Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Festa das Mercês e o barroquismo são-joanense

A fé e a cultura são como uma janela que se abre para o mundo ... Na força do barroquismo a devoção católica são-joanense se construiu. Foi consolidada de pouco em pouco, em cada repetição anual.  Foi assim que as festas religiosas ganharam prestígio e solidez. 

É nas festas que vemos claramente a delicadíssima inter-relação de todo o patrimônio: material e imaterial, que se traduzem num só, como obra humana. É nestas ocasiões que se percebe como a ocupação do espaço urbano foi em certa medida sacralizada pela disposição estratégica de igrejas, cruzeiros e passinhos. Quando passa uma procissão serpenteia pela rua é como se uma linha imaginária unisse esses pontos, tal como aqueles jogos de traçar desenhos unindo pontinhos entre riscos. Uma vez unidos, a conexão do profano cotidiano com o sagrado festivo se firma em aliança. Então o povo de Deus se sente rejubilado e com energia para voltar à labuta que a vida impõe na aurora seguinte. 

A alma da cidade é barroca, pelo menos a do Centro Histórico... São João del-Rei ainda é do ouro. Seu reflexo ainda reluz do passado ao presente apontando que o futuro deve preservar essas tradições. A identidade do Centro Histórico é esta, plenamente funcional. 

Para entender é preciso vivenciar. De longe só se imagina. De perto, só se vê. Necessita entrar de fato e sentir com todos os sentidos. Ver a habilidade dos sineiros e ouvir o eco do bronze lá na torre; é mister observar os gestos dos devotos estendendo mãos, persignando-se, fechando os olhos na hora da prece; o cheiro de incenso no ar; fogos de artifício; opas e hábitos de irmãos de vários sodalícios; música de banda e orquestra; velas acesas; multidão conglomerada por um objetivo comum: a fé motriz. 

Numa festa do porte dessa das Mercês todos os elementos constitutivos se somam e mesclam exacerbando com muita beleza a tradição religiosa da cidade. 

1- Andor de Nossa Senhora das Mercês em São João del-Rei:
uma cascata de flores cai de seu buquê.

2- Na primitiva Rua Direita, tendo a majestosa Igreja do Carmo como
plano de fundo, o andor marcha entre lanternas perfiladas.

3- Na chegada ao templo mercedário, um chuva de papel picado
saúda o andor que traz a imagem da Mãe querida. 

4- O andor de São Pedro Nolasco galga a escadaria. 

5- Um espetáculo pirotécnico rico e muito bem sincronizado ilumina
o céu são-joanense e impressiona os devotos. 

6- A multidão de fiéis acorre à festividade e lota o largo.

7- O incenso rescende; velas bruxuleam; lábios balbuciam preces.

8- São Raimundo Nonato em seu andor. 

9- A fé e a cultura são como uma janela que se abre para o mundo. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: 1, 2, 8 - Ulisses Passarelli; 3, 4, 5, 6, 7, 9 - Iago C.S. Passarelli 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Moçambique de Ribeirão Vermelho


Moçambique "São Benedito" (jomba), de Ribeirão Vermelho/MG,
durante a Festa do Rosário em Ibituruna/MG. 30/06/2013.

Notas e Créditos

* Texto, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Moçambique de Santana do Garambéu

Moçambique bate-paus de Santana do Garambéu, no
interior do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
Jubileu do Divino, 19/05/2013.


Créditos

- Texto e acervo: Ulisses Passarelli.
- Vídeo: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Revisão: 08/03/2026.

sábado, 19 de setembro de 2015

A Festa de São Januário

São Januário é o advogado contra a violência, festejado a 19 de setembro. Nasceu na Itália, em Nápoles, no ano de 270 e foi batizado com o nome de Prócolo. Pertencia à família Ianuarii, consagrada ao deus Jano. Sua ordenação aconteceu no ano 302 e foi virtuoso bispo de Benevento. Foi preso e martirizado pelo imperador romano Diocleciano, em 305. Narra-se, que junto com outros cristãos, sobreviveu incólume ao martírio pelo fogo e depois, na arena, não foi molestado por leões famintos. Morreu degolado. Um cristão teria armazenado uma amostra de seu sangue em ampolas, até hoje existentes, junto à sua imagem napolitana, que se liquefaz milagrosamente no dia de sua festa. É considerado por católicos e ortodoxos. Sua canonização veio somente em 1586, pelo Papa Sixto V. Santo querido dos italianos e seus descendentes – o célebre San Gennaro, como dizem em sua língua. 

Tem igreja própria no arraial de Januário (São João del-Rei), no distrito de São Sebastião da Vitória, construída por volta de 1999. A festividade acontece em torno do dia do santo, tendo neste domingo seu dia maior. A programação religiosa inclui novena, missas, procissões, coroação do Sagrado Coração de Jesus, bênção do Santíssimo Sacramento. Acontece também uma missa sertaneja. Existe movimento de barraquinhas, víspora, shows, torneio de truco e cavalgada, vinda de São Miguel do Cajuru. Até alguns anos a procissão era musicada pela banda local. Esta corporação está por oras desativada, de tal sorte que Januário conta com a presença da Banda Municipal Santa Cecília, vinda de São João del-Rei.

Outra comemoração deste santo acontece na Matriz da Imaculada Conceição, Bairro Colônia do Marçal, em São João del-Rei, iniciativa do pároco, Padre Antônio Claret Albino. Em 2004 foi realizada sua primeira festa naquela igreja, com renda revertida para as obras da torre, então em fase de fundação. Em situação estratégica, ao centro da antiga colônia italiana da cidade, contou esta festa com tríduo preparatório e no seu dia consagrado, missa com cantos italianos e almoço farto com cardápio à italiana. Incluiu ainda procissão, adoração e bênção do Santíssimo, missa para enfermos, bênção da água e venda de comes e bebes no galpão sito no adro. No ano de 2015 a festa está programada para ter o dia maior no primeiro domingo de outubro, dia 4.

Imagem de São Januário esculpida pelo artista sacro são-joanense
Osni Paiva, venerada na Igreja Matriz da Imaculada Conceição,
Colônia do Marçal, São João del-Rei.  Extraído do cartaz
da sua festa, ano de 2004. 

Capela de São Januário, povoado do Januário (São João del-Rei/MG).
Autor: Ulisses Passarelli, 22/06/2013. 


Banda de música do povoado do Januário, em dois momentos de apresentação.
Autor: não identificado. Data: 2007. Fonte: gentilmente cedidas pelo sr. Jésus, 
um dos músicos. 


Referências 

Januário de Benevento. Wikipédia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Janu%C3%A1rio_de_Benevento (acesso em 20/09/2013 e 16/09/2015, 07:17h)

19 de setembro: São Januário ou Gennaro. Portal Paulinas, https://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=santo&id=448 (acesso em 16/09/2015, 07:16h)

História de São Januário. Cruz Terra Santa, http://www.cruzterrasanta.com.br/historia/sao-januario (acesso em 16/09/2015, 07:20h)


 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 03/07/2025. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Festa do Rosário no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei

Iniciou-se ontem, no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei, mais uma festa congadeira dedicada a Nossa Senhora do Rosário, a se concluir no próximo domingo, dia vinte do corrente. Por volta das 19 h, duas guardas de congado da cidade se apresentaram no Salão Comunitário: o "Santa Efigênia" (moçambique, do próprio bairro), sob a direção do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa e o "São Benedito e Nossa Senhora do Rosário" (catupé), capitaneado por Moacir Santana. 

Quatro mastros, pintados em azul claro e branco, cores estas dispostas em largas faixas, com a base pintada em preto, aguardavam deitados no fundo do salão o momento do levantamento. Diante de cada um, zeladoras seguravam os respectivos quadros emoldurados, enfeitados de fitas multicores: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Santo Antônio Catigeró, os dois primeiros erguidos pelo Capitão Moacir e os dois últimos pelo Capitão Tadeu. A disposição dos mastros forma um amplo quadrilátero no largo, delimitando simbolicamente o espaço sacralizado onde dançarão os demais congados no dia maior. 

Cumpridos todos os rituais da cultura popular, os dois grupos se encaminharam à capela, onde, diante do altar, congadeiros, festeiros, comunidade e membros do Terço dos Homens deram início ao primeiro dia do tríduo preparatório, com a reza de um terço em favor da paz. Aliás, segundo o programa, os terços serão todos por esta intensão, na comunidade, na família e no mundo. 

Finda a oração, foram homenageados alguns membros de destaque na preparação da festividade, recebendo certificados mediante o rufar das caixas e chocalhar das gungas. 

Na sequência foi servido um lanche para os congadeiros no salão, despedindo-se em clima de confraternização até domingo, se Deus quiser, que terá animada programação a partir da alvorada, até a descida dos mastros 18 horas, que encerra as comemorações. 

"Olha que mastro bonito!  - bis
Quem levantar esse mastro,
ôh, mamãe ...
vai para Angola comigo!"
(jomba, cantada pelo Capitão Tadeu)


Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei. Papel couché, 29,5 x 42cm.
 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 27/05/2026. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Festa do Rosário do Bairro São Dimas, São João del-Rei

Acontece neste momento no Bairro São Dimas, em São João del-Rei, mais uma festa dos congadeiros em honra a Nossa Senhora do Rosário. Os grupos do bairro recepcionam vários visitantes que de praxe cumpre os rituais de visita aos mastros, ao cruzeiro e à capela, bem como à casa da festeira. Como de costume é garantido aos grupos a alimentação e eles se confraternizam em torno da mesa. 

O reinado não falta e para escoltá-los, os congadeiros, com grande devoção, entoam seus cantares e toques instrumentais, dançando alegremente rumo à capela. 

O bairro é um dos pontos mais tradicionais na prática do congado na cidade e ainda hoje conserva dois grupos. Grandes nomes da força congadeira no município viveram ou trabalharam seus congados no São Dimas, tais como os capitães José Camilo e seu filho Raimundo Camilo, Waldemar Fagundes e Luís Santana, além da célebre Rainha, Dona Maria da Glória, saudosa mãe da Capitua Maria Auxiliadora Mártir. 

A todos rendemos nossa sincera homenagem. 

Rosário no interior da Capela do Rosário do Bairro São Dimas. 

Cartaz da festa. 42 x 30cm, papel couché. 

Congado de Barroso. 

Congado do próprio bairro, do Capitão Moacir Santana.

Congo de Itaguara. 

Congo de Itatiaiuçu. 

Aspecto parcial do interior da Capela do Rosário do Bairro São Dimas,
vendo-se os andores de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário
prontos para a procissão. 

Congados de fora visitam e prestigiam a festeira, Maria Auxiliadora Mártir,
como estes Marujos de Carandaí. 

Mastros diante da capela em festa. 

Mensagem pintada no asfalto ao lado da Capela do Rosário. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Brincadeiras infantis - parte 1: parlendas

Não digo sobre todas, mas sobre a maioria: as crianças de hoje não imaginam uma das grandes diversões da molecada de trinta, quarenta, cinquenta anos atrás... Cantigas, enunciados, danças de roda, parlendas, fórmulas de escolha... Eram mecanismos versificados, memorizados, que alegravam suas brincadeiras e ajudavam na socialização. 

Nesta postagem as parlendas vem à baila. São versificações simples para a memorização, enunciados com temas pueris, aparentemente disparatados, que tanto as crianças brincam entre si quanto os adultos com elas, momentos que deveríamos ter mais amiúde, para não deixar morrer a criança que existe dentro de nós. 

Os exemplares aqui expostos procedem de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas mas extrapolam em muito esta área. Por toda parte houve dessas cantilenas e nos lugares mais recônditos elas ainda sobrevivem. De memória lembro de uma conhecidíssima parlenda, que aqui em São João del-Rei, nos anos setenta era assim: 

"_ Cadê o toicinho que tava aqui?
 _ O gato comeu.
 _ Cadê o gato?
_ Tá no mato.
_ Cadê o mato?
_ O fogo pegou.
_ Cadê o fogo?
_ A água apagou,
_ Cadê a água?
_ O boi bebeu.
_ Cadê o boi?
_ Tá amassando trigo.
_ Cadê o trigo?
_ A galinha espalhou.
_ Cadê a galinha?
_ Tá botando ovo. 
_ Cadê o ovo?
_ O frade bebeu. 
_ Cadê o frade?
_ Tá rezando missa.
_ Cadê a missa?
_ Já acabou..."

Essa parlenda de que existem algumas pequenas variantes, as mães brincavam com as crianças, dialogando em sistema de pergunta e resposta e "procurando o caminho da missa": o enunciado se fazia com a palma da mão da criança estendida para cima e a mãe, pondo o indicador no centro da palma, fazia a pergunta e obtinha a resposta... está no mato, está botando ovo... sempre batendo o dedo a cada pergunta. Quando diz "a missa acabou", o dedo corria repentino pelo braço acima para fazer cócegas na axila da criança. Daí que algumas versões, como uma de Santa Cruz de Minas, da década de 1990, terminam com uma última pergunta: "_ Cadê o caminho da missa?" e a própria pessoa responde: "_ Tá aqui!" e corre para fazer as cosquinhas. 

Uma outra, são-joanense, mas assaz conhecida também noutros lugares é a seguinte: 

"Hoje é domingo, 
pede cachimbo!
Cachimbo é de ouro,
pega no touro!
O touro é valente, 
pega a gente!
A gente é fraco,
cai no buraco!
O buraco é fundo,
tá no fim do mundo!"

A versão correspondente na vizinha Santa Cruz de Minas se traça idêntica, exceto por trocar a palavra "fraco" por "bobo" e "tá no fim do mundo" por "arrasa o mundo".

Os enunciados não se desfiam mecanicamente. Tem uma rítmica na pronúncia, como um esboço musical: 

"Fui passar na pinguelinha, [1]
chinelinho escorregou do pé;
os peixinhos reclamaram,
que cheirinho de chulé!"

E quem não conhece...

"Um, dois, feijão com arroz!
Três, quatro, feijão no prato!
Cinco, seis, feijão inglês!
Sete, oito, comer biscoito!
Nove, dez, comer pastéis!"

A pronúncia é acelerada e ritmada até o final, que se abre ou rompe, "pastéisss..."

Era muito comum os vendedores de picolé com caixa de isopor pendente no ombro à tiracolo, ou empurrando carrinhos próprios, oferecerem seu produto apregoando assim: 

"Ao picôooo...lééé!"

A palavra "picolé" era esticada na pronúncia, começando quase gutural, depois em tom de baixo, para finalmente se abrir aguda. Uma forma de anúncio que já não se vê. Pois bem. A criançada, motejando tais vendedores, ou os parodiando, saía com essa parlenda em São João del-Rei: 

"Ao picolé, lélé!
Tem de coco e de chulé,
quem quiser levanta o pé,
na careca do sô Zé!" [2]

Ou com esta, em Santa Cruz de Minas:

"Ao picolé,
tem de coco e de chulé,
só não compra
quem não quer."

Bastante conhecida e divulgada é esta:

"Chuva choveu,
goteira pingou,
pergunta os papudo [3]
se o papo molhou..."

As meninas gostavam muito desta:

"A casinha da vovó,
cercadinha de cipó,
o café tá demorando,
com certeza não tem pó..."

Uma variante diz "trançadinha de cipó".

Um tanto irônica é esta, de Santa Cruz:

"A cana é minha, o boi é seu;
a garapa é minha, o bagaço é seu..."

A garapa é a parte boa, doce; o bagaço é o resto, sem serventia. Em São João del-Rei o saudoso capitão de congado Raimundo Camilo adaptara essa parlenda aos pontos de seu catupé. 

Ainda colhida em Santa Cruz, uma parlenda de sentido chulo [4]:

"Dona Mariquinha, 
fez xixi na canequinha,
foi falar pra todo mundo
que era caldo de galinha ...

Dona Mariquinha,
foi tomar banho na gamela,
a água 'tava quente 
sapecou a bunda dela ...

Dona Mariquinha,
foi tomar banho no tacho,
a água 'tava quente
sapecou ela por baixo ...

Dona Mariquinha,
não tinha o que fazê,
pôs o galo com a galinha
no terreiro pra metê ..."

Outras da mesma fonte: 

"Sô do morro 
da bananeira,
olho pra sua cara,
me dá caganeira ..."

"Comi pepino,
rotei jiló;
a bunda da véia
é muxiba só!"

Já em São João del-Rei [5]

"A Mariquinha
comeu tripa de galinha,
foi contar pro namorado
que comeu macarronada."

E por fim, mais duas da mesma fonte, sendo a primeira conhecidíssima: 

"Menina bonita,
não come jiló,
jiló é veneno,
matou sua avó!"

"Compadre Zacarias,
que mora lá no sul,
barba de sapé,
do olho azul."

Dentre tantas outras essas parlendas revelam a alegria do folclore infantil, brinquedos da oralidade, expressão imaterial da lúdica da criançada, que não depende só de objetos para se divertir. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.  

Notas

[1] Pinguelinha, pinguela: pequena ponte improvisada sobre valos e córregos, formada só por um tronco, uma tábua grossa (pranchão) ou um feixe de bambus, que possibilita a passagem de uma só pessoa por vez.
[2] Sô: senhor, sinhô, nhô. Zé: José. 
[3] Papudo: falador, caluniador, prolixo, aquele que conta vantagens próprias, que aumenta ou inventa suas próprias qualidades. Esta parlenda ouvi-a em 1997 convertida em canto de congado, na guarda de congo do Capitão "Antônio da Cidoca", em Passos/MG. 
[4] Informante: Maria Aparecida de Salles, Córrego - Santa Cruz de Minas,1998.
[5] Informante: Aluísio dos Santos, Centro - São João del-Rei,1994.

- Revisão: 04/04/2025. 

sábado, 5 de setembro de 2015

Congado de Bias Fortes: vinte cantos

1-      _ Mestre Domingos, 
10-   Vamos com o rei rondar!
Que veio fazer aqui?
Oi, vamos com o rei rondar!
Vim buscar a sinhazinha,
Vamos com o rei rondar, sinhá,
Sinhazinha para mim!
Vamos com o rei rondar ...


_ Mestre Domingos,
11- A coroa do rei
Quê que você quer?
Não é de ouro e nem de prata;
_ Eu quero a sinhazinha
Eu também já usei
Para ser minha mulher!
E eu sei que é de lata ...


_ Mestre Domingos,
12- _ ô pilão de moçambique!
Quê que você ganhou?
_ É de moçambicar!
_ Eu ganhei uma bengalinha,

Quem me deu foi meu sinhô!
Variante: _ É pra moçambicar!


2-      Quem manda no mundo é Deus,
13- Meu boi-macuco
Quem fica no mundo é eu;
Está no curral,
Resolvendo os problemas
É dia, gente,
Que Jesus me ofereceu ...
Vamos, sinhá!


3-      Menina bonita,
14- Ô beija-flor,
Balão de fulô,
Que beija o mel,
Chega pra cá
Ô que beija Maria,
Tá fazendo calor!
Se Deus quiser!


4-      Vou matar o meu carneiro
15- O rola candí morreu;
Vou cortar os quatro pés,
O saco do boi é teu ...
Depois do carneiro morto,

Quero o meu carneiro em pé.



5-      No passar da ponte,
16- Eu matei meu boi-laranjo,
Meu corpo tremeu!
Pra partir com a freguesia,
Água tem veneno,
Levantei de manhã cedo,
Quem beber, morreu...
Boi-laranjo está na guia ...


6-      Na Bahia tem,
17- Lá no fundo d’Amazonas tem areia ...
Eu mandei buscar,
Me alumeia! Me alumeia! Me alumeia!
Lampião de ouro,

Ferro de engomar.



7-      Na Bahia tem,
18- Eu vi, eu vi,
Eu mandei trazer,
Neném chorar ...
Lampião de ouro,
É dia gente,
Máquina de coser.
Vamos, sinhá!


8-      Lá no céu tem um vela,
19- Dói, dói, coração!
Que alumeia São João,         BIS
Deixa doer!
Alumeia esses devotos
Devagarzinho ...
Que nos deu um café bão.   BIS
Até morrer!


9-      Lá no céu tem uma vela,
20- Ô lua nova,
Que alumeia São João Bosco,    BIS
Ô Estrela do Norte,
Alumeia esses devoto
Vou pedir Nossa Senhora,
Que nos deu um bom almoço.   BIS
Que te dá uma boa sorte!


* * *

O município de Bias Fortes está situado oficialmente fora da Mesorregião Campo das Vertentes, alvo deste blog. Está na da Zona da Mata, Microrregião de Juiz de Fora, mas em seu limite extremo com as Vertentes, com a qual culturalmente é contígua e ao mesmo tempo fazendo intercâmbio e ponte cultural com os elementos da Zona da Mata. Daí sua importância estratégica no estudo da região e o motivo concreto de sua reiterada inclusão nesta página eletrônica. Situação idêntica aliás acontece com o município de Bom Sucesso, no lado oposto, já na Mesorregião Oeste de Minas, Microrregião de Oliveira, que tem papel igual no cenário da cultura popular, como área de transição do folclore do oeste e do centro-sul mineiro. Estes municípios limítrofes são sempre aqui considerados em igualdade. 

Na área de Bias Fortes e municípios limítrofes surgem especialmente os congados do tipo bate-paus, uma modalidade de moçambique. Surgem também em localidades rurais. 

Alguns breves comentários são cabíveis sobre estas cantigas. Foram coligidas de memória, diretamente com a informante, em diferentes ocasiões e, portanto, não estão em ordem de execução numa ocasião festiva. 

A primeira reveste-se de especial interesse. A citação à figura de Mestre Domingos remete à similitude com cantigas muito antigas, registradas no nordeste brasileiro. A informante dizia que era um canto de buscar princesa, daí a referência "vim buscar a sinhazinha".

O canto nº2 é um ponto, um tanto irônico, referindo-se à prepotência de quem se impõe como mandatário e senhor dos destinos alheios. Em versão simplificada é conhecido este canto em São João del-Rei e cidades próximas. 

Do canto 4 registra-se uma variante dentro do mesmo tema, coligida em Barbacena, 1996: "Eu matei carneiro, / mandei enterrar, / cheguei no rosário, / carneiro tá lá..." (canto de trabalho, capina de roça).

Cantos 5 e 6 são extremamente conhecidos na região das Vertentes e tem diversas variantes, por vezes muito próximas. São considerados pelos congadeiros como cantos muito antigos. 

Do 8 e 9 registra-se em São João del-Rei a seguinte variante, cantada tanto por congados quanto por folias: "Lá no céu tem uma estrela (ou: uma vela) / que ilumina São José, / ela há de iluminar / quem nos deu o bom café."

O número 12 tem variações, uma das quais anotada em São João del-Rei: "É no pilão de moçambique, / no pilão de moçambique, / moçambique, auê, auá! / Sol vai e lua vem / pra com Deus alumiá!" BIS  É um canto conhecido mesmo em cidades distantes, como Passos/MG, onde é cantado por grupo de moçambique. 

As expressões "boi-macuco" e "boi-laranjo" referem-se à pelagem do animal, cinza-ardósia (como a das penas do macuco) ou cambiante ao alaranjado. A expressão "vamos, sinhá" é corriqueiramente pronunciada contraída, "vamos'inhá!" ou até mesmo transformada em "bamos'inhá". 

O enigmático canto 17 faz ponte com um ponto de congado são-joanense, que o Capitão Luís Santana sempre cantava: "Lá no fundo do mar tem areia... / xique-xique, balanceia!"

O canto 19 era cantado assim pelo Capitão José Camilo, em São João del-Rei, repetido ainda hoje por outros grupos: "Dói, dói, dói, / deixa doer... / dói, coração, / vai doendo até morrer!"

Por fim o canto 20 é entoado com letra idêntica pelo tradicional congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, como agradecimento por alguma oferta ao grupo. 


Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli

Notas 

- Informante dos cantos: sra. Elvira Andrade de Salles, 1995-1997, in memoriam.
- Revisão: 14/06/2025. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Folclore, Cultura Popular e Patrimônio Imaterial

Em comemoração ao Dia do Folclore, passado a 22 do corrente e do Mês do Folclore (agosto), este blog traz à tona a presente postagem dedicada a um panorama sobre a caminhada dos estudos do folclore no país. A evolução dos conceitos e por conseguinte do próprio entendimento da matéria tratada é a base desse texto, que o faço em homenagem a todos que eivados de satisfação se irmanam como folcloristas. 

* * *

O conceito ou antes a interpretação do fato folclórico tem mudado intensamente. Não é para menos. A dinâmica é um elemento típico da cultura e notadamente no campo folclórico a rapidez com que as coisas mudam é notória. Sobre modelos ancestrais se constroem novas formas. A Carta de William John Thoms em 1846, na qual surge pela primeira vez esta palavra, "folk-lore", já nos dá esse indicativo nas suas entrelinhas. 

Ficou então patente que a dinâmica é uma de suas essências e no seu processo destrutivo e construtivo ao mesmo tempo, em verdade remodela o fazer pela mescla do saber. As manifestações se adaptam à psicologia coletiva de seu tempo, desde que tenham ainda uma funcionalidade para a comunidade. Do contrário, de fato, perecem. Folclore é pois essencialmente vivo e mutável. 

Nos meados do século XIX o folclore era entendido como um conjunto remanescente de tradições antigas, em vias de total desaparecimento. Urgia recolher em apontamentos o seu conteúdo para que a sabedoria nele contida não se perdesse para as gerações futuras. O museu seria a própria página de um livro temático. 

As devoções populares surgem onde menos se espera.
Cruz da Cristina, Estrada do Brumado, São João del-Rei. 11/07/2015. 

Nas primeiras décadas da centúria seguinte, grandes personalidades no estudo do folclore deram-lhe em conjunto uma nova conotação, adentrando por uma fase de estudo metódico, criterioso. A faina da coleta de campo nunca parou e nunca parará. É uma peculiaridade do folclorista, tantas vezes criticada, condena, julgada e execrada por alguns cientistas sociais, que, em vivência de gabinete, distante da realidade popular, não podem compreender o sentido ou o objetivo deste tipo de trabalho. É porém um trabalho que tem seus méritos e hoje muita gente se debruça  a estudar sobre o material etnográfico recolhido pelos velhos folcloristas, que em suma se tornou a fonte primária da pesquisa... O fato é que uma coisa não impede outra. A briga no campo teórico entre folcloristas e outros cientistas sociais já amplamente analisada, em si, a grosso modo, foi pouco frutífera. 

Em meados dos novecentos a folclorística ganhava uma estruturação bem mais sólida, reconstruindo-se sobre o legado de Mário de Andrade, de Luís da Câmara Cascudo, de Amadeu Amaral, de João Ribeiro e de tantos outros. Começa o mecanismo associativo dos estudiosos Brasil afora e das tentativas nesse sentido a de melhor êxito foi a Comissão Nacional de Folclore, fundada por Renato Almeida em 1947 e ainda na ativa, com comissões estaduais filiadas compondo uma rede de pesquisadores. Logo surgiram as Semanas Nacionais do Folclore (a partir de 1948) e os Congressos de Folclore, o primeiros deles realizado em 1951, no Rio de Janeiro, ocasião na qual se aprovou a Carta do Folclore Brasileiro, um documento de construção coletiva no qual se alinhavam os conceitos em voga a respeito do que seria ou não considerado folclórico e seus pressupostos teóricos à luz de seu tempo. Era um avanço enorme. A primeira sistematização não individual.

Folia de Reis das Águas Férreas visita um lar e canta diante do presépio
iluminado por uma vela, na noite de Natal. São João del-Rei, 2014. 

Os congressos continuaram e as pesquisas folclóricas ganharam tal significado que tomaram o status de movimento cultural, vigoroso, com o desenvolvimento da célebre Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, tendo como expoente Edson Carneiro. Um movimento tão bem ancorado que conseguiu mobilizar um grande número de estudiosos e criou uma linha editorial de livretos e discos compactos em vinil, congregando estudos os mais variados da folclorística e registros sonoros de manifestações folclóricas de todo o país. Gozava de um apoio governamental e político significativos. O folclore era entendido como um elemento de nacionalismo, identitário do povo brasileiro, por assim dizer, um dos componentes da soberania. 

Mesmo depois de arrefecida a campanha, o movimento sem mais a estrutura anterior ou a amplitude de mobilização nacional, prosseguiu porém muito forte ainda nos governos militares. A produção e ação era gigantesca ainda na década de 70.  Mas na década seguinte, apesar do empenho incomensurável dos amantes do folclore o movimento nacional da folclorística entra em fase de latência. 

Congadeiros chegam à Capela do Rosário em seu dia festivo.
Ramos (Ritápolis/MG), setembro/1996. 

Obviamente, que já passadas tantas décadas, as questões conceituais tinham evoluído. Daquele entendimento inicial do folclore como resíduo de cultura em extinção pouco restava. Ele não tinha acabado, nem cem anos após o pioneiro inglês, William John Thoms. Folclore já não era só a manifestação intangível. O material também foi englobado. Assim, de uma cantiga a um balaio artesanal, de uma benzeção a um doce caseiro de laranjas, tudo era folclórico. Com pouco outro avanço ganha corpo: o folclore não era só o antigo, o tradicional. Podia existir um folclore nascente, novo em si ou com uma roupagem recente estabelecida sobre modelo antigo. O folclore vivia também a plenos pulmões nos grandes centros urbanos e não apenas nos arraiais recônditos. Outro tabu se quebra: o anonimato. Passa a ser uma característica secundária; o fato de se vir a conhecer o autor de um folheto de cordel ou de uma moda de catira não os torna menos valorosos para o universo do folclore. 

Ao tempo da redemocratização do país o movimento das comissões estava caquético. Elas se dissociavam, apagavam-se. As edições minguavam. Os congressos esfriaram. Os folcloristas prosseguiam na faina, mas não havia mais movimento significativo. A própria palavra "folclore" estava a horas tantas desgastada, mal compreendida e pessimamente usada. Folclore se tornara pelo emprego errôneo símbolo de mentira, daquilo que não factível. Até numa empresa, quando algo dá errado, uma trapalhada qualquer, já se usa a expressão: "entrou para o nosso folclore". O mesmo na política.

Mastros junto à Capela de São Sebastião durante a festa do orago.
Restinga do Meio (Ritápolis/MG). Janeiro/1996. 

Fora do Brasil, foi por esse tempo, com exatidão em 1989, que a UNESCO na sua 24ª reunião lançou luzes sobre os novos rumos do entendimento dessa cultura. A partir daí, na reunião seguinte foi lavrado um documento que seria um verdadeiro marco, a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Popular e Tradicional. A expressão "cultura popular" que já ganhava espaço em detrimento de "folclore", mas ainda com dissonâncias conceituais, adquiria um espaço maior e a partir de então progride nas preferências de uso. Trouxe um novo alento aos teóricos do assunto e impulso de vigor que aqui no país se reverberou com o soerguimento das comissões... 

Cartuchos de amêndoas. Festa de São Miguel Arcanjo.
São Miguel do Cajuru (São João del-Rei/MG). Setembro/1999.
 

Em julho de 1992 aconteceu em São José dos Campos o Simpósio Nacional de Ensino e Pesquisa de Folclore que a despeito de seu eixo temático com êxito alcançado, foi também o gérmen desse processo de reestruturação das comissões e em especial conseguiu novamente congregar os estudiosos em torno do eixo comum. Na sequência o VIII Congresso Brasileiro de Folclore (Salvador, dezembro de 1995), retomou a série e promoveu a necessária releitura da Carta do Folclore Brasileiro, incorporando os novos conceitos e ajustando os que se tornaram obsoletos. Além dos congressos que se mantiveram desde então (o próximo, 17º, programado para 2016 em Belo Horizonte), surgiram os Seminários de Ações Integradas em Folclore e Cultura Popular, funcionando como eventos nacionais e macrorregionais. 

Enquanto isto, gradativamente a expressão cultura popular ganhou força em detrimento de folclore. Ao mesmo tempo, novos conceitos inclusivos, reinterpretaram essa mesma cultura como um elemento constitutivo de nosso patrimônio. Por conseguinte, nas reconceituações, o folclore é entendido em tempos hodiernos como sua parte imaterial e gozando então de prerrogativas semelhantes. Dentre outros documentos, destaca-se a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, lançado em 2003 pela UNESCO, bastante emblemático nesse sentido e sem dúvidas uma evolução daquelas suas recomendações de salvaguarda de dezessete anos antes.

Espantalho entre hortaliças.
Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 1999. 
O novo texto fortalece no Brasil a tendência aproximativa da cultura popular ao imenso bojo do patrimônio imaterial e órgãos importantes do país começam um trabalho muito sério de reconhecimento e valorizações de manifestações populares, que pouco a pouco ganham espaço nas políticas públicas para culturas, fato inimaginável a poucos anos. 

Assim, a grosso modo, evoluiu a caminhada da folclorística em terras brasileiras. As rápidas considerações deste texto apenas esboçam a trajetória, que prossegue em construção permanente. 

Samburá: trançado de taquara para carregar pescados.
São João del-Rei. Peça da década de 1980. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli (cruz e folia); Ulisses Passarelli (as demais fotografias).
*** Leia também: FUNDAMENTOS DO FOLCLORE

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Folia do Divino na missa


Folia do Divino "Embaixada Santa" durante a missa na 
véspera de Pentecostes, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
São João del-Rei. Folião e Embaixador: Luís Carlos Rosa, Bairro Araçá. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli. 
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli, 18/05/2013.