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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Dia Maior das Mercês

Desde a madrugada de ontem, quando os foguetes e os acordes da Banda Municipal Santa Cecília irromperam a alvorada festiva em São João del-Rei, o dia todo, um intenso ambiente devoto e festivo parte da colina das Mercês. 

Do alto da bela igreja a palavra evangelizadora ecoa pela cidade invocando a Santa Mãe, rogando mercês, sublimando louvores, admoestando deslizes. A Orquestra Lira Sanjoanense com a notória marca de vida desde o remoto ano de 1776, se esmera na execução de partituras sacras de nossos compositores. 

O povo vem, entende o convite do sino. Na Mais Barroca Cidade de Minas, a noite de 24 de setembro, revela a solidez de uma expressão devocional, calcada em séculos de uma tradição, que não dá mostras de arrefecimento. Pelo contrário, desabrocha num vigor notável. 

Os patronos São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato também saíram à rua em procissão à dianteira do andor da Santa Mãe. A Banda de Música Theodoro de Faria esteve esplêndida como de costume. Não poderia faltar, a execução da tradicional  Marcha das Mercês, de Luiz Baptista Lopes. 

O costume dos foguetórios em nossas festas religiosas atinge o ponto máximo nas Mercês, digno de ser chamado de espetáculo pirotécnico, pela seleção de cores, sons, tipos, posicionamento, sincronia e segurança, desenhando o céu com luzes. 

Nas imagens abaixo podem ser apreciados alguns momentos, que deixam saudades aos devotos que assistiram e desejo de conhecer naqueles cuja presença não foi possível. 

Igreja das Mercês no seu dia maior. 

A Santa Mãe das Mercês.

São Pedro Nolasco e Nossa Senhora das Mercês em seus andores.

São João del-Rei, Terra Cristã. 

Devoção.

Flagrante do espetáculo pirotécnico. 

Multidão de fiéis no largo.

Tapete de rua: o brasão mercedário.
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Devoção Mercedária em São João del-Rei

Junto com a primavera, chega o tempo das Mercês... 

Nossa Senhora das Mercês é uma das muitas invocações marianas que se enraizaram na Minas Colonial, sobretudo como uma devoção dos escravos forros e crioulos, como se dizia na terminologia separatista daquela época. Seus devotos se reuniram em confraria que tinha entre outros atributos o de libertar cativos pela compra da alforria. Na fachada de sua igreja em São João del-Rei, um símbolo de corrente com algemas abertas é bem representativo de sua primitiva função.

Entre uma moldura de rocalhas no frontispício, grilhões revelam a
função libertadora dos mercedários. Igreja das Mercês, São João del-Rei. 

Nesta cidade, a imagem da santa querida naturalmente despertou interesse de muitos adeptos de seu título, vestida em cores suavíssimas, de braços abertos, sempre acolhedores, como se esperasse mais filhos para envolver em seu manto protetor; olhar terno, bem maternal, sereno e dulcíssimo, mas também, paradoxalmente, um pouco tristonho, como se estivesse com pena de seus filhos sofredores; cabeça levemente inclinada para um lado, pendente e complacente... Buquê na mão, coroa que resplandece à cabeça. Mãe e Rainha, Protetora e Libertadora. O ícone perfeito, o modelo de cristandade e o símbolo da esperança, a fomentar uma fé inabalável.


Imagem de Nossa Senhora das Mercês da igreja desta invocação em São João del-Rei.
Acervo da Venerável Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês. 


A Igreja das Mercês de São João del-Rei, como a vemos hoje, é bem diferente da primitiva, de 1751, que tinha forma de panteão romano. Sofreu profundas remodelações em 1808 e 1853, quando ganhou a atual fachada, a mais graciosa da cidade, com sua torre separada do corpo, tendo à direita (se vislumbrada de frente) uma pitoresca alameda ajardinada e com fontes e à esquerda o cemitério da ordem. Pela dianteira um cruzeiro do século XIX fica fronteiro à escadaria de acesso, calçada de pedras.

Igreja das Mercês, São João del-Rei.

Algumas intervenções vieram mais tarde às grandes mudanças, como no ano de 1900, conforme revelou O Combate:

"Estão terminadas as obras de decoração da Igreja das Mercês, desta cidade. Ficou realmente muito linda a pintura do forro e do resto da igreja, exceção feita do figurado que podia ter ficado mais perfeito. O resto da pintura faz honra ao pincel do hábil artista João Faccini, que teve real gosto na realização do serviço a seu cargo. A igreja está muito melhorada pelo que merece encômios a atual mesa administrativa, composta dos irmãos abaixo, cujos nomes damos para conhecimento dos confrades todos: Juiz Joaquim Paulino, Secretário Eduardo Barreto, Tesoureiro Capitão Carlos da Cunha (farmacêutico), Procurador Olympio Pio."

Outro jornal da cidade, A Nota, em 1917, noticiava novos melhoramentos na igreja, quando o sodalício conclamava os confrades para ajuda em socorro do telhado:

"A mesa administrativa desta arquiconfraria faz um apelo aos seus inúmeros confrades no sentido de ser auxiliada na reconstrução do telhado da Igreja das Mercês. Esta reconstrução que se impõe com a maior urgência, tinha sido resolvida levar efeito sem mais ônus para os senhores confrades, dentro dos próprios recursos financeiros do cofre da arquiconfraria. Aconteceu, porém, que iniciado o serviço de retelhamento, verificou-se a absoluta e urgente necessidade de reforma de todo o madeiramento superior, do reboco externo, e, ainda mais, de um ... (ilegível) da frente em iminente estado de perigo. Assim, a arquiconfraria recorre aos bons confrades, esperando que um ... (ilegível) concorrer com qualquer auxílio para o empreendimento desta obra de extrema necessidade." 

Quanto às festividades, foram sempre célebres. Em 1935 A Tribuna noticiava a chegada da festa, já deixando claro a importância da música nas celebrações e destacando nomes de compositores da terra:

"Com toda a pompa iniciam-se hoje as festividades de honra e louvor de N.S. das Mercês. Pelo programa profusamente distribuído, pode-se avaliar que os festejos deste ano serão imponentíssimos e não sofrerão solução de continuidade as tradicionais festas mercedárias. As novenas serão precedidas de belíssimas ouvertures pela Orquestra Lira Sanjoanense, que executará ainda partituras apropriadas dos eméritos musicistas Pe. José Maria, Presciliano Silva e outros. Abrilhantará as missas das 5 1/2 e 7 1/2, com acompanhamento ao harmônio, o sr. prof. Bento Ernesto Júnior, ilustre belestrista e nosso companheiro de redação."

Notícias jornalísticas de São João del-Rei sobre a igreja e festa das Mercês.
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.


Bento Ernesto Júnior é uma figura humana ímpar no cenário cultural da cidade que está ainda a merecer estudos biográficos. Quando da supressão da Festa do Divino de Matosinhos em 1924, ele foi o mais relevante com seus argumentos na luta junto à autoridade eclesiástica em prol do retorno da festividade. É autor das letras dos hinos de São João del-Rei e do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, dentre tantas composições poéticas.

A música até hoje tem sua real importância na festa. Nos esclarece o utilíssimo livro Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra que desde sua fundação, a Orquestra Lira Sanjoanense cuida da parte musical no festejo executando: 


"Obras de Presciliano Silva (Veni e Domine), Padre José Maria Xavier (Hino e Antífona), Luiz Baptista Lopes (Jaculatórias), Pe. João Batista Lehmann (Hino de Entrada); João Feliciano de Souza e Luiz Baptista Lopes - coros processionais (Ave Maria Stella). Luiz Baptista Lopes, João Feliciano de Souza, Carlos dos Passos Andrade, Alberto Wilson de Castro, compuseram Missas e as dedicaram a Nossa Senhora das Mercês." (p.140)

A novena é concorrida. Do alto da colina ecoam os violinos e preces, que culminam em tocante cerimônia no dia maior, 24 de setembro, com uma procissão muito tradicional na qual comparecem diversas irmandades com os hábitos de praxe, além das bandas de música Municipal Santa Cecília e Theodoro de Faria. As festas de largo com sonorização e suas barraquinhas de víspora e de comes e bebes são muito típicas e agregam bastante gente. Ponto querido de entretenimento, desde longa data, elas propiciam um momento de confraternização, onde se conheceram muitos casais da cidade, que, por vezes, se mantiveram juntos até o matrimônio. 

Por derradeiro é mister lembrar que finda a comemoração de Nossa Senhora das Mercês, as festividades prosseguem por mais um dia, 25 de setembro, consagrado a Nossa Senhora do Parto, com missa às 19 horas, seguida de rasoura, e, por fim, bênção para as gestantes e crianças. Rasoura esta que por força da tradição o andor é carregado por mulheres grávidas. 


Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996.  104p.
Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra. São João del-Rei: Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2: novenas, tríduo, setenário, quinquena e meses.


Referências Hemerográficas
(jornais publicados em São João del-Rei)

O Combate, n.16, 14/10/1900
A Nota, n.70, 21/07/1917
A Tribuna, n.1.290, 15/09/1935

Notas e Créditos 

*Texto e fotos (2014): Ulisses Passarelli
** Foto da imagem de Nossa Senhora: Iago C.S. Passarelli, 17/04/2014
*** Leia também: Salve o Dia das Mercês!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Salve o Dia das Mercês!

Hoje, 24 de setembro, festeja-se Maria Santíssima sob a invocação das Mercês: mercê - favor, graça concedida. Nos ensina o professor GAIO SOBRINHO (1996): 

"Em 1218, São Pedro Nolasco, São Raimundo de Penaforte e o rei Jaime I, de Aragão, tiveram de Nossa Senhora uma visão que lhes pedia a criação de uma ordem religiosa, cujo objetivo fosse, principalmente, a redenção dos cativos cristãos das prisões muçulmanas. Fundaram pois uma ordem militar que trazia algo de guerreiro, de celeste e de real. Daí as três palavras latinas que aparecem gravadas nas suas bandeiras e insígnias: Celestis - Regalis - Militaris." (p.66)

Nas Minas Gerais este sodalício dedicou-se à libertação de escravos e foi constituído no passado sobretudo por negros nascidos no Brasil (crioulos, segundo  a terminologia do período escravocrata), ao contrário dos africanos (negros da costa) que reuniram-se principalmente sob a invocação do rosário.  Também agregava os mulatos, que na nomenclatura da época se referia aos filhos e filhas de branco com negra ou vice-versa. 

Com grande popularidade e força difundiu-se a devoção mercedária. Anteriormente a 1750 já estava estabelecida em São João del-Rei uma irmandade sob sua invocação, que goza o título de arquiconfraria. A capela primitiva tinha forma de panteão romano. 

Igreja das Mercês em São João del-Rei.

A Festa das Mercês é uma das mais relevantes da cidade, com animado movimento de barraquinhas e importante estrutura de celebrações, com enorme afluência de fiéis. A grande procissão toma as ruas coloniais calçadas de pedras, na noite primaveril, acompanhada pelas corporações musicais, que nunca deixam de tocar a esplêndida "Marcha das Mercês", composição do ilustre são-joanense Luiz Batista Lopes. 

Foi fundado em São João del-Rei um congado sob a bandeira da Virgem das Mercês, em meados de 2006, no Bairro Alto das Mercês. Os dançantes desse catupé trajavam-se de amarelo-creme no tom da Arquiconfraria das Mercês e inclusive tinham estampado o brasão daquele sodalício. Infelizmente este grupo teve uma vida efêmera.

Além da bela igreja de Nossa Senhora das Mercês no centro histórico temos a Capela das Mercês na Colônia do Giarola, em plena área de colonização italiana, construída com o esforço de migrantes e descendentes. Atualmente em obras, tem agora o adro murado, muito amplo e um grande galpão de festas. É uma área excelente para atividades religiosas, educativas e sócioculturais. 


Capela de Nossa Senhora das Mercês da Colônia do Giarola, São João del-Rei/MG. Agosto/2004.


Em Lagoa Dourada, BUZATTI (1988), referenciando Richard Burton, citou a existência de uma Capela das Mercês, que desde o final do século XIX já não existe. 

Noutras cidades dos Campos das Vertentes a devoção também tem ou teve sua popularidade, a exemplo de Tiradentes, com sua bela igreja própria, com cemitério anexo. Segundo SANTOS FILHO (1996), a irmandade das Mercês tiradentina foi criada em 1754 no contexto da Capela do Rosário e começaram a edificar sua própria igreja a partir de 1770, em obra de longa duração que só terminou no século seguinte. Informou ainda que os festejos:

"se faziam com muita pompa, incluindo danças folclóricas de negros, como os congados" (...) "Na segunda metade do século XIX a Irmandade das Mercês teve grande importância na cidade, chegando a ter grande número de irmãos espalhados por toda a província de Minas Gerais e, hoje, ainda mantém a arquiconfraria e seu cemitério próprio."

Igreja de Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes/MG, 26/12/2014.

Prados, tinha uma Irmandade das Mercês, datada de cerca de 1784, há muito extinta. Em 1790, segundo pesquisa de VALE (1985, p.188), há registro de pagamento de 9 oitavas e 14 réis do procurador Joaquim Ferreira da Costa ao pintor Cipriano Ferreira de Carvalho pela pintura de uma caixa de guerra. 

Localizei  no jornal O Resistente uma menção do século XIX a uma Festa do Rosário e das Mercês em Ibertioga, sem qualquer citação a congados.

O grupo moçambique e congada de Piedade do Rio Grande chama-se “Nossa Senhora das Mercês”, santa que vem estampada na bandeira. 

Congadeiro de Piedade do Rio Grande com a bandeira mercedária, durante uma Festa do Rosário 
no Bairro São Dimas, em São João del-Rei, outubro/1996. 

Na vizinha Santana do Garambéu também há um grupo desses, cuja bandeira branca, conforme observação de 1998, traz de um lado a figura da Virgem do Rosário e na outra face a da Senhora das Mercês, pinturas da arte popular.

Nossa Senhora das Mercês estampada na bandeira alva dos moçambiqueiros de Santana do Garambéu, durante uma Festa do Divino, em São João del-Rei, Bairro Matosinhos. A corrente pintada simboliza a libertação dos cativos. Maio, 1998.

Em Conceição da Barra de Minas havia animadas festas em honra à Virgem das Mercês, segundo o jornal O Combate. Sua edição nº206, de 1902, diz que elas elas foram animadas e "sublimes". O festeiro foi o maestro professor Carlos dos Passos, que dirigiu com competência a parte musical. A parte religiosa esteve a cargo do vigário João Trindade. 

É padroeira de Mercês de Água Limpa (ex Capelinha), distrito de São Tiago, onde goza de intensas festividades, que congregam moradores de toda aquela área rural. 

Daí para a Mesorregião do Oeste de Minas, já fora dos Campos das Vertentes, sua popularidade cresce nos meios folclóricos. Em Passa Tempo os congados fincam seu mastro dentre outros na Festa do Rosário, em outubro. Na Microrregião de Oliveira há congados de que é padroeira. A festa congadeira nessa cidade é em setembro, na comemoração das Mercês.

Mastro de Nossa Senhora das Mercês.
Passa Tempo/MG, 18/10/2015.

Referências Bibliográficas

- BUZATTI, Dauro José. Viagem as Minas dos Cataguazes. Contagem: Fund. Mariana Resende Costa, 1988. 123p. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rei. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 90p.il. 
- SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. Festa do Bom Jesus da Pobreza e de Nossa Senhora das Mercês. Inconfidências, n.8, setembro/1996, Tiradentes. p.3. 
- VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n], 1985. 

Referências Hemerográficas
(jornais publicados em São João del-Rei)

O Resistente, n.248, 15/10/1895
O Combate,  n.159, 19/03/1902; n.206, 12/10/1902

Notas e Créditos

* Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli.
** Acervo de jornais antigos da Biblioteca Pública Municipal Batista Caetano d'Almeida, São João del-Rei, disponíveis em seu site.