Cascudo (s/d), cita que na Roma antiga já corria a crença de que esse é um lugar de espectros. Na Bíblia Sagrada, o Livro de Ezequiel, contém citações aos cruzamentos de caminhos – 16: 31 ("Edificando tu a tua abóbada ao canto de cada caminho, e fazendo o teu lugar alto em cada rua!") e 21: 21 ("porque o rei de Babilônia parará na encruzilhada, no cimo dos dois caminhos, para fazer adivinhações").
Na visão popular calcada em antiquíssimas tradições, a encruzilhada é o lugar típico da aparição das assombrações em todo o tempo, mormente na quaresma. É a morada ideal dos seres do imaginário, dos monstros mitológicos aparecerem, dos espíritos malfazejos praticarem seus atos perversos. É o lugar da decisão: para onde seguir? ... Pode levar a um lugar certo (do bem) ou errado (do pecado); rumo da sorte ou do azar.
Indefinição e incerteza - é o que a encruzilhada proporciona. Quando alguém se vê numa circunstância da vida que tem que tomar uma decisão, que exclui totalmente outra, usamos dizer: "está numa encruzilhada..." ou ao fato da decisão em si dizemos de forma figurada que pertence "às encruzilhadas da vida..."
Como tal exige protocolo. Encruza se atravessa o mais rápido possível e se vai em frente. Parar sobre elas é só o mínimo de tempo possível. Não é lugar adequado para conversar, bater-papo, contar segredos, expectativas ou planos, o que poderá botá-los à perdição. Se a pessoa vem rezando pela rua, ao atravessar um cruzamento deve ao menos em pensamento pedir licença: "_ dá licença!", e assim não sofrerá perturbações.
Referenciada também num canto de congado:
É comum os congadeiros aos passarem em formação pelas encruzilhadas, sob o comando do capitão, fazerem uma coreografia na entrada da mesma, chamada "meia-lua", que consiste num movimento semicircular da fila de dançantes da direita passar para a esquerda e a da esquerda passar para a direita. O comando em geral se faz com o cruzamento do braço do capitão, com as palmas das mãos voltadas para cima, tocando-se a nível dos pulsos. O descruzamento será na repetição do movimento coreográfico após a encruzilhada ou na próxima. Uma segunda coreografia, um pouco mais complexa, inclui quatro meias luas, uma em cada boca da encruzilhada. Seja como for, é uma medida preventiva, pois acreditam que seu descuido poderá prejudicar o congado, tal como desafiná-lo, provocar desentendimentos, mal estar físico nalgum congadeiro mais despreparado.
Em parte da concepção religiosa afro-brasileira, Ogum é o senhor dos caminhos e regente maior do centro da encruzilhada, enquanto seus cantos pertencem a Exu. Daí pedir-se licença a ambos e destinar as entregas (despachos e oferendas) no lugar certo conforme o destino, sob pena de não obter o resultado desejado. Encruzilhada também é área de domínio das entidades de linha esquerda, exus e pombogiras. Neste sentido e com mais detalhes distingue-se a “encruza fechada”: em forma de letra T, domínio das pombogiras, lugar de trabalho de amarração; "encruza em Y": domínio principalmente dos cangaceiros. As atividades religiosas feitas nas encruzilhadas de terra (vias não pavimentadas) são as consideradas mais eficazes, pois guardam a energia da entidade com mais vigor e pureza. Por outro lado, aquelas pavimentadas, as do meio urbano, e também as "encruzas complexas" (entroncamento de várias vias), são de domínio espiritual variado, atribuído a muitas categorias de entidades da linha esquerda. Tais vias são consideradas perigosas, posto que inclusive e principalmente os espíritos sem luz (trevosos), muito atrasados são seus frequentadores.
Encruzilhada tem dono. É a passagem temerosa, é a travessia do medo, da incerteza, da instabilidade momentânea. É a morada da assombração, do maligno. Esta é a concepção que impregnou a alma da cultura popular.
| Uma encruzilhada em Y. |
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.
BÍBLIA SAGRADA. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965.
- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.
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