Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Devoção Mercedária em São João del-Rei

Junto com a primavera, chega o tempo das Mercês... 

Nossa Senhora das Mercês é uma das muitas invocações marianas que se enraizaram na Minas Colonial, sobretudo como uma devoção dos escravos forros e crioulos, como se dizia na terminologia separatista daquela época. Seus devotos se reuniram em confraria que tinha entre outros atributos o de libertar cativos pela compra da alforria. Na fachada de sua igreja em São João del-Rei, um símbolo de corrente com algemas abertas é bem representativo de sua primitiva função.

Entre uma moldura de rocalhas no frontispício, grilhões revelam a
função libertadora dos mercedários. Igreja das Mercês, São João del-Rei. 

Nesta cidade, a imagem da santa querida naturalmente despertou interesse de muitos adeptos de seu título, vestida em cores suavíssimas, de braços abertos, sempre acolhedores, como se esperasse mais filhos para envolver em seu manto protetor; olhar terno, bem maternal, sereno e dulcíssimo, mas também, paradoxalmente, um pouco tristonho, como se estivesse com pena de seus filhos sofredores; cabeça levemente inclinada para um lado, pendente e complacente... Buquê na mão, coroa que resplandece à cabeça. Mãe e Rainha, Protetora e Libertadora. O ícone perfeito, o modelo de cristandade e o símbolo da esperança, a fomentar uma fé inabalável.


Imagem de Nossa Senhora das Mercês da igreja desta invocação em São João del-Rei.
Acervo da Venerável Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês. 


A Igreja das Mercês de São João del-Rei, como a vemos hoje, é bem diferente da primitiva, de 1751, que tinha forma de panteão romano. Sofreu profundas remodelações em 1808 e 1853, quando ganhou a atual fachada, a mais graciosa da cidade, com sua torre separada do corpo, tendo à direita (se vislumbrada de frente) uma pitoresca alameda ajardinada e com fontes e à esquerda o cemitério da ordem. Pela dianteira um cruzeiro do século XIX fica fronteiro à escadaria de acesso, calçada de pedras.

Igreja das Mercês, São João del-Rei.

Algumas intervenções vieram mais tarde às grandes mudanças, como no ano de 1900, conforme revelou O Combate:

"Estão terminadas as obras de decoração da Igreja das Mercês, desta cidade. Ficou realmente muito linda a pintura do forro e do resto da igreja, exceção feita do figurado que podia ter ficado mais perfeito. O resto da pintura faz honra ao pincel do hábil artista João Faccini, que teve real gosto na realização do serviço a seu cargo. A igreja está muito melhorada pelo que merece encômios a atual mesa administrativa, composta dos irmãos abaixo, cujos nomes damos para conhecimento dos confrades todos: Juiz Joaquim Paulino, Secretário Eduardo Barreto, Tesoureiro Capitão Carlos da Cunha (farmacêutico), Procurador Olympio Pio."

Outro jornal da cidade, A Nota, em 1917, noticiava novos melhoramentos na igreja, quando o sodalício conclamava os confrades para ajuda em socorro do telhado:

"A mesa administrativa desta arquiconfraria faz um apelo aos seus inúmeros confrades no sentido de ser auxiliada na reconstrução do telhado da Igreja das Mercês. Esta reconstrução que se impõe com a maior urgência, tinha sido resolvida levar efeito sem mais ônus para os senhores confrades, dentro dos próprios recursos financeiros do cofre da arquiconfraria. Aconteceu, porém, que iniciado o serviço de retelhamento, verificou-se a absoluta e urgente necessidade de reforma de todo o madeiramento superior, do reboco externo, e, ainda mais, de um ... (ilegível) da frente em iminente estado de perigo. Assim, a arquiconfraria recorre aos bons confrades, esperando que um ... (ilegível) concorrer com qualquer auxílio para o empreendimento desta obra de extrema necessidade." 

Quanto às festividades, foram sempre célebres. Em 1935 A Tribuna noticiava a chegada da festa, já deixando claro a importância da música nas celebrações e destacando nomes de compositores da terra:

"Com toda a pompa iniciam-se hoje as festividades de honra e louvor de N.S. das Mercês. Pelo programa profusamente distribuído, pode-se avaliar que os festejos deste ano serão imponentíssimos e não sofrerão solução de continuidade as tradicionais festas mercedárias. As novenas serão precedidas de belíssimas ouvertures pela Orquestra Lira Sanjoanense, que executará ainda partituras apropriadas dos eméritos musicistas Pe. José Maria, Presciliano Silva e outros. Abrilhantará as missas das 5 1/2 e 7 1/2, com acompanhamento ao harmônio, o sr. prof. Bento Ernesto Júnior, ilustre belestrista e nosso companheiro de redação."

Notícias jornalísticas de São João del-Rei sobre a igreja e festa das Mercês.
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.


Bento Ernesto Júnior é uma figura humana ímpar no cenário cultural da cidade que está ainda a merecer estudos biográficos. Quando da supressão da Festa do Divino de Matosinhos em 1924, ele foi o mais relevante com seus argumentos na luta junto à autoridade eclesiástica em prol do retorno da festividade. É autor das letras dos hinos de São João del-Rei e do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, dentre tantas composições poéticas.

A música até hoje tem sua real importância na festa. Nos esclarece o utilíssimo livro Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra que desde sua fundação, a Orquestra Lira Sanjoanense cuida da parte musical no festejo executando: 


"Obras de Presciliano Silva (Veni e Domine), Padre José Maria Xavier (Hino e Antífona), Luiz Baptista Lopes (Jaculatórias), Pe. João Batista Lehmann (Hino de Entrada); João Feliciano de Souza e Luiz Baptista Lopes - coros processionais (Ave Maria Stella). Luiz Baptista Lopes, João Feliciano de Souza, Carlos dos Passos Andrade, Alberto Wilson de Castro, compuseram Missas e as dedicaram a Nossa Senhora das Mercês." (p.140)

A novena é concorrida. Do alto da colina ecoam os violinos e preces, que culminam em tocante cerimônia no dia maior, 24 de setembro, com uma procissão muito tradicional na qual comparecem diversas irmandades com os hábitos de praxe, além das bandas de música Municipal Santa Cecília e Theodoro de Faria. As festas de largo com sonorização e suas barraquinhas de víspora e de comes e bebes são muito típicas e agregam bastante gente. Ponto querido de entretenimento, desde longa data, elas propiciam um momento de confraternização, onde se conheceram muitos casais da cidade, que, por vezes, se mantiveram juntos até o matrimônio. 

Por derradeiro é mister lembrar que finda a comemoração de Nossa Senhora das Mercês, as festividades prosseguem por mais um dia, 25 de setembro, consagrado a Nossa Senhora do Parto, com missa às 19 horas, seguida de rasoura, e, por fim, bênção para as gestantes e crianças. Rasoura esta que por força da tradição o andor é carregado por mulheres grávidas. 


Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996.  104p.
Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra. São João del-Rei: Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2: novenas, tríduo, setenário, quinquena e meses.


Referências Hemerográficas
(jornais publicados em São João del-Rei)

O Combate, n.16, 14/10/1900
A Nota, n.70, 21/07/1917
A Tribuna, n.1.290, 15/09/1935

Notas e Créditos 

*Texto e fotos (2014): Ulisses Passarelli
** Foto da imagem de Nossa Senhora: Iago C.S. Passarelli, 17/04/2014
*** Leia também: Salve o Dia das Mercês!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Prece de Santo Amaro

Das muitas devoções coloniais herdadas pelos são-joanenses, algumas há, que, sem ter merecido festa própria, por não terem alcançado a popularidade de outros santos, se tornaram menos difundidas e em ocaso. Uma destas devoções é a de Santo Amaro, também chamado São Mauro, invocado contra certas doenças, tais como problemas ortopédicos, reumáticos e dores articulares resultantes da gota. É patrono dos portadores de deficiência física, título recebido graças à cura, pela força da oração, de um menino com limitação motora. 

Amaro era monge beneditino, italiano, natural da Nórcia, região da Úmbria, do século VI. Era filho do Senador Eutíquio e da fidalga Júlia, nascido em 512. Ingressou ainda criança na vida religiosa monástica. É considerado o primeiro seguidor do próprio fundador de sua ordem religiosa, o abade São Bento. Seu dia votivo é 15 de janeiro, data de sua morte por contaminação pela peste, no ano 584. O episódio mais propalado de sua vida foi o ato extraordinário de caminhar sobre as águas, para salvar do afogamento um outro monge também canonizado, Plácido, seu primo. Santo Amaro teria fundado em Glanfeuil (França), um mosteiro beneditino, após peregrinação desde o Monte Cassino (Itália), acompanhado de outros monges, com a intercorrência de vários episódios milagrosos. 

Abaixo segue transcrita uma oração consagrada a este santo, conhecida em São João del-Rei/MG:


"Oh! Deus que fizestes Santo Amaro andar a pé, enxuto, sobre as águas para nos dar um exemplo de sua obediência, concedei-nos, pois, imitarmos o que as suas virtudes ensinam e mereçamos compartilhar de sua recompensa. Por Cristo, Nosso Senhor, Amém. Pela invocação da Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria e pela intercessão de São Bento e Santo Amaro, livrai-nos desta enfermidade (...) pelo poder de Deus Pai, a sabedoria de Deus Filho e a virtude do Espírito Santo, amém. Como for de seu beneplácito, assim seja, assim se faça em ti, conforme podes e desejas, para honra e glória da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. A benção de Deus Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre nós e permaneça para sempre, amém."


Imagem de Santo Amaro na Igreja do Carmo de São João del-Rei.
Acervo da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo. 

Destaca-se que segundo pesquisa de Costa (2025, p.68), no Rio Grande do Norte também se credita a Santo Amaro a intercessão sobre as patologias ósseas, invocado contra doenças nos braços e pernas. 

Referências 

BREVIÁRIO. Milagres e graças alcançadas por Santo Amaro ou São Mauro. 16 jan. 2012. Disponível em: https://rezairezairezai.blogspot.com/2012/01/milagres-e-gracas-de-santo-amaro-ou-O ARCANJO NO ARsao.html Acesso em 17 set. 2014. 

COSTA, Gutenberg. Rezadeiras do Rio Grande do Norte: presença de algumas manifestações da religiosidade popular potiguar. Natal: Instituto Histórico e Geográfico do Norte, 2025. 210p. 

O ARCANJO NO AR. Santo Mauro (Amaro). 15 jan. 2017. Disponível em: https://www.oarcanjo.net/site/santo-mauro-amaro/#.VBonzvldVKc  Acesso em 17 set. 2014. 

WIKIPÉDIA. Mauro de Glanfeuil. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mauro_de_Glanfeuil Acesso em 17 set. 2014.

Créditos

- Texto e fotografia (2014): Ulisses Passarelli.
- Informante da oração: Aluísio dos Santos, 1995, São João del-Rei - Bairro Centro.  

Notas

- Revisão: 03/12/2025. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Multidão festeja o Senhor Bom Jesus em 2014

Seguindo firme a tradição religiosa, concluiu-se ontem, no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, mais uma grande festa em honra ao seu padroeiro, o Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Após concorrido período preparatório de novena, com várias celebrações e a passagem de diversos celebrantes, a 14 de setembro foi comemorado o dia maior do jubileu.

Uma grande movimentação tomou conta do largo nesta festa de 2014. Estava cheio de barraquinhas de comes e bebes. No adro, além do tradicional leilão de gado e de prendas, um grande palco armado propiciou shows. Nas tendas aconteceu o jogo do víspora, além de vendas de pastéis e refrigerantes. Enfeites de bandeiras vermelhas e amarelas nos postes do adro, demarcavam as cores votivas e uma profusa iluminação completava o tom festivo externo. 

O altar estava muito florido, aliás, com primor, evocando a primavera. Destaque para as galhadas secas com flores artificiais amarelas, em artesanato à base de papel-crepom, lembrando a exuberante florada dos ipês amarelos, típicos desta quadra do ano. 

As missas e pregações se sucederam muito concorridas e eloquentes, num forte momento de evangelização. Uma multidão gigante ordeiramente lotou o adro e o largo. Ao cair da noite, em duas longas filas ocupou a Avenida Josué de Queiroz. Há alguns anos atrás o andor passou a ser levado sobre carro motorizado aberto. De uns tempos para cá, para contentamento geral, o andor voltou a ser carregado pelos fiéis na forma tradicional, sobre os ombros, não obstante seu grande peso. 

Notou-se a presença de muitos membros de irmandades da cidade e de crianças vestidas de anjos. A Banda Sinfônica do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, repleta de jovens, sob a competente batuta do regente Ronaldo Medeiros, deu uma nota de arte musical e alegria à procissão. O fluxo imenso de devotos comprovou, ainda, mais uma vez este ano, que esta é uma das maiores procissões de São João del-Rei, senão a maior delas. 

A veneranda imagem Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

A procissão ganha as ruas.
A imagem é guarnecida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento. 

Multidão de devotos presentes no grande jubileu. 

Enfeites florais do altar evocam a chegada da primavera
e se inspiram nos ipês amarelos, fartamente floridos nesta quadra do ano. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

Revisão: 26/05/2025. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Santa Efigênia, santa milagrosa

O que sabemos de Santa Efigênia procede da "Legenda Áurea", trabalho hagiográfico da Idade Média, devido ao Arcebispo de Gênova, o dominicano Giacomo de Varazze. 

Esta santa foi uma princesa africana do primeiro século do cristianismo, da Núbia (atual Etiópia), ao nordeste daquele continente. Era filha do Rei Eggipus e da Rainha Eufenisa. Seu país era considerado politeísta e pagão aos olhos do cristianismo. Foi então, que poucos anos após a crucificação de Jesus, o Apóstolo São Mateus, acompanhado de dois discípulos, fez pregações em Noba, capital daquele reino. Não teve grande êxito, mas a Princesa Efigênia converteu-se fortemente ao cristianismo. Por esta razão foi condenada à morte na fogueira, mas salvou-se milagrosamente deste terrível sacrifício, fato que fez com que outras pessoas se convertessem. Fundou um mosteiro para virgens. Mais tarde, com a morte de seu pai, o trono foi assumido pelo tio Hirtacus, que o usurpou do irmão de Efigênia, Efrônio, herdeiro legítimo. Pondo-se a desejá-la e persegui-la, o tio ateou fogo ao convento, mas novamente, por forças milagrosas o fogo não a vitimou: apagando-se no convento, reacendeu misteriosamente no castelo de Hirtacus, colocando-o em fuga e pondo fim ao seu governo. Efigênia viveu e faleceu em absoluto estado de graça, sendo festejada a 21 de setembro.

Seu nome teria origem grega, significando "nascida forte". Em  latim, "Ephigenia", e em português também grafada como Ifigênia e, popularmente, “Santa Figêna”. 

Uma antiga tradição a considera santa carmelita, sem contudo haver um embasamento convincente. Em razão disto é comum sua imagem mostrá-la com vestes na cor daquela ordem religiosa. Segura nas mãos uma casinha saindo fogo pelas janelas e porta, ou na dianteira, representação simbólica de sua história acima narrada. 

GAIO SOBRINHO (1997) registrou uma narrativa de lamentável cunho racista, contra a qual se manifestou contrariamente, tal qual este Blog também se posta contra toda forma de racismo. Segundo o dito autor, "conta-se, sem fundamento, que Ifigênia era branca e muito formosa. Por despertar a cobiça de muitos pretendentes, rogou a Deus que lhe mudasse a fisionomia. Tornou-se, então, negra e de olhos esbugalhados, como a vemos na imagem." Sobre tal discriminação o notável autor escreveu e com ele comungamos: "Fora o conteúdo racista que transparece neste particular, com certeza inverídico, e que denuncio, cabe-me acrescentar que feiura não é sinônimo de negritude, muito pelo contrário". 

Existe representação hagiográfica desta santa como uma mulher branca, exemplificada por uma fotografia anexa nesta postagem. 

Sendo preta, foi desde longa data tomada como padroeira dos escravizados e por conseguinte de suas expressões culturais. O viajante austríaco Johann Baptiste Emmanuel Pohl assistiu ao congo de Traíras (atual Niquelândia, em Goiás) num festejo em honra a esta santa, no ano de 1819. 

Em Barbacena/MG tem igreja própria e nomina um bairro, local de festa congadeira. É cantada e recantada pela guarda de marujos local. Nestas festas encontram-se mastros dedicados a ela, como todo ano se via no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei. Igualmente, em Passa Tempo, oeste do Estado. Os congados a louvam: 

“Viva meu São Benedito! 
Viva Santa Santa Efigênia! 
Viva a Senhora do Rosário 
e Maria Madalena!” 
(Marinheiros, Passos, 1997)

“Esse toco é meu, 
querem me tomar ...
minha Santa Efigênia 
vai me ajudar!” 
(Catupé, São João del-Rei, Bairro São Dimas, Capitão Zé Camilo, 1994). 

Na área do Quadrilátero Ferrífero os congados do tipo 'marujo' sempre a veneram com carinho e respeito. É santa bastante popular: 


"Santa Efigênia,   BIS
ôh, santa milagrosa!
Eu vi o que ela fez...   BIS
Nós viemos louvar!"
(Marujos, Conselheiro Lafaiete, 1995)

Fora deste âmbito, Santa Efigênia é protetora dos sem teto, dos que vivem de aluguel e apegando-se a ela consegue-se adquirir casa própria, narra a crença. Em São João del-Rei é comum as pessoas fazerem uma novena a ela para adquirirem uma habitação própria. É uma aproximação à figuração de sua imagem, com uma casinha ou capela, que carrega numa das mãos.


Imagem de Santa Efigênia, fev.1997.
Igreja de Nossa Senhora do Carmo. São João del-Rei/MG. Acervo da
Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo. 


Santa Efigênia em representação iconográfica de mulher branca,
em hábito carmelita. Capela de Nossa Senhora das Vitórias, 2013.
São Sebastião das Vitória (São João del-Rei/MG). 

Bandeira de congado de Resende Costa
representando Santa Efigênia em arte popular. 2012. 

Referências na Web 

Santa Efigênia - Cruz Terra Santa (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Ifigênia da Etiópia - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Jacopo de Varazze - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)

Referências Bibliográficas

- GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos negros estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997.
- POHL, Johann Baptiste Emmanuel. Viagem ao interior do Brasil empreendida nos anos de 1817-1821. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976. 

Créditos

- Texto e fotos: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 03/12/2024. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Na minha terra se fala assim - parte 6

A beça – gíria em desuso: demais, muito. “Gosto dela à beça”.
Agradar a Deus e ao diabo – expressão que indica o ato de agradar a pessoas de ideologias muito diferentes; tomar uma atitude que agrade a bons e maus ao mesmo tempo.
Agradar a gregos e troianos – idem.
Água de batata – qualquer líquido muito ralo, pouco consistente, não concentrado. Café fraco. “Este suco está uma água de batata.”
Água morna – sujeito apático, de baixo poder de decisão, sem pró-atividade.
Áh... áh! – interjeição que indica uma negativa veemente: “Deus me livre”, “de jeito nenhum”, “não quero”, “nem pensar”.
Aluado – abestalhado, idiota. Diz-se em especial de quem está sob influência mística da lua.
Amarujo – de sabor ligeiramente amargo. “A lima é boa mas tem um amarujo”.
Amoitar – esconder, ocultar.
Amuado – entristecido, sorumbático, cabisbaixo.
Angu de caroço – confusão, balbúrdia, discussão, desavença.  
Angu perdido – expressão de desdém para indicar animal ou pessoa inútil, que só traz problemas. “fulano é angu perdido...”
Antigório – muito antigo, antiquado, ultrapassado.
Ao léu – ao Deus dará; entregue à própria sorte. Sem ninguém que controle.
Aonde o Judas perdeu as botas – lugar inculto e muito distante. Ermo, recôndito.
Aparelhado – 1- disposto em parelha, ou seja, aos pares. Lado a lado. Frente a frente. 2- equipado de aparelhos. 3- madeira cortada em máquinas próprias, com arestas nítidas, angulações exatas, que não se consegue com desbaste manual.
Arzinho – pitada, pequena porção. “Põe mais um arzinho de sal que a comida está insonsa”.
Assim, assado – expressão indicativa de modo, quase sempre acompanhada de gesticulação reveladora. Deste jeito. Feito desta forma. Construído desta maneira. “Juntou os paus aparelhados, os pregos, ferramentas e fez a mesa assim, assado.”
Avalentuado – valente, valentão, corajoso, brigão, rixento.
Azucrinar – perturbar, amolar, atentar, tirar o sossego.
Babaca – xingamento contra indivíduo indesejável, que desperta antipatia por suas ações inconvenientes. Idiota, boçal.
Babau! – interjeição indicativa de fim. Acabou, morreu, finalizou. “O carro veio correndo muito, caiu no buraco e babau!”
Badulaque –1-  traste, cacareco, tralha, coisas imprestáveis. 2- em sentido pejorativo, pessoa muito feia e desajeitada.
Bafafá – confusão, tumulto, disse-me-disse. “A festa foi um bafafá danado!”
Baita – “bitelo”, grande, avolumado, gigante, bruto. “Era um baita d’um touro!”
Bala – estar tonto por ação de bebida alcoólica; embriaguez. “Saiu do bar na maior bala...”
Balaio de gato – confusão, desorganização, desordem (de pessoas ou objetos). “O escritório dele é um balaio de gato”.
Baleia – pejorativo: mulher muito obesa. “Orca”.
Bambu vestido – pejorativo: pessoa muito magra e alta.
Banana – indivíduo bobo, palerma, de pensamento e atitudes lentas. Letárgico. “Bananão”.
Bancar – 1- fazer-se de; simular que é algo. “Bancou o político, subiu na cadeira e começou a falar”. 2- assumir a despesa; pagar os custos de. “Pode trocar por minha conta. Se tiver diferença eu banco.”
Barata tonta – pejorativo: pessoa desorientada. Quem começa um serviço não o termina e já parte para outro e assim sucessivamente.
Barranco – pedaço grande de um certo alimento. “Nhaco”, “torete”. “Tirou um barranco de bolo e comeu”.
Bazulaque – pejorativo: pessoa desajeitada; pessoa excessivamente obesa. Vide: badulaque.
Beleléu – indicativo de fim ou sumiço. De paradeiro desconhecido. “Viajou pro norte e beleléu!”. “Foi pro beleléu!”.
Bicho do mato – sujeito anti-social. Quem não gosta de conviver com outros. Misantropo.
Bico! – interjeição de ordem de silêncio. Equivale a: “cala a boca!”. “bico fechado”.
Bigoloto – 1- espécie de bolo ordinário, de massa grosseira, estufado, ressecado. “Embatumado”, “balofo”. 2- por analogia ao bolo antes citado, diz-se, pejorativamente, de pessoas gordas.
Biriboca – de plausível origem indígena, indica local distante e sem civilização. Como lugar, equivale a “Aonde o Judas perdeu as botas”.
Biscate – “quebra-galho”. 1- serviço informal. Trabalho autônomo ocasional. Modo de ganhar um dinheiro extra por uma atividade sem registro trabalhista. “Fazer um biscate”. 2- amante, concubina, comunhão carnal com uma mulher fora do casamento. “Ter um biscate”.
Bitelo – grande, volumoso. “Pescou um bitelo d’um bagre lá no poção”.
Boboca – bobo, palerma, sem expediente. Ver: babaca.
Boca de latrina – pejorativo: 1- pessoa com forte halitose. Caso extremado de mau hálito. 2- pessoa que profere ofensas e palavrões com frequência. “Boca do inferno”.
Boi sonso – falso, fingido, dissimulado; que aparenta tranquilidade, mas esconde grande esperteza. Quem se faz de amigo, mas prejudica sorrateiramente. Um dito popular proclama como verdade: “Boi sonso é que arromba curral”, ou seja, de onde não se espera é que o perigo vem.
Bola sete – pejorativo: gordo, obeso. Referência à cobiçada bola do jogo de sinuca.
Bolo fofo – pejorativo: gordo, obeso.
Briga de foice no escuro – situação perigosa de conflito, onde não se sabe quem ganhará. Caso de difícil decisão e elevado risco.
Brutelo – o mesmo que ‘bitelo”. Abrutalhado, grande. “O garrote era um brutelo”.
Bucho – 1- estômago. “Encher o bucho” = comer em demasia. 2- útero. “Encher o bucho” = engravidar. 3- pessoa antipática, malquista. “Fulano é um bucho”.
Busundum – pejorativo: gordo, obeso. “Ôh, busundum!” (insulto: gorducho, gordão). 


* Texto: Ulisses Passarelli 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manuscritos em cédulas

No campo da folk-comunicação, um mecanismo de manifestação popular escrita bastante difundido é o dos manuscritos em cédulas monetárias, sobretudo em forma de corrente. Com este nome o blog já disponibilizou e analisou uma vintena de exemplares colhidos em São João del-Rei, como se pode ler no texto lincado ao fim desta postagem.

No contexto geral, as correntes em notas tem o objetivo de trazer para quem as escreve, recebe e replica, boa sorte e abundância (simbolizada materialmente no dinheiro), em nome de santos populares, quase sempre os santos gêmeos São Cosme e São Damião (ícones da fartura, gemelaridade, duplicação, multiplicidade), Santa Rita de Cássia (protetora nas causas impossíveis, invocação dos momentos de angústia por uma dívida que oprime ou na falta de trabalho remunerado) e São Judas Tadeu (patrono das causas perdidas, contra o desespero). Weitzel (1984, p.178) apontou os seguintes temas de manuscritos em papel-moeda: "desenhos grosseiros, palavrões, frases obscenas, até os mais trabalhados versos de quadras populares. Há orações em correntes milagrosas, adivinhas maliciosas, recados amorosos, piadas e até anúncios de serviços.", dizendo-as presentes tanto anverso quanto no reverso da nota, ou ambas as faces. Destacou o impróprio de mau uso das cédulas monetárias por meio de inscrição, o que as compromete, obrigado a recolhimento e a substituição formal pelo órgão governamental. 

O cunho supersticioso cede ante uma manifestação de fé, que do mundo abstrato se materializa escrita em letras mal traçadas, segundo as regras gramaticais (aqui transcritas com fidelidade aos originais), mas leais à fé emanada de práticas informais da religiosidade popular.

Os dez exemplares ora expostos foram encontrados em notas circulantes em Barbacena, Tiradentes e Santa Cruz de Minas. Mantém uma unidade estilística e de finalidade, inclusive quando comparada a outras coletas [1], como as de Pellegrini Filho (2009). O último exemplar tem um cunho motejador, estando numa categoria que sem acreditar na corrente, adota seu estilo para brincar ironicamente com o próximo, usando do mesmo mecanismo de comunicação popular.

Este Blog, ao divulgar tal assunto, não estimula a prática de danificar cédulas, mas tão somente registra o aspecto etnográfico das mensagens nelas manuscritas por populares anônimos. 

Fragmento de uma cédula de dois reais com manuscrito.

*  *  *

01- "Quem pegar nesta nota nunca ficarrar sem dinheiro Esta nota Edi são damião e di sao cosme Passar 3 nota." (sic, Barbacena, 26/09/1999).

02- "Santa Rita de Cassia Quem Pegar nesta nota nunca lhe Faltara Dinheiro." (sic, Tiradentes, março/2003)

03- "Boa Sorte para quem pegar esta nota São Cosme e São Damião lhe proteja que nunca falte nada Escreva em 3 notas e passe para frente. Não quebre a corrente." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/03/1999). 

04- "Quem pega esta nota vai ganhar muito dinheiro em nome de Cosme e Damião e dará Boa Sorte escreva em 5 notas" (sic, Santa Cruz de Minas, 25/09/1999).

05- "Quem pegar esta Nota tera seu dinheiro multiplicado em lovor a Cosme e Damião. Não quebre esta corrente escreva em 3 Notas." (sic, Santa Cruz de Minas, agosto/2002).

06- "Cosme e Damião ajuda quem pegar esta nota escreva 7 nota nao quebra correte." (sic, Santa Cruz de Minas, 11/05/2003).

07- "São Cosme e São Damião, não deixa faltar dinheiro a quem nesta nota pegar não quebre a corrente. Escreva em 7 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 10/08/2004)

08- "São Judas Tadeu faça quem pegar nesta nota não fique sem dinheiro faça 7 copias." (sic, Santa Cruz de Minas, 18/01/2001)

09- "Santa Rita de Cassia para quem pegar esta nota não lhe faltara Dinheiro. Escreva em 3 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/10/2000)

10- "Escreva isso em 7 notas e terá sorte... para quem receber ASS: Rafael." (sic, Santa Cruz de Minas, 04/07/2001) 


Manuscrito à caneta esferográfica, em nota de dois reais. Letra de forma em maiúsculas, com o seguinte texto: "vai notinha de 2 reais e volte com 2 milhões para trás sex.28 de junho". São João del-Rei, recebida em 2025 (no entanto, a sexta-feira 28 de junho corresponde ao ano de 2024).


Referências 

PELLEGRINI FILHO, Américo.  Comunicação popular escrita. São Paulo: Edusp, 2009. 696p.il + CD

WEITZEL, Antônio Henrique. Folclore literário e linguístico. Juiz de Fora: Esdeva Emp. Gráfica, 1984. 231p. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Leia também: CORRENTES 
- Revisão e acréscimo de fotografia: 11/11/2025; acréscimo de referência: 02/09/2026.  

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ganzá, o ritmo raspado

Ganzá ou canzá é um instrumento musical idiofônico. No Sudeste o ganzá é um instrumento musical raspado, do grupo dos reco-recos; no Nordeste é outro, sacudido, do grupo dos xique-xiques, muito usado no complexo das cantorias de coco, que embalou a inspiração de muitos poetas, artistas, músicos, repentistas, estudiosos da cultura nordestina. Mas para os limites geográficos abordados por este blog o presente texto se centrará no canzá de raspar: reco-reco. 

Ao que parece é de uso muito antigo no país, desde os primórdios da colonização.  Uma referência do ano de 1552, do Colégio dos Meninos de Jesus, na Bahia, os alunos tocavam à moda índia, "con taquaras que son umas canas grossas con que dan en el suelo e con que hacen cantar", segundo referência de TINHORÃO (2000). Mas existem evidências da possível procedência africana deste reco-reco: em Angola, o povo de etnia chokwe usa um reco-reco chamado "dicanza" extremamente semelhante aos nossos canzás [1]. 

Para nós é um reco-reco feito de um gomo de bambu, fechado nos dois extremos pelos próprios tampos naturais do colmo. Nele se entalham cortes transversais (denteado), sobre os quais se risca uma vareta produzindo o som. 

Segura-se num extremo, apoiando-o na palma da mão e o outro extremo se apoia no ombro, tendo, daí, fitas pendentes, de adorno, que pendem para as costas. Pode ter ainda papel picotado colado ao longo de seu comprimento e flores artificiais na ponta, adornando-o.

Muito usado nos congados, sobretudo nos catupés. Aparece, às vezes, em bom número, gerando até um estilo musical, o “catupé raspado”, onde seu efeito idiofônico está em especial evidência (Oliveira/MG). Grupos de congos também o adotam com frequência, como vemos por exemplo em São João del-Rei, Itutinga, Carrancas, Passa Tempo e Desterro de Entre Rios.  

Existem ganzás grandes, feitos com pedaços longos de bambu [2], outros nem tanto; uns finos, outros de maior calibre, dando cada qual um som de timbre diferente.

Usa-se geralmente aos pares, alinhando em parelha os tocadores nas filas de dançantes, daí chamarem outrossim “casal” (São João del-Rei, 2000) ou “cansal” (Passa Tempo, 2003). 

Alguns congadeiros acreditam que além da função musical, o ganzá oferece firmeza ao congado pois segundo se diz, nos tempos do cativeiro, os escravos sem recursos para adquirir outros instrumentos, tinham de se valer para suas atividades culturais de instrumentos rudes, feitos com matéria-prima achada no mato ou de refugo nas fazendas. O ganzá reproduz o som antigo, original dos congados antigos, do tempo dos antepassados. É como se invocasse sua lembrança ou presença. Uma das firmezas é jogar um punhado de fubá dentro do oco do ganzá. A medida que o congadeiro raspa o instrumento o pó do fubá vai caindo pelo caminho, o que se acredita que vá desfazendo maldades de inimigos (São João del-Rei, 2013). 

Em alguns lugares de Goiás chamam-no “marimba”, nome que pode levar a uma confusão com a verdadeira marimba, espécie de xilofone que os africanos legaram ao Brasil. 

Canzás sendo tocados num congo de Passa Tempo/MG, 2013.

Conjunto de ganzás num congo de Itutinga/MG, 2004.

Congo de Carrancas/MG, vendo-se congadeiros tocando ganzás. 2004. 


Referência Bibliográfica

TINHORÃO, José Ramos. As festas no Brasil Colonial. São Paulo: Ed.34, 2000. 176p.il. p.31.

Créditos

Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
Vídeo: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] Ver: A Cultura dos ChokweInPágina Web de Pedro Cabrita, https://pedrocabrita.wordpress.com/importante-conhecer/arte-e-cultura-2/a-cultura-dos-chokwe/ Acesso em 30/12/2015, 07:59h.
[2] Em casos isolados surgem canzás feitos de outros materiais: tubo de cano de PVC, osso bovino ou equino.
[3] Para exemplo do uso do ganzá, assista ao vídeo abaixo, participação do congado de Cláudio/MG na Festa do Divino de São João del-Rei, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 24/05/2015. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Árvore da Padiola

Padiola é um estrado ou maca, improvisada de tábuas com varais para se carregar à guisa de andor (*). Nas roças era usado para transportar cadáveres amortalhados até a entrada da cidade ou da vila próxima, em cuja entrada era baixada e o morto descido a um caixão para assim entrar na zona urbana ou núcleo populacional. A padiola era jogada fora no mato. 

Em São Gonçalo do Amarante, distrito são-joanense, ainda existe uma velha árvore de óleo-vermelho na saída para o Caxambu, conhecida comoÁrvore da Padiola”, pois à sua sombra, outrora, mudavam o cadáver para o caixão e descartavam a padiola. 

Árvore da Padiola, na estrada Caburu-Caxambu.
Distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 



* Obs.: na construção civil é também usada para carregar material de obra, por dois trabalhadores. Banguê. No Nordeste do país e área norte mineira o costume dos enterros rurais adotava sobretudo a rede trespassada a um pau para carregar o defunto, em vez da padiola. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Foto: Iago C.S. Passarelli, 09/10/2011.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Congos: congadeiros de saias

É de entendimento genérico que as saias são elementos do vestuário feminino. Contudo, nos meios folclóricos, dançantes masculinos de certos folguedos as adotam sem restrição como parte do uniforme, em geral, vestidas por cima das calças. São via de regra conhecidas por sainha ou saiote.

Estas saias ora são brancas, mas quase sempre tem colorido vivaz, em cor única para o mesmo grupo, ou multicolorida; plissada ou lisa, rendilhada ou apenas com bicos de renda nas bordas, por vezes com um ziguezague de fitas de cor em destaque, outras vezes ainda com apliques florais, agalonada e de babados ou franjas.

Pela imensa região Nordeste do país os grupos de congos tradicionais usam grandes saiotes armados sobre aros escondidos sob o pano, dando uma intensa armação ao conjunto. Foram muito típicas nos grupos do Rio Grande do Norte, a ponto de surgir a designação "congos de saiote", hoje desaparecidos ante os congos de calças e "calçolas" (calções). Os saiotes dos congos ainda tem uso recente nos congos de Oeiras/PI, Pombal/PB, Cairu/BA, Milagres/CE, dentre outros.

Em Minas Gerais, vários grupos de congados tem por característica o uso dessas saias. Em geral são curtas, a nível da coxa ou do joelho, mas existem exceções, como mostra a foto abaixo, gentilmente cedida para reprodução pelo capitão desta guarda de moçambique da cidade de Passos, sr. Feliciano Batista da Silva.

Moçambique, Passos/MG. Autor e data não identificados. 

Uma lenda informada em São João del-Rei, aliás, muito conhecida entre os congadeiros, relata a origem dos congados. Numa das múltiplas versões, refere-se claramente ao uso dos saiotes [1]:


"Nossa Senhora do Rosário apareceu numa gruta. Isso foi no sertão, no tempo dos antigos. O povo achou a imagem e fizeram uma procissão. Levaram ela para uma capela, mas no outro dia, quando voltaram lá ela tinha sumido. Acharam de novo lá na gruta. Aí os negros foram dançando congo buscar ela mas ela não acompanhou por causa que eles usavam sainha, roupa de carnaval. Então foram os negros velhos, tudo simples, com roupa de saco alvejado dançando para ela o moçambique. Aí a santa agradou e subiu no andor. Levaram ela para a igreja e os congos foram atrás acompanhando, mas não entraram por causa da sainha colorida. Nossa Senhora ficou lá no altar e não saiu mais." 


Fica claro a concepção dos saiotes atribuídos aos grupos de congos e não aos moçambiques. Na prática, porém, vários grupos moçambiqueiros as usam. 

Uma explicação ouvida de informantes congadeiros em Contagem, narra que o congo com a sainha faz um movimento de limpeza ou varredura do caminho por onde passará o moçambique com o reinado. O movimento dos dançantes na fila do folguedo faz a saia balançar ritmadamente, o que é interpretado como uma ação de varrer (vide nesta postagem o grupo de Piracema, como ilustrativo do referido movimento). O congo retira os males para o moçambique passar. Estas concepções hierarquizam os congados conforme as narrativas populares. 

Numa fotografia da década de 1960 que dispomos, tirada em São João del-Rei, aparece um catupé com os saiotes, fato incomum. Próximo daqui, na Restinga (Ritápolis - 1996) e no Cajuru (Resende Costa - 1987), vimos os dançantes de catupé amarrarem na cintura um grande lenço estampado imitando saia. Frise-se que nesta região estes folguedos não usam saiotes, mas noutra área mineira, no Serro, o empregam. Nos congados de Barroso, Piedade do Rio Grande e Ibertioga, há também uso de saias fingidas ou aventais, feitas com longos panos alvos, com artísticos bordados em pontos de cruz e acabamento em abrolhos. Tais aventais também foram registrados no moçambique gaúcho, da cidade de Osório.

Os saiotes aparecem também nalgumas marujadas como em Diamantina e São Gonçalo do Rio Preto. Seja como for, os saiotes representam elementos muito típicos das fardas congadeiras, notavelmente das guardas de congo, ao que parece remetendo a padrões antigos de vestimenta, trajes alusivos à nobreza de outrora já perdidos no passar dos séculos. Para melhor exemplificar os estilos, as fotografias abaixo mostram grupos mineiros bem representativos. 

Congo, Brás Pires/MG, 09/01/2010.

Congo, Contagem/MG, 21/10/2014.

Congo, Piracema/MG, 01/11/1998.

Congo, Piranga/MG, 09/01/2010.

Congo, Rancho Novo (Conselheiro Lafaiete/MG), 18/07/1999.

Congo, Rio Piracicaba/MG, 09/01/2010.

Congo, São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 09/01/2010.

Congo, São Miguel do Anta/MG, 09/01/2010.

Congo, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG), 15/11/1998.

Congo, São Gonçalo do Amarante - Caburu
(São João del-Rei/MG), 13/10/2013.

Créditos

- Informante: Capitão de Catupé, sr. José Camilo da Silva (São João del-Rei, Bairro São Dimas,1992)
-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Fotografia do congo de São Gonçalo do Amarante: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

- Revisão: 28/05/2026. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Práticas populares contra raios e tempestades

E a devoção a São Jerônimo e Santa Bárbara


Nos meios populares, em várias regiões do Brasil, inclusive aqui na região das Vertentes, para se evitar acidentes elétricos por faíscas, tão logo começa a relampear, reza-se para São Jerônimo e Santa Bárbara, ou simplesmente se usa exclamar seus nomes. Acender velas é um complemento comum. 

Nas piores intempéries queima-se à guisa de um incenso, a palha benta do Domingo de Ramos, como meio de evitar que aquela casa seja atingida pelos raios e para abrandar a tempestade. Costume idêntico se observa em Portugal, conforme pesquisou Altimar de Alencar Pimentel, que escreveu que “na Península Ibérica, recorre-se a Santa Bárbara, São José e São Jerônimo para abrandar as precipitações atmosféricas (p.27)”. Câmara Cascudo também atesta a tradição ibérica que recebemos, acerca da proteção destes santos contra os extremos meteorológicos das tormentas.


Uma narrativa assaz conhecida conta que Santa Bárbara (280-317), natural da Nicomédia (atual Izmit), na Turquia, foi morta por degolamento pelo próprio pai, Dióscoro, inconformado com a fé cristã da filha, que ela não renegou mesmo após terríveis torturas em praça pública. Quando seu algoz cortou sua cabeça, imediatamente foi fulminado por um raio, seguido de estrondoso trovão. Está claro porque se tornou protetora contra raios e tempestades, tradição conhecida além-mar. Padroeira dos soldados artilheiros e dos mineiros, razão que possivelmente justifique sua imagem na igreja histórica de Nossa Senhora do Pilar em São João del-Rei, cidade nascida das minas do ciclo do ouro. Seu dia votivo é 04 de dezembro.

Já São Jerônimo (347-420) não aparenta uma ligação direta com a questão das descargas atmosféricas, sendo incógnita a razão de seu padroado sobre os raios. Nasceu na atual Eslovênia e tem por dia votivo o 30 de setembro. Doutor da Igreja, foi um religioso que legou à humanidade dentre outras obras importantes, a versão latina da Bíblia, conhecida como Vulgata, traduzida do hebraico. 

São venerados além da Igreja Católica Apostólica Romana, a exemplo da Igreja Ortodoxa. São Jerônimo também é considerado por anglicanos e luteranos. Os dois santos são muito prestigiados no Candomblé e na Umbanda, sincretizados com os orixás IansãXangô, ela, sua esposa espiritual, tendo o raio figurado como insígnia. 

Nos versos populares as invocações aos dois respeitadíssimos santos aparecem em algumas composições. No calango:

(...) 
Tô 'panhando água no poço,
tô esperando água limpá,
São Jerônimo, Santa Bárb'ra,
começou relampiá!
(...)
(São João del-Rei, 1996)*

No catupé:

_ Eu vi Santa Bárb'ra no ar,
tempestade no mar...   
_ Brandô!
(Santa Cruz de Minas, 2004)**

Outros versos contudo se valem dos sons da intempérie para auto-afirmações de poder, capacidades, coragem: 

“Não tenho medo da chuva
 nem também do turuvão; 
tomara que chova muito 
pra lavá meu coração!” 
(quadra popular, Barbacena, 1996) 

“Quem manda chuva é truvão, 
quem sigura cerca é môrão!” 
(Catupé, São João del-Rei, 2000)

"Subi na corda da chuva,
no estrondo do trovão;
desci na corda da chuva,
com dois coriscos na mão..."
(calango, Santa Cruz de Minas, 1997)

Ou com outro término: 

(...)
"quem nunca comeu corisco, 
não sabe se raio é bão!" (bom)

A física demonstra que o raio tanto sobe da terra às nuvens quanto desce daquelas ao chão, mas para o povo sempre cai.

Em São João del-Rei fala-se de uma árvore, o cedro de Santa Bárbara (cinamomo ou árvore de Santa Bárbara), que seria capaz de atrair raios de uma maneira especial. Não se deve tê-lo junto à casa mas um pouco mais afastado é útil, pois puxa a descarga elétrica, afastando-a da residência. Também lhe atribuem a irradiação de forças positivas para a propriedade. O banho com as folhas fervidas desta árvore é um descarrego espiritual na linha de Iansã. Qualquer objeto remanescente de uma benzeção posto junto a ela faz o efeito mais rápido. Assim, talos de mamona da benzeção de cobreiro depositados junto ao tronco desse cedro fazem o malefício secar mais rápido (Santa Cruz de Minas, 1999).
Cedro de Santa Bárbara (Melia azedarach, meliaceae)

O povo acredita (e é crença muito difundida), que quando o raio vem dos céus, traz na ponta uma pedra, que é enterrada sete metros no solo com a força da descarga. Então, como se fosse viva, a cada ano sobe um metro, até chegar à superfície, toda energizada. Se por acaso ao arar um terreno ou passar por um velho abrigo de povos autóctones, encontra-se um machado de pedra ou um virote, diz-se que é a "pedra de raio". É pois um artefato que tem a rocha como matéria-prima, feita por primitivos homens paleolíticos e neolíticos. A pedra de raio é conservada em casa para livrá-la das descargas atmosféricas e proteger seu dono contra malefícios variados. Nos congás e pejis tem caráter votivo aos orixás já citados nesta postagem, como seu símbolo e firmeza, presente e irradiante.


Pedra de raio 

Em Santa Cruz de Minas, anotei a curiosa simpatia de se jogar uma peneira de taquara no terreiro da casa, em plena chuva forte, devendo necessariamente cair emborcada, para prender a emissão de raios. A oração que antecede este ato é a seguinte***: 


Palavra santíssima,
contra raio e tempestade,
Deus foi feito homem,
velho foi feito carne.
Cristo Rei que vem em paz,
Cristo nasceu da Virgem Maria,
Cristo manda, Cristo reina!
De todo mal corisco e tempestade. 

Crê o povo que o espelho atrai o raio o que a ciência desmente. Mas ignorando isto, quando relampeia não se olha no espelho e até mais ao extremo, se lhe encobre com um pano. Este é o preceito popular, que inclui ainda não mexer com nada de metal, sobretudo de ponta, não abrir torneira nem tomar banho, cuidado já com um certo sentido pois metal e água são excelentes condutores de energia elétrica. Uma restrição tradicional é durante a tempestade que cai raios, suspender toda atividade, não ter relação sexual, não xingar, não discutir com ninguém, apenas rezar e aguardar. O raio tem de ser respeitado, pois representa a ira de Deus. 


Referências bibliográficas

PIMENTEL, Altimar de Alencar. Sol e chuva: ritos e tradições. Brasília: Thesaurus, [s.d.]. 
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: [s.d.], 930p.

Referências na web

Jerónimo. Wikipédia, acesso 01/09/2014, 08h.
Bárbara de Nicomédia. Wikipédia, acesso 01/09/2014, 08h.

Notas e Créditos 

* Informante: Pedro Reis da Silva 
** Capitão: Luís Pereira dos Santos
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1997. Prece considerada muito forte, que não deve ser enunciada fora da ocasião propícia. Informou também os calangos. A expressão "Deus foi feito homem, velho foi feito carne" foi sem dúvidas inspirada no primeiro capítulo do Evangelho Segundo São João (Jo 1, 1-3; 14-15). A invocação direta a Jesus parece ser uma alusão ao episódio da tempestade acalmada, quando dentro de uma barca no Lago da Galiléia (Lc 8, 22-25; Mt 8, 18-27, Mc.4, 35-41). 
****Texto e foto-montagens: Ulisses Passarelli
*****Fotos: Iago C.S. Passarelli, 2014