Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 11 de novembro de 2012

Grupos culturais diversos presentes no Jubileu do Divino (1998-2025)

JUBILEU DO DIVINO - Bairro matosinhos - são joão del-rei/mg

manifestações da cultura popular (gRUPOS CULTURAIS)

GRUPO

PROCEDÊNCIA

ORGANIZADOR (A)

ANO

Folia de Pastorinhos

Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa)

Antônio Lisboa de Assis

1999

Folia de São Sebastião

Bairro Cerrado, São Tiago

Vicente José de Sousa

2001

Folia de São Sebastião

Restinga de Cima (Ritápolis)

José Mário

2004-2005

Folia de São Sebastião

Barreiro (Coronel Xavier Chaves)

Francisco Eduardo Jaques

2011

Folia de São Sebastião

Coqueiros (Nazareno)

Celso Antônio da Silva

2014-2015

Folia de Reis

Paiol (Ibertioga)

José Aparecido da Silva

2002, 2004

Folia de Reis

Barroso

Antônio Francisco dos Santos

1999

Folia de Reis

São Tiago

2010

Folia de Reis

Arame (Lagoa Dourada)

2014

Pastorinhas

Bairro Vargem de Baixo (Tiradentes)

Ana de Meneses

1999

Pastorinhas

São Tiago

Antônia Geralda São Tiago

2001

Pastorinhas

Águas Férreas, Bairro Tijuco, SJDR

Júlia Maria de Lacerda

2001-2009

Dança das Fitas [1]

Centro, SJDR

Celina de Fátima N. Viegas

1998, 2000

Dança das Fitas [2]

Bairro Matosinhos, SJDR

Maria Celeste Gomes Agostini

1998-1999, 2001-2005

Cristina, Sandra, Elizabeth Muffato

2006-2007

Quadrilha “Arraiá dos Fundo” [3]

Vila Mendes, Coronel Xavier Chaves

Rosnei José Silva

1999

Calango [4]

participantes avulsos de vários grupos e localidades

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1998, 2001-2003

Cavalgada do Divino [5]

São João del-Rei

Sônia Coelho [6]

1998-1999

Josino Inácio do Nascimento [7]

2000

Damião Guimarães [8]

2001-2002

Josino Inácio do Nascimento [9]

2003-2013

Fernando[10]

2014

José Luís[11]

2015

 

Folia de São Sebastião, Bairro Cerrado, São Tiago/MG,
2001, na Festa do Divino de Matosinhos, São João del-Rei.
Foto: João Hipólito. 

Folia de Pastorinhos, Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa/MG),
1999, na Festa do Divino de Matosinhos, São João del-Rei.
Foto: Lenice Fátima de Carvalho Santos.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: conforme legendas. 

Notas

- Revisão: 23/11/2025. 

[1] - Grupo organizado no âmbito do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier.
[2] - Grupo organizado no âmbito do Centro Educacional Construir, antes sediado no SESI e mais tarde na Rua Barão de São João del-Rei, na Vila Santo Antônio.
[3] - Apresentou-se no Centro Social e Cultural da Paróquia, após a “Missa das Comunicações”, um domingo antes de Pentecostes, mas já dentro das atrações da novena.
[4] - Em 1998 durante o almoço, no salão; nos demais anos no coreto, após a última folia, no sábado.
[5] - Em Pirenópolis / GO, existe um grupo de cavaleiros que acompanha os foliões pela zona rural. 
[6] - Vice-coordenador: Luthero Castorino da Silva, que se fazia acompanhar por uma sanfona, tocando e cantando nas paradas uma toada de folia do Divino.
[7] - Vice-coordenador: Damião Guimarães.
[8] - Vice-coordenador: Maria Aparecida de Salles (2001) e Josino Inácio do Nascimento (2002).
[9] - Sem vice daí por diante. Josino participa desde a primeira cavalgada, inicialmente como ponteiro.
[10] - A cavalgada saiu do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno rumo ao campo do Siderúrgica, na Avenida Santos Dumont.
[11] - A cavalgada saiu da Avenida Santos Dumont e retornou para o mesmo local.  

Enaltecendo os Foliões

A tradição das Folias de Reis [1]


Com a aproximação do período natalino, já se ouvem os ecos de uma centenária tradição, as Folias de Reis. “De rua em rua, de porta em porta”, como diz um canto folclórico, levam às residências dos devotos a mensagem de paz e esperança nitidamente contida no nascimento de Jesus.

Vem de uma antiga prática européia, o costume da cultura popular de cantar nas casas versos que descrevem a natividade, a visita dos magos e pastores, com ou sem representação dramática, assumindo diferentes aspectos e nomes conforme o país ou região: Sternsinger (Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Áustria, Alsácia), Vilancicos (Península Ibérica), Pastoradas, Reisadas, Janeiras (Portugal), Noel Christmas (Inglaterra), dentre outros. França, Itália, Romênia, igualmente conhecem esses cantos.

O Brasil recebeu matrizes européias (sobretudo ibéricas) que ainda no período quinhentista foram representadas nas áreas litorâneas, nos redutos de catequese jesuítica e, mais tarde, adentraram-se pelo imenso interior. Em cada região, sob as influências locais, tomaram outras formatações, mais ao gosto nacional.

Eis que o brasileiro não se satisfez em imitar o canto natalino europeu. Adaptou-o com criatividade, acrescentou os personagens regionais, figuras provincianas e seres mitológicos, enriquecendo sobremaneira o modelo europeu. Já então, pode-se afirmar sem dúvidas que a Folia de Reis assim como outros Reisados do nosso país são expressões legítimas de nossa cultura popular, que vão encontrar nos cantares europeus apenas o seu arquétipo. Em outras palavras, não há na Europa uma folia como a nossa.

Debaixo desse ufanismo, não me resta senão enaltecer a qualidade desses homens folieiros, que por exclusividade de sua fé e apego à tradição, vem mantendo por anos a fio os grupos de Folias de Reis. Bancam suas despesas em geral, uniformes e instrumentos. Do poder público as poucas folias remanescentes não encontraram ainda o reconhecimento que lhes é devido e que tanto anseiam.

Com as ofertas recolhidas em sua jornada de devoção fazem muita obra de caridade. Sempre reafirmo o respeito e honestidade dos folieiros.

Noutra vertente, sugiro que se dê ao longo do ano uma maior atenção nos bancos escolares a esta como também a outras manifestações folclóricas, não apenas por volta do 22 de agosto, “Dia do Folclore”. Em caso contrário é como só cuidar da árvore no Dia da Árvore, ter patriotismo apenas nas comemorações cívicas e assim por diante.

Aproveito o ensejo para anunciar a Festa de Santos Reis a se realizar no próximo dia 4 de janeiro na Igreja Matriz da Imaculada Conceição, na Colônia do Marçal, com extensa programação a partir das 10 horas, quando vários grupos se encontrarão em clima de fraternidade, culminando com procissão e Missa Reiseira.

*  *  *

Folia de Reis, São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei / MG). 
Folião: Lourival Amâncio de Paula. 
Encontro de Folias no Largo do Rosário, promovido pela Atitude Cultural. 

* Texto e foto (06/01/2010): Ulisses Passarelli
** Obs.: esta foto não fazia parte da publicação original deste texto no jornal Gazeta de São João del-Rei.


[1] - In: Gazeta de São João del-Rei, n.537, 13/12/2008

Grupos parafolclóricos, de inculturação e outros

JUBILEU DO DIVINO ESPÍRITO SANTO: 1998-2010

Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei / MG

PRESENÇA DE GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS, DE INCULTURAÇÃO E OUTROS

GRUPO

PROCEDÊNCIA

ANO

Grupo de Inculturação Afrodescendentes Raízes da Terra 

Bairro São Geraldo, São João del-Rei

1998-2009

Grupo de Inculturação São Benedito 

Comunidade São Sebastião, Bairro de Matosinhos

2003-2005

Grupo Frutos do Rosário 

Bairro São Dimas,

São João del-Rei

2000, 2002

Quilombo de São Benedito 

Comunidade São Sebastião e São Benedito, Av. Santos Dumont, Matosinhos

2010

CONEC

Coronel Xavier Chaves

2010

GIRB 

Barroso

2010

Grupo de Danças Portuguesas Luís de Camões 

Juiz de Fora

2001

Associação de Congado Santa Efigênia 

Bairro São Geraldo,

São João del-Rei

2002-2003,

2006

Grupo HULMA 

Bairro Dom Bosco,

São João del-Rei

1998

Renovação Carismática Católica

Paróquia de Matosinhos, São João del-Rei

1998-2003, 2006

Coral Coroinhas de Dom Bosco

Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei

1999-2010

Grupo Mucambo  

São João del-Rei

2004-2007

Grupo Àbáfu 

São João del-Rei

2007-2010

Capoeira 

São João del-Rei

1998-2007

Capoeira “Muzenza” 

Vila Santa Terezinha (Matosinhos)

2006-2010

Fundação Internacional de Capoeira “Artes das Gerais” 

Vila Santo Antônio (Matosinhos)

2006-2010

 

Estandarte da Associação de Congado Santa Efigênia,
Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG, 14/07/2013.


O quadro acima lista por nomes e procedências e enumera os anos de participação de vários grupos participantes nos festejos pentecostais em Matosinhos, nos primeiros trezes anos após a remodelação do jubileu dedicado ao Paráclito. A dominância de presença era dos grupos de inculturação de inspiração na cultura popular e sobretudo em matriz africana. Posteriormente estes grupos deixaram de estar presentes. Em contrapartida, o Coral Coroinhas de Dom Bosco continua a ser uma presença assídua, praticamente todo até o presente (2025). Apresentações de capoeira na praça, durante a festa, mesmo que oficialmente não estejam incluídas na programação, é também uma presença contínua. A orquestra há muito anos não participa mais e os demais grupos tiveram participações pontuais. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 28/11/2025. 


[1] - Sempre e somente na antevéspera de Pentecostes, na missa inculturada.
[2] - Junto com o grupo Raízes da Terra, na missa inculturada.
[3] - Somente à parte, abrindo o encontro das bandeiras, fazendo a sua entrada festiva até o coreto, ao som da música “A Bandeira do Divino”, tão bem interpretada por Ivan Lins.
[4] - Tinha o nome inicial de “Grupo de Inculturação São Benedito”.
[5] - Quilombo de São Benedito, CONEC e GIRB animaram a missa inculturada de 2010 em substituição ao Grupo Raízes da Terra.
[6] - Imediatamente antes da missa solene, no aguardo da chegada do cortejo imperial à matriz.
[7] - Participou da missa inculturada em 2002-2003, trazendo a corte do bairro São Geraldo para dela participar: rei congo, rainha conga, príncipe, princesa, imperador, imperatriz, pajens. Em 2006 veio sem a corte, mas apenas com o rei congo e acompanhando o grupo Mucambo, participaram do cortejo imperial como se fossem mais um grupo de congado, situação questionável à luz das recomendações mais recentes dos folcloristas, com respeito ao relacionamento de grupos folclóricos e parafolclóricos.
[8] - Na missa de sexta-feira. Não houve nesse ano missa inculturada.
[9] - Grupo de percussão coordenado por André Luiz Mendes Pereira.
[10] - Grupo de percussão coordenado por Carlos Inácio Rodrigues Misságia, Alex Xavier Nascimento e José Francisco Rodrigues.
[11] - Desde a primeira festa, grupos de capoeira tem se apresentado livremente na praça de Matosinhos no dia maior após o almoço sem registro exato de identificação. Em 2005 ingressam a convite da comissão.
[12] - Instrutores: “Borracha” e “Chaminé”.
[13] - Instrutores: “Conde” e “Juninho”.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Folia do Matatu

Folia de São Sebastião, Matatu (Lagoa Dourada / MG).
Folião e Embaixador João Emídio de Andrade. 1995.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 
** Obs.: o nome da localidade é de procedência indígena e significa "a mata escura; a floresta negra", segundo Teodoro Sampaio (in: O Tupi na Geografia Nacional, 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. Coleção Brasiliana v.380. 359p. p. 281.)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Procissão de Santos Reis


Flagrantes da Procissão de Santos Reis, na Colônia do Marçal, São João del-Rei/MG, com a presença da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz da Imaculada Conceição e de vários grupos de folias de Reis convidadas. Fica consignada nesta postagem minha homenagem sincera ao Padre Antônio Claret Albino, pároco daquela igreja que a abriu um grande e consciente apoio aos nossos irmãos folieiros.

 * Texto e fotos (jan.2009): Ulisses Passarelli. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Lenheiras

Foto 1: lenheiras.

Foto 2: lenheiras.

Lenheiras, desenhadas à caneta esferográfica por meu avô materno Aluísio dos Santos ("Ló") - in memoriam - a 26/01/1995, numa folha pautada de caderno (foto 1) e no verso de um envelope de cartas (foto 2). A figura humana das mulheres carregadeiras de lenha era comum outrora, vinculada à paisagem rural e mesmo suburbana do município de São João del Rei / MG e vizinhanças. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

domingo, 4 de novembro de 2012

Folia do Zé Rita

Folia de São Sebastião do saudoso mestre José Rita do Nascimento, do Bairro São Dimas, 
em visita à Rua Antônio de Abreu, no Arraial das Cabeças, Bairro Bonfim, em São João del-Rei / MG. 
Foto gentilmente ofertada para reprodução pelo folieiro "Nêgo".


* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: autor e data não identificados

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Folclore das Almas

Neste Dia de Finados, esta postagem traz à tona algumas tradições sobre as almas, ainda correntes em São João del-Rei e região de entorno imediato, mas que em verdade se fazem cosmopolitas, em cada região com variações específicas. Mero compilado memorialístico do vasto Folclore das Almas, com alguns breves comentários, revela algumas concepções populares, que tem vida independente das doutrinas cristãs formais das igrejas.

As almas se configuram como uma categoria de espíritos em torno dos quais se construiu um complexo mitológico e devocional interativo, de difícil separação. São espíritos ainda humanizados, mais ou menos com suas características sentimentais e psicológicas. Não alcançaram a santidade elevada daquelas agraciadas com a canonização, nem as propriedades fluídicas de força das entidades espirituais dos terreiros, como os guias. Estão em nível intermediário e como tal, estão acessíveis às preces dos fiéis da religiosidade popular. 

As almas podem se apresentar aos vivos em visões mais ou menos fugazes e turvas, ou com grande clareza, a depender da mediunidade da pessoa, ou da necessidade extremada de se comunicar. Ora surgem como uma fumaça ou um vulto mal definido ora com um formato humano, embora logicamente incorpóreas. Assim conservam a fisionomia que tinham quando encarnadas e se apresentam visualmente com as vestimentas, trejeitos e até simulação de objetos pelos quais eram conhecidos. Desta forma são vistas nos sonhos ou mesmo em aparições a qualquer hora, diante da pessoa escolhida. 

Quando não são vistas se fazem anunciar por sons que produzem especificamente para chamar a atenção, como de água saindo de uma torneira que está fechada, baldes e vasilhas domésticas caindo, algo se arrastando, passos dentro de casa, sons de pequenas pedras rolando telhado abaixo, luzes que se acendem sozinhas sem ninguém tocar o interruptor. Animais as avistam normalmente e acusam sua presença pelo olhar espantado ou alegre _ quando conhecida _ e emitem seu latido, miado, relincho... 

Outra forma de se apresentar é pelo cheiro característico de vela queimando, ou melhor, fumegando, quando termina o pavio, mas sem que ninguém no local esteja com vela alguma acesa. 

Aí vem a sensação de arrepio, um ar frio ao redor da pessoa visitada pelo “morto”, o zumbido no ouvido prenunciador de uma mensagem do além, que virá em palavras audíveis ou em um simples entendimento mental. A pele esfria. A alma está ali, lado a lado com a pessoa. Começa abrição de boca, seguidamente: são muitos os bocejos, inexplicáveis, sem que se esteja com sono. Por vezes um leve tremor ou uma contração repentina do ombro, um "saculejo", como se diz. O povo diz intuitivamente: “passa morte, que estou forte!”

Isto é no cotidiano, posto a licença de uma alma vir em breve visita, mostrar alguma coisa que está acontecendo sem que a pessoa o saiba, ou para pedir algo a um vivo: algum feito que faltou em sua encarnação e que se não for cumprido prejudica a caminhada celestial daquele espírito. Trava sua evolução. A dívida espiritual prossegue além-túmulo no cumprimento da justiça divina. Daí correrem estórias de tesouros enterrados, de corpos assassinados e ocultos que foram descobertos pela força de uma visão reveladora, gerada pela alma envolvida que necessita disso ou daquilo para seu socorro próprio.

Toda segunda-feira é dia das almas. Seis horas da tarde (18 horas) é sempre seu tempo. A vela para elas é a branca, de parafina, cera ou espermacete. 

No dia de finados as almas tem licença para vir aos cemitérios e aguardar junto aos túmulos as visitas dos entes queridos. A acorrida aos campos santos é geral pelos humanos, na ânsia de uma proximidade fugaz ou por simples hábito. Em São João del-Rei merece destaque a visita ao túmulo da Jovem Desconhecida, no Cemitério do Quicumbi, à qual se atribui o título de taumaturga. Tal sepultamento trata-se de um caso policial misterioso, nunca foi elucidado. Uma mulher jovem foi encontrada no matagal em 1970, em estado de decomposição. Não foi identificada. O crime chocou a então pacata sociedade são-joanense. O povo lhe atribuiu o poder do milagre e logo condecorou o seu espírito com a fama de taumaturgo. A visitação ao túmulo, intensificado a cada Finados, é muito grande e sobre ele sempre há flores, velas, pedidos e orações, manuscritas ou impressas. 

Mas em dias corriqueiros as almas só se manifestam rapidamente por uma concessão superior, ou do contrário, se não se libertaram de suas intensões mundanas tornaram-se penosas, ou seja, vagam sem rumo ou permanecem junto aos tesouros que juntaram em vida como se dele ainda fossem dependentes e guardiãs. E isto representa um sofrimento. São elas que assombram, intimidam em velhos casarões coloniais, em porteiras empenadas que rangem e batem sozinhas, nos antigos cruzeiros diante dos quais estacam mulas-sem-cabeça, bafejando chispas, após desenfreada correria; em porões tenebrosos estão as almas, nas esquinas sombrias, pelas encruzas dos caminhos ermos. 

Se uma alma dessas se mantém no âmbito da vida cotidiana de um ser humano se torna para ele um fardo, prejudica-o, torna-se um obsessor. Não se deve rezar para as almas dentro de casa de forma alguma, nem por alguém muito próximo que partiu, pois sua alma tende a permanecer dentro daquela casa. Rezar para as almas é de fora, "no tempo" (externamente), no quintal. 

A alma penada não está no céu, tampouco no inferno, muito menos no purgatório, limbo ou umbral. Permanece presa na Terra, teimando em permanecer apegada ao material ou impedida de seguir para outro plano por suas transgressões, até que se arrependa. O conceito folclórico de alma penada, ainda que tenha nuances próprias, faz lembrar por analogia o que se chama em alguns terreiros de umbanda, quimbanda e candomblé de egum, mas não é plano deste breve texto enveredar neste paralelo.

Em oposição às almas penadas estão as almas do purgatório, que estão sofrendo por suas faltas, mas que já foram resgatadas do plano terrestre e que, aprisionadas no dito purgatório, dele se libertam para a luz de Deus graças às nossas preces em seu favor, especialmente as intermediadas por São Miguel Arcanjo (“Condutor das Almas”) e Nossa Senhora do Carmo, que são os mais capazes de resgatá-las. Dessas preces se ocupa de forma especial o conhecido rito da Encomendação das Almas.

Dentre as almas do purgatório estão as chamadas “aflitas”, termo empregado àquelas que mais sofrem por estarem mais em profundidade no castigo, com precisão de socorro imediato. Para elas são dirigidas orações dos aflitos terrenos, numa relação de troca, prometida a prece por uma ação movida por elas. Colocar as almas aflitas no encalço de alguém que está, por exemplo, devendo algo, até que venha pagar, dá ao devedor uma tremenda e insuportável aflição: o sujeito fica acelerado, nervoso, ansioso. Não dorme bem, não come direito, tudo dá errado até que se lembre da dívida e pague. Aí o promesseiro terá de pagar a conta com as almas _ velas, rezas, missas em favor de _ ou terá a aflição voltada para si. 

Em outra categoria estão as almas já recuperadas, que tem condições de ajudar os humanos, sem atrapalhar nada em sua vida: são as almas chamadas de benditas, sabidas, entendidas e encaminhadeiras. Por elas pedem os devotos das almas, como se roga a intervenção de um santo. 

Seja como for a concepção popular diz que jamais devemos esquecer os mortos pois ensina-se que em verdade estão vivos na espiritualidade e de lá nos avistam e acompanham, choram por nosso esquecimento e se alegram com nossa boa consideração. Se os esquecermos, também quando lá chegarmos seremos esquecidos pelos da Terra e a penúria da solidão recairá sobre nós.

Cemitério do Caburu. (São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei / MG). 

Créditos

- Texto e fotografia (2011): Ulisses Passarelli.

Notas 

- Sobre as categorias de almas ver também a postagem CAPITÃES DE AREIA.
- Revisão: 25/08/2025. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Congado de Barroso

Congadeiros de Barroso / MG, na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, em São João del-Rei.
Capitão: Antônio Francisco dos Santos, batendo o tamborim.

* Texto e foto: Ulisses Passarelli, 18/08/1996.