Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Calango-tango: parte 1

Fundamentos do Calango

            Nos quatro estados da região sudeste do Brasil se fixou e desenvolveu um estilo poético-musical acompanhado algumas vezes por dança, chamado calango. O nome foi tomado por inspiração de um réptil muito comum, lagarto ligeiro nos movimentos, Tropidurus torquatus e outros congêneres da família tropiduridae.

            Um canto muito generalizado traduz assim sua imagem:

“Quem quiser cachaça boa,
Manda calango buscá,
Calango é bicho esperto,
Vai ligeiro, volta já”.

            Desde já fique claro que o calango é muito mais cantoria que dança, porque esta é uma acompanhante incerta e bastante genérica, sem nada que lhe caracterize. A movimentação em pares livres se desenvolve como num forró ou arrasta-pé, dependendo exclusivamente da desenvoltura do casal e de sua desinibição, sendo mais ou menos animada consoante o fluir ditado pelos instrumentos, mormente os de fole.

            O centro geográfico desta manifestação é a Zona da Mata entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, donde possivelmente se difundiu, acompanhando as áreas tradicionais de cafeicultura do Sudeste, rumo às serras capixabas, o interior fluminense, o Vale do Paraíba paulista, o Campo das Vertentes mineiro (e mais além, se estendendo até o norte do estado, já sob outra roupagem). No sul e sudoeste de Minas não chegou com o mesmo vigor mais ainda assim foi conhecido e incorporado às contradanças [1].

            Sujeito às características regionais, no norte de Minas ganhou uma cor local com a musicalidade das rabecas e violas, em variantes como o “calango dobrado”, por vezes apenas instrumental.

            O acompanhamento  básico é o da sanfona ou acordeon, muito frequente. Raramente dispensa o pandeiro. Surge também não raro a caixa (tambor) e o xique-xique, eventualmente outros instrumentos de ocasião, tais como reco-reco, violão, cavaquinho e triângulo.

Calango, Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG. Autor e data não identificados. 
Foto gentilmente cedida para reprodução pelo sr.Luís Santana. 


            Poucos estudos específicos sobre o calango se fizeram no Brasil, sendo algumas vezes referido com parcimônia. O gênero porém é digno de nota e clama por atenção. Suas matrizes podem ter vindo da Península Ibérica com os colonos, mas o mundo caipira moldou-lhe nova fisionomia, com a criatividade brasileira.

            A versalhada do calango vagueia pelas surpresas do improviso e nisto reside a grande habilidade do calangueiro[2]. Há sim muitos cantos decorados que sempre figuram em cantorias aqui e acolá, com pequenas variantes. Existe também a mescla de versos-feitos, compondo novas quadras e isto também exige espontaneidade e presença de espírito, mas é mesmo no improviso que reside sua maior força.

            O desenvolvimento de um calango obedece a alguns estilos que podem variar de região a região, aliás, algo bem típico das manifestações folclóricas. A nomenclatura também se flexibiliza. Mas existe um elemento mais rígido: a necessidade de rima. A sua busca é uma constante no calango e quando foge disto se pode suspeitar de uma corrupção do processo criativo, tal a relevância que atinge. Muitas vezes para se alcançar a rima se usa de palavras que não dão sentido algum ao fechamento da composição criando um verso inusitado mas de sonoridade preservada:

“É coisa que não gosto,
De dois pote da furquia, (forquilha)
Um era de água morna
E outro de água fria...”
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

A comicidade popular trespassa muitos versos:

“A mulhé do verdureiro,
Tá na beira do fogão,
O home tem quatro dedo
A mulhé tem cinco mão.”
(Bias Fortes, 1998, Elvira Andrade de Salles)

            Como o calango tem um cunho de desafio de habilidades e poder de cantoria, o calangueiro o tempo todo se enaltece, declarando fazer coisas impossíveis:

“Eu comi saci assado
Na farofa de fubá,
Peixe grande não me engasga
Lambari quer me engasgá ...”
(São João del-Rei, 2001, Damião Guimarães)

Ou são frases ameaçadoras ...

“Você vem de pulo em pulo,
Eu vou de salto mortá,
Eu te entro na cabeça,
Vou sair no carcanhá!”
(São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), 1999, José Francisco Sales)

Pelos exemplos dados dá para se notar que para facilitar a criação o cantador corrompe sem pudor qualquer palavra que julgar necessária para ajustar rima e métrica. Daí surgem pronúncias típicas tais como: “mortá” (mortal), “carcanhá” (calcanhar), etc. Aliás, palavras oxítonas terminadas em consoante perdem-nas facilmente: capiná (capinar), chorá (chorar), má (mal ou mar), etc. Palavras no gerúndio tem o “ndo” final simplificado em “no”: cantano (cantando), arrumano (arrumando). Contrações são frequentes: pra ou pá (para), procê (para você), d’água (de água). Pretérito perfeito, na terceira pessoa do singular, terminado em “ou” transforma-se facilmente em “ô”: clariô (clariou), calanguiô (calangueou), martratô (maltratô). “Não”, em geral, vira “num”. E por aí vai... Outras observações poderiam ser apontadas e andam na direção geral do falar corriqueiro regional, fortemente impregnado pela pronúncia de característica rural. 

Embora trazido para os subúrbios pelo fluxo do êxodo rural, é no campo que o calango tem força e as coisas da roça formam o seu universo inspirador: bichos, objetos, técnicas, assuntos, peculiaridades sociais, palavreado, gostos.

“O meu carro é de aruêra, (aroeira)
Eixo é de jacarandá,
Uma junta é de boi preto,
Outra de boi araçá.”
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

            Os calangos obedecem as chamadas linhas, leras (lérias) ou carritias (carretilhas), assim denominadas as rimas propostas para uma dada cantoria. Aqui na região a mais comum de todas é a “Linha do Á” (São João del-Rei) ou “do Dessidá” (Bias Fortes) pois é mais fácil de rimar e, por conseguinte, a que demora mais tempo em ação, com grande número de estrofes:

“Tico-tico[3] come verde,
Não espera madurá, (amadurecer)
Tico-tico tá danado
Na semente do juá.”
(Barbacena, 1996, D.Josefina)

Via de regra se houve consenso de cantar numa linha proposta inicialmente à entrada da música ou após esta, estabelecida pela primeira estrofe, ela deve seguir sem ser trocada por outra, até que se esgotem as possibilidades poéticas e um dos cantadores se dê por vencido. Aí, após um intervalo se troca de linha. Por vezes, quando os cantadores não tem grande habilidade, nota-se a troca repentina: a linha corrente é bruscamente interrompida, porque um cantador responde noutra rima e daí para frente o contendor a assume também, e seguem ambos nela. Outras vezes a mudança é sem intervalo, mas não tão brusca, pois se faz anunciada pelo verso-feito: “agora qu’eu vô cantá” na linha ... (tal). 

             A segunda linha mais conhecida no Campo das Vertentes é a “Linha do Ão” (São João del-Rei), “do Avião” (César de Pina (Tiradentes)) ou “do Dessidão” (Bias Fortes), na qual todas as rimas se fazem em  “ão”:

“Imbaúba é pau do mato,
Aruêra, do sertão,
Dei um tapa no caxote,
Isfolei a minha mão”
(Barbacena, 1996, D.Josefina)

            Em terceiro lugar de popularidade vem a “Linha da Lilia” ou “da Maresia”, como dizem nos arredores de São João del-Rei:

“Aaaai... eu tô cantano,
É na Linha da Marisia,
Companheiro falou demais
Macaco te deu bom dia!”
(Coronel Xavier Chaves, 1998, José do Rosário Anacleto)

As rimas em “aia” usando palavras como palha, navalha, atrapalha, embaralha... formam a conhecida “Linha da Marambaia” ou “da Lacraia”. Neste caso, a corruptela transforma o "lha" em "aia":

“Falô, minino,
Mas você não me atrapaia
Se não fosse a tua língua
Não havia mais navaia”
(Bias Fortes, 1998, Elvira Andrade de Salles)

            Outras linhas existem mas são pouco conhecidas, posto o difícil domínio das rimas, como poucos cantadores habilidosos, o que reduz sua capacidade de transmissão às novas gerações de calangueiros. Linha do Sirigote:

“Eu vô cantá um bocado
Na Linha do Sirigote,
Cavanhaque do Zé Francisco
Parece barba de bode”.
(Bias Fortes, 2013, José Maria do Nascimento)

Linha da Sereia:

Calango-tango,
No ponto da meia-noite
No calango da sereia
Lobisôme bate orêia,
Quando eu tô fazeno barba
Quem quisé cantá comigo
Meu bigode balanceia.
Se não for forte bambeia.


Falô colega,
Rosaro de boi é canga
Meu bigode balanceia
Sapato de porco é pêia
No ponto da meia-noite
Meu amigo, companheiro
Lobisôme bate orêia.
Que amansa home é cadeia.
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

            Neste conjunto acima dá para se notar a expressão “calango-tango”, usadíssima por muitos cantadores em variadas regiões:

Calango-tango,
Calango-tango
No calango da Lilia,
No calango dessidão,
Quando eu tô comendo carne
Muié depois de casada
Num gosto que gato mia.
Num pode injeitá fogão.
(Lagoa Dourada, 1991, 
Rubens Davi da Silva)
(Bias Fortes, 1997, 
Joana de Paula Nascimento)

Por vezes a fórmula se replica na prosódia do cantador como eco, um recurso para adequar a métrica: (...) “no calango, lango-tango, / dentro da linha do á”.

Com muita frequência se vê também as rimas em enjabement ou semelhantes. Cantadores em desafio, encadeiam seus versos, um pegando o último verso do outro para começar a compor sua resposta, como no exemplo da Linha da Sereia. Eis outro caso parecido:

Meu amigo e companheiro
Falou, colega,
Escute o qu’eu vô falá,
Quem ensinô Deus a rezá,
Quero que você me diga
Mas foi a Nossa Senhora
Quem ensinô Deus a rezá.
Em pézinha no altá.”
(São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), 1999, José Francisco Sales)

            São muito típicas as expressões de resposta ou de abertura de verso, tais como frases-feitas: “falou, colega” ou “falou, minino ”; “eu tô cantâno” ; “é isso mesmo” ; “calango-tango” ; “meu amigo e companheiro” . 

            Todos os exemplos até aqui são de calangos em quadras, que são de fato os mais comuns; porém, eles surgem também em sextilhas:

 “Eu num sei o quê qu’eu tenho,
“Eu nasci de sete mês,
Isso é de um tempo pra cá,
Fui criado sem mamá,
Tudo qu’eu planto num nasce
Bebi leite de cem vaca
E se nasce num qué dá,
Na portêra de currá,
Eu não sei se é da semente
Não bebi de cento e vinte
Ou se é de costumá...”
Porque não quisero dá!”
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

            A tipologia dos calangos não é muito vasta. Na região pesquisada ocorrem:

- calango de porfia: é o calango típico, até aqui exposto.

- calango de demanda ou desafio: o objetivo de vencer pelo poder da versificação é o objetivo principal e pode suplantar até a rigidez de uma linha no sistema de pergunta/resposta:

“Meu amigo e companheiro,
“Quantos par de unha tem
Que estudou e sabe bem,
Eu não posso responder,
Catorze pares de gato
Pergunte o meu cachorro
Quantos par de unha tem.”
Que é tão bão quanto vancê[4].”
(São João del-Rei, 1993, Aluísio dos Santos)

Neste aspecto, ofensas correm soltas:

“O seu pai é uma coruja,
Sua mãe, caxinguelê,
O seu pai morreu de fome,
Sua mãe de tanto cumê...”
(Bias Fortes, 1996, Elvira Andrade de Salles)

- calango de embolada: em paralelo com as emboladas nordestinas, este calango se embola na boca do cantador pelo ritmo acelerado do seu enunciado. O foco não é a rima rígida nem o desafio em si; a habilidade esperada é a de compor rápido. :

“Fui no mato,
Cortei pau, fiz um bodoque,
Taquei pedra de galope,
No gogó do sabiá.
Por isso mesmo,
Qu’eu me chamo Lôlo-lôlo,
Mete a faca no côro
Deixa o ferreiro maiá!”
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

- calango solto: aquele de composição livre de amarrios, sem disputas, que pode ser entoado por uma só pessoa. A regra é apenas conservar a rima:

“O papai, mais a mamãe,
Fizero combinação:
O papai comprô um carro,
A mamãe um caminhão,
O papai no frei’ de pé,
A mamãe no frei’ de mão.
Quando foi na Mantiquêra,
Perdero a direção.
O papai rolô pra moita,
A mamãe pro ribeirão.”
(São João del-Rei, 1996, Luís Santana)

- calango tocado: apenas instrumental, sem cantoria, com solo de instrumentos musicais. O mesmo que "calangueado".

            Em resumo isto é o básico do nosso calango. Porém como o assunto é bastante extenso, brevemente, este blog postará a segunda parte deste tema.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli

Notas

- Leia também neste blog: CALANGO-TANGO: parte 2
- Revisão: 01/06/2025. 



[1] - Vide: PASSARELLI, Ulisses. Contradanças. Revista da Comissão Mineira de Folclore, n.23, ag.2002. Belo Horizonte. 183p. p.15-22.
[2] - Calangueiro ou calanguista: cantador de calango. Calanguear: verbo forjado pelos cantadores para indicar o ato de cantar calango: “também sei calanguear!”, diz um verso bem conhecido.
[3] - Pássaro embirizídeo, Zonotrichia capensis.
[4] - Vancê: corruptela de vossa mercê – vosmecê, vassuncê, vancê. Forma arcaica do pronome você. 

sábado, 6 de julho de 2013

Velhas Proibições

         De como um antigo código dificultava as manifestações populares...


        No mais recente livro do professor Antônio Gaio Sobrinho [1] lê-se na íntegra a transcrição que meticulosamente fez do Código de Posturas de 1829, de São João del-Rei, um precioso documento para estudo histórico e análise social dos costumes então vigentes. O código discorre sobre tudo o que concerne ao aspecto físico da urbe, saúde pública, regras para obras, segurança, vias de trânsito, comércio, educação, comportamento, propriedade, etc., perpassando insistentemente sobre toda sorte de limitações às atividades sociais dos escravizados e quase que por extensão, ao cidadão comum.

            Como que num espelho, vê-se nos artigos do código, refletido claramente, uma divisão social e uma comunidade preocupada com possíveis revoltas populares ou escravas, coibindo ajuntamentos de povo, diversões, atividades variadas, como se vivesse às voltas com o medo. Neste sentido, e ainda que superficialmente, ocorre a dificuldade imposta à vivência da cultura popular, sujeita a diversas proibições. Alguns trechos compilados seguem abaixo comentados:

Título IV – Da Segurança Pública - Cap.I
Art.99
“É proibido pedir esmolas para quaisquer invocações. Multa de 4$rs e prisão de 4 dias. Excetuam-se a Misericórdia, as Irmandades do Santíssimo, das Almas e as que tiverem nos seus compromissos licenças para pedir esmolas.” (p.23)

Art.100
“Nos casos do artigo antecedente em que é permitido pedir esmolas, é proibido aos que as pedirem levar imagens. Prisão de um dia e do dobro nas reincidências.” (p.23)

         Os dois artigos supra, dificultavam sobremaneira, se cumpridos a rigor, a prática das manifestações populares de folias (de Reis, de São Sebastião, do Divino), que são desde sempre pedintes de ofertas em nome do santo estampado na bandeira ou estandarte. Bandeiras nos meios populares são equiparadas às imagens, tratadas com as mesmas prerrogativas rituais. A permissão de esmolar se abria porém a irmandades religiosas plenamente constituídas.

            Do século XVIII ao princípio do seguinte, existiam em São João del-Rei os esmoleres, espécie de ermitões, que andavam pelos caminhos portando oratórios de pescoço, assim chamados pequenas caixas de madeira contendo a imagem de um santo, penduradas ao pescoço por uma tira de couro. Os fiéis beijavam o santinho e ofertavam um óbolo na intenção de uma obra religiosa. Naturalmente o artigo também se aplicava sobre este costume, embora não explícito textualmente.


Recorte de uma aquarela de Johann Moritz Rugendas, de 1824, retratando o Bairro de Matosinhos,
São João del-Rei, no qual se vê um ermitão com oratório de pescoço a receber saudações.

Cap.II – Sobre Medidas Preventivas de Danos
Art.119
“Fica proibido: §1 – O jogo de ronqueiras e busca-pés. §2 – O jogo de ar lançado fora dos lugares em que for permitido por Editais da Câmara que ficarão sendo parte destas posturas. Multa de 2$rs e dobro nas reincidências e prisão de 2 dias” (p.25)

            Tentativa de regulamentação das práticas pirotécnicas, que afetaria um dos mais queridos costumes de muitas festas populares: a soltura de fogos de artifício [2]. Notadamente as festas juninas ficariam sem seu característico busca-pé, modalidade rasteira de artifício querido da criançada arteira.

            A ronqueira era um artefato estrondoso de pólvora seca, também chamado “tiro de toco”. Consistia num cano de ferro metido num pedaço cortado de tronco de árvore, em angulação adequada. No seu interior se punha a pólvora, espremida por uma bucha. O fogo era tocado no pavio, soltando a explosão com grande estrondo. Era muito usado nas Festas do Divino. Na Festa do Divino de 1883, garantiu o jornal Arauto de Minas (n.2, de 17 de maio), “não faltaram ronqueiras, fogos de vista” [3].

Art.134
“Não haverá espetáculo algum público sem licença da Câmara. Fica desde já fixado em 30rs a licença por dia de Cavalhadas. Para os outros espetáculos a câmara taxará o preço da licença sem outra atenção que a qualidade do espetáculo, e estado da povoação. Multa igual ao valor da licença e prisão de oito dias e o dobro nas reincidências. Os presépios não terão o passo da escritura.” (p.26)

            As cavalhadas foram de quantos espetáculos um dos mais aristocráticos. Eram mantidas em geral por ricos comerciantes e fazendeiros, que dada sua influência na sociedade mereceram no código esta reserva especial de autorização. Mas outras dramatizações populares, não gozavam da mesma sorte.
            
Art. 135
“É proibido as danças de batuques nas Casas das Povoações com algazarras de dia ou de noite de sorte que incomode a vizinhança. Pena de prisão por um dia e desfazimento do ajuntamento.”

            Batuque é o nome genérico para diversas danças de procedência africana, mormente com os dançantes dispostos em círculo, ritmados por atabaques. Com vasto registro no Brasil, eram muitas vezes temidos pelos senhores de escravos, sempre cuidando de uma imaginável trama violenta dos servos, que em seus pensamentos poderiam se aproveitar dessas ocasiões de entretenimento para extravasar sua revolta.

            Mas a despeito das proibições os batuques perseveraram e até meados do século XX não eram tão raros. Hoje apenas uns poucos grupos no país mantém o batuque típico como atividade cultural, denotando a extraordinária resistência e luta do povo preto. 

            A regulamentação de toda atividade social do escravizado na sociedade oitocentista era uma premissa dos mandatários públicos. A título de exemplo serve o artigo seguinte:

Art.136
“É permitido aos escravos tocar, cantar, dançar nas ruas e praças das povoações, mas os juízes de paz poderão determinar a este respeito o que for conveniente ao público, podendo-se recorrer dos mesmos para a câmara.” (p.27)

            A permissão dada estava sujeita à avaliação subjetiva do juizado e havia a restrição noturna:

Art.137
“São permitidos os quimbetes ou reinados que costumam fazer os escravos em certos dias do ano contanto que não sejam de noite.” (p.27)

         Quimbetes eram modalidades de batuque ora desaparecidos que os africanos escravizados trouxeram. Poucas informações tem-se a respeito de seu desenvolvimento. “Dança de origem negra em Minas Gerais, indicada por Luciano Gallet”, registrou Luís da Câmara Cascudo[4]. Em outra obra do professor Antônio Gaio Sobrinho [5] se pode ler que esta dança acontecia em redor da fogueira diante da Igreja do Rosário, em Conceição da Barra de Minas, finalizando os festejos do reinado, após os congados. Dançavam os casais madrugada adentro animados ao som de dois atabaques.

Art.140
“Não se pode tocar caixa pelas ruas sem licença dos juízes de paz. A contravenção será punida com multa de dois dias de prisão. Excetua-se o toque de caixas militares que é independente de licença (etc.)” (p.27)

            Este artigo naturalmente prejudicava a execução de quase todo folguedo popular. A maioria das danças folclóricas e demais manifestações populares são ritmadas por tambores, tanto mais os congados.

Cap.3 – Sobre Contravenção contra as Pessoas
Art.151
“É proibido jogar entrudo nas ruas e praças das povoações. Multa de 300 rs quando o brinquedo for com cheiros, água limpa ou lavandas artificiais; e quando for com as naturais; limões ou qualquer outras cousas que possa induzir perigo ou causar dor ou com águas fétidas será a multa de 12$rs e prisão de três dias.” (p.28)

            O entrudo era a mais arraigada de todas as práticas carnavalescas. No afã da diversão, os foliões do momo jogavam uns nos outros pós farináceos, jatos de água e limões de cera (que continham  perfume). A brincadeira não agradava há muitos, pois quem não estava disposto a semelhante lambança,  acabava também atingido. Houve muita perseguição ao entrudo, mas ele perseverou por mais um século. Jornais antigos da cidade dão conta de sua vitalidade, ainda no começo do século XX [6].

          Além destes artigos pinçados no código de posturas, chama ainda atenção este acórdão de vereança, transcrito no “Fontes Históricas de São João del-Rei”, de Antônio Gaio Sobrinho, bem mais antigo:

Acor 03 pg.23: em 28 de junho de 1749 
“Acordaram mais em mandarem notificar as pessoas que chegarem a esta vila com exercício de presépio e bonecos para que despejem incontinenti digo despejem no termo de três dias e desde já não usem do dito folguedo nesta vila e seu (termo) pelo prejuízo e gravâmen que resultem ao povo dela com cominação de que usando o contrário serem presos e serem castigados ao nosso arbítrio.” (p.47)

            Neste documento a preocupação se volta para pequenas companhias amadoras de teatro ambulante, apresentando dramatizações pelos povoados e vilas do interior com finalidades lucrativas, fosse com bonecos (ventríloquo, marionete, mamulengo) ou representando encenações com atores vivos  - cenas do nascimento de Cristo (presépios).


Críticas jornalísticas a apresentação de um presépio no Teatro Municipal de São João del-Rei. 
Jornal The Smart, n.8, 01/01/1909. Fonte: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 
            

             O enredo dramático dos velhos presépios, uma vez perdida sua vida própria, foi incorporados pelo folguedo das pastorinhas. Os tais presépios ou presepes foram no nordeste brasileiro conhecidos também pelo nome de lapinhas.

         Sobre os bonecos há uma citação do jornal são-joanense A Tribuna, de 30/05/1915 da apresentação na Festa do Divino daquele ano dos fantoches do Mestre Isaías, nas dependências do Pavilhão de Matosinhos [7]

            Todas as citações aqui consideradas e outras que podem ser rastreadas nos livros são reveladoras de quantas dificuldades a cultura de raiz enfrentou para chegar até nós. A presença ainda hoje de manifestações folclóricas nos leva a contemplar a excepcional força que tem, de perseverar sobre muitas adversidades, mesmo as impostas sob o rigor de um código autoritário. De fato, são manifestações de resistência, porque o sistema fez de tudo para exterminá-las, ou quando menos, não facilitou sua prática. 


Créditos

- Texto e fotomontagens: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 13/08/2025. 



[1] - SOBRINHO, Antônio Gaio.  Fontes Históricas de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 154p.

[2]Contudo, a proibição não conseguiu exterminar o velho costume. Os busca-pés ainda alcancei na infância, nas festas juninas da “beira da praia” (atual Rua Antônio Josino Andrade Reis, Centro de São João del-Rei, no “Arraiá do Pito Aceso”), década de 1970.

[4] - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.il.

[5] - SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: 1990. p.139-140.

[7] - Os teatros de boneco persistiram apesar disso. No jornal são-joanense O Combate, n.76, de 03 de julho de 1901, consta a seguinte nota, sob o título de "Teatro Fantoches": "Como estava annunciado, realizou-se sabbado o ultimo, mais um esplendido espectaculo, pela interessante companhia de fantoches, com a chistosa comedia - os dois surdos e o entre-acto Mulher nervosa, que foram habilmente ensaiadas pelo sympatico Camargo. Domingo repetiu-se o mesmo espectaculo e tal foi a concorrencia, neste dia, que muitas familias que ali foram tiveram de voltar por já se achar completa a lotação do Theatrinho. O publico que ali esteve applaudiu enthusiasmado o bom desempenho das peças tendo sido chamados a scena o ensaiador Camargo, o sempre querido Lulú e os mechanicos irmãos Panain, V. Guerra e os dois irmãos Humberto e José, A orchestra Ribeiro Bastos muito concorreu para o brilhantismo das funcções. Felicitamos ao empresario de tão interessante companhia, o nosso particular amigo Juca Pimentel pela merecida acceitação que tem tido a sua feliz ideia."

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Malaquias


Donira Gonçalo Madruga era uma senhora natural de Capela Nova, onde em sua juventude presenciara as festas congadeiras. Radicada desde muito jovem em São João del-Rei contou em meados de 1995 sobre aqueles festejos e ainda um causo, narrativa curiosa acerca de uma criança, que de um estado de calma passou à condição de endiabrada, só porque foi batizada com o nome de Malaquias. Narrou que: um recém-nascido foi levado à pia batismal. No colo da madrinha o padre perguntou qual seria o nome do menino. A mãe respondeu: _ Malaquias. Antes que o padre prosseguisse, o bebê entrou em desespero incontido, remexendo demais. Gritava, esperneava, pulou do colo, rolou no chão e saiu correndo mundo afora sem poder ser alcançado. Desapareceu. Malaquias é nome do capeta, acreditaram. Daí ficou a crença que não se deve batizar uma criança com esse nome...

Curiosamente, em São João del-Rei, uma estrofe de calango, cantada pelo sanfoneiro Luís Carlos Rosa ("Luisinho", 2012), diz expressamente:

"Fui chamado no inferno,
pra cantá com Malaquia,
cantei sexta, cantei sábado,
e domingo até mei' dia.
Quando foi segunda feira
perguntei se ainda queria..."

Mais uma vez o nome hebraico de profeta mensageiro aparece associado ao mal. 

A saudosa Donira, em 1995. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.  

                                                                               Notas 

- Revisão: 03/04/2025. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Festa do Rosário em Ibituruna

            Concluiu-se este final de semana a animada Festa de Nossa Senhora do Rosário da cidade de Ibituruna. Com uma extensa programação em pleno inverno junino, incluindo comemorações aos santos do mês, preces preparatórias, celebrações, levantamento de mastros (quatro, sendo dois do Rosário, um de São Benedito e outro de São Pedro) e uma grande fogueira em honra a São Pedro na noite de 29.
                Dia 30 de junho logo cedo começaram a chegar as guardas de congado visitantes, de diversas cidades vizinhas e mesmo de longe. Foram recepcionadas para o café da manhã e depois de uma visita aos mastros da praça e à bela e histórica Igreja do Rosário, onde a Santa Mãe aguardava no andor enfeitado de flores, o momento da procissão vespertina.

Mastros na frente da Igreja do Rosário.

                As ruas do entorno, com seu casario com belos exemplares arquitetônicos e a praça da matriz de São Gonçalo do Amarante, se encheram de batuques e cores dos diversos congados: VILÃO, de Guarita (Santo Antônio do Amparo), MARINHEIROS, de Vespasiano, CONGOS, de Ibituruna, Itutinga, Carrancas, Três Pontas e São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), CATUPÉS, de Resende Costa (3 grupos), São João del-Rei (4 grupos), Perdões, São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo), MOÇAMBIQUE-JOMBA, de Ibituruna, Bom Sucesso, Santo Antônio do Amparo, Machado (Perdões), Lavras, Macaia (Bom Sucesso), Pedra Negra (Ijaci), Ribeirão Vermelho.

Catupé visitante, de Resende Costa.

                Foi servido um lauto almoço aos dançantes, com o sabor típico do tempero e hospitalidade mineiros. Momento de descontração e congraçamento.
                Pelo meio da tarde, diante da Igreja do Rosário foi a vez de se apresentar o grupo “Pilão de Inhá”, do Caquende (distrito de São João del-Rei), com diversos números culturais de procedência rural entre os quais a Dança do Pilão.

Apetrechos do grupo Pilão de Inhá.

                Enquanto isto, os congadeiros desceram para a parte baixa da cidade para recolher os reis e rainhas e voltaram num vistoso cortejo trazendo outrossim o andor de São Benedito. Esteve também presente a Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo, de São João del-Rei, que trouxe o Imperador do Divino, também escoltado pelos congados.

Congados descem em cortejo para recolher o reinado.

             Na chegada à praça teve lugar três apresentações do grupo de Vespasiano, com arcos floridos, com bastões e com o pau-de-fitas (dança).
               O Reinado foi entregue na igreja para a chamada. O povo lotou o largo em burburinho, circulando pelas muitas barraquinhas e entre vendedores ambulantes.
                Mais tarde, a procissão ganhou as ruas sacralizando o espaço público.
             Ibituruna goza a fama de ser o mais velho povoado mineiro, estabelecido no remoto 1674, pela bandeira do memorável Fernão Dias Paes. Estacionou com sua gente naquela paragem, enquanto o “tempo das águas” (estação chuvosa) não passava. Ibituruna (topônimo indígena que significa "serra negra") é  banhada pelo outrora piscoso Rio das Mortes, ali já avolumado pela confluência de outros fluxos menores. É rodeada de matas exuberantes e tem um contorno serrano esplêndido. Nesta terra Fernão Dias plantou roçados e deixou sua marca indelével.
                A cidade foi no passado não tão distante um dos pontos de estação ferroviária da Maria-fumaça na famosa bitola 0,76 metros, da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). Erradicados os trilhos, o prédio permanece atestando a nostalgia de um tempo lamentavelmente perdido. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli