Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 7 de março de 2017

Brincadeiras infantis - parte 7: cantos interativos com adultos

No universo das brincadeiras infantis sobressai pelo inusitado um pequeno conjunto de fórmulas cantadas, que permitem com muita naturalidade a interação lúdica entre adultos e crianças. São cantilenas revestidas de ingenuidade, pueris, que por sua singeleza conectam o adulto ao mundo infantil, transportando-o ao seu imaginário. Elas facilitam (climatizam...) as brincadeiras com crianças menores e disso também os adultos se aproveitam, relembrando a infância perdida nas curvas do caminho da vida.

Não se restringem apenas ao canto alegre e desinteressado. A criança é tocada com gestos simples reproduzindo algo que a letra sugere. Para brincar com crianças bem pequenas, bebês ainda, é corriqueiro por exemplo: 

"Bate palminha,      BIS
que papai em vem!"

A mãe diante do pequenino, toma delicadamente suas mãozinhas e junto bate palmas no tempo da música, repetindo-se algumas vezes. Outra fórmula: 

"Bate, palminha, bate!
Palminha de São Tomé!
Pra quando papai vier..."

Outra brincadeira muito conhecida é com o neném ou criança pequena no colo, frente a frente, tomando-lhes as mãos. Gera movimentos alternados, à direita e à esquerda, ritmadamente, no tempo musical: 

"Serra, serra,
serrador!
Quantas tábuas
já serrou?
Já serrei
cinquenta e duas
com aquela
que quebrou!"

O movimento imita a dinâmica de vai-e-vem de uma serra. Ao pronunciar "quebrou" as duas mãos são liberadas para trás, simulando uma queda, que de fato não acontece, pois a criança continua amparada. 

A simulação da queda ou a queda de fato em cima de um colchonete, cama ou sofá acontece noutra brincadeira. Esta geralmente é feita com duas pessoas adultas, que frente a frente se dão as mãos e as abaixam para que a criança sente sobre elas, como se os braços dos adultos fossem uma cadeira. Ao começar o canto imprimem um movimento ritmado de balanceio e ao pronunciar "chão" lançam a criança sobre o local fofo onde não se machucará:

"Cadeirinha de fom-fom,
vai jogar neném ... no ... chão!"

Uma das mais populares é a "Dona Aranha". O brinquedo consiste em o adulto com uma das mãos semi-abertas, através de movimentos dos dedos, imitar o andamento de uma aranha, como se estivesse subindo no corpo da criança. É comum que ela leve tão a sério na imaginação que demonstre medo ou repulsa, mas, por fim, sempre gosta da brincadeira. Quando diz "subiu" a mão sobe; quando canta "derrubou", a mão cai; na parte que diz "sobe, sobe..." a mão (aranha) volta a subir até chegar ao pescoço ou axilas onde se transforma em cócegas, para o deleite da criança: 

"Dona aranha
subiu pela parede, 
veio a chuva forte
e a derrubou... 

Já passou a chuva
e o sol já vem surgindo
e a dona aranha
novamente vai subindo. (*)

Ela é teimosa
e desobediente,
sobe, sobe, sobe
e nunca está contente." 

Existem muitas maneiras ou fórmulas de interatividade lúdica entre crianças e adultos. Certamente que as que incluem cantos e gestos, senão mesmo danças em alguns casos, se revestem de um atrativo a mais pelo elemento cultural da música, mesmo que aparentemente simples. E a música sintoniza, estimula, desenvolve. 

Notas 

* A segunda quadra tem esta variação corrente na região:

"A chuva já passou
e o sol já vem saindo,
de novo dona aranha
a parede vai subindo."


                                                                           Créditos

Texto: Ulisses Passarelli.
Coletânea realizada em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, em 2002 e 2003. São difundidas em outros municípios da região e permanecem em uso. 
Revisão: 27/03/2025. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Brincadeiras infantis - parte 6: pular corda

Pular corda é mais que uma brincadeira. É também ginástica, teste físico de habilidade, rapidez e coordenação motora. Já por isto, iniciada na infância, por vezes a extrapola e alcança a idade adulta até em treinamento de atletas. 

Mas para os limites deste blog, o que por enquanto interessa para abordagem é o desenvolvimento em si do ato. Consiste em girar uma corda em movimentos ritmados, contínuos, desenvolvendo um giro em sentido vertical por sobre a cabeça do brincante, que deve pular para permitir que a corda passe sob seus pés, suba atrás das costas, passe no alto da cabeça, desça em direção aos pés, que, com novo pulo se supera o giro que se completa. E assim indefinidamente. É a habilidade de pular sobre uma corda que passa célere. Quando não se consegue ela embaraça nos pés. Então, o indivíduo perde a vez de brincar e deve cedê-la para outra pessoa. Brincantes habilidosos conseguem permanecer pulando sem errar por longo tempo ou até mesmo quando se acelera a passagem da corda. Tanto mais, conseguem inverter os pulos, girando rapidamente o corpo para dar pulos em lateralidade, ora direita ora esquerda. 

A passagem da corda é pela força do impulso do braço. Isto se chama "tocar corda". 

A pessoa pode pular corda sozinha, usando de uma mais curta, ela mesma toca e pula, individualmente. Há pessoas muito habilidosas, que conseguem fazê-lo com notável destreza e velocidade e aumentando a complexidade sabem mudar a rapidez e direcionamento para variar o pulo. 

Pode-se brincar em duplas: usa-se uma corda maior, amarrada uma extremidade a uma estrutura fixa (poste, árvore, coluna...); a outra extremidade fica com a criança que toca a corda. A segunda criança pula, mas é de praxe alternar quem toca e quem pula. Mas a forma mais comum é em trios: duas crianças tocam juntas a corda, cada uma segurando num extremo e a terceira pula, depois alternam as posições. Por vezes várias crianças pulam, alternando a vez de cada uma. E a brincadeira varia: se a corda é longa o bastante, brincam quatro ao mesmo tempo: duas tocam e duas pulam juntas, exigindo perfeita sincronia para uma não atrapalhar a outra. É comum nesses casos pularem lado a lado, ou uma virada para a frente e outra para trás, ou ainda alternarem habilidosamente, vis a vis e depois costas a costas. Até três pulando juntas é possível, desde que a corda tenha tamanho suficiente. Mas é ainda mais difícil.

O ato em si de pular se soma em alguns casos à cantiga, cujo ritmo do enunciado, um tanto recitativo, dita também o ritmo que se deve tocar e por conseguinte pular a corda. O canto como marcação. Eis alguns exemplares, muito disseminados no Campo das Vertentes, mais exatamente colhidos em Santa Cruz de Minas, embora não lhes sejam exclusivos *:  

"coroa, coroinha,
do rei, da rainha,
_ Um!
_ Dois!
_ Três!"
(agacha e gira no momento que a corda passa sobre a cabeça)

"Aonde você quer casar?
_ Na igreja?
_ Na macumba?
_ Na Polícia Militar!" 
(sai e dá lugar a outra. A corda não pára nem para sair nem para entrar)

"Com quem você quer casar?
_ Solteira?
_ Viúva?
_ Solteira, mosqueteira da vovó!" 
(idem)

"Um homem bateu em minha porta
e eu... a-brí!
Senhoras e senhores,
pulem num pé só! 
(pula-se com um só pé, recolhendo o outro)
Senhoras e senhores,
dá uma rodadinha! (gira-se)
e vai...
pro olho...
dá... rú... á!"
(sai às pressas...)

"Salada, saladinha,
bem temperadinha,
com sal!
Pimenta!
Fogo!"
(não sai. Ao enunciar bem enfático "Fogo!" as crianças que tocam a corda aumenta a velocidade de maneira repentina e intensa e mantém até que a que está pulando erre. Ganha quem ficar mais tempo)

"_ Comadre ... (fulana),
vamos passear?
_ Vamos!
_ Tem cachorro?
_ Não!
_ Pode entrar." 
(fórmula para iniciar: quando diz "pode entrar" a criança entra sob o giro da corda que já está em movimento)

Créditos

- Informante: Maria Aparecida de Salles, 1994-1997.
- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 27/03/2025.

sábado, 12 de novembro de 2016

Brincadeiras infantis - parte 5: fórmulas de escolha

Algumas lúdicas infantis, notadamente os jogos, tem em suas regras a premissa de se definir quem será o primeiro a começar a ação. Quando não surge um voluntário, para que haja justiça na escolha, de modo a não recair sobre o de idade tenra, o mais fraco, o mais lento ou o menos experiente na brincadeira, se procede a um sorteio entre os participantes com o intuito de escolher "com quem está" a queda" (*).

O procedimento desta escolha é especificamente o alvo desta postagem, posto que não se trata de simples sorteio, com nomes ou números escritos em pequenos papéis para se retirar a esmo um deles que indicará o escolhido. Não é assim tão convencional. Se existe só uma bicicleta para quatro ou cinco brincarem ou se quer saber com quem está o pique, existem fórmulas próprias de escolha. Quando a criançada decide brincar de gangorra, ou num balanço, em qualquer brinquedo no qual se precisa definir quem será o primeiro a usar, para não haver motivo para discussão e desavença, aplica-se uma fórmula de escolha. Seu resultado é plenamente aceito, entendido como uma medida que isenta a escolha de trapaça. 

Algumas fórmulas de escolha são deveras conhecidas e difundidas por várias regiões. Outras nem tanto. Passemos em breve revista algumas vigentes em São João del-Rei e região.

*  *  *

Par ou ímpar: mecanismo de escolha entre duas crianças, postadas frente a frente. Uma diz "par" e a outra, "ímpar". Levam ambas as mãos para trás do corpo. Olhando-se fixamente, anunciam em uníssono: 

"Um dó-lá-si 
vamos e ... já!"

De imediato e com rapidez estendem as mãos para frente indicando com uma ou ambas um número qualquer, contado por cada dedo estirado, entre zero e dez, independente de se ter escolhido par ou ímpar. A soma dos valores apontados por ambos vai dar um número que se for par dá a vitória a quem escolheu par, se der a ímpar, a quem escolheu ímpar. 

Cada macaco em seu galho: é uma fórmula de eliminação usada quando existem mais crianças na brincadeira. Uma delas toma a iniciativa de pegar uma pedrinha no chão. Leva as duas mãos para trás do corpo e secretamente troca entre elas a pedra de modo que as outras crianças não saibam em qual está. Estica ambos os braços com firmeza tendo as mãos bem cerradas para não evidenciar a pedra. Os brincantes se esforçam por adivinhar a mão correta: espiam por entre seus dedos se aparece uma fresta que permite ver a pedra. Quando ele anuncia "cada macaco em seu galho!", todos prontamente seguram num de seus braços esticados, uns na direita, outros na esquerda, conforme o palpite individual. É comum brincarem como se estivessem pendentes num galho (o braço) e daí caem, mas logo se penduram de novo. Então ele abre as mãos e revela onde está a pedra. Os que escolheram esta mão permanecem em fase de escolha; os que escolheram a mão vazia estão eliminados. E repete a operação eliminando mais, até sobrarem só dois. Se os dois remanescentes escolherem a mão vazia, repetem a vez com eles, determinando que cada um escolha braços diferentes. 

Uni-duni-tê: uma criança dentre as demais e toma a iniciativa de aplicar a fórmula para uma escolha. Se posta frente a frente as demais, quase sempre poucas, duas ou três. As que estão sendo escolhidas ficam lado a lado. A que vai fazer a escolha fica diante delas e apontando alternadamente o dedo indicador para cada uma, recita: 

"Uni-duni-tê!
Salamê minguê!
Um sorvete colorê!
Escolhido pra você!"

A recitação é um tanto cantada, ou antes apenas ritmada e nesse ritmo, o dedo aponta a cada sílaba ou tempo forte para uma criança. A escolha recai na última palavra que em tom de suspense é dividida: "vo... cê!" A sílaba "vo" aponta para uma criança e a "cê" é que verdadeiramente indica a escolhida. E o jogo começa por ela. Uma variante diz no último verso: "Escolhido foi você". 

Cara ou coroa: fórmula das mais conhecidas, cosmopolita, que os próprios árbitros de futebol usam para definir em qual lado do campo ficará cada time. Da mesma sorte nos jogos infantis. Mas pode ser usado para qualquer escolha entre duas crianças. Usa uma moeda. A criança escolhe um lado da moeda (cara - a efígie da República) ou o outro, onde está cunhado o valor (coroa). A moeda é jogada para o alto e aparada na palma da mão. A face voltada para cima indica a vitória de quem a escolheu, seja cara ou coroa, com igual probabilidade de ocorrência. 

Zerinho ou um: fórmula de escolha ou processo de eliminação na qual os participantes ficam diante uns dos outros e estendendo o braço com a mão fechada indica-se o algarismo zero; braço estendido com o dedo indicador estirado indica o algarismo um. Antes de indicar o braço fica escondido atrás do corpo ou junto da coxa, sempre com a mão fechada, enquanto os participantes em coro entoam: 

"Zerinho-um!"

A pronúncia é lenta e ritmada, sílabas divididas: "zé...ri-nhooo...um!". O "um" é incisivo e decisivo. Ao ouvi-lo, rapidamente estiram o braço e mantém a mão fechada (zero) ou o dedo apontado (um). A eliminação se faz por partes: é excluído a minoria que apontou ou zero ou um, gradativamente, até restarem apenas dois. Ou seja: se todos por coincidência põe zero ou põe um, ninguém sai; se exatamente metade põe zero e outra metade põe um, também permanecem todos. Se a maioria põe zero, a minoria que pôs um é retirada; ou o contrário, se a maioria pôs um, a minoria do zero sai. Quando só restam dois na fórmula ela não pode mais ser aplicada e precisa ser concluída com outra fórmula de escolha, qualquer uma das demais que constam nesta postagem. 

Notas 

* Com quem está: expressão usual para indicar o indivíduo que numa dada partida de uma brincadeira infantil é o responsável por iniciar o jogo, correr atrás dos outros brincantes, procurá-los ou assumir qualquer outra função de destaque na regra do jogo. 
**Queda: a partida em si. Uma queda: equivale a uma partida, um jogo independente. 

                                                                           Créditos

Texto: Ulisses Passarelli.
Revisão: 30/03/2025. 

domingo, 30 de outubro de 2016

Brincadeiras infantis - parte 4: cantigas de roda

Em seguimento à série, o Blog apresenta mais uma parte das lúdicas da criançada, desta feita, uma das mais célebres, as cantigas de roda, também conhecidas por danças de roda e rondas. É bem conhecido o fato de sua extensão geográfica. Todas as regiões a conhecem e tem seu próprio repertório, variável a cada época, surgindo novas cantigas, relembrando as do passado, esquecendo-se outras. Algumas das peças cantadas / dançadas são mais difundidas; outras, nem tanto... 

Contudo, o que mais salienta além da lúdica em si e do conteúdo folclórico é propriamente a socialização das crianças, que confere ao ato sua plenitude de significação. Confraternizam-se os pequenos de mãos dadas, girando e girando em alegria e descontração, a cantar as mais inocentes e saudosas canções, que muitos de nós também cantamos na meninice.

A pureza dessas rondas se confronta de imediato com as brincadeiras modernas, especialmente as eletrônicas que semeiam violências, vícios, emulação, imediatismo e ainda o fechamento em si mesmo, como se o jogador se metesse num casulo de autosuficiência. Dentro de um imenso contexto social, cuja análise renderia muitas páginas, pontos de vistas e estudos especializados, essa questão foge a alçada de uma mera postagem e aqui é apenas pontuada.

Fato é que a estrutura social hodierna com a vasta gama de novas opções de entretenimento oferecida ao menor de idade, acaba por seduzi-lo a novas brincadeiras e outro estilo de vida e não tarda abandonar as antigas quando mesmo, sequer as conhece, pois a vida urbana atual já não as propicia.

Análises e lamúrias à parte, as rondas consistem em reunião de crianças de ambos os sexos, mormente pelo menos nessa região, com predominância das meninas, em espaço aberto, para a prática de cantigas tradicionais, passadas a cada geração de memória e oitiva. São vivências e aprendizados pela repetição, nas praças, largos, beiras de rua, quintais amplos, adros das igrejas e pátios de escolas. Logo alguma criança lembra de uma cantiga e provoca o início da cantoria, de forma espontânea e começam automaticamente a repeti-la, ou dramatizá-la com gesticulação condizente. Isto porque algumas são apenas cantadas. Não é raro sentarem-se de pernas cruzadas em disposição de círculo, enquanto as entoam. Outras vezes, como é de praxe, de mãos dadas a girar em círculo, ritmadamente.

Noutros tempos, nas escolas, isto era muito comum. No recreio, brincava-se de roda, de pique e outros. Não era raro que a própria professora se metesse no meio de mãos dadas com seus alunos.

A letra das cantigas é deveras singela. Trata do próprio cotidiano, de assuntos pueris, cita elementos da natureza. Fala até de namoro, mas não se atreve a passar das palavras. Quem não se lembra do "Ciranda, cirandinha!" , "Fui no Itororó" , "Caranguejo não é peixe" , "Demarré" , Terezinha de Jesus" , "Pirulito que bate, bate" , "São João, da-ra-rão!" e de outros clássicos do gênero? Tal era sua popularidade que chegaram a ser disseminados por mecanismos de discografia. Mas recordemos agora de outros um pouco menos afamados, senão mesmo, mais raros:

"Samba, crioula,
que veio da Bahia,
pega essa criança
e joga na bacia.

A bacia é de lata,
areada com sabão,
pega essa criança
com seu camisolão."

Nem gasta dizer da antiguidade desta cantiga, que decerto remonta ao período da escravidão, possível alusão às mucamas que cuidavam do serviço doméstico, entre os quais banhar o sinhozinho ou a sinhazinha na velha bacia, dos tempos que roupa de dormir era camisolão. Crioula, informamos novamente, é o nome que se dava outrora aos nascidos no Brasil, mas filhos de pais africanos. Era usado segundo a terminologia da época para distinguir o escravizado nacional (crioulo) do traficado da África (negro da costa).

A natureza serve de tema inspirador:

"As flores já não crescem mais,
até o alecrim murchou;
o lambari morreu,
o sapo se mandou,
porque o ribeirão secou,
porque o ribeirão secou."

Como já foi dito, a gesticulação específica acompanha muitas cantigas. Em alguns exemplares há variedade intensa de gestos, movimentos e ações coletivamente aceitos e compreendidos, de tal forma que a linguagem de sinais se soma para ampliar a comunicação pela cantiga, gerando uma performance:

"Eu sou um boneco de pau,
me chamo José Pica-pau.
Eu sei agachar, (as crianças se abaixam)
eu sei levantar (elas se erguem)
eu sei bater palmas pro ar!" (batendo palmas)

Outras tem finalidade educativa, estimuladora ou instrutiva:

"Mamão é bom,
bom pra valer,
faz ficar forte
também crescer.

Lima, laranja e tangerina,
todas essas frutas tem vitaminas.
Agora todos prestem atenção:
papel e casca não vai ao chão!"

Era natural que as próprias professoras aproveitassem dessas cantigas para incrementar o processo educacional pela facilidade da linguagem acessível e de fácil absorção pela criançada. Mas não se constituía num aprendizado formal, institucionalizado. Nesse contexto específico as cantigas de roda eram atividades lúdicas dos momentos de confraternização, de uma espontaneidade sublime:

"O sino da escola
_ belém! Tocou,
dizendo que a aula já terminou.
Adeus minha professora,
adeus meus coleguinhas,
contente vou agora
ver a minha mamãezinha."

Versos piegas ou pequenos idílios também tematizam alguns cantos, como este, muito antigo:

"Por cima do arvoredo,
de baixo do laranjal,
eu vi Dona Colondrina
com Dom Carlos a brincar.

Da cintura para cima,
nove beijos eu vi dar;
da cintura para baixo
eu quero me calar."

Como no caso acima, o palavreado ou a presença de arcaísmo denuncia a longevidade da ronda:

"Minha casa tem limão,
tem limão, tem melancia,
faz doce, sinhá?
faz doce, sinhá!
Faz doce de cocadinha."

Há ainda aquelas cantigas provocativas, por vezes de um insulto bem humorado, mas nada agressivo:

"Eu vi o sapo,
na beira da praia,
quando o sapo canta, maninha,
ela levanta a saia!"

Obviamente inspirado no tradicional acalanto, inclusive mantida a mesma melodia. Outra:

"Borboletinha, foi na cozinha,
fazer chocolate para a madrinha.
Poti, poti!
Perna de pau, olho de vidro,
nariz de pica-pau,
pau, pau!"

E ainda na mesma linhagem:

"A-do-le-ta, je-pe-ti-po-lá,
nesse café com chocolate
 e açúcar e abacate!
A-do-le-ta.

Amarelo e preto,
puxa o rabo do tatu
quem saiu foi tu,
cara de tatu!
olho de urubu!"

É um jogo de habilidade: os brincantes frente a frente, com as mãos espalmadas, a batem alternadamente com a criança que está adiante, no tempo forte da música, palma com palma, depois na mão oposta, depois cruzando à direita e à esquerda, com certa velocidade, o que demanda destreza. Quem erra sai da brincadeira sob o chiste dos colegas.

Relativamente comuns são as cantigas que replicam a última sílaba de cada verso como um eco: 

"A girafa barriguda, dá-dá!
Tem um carro, rô-rô!
De corrida, dá-dá!
Lá no barro, rô-rô!
Ela derrapou, pô-pô!
Ela berrou, ela berrou,
mas não parou..."

"Fui andando na floresta, tá-tá-tá!
E de repente, ti-ti-ti!
Vi uma oca, cá-cá-cá!
Saiu de lá um indiozinho, nhô-nhô-nhô!
Olhou pra mim, olhou pra mim
e fez assim: _ húúúúúúúúú!" 
(batem a mão na boca imitando um brado de guerra indígena)

"A barata diz que tem, tem-tem!
Sete saias de filó, ló-ló!
É mentira, rá-rá!
da barata, tá-tá!
Ela tem, tem é uma só!
Rá! Rá! Rá!
Rô! Rô! Rô!
Ela tem é uma só!"

Este pequeno mostruário de cantigas apenas evoca o tema. Exige outro volume para seguimento ao repertório.

Estes versos parecem não ter fronteiras. Várias cidades os conhecem, tal e qual ou em pequenas variações de melodia e letra. Outrora estiveram muito em voga. Nos subúrbios e nos arraiais ainda sobrevivem com certa escassez. Na memória dos adultos resta uma lembrança desse giro dançarino, dessa circularidade cantada e gesticulada, como se estivesse a acenar de antanho, no eco de uma frase: "nunca deixe morrer a criança que existe dentro de você!"

Créditos

Texto: Ulisses Passarelli.
Informante: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994-1997.
Revisão: 31/03/2025. 

domingo, 21 de agosto de 2016

Brincadeiras infantis - parte 3: piques

Das muitas brincadeiras tradicionais das crianças, o pique é uma das mais interativas e queridas. Sua popularidade e variedades país afora são imensas. 

Uma definição interessante encontramos no site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular: 

Brincadeira que consiste basicamente em corridas e perseguições. De modo geral possui os seguintes componentes: o perseguidor, que corre atrás dos outros participantes, e o pique, que pode ser um objeto, um local, uma palavra ou um gesto, com a função de colocar os participantes a salvo da perseguição.

Pela forma como essa lúdica se desenvolve muito bem se poderia classificá-la como um jogo. Garcia & Marques (1991, pp.29-33) expuseram boa coletânea de definições de "jogos" e classificando-os, esclareceram modalidades quanto ao uso de objetos, quanto à emissão vocal, quanto à ação e características principais. Esta última inclui "jogos de correr e pegar" e "jogos de esconder" (dentre outros), onde naturalmente, pode ser ajustado o pique. 

Aqui nas Vertentes o pique é muito usual em várias localidades e obviamente sujeito a variações regionais. Mas, doravante, descrevo tal como vi e brinquei inúmeras vezes em São João del-Rei na década de 1970, quando era efetivado sobretudo (mas não exclusivamente) por meninos. As regras não eram a bem da verdade rígidas e até mesmo mudavam em pequenos detalhes conforme a região. E muitos desses detalhes se perderam em minha memória... Contudo, lembro ainda, que brincávamos na Caieira (hoje Bairro São Judas Tadeu) de: 


- Pique-esconde: o mesmo que "esconde-esconde". Ao meu tempo de criança era o mais popular dos piques. A partir de um sorteio (*), a um dos brincantes cabia a função de "pegar" os outros, isto é, achá-los onde se escondessem. Dizia-se então: "o pique está com fulano...", referência ao "pegador". Definia-se o local do pique, uma referência física qualquer _ um portão, mourão, árvore, parede, pedreira, etc. Ali era o pique, um ponto neutro. No pique o pegador virava-se de costas para os meninos, tampava os olhos e contava em voz a alta até ... tal número (20, 50, 10... a combinar). Contar rápido ou olhar a direção que os colegas fugiram para esconder era tido por trapaça e decorria muita reclamação, que acabava por anular aquela "queda" e recomeçava o processo. Queda é cada rodada completa do jogo. Durante a contagem, os meninos se escondiam: atrás de portas, debaixo de camas, dentro de armários; buracos, pedreiras, na sombra de um cupinzeiro, em uma moita, qualquer lugar enfim, desde que dentro de um perímetro pré-definido e sob obrigação do pegador vasculhar. O silêncio era absoluto. Quando avistava um guri escondido, logo o pegador corria em disparada até o pique onde batia a mão e anunciava em alta voz: "um, dois, três... Henrique!" (João, Chico... seja qual fosse o nome do achado). E aquele que foi anunciado estava a partir de então fora da brincadeira e devia sair do esconderijo revelado. Se ele tivesse dúvidas se fora realmente encontrado devia chegar até o pegador e perguntar em protesto. Tendo a resposta, se conformava, ou tentava blefar, que não era ali que se escondera, por vezes, discutindo, mas a palavra do pegador sempre falava mais alto. Na sequência ia procurar os demais e assim com cada um, até achar todos. Se último estava num local muito difícil o pegador por vezes ia ao pique e gritava sua desistência. O moleque oculto se revelava então, sem dizer onde estava. E a brincadeira recomeçava mas o pegador não mudava, era o mesmo. Mas se achava a todos, havia novo sorteio para definir o novo pegador. Se quem já foi pegador participava ou não do novo sorteio era um detalhe de regra variável conforme a região.   

- Pique-lata: muito semelhante ao pique-esconde, porém no pique ficava uma lata que funcionava como mecanismo que permitia o recomeço do jogo. O pegador ao achar uma criança e correr ao pique anunciava o nome da mesma, batendo estrepitosamente a lata. A diferença maior residia no fato de que uma das crianças que se mantinha no esconderijo podia sorrateiramente sair dele, e esgueirando-se sem ser vista pelo pegador corria ao pique e batia na lata gritando o nome de um colega já achado, "salvo, fulano...", o que o conferia anistia. Com isto, o achado podia voltar a se esconder o que o fazia imediatamente, porque o pegador ao ouvir o rival batendo na lata corria ao pique. Se os via por aquelas imediações ainda, na suposição que não houve tempo para esconderem, bastava anunciar o nome de ambos para que os dois saíssem do jogo. Mas se os dois, salvo e salvador, se mantivessem no pique, estavam imunizados. O pegador chegava, os via ali e nada podia fazer. Tinha que se voltar de costas e contar de novo para dar tempo deles se esconderem. No mais, era como o pique-esconde.  

- Pique-pega: bem mais agitado, consistia numa imensa correria desordenada, caótica em verdade, do pegador atrás de um punhado de outras crianças participantes. Ninguém escondia. Ficava à vista e provocava o pegador a correr atrás delas. Sob vaias e gritos seu apelido era repetido por mera provocação, além de alcunhas pejorativas inventadas na hora. O pegador corria daqui e dali. Pegar não era agarrar, embora acontecesse; bastava tocar a mão, a ponta dos dedos. Quem fosse pego, estava fora. Assim seguia, até pegar todos. Se o perseguido estava exausto ou percebia que o pegador corria mais que ele, fugia para o pique onde gritava: "Salvo!", resguardando-se. E permanecia em descanso por curto prazo e aguardava melhor oportunidade para voltar ao corre-corre. Outra fórmula de salvamento muito tradicional que havia era versejada, em declamação rápida: 

"Tô no pique, 
o pique é meu;
um, dois, três,
salve eu!"

- Pique-bandeira: modalidade de pique no qual o perseguido, driblando o perseguidor em correrias sem fim, se tornava imune a ser pego se alcançasse certo ramo ou galho arrancado e colocado num ponto específico (o "pique"). Bastava por a mão no ramo (chamado bandeira) e erguê-lo. Era o sinal da imunidade ou anistia. E o perseguidor tinha que correr atrás de outro guri. O alcançado não saía exatamente de jogo mas ficava parado onde fora alcançado, o que se dizia "congelado". A libertação do congelado se dava por invasão do time rival no campo oposto, tocando-lhe e gritando seu seu nome. Tudo muito rápido porque se fosse tocado ficava preso no campo inimigo. As crianças ficavam num campo  retangular dividido ao meio. Cada metade do campo ficava uma turma em igualdade de número e de cada lado existia um pegador que invadia o campo oposto para pegar as crianças opostas, sempre provocativas. Ao serem perseguidas, negaceavam, driblavam e só achavam porto seguro na bandeira do pique, sempre de seu respectivo lado, nunca do oposto. O time que pegasse a todos os opostos primeiro ganhava. Nova partida ou queda podia mesclar os participantes de ambos os times, compondo novas equipes. 

- Pique-vara: era o mais brutal e as mães sempre repreendiam os filhos por brincá-lo, pois chegavam em casa com vergões na pele. Sorteava-se o pegador. Ele se virava de costas para fazer a contagem. Os demais brincantes rapidamente ia esconder uma pequena vara (geralmente de bambu ou de assa-peixe), pré-escolhida e desfolhada, verde e flexível, em lugar consensual que só o pegador não sabia. Finda a contagem, partia o pegador do pique, célere para procurar a vara. Os colegas o acompanhavam em proximidade dando dicas: "xiii... está gelado!" (muito longe da vara), "está frio!" (longe), "esquentando" (indo para a direção da vara), "quente" (próximo), "muito quente" (quase chegando ao esconderijo), "fervendo" (em cima do local), "ferveu!" (achou) e a molecada corria em disparada rumo ao pique, em ritmo de fuga desesperada porque o pegador, de posse da vara, perseguia os participantes dando-lhes varadas até chegarem ao pique, onde ficavam imunes e não podiam mais serem atingidos. Para imunidade deviam permanecer com a mão no pique. Provocadores tiravam a mão e faziam caretas, mostravam-lhe a língua, clamavam seu apelido, punham-lhe defeitos de lerdeza. E as varadas eram impiedosas, mas de imediato se refugiavam no pique. Não raro acabava em choro e briga. Choro pela dor; briga pelas provocações excessivas ou abuso do pegador se tentava por raiva descumprir a regra dar uma varada em quem estava no pique ou se batia com muita força. Uma variante idêntica substituía a vara por um pano molhado, que torciam em cordão para bater. 

Referências na Internet

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Pique (brincadeira). http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00001248.htm (acesso em 21/08/2016, 08:30h)  


Referências Bibliográficas

GARCIA, Rose Marie Reis, MARQUES, Lilian Argentina. Jogos e Passeios Infantis. Porto Alegre: Kuarup, 1991. 182p.

Notas 

* Sorteio: não é assunto previsto para esta postagem a descrição da forma de sorteio. Para tal pretende-se uma outra edição da série "Brincadeiras Infantis", dedicadas às fórmulas de escolha, em planejamento. Para consultar as edições anteriores clique nos links abaixo:


                                                                           Créditos

Texto: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Brincadeiras infantis - parte 2: facécias

Facécias são brincadeiras verbais, de crianças, jovens ou adultos, no geral de aspecto disparatado, sem qualquer sentido aparente, mas que na verdade existe, desde que contextualizado nos parâmetros da cultura popular.

As facécias desafiam a imaginação, descontraem e socializam. Muitas vezes, senão mesmo sempre, elas vem recheadas de verve e, às vezes, de sarcasmo. Seu enunciado se desenvolve entre duas crianças, ou entre crianças e adultos ou até mesmo apenas entre adultos, embora que sejam marcadamente infantis ou juvenis, mas mantendo viva a criança que existe dentro de cada um. 

Uma categoria das mais conhecidas é a do "cúmulo", com a qual se brinca com o extremo imaginário das coisas ou circunstâncias, no sistema de pergunta e resposta entre duas pessoas. Exemplos coligidos em São João del-Rei, nos anos noventa do século passado:


_ Qual é o cúmulo da rebeldia?
_É morar sozinho e querer fugir de casa...

_ Qual é o cúmulo da lentidão?
_ É jogar uma bola na sexta e ela só cair no sábado...

_ Qual é o cúmulo da economia?
_ É usar papel higiênico dos dois lados...

_ Qual é o cúmulo da magreza?
_ É se deitar na agulha e se cobrir com a linha...

_ Qual é o cúmulo da inocência?
_ É uma menina-moça espremer os peitinhos achando que é espinha (acne) inflamada...

_ Qual é o cúmulo da rapidez?
_ É fechar uma gaveta (ou cofre) trancando a chave de dentro...

_ Qual é o cúmulo do silêncio?
_ São dois esqueletos brigando sobre uma folha (chapa) de zinco...

_ Qual é o cúmulo da força?
_ É dobrar uma rua e quebrar duas esquinas...


Outra categoria é o "pelo sinal", de que existem muitos exemplos, e que ora segue este de Santa Cruz de Minas, colhido no final dos anos noventa: 

"Pelo sinal
do bico real,
comi angu com toicinho
me fez mal"

As facécias brincam com frequência com o tema alimentar, como estes exemplares da mesma cidade e época:

"Boi magro ficou no cocho,
não come mais porque tá frouxo..."

"Bendito paca,
louvado cutia,
se tivesse mais,
ainda queria..."

Alguns exemplares se fixaram como dísticos de Santa Cruz de Minas:

"A minha vida é uma traficança:
O destino aperta, a saudade avança."

"Sô do Morro da Bananeira,
Olho sua cara, me dá caganeira..."

Em São João del-Rei o exemplar abaixo se aproveita de uma rima para fazer o trocadilho:

"Seu Chico Tripa
quando fica tiririca,
põe o dedo na titica
da Chiquinha pra cherá...

A Mariquinha,
comeu tripa de galinha
foi contar pro namorado
que comeu macarronada..."

Outro da mesma fonte:

"Cumpadre Zacarias,
que mora lá no sul
barba de sapé
do olho azul..."

As facécias possibilitam a combinação de elementos espontâneos da cultura popular, compondo gracejos que contribuem com momentos simples de entretenimento pela força da oralidade.

Créditos

Informantes: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1996; José Cândido de Salles e Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, década de 1998.
Texto: Ulisses Passarelli
Notas

Revisão: 03/04/2025.   

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Brincadeiras infantis - parte 1: parlendas

Não digo sobre todas, mas sobre a maioria: as crianças de hoje não imaginam uma das grandes diversões da molecada de trinta, quarenta, cinquenta anos atrás... Cantigas, enunciados, danças de roda, parlendas, fórmulas de escolha... Eram mecanismos versificados, memorizados, que alegravam suas brincadeiras e ajudavam na socialização. 

Nesta postagem as parlendas vem à baila. São versificações simples para a memorização, enunciados com temas pueris, aparentemente disparatados, que tanto as crianças brincam entre si quanto os adultos com elas, momentos que deveríamos ter mais amiúde, para não deixar morrer a criança que existe dentro de nós. 

Os exemplares aqui expostos procedem de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas mas extrapolam em muito esta área. Por toda parte houve dessas cantilenas e nos lugares mais recônditos elas ainda sobrevivem. De memória lembro de uma conhecidíssima parlenda, que aqui em São João del-Rei, nos anos setenta era assim: 

"_ Cadê o toicinho que tava aqui?
 _ O gato comeu.
 _ Cadê o gato?
_ Tá no mato.
_ Cadê o mato?
_ O fogo pegou.
_ Cadê o fogo?
_ A água apagou,
_ Cadê a água?
_ O boi bebeu.
_ Cadê o boi?
_ Tá amassando trigo.
_ Cadê o trigo?
_ A galinha espalhou.
_ Cadê a galinha?
_ Tá botando ovo. 
_ Cadê o ovo?
_ O frade bebeu. 
_ Cadê o frade?
_ Tá rezando missa.
_ Cadê a missa?
_ Já acabou..."

Essa parlenda de que existem algumas pequenas variantes, as mães brincavam com as crianças, dialogando em sistema de pergunta e resposta e "procurando o caminho da missa": o enunciado se fazia com a palma da mão da criança estendida para cima e a mãe, pondo o indicador no centro da palma, fazia a pergunta e obtinha a resposta... está no mato, está botando ovo... sempre batendo o dedo a cada pergunta. Quando diz "a missa acabou", o dedo corria repentino pelo braço acima para fazer cócegas na axila da criança. Daí que algumas versões, como uma de Santa Cruz de Minas, da década de 1990, terminam com uma última pergunta: "_ Cadê o caminho da missa?" e a própria pessoa responde: "_ Tá aqui!" e corre para fazer as cosquinhas. 

Uma outra, são-joanense, mas assaz conhecida também noutros lugares é a seguinte: 

"Hoje é domingo, 
pede cachimbo!
Cachimbo é de ouro,
pega no touro!
O touro é valente, 
pega a gente!
A gente é fraco,
cai no buraco!
O buraco é fundo,
tá no fim do mundo!"

A versão correspondente na vizinha Santa Cruz de Minas se traça idêntica, exceto por trocar a palavra "fraco" por "bobo" e "tá no fim do mundo" por "arrasa o mundo".

Os enunciados não se desfiam mecanicamente. Tem uma rítmica na pronúncia, como um esboço musical: 

"Fui passar na pinguelinha, [1]
chinelinho escorregou do pé;
os peixinhos reclamaram,
que cheirinho de chulé!"

E quem não conhece...

"Um, dois, feijão com arroz!
Três, quatro, feijão no prato!
Cinco, seis, feijão inglês!
Sete, oito, comer biscoito!
Nove, dez, comer pastéis!"

A pronúncia é acelerada e ritmada até o final, que se abre ou rompe, "pastéisss..."

Era muito comum os vendedores de picolé com caixa de isopor pendente no ombro à tiracolo, ou empurrando carrinhos próprios, oferecerem seu produto apregoando assim: 

"Ao picôooo...lééé!"

A palavra "picolé" era esticada na pronúncia, começando quase gutural, depois em tom de baixo, para finalmente se abrir aguda. Uma forma de anúncio que já não se vê. Pois bem. A criançada, motejando tais vendedores, ou os parodiando, saía com essa parlenda em São João del-Rei: 

"Ao picolé, lélé!
Tem de coco e de chulé,
quem quiser levanta o pé,
na careca do sô Zé!" [2]

Ou com esta, em Santa Cruz de Minas:

"Ao picolé,
tem de coco e de chulé,
só não compra
quem não quer."

Bastante conhecida e divulgada é esta:

"Chuva choveu,
goteira pingou,
pergunta os papudo [3]
se o papo molhou..."

As meninas gostavam muito desta:

"A casinha da vovó,
cercadinha de cipó,
o café tá demorando,
com certeza não tem pó..."

Uma variante diz "trançadinha de cipó".

Um tanto irônica é esta, de Santa Cruz:

"A cana é minha, o boi é seu;
a garapa é minha, o bagaço é seu..."

A garapa é a parte boa, doce; o bagaço é o resto, sem serventia. Em São João del-Rei o saudoso capitão de congado Raimundo Camilo adaptara essa parlenda aos pontos de seu catupé. 

Ainda colhida em Santa Cruz, uma parlenda de sentido chulo [4]:

"Dona Mariquinha, 
fez xixi na canequinha,
foi falar pra todo mundo
que era caldo de galinha ...

Dona Mariquinha,
foi tomar banho na gamela,
a água 'tava quente 
sapecou a bunda dela ...

Dona Mariquinha,
foi tomar banho no tacho,
a água 'tava quente
sapecou ela por baixo ...

Dona Mariquinha,
não tinha o que fazê,
pôs o galo com a galinha
no terreiro pra metê ..."

Outras da mesma fonte: 

"Sô do morro 
da bananeira,
olho pra sua cara,
me dá caganeira ..."

"Comi pepino,
rotei jiló;
a bunda da véia
é muxiba só!"

Já em São João del-Rei [5]

"A Mariquinha
comeu tripa de galinha,
foi contar pro namorado
que comeu macarronada."

E por fim, mais duas da mesma fonte, sendo a primeira conhecidíssima: 

"Menina bonita,
não come jiló,
jiló é veneno,
matou sua avó!"

"Compadre Zacarias,
que mora lá no sul,
barba de sapé,
do olho azul."

Dentre tantas outras essas parlendas revelam a alegria do folclore infantil, brinquedos da oralidade, expressão imaterial da lúdica da criançada, que não depende só de objetos para se divertir. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.  

Notas

[1] Pinguelinha, pinguela: pequena ponte improvisada sobre valos e córregos, formada só por um tronco, uma tábua grossa (pranchão) ou um feixe de bambus, que possibilita a passagem de uma só pessoa por vez.
[2] Sô: senhor, sinhô, nhô. Zé: José. 
[3] Papudo: falador, caluniador, prolixo, aquele que conta vantagens próprias, que aumenta ou inventa suas próprias qualidades. Esta parlenda ouvi-a em 1997 convertida em canto de congado, na guarda de congo do Capitão "Antônio da Cidoca", em Passos/MG. 
[4] Informante: Maria Aparecida de Salles, Córrego - Santa Cruz de Minas,1998.
[5] Informante: Aluísio dos Santos, Centro - São João del-Rei,1994.

- Revisão: 04/04/2025. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

João Teimoso

As crianças de hoje em dia, desde muito cedo vivenciam a modernidade dessa vida digital e veem nos brinquedos eletrônicos uma das principais fontes de lúdica. Muito diferente de poucas décadas atrás que a infância era embalada por brincadeiras tradicionais e brinquedos típicos hoje inimagináveis. 

Longe de querer julgar valores ou abrir uma infindável discussão nesse rumo, apenas citamos um deles: o simplório joão teimoso, ou joão bobo, um boneco que via de regra sempre voltava à posição inicial mesmo que se forçasse outra. 

Por trás de sua simplicidade, revelava a engenhosidade de seu projeto. Era um boneco em peça única, que tinha a parte de baixo do corpo bojuda e arredondada, como uma semiesfera, sem pernas, e a superior estreita. Como o peso se concentrava na parte inferior ele não tombava fácil quando batido com a mão. Girava, balançava e tornava a ficar em pé sozinho, recuperando aos poucos a posição original com movimentos cada vez mais lentos e curtos, até parar. Parecia ter vontade própria ... Originalmente tinha construção artesanal, feito em madeira, mas há horas tantas foi reproduzido em plástico ou borracha, pela indústria, inclusive com exemplares infláveis. 

Outro modelo, também em madeira, era formado de duas peças: montava-se em meio corpo, terminado em ponta rombuda, em equilíbrio sobre uma coluna de madeira, numa concavidade que se encontrava num de seus extremos. Com os braços abertos segurava um arco de arame, com abertura para baixo, tendo um bola em cada ponta. Batido com as mãos, descrevia movimentos de pêndulo, que aos poucos perdiam força para alcançar de novo o equilíbrio. 

Suas imagens aqui reproduzidas à guisa de esboço, não procedem de nenhum modelo ao alcance dos olhos, mas de fugidias lembranças da  infância e portanto podem apresentar alguma inexatidão do tracejado. 

Ao artesão que se habilitava a construir um joão teimoso, implicava um conhecimento quase intuitivo de física, devendo calcular com exatidão as dimensões e espessuras das partes do boneco para permitir o reequilíbrio e movimentos harmônicos. Não era fácil nem é fora de senso dizer que seria um bom exercício prático (e lúdico!) para estudantes se familiarizarem com o universo das leis da física. Bem poderia ser um brinquedo utilitário, educativo, filosófico ...

Por fim é mister dizer que a linguagem popular reserva por analogia a alcunha de "joão teimoso" ou joão teimosia, um tanto pejorativa por sinal, ao indivíduo que não arreda do lugar, recusando mudar de postura de vida mesmo tangido pelas vicissitudes. Permanece estático, não evolui; ou, então, se agita temporariamente, mas passada a provocação, pouco a pouco retorna à sua inércia. João teimoso é pois a pessoa teimosa com a própria vida. 

Créditos

- Texto e desenhos: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 07/10/2025. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Leitão ensebado

Há algumas décadas a criançada tinha uns brinquedos e brincadeiras diferentes, que hoje não se pode imaginar. A simplicidade os distanciavam por completo dos meios lúdicos mais recentes. Um deles, muito tradicional, era para crianças, mas acabava atraindo alguns adultos também. A brincadeira do leitão ensebado já está quase desaparecida. Surgia em diversas ocasiões, sobretudo nas festas juninas, nos povoados e arrabaldes das cidades. Em São João del-Rei perdurou até pelos idos de 1960-70. 

Em um cercado a propósito, naturalmente enlameado por dentro, para maior dificuldade, soltavam um porquinho, devidamente untado de sebo de boi, derretido. Os candidatos pulavam o tapume e tinham tantas chances de pegar o escorregadio bacorinho, que com grande esperteza e muitos grunhidos, driblava a pessoa, que não raro caía na lama, se sujando toda, em meio a assuada dos circunstantes. 

A tarefa não era fácil, pois o bicho, muito ágil, se esquivava habilmente, além de escorregar demais por causa do sebo quando era pego. Quem conseguia pegá-lo de fato recebia algum prêmio por troféu e por fim o animal ia a leilão para arrecadação da festa. 

Um leitão se alimenta num cocho artesanal escavado em um tronco.
Brumado de Cima (São João del-Rei/MG), 2009. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 12/03/2026. 

domingo, 13 de julho de 2014

Estoque: um antigo brinquedo

No tempo da era digital, no imenso interior do país algumas crianças ainda se lembram de velhos brinquedos de outrora e os conservam em sua lúdica. Um deles é o estoque, como o chamamos por onomatopéia em São João del-Rei, um brinquedo cujo nome procede do som seco que emite quando dispara. 

Consiste num gomo de bambu, vazado, colocando-se num extremo a munição _ pequenos frutos ou sementes _ sob pressão, empurrada no extremo oposto por um êmbolo do mesmo material, que, à medida que se empurra, imprime força cada vez maior sobre a munição, por pressão de ar dentro do canudo de bambu, até que irrompe do outro lado com um estrondo seco, que dispara longe a semente. 

O brinquedo ainda envolve as crianças do Brumado de Cima, no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, onde foram feitas as fotos abaixo, que falam melhor que as palavras. Com o estoque brincam de mira, vendo quem é melhor para atingir um alvo inerte, como uma lata sobre um mourão de cerca, ou qual estoque faz mais barulho, ou ainda, qual consegue atingir maior distância ou altura. 

Frutos de caneleira: munição natural para o brinquedo do estoque.

Um estoque feito de bambu verde, vendo-se a peça desarmada e armada.

Posição de disparo do estoque. 

Créditos

- Texto e foto da posição de disparo: Ulisses Passarelli.
- Demais fotografias: Iago C.S. Passarelli, 21/12/2013.


Notas

- Em alguns lugares do interior paulista o estoque é chamado "xipoca".
- Revisão: 07/10/2025.