Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 25 de março de 2015

Cruzes e Cruzeiros

O Campo das Vertentes compõe uma região cultural do centro-sul mineiro, que pela antiguidade e multiplicidade de povos que aqui convergiram na prática inicial da mineração aurífera e depois de outras atividades econômicas, conservou uma série de práticas devocionais amplamente impregnadas pelos saberes da cultura popular. Dentre elas, um destaque muito tradicional é a fidelidade do povo aos festejos e preces ao redor das cruzes públicas [1], os cruzeiros de praças e largos. 

É fato porém que as mudanças sociais e aquelas advindas da própria força do elemento romanizador do catolicismo nas primeiras décadas do século XX, contribuíram em muito para enfraquecer esses costumes das festas de Santa Cruz. 

Foram famosos esses festejos nas Águas Santas (Tiradentes). A Tribuna de 1923 dá uma notícia de missa campal rezada e presença da banda militar. Consta que “os trens especiaes trafegaram com bastante concurrencia”. Outra referência do mesmo jornal em 1929 diz que houve missa na capela, celebrada pelo Padre José Bernardino de Siqueira, leilão, Procissão do Santo Lenho, banda de música e sermão. A mesma fonte dá conta de outra festa no mesmo molde na Parada do Briguentti.

No Senhor dos Montes a Festa de Santa Cruz foi animada e concorrida em 1902, garante o jornal O Combate. Saíram em procissão os andores da Virgem e do Crucificado. O vigário, Padre Gustavo Ernesto Coelho, comandou as celebrações, que além de terço cantado teve um Te-Deum laudamus. Houve romarias, fogos de artifício, música pela banda e orquestra Lira Sanjoanense, sob a regência de Luiz Baptista Lopes e ainda, "bonita e deslumbrante illuminação na frente da capella"

Era costume antigo a existência de um pequeno cofre nos cruzeiros onde o povo concorria com moedas para as almas, na intenção de lhes render celebrações em sufrágio ou compras de velas. Mesmo outrora já havia os ladrões que alvejavam estes depositários da boa fé alheia, como noticiou O Combate em 1901, em São João del-Rei:

“Sacrilegio. Na semana passada foram arrombados os cofres do cruzeiro do Largo da Camara, o do Barro e o do Cruzeiro do Largo da Cruz. Os gatunos sacrilegos tentaram forçar o do cruzeiro da matriz. Chamamos a atenção da policia para esses factos.”

Durante as festa de Santa Cruz os cruzeiros dos povoados eram enfeitados, bem como adornavam-se as casas, janelas, portais, cruzes domésticas, no dia 3 de maio (lembrando vagamente o costume das maias ibéricas). Diante dos cruzeiros reuniam-se para rezar terços e cantar benditos. Nos tempos de seca vinham os pedidos de clemência, para que caísse a chuva. Na zona rural de Bias Fortes, três meninos (inocentes) seguravam imagens de santos enquanto os fiéis de joelho imploravam [2]

"Chega, chega, pecadores,
chega com grande amore 
vem beijá a Santa Cruz 
nos pés de Nosso Sinhôre." 

A mesma fonte de informação relata o costume de se fazer cruzes com talos de arruda ou de guiné na Sexta-feira da Paixão e distribuir a conhecidos e familiares como objeto de proteção.

Existe também o hábito de fincar cruzes nas beiras de caminhos, marcando lugares a se sacralizar porque antes eram assombrados; pontos de reunião da comunidade rural para preces, locais de parada das estações de via-sacra ou ainda, assinalando uma morte ali acontecida. Quase sempre humildes, são todavia objetos sagrados para o povo e motivação para terços, cantorias e congregação de devotos. 

Sobre o arraigado costume de se fixar pequenas cruzes enfeitadas nas fachadas das casas e portas, na comunidade das Águas Férreas, Bairro Tijuco, em São João del-Rei, um informante esclareceu, que quando Jesus morreu, o mundo ficou na escuridão. Nossa Senhora disse que quem colocasse uma cruz diante da casa teria a mesma abençoada. Na noite de Santa Cruz (03 de maio), Nossa Senhora passa pelas ruas vendo qual casa tem cruz na fachada e então abençoa aquele lar. Por isto no dia de Santa Cruz troca-se seus enfeites do ano anterior, para receber a bênção [3]

“Chiquinho da Florinda”, referindo-se à cidade de Tiradentes, disse que há muitos anos passados, durante uma epidemia de varíola, onde muita gente morria, um padre orientou a população a por uma cruz diante da porta, pois assim lhe orientara um anjo em visão. O povo obedeceu e ficou curado. Daí por diante o costume prosseguiu, crendo-se que afaste doenças e todos os males, inclusive o demônio. Narra ainda que a versão mais comum explica que as pessoas que tiverem a cruz enfeitada na dianteira a 3 de maio, receberão a visita de Nossa Senhora, que à procura de seu Filho, entra nas casas onde há o sinal cristão e aí deixa sua bênção. Esta última versão ouvi-a também em São João del-Rei diversas vezes (zona urbana e rural) e é possível que seja a mais difundida. 


Cruz de Fachada, 20/04/2014.
São Gonçalo do Amarante,
São João del-Rei/MG.

Cruz de via sacra, 03/08/2014.
Estrada entre São Gonçalo do Amarante e Mestre Ventura,
São João del-Rei/MG.

Cruz de beira de estrada, fevereiro/1997.
Estrada entre Boa Vista e Mama Rosa,
Conceição da Barra de Minas/MG.

Recorte de cartografia da cidade de São João del-Rei observando-se marcação do Cruzeiro da Rua do Ouro ("Cruzeiro") e do Cruzeiro da antiga Rua das Viúvas ("Alto do Cruzeiro"), como marcos limítrofes do perímetro urbano. Fonte: acervo Prefeitura Municipal / arquivo Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Data não identificada. 


A mais antiga notícia sobre a Festa de Santa Cruz local, localizada em pesquisa nos hebdomadários publicados em São João del-Rei, de quando ainda era vila. Fonte: Jornal Astro de Minas,1830.

Referências 

Astro de Minas, n.383, 04/05/1830, São João del-Rei. 
A Tribuna, n.471, 06/05/1923, São João del-Rei. 
A Tribuna, n.9771, 12/05/1929, São João del-Rei. 
FREIREYSS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil nos anos de 1814-1815. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, V.11. São Paulo: Tipografia do Diário Oficial, 1907. 
O Combate, n.94, 29/08/1901, São João del-Rei. 
O Combate, n.199, 18/09/1902, São João del-Rei. 
FLORINDA, Chiquinho da. A Cruz nossa de cada dia. Outras Palavras. Tiradentes, n.5, abr. / 2001.

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

[1] O naturalista alemão Georg Wilhelm Freyreiss, viajando do Rio da Janeiro às áreas minerárias de Minas Gerais, pelo Caminho Novo, no começo do século XX, observou nas imediações de Juiz de Fora: "A uma a hora depois do meio-dia atravessamos uma montanha bastante alta, em cujo cimo, de ambos os lados do caminho, havia uma porção de cruzes fincadas no chão. Observamos que todas as pessoas que encontrávamos trazia na mão cruzes iguais para fincarem na terra; provavelmente queriam com isso obter que algum santo os protegesse na montanha."(FREYREISS, 1907, p.172) 

[2] Informante: Elvira Andrade de Salles, 18/09/1996.

[3] Informante: Antônio Geraldo dos Reis, 1993.

- Fonte de pesquisa jornalística: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG.

- Revisão: 04/05/2025.

domingo, 22 de março de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 10

Morcego – embrulhão, ruim de serviço, sem expediente, aquele que não é pró-ativo. Quem faz corpo mole no serviço deliberadamente. Quem propositalmente não trabalha com afinco, dedicação, para passar logo o horário de trabalho sem rendimento. Fazer morcegagem: enrolar serviço; fingir que está trabalhando.

Morgado – encurvado, envergado. Torto.

Mucureba – o mesmo que “mocorongo”. Deselegante, simplório, fora da moda. 

Muito fogo para pouca lenha – expressão que indica muito entusiasmo para algo que efetivamente dará um pequeno resultado. Diz-se de quando se investe com energia em alguma coisa pouco durável ou rentável.

Molambo – africanismo. Farrapo, andrajo. Molambento: em estado de mendicância. O povo pronuncia sempre com “u”: mulambo, mulambento. É o nome de uma casal de entidades espirituais da linha esquerda: Exu-mulambo e Pomba Gira Maria Mulambo. O ponto cantado diz expressamente: “Tem dó! Tem dó! / Minha roupa é mulambo só...”  

Munheca – 1- pulso; 2- sovina, "garrafinha", "munheca de samambaia", "seguro". Usurário. 

Muque – 1- força física. Pegar no muque: fazer força para carregar ou segurar. 2- O músculo bíceps.

Murrinha –1- mau cheiro referente aos maus hábitos de higiene. “Fulano é murrinhento” (mau cheiroso); 2- chatice, enjoamento, antipatia. “Fulano é uma murrinha!” (chato, indesejável).

Murundu – monte de terra ou entulho; elevação, monturo. Um dos mais conhecidos mitos do ciclo da angústia infantil, o tutu, tem num acalanto a referência expressa: “Dorme, neném! / Tutu vai te pegar... / detrás do murundu / com um pedaço de angu!”. Também se pronuncia “murundum”.

Museu – em sentido pejorativo, coisa velha, traste; pessoa idosa.

Neca de catibiriba – expressão negativa extremada: de jeito algum, jamais, absolutamente nada.

Nem tchum! – expressão que equivale a "nem ligou", "não deu a menor importância", "fez pouco caso de", desdenhou.

Ôh, bala! – interjeição de catarse e admiração: "credo!",  "Sai de mim!"

Pegar o bonde andando – entrar num assunto já iniciado, tirando dele conclusões precipitadas sem saber todas as suas implicações.

Pegar o bonde errado – entrar numa situação pensando equivocadamente que era outra.

Pinta brava – mau elemento, má companhia, sujeito à beira da marginalidade. Indivíduo com tendência a ser um fora da lei.  Brigão, ofensivo.

Piriri – disenteria, diarreia, “caganeira”, "intestino mole".

Quebra-galho – 1- gambiarra, provisório, paliativo; 2- o que não satisfaz plenamente mas vale para atenuar um momento: alimento, dinheiro, roupa...; 3- amante, concubina.

Rasgar o cu com a unha – expressão indicativa de extremo desespero diante de uma situação muito difícil. Ataque de nervos, descontrole emocional, histeria. 

Tantã – de ideias desconexas, de pensamentos desorientados. Doido.

Tempo da(o) zagaia – antigamente, outrora, antanho, pretérito. Referência a um objeto ou situação de muito tempo atrás. “Essa estória é tempo da zagaia...”,“Esta ferramenta é do tempo da zagaia...”

Tempo do onça – idem. Sempre no masculino: do onça (e não da onça.)

Tetéia - gíria em ocaso: linda, graciosa, bonitinha, atraente. Em geral era usada por rapazes para se referir a moças.

Til-til – gíria em ocaso: lindo, gracioso, bonitinho, atraente. Em geral era usada por moças para se referir a rapazes. "Pão", "bicho bom". 

Tio Véio – pessoa relativamente jovem que se comporta com hábitos de pessoa bem mais velha. Bebedor inveterado de café.

Tirar da reta – colocar-se em posição que o isente de culpa; arranjar desculpas e explicações para se livrar de riscos e punições numa dada complicação. "Tirar o cu da reta."

Tirar o pé do atoleiro – se dar bem; melhorar de vida (financeiramente); prosperar nos negócios.

Toco de açougue – depreciativo: pessoa gorda e baixa. "Tarugo"

Toró – temporal, chuva muito forte. “Tribusana”.

Traçar – 1- comer, devorar. “Traçou o bolo”;  2- em sentido chulo, ato sexual: “traçou a filha do vizinho”.

Traficança – bagunça, excesso de objetos inúteis, obsoletos, imprestáveis. Tranqueira. Tralha.

Tragada – dose considerável de uma bebida.  “Tomar uma tragada no balcão.” Talvez corruptela de talagada, que tem o mesmo sentido, já que habitualmente tragada se refere ao hábito de fumar. Tragar o cigarro.

Trambolho – 1- mecanismo grosseiro de trancar portas e janelas, espécie de tramela grande; 2- qualquer engenho ou solução rudimentar para uma estrutura física; 3- pessoa obesa e desajeitada. Feio.

Tremilique – tremura, chilique, faniquito. 

Tribufu – mulher desfeita de corpo, feia, desagradável. “Tribofe”.

Tungar – comer e beber em abundância ou com ímpeto. "Chanfrar"

Um brinco! – expressão indicativa de grande beleza, limpeza, brilho. “Faxinou a casa. Ficou um brinco!”

Uma pinóia! – expressão de veemente negação. De jeito nenhum. O mesmo que “uma ova!”

Vaca que esconde leite – pessoa que não revela o que tem, que esconde capacidade e potencial, ou as posses.

Vai com as batatinhas! – expressão de esconjuro, indicativo do desejo de afastamento. “Vai com Deus e as pulgas!”

Vareta – magricela, magérrimo. "Pau de virar tripa". "Mané magro". " Esqueleto".

Ver passarinho do rabo verde – estar extremamente alegre, agitado, prolixo.

Vetético – termo depreciativo. Idoso de comportamento desagradável, cheio de manias; velho implicante. 

Vivaldino – esperto, sagaz, que tem muita vivacidade. Espertalhão. 

Vivinho da silva – idem.

Xepeiro – que tira proveito do alheio, usurpador.

Xereta – intrometido, enxerido.

XPTO – abreviatura da palavra "Cristo" em grego. Indicativo de boa qualidade: muito bom, bonito, saboroso. Usa-se com o sentido de especial, diferenciado, chique. Almoço XPTO; terno XPTO.

Zebedeu – besta, idiota, imbecil, abestalhado.

Zona – 1- prostíbulo, cabaré; 2- bagunça, desordem, esculhambação.

* Texto: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 20 de março de 2015

Quinta-feira de Trevas

"Trevas" é como popularmente se chama a quinta-feira da Semana Santa à guisa de um sombrio epíteto. Quinta-feira Santa. O nome é um corolário de todo o ideal de terror que se infundia entre os fiéis durante a quaresma. 

Foi o dia no qual Cristo foi aprisionado pela traição de Judas Iscariotes. Em São João del-Rei, é o dia tradicional da “visitação das igrejas”, quando os devotos à partir das 18 horas vão aos antigos templos do centro histórico visitar um por um, fazer suas orações e ver as montagens cênicas alusivas aos últimos dias de Jesus como humano. Cada templo se esvazia de seus bancos ou os arreda; o assoalho é recoberto por muitas folhas de rosmaninho, que exalam odor característico, muito intenso; todas as imagens dos altares estão recobertas por panos roxos; a luz está atenuada para melhor efeito da montagem, pois é sobre ela que se focaliza a iluminação; como fundo musical se ouve música barroca. Na porta da igreja, meninos batem matracas de tempo em tempo. Quando chegam fiéis, apresentam-lhes uma sacolinha para recolher o óbolo, gritando mecanicamente ao estendê-la: “para a cera do Santo sepulcro!” e matraqueiam alto. Sem dúvidas, é uma cena característica. As ditas montagens são compostas por grandes painéis pintados com figuras bíblicas, ou, mais comumente, por manequins vestidos à imitação de apóstolos, judeus, etc., ou com a mesma função, santos de roca, despidos das vestes habituais e trajados com roupas e adereços que os fazem representar personagens. Vasos de flores, objetos variados, túnicas, barbas postiças, candelabros, cântaros, etc., vão compondo o cenário. Numa igreja se representa a cena da última ceia; noutra, por exemplo, o calvário; ainda outra, a ressurreição de Lázaro, além de outros episódios marcantes. A porta de cada igreja, adultos e crianças vendem cartuchos de amêndoas, arnica, alecrim de horta, manjericão e rosmaninho, considerados bentos nessa época. Aliás, os altares também se revestem dessas ervas medicinais. Os passinhos estão também abertos à visitação, inclusive o oratório de Nossa Senhora da Piedade e do Bom Despacho. 

Mais tarde, terminadas as visitas, aos fundos da Catedral do Pilar, num grande palanque, tendo por fundo um painel com a pintura da mesa da Santa Ceia, realiza-se a solene cerimônia do Lava-pés, quando o bispo com uma bacia, água e uma toalha, lava e enxuga os pés de doze padres, fazendo lembrança do gesto humilde de Jesus para com seus apóstolos. Grande multidão assiste à tocante cerimônia. Em muitas cidades ela é realizada, com maior ou menor pompa. O clima barroco e da música sacra são-joanenses a fazem em tudo especial. 

Nas roças, ocorre ou ocorria, nessa noite, um interessante costume, agora, caso ainda existente, banido para os locais mais recônditos: indivíduos, valendo-se do escuro e calada da noite, vagam pelos quintais alheios, roubam coisas fúteis, objetos de pequeno valor. Em alguns lugares o produto roubado era anunciado à vítima, que nada fazia, como se permitisse a ação. 

No Sábado da Aleluia, tudo quanto fora roubado surgia no interior da Chácara do Judas e ninguém o retomava para si, mesmo reconhecendo o seu objeto que sumira. Quando da leitura do Testamento do Judas, ao ser citado fulano ou sicrano nos versos, o mesmo recebia por herança o próprio objeto que lhe fora furtado. 

Esse roubo consentido, não traz assim prejuízo material e em si contém uma crítica por ser ao seu próprio dono, aos olhos da comunidade, um presente devolvido pelo traidor de Cristo; portanto, uma farpa moral. O sentido simbólico é profundo. 

Em alguns lugares essa quinta-feira é justamente chamada “Dia da Judiaria”, pois além da ação dos larápios, fazem ainda travessuras a horas mortas, como abrir porteiras e galinheiros, comportas de moinhos, etc. Tudo é permitido nesse dia “sem lei”, pois a lei maior do mundo, o Messias, foi preso por traição. Judiaria é termo que remete aos atos dos judeus que condenaram o Filho de Deus, como também aos profetas que lhe prenunciaram. Essas questões ligadas aos judeus são constantes na cultura popular cristã. Com base nisso é que existe até o verbo “judiar”: fazer maldades, e daí, judiado, judiação, judiaria. Muito embora no presente, novas correntes de pensamento ou outras visões sobre as palavras condenem seu uso e estimulem o abandono dessas expressões, por representar uma discriminação contra esse povo, no entanto, tal discussão permanece mais nos meios intelectuais, enquanto nos populares o uso persiste arraigado. 

Uma quaresmeira (melastomatácea) da Serra de São José,
flor muito representativa do período em questão.
O roxo é a cor símbolo da quaresma.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2015.

Notas

- Revisão: 19/03/2026. 

terça-feira, 17 de março de 2015

O glorioso São Benedito

O patrono dos congadeiros

Benedito é um santo católico, muito querido e popular, festejado a 04 de abril, data de sua morte, no ano de 1589. Já recebeu as honrarias da canonização popular (sobretudo dos escravizados) antes mesmo da oficial da Igreja, que se deu em 1807. Há controvérsias sobre sua história. Narram alguns que era mouro, capturado como escravo no norte africano e trazido para a servidão no sul da Itália. Outros, porém, o consideram natural da Ilha da Sicília, cidade de Palermo, filho de pais escravos, naturais da Etiópia, na África. Nasceu em 31 de março de 1524, mas existem divergências que apontam para o ano 1526. 

Ingressou muito jovem na vida religiosa, em mosteiro franciscano, fazendo votos de castidade, pobreza e obediência. Extremamente humilde e bondoso, profetizava e era muito procurado como conselheiro. Levava alimento do convento aos pobres escondido dos superiores nas dobras de seu manto de capuchinho. Certa vez, saindo com os alimentos, foi abordado de surpresa pelo superior do convento que lhe indagando o que levava, respondeu serem flores, rosas. Abrindo o manto de fato apareceram flores, milagrosa transmutação que livrou o Irmão Benedito de castigos. 

Foi célebre cozinheiro do convento, mestre de noviços, superior e depois de novo cozinheiro, sendo considerado patrono da classe e protetor das cozinhas domésticas. É comum ver sua imagem nas cozinhas. Em São João del-Rei às vezes aparece com oferendas, tais como vasilhas postas na frente da imagem com um punhado de grãos de cereais ou um copo com um tanto de café. A crença diz que estes agrados garantem a fartura doméstica. O santo multiplica o alimento, tornando-o farto, bem cozido, bem temperado e saboroso. 

O nome Benedito evoca o sentido de bendito, abençoado. O pesquisador Antônio Gaio Sobrinho esclareceu:

"Seus pais eram escravos negros e haviam feito voto de não gerarem filho, enquanto não obtivessem de seu senhor a promessa de libertá-lo no dia do nascimento. Obtida essa, ao nascer-lhes o filho, exclamaram: 'Benedetto!', palavra que, em italiano, significa felizardo. E assim o menino se chamou Benedito. Benedito de São Filadelfo." (SOBRINHO, 1997). 

Seria a expressão que seus pais usaram para glorificar a Deus no ato do nascimento de seu filho, que ganhou a liberdade ao nascer. O nome Benedito nos terreiros de umbanda é conhecidíssimo não só pelo santo em si que é muito querido e venerado, mas também por nominar diversas entidades espirituais da linha africana; pretos-velhos: Pai Benedito Sanfoneiro, Pai Benedito da Cruz Vermelha, ... do Engenho, de Angola, das Almas, da Calunga, do Cruzeiro, da Guiné. 

Entre os dançadores de jongo e caxambu no Sudeste do país é grande a devoção a este santo. As bandas de congos do Espírito Santo, bem como os ticumbis nutrem por ele uma devoção de dimensão agigantada. Em São Paulo e no sul mineiro goza também de grande prestígio, sobretudo entre as congadas [1]. Aliás, por toda parte, pode-se generalizar, São Benedito é protetor dos congadeiros. É co-festejado com a Senhora do Rosário e é patrono de muitas guardas de congado. Daí ser comum sua figuração em bandeiras, estandartes, quadros de mastros, no nome dos grupos e nas cantigas: 

"Meu São Benedito,
já foi cozinheiro,
Meu São Benedito,
que abençoa seus tempero..."
(Agradecimento de almoço às cozinheiras da Festa do Rosário, 
Coronel Xavier Chaves e São João del-Rei)

Em São João del-Rei, Mestre Luís Santana, memorável capitão de congado, sempre erguia seu mastro nas Festas do Rosário, ladeando o de Nossa Senhora. Dentre seus cantos, não esquecia então deste dístico, curto, mas expressivo:

"Benedito santo,
Benedito é nosso rei!"  BIS

Outro canto dessa guarda, e aliás, difundido por muitas outras da região, reiteradamente cantado todos os anos nos festejos de congadeiros, diz de forma enfática: 

"Benedito santo,
filho de Nossa Senhora, 
ei, Capitão Benedito, 
essa é nossa hora!"

Tem a seguinte variante, no mesmo sentido:

"Benedito santo,
filho da Virgem Maria,
ei, Capitão Benedito,
hoje é nosso dia!"

A expressão "Capitão Benedito", Luís Santana explicava com muita naturalidade, dizendo que São Benedito é o mais verdadeiro de todos os capitães de congado, ou que é o capitão de todas as guardas. Capitão de carne e osso, dizia, era só por imitação do santo. 

Na zona rural de São João del-Rei existe uma capela a ele consagrada no povoado da Vendinha. Em Laje (Madre de Deus de Minas) também existe uma. Tem animada festividade na Igreja do Senhor do Bonfim, em São João del-Rei, não raro com a presença de congado na procissão, convidado de algum outro bairro. Merece destaque especial a festa centenária consagrada a este santo em Aparecida/SP, que reúne todos os anos uma imensa quantidade de congados do interior paulista e de Minas Gerais (oeste, sul, centro, centro-sul, etc).

Congado 'São Benedito', um catupé de Resende Costa/MG, chegando na Festa do Divino
no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, 11/06/2011.

Moçambique 'São Benedito'.
Ribeirão Vermelho/MG, 30/06/2013. 

Referências 

Benedito, o Mouro. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Benedito,_o_Mouro (acesso em 16/03/2015, 18h e 10min)

GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p. p.37-8.

Retirada dos caiapós acontece neste sábado. Prefeitura Municipal de Poços de Caldas: http://www.pocosdecaldas.mg.gov.br/site/?p=8490 (acesso em 17/03/2015, 06h e 55 min)

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli. 

Notas


[1] Em Ouro Fino/MG, sul de Minas Gerais, por exemplo, em sua igreja, as animadas festividades contavam com apresentações de congada, caiapó e bumba-meu-boi (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1964. v.11. p.47-51). Em Poços de Caldas a congada e o caiapó se encontram na festa desse santo num interessante entrecho dramático, que representa a saída do mato, quando os congos vão para a retirada dos caiapós escondidos na vegetação, para juntos festejarem São Benedito.

- Revisão: 01/09/2025. 

domingo, 15 de março de 2015

Encruzilhada: o cruzamento da sorte

“Encruza”. Cruzamento de duas vias. Ponto onde duas ruas, estradas, caminhos ou trilhas se encontram esboçando uma cruz. No sul mineiro o entrocamento de variante do Caminho Geral do Sertão (leia-se atualmente “Estrada Real”) valeu o nome ao município de Cruzília. No Nordeste, pelo interior do Rio Grande do Norte, a nomenclatura é outra: "Quatro Bocas" é uma  povoação recôndita no município de Pedro Velho, indicando a entrada de quatro caminhos, a "boca" de uma estrada. 

Cascudo (s/d), cita que na Roma antiga já corria a crença de que esse é um lugar de espectros. Na Bíblia Sagrada, o Livro de Ezequiel, contém citações aos cruzamentos de caminhos – 16: 31 ("Edificando tu a tua abóbada ao canto de cada caminho, e fazendo o teu lugar alto em cada rua!") e 21: 21 ("porque o rei de Babilônia parará na encruzilhada, no cimo dos dois caminhos, para fazer adivinhações")

Na visão popular calcada em antiquíssimas tradições, a encruzilhada é o lugar típico da aparição das assombrações em todo o tempo, mormente na quaresma. É a morada ideal dos seres do imaginário, dos monstros mitológicos aparecerem, dos espíritos malfazejos praticarem seus atos perversos. É o lugar da decisão: para onde seguir? ... Pode levar a um lugar certo (do bem) ou errado (do pecado); rumo da sorte ou do azar. 

Indefinição e incerteza - é o que a encruzilhada proporciona. Quando alguém se vê numa circunstância da vida que tem que tomar uma decisão, que exclui totalmente outra, usamos dizer: "está numa encruzilhada..." ou ao fato da decisão em si dizemos de forma figurada que pertence "às encruzilhadas da vida..."

Como tal exige protocolo. Encruza se atravessa o mais rápido possível e se vai em frente. Parar sobre elas é só o mínimo de tempo possível. Não é lugar adequado para conversar, bater-papo, contar segredos, expectativas ou planos, o que poderá botá-los à perdição. Se a pessoa vem rezando pela rua, ao atravessar um cruzamento deve ao menos em pensamento pedir licença: "_ dá licença!", e assim não sofrerá perturbações. 

Referenciada também num canto de congado: 

"Quando eu vim da Bahia, 
a estrada eu não via... BIS 
cada encruza qu’eu passava, 
uma vela eu acendia!” BIS 
(Catupé, Santa Cruz de Minas, Cap. Luís Pereira dos Santos, 2005). 

É comum os congadeiros aos passarem em formação pelas encruzilhadas, sob o comando do capitão, fazerem uma coreografia na entrada da mesma, chamada "meia-lua", que consiste num movimento semicircular da fila de dançantes da direita passar para a esquerda e a da esquerda passar para a direita. O comando em geral se faz com o cruzamento do braço do capitão, com as palmas das mãos voltadas para cima, tocando-se a nível dos pulsos. O descruzamento será na repetição do movimento coreográfico após a encruzilhada ou na próxima. Uma segunda coreografia, um pouco mais complexa, inclui quatro meias luas, uma em cada boca da encruzilhada. Seja como for, é uma medida preventiva, pois acreditam que seu descuido poderá prejudicar o congado, tal como desafiná-lo, provocar desentendimentos, mal estar físico nalgum congadeiro mais despreparado. 

Em parte da concepção religiosa afro-brasileira, Ogum é o senhor dos caminhos e regente maior do centro da encruzilhada, enquanto seus cantos pertencem a Exu. Daí pedir-se licença a ambos e destinar as entregas (despachos e oferendas) no lugar certo conforme o destino, sob pena de não obter o resultado desejado. Encruzilhada também é área de domínio das entidades de linha esquerda, exus e pombogiras. Neste sentido e com mais detalhes distingue-se a “encruza fechada”: em forma de letra T, domínio das pombogiras, lugar de trabalho de amarração; "encruza em Y": domínio principalmente dos cangaceiros. As atividades religiosas feitas nas encruzilhadas de terra (vias não pavimentadas) são as consideradas mais eficazes, pois guardam a energia da entidade com mais vigor e pureza. Por outro lado, aquelas pavimentadas, as do meio urbano, e também as "encruzas complexas" (entroncamento de várias vias), são de domínio espiritual variado, atribuído a muitas categorias de entidades da linha esquerda. Tais vias são consideradas perigosas, posto que inclusive e principalmente os espíritos sem luz (trevosos), muito atrasados são seus frequentadores. 

Encruzilhada tem dono. É a passagem temerosa, é a travessia do medo, da incerteza, da instabilidade momentânea. É a morada da assombração, do maligno. Esta é a concepção que impregnou a alma da cultura popular. 


Uma encruzilhada em Y. 

Referências Bibliográficas


CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

BÍBLIA SAGRADA. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Revisão: 17/06/2026. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Estrelas: o brilho da tradição

Desde sempre a humanidade construiu um complexo sistema de crenças, mitos e ritos, ligados ou influenciados pelas observações do tempo e dos elementos da natureza. A astronomia, a astrologia e a meteorologia impressionaram o homem da remota antiguidade aos tempos hodiernos, nas mais diferentes culturas e etnias.

Essa cosmogonia ao passar informalmente de geração em geração, nas mesclas culturais fomentadas pelas correntes migratórias, chegou aos dias atuais e impregnou a cultura popular. O folclore dos astros é vastíssimo e universal.

Ora tangenciando a religião ora enveredando pelo mundo da superstição, o entendimento das estrelas e sua nomenclatura vem desde a antiguidade clássica a respeito das constelações, dos signos do zodíaco, a orientação celeste das rotas de navegação marítima. Os gregos de forma especial legaram uma vasta influência através de sua rica mitologia, transposta ao plano estelar.

A influência na poesia popular é uma constante, surgindo muitas estrofes que citam as estrelas.

Existe a restrição muito divulgada de não apontar para a estrela, sob pena de nascer uma verruga na ponta do dedo.

Céu estrelado é indicativo de bom tempo, tempo firme, ausência de chuva, segundo previsão da meteorologia popular.

De maneira mais pragmática, os tópicos abaixo passam em breve revista algumas tradições sobre as estrelas.

Santos Reis rodeado de estrelas numa pintura popular
da bandeira da Folia de Reis "Embaixada da Pedra Negra".
Ijaci/MG, jan./2010.


Estrela Cadente - Nome popular do meteorito. O mesmo que estrela-de-rabo, devido ao rastro luminoso que deixa ao riscar o céu velozmente. Ver uma estrela cadente é sinal de boa sorte. Neste átimo de luz efêmera deve-se fazer um pedido para ser atendido, com grande chance de bons resultados, contanto que não se conte a ninguém. O povo crê, tanto aqui quanto no Nordeste, que é uma estrela comum que muda de lugar no céu. Esta quadra, cantada no reis de boi (modalidade de reisado) potiguar registra a crença:

"A estrela no céu corre,
eu também quero correr;
ela corre atrás da lua,
eu atrás de um bem querer!"
(São Gonçalo do Amarante/RN, 1997)

Luís da Câmara Cascudo registrou em seu Dicionário do Folclore Brasileiro as superstições ligadas à estrela-cadente, vestígios de cultos astrolátricos que recebemos da Europa, via Portugal.

Estrela d’Alva - Nome popular do planeta Vênus, visto a leste, ao alvorecer. Estrela matutina. Inspira a poesia popular, sendo citadíssima nos versos folclóricos:

"Estrela d'Alva alumiou,
coroa do rei, relampiou!"
(Congo, São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 2014)

Sua aparição vespertina ("Estrela Vésper), a mais nítida "estrela" do cair da noite, muitas vezes a primeira visível, ganha o nome de "Papa-ceia":

"Te arretira, Papa-ceia,
que a d'Alva quer brilhar..."
(Enunciado popular, Santa Cruz de Minas, 1995, [1])

Estrela-de-Davi - Estrela mística, de seis pontas. Hexalfa. Símbolo de sabedoria. É um importante símbolo judaico. Na Umbanda é um dos símbolos da Linha do Oriente, chefiada pelo Orixá Xangô. Nas tradições populares funciona como forte elemento protetor contra malefícios espirituais, seja riscada, seja feita de penduricalho, um amuleto que se carregada ao pescoço. Confundida com a estrela de Salomão com grande frequência.

Estrela-da-Guia - A estrela que guiou os Reis Magos, do oriente a Belém. Estrela do Oriente. Cantada e recantada nos versos reiseiros no Brasil e fora dele. Folias, reisados, pastoris, etc. Sua representação simbólica em desenho é uma divisa, um distintivo e também um amuleto. Estrela de cauda, desenhada com um facho luminoso anexo, representação simbólica de sua trajetória celeste.

"Estrela do céu,
Estrela do Oriente,
guia meus passos
daqui para frente!"

"Estrela da Guia,
estrela de meu pai,
guia meus passos
nos caminhos onde vai!"
(Ensalmos, São João del-Rei, 2009, [2])

Estrela-do-Norte - 1 - Nome popular da Estrela Polar, que é “a última das estrelas que formam a cauda da constelação Ursa Menor. No decorrer das épocas e em consequência da precessão dos equinócios, qualquer estrela com uma latitude próxima de + 66º 33’ terá sido, em prazo mais ou menos longo, uma estrela polar.”, informa C. Aulete. Motiva versos:

“Ô lua nova!
Ô Estrela do Norte!
Vou pedir Nossa Senhora
pra te dar uma boa sorte!”
(Canto de agradecimento, Congo, Rio das Mortes [SJDR], 1998)

“Fui no céu contar estrela
só a do Norte separei;
é por ser o mais bonito
só contigo casarei...”
(Trova, zona rural de Bias Fortes, 1997, [3])

É um ponto de referência celeste, um guia e condutor de viajantes, "o norte", buscar o norte, se diz habitualmente; nortear.

O designativo "estrela do norte" caiu no gosto popular e veio a designar no nordeste do país um personagem humano feminino de certos grupos de pastoris (modalidade de pastorinhas). Também serve de nome a várias plantas rubiáceas: Randia aculeata, R. mitis, R. formosa, Gardenia brasiliensis; também da amarilidácea Eucharis grandiflora, segundo C. Aulete, dentre outras plantas.

Flor da estrela do norte em São João del-Rei, 2009. 
Tithonia diversifolia, asteraceae. 

Estrela-de-Salomão - Signo de Salomão, "Sino Samão". Estrela mística, de cinco pontas. Pentalfa. Símbolo de força espiritual. Reúne os mistérios sagrados. Seu desenho aparece com enorme frequência nas bandeiras, instrumentos e uniformes dos grupos folclóricos, emblemática, em função estética e de amuleto ao mesmo tempo. Figura em inúmeros pontos riscados da Umbanda, como elemento central ou satélite, conjugado a flechas, sóis, luas... invocando diversas entidades. Esta estrela desenhada, rodeada por uma circunferência que interliga suas pontas, encimada por uma pequena cruz, representa o Ponto das Almas, que se riscado, seria capaz de invocar a força protetiva das almas.

Estrela de Salomão pintada no couro de um tambor
de congado. Catupé, Santana do Jacaré/MG. 18/10/2015.
 

Setestrelo - nome popular das Plêiades, aglomerado estelar de brilho azulado na constelação de Touro. Sete Estrelas, Sete Estrelos. Influenciou largamente a mitologia de vários povos, inclusive nossos indígenas. É citado na Bíblia Sagrada nos Livros de Jó e Amós e inspira profecias e crenças. Aparentemente foi representado em alguns painéis de pinturas rupestres. 

Cruzeiro do Sul - constelação cujas principais estrelas se dispõe em forma de cruz latina, marcando nitidamente o polo sul celestial, referência importante para os viajantes e navegadores. Para o povo é uma prova concreta do poder de Deus, que marcou de forma perene no céu o símbolo da redenção cristã. Os pastoris nordestinos lembram-se dessa constelação ao saudar as dançantes do cordão azul (em oposição ao cordão encarnado, que é a outra fileira de pastoras, de vestidos vermelhos):

"Estrela do Norte,
Cruzeiro do Sul,
vamos dar um viva
ao cordão azul!"
(Apodi/RN, 1994)

Três Marias - as três estrelas alinhadas ao centro da constelação de Órion, referenciando personagens da Paixão de Cristo. Um canto de terreiro, da Linha das Crianças (erês) assim se expressa:

"Lá no céu tem três estrelas,
todas três em carreirinha,
uma é Cosme e Damião,
outra é Mariazinha."
(São João del-Rei, 2014)

Em carreirinha ou encarreirada vale por alinhada, na mesma reta.

Para maiores detalhes ler a postagem TRÊS MARIAS.
Pontos desenhados com base em estrelas, flagrados a partir de pintura em tamborins de congados de São João del-Rei:
à esquerda, o Ponto das Almas; à direita, o Ponto dos Sete Elementos (representados pelos círculos pretos - céu, terra, sol, lua, águas, matas e pedreiras).
 

Enfeite natalino no "Beco da Escadinha", no
Centro Histórico de São João del-Rei - estrela de cinco pontas.
06/01/2016. 


Detalhe da cabeça do "Boi de Ronda", marcada por uma estrela na testa. 
São João del-Rei, Bairro Caieira. Foto: Ariany Fonseca, 26/08/2024. 


Referências Bibliográficas

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Delta, 1978. 5v. 3998p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d].

Créditos

- Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli.
- Desenhos dos pontos: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] Informante: José Cândido de Salles - natural de Antônio Carlos/MG; morador de Santa Cruz de Minas/MG. 
[2] Informante: Maria do Rosário Neves - natural de Formiga/MG; moradora de São João del-Rei/MG
[3] Informante: Elvira Andrade de Salles - natural de Bias Fortes/MG; moradora de Santa Cruz de Minas/MG. 
- Revisão: 19/06/2025 (com acréscimo da fotografia do boi). 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Uma promessa de três pulos

O devocionário popular credita a cada santo uma especificidade de ação, dentro da qual tem mais força para o caso pedido chegar rapidamente a bom termo. Assim, por exemplo, são os patronos de classe dos trabalhadores e também os santos protetores contra este ou aquele malefício, doença, fatalidade ...

Os fiéis até mesmo se apegam a um santo especialista em achar objetos desaparecidos: "São Longuinho". É invocado quando se perde alguma coisa. Para achar, fazem uma promessa curiosa, dizendo: “Meu São Longuinho, me ajuda a achar ... (tal coisa) que eu te dou três pulinhos!” Aí procuram. Achando o perdido, o santo é agradecido e dá-se três pulos para cima, no mesmo lugar, pagando-se a promessa imediatamente [1]

Longuinho seria o centurião que furou o lado de Cristo com uma lança, quando Jesus estava crucificado. Uma gota do sangue do Salvador caindo-lhe no rosto curou um problema de visão. É o que reza a tradição. Converteu-se, deixou de ser militar, passou para a condição de monge, eremita na Capadócia e Cesareia. É também referido como o soldado que reconheceu a divindade de Cristo no ato de sua morte, citado nos evangelhos. Como cristão foi denunciado e considerado desertor. Foi então martirizado por decapitação, tendo antes da morte seus dentes arrancados e a língua cortada.Seu nome verdadeiro seria Cássio. Devido ao episódio da lança, ganhou o cognome de origem grega que significaria "uma lança", Longinus em latim, aportuguesado em Longino, em corruptela, Longuinho. 

Suas imagens e pinturas o representam de duas formas: como soldado com a lança ou como monge, de capuz, bolsa a tiracolo e um lanterna em atitude de alguém que busca algo. Efetivamente parece não haver uma explicação convincente para a sua função de busca de objetos, tão pouco para a forma curiosa de pagamento da promessa. 

Luís da Câmara Cascudo esclareceu que Longinus é o nome de cinco mártires conforme consta no Martiriológio Romano. A promessa curiosa seria paga no Nordeste do Brasil com os mesmos três saltos, citando ainda três gritos ou três assovios. Processo semelhante aconteceria com os pedidos a São Vítor e São Dino. 

Em Guararema/SP tem festa própria. 

Resta ainda dizer que em São João del-Rei algumas vezes é chamado de "São Minguinho". 

Referências 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 

GUARAREMA. Festa de São Longuinho começa hoje em Guararema. Prefeitura Municipal. Disponível em:  http://www.guararema.sp.gov.br/237/secretarias/cultura/noticias/noticias/239/festa+de+sao+longuinho+comeca+hoje+em+guararema  Acesso em 06/03/2015. 

MUNDO ESTRANHO. Porque se pede a São Longuinho prometendo três pulinhos? Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/por-que-se-pede-a-sao-longuinho-promentendo-tres-pulinhos  Acesso em 06/03/2015. 

PAULINAS. 15 de março - São Longuinho. Disponível em: http://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=santo&id=768  Acesso em 06/03/2015. 

WIKIPÉDIA. Longino. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Longino  Acesso em 06/03/2015. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli

Notas 

[1] São João del-Rei e região, fato observado desde a década de 1970. Em verdade ocorre em outras partes do país. 
- Revisão: 27/06/2025.  

segunda-feira, 2 de março de 2015

Características dos animais: cores e denominações

O homem do campo na lida com os rebanhos, geração após geração, desenvolveu uma cultura rural típica e específica sobre a atividade pastoril, que perpassa por vários vieses, como as técnicas veterinárias e zootécnicas empíricas, a mitologia em torno dos animais, os detalhes de seus comportamentos, hábitos de alimentação, crescimento, reprodução, etc. Enfim, sobre todos os elementos da sua atividade o rurícola construiu seu linguajar e modo de entendimento.

Por aí passa o saber identificar se um bezerro é de boa estirpe e dará um bom lucro no futuro; ou se o cavalo tal é bom de marcha; qual boi pode ser treinado para carrear sob o jugo ou se não será bom para a função. 

O homem desenvolveu com o gado uma afetividade tal que lhe permite ao seu modo tratar as criações com carinho, e assim, retireiros, tropeiros, boiadeiros, muladeiros, sitiantes e fazendeiros se entendem com expressões que aos não afeitos ao seu linguajar habitual podem parecer estranhas. 

Dentre os elementos mais interessantes está a terminologia das cores de pelagem de bois, cavalos, ovelhas e das penas das galináceas, bem como a designação de outras características físicas inerentes à cabeça, cauda, etc. Aquelas que porventura as combinações genéticas fixaram num fenótipo mais ou menos padronizado receberam um nome próprio.

Peculiaridades de um animal servem muitas vezes de inspiração para composições do cancioneiro popular ou de trovas folclóricas. A título de exemplo dentre uma vastidão de composições:

"Eu matei meu boi malhado, 
meu boi de estimação;
eu levei p'ro matadouro
na noite de São João." [1]

"Eu sou aquele zebu,
que tem o chifre torcido;
na hora qu'eu dou meu berro,
meu berro é conhecido!" [2]

Longe de esgotar o assunto numa mera listagem, estão abaixo enumerados uma pequena coletânea de termos da pecuária popular difundidos nesta região. Esteja claro que tal lista não se faz completa e que de fato não o pretendeu ser; igualmente, que não tem limites rígidos de definição, sendo que o entendimento da nomenclatura, passa por variações subjetivas e outras mais, ditadas pelo regionalismo. Até mesmo porque certas tonalidades de pelagem ou de plumagem são comparadas por total subjetivismo, sem uma escala física que defina rigidez na classificação. Tanto mais, existem influências regionais, que dão nomes diferentes a um determinado padrão estético do animal. Para este texto só foram consideradas as denominações populares em voga no Campo das Vertentes, sem se ater à nomenclatura formal dos criatórios e da zootecnia [3]. 

* * *

Araçá - cachorro de cor geral ocre ou parda-amarelada, com estriações escuras, finas e sinuosas por todo o corpo. A saturação do colorido é variada conforme o cão. 

Araçá.

Alazão - castanho-avermelhado, incluindo a crina, que é da mesma tonalidade do corpo. 

Arrepiada - galinha que em vez de ter todas as penas rentes ao corpo, as tem eriçadas.

Arrepiada. 

Azulega - normalmente pronunciada como "zulega". Rês de pelagem cinza-ardósia. 

Baio - amarelado, bege, camurça. 

Baio.
Barbuda - raça de galinhas com um tufo de penas na lateral da cabeça, abaixo dos olhos.

Barbuda.

Calçado - animal com mancha branca uniforme na parte baixa das patas, contrastando com a cor escura do corpo. Parece calçado de botas ou meias.

Capão - capado; castrado segundo os procedimentos da veterinária popular. Habitualmente se emprega com referência aos galos. O homem rural tem por hábito reservar um galo para se tornar capão e como tal, removendo seus testículos, considera que muda sua tonalidade de canto, mas principalmente, que passa a se comportar com um zeloso cuidador de filhotes. Assim, o galo-capão é posto a cuidar dos pintos que nascem e dizem que o faz melhor que as galinhas, que podem então iniciar com brevidade uma nova sequência de postura e choco. Por vezes entregam ao galo-capão diversas ninhadas de diferentes galinhas e assim fica como pai adotivo. Também se diz capão aos galos desprovidos de crista.

"Galinha sem rabo é su (ruca); - bis
Galo sem crista é capão!" - bis
(catupé, Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei)

Capoeireira - rês arisca, que ao ser tangida pelos boiadeiros foge de súbito com grande correria, ocultando-se de ordinário nas capoeiras (pequena mata isolada de outras áreas florestais, no meio do campo ou no cerrado).

Caracu - boi vermelho-tijolo. Referência a uma raça bovina.

Carijó - também chamado pedrês, ou seja, semelhante à pedra, é a mescla de preto, branco e tonalidades de cinza.

Carijó.

Carona - pelagem de bovinos de fundo branco e largas manchas marrons. Equivale ao pampa dos equinos. 

Castanho - animal marrom-avermelhado, em diferentes tonalidades.

Catróia - 1- Animal que tem na pelagem uma mancha preta ao redor olhos. Vaca-catróia. 2 - Schistochlamys ruficapillus: ave passeriforme da família thraupidae, encontrada no Campo das Vertentes, de plumagem aveludada nas cores cinza e canela, com uma característica cor preta em volta dos olhos, como uma máscara. O mesmo que catrol, sanhaço-catróia, gaiteiro, fura-laranja, bico-de-veludo e zorro.

Chumbada - galinha de vários tons de pardo, em padrão de salpicado miúdo, vermiculado e escamado na plumagem. 

Cravo - dizem os passarinheiros das fêmeas de canário de características masculinizadas, que tem dificuldades de acasalar, porque sempre brigam com diferentes machos. Por vezes cantam semelhante ao macho e, se aninham, podem abandonar ovos ou filhotes à morte. Fêmea-cravo. No caso do canário da terra, canário-chapinha ou canário cabeça-de-fogo (Sicalis flaveola), ela tem um porte mais avantajado que de outras fêmeas da espécie e a fronte esboça um tanto amenizado o laranja típico das penas do píleo do macho.

Estrela - criação com uma mancha branca na testa, disforme, contrastando com o restante da pelagem. Equino ou bovino escuro com malha clara na fronte. A terminologia ficou imortalizada na canção de "Vaca Estrela e Boi Fubá", um clássico do inesquecível Patativa do Assaré, cantado e recantado por grandes nomes de nossa música.

Fumaça - rês de cor fuliginosa; denegrido esmaecido.

Javanês - gado de pelagem na cor dominante amarelo-pardacenta, com algumas áreas esbranquiçadas na parte inferior do corpo. 

Javanês. 


Laranja (o) - pelagem parda cambiando ao alaranjado. Curiosamente para animais machos o povo adapta o adjetivo ao masculino: vaca-laranja; boi-laranjo. 

Macuco - boi que apresenta pelagem cinza-pardacento, no tom semelhante ao das penas do macuco, Tinamus solitarius, ave tinamídea da Mata Atlântica. Uma antiga cantoria de congado informado como da zona rural de Bias Fortes/MG, registra a terminologia: 

"Meu boi-macuco
tá no currá;
é dia, gente, 
vamos'inhá!"

Malhada (o) - rês preta, com manchas brancas de tamanhos variados, sem forma definida.

Malhada. 

Mocho - sem chifres. O mesmo que mochado. 

Moira - ou moura. Pelo preto e branco, salpicado entre malhas mais largas.

Moira.

Nabuco - sem rabo ou de cauda curta, seja por característica genética, anomalia do espécime ou acidente. Vaca-nabuca, cachorro-nabuco, galo-nabuco. 

Nanica - a palavra indica pequeno porte. Raça de galinhas de pernas excepcionalmente curtas, consideradas mansas e boas poedeiras.

Pampa - animal nas cores marrom e branca, em malhas de desenhos aleatórios.

Pampa. 

Pedrês - pelagem branca ou clara, salpicada de escuro de forma esparsa e mais tênue que o tordilho.

Pedrês. 

Pelo de rato - como o nome indica, pelagem de burro ou mula que se aproxima da cor de um rato. Acinzentado, em várias tonalidades.

Pelo de rato.

Picaço - escuro, calçado de branco.

Picaço.

Queimado - semelhante ao retinto, animal de pelagem castanho escuro.

Queimado.

Retinto - gado castanho bem escuro, tirante a vermelho.

Retinto.

Rosilho - semelhante ao tordilho, mas tirante ao avermelhado atenuado.

Ruão - ou ruano (a): pelagem baia aloirada, de crina ruiva. A cor também se aplica a cães.

Sapateiro - pombo ou galo com pernas e dedos cobertos de penas. Pombo-sapateiro; galo-sapateiro.

Sapateiro. 

Suruca (o) - por vezes encurtado para “sura” ou “sú” . O mesmo que cotó, cotôco, nabuco; isto é, sem rabo, ou de cauda ou cabelo muito curto. Existe uma estrofe popular bem humorada que cita a galinha-sura. A versão abaixo procede de Santa Cruz de Minas: 

“Botei minha galinha chocá 
numa moita de capim-gordura, 
quando foi noutra semana, 
tinha pinto com um metro de altura, 
achei que era da minha galinha, 
mas era de galinha-sura...” 
(sextilha popular, Santa Cruz de Minas, 2002). 


Essa sextilha (em variantes próximas) foi incorporada entre a versalhada jocosa dos palhaços de folias de Reis em São João del-Rei e seu distrito de São Gonçalo do Amarante. 

Suruco.

Topete - raça de galinhas com um tufo de penas salientes sobre a cabeça, à guisa de um penacho. 

Topete.

Tordilho - pelagem equina cinzenta com pequeninos salpicados difusos por todo o corpo.

Tordilho.

Trochada - vaca de fundo geral ocre ou amarronzado claro, estriada por linhas sinuosas escuras ao longo de todo corpo. Muito semelhante à designação araçá.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: Ulisses Passarelli (equinos, bovinos, cão); Iago C.S. Passarelli; (galináceos).

Notas 

[1] Informante: Aluísio dos Santos, Bairro Centro, São João del-Rei, 10/02/1999.
[2] Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas, 12/02/1999.
[3] Por exemplo, dois dos mais afamados romances do ciclo do gado nordestino são as cantigas do boi-surubim e do boi-espaço (ou espácio), incorporadas ao repertório do folguedo do bumba-meu-boi no Rio Grande do Norte. Surubim vale a pelagem em padrão de cor que alude à coloração do peixe silurídeo surubim, cinza maculado de preto, em pintas ou rajas; espaço é o boi de chifres grandes e divergentes, muito abertos.

- Revisão: 01/07/2025.