Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador Palhaço. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Palhaço. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de dezembro de 2014

Dança da Pururuquinha



Folia de Reis "Embaixada Santa", Bairro Araçá, São João del-Rei/MG.
Apresentação no Largo do Rosário no Dia de Reis, 06/01/2011. 
Em torno dos bastões colocados no chão os palhaços dançam a pururuquinha, chulinha ou espanta-cabrito.


 Créditos

- Legenda: Ulisses Passarelli.
- Gravação: Maria Aparecida de Salles.

Notas

- Revisão: 17/12/2025. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Palhaços de Folias de Reis: ambiguidade e enigma - parte 2

As folias de Reis e similares obedecem a uma série de rituais protocolares na chegada a uma casa. A grosso modo e independente do santo estampado na bandeira, no geral, chegam em silêncio junto à porta da casa visitada. A um sinal do mestre, por vezes de seu apito, irrompem os instrumentos e logo entra a cantoria que se chama tradicionalmente de “abrição de porta”, um pedido em versos no qual é solicitada a abertura da casa ao proprietário, pois um santo veio visitar.

O passo seguinte caso o pedido seja atendido é  o de recebimento da bandeira e elogio aos donos da casa. Narra-se então algo sobre o santo festejado e em seu nome se pede uma oferta. A seguir o óbolo é motivo de agradecimento cantado. A bandeira é solicitada também por via cantada, sequenciada por pedidos de proteção ao lar e despedidas.

É isto, em suma. Mas, eventualmente, o ritual ou a sequência de passos, se incrementa ou abrevia, consoante a receptividade. Se a folia tiver um palhaço os procedimentos se complexam.

Isto ocorre porque o palhaço se posta em vanguarda e como intermediário irreverente entre visitados e visitantes, fazendo uma interlocução livre, em verso ou prosa. Se for numa fazenda compete-lhe adiantar-se até a sede enquanto a folia aguarda a resposta de fora. Vai então cuidando de espantar cachorro bravo, levantar vaca deitada no caminho, tirar um galho caído. Deixa o caminho desimpedido à folia.

Folia de Reis de Ibertioga/MG, durante a Festa do Divino em São João del-Rei (Bairro Matosinhos). 
Foto: José Cláudio Henriques, 2002, gentilmente cedida para esta postagem. 

Se for numa casa, logo corre a gritar aos moradores[1]:

“Venha abrir a sua porta
E acender a sua luz,
Quem veio lhe visitar
Os mensageiros de Jesus!” 

A posição do palhaço é de muita liberdade e as concepções sobre seu papel ou a forma de se comportar variam de um grupo para outro. Em certas folias o palhaço fica de fora até o mestre terminar toda a cantoria e só então este pergunta ao dono da casa se deseja ver alguma brincadeira do palhaço e se consente sua presença dentro da casa. Caso afirmativo é que o chama para dentro. Algumas áreas rurais das Vertentes usavam desse sistema. Enquanto esperava não era raro o palhaço correr pela porta dos fundos, entrar na cozinha e roubar coisas de pouco valor, como uma réstia de cebola ou alho, algumas bananas, abóbora ou ovo. Quando chegava sua hora de entrar em cena, mostrava o produto do roubo e com gaiatices ia pedindo ao dono da casa: que seus filhos estão com fome; que tem trinta e sete crianças só com a Catirina [2]; que ela é uma patroa brava, etc. O palhaço é um grande pedinchão.

Numa dessas estripulias, narrou-me um saudoso folião do Elvas[3], que as folias daquela área pararam de empregar o palhaço a muitos anos, porque aconteceu um fato lamentável certa vez. Uma folia visitando uma casa daquelas comunidades em derredor, trouxe consigo um palhaço meio abusado nas brincadeiras. O grupo chegou num sítio no escuro da noite. O dono da casa veio com lamparina à mão abrir a porta enquanto a esposa, com gravidez avançada correu à cozinha para adiantar um cafezinho aos nobres visitantes. O palhaço deu volta pelos fundos e entrou sorrateiro pela porta de trás. A mulher que não o tinha visto ouviu o barulho de seus passos e se virou de repente. Ele deu um grito e pulou na frente dela: “ô... patroooa!!!”. Ela deu um grito de pavor e com a crise de susto entrou em trabalho de parto. Desnecessário descrever a complicação de semelhante circunstância.

Noutros lugares, porém, mormente na cidade, o palhaço é o primeiro a entrar na casa e em alta voz chega pedindo licença e avisando ao mestre: “olha só o que eu encontrei!”, apontando para um quadro de santo na parede e então o mestre é obrigado a cantar um louvor. Se ver um presépio armado tem por obrigação absoluta e inquestionável se ajoelhar perante o mesmo e assim retira respeitosamente a máscara. Se souber versificar, declama a sua loa, que pode ser simples ou longa, mas via de regra deve conter a base da profecia messiânica até a natividade e visita dos magos e pastores. Após isto pode se levantar e vestir a máscara. Então o mestre canta sua embaixada laudatória e durante esta o palhaço não pode fazer interrupções ou gracejos, só dançar de forma comedida e emitir expressões que reforçam o sentido da cantoria, como: “olha que beleza!” ou “que mistério tão profundo!”.

Mas se não sabe este esquema então é obrigado a uma penitência de permanecer de joelho enquanto durar a cantoria para o presépio.

Uma brincadeira de praxe efetivada entre palhaço e anfitrião é o da oferta inusitada e provocativa. O dono da casa presenteia o palhaço com algo inesperado, de pouco valor, como um prego, um biscoito, uma banana, uma xícara... e pede ao palhaço que faça um verso para agradecer, no qual deve conter uma referência explícita àquela oferta.

Compete ao palhaço observar detalhes que poderiam passar despercebidos ao bandeireiro no trato dispensado à bandeira pelo anfitrião. É de costume o homem receber a bandeira com um beijo e passá-la ao ósculo dos filhos e depois a entrega à esposa, que a leva para o quarto do casal. Quando há visibilidade do cômodo o palhaço observa discretamente se vai amarrar algo na bandeira, tal como dinheiro, uma nova flor (natural ou artificial), uma fita de cetim, jogar perfume ou por um ramo de erva aromática (alecrim, manjericão, patchouli, etc.). Então deve ter em mente o aspecto da bandeira, cada flor que já existe para anunciar ao mestre durante o interlúdio que... [4]

“Enfeitou nossa bandeira,
Com uma rosa do jardim,
Santos Reis que abençoe
para sempre, amém sem fim...”

Então o mestre cantará seu agradecimento. Se é um pouco de perfume derramado sobre o pano da bandeira então corre ao mestre dizendo que do céu caiu água de cheiro, e o mestre saberá manifestar seu agradecimento em versos.


Um palhaço com gesto airoso apresenta a bandeira de uma folia de São Sebastião, no distrito de São Sebastião da Vitória, São João del-Rei/MG. Autor da foto e data não identificados. Gentilmente cedida por Roberto Batista Reis. 

Para o folião é vergonhoso sair da casa sem perceber que algo diferente foi posto na bandeira. Indica despreparo e falta de zelo com a guia sagrada.

Sabendo desta tradição tem morador que gosta de testar a esperteza do folião e faz provas silenciosas. Se o folião não passar por elas dá o direito ao dono da casa reter a bandeira por tempo indeterminado, que se diz “prender” a bandeira, e, até o folião responder a contento, não pode ir embora.

Uma das formas mais típicas é por dinheiro na bandeira, prendendo-o por um alfinete. Sobre este ato em especial divergem os foliões sobre o procedimento. Há quem o faça por promessa tendo então o caráter de ex-voto e não deve ser retirado passando a incorporar a bandeira. Neste caso o mestre deve ser avisado[5]. Isto acontece em várias regiões. 


Cédula de R$1,00 afixada permanentemente numa bandeira de folia de Reis, junto com flores, fitas e fotografias 3 x 4 (ex-votos). Ituverava / SP, durante Encontro de Folias em Ribeirão Preto. Foto: Ulisses Passarelli, 2011. 

Alguns mestres consideram que o dinheiro posto na bandeira vira enfeite da mesma e não deve ser retirado, independente de promessa[6]. Já outros consideram uma profunda falta de respeito e que desencadeia um ritual [7]. Neste caso o palhaço observador avisa ao mestre no ato da entrega:

“A bandeira veio de dentro ( ou do quarto)[8]
Com um enfeite diferente;
O dinheiro que está nela
Não pode seguir em frente...”

Ou:

“Santos Reis é milagroso,[9]
Ele anda o mundo inteiro,
Onde é que já se viu
Misturar santo com dinheiro?”

O mestre entra então com uma cantoria vigorosa, quase ofensiva, onde fala sobre o desrespeito com o santo e pede ao dono da casa que se arrependa de seu pecado, se ajoelhe diante da bandeira, desamarre o dinheiro, ponha no embornal (que é o lugar certo). Isto retarda um pouco o ritual e em verdade por vezes o mestre propositalmente alonga a versalhada para aumentar o tempo que o dono da casa deverá permanecer ajoelhado, visando um castigo penitencial ao anfitrião, como vi diversas vezes em São João del-Rei. 

Resta dizer que nos casos de teste ao folião é comum o dinheiro ser posto bem escondido, dobrado por trás de uma fita, por exemplo, ou sob as flores, o que obriga o palhaço ou na sua falta ao bandeireiro, ter um jogo sagaz de visão. Se a bandeira acaso não for presa e o dono liberar sem que os foliões percebam, acreditam que dali para frente a folia desanda: perde afinação, acontecem discussões entre os participantes, folião adoece, palhaço passa mal, arrebenta couro da caixa ou corda do violão. Em suma: acontece um desequilíbrio místico.

Está claro, que no ato de uma visita folieira, quanto mais o dono da casa conhece os rituais de folia, mais complexos eles serão pois as exigências e testes do “patrão” (dono da casa) não ficam sem resposta. Em verdade existem vários outros rituais de folia que oportunamente este blog estará abordando em outras postagens.

* Texto: Ulisses Passarelli



[1] - Folia “Embaixada Santa”, São João del-Rei, Bairro Araçá, 2011.
[2] - Tradicionalmente considerada a “mulher do palhaço”. Na verdade a catirina era um homem travestido de mulher e mascarado como o palhaço, fazendo com ele uma série de brincadeiras a dois, peripécias cômicas e tradicionais nas roças.
[3] - Sr. Aquino Orff, por volta de 2002. Residia no povoado do Elvas, do lado tiradentino.
[4] - Folia do Mestre Luís Santana, São João del-Rei, segundo o mesmo, em 1993.
[5] - Mestre Luís Cândido Gonçalves, povoado do Fé, São João del-Rei, 1993.
[6] - Mestre Luís Santana, São João del-Rei, 1996.
[7] - Mestre Luís Carlos Rosa, folia Embaixada Santa, São João del-Rei, 2010.
[8] - Informado pelo saudoso folieiro “Chico Gago”, morador das Águas Gerais, São João del-Rei, 1998.
[9] - Informado pelo Mestre Jorge Cassiano Borges, de São João del-Rei, morador do Tijuco, em 2009.

sábado, 21 de setembro de 2013

Palhaços de Folias de Reis: ambiguidade e enigma - parte 1

Esta postagem é a primeira parte de um pequeno relato rascunhado a caneta esferográfica em pedaços residuais de papel, que encontrei entre meus guardados. Os rabisquei em agosto de 2008 e o novo objetivo para este blog impôs revisão e acréscimo. Dedica-se especialmente à figura do palhaço, que carrega em si uma carga imensa de simbolismos. 

* *  *

Nas folias de Reis existe um personagem em geral conhecido por “palhaço”, mas que, apesar do nome, não se confunde ou filia à arte circense. É mera analogia pelas roupas de cores vivas, largas no corpo para permitir a liberdade de movimentos e das brincadeiras que faz com as pessoas. Em vez da pintura de maquiagem no rosto usa a máscara, que figura elementos simbólicos e atávicos. De fatura artesanal, a máscara é extremamente individual. Como uma impressão digital pode-se dizer que não existem duas iguais no universo das folias, denotando uma riqueza artística de criação imensurável.

O palhaço de folia é uma figura ambígua. Não obstante ser interpretada como maléfica, recita louvores e benze os doentes. Na verdade a carga maligna que lhe é atribuída é tão somente influência das concepções catequéticas, que lhe carimbaram o selo de demoníaco. Nada, porém, ele possui de diabólico quando se perscruta suas origens, na análise dos gestos, ações, palavras e funções; ou seja: seu verdadeiro âmago. É um personagem ancestral. Não se pode julgá-lo pela mera aparência de sua máscara, cheias de barbas desgrenhadas, de um cabelo de crina, de chifres, de dentes pontudos e evidentes. Isto é uma aparência superficial que choca o observador carola, pois traz à tona a palavra do missionário religioso descrevendo o capeta de cor vermelha... O palhaço na verdade evoca o sagrado primitivo das forças naturais que, é a figuração bestial de um princípio anímico.

Palhaços da folia distrital de São Sebastião da Vitória (São João del-Rei-MG). 
O público assiste fielmente ao desempenho dos mascarados.1994.

A origem pagã se prende a rituais agrários e a ritos de passagem da adolescência, como demonstrou sobejamente Pinelo Tiza com os caretos, chocalheiros, máscaros, filandorras, etc., seus arquétipos ibéricos.
As roupas vermelhas, a máscara de careta, a voz cavernosa, as estripulias fazem parte da composição figurativa de um personagem e são elementos muito mais extrínsecos que intrínsecos, embora possam estar eivados de simbolismos. As lambadas de seu “rêio” (relho) são purificadoras, posto que disciplinares. Se ele carrega um ramo de espada de São Jorge (gênero Sansevieria, família asparagaceae) ou uma espada de madeira ou uma lança é como uma arma simbólica, que defende todo o grupo, espantando o adversário espiritual; os chocalhos atados à cintura ou ao tornozelo tinem evocando espíritos benfazejos, forças do bem, como as campainhas rituais (sinetas, carrilhões, adjás) e os guizos dos moçambiqueiros (paiás, gungas, maçaquaias).  

Sua passagem nas casas e sítios ajuda expurgar pragas, doenças, maldições, espíritos perturbadores. Nesse papel de catarse o "medonho-bonito" de sua máscara se equipara às carrancas do vale do São Francisco, que outrora podem ter tido papel de adorno como figuras de proa das barcas e hoje são considerados amuletos no conceito popular. A cara feia espanta, afasta, amedronta, isola.

Este post foi idealizado curto e não permite destrinchar muito o assunto, mas seria o caso de se aprofundar pelo conceito e significado da máscara, elemento religioso e cultural cosmopolita, presente em muitas civilizações, desde a antiguidade remota.

O palhaço das folias é conhecido por vários outros nomes Brasil afora: marungo, bastião, tenente, matias, pastorinho, boneco, alferes, saca-trapo. O nome palhaço é sem dúvidas o mais divulgado.  Nem por isso goza de unanimidade, porque entendem alguns mestres que é um nome desrespeitoso para a função religiosa que exerce, ou seja, ele faz brincadeiras, mas não “palhaçada”.

Palhaço da folia de Ritápolis/MG conduz sua vara enfeitada e com chapinhas idiofônicas na ponta, 
além da bandeira do grupo. 1996. 

Nesta afirmação encontra-se a pista da verdadeira função do palhaço: a religiosa e/ou mística. A visão dos mestres (interna) é lendária e de uma interpretação de ordem funcional. Cada área geográfico-cultural tem sua versão dominante. Uma das mais conhecidas narra que os palhaços representam soldados da guarda do Rei Herodes, disfarçados, mandados para seguir a Sagrada Família e descobrir seu paradeiro. Voltariam para avisar ao malvado monarca onde era o local para que mandasse matar Jesus. Descobriram, mas se converteram e não retornaram, passando a acompanhar o Menino Deus dali para frente, fazendo brincadeiras para distrair a atenção dos judeus e romanos enquanto José e Maria fugiam para o Egito com o Messias no colo.

Em São João del-Rei/MG, corre a crença que o palhaço é um centurião que acompanha a bandeira, como um guardião, um soldado disfarçado que usa de brincadeiras para dissimular sua verdadeira identidade. É o defensor da folia e por conseguinte dos folieiros. Graças a esta concepção, é possível nesta região que o palhaço se aproxime da bandeira, a segure, e até que seja o próprio bandeireiro, situação inimaginável na maioria das outras regiões onde existe.

A ambiguidade está nele. É um convertido, mas o peso da perseguição inicial ainda o faz pecador. Ser um palhaço é um ato penitencial e até mesmo votivo. Não é mera diversão. Brincar faz parte de sua personalidade, contudo entrar na farda e se ocultar na máscara é uma missão árdua que obedece a uma rigorosa praxe estipulada pelo mestre de cada grupo. Algumas folias fazem um ritual de proteção especial ao palhaço na abertura e encerramento da jornada, para vestir e retirar a farda. Existem casos de sincretismo religioso.

Em sua chegada nas residências o palhaço é aquele que primeiro intermedia o contato entre visitantes e visitados. Enunciando um verso de chegada, ou apitando, ou com gritos e exclamações, alerta aos moradores acerca da chegada da folia: “Ôôôô...pá!” ; “Óia nóis chegando aí, gente!” ; “ô, patrãozinho: prende os cachorro que Santos Reis está chegando na sua morada!” ; “ ô nhánhá: é de vosso agrado recebe nossa bandêra?” ; “Óia nossa chegada” ; “Dá licença, aí!!!” ; “Boa noite, gente!”

Exemplo de versos coligidos em São João del Rei nos anos noventa:

“Santos Reis aqui chegô
“Aqui chegou bandeira santa,
Com a sua companhia,
Do mártir São Sebastião,
Procurando a bela rosa
Nós somos seus soldados
Para festejar seu dia!”
Ele é o nosso capitão!”

Assim acontece nas casas em geral. O anonimato do palhaço leva o primeiro pedido de licença e a saudação inicial. É protocolar, antes mesmo da bandeira ou do mestre. Se a chegada é numa fazenda é de regra que a folia espere de fora do terreno, antes da porteira. Compete ao palhaço abri-la, pedindo licença, e começando a gritar desde longe da sede, vai até a moradia chamando pelo dono da casa. Estabelece com ele um diálogo breve, do tipo “como vai, como passou”; pede as licenças devidas para a chegada, pergunta se é do agrado receber a bandeira e os nobres foliões, etc. Obsequiado pela permissão, volta acelerado ao grupo, gritando a resposta positiva e abre a porteira para a folia entrar. Agora entra junto com o grupo sem passar de novo na frente da bandeira.

Dentro da residência desenvolvem-se vários outros procedimentos protocolares quando o palhaço está presente. Eles estarão tematizados na segunda parte desta postagem, em breve. Aguardem!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TIZA, António Pinelo. Inverno Mágico: ritos e mistérios transmontanos. Lisboa: esquilo, 2004. 287p.il. 
BITTER, Daniel. A Bandeira e a Máscara: a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Rio de Janeiro: 7 Letras; Iphan/CNFCP, 2010. 224p.il. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Marungo de Ritápolis

Palhaço, bastião ou marungo da Folia dos Irmãos Marinho, de Ritápolis / MG, com sua vara de ferrão enfeitada de fitas coloridas e a bandeira de São Sebastião.
Texto e foto (1996): Ulisses Passarelli. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dança do Palhaço

Palhaço da folia de Reis de São Tiago / MG se exibe em animada dança.
Encontro reiseiro no povoado da Içara, no mesmo município. 

* Texto e foto: Ulisses Passarelli, 2001. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Bastião da Restinga

No litoral, restinga é um bioma específico. No interior, chamamos restinga:

1- a uma faixa de mato próxima a um fluxo d'água, mas não exatamente às suas margens como uma mata ciliar; 
2- a uma faixa de mato num terreno de cultivo, sem ser propriamente um capão ou capoeira, que tem maior extensão e se situa em grotas e entremeio campos ou cerrados. 

Portanto, a nossa restinga nenhuma relação guarda com a vegetação litorânea. Assim sendo, neste sentido, no distrito de São Miguel do Cajuru existe o topônimo "Alto da Restinga", morro junto à rodovia, logo que se adentra no trevo de acesso a este distrito de São João del-Rei. 

Também em Ritápolis aparece na toponímia: duas comunidades vizinhas são chamadas em razão de sua altitude, Restinga de Cima e Restinga de Baixo. Em ambas, a tradição das folias de Reis e folias de São Sebastião é bastante arraigada. Na Restinga de Baixo (*) existe a Igreja de São Sebastião, que sedia a festa deste mártir da fé cristã, que aglomera boa parte da população rural daquelas cercanias e sempre conta com a presença de grupos de folias. 

Na fotografia abaixo o flagrante de um bastião, marungo ou palhaço, personagem mascarado que além dos gracejos que tanto animam a folia, também fazem o papel simbólico de guardião do grupo. 

Palhaço de folia da Restinga de Baixo (Ritápolis/MG), portando uma lança,
durante a Festa de São Sebastião. Mestre Sebastião Ezequiel. 

Notas e Créditos

* Na Restinga de Baixo é muito ativa a Festa do Rosário, em setembro, que além do catupé local também atrai a presença de vários congados visitantes. Na Restinga de Cima existe o grupo de folia do Mestre José Mário. 
** Texto e fotografia (janeiro/1996): Ulisses Passarelli.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Folia de Reis de Ibertioga




Folia de Reis de Ibertioga / MG, em apresentação durante o 
Festival de Carros de Boi naquela cidade, em julho de 1991.  

Notas e Créditos

* Texto e fotografia (1991): Ulisses Passarelli.