dos mais inusitados que se pode imaginar: Os Caveiras, uma agremiação que satiriza os valores mortuários. Tudo neste bloco incomum e talvez único é inspirado pelo tétrico, o horrendo que se torna bonito... Seus participantes vem às ruas de túnicas medonhas, cinzas, pretas, marrons, roxas ou brancas, com máscaras representando caveiras, monstros, demônios, bruxas, seres sombrios do imaginário, personagens famosos de filmes de terror. As máscaras típicas são artesanais, de papel machê, revelando os ossos faciais e elementos alegóricos, para aumentar o efeito dramático: tinta escorrida a imitar sangue, elementos que simulam podridão, olhos esbugalhados, um faca de plástico cravada  no crânio ou no peito. Mas são comuns também as máscaras industrializadas e as pinturas faciais com maquiagem carregada. Perucas desgrenhadas compõe alguns figurantes; um osso com restos de carne, recolhido nalgum açougue é arrastado rua afora por uma corrente; motos tremendas abrem o cortejo, seguidas de caveiras e zumbis com estandartes, e um mundo de seres terríveis, coxos, cambaleantes, babando com a língua de fora, que avançam no público da beira da via com suas potriqueiras de enojar: um rato de fingimento, morto, seguro pela cauda, um coração de boi sangrante comprado numa casa de carnes, uma boneca cravejada de punhal, toda lambrecada de ketshup. Lá vem uma turma d'outro mundo carregando um caixão. Dentro vai um "morto". A viúva, de véu preto à cabeça, vem atrás carpindo o finado. Junto ao público o defunto pula do caixão sobre as pessoas. Criança chora, marmanjo ri. O agente funerário se dispõe a vender urnas. Chega o homem do saco e ameaça levar uma criança, que pula na mãe. Algum folião com enormes unhas postiças ameaça arranhar alguém, que em instinto de defesa pula para trás. Um criativo carro alegórico fecha esse desfile querido pelo povo. O Bloco dos Caveiras é assim, uma atração extraordinária do nosso carnaval. O público lota a avenida e não arreda enquanto o lúgubre desfile não passa, ao som da marcha fúnebre, de arrasto, com matracas e gritos esganiçados de horror. O carnaval prenuncia o medo da quaresma tricentenária... Medos atávicos dão as mãos à irreverência. Brincar com a morte é possível na Segunda-feira Gorda em São João del-Rei! 











Notas e Créditos

* Texto e montagem fotográfica: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli

Revisão: 21/02/2025

domingo, 2 de março de 2014

São João del-Rei: algumas imagens dos blocos

Em São João del-Rei o carnaval prossegue animadíssimo, com grande público. As escolas de samba  começaram a desfilar ontem e prosseguem hoje, na passarela do samba da Avenida Presidente Tancredo Neves. Por toda parte os numerosos blocos alegram a cidade e reúnem foliões empolgados com a folia momesca. Eis algumas cenas de blocos do carnaval 2014: 

Estandarte abre-alas do Bloco os Caveiras, 03/03/2014.

Bloco os Caveiras, 03/03/2014.

Bloco Recordar é Viver, 03/03/2014.

Bloco Vamos a La Playa, 03/03/2014.

Bloco Vamos a La Playa, 03/03/2014.


Bloco Carnaval de Antigamente, 02/03/2014.

Bloco Gato de Botas, 27/02/2014.

Bloco Largo do Carmo, 28/02/2014.

Bloco Mascaretis, 01/03/2014.

Bloco Unidos do Aragê, 23/02/2014.
* Texto: Ulisses Passarelli
* Fotos: Ulisses Passarelli e Iago C.S. Passarelli

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Bloco do Amor e outras memórias da Rua Antônio Rocha

A oitenta e dois anos, por um tempo desses, de prévias do carnaval, moradores do casario eclético da Rua Antônio Rocha, no centro de São João del-Rei, cuidavam dos preparativos do Bloco do Amor, que dela saía para alegrar o momo são-joanense. Registrou um antigo jornal da cidade: 

"Na rua Antonio Rocha, que sempre foi uma rua de foliões, acaba de ser formado mais um bloco, com pretensões a gozar direito o carnaval.
O bloco do amor vae exhibir um lindo carro, fechando o seu enredo: os genios da floresta. 
Os organizadores são os seguintes "endiabrados": José Nogueira, Weimar Lopes, Wilson Lopes, Jair Gomes, Gilson Regal, Osnir Lopes, Lourival Nogueira, Adalmir Gomes e José Marques." 

No mesmo ano saía do Morro da Forca o "Rancho Lyrio do Amor", informa a mesma edição d'A Tribuna (n.1106, 31/01/1932), bem como a subsequente. No passado o amor era mesmo um tema inspirador. Mas curiosamente num muro da rua em foco, uma pichação hodierna prega "onde não puder amar não te demores". Quanto às agremiações supra, desapareceram a décadas. 

A Rua Antônio Rocha surgiu no fim do século XIX com a instalação do complexo ferroviário em 1881, ao qual é fronteiriça. A chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi o maior marco da história são-joanense nos oitocentos. Foi socialmente mais impactante que a própria elevação da vila à categoria de cidade, em 1838. Representou o limiar de duas eras. A partir dela houve um imenso impulso social, cultural e econômico que contribuiu muito para o crescimento e desenvolvimento da cidade. 

Antes da chegada da ferrovia o caminho do Centro rumo a Matosinhos se fazia pelo Matola (Rua Padre Sacramento), a meia-encosta do morro imediatamente ao sul da estação férrea. Este era o caminho antigo, verdadeiramente um trecho urbanizado do caminho geral do sertão - passagem de bandeirantes - pois a parte baixa era brejosa, sujeita a alagamentos. Com a vinda da EFOM o vasto serviço de nivelamento para instalação do complexo criou um novo espaço urbano, do qual a Antônio Rocha é a principal via. 

A uns cinco anos, numa obra que estava acontecendo numa das casas daquela rua, acompanhei um desaterro na vertical que evidenciou um arrimo de pedras imediatamente a partir do nível da rua, demostrativo do aterro necessário à abertura da via. O solo, a nível da rua de trás, é coberto por terra preta riquíssima em matéria orgânica, até uns 50 a 60 cm de fundura, quando surge outro tanto ou pouco mais de areia e cascalho, após o qual brota água em abundância, por se atingir o lençol aquífero contíguo ao Córrego do Lenheiro. Fica claro que o tipo de solo é uma evidência dos depósitos de aluvião trazidos pelas enchentes anuais. No mais, uma casa vizinha fica elevada sobre porão abaixo do nível da rua, também sustentado pelo mesmo arrimo de pedras, sinal do trabalho planejado de construção da rua. 

A ferrovia é o seu marco indelével, a começar do próprio nome, que evoca o português Antônio Francisco da Rocha, "um dos maiores acionistas e operosos diretores da Estrada de Ferro Oeste de Minas", segundo Guimarães & Vieira. É uma grata satisfação saber que esta rua preserva o nome original. Na Praça dos Ferroviários, à entrada da rua, um busto desta personalidade traz no pedestal uma placa com os seguintes dizeres: "Homenagem dos ferroviários da Oeste ao precursor da Rede Mineira de Viação 1881 - 1931".

Busto de Antônio Rocha na Praça dos Ferroviários no início da rua em questão.
O ir e vir dos trens, a passagem de viajantes e trabalhadores da ferrovia, o barulho do maquinário da oficina, a sirene que marcava o horário dos turnos dos empregados... impregnaram toda aquela via e nunca se separarão de sua memória. A rua era entrecortada pelo "Trem do Sertão", que saía  por um velho portão corrediço de réguas pretas para um pontilhão de ferro, ladeado por passarela de tábuas para os pedestres, bem onde hoje se situa a Ponte Padre Tortoriello. Na travessia víamos de antanho o sinaleiro, um ferroviário que cuidava de parar o modesto trânsito de carros para o trem passar, tal como ainda acontece na entrada da Caieira. O sinaleiro usava uma pequena bandeira vermelha para a tarefa durante o dia e uma lanterna para a noite, que tinha uma vela acesa dentro, clareando na cor vermelha de uma lado, verde de outro, que girava para indicar o trânsito. A máquina passava fumegando num apito penetrante, à noite com o grande farol aceso, um atrativo a mais. Além dos carros de passageiros, vinham muitos vagões de carga, pois São João era um grande entreposto. Por vezes composições pesadas chegavam com duas locomotivas atreladas, trafegando sincronizadas, bielas juntinhas no trabalho do vapor. A tração dupla era o maior atrativo para a molecada de meu tempo. 

Os guris sonhavam em roubar o trolley movido a varejões e fugir com ele até Chagas Dória, só para dar um passeio. Mas nunca tive essa coragem com os colegas, embora tenha compartilhado o inocente sonho. Por vezes, algum menino mais desinibido pedia carona no "bondinho" (auto de linha), pedido ora cedido ora negado. 
Placa indicativa do nome da rua, afixada na parede externa de uma casa.

O calçamento veio nos anos sessenta, em paralelepípedos que o sol pratea ao poente. Antes era areão e terra. Nele, até fins da década de 1970, os rapazes jogavam bola em plena Antônio Rocha, ali por seu trecho final, pois raramente vinha um carro. Lá quando surgia um veículo, era só beirar um passeio e depois prosseguir. O gol dessa pelada de fim de tarde era marcado por chinelos. Quando o movimento aumentou passaram para um pequeno campo onde hoje está o cruzeiro que ladeia a Gruta do Divino, ao pé do pontilhão supra-citado. 

Então era ainda comum a cena de faiscadores tentando a sorte nas areias do barranco do Lenheiro, de bateia à mão, em graciosos movimentos circunferenciais, até escorrer a última areiazinha, finíssima, ponteada do amarelo áureo, reluzente ao sol, fazendo brilhar o olho do garimpeiro teimoso. Neste ínterim andava beira linha uma lenheira, com um imenso feixe de lenha amarrado por cipós, equilibrado no alto da cabeça, protegida por um lenço. Passava silenciosa, com andar lento, a pele crestada pelo sol ... De onde vinha? Para onde ia com o pesado fardo? Fazer almoço pro Zé. Assar biscoito pro Chiquinho. Decerto! 

As crianças gostavam de passar peneira de lanço nas ramadas aquáticas do córrego e nelas nos deliciávamos colhendo barrigudinhos com pintas coloridas, delicados peixinhos poecilídeos, metidos no terrível cativeiro de um vidro vazio de palmitos.  De noite haveria de fugir um pouco para catar vaga-lume na caixinha de fósforos vazia. Se o sol estivesse muito quente, subia-se o Matola para banho na Lagoinha, uma reserva no morro! Admirem! Suas águas se avolumavam com as chuvas. Secou por completo, aterrada, soterrada, desterrada. Se não isto, banhava-se na bica, uma água límpida e fria que descia da Bela Vista e caía impetuosa num lajedo de pedra logo abaixo do pontilhão supra-citado, do lado da Rua Cristóvão Colombo, antes de sua ponte.  Ali era ponto de lavadeiras que chegavam e saíam com trouxas de roupas equilibradas na cabeça. Brincar de jogar finco, soltar pipa, rodar pião, brincar de roda, fazer casinha, jogar bolinha de gude na bujaca, no zapi ou no triângulo, rodar aro, jogar pedra de bodoque, brincar de pique, ou com carrinhos rudes, pequenos caminhões que algum artesão fazia em madeira, bater uma pelada, ou a queimada, eram nossas diversões. 

Por essa época ouvia estórias de arrepiar. Tarde não podia brincar no pontilhão que tanto gostava, porque era guarnecido por uma mulher muito branca, muito magra, muito feia, muito má... esguia, comprida como uma vara, maltrapilha... a Desgraça Pelada. Se a gente ousasse pronunciar esse nome ganhava um tapinha na boca, porque era pecado. Tal nome ofendia a Deus. Na quaresma da Antônio Rocha descia o Cavaleiro Misterioso a galope desenfreado desde a estação rumo a Matosinhos, barulho de casco crescendo de volume, arrancando chispas nas pedras do calçamento com o rompão da ferradura. E vinha, envinha... passava na frente do incauto, mas não era visto. Invisível, arrepiante. Era uma alma penada! Tinha também uma matilha infernal, cachorrada que descia a rua em algazarra dos diabos, gritando, latindo em briga feroz; cachorrão e cachorrinho, que se supunha pela voz, grossa e fina, porque tal como o cavaleiro, passava levantando poeira, mas não era visto. Velhos assombros, mistérios d'outrora que a modernidade baniu mas a lembrança teima em conservar. 

Na rua dos fundos, a Antônio Josino Andrade Reis, que sempre chamamos de "Beira da Praia" (alusão muito nossa ao Córrego do Lenheiro), para onde davam a maioria dos quintais, tinha a Cobra Grande. Muita gente idônea daquelas beiradas a viu, subindo e descendo o Lenheiro ainda sem urbanização do canal, matagal nas margens, moitas, árvores, pedras, taquari, taboa. Ora no mato, ora na água. O povo tinha medo. Diziam-na imensa, feroz, com tais atributos que os supunha d'outro mundo. Certo dia, junto com um tio, fomos tirar bambu para fazer pipa, numa moita grande que tinha atrás da Sede Ferroviária (de 1948), onde funciona o AA (Alcoólicos Anônimos). Vimos apavorados um enorme mussurana, imensa serpente preta com laivos arroxeados, de uma beleza que impõe medo e admiração, enrolada, grossa, medonha. Fugimos. Seria a famosa Cobra Grande? Alguma enchente a levou para sempre.  

Essa beira da praia era de fato um grande quintal comum. Os moradores tinham ali varais de secar roupa. Na relva do caminho estendiam peças do vestuário para quarar ao sol. Galinhas eram criadas soltas e ao fim da tarde entravam sozinhas para seus galinheiros, cujo acesso se dava por uns buracos de abertura quadrada, deixados de propósito nos muros dos fundos. Por esta rua, Antônio Josino, paralela à Antônio Rocha e em verdade sua extensão comunitária, passavam boiadeiros tangendo gado aos gritos, "ô-ah!", "boi!". Ouvi falar de uma cena inusitada, de um boi de chifraria aberta, bicho carreiro, agitado com ambiente urbano, que ao passar embaraçou o chifre numa peça íntima em um desses varais. Saiu com ele pendurado e a dona correndo atrás, gritando para o tangedor: "péra aí moço! Meu sutião!" Por aí passavam velhas bicicletas pasteleiras e carroças no caminho de terra batida, urbanizado na primeira metade dos anos noventa. 

Cruzeiro e Gruta do Divino, aspecto da Rua Antônio Rocha
e a Rua Antônio Josino Andrade Reis pouco antes da urbanização. 

A festa junina era animadíssima no "Arraiá do Pito Aceso". Não faltavam os arcos de bambu, os cordões de bandeirinhas de papel de seda, a fogueira, busca-pés, uma barraca de improviso onde se achava canjica, quentão, broa de coalhada, pipoca. Vinha sanfoneiro, pandeirista, violonista, caixeiro. Lembro bem de seu desafio calangueado, no "calango-lango-tango, no calango da lacraia!" Moradores da rua viravam noivo, noiva, padre, dançantes de quadrilha e no balancê se confraternizavam. 

A Sede Ferroviária era lugar de queridos carnavais de salão, onde fantasiados de todo tipo se entregavam às clássicas e imortais marchinhas. O movimento de foliões era muito grande até a década de 1960. 

Em 1999 foi construída a Gruta do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário, espaço comunitário que desde então tem congregado os católicos do lugar e imediações na prática das orações de terços e novenas (Divino, Natal), além de uma missa campal por mês, a cargo da Paróquia de São Judas Tadeu. Neste espaço já foi realizada muita festa popular: as juninas, com fogueira, pau de sebo e quadrilha, a queima de judas, o terço da Santa Cruz, a festa de Santos Reis (com folia e pastorinhas), a do rosário (com congados) e o Divino, trazendo muitos grupos folclóricos e banda de música. Lamentavelmente estas festas se foram neste espaço.

A Rua Antônio Rocha é hoje bastante movimentada, como principal via de tráfego que vem do centro da cidade rumo aos bairros Fábricas, Caieira, Colônia e Matosinhos. As poucos vão surgindo pontos comerciais, transformados a partir de residências. Mas ainda é uma rua tipicamente residencial. 

Referências bibliográficas

GUIMARÃES, Betânia Maria Monteiro, VIEIRA, Luana Cristina. Bustos, estátuas, monumentos e chafarizes de São João del-Rei. 2.ed. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 76p.il. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Alguns personagens do carnaval de São João del-Rei

No meio da beleza da cidade, desfilam agremiações que a muito vem lutando nos preparativos, para por na rua o fruto de um trabalho árduo, construído em cores, ritmos e fantasias, seja nas excelentes escolas de samba ou nos numerosos e animados blocos. Entremeados à massa de foliões surgem figuras inusitadas, personagens do imaginário popular, construídos no improviso e com materiais simples e de baixo custo, que dão um toque especial de autenticidade ao momo. Ao observador não passam despercebidos e revelam uma legítima espontaneidade e o poder criativo do povo. Neste sentido, foram selecionadas as quatro fotos abaixo, que no seu exotismo mostram cenas típicas de um genuíno e alegre carnaval interiorano. 

Bloco das Piranhas: um Incrível Hulk travestido _ o ambulante diverte e trabalha ao mesmo tempo.
Foto: Ulisses Passarelli, 10/02/2013
Bloco Unidos do Aragê: da Rua João Wilson de Souza, no Bairro Araçá, descem bonecos, boi, animada bateria!
Foto: Ulisses Passarelli, 23/02/2014.  

Bloco Lesma Lerda: fantasmas que não assombram mas alegram o carnaval são-joanense.
Foto: autor não identificado, 1996. 
Bloco Os Caveiras: uma múmia desfila entre bruxas, esqueletos, zumbis, homens do saco, agentes mortuários.
Foto: Ulisses Passarelli, 11/02/2013.


Para conhecer outros personagens do carnaval são-joanense acesse o link abaixo: 





sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Programação do carnaval 2014 em São João del-Rei

O carnaval já fervilha, ecoa, batuca, requebra, esconjura a melancolia. Dia 8 p.p. foi a escolha da Rainha e Princesas do Carnaval 2014 na Avenida Presidente Tancredo Neves, principal via do centro de São João del-Rei. Evento forte e animado, corrido ordeira e pacificamente, que teve a grata volta de eterno Rei Momo, Roberto.

No sábado seguinte, 15 de fevereiro, foi a vez do primeiro bloco, o temporão Cachaça com Mel, Chora Borel, alegrando o Largo de São Francisco com suas marchinhas. Desceu a Balbino da Cunha como abre-alas do grande momo.

Enquanto isto (e desde vários dias antes...) por todos os cantos desta urbe, ensaios e preparativos aquecem a cada dia, num sem fim de afazeres.

Amanhã o pré-carnaval engrena com três blocos: a tradicional Bandalheira, na Rua Ministro Gabriel Passos e o Pérolas, Matinê de Rua, na praça do Morro da Forca, ambos à tarde, e à noite, o Zero Hora, cujo nome marca o horário de saída, das imediações do coreto.

Domingo, 23 de fevereiro, é a vez do Só Não Vai Quem Não Quer, que vem às 18 horas do Parque Real para a Praça Guilherme Milward. Desfilam também nesse dia o Alambique, partindo 21:15  h da Biquinha e pela primeira vez o Unidos do Aragê, que vem da Rua Ângelo Tirapelli rumo ao Centro às 16 horas, trazendo os foliões dos bairros Araçá e São Geraldo.

Daí a folia não para mais: segunda-feira, 24, desfila o Deixa o Mundo Girar, mais um que vem do Bonfim, 21 h; na terça é o PSF-Saúde, que sai 21 h do Carmo, além do tradicional Se Mamãe Deixar, 22 h, no Rosário, com sua bandinha de sopros e percussão, cheio de marmanjos de fraldões e grandes chupetas, e, é claro, as mamadeiras devidamente abastecidas. Trem Bão parte do Bonfim, local de várias agremiações.

Dia 26 de fevereiro, temos o gigante Lesma Lerda, que da Av. Oito de Dezembro arrasta uma multidão na noite da quarta-feira, com muitos foliões com fantasias criativas e frequentes e bem humoradas críticas. De primeiro Lesma Lerda trazia na frente umas pessoas metidas debaixo de um armação de arcos cobertos de pano estampado, terminando numa cabeça com cara de boazinha, pintada, e antenas de molusco, balançando. A grande lesma alegórica serpenteava rua afora à guisa do boi do bumba-meu-boi.

Casal de mandus, fantasia muito antiga e tradicional, flagrada no Bloco Lesma Lerda.
Foto: autor não identificado, 1996.  

No dia seguinte outro grande bloco toma as ruas, As Domésticas, com uma imensidão de homens travestidos em alegria e irreverência, concluindo com a típica eleição de seu destaque na escadaria do teatro. Mas As Domésticas dividem a noite com outros grandes grupos de foliões... os blocos Pirulito, que vem do Largo Tamandaré 22:30 h, o Gato de Botas, no mesmo horário partindo do Largo de São Francisco, e o Bloco n’Roll, concentrado num palanque na Rua João Salustiano.

O pré-carnaval continua, ou melhor, emenda com o carnaval propriamente dito da noite para a madrugada com blocos que se sucedem: a longa noitada traz um fora do centro, o Bloco dos Mala, em Matosinhos, desde a Rua Santa Madalena até a praça do santuário e depois em retorno; Arrasta o Resto traz foliões do Largo do Tamandaré; o Largo do Carmo agita a “Lapa” são-joanense, foco do samba; a Mocidade Independente de Santo Antônio, com animada rapaziada alegra a antiguíssima Rua Santo Antônio, trecho do Caminho Geral do Sertão que virou rua com nome de milagreiro; Arroz com Vinagreti sai das Águas Férreas, pras bandas do tradicional Tijuco; Copo Sujo, outro bloco de grande porte, inunda de foliões o Bonfim, despejando animação rua abaixo até a Praça Frei Orlando.
            
A noite vira... revira... madruga... alvorece no Alvorada, a matina de mais um carnaval. O querido bloco do amanhecer carnavalesco traz no radiante nome a força da tradição das bandinhas. Com pijamas e camisolas foliões de todos os recantos vem para a velha Rua Direita _ quem dera ainda chamasse assim! _ atual Getúlio Vargas. Na tradicional esquina com a Arthur Bernardes, onde outrora a municipalidade erguia ornado coreto para as bandas do carnaval, sai mais esse gigante, Bloco da Alvorada, 5 horas, no cantar do galo.
           
Depois de um pré-carnaval assim... colossal, os dias do momo ainda não trazem canseira à multidão de conterrâneos e turistas que invadem as ruas. Atrás dos carros e caminhões de som, das bandinhas, daqui e dali, nas esquinas, junto aos bares, gente de avoluma em torno de um grupinho com charanga, ou d’uma bateria de improviso. Bate-papo, toma cerveja, ri, namora, relembra. Gerações se intercalam em diferentes formas de foliar o momo.
            
Mas os blocos tem de continuar: Cambalhotas estende colchonetes pro caminho afora e lá vem o povo revirando cambota! Isto lá vai a tarde de sábado, até a noite, a partir do Largo de São Francisco; o Raposão junta sob o manto celeste, azul e branco cruzeirense a moçada do Largo do Carmo na mesma tarde; Mascarétis em mascarada e colorida folia, acolhedora e airosa, toma conta do calor da tardinha na Praça Dr. Salathiel; Trincação vem 17 horas descendo do Senhor dos Montes, desde a praça da igrejinha até a Avenida Presidente Tancredo Neves.
            
Os blocos de domingo são: Banda Mole, na Paulo Freitas e João Alvarenga (Alvarenga é a mãe!!!), do Matola, ambos vindo nessa tarde rumo ao centro; no Largo do Rosário a cultural atitude da Atitude Cultural põe na rua o querido Carnaval de Antigamente, reunindo a tradição do carnaval familiar e se concluindo com um desfile de velha jardineira e outros veículos antigos, nostalgicamente evocando os corsos que marcaram época. Alegre tarde. Acabou não! Tem ainda: Coração Rubro Negro que junta sob a fama flamenguista um monte de foliões no Largo do Carmo, Piranhas, bloco grandão trazendo rapaziada travestida desde o Alto das Águas Férreas na quente tarde domingueira; Santa Casa, vem das beiradas do Rio Acima, passa pela Frei Estêvão e chega ao São Francisco, isto pelas 17 horas; Chácara é bloco de mais tarde, mais uma agitação das noites do Bonfim e invade a madrugada.
            
Banda de Marchinhas no Carnaval de Antigamente. São João del-Rei/MG, 2013. 

Segunda-feira que seria normalmente de desânimo se revela extraordinária com o gigante do nosso carnaval, o maior de todos os blocos daqui, o Vamos a La Playa. Atrai milhares na rua em polvorosa alegria, molhados em duchas esguinchadas de mangueirões. Povo de biquíni, sunga, prancha de surfe, roupa de mergulhador. Demandava este bloco para a nossa “praia”, o cais do Lenheiro, pequeno córrego de nascente serrana. Vem hoje para a Av. Tiradentes.
            
O último dia do carnaval trás o Bloco Pantanal, da Rua Getúlio Vargas, e o Caixinha, da ladeira do Sr. dos Montes, ambos no cair da tarde, boca da noite. Cura Ressaca (será que cura?!) acontece na tarde da Terça-feira Gorda, completamente fora do eixo geográfico do carnaval, na Colônia do Marçal, não muito longe das Mangueiras.
            
Pensa que terminou? Deixei para o fim propositalmente outras atrações. No distrito do Caquende, beira de represa, tem o Bloco do Bambu, domingo; noutros distritos tem movimento também pelos largos, mas é na Terra de Nhá Chica, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno que o trem pega fogo. Um carnaval animado, que surpreende.  Com boa estrutura, se desdobra em três blocos que animam os dias principais: Unidos da Ponte, Bire Saturday e Birinight.
            
Quer mais? Escolas de Samba! Trazem este ano para nós uma grande expectativa com o investimento maior, carregando uma tradicionalidade que já fez São João del-Rei ser considerado o melhor carnaval mineiro e um dos mais proeminentes do país.

Manchete jornalística dos anos 30, enaltecendo o carnaval da cidade.
         
Primeiro de março, a partir das 20 horas, a passarela do samba tem abertura com a corte momesca e desfilam sequencialmente as escolas de samba: Unidos da Lata (mirim), Girassol, Bonfim e São Geraldo.
            
Domingo, 02 de março, 20:30 h: Mocidade Independente de Santo Antônio (mirim, segundo desfile), Bate-paus (com mais de 80 anos de vida!), Metralhas e Vem me Ver.
            
Segunda, 03 de março, ainda diante das arquibancadas da Avenida Tancredo Neves é a vez dos blocos típicos, em sequência, das 20 h em diante: Sem Compromisso, depois é a vez do Mestre Quati com seus pitorescos bonecões no Recordar é Viver; o tradicionalíssimo e inusitado Os Caveiras, um bloco de que ainda nos ocuparemos mais numa postagem específica neste blog, e por fim Ferverão, trazendo muita criança.

Nêga Maluca, no carnaval são-joanense.
Foto: autor não identificado, 1998.
Terça desfilam as escolas campeãs do carnaval 2014.
            
Para não dizer que acabou tem uma novidade: concurso de marchinhas carnavalescas, com premiação batizada com um nome de peso, “Agostinho França”. Apresentação pública das finalistas será dia 04 de março, entre 17 e 20 h, no palco da Esquina do Kibom (Av. Tiradentes com R. Ministro Gabriel Passos).

Todos estes grupos se filiam a duas associações, AESBRA e ABBC del-Rei.
            
Duvida que tem isto tudo, mais de cinquenta agremiações em desfile? Então vem ver...
           

* Texto e fotos (exceto indicação em contrário): Ulisses Passarelli            

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Antigos Carnavais de São João del-Rei

Em São João del-Rei a tradição carnavalesca se consolidou sobre décadas de experiências. Muitos ritmistas, sambistas, figurinistas e agremiações deixaram seu legado para outras gerações. A fama do evento nesta terra cresceu e correu por regiões distantes.

Aspecto parcial do bloco "Carnaval de Antigamente", 
no Largo do Rosário, São João del-Rei, 2013.
O estudo do carnaval antigo desta cidade nos fornece dados muito interessante sobre a história desta grande festa popular e ajuda a compreender o carnaval atual, sobretudo a paixão do são-joanense pela folia momesca.

Os velhos jornais aqui editados são fartos em informações sobre o carnaval e se revelam uma fonte preciosa de pesquisas. De suas páginas sabemos do gosto pelo entrudo desde os oitocentos, um extrovertido jogo de jatos d'água entre os brincantes do momo, por meio de grandes seringas chamadas bisnagas, ou mesmo baldes e bacias; guerra de limões e laranjas de borracha ou cera, que continham perfume e estouravam ao contato com o corpo pela força do arremesso; batalhas de farinha.

Esta prática a tivemos da península ibérica. Derivado do latim introitus ("entrada", referência à chegada do período quaresmal), no Brasil e Portugal o termo é o mesmo, entrudo; já na Espanha existem variações, segundo José António Fidalgo Santa Mariña (***): entroido (Galiza), antruxu (Astúrias e Léon), antroydo (León e Cantábria), entruejo (Sanábria, Zamora).

Porém o entrudo, embora que durante um período fosse uma das maiores características do carnaval, não agradava a muitos. O velho costume foi em verdade combatido pelas autoridades. O artigo 153 do Código de Posturas de São João del-Rei, edição de 1887, proibia o entrudo e o comércio das laranjas e limões de cheiro. 

A imprensa combateu este costume: “(...) reviveu até o antigo e nunca assaz condenado entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.” (O Resistente, n.374, 21-23/02/1901).


No ano seguinte o jogo de molhar prosseguiu, como comprova o recorte em foto acima, cuja mordaz crítica apóia a ação policial de coibir o entrudo, mas pergunta se as mulheres também seriam presas como os homens nos casos de transgressão, deixando claro ser uma farra comum  (A Farpa, n.14, 09/02/1902).

Também nos antigos reclames comerciais pode-se rastrear o costume nos anúncios da imprensa para o carnaval: “Bisnagas de todos os tamanhos, sortimento colossal na Charutaria do Commercio. – Rua Moreira Cesar, 10. (...) Borrachinhas para limão, por atacado e varejo na Charutaria do Commercio.” (O Repórter, n.6, 26/02/1905).


O carnaval de 1907 foi bastante animado. Garante o jornal acima retratado, que "o tiroteio de confetti, bisnagas e o lança perfumes esteve fortissimo", acontecendo de forma ordeira. A banda de música do Asilo de São Francisco, que era sediado no atual prédio onde funciona o DAMAE tocou animadamente num coreto armado na esquina das ruas Moreira César e Duque de Caxias (ex-Rua Direita), nomes antigos das atuais Arthur Bernardes e Getúlio Vargas, respectivamente. O jornal em questão destacava a atuação da agremiação Dominós Fúnebres (O Repórter, n.3, 17/02/1907).

Mas como o entrudo persistisse não obstante o crescimento dos grupos organizados de desfile, houve ainda proibições e ação policial no sentido de coibir o arraigado costume: “o doutor Alvaro Correa Bastos Junior, Delegado de Policia da Comarca de S.João d’El-Rey, Minas Gerais, etc., FAZ saber, para conhecimento dos interessados, que é prohibido o jogo de entrudo, e que serão estrictamente observadas as Posturas Municipaes” (A Opinião, n.129, 15/02/1912).


Mais tarde, na década seguinte, as referências aos ataques momescos com águas, pós e objetos de cera rareiam ou desaparecem da imprensa são-joanense, muito embora outros combates tenham persistido vigorosos: "as batalhas de confettis e lança-perfumes feriram-se com galhardia e denodo" . Garante o mesmo jornal o sucesso do desfile do Clube X.P.T.O. formado por uma "rapaziada batuta". Na esquina das ruas Direita e Moreira César, o poder público municipal armou um coreto, em torno do qual o povo se juntou para ouvir a fanfarra militar (A Bigorna, n.1, 08/03/1923).


Os irreverentes redatores "Chuca-chuca & Bijuca", invocando os foliões dos blocos, ranchos e cordões da cidade, divulgaram de forma auspiciosa a esperança de um animado carnaval para o ano de 1928, que principiou com o alegre batucar de um zé pereira, velho costume da passagem do ano, promovido pelas agremiações da cidade como um anúncio do carnaval (O Penetra, n.7, 01/01/1928).


Parecem mesmo terem sido proféticas suas palavras.  O órgão de imprensa do ilustre Basílio de Magalhães dedicou uma primeira página inteira ao carnaval daquele ano, detalhando as atividades. Na enumeração das agremiações descreveu a ordem do desfile de cada uma. O Clube X, "veterana sociedade carnavalesca", tinha um ar mais aristocrático e se destacava pela pompa e organização; os ranchos, União das Flores, Custa mas Vai, Qualquer nome Serve e Boi Gordo, desfilaram com o estandarte como abre-alas, seguidos de fanfarra de clarins, diretoria a cavalo ou num carro próprio, conjuntos de pastoras, carros alegóricos, banda de música; os blocos, mais livres em sua estrutura de desfile, marcaram a tradição com o Preto e Branco, "constituído de elementos representativos de nosso escol social", o Bloco da Interrogação foi organizado pela família  do comerciante Aniceto Antunes, que "saiu em caminhão muito chic, entoando belas canções". O Bloco do Oh! esteve sob o comando de Ivan de Andrade Reis. Os Turunas, emplumados à moda indígena, tradição muito arraigada aos carnavais antigos da cidade, sob a direção de Eduardo Cancio, "alcançou um successo digno de applausos." Desfilaram também o Bloco do Zero, o Bloco do Eu Suponho e Bloco da Cruz Vermelha (A Tribuna, n.912, 26/02/1928).


Esse mesmo jornal, quatro anos mais tarde, trazia impresso acima do próprio nome uma convocação que garantia ser o carnaval de São João del-Rei o melhor do estado (A Tribuna, n.1.103, 10.01.1932).


Em 1934 o número de ranchos aumentou com a chegada do Pierrot Brasileiro, que convidou o sr. João Pereira, diretor jornalístico do órgão de imprensa que o noticiou, para o cargo de orador oficial do grupo (A Sentinella, n.2, 14/10/1934).

Por esta época não se falava em escolas de samba. Seu estabelecimento por aqui foi bem mais tarde, a grosso modo, coincidindo com o fim, primeiro, dos cordões, depois, dos ranchos. Mas isto é outra história...

Notas e Créditos

* Textos e fotos: Ulisses Passarelli
** Fonte da pesquisa jornalística: acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG.
*** In: FERREIRA, Hélder (org.). Máscara ibérica. Porto: Caixotom, 2006. v.1.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Zé Pereira: imagem alegórica do carnaval de outrora

Um antigo refrão carnavalesco, assaz conhecido, atesta a inocuidade desta manifestação folclórica: “viva o zé pereira, que a ninguém faz mal ...” Como de fato a afirmação é legítima. As mudanças sociais é que fizeram mal ao zé pereira. A dinamicidade tremenda do carnaval o consumiu.

Este bloco carnavalesco é um folguedo alegre, barulhento, de irresistível ritmo firmado na percussão de frenéticos tambores - dentre bumbos, zabumbas, surdos, caixas e treme-terras, ou vem animado por uma charanga. Nele se misturam mascarados tradicionais, gente fantasiada de bichos e de bonecos gigantes.    

           De origem portuguesa, atesta o pesquisador Luís da Câmara Cascudo ser o “zé p’reira” natural do norte e das Beiras, aparecendo também nas festas dos oragos locais e nas romarias. Foi introduzido no Brasil primeiramente no Rio de Janeiro oitocentista.

       A novidade fixou-se e rapidamente se espalhou atingindo outros Estados e ganhando cores locais.

Com toques estilizados, adentrou nas grandes sociedades carnavalescas, de rua e de salão.Vila Velha (ES), Pelotas (RS), Goiás (GO), São Bento do Sapucaí (SP), Parati e Vassouras (RJ), Ouro Preto, Mariana e Prados (MG), etc., conheceram a tradição. De muitos lugares desapareceu, sendo hoje raríssimo. Os bonecões acompanhados de charanga e batuqueiros persistem animados em certas cidades paulistas: Atibaia, Iguape, Caraguatatuba, Redenção da Serra, Torrinha e Santana do Parnaíba [1]. Em Minas é afamado no Rio Novo, além de um grupo autêntico em Ritápolis.

Em São João del-Rei marcou época. Na primeira década do século XX até um pouco depois, vários destes grupos desfilavam pelas ruas, vindos de diversos bairros, encontrando-se na avenida e nutrindo certa rivalidade. O Bairro do Senhor dos Montes ficou célebre pelo seu grupo. Um dos registros do prof. Sebastião Cintra, nas “Efemérides de São João del-Rei”, noticia que em 1901, “no sábado de carnaval, percorreram a cidade os barulhentos Zé Pereiras”. O jornal são-joanense “O Repórter” registrou-os. Na edição n.2, de 05/02/1905, encontra-se este trecho: “Barulhoso Zé Pereira tem atordoado os moradores vizinhos á sede do Clube X e a pacifica população das ruas por onde elle tem transitado”. Na de n.4 o jornal atesta que “desde domingo passado que os préstitos do immortal Zé Pereira, tem se succedido, cada qual mais chibante e apparatoso disputando a victoria pelo chic, e numero de socios, uns ostentando asseiados carros, vistosos animaes e outros a pé, sempre em alegria cresente e animadora, fazendo crer que hoje e nos seguintes dias, proprios, mais se enthusiasmarão, honrando e homenageando o deus Momo”. No ano seguinte o mesmo órgão da imprensa reclamava acerca do desânimo do carnaval e a ausência de preparativos (n.1, 04/02/1906): “Os meninos é que estão a zabumbar o Zé Pereira, mas um zé sem futuro, zé que não formará e nem fará as nossas delícias”. Já na edição n.96, de 10/2/1910, em meio a severas críticas à desorganização e desânimo do carnaval daquele remoto ano e aos exageros do entrudo, há este lamento: “Nem ao menos o zabumbar de um Zé Pereira, animado, tão comum em outras localidades de menor importância, tivemos este ano”. Mas esta manifestação ainda durou mais alguns anos e depois sumiu. Só ficou na memória do são-joanense. Parece que do seu esfacelamento surgiram subsídios para os blocos de sujos. Mas averiguar isto exige pesquisa própria. E se o zé pereira é o pai dos blocos de sujos, é então avô do nosso querido “Lesma Lerda”.

E qual não foi a surpresa quando em 14/02/2000, a edição n.1.101 do jornal-mural “Amanhecer”, desta cidade, anunciou: “Zé Pereira domingo de carnaval... concentração 13 horas no Largo do Rosário. Bonecos gigantes e boi-bumbá. Parabéns ao Neném Quati e sua turma”. Era a força espontânea da memória coletiva brotando novamente! E saiu o zé pereira, descendo da Rua das Flores (atual Maestro Baptista Lopes) e se reunindo no Rosário, donde desceu pela avenida central com autenticidade numa memorável e calorenta tarde, girando os bonecões macrocefálicos na pisada certeira dos toques da charanga.

Penso que pelo valor histórico e folclórico este bloco merece grande atenção, hoje desfilando com o nome de “Recordar é Viver”, ainda sob o comando do “Mestre Quati” (Benedito Reis de Almeida). Compõe uma faceta bastante genuína do nosso carnaval de rua. E suas reminiscências foram bases formadoras do carnaval atual. O carnaval tradicional merece um grande apoio.

Vista parcial do bloco do Mestre Quati no desfile do ano 2000. 

Notas e Créditos

* Texto (fevereiro/2002; modificado em 14/06/2009) e foto (05/03/2000): Ulisses Passarelli.
** Obs.: O Professor Antônio Gaio Sobrinho transcreveu em um de seus livros notícia jornalística de 1924 sobre o zé pereira em Conceição da Barra de Minas, àquela época, um distrito são-joanense: "nestes dias, de 3 horas da tarde em diante, começarão a percorrer as ruas os numerosos grupos e cordões de fantasiados e retumbante zé pereira." (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.208).


[1] - In: Revelando São Paulo: Festival da Cultura Paulista Tradicional. SP: CEC, 2003. (DVD)