Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 6 de agosto de 2016

Quadrinhas de amor - parte 5

Dando seguimento à série de exposição da coletânea de trovinhas românticas, o blog apresenta mais uma postagem com cinquenta quadras populares. Até cerca de duas décadas ou pouco mais faziam parte do galanteio, escritas em cartas e bilhetes enviados aos pretendidos, numa época que não se dispunha de recursos eletrônicos como hoje, nem redes sociais e mecanismos de mensagem digital. As jovens colecionavam trovas anotadas em cadernos próprios, reserva para o uso na ocasião propícia. 

Nas outras edições desta temática, lincadas ao final desta postagem o leitor se depara com outras coletâneas de quadras e de informações complementares sobre este assunto. 


Sentadinha na graminha,
Da sua casa na minha
Molhadinha de sereno,
Tem vinte e cinco passadas;
Vou escrever uma cartinha
Se eu não te quisesse bem
Mandar pro meu moreno.
Não trazia elas contadas.


Esta carta vai te ver,
A folha da ... (bananeira, ameixeira, etc.)
Vou também te visitar;
De tão verde amarelou;
Como não posso ir
A boca desse menino,
Mando ela em meu lugar.
De tão doce açucarou.


Vai cartinha venturosa
Coqueiro tão alto
Por esse caminho sem fim,
Tá correndo ouro na ponta;
Vai ver se meu amor
Os olhos desse moreno
Ainda gosta de mim.
Tá correndo por minha conta.


Quando essa carta chegar
Encosta na parede
Em suas mãos de marfim
Que a parede larga pó;
Você olha no galho de flor
Encosta no meu peito,
Dá um suspiro pra mim.
Que eu sou firme a você só.


Pega aqui na minha mão
Não quero sua camisa
Vou te dar meu desengano;
Nem o seu botão do peito;
Peço a Deus que você seja
Quero só que você dê
Meu amor por muitos anos.
A sua mão direita.


Bota fogo na fundanga
Da roseira nasce a rosa,
Tira esse mal de mim;
Da rosa nasce o perfume;
Numa fumaça que sobe,
Do perfume nasce o amor,
Traz meu amor pra mim. [1]
Do amor nasce o ciúme.


Escrevi seu nome na areia,
Do céu quero a estrela,
A onda veio e apagou;
Da terra quero a flor,
Escrevi que te amo,
De você quero um beijo
Você veio e me beijou.
Dado com muito amor.


Esta noite eu tive um sonho,
Você disse que me amava,
Na praia do mar sereno,
Um dia tão gentil;
Sonhei que estava beijando,
Pena que aquele dia
Um lindo rosto moreno.
Era primeiro de abril. [2] 


Na folha da bananeira
Teu olhar me domina
Seu nome vou escrever
Teu rosto me deixa louca,
Se eu não for feliz contigo
Teus lábios me adormecem
Com outra não quero ser. [3]
Com um só beijo na boca.


Se você ama a Deus
Dos pássaros da mata
Que morreu por tanta gente,
O mais lindo é o beija-flor;
Porque não ama a mim
Da casa da minha sogra,
Que morro por ti somente.
O mais lindo é o meu amor.


Neste dia de festa
Desde que te conheci
Se quiseres ser feliz,
Começou meu sofrimento,
Me dê um beijo na testa
Pois seu rosto encantado
Ou debaixo do nariz.
Não me sai do pensamento.


Um dia você me deu o fora
O teu sorriso é lindo
Pensando que eu choraria,
Só me traz felicidade
Não choro por pai e mãe
Por viver longe de ti
Vou chorar por porcaria... [4]
Vivo sempre com saudade.


Brilham cinco estrelas no céu
Todo amor que morre
Brilham cinco rosas no jardim
Me deixa sem ar,
Brilham mais seus olhos
Todo amor que começa
Quando olham para mim.
Me ensina a respirar.


Deitado na cama
Amo e não sou amado,
Teu lindo nome escrevi
Quero e não sou querido,
Soletrando letra por letra
Mas um consolo tenho
Sorrindo adormeci.
Amo e não sou fingido.


Quando o céu da imensidade
Quando eu te amava
Cobre a tarde da beleza
Era a flor do meu canteiro.
Vê-se a imagem da saudade
Agora, que te odeio,
Sobre o altar da natureza. [5]
É o porco do meu chiqueiro...


Amo uma linda menina
Queria ser um cigarro
Que tanto me faz sofrer
Para seus lábios encontrar
Meu maior desejo
Mas como não sou
É nos braços dela viver.
Quero seus lábios beijar.


Felicidade, meu bem,
A paixão e a saudade
É tudo que agente sente,
São duas fiéis companheiras:
Quando gosta de alguém
A paixão dura pouco,
Que também gosta da gente.
A saudade, a vida inteira...


Sou jovem criança
Quem ama sofre calado
Que neste mundo apareço
Ocultando sua dor;
Amar e não ser amado
Não há silêncio mais lindo
Isto não mereço.
Que o silêncio do amor.


O cravo também se muda
Amo a rosa branca
Do jardim para o deserto
Que nasceu em teu jardim;
De longe também se ama
Amo tua mãe querida
Quem não se pode amar de perto.
Que criou você pra mim.


Meu caro beija-flor,
O sol prometeu à lua
Que mora na pedra oca:
Uma fita com dois laços,
Toda menina bonita
Eu prometo a você
Merece um beijo na boca.
Muitos beijos e abraços. [6]


Se o dia escurecer
O coração é ingrato,
E a tarde chover
Só faz aquilo que sente,
Lembre-se que são meus olhos
Faz agente gostar
Que choram por não te ver.
De quem não gosta da gente.


Eu não quero mais amar
O mundo não é dois mundos,
Pois faz a gente sofrer;
O céu não tem várias cores,
Pois aquele que a gente ama
Quem te deu um coração,
Nunca sabe agradecer.
Não pode ter dois amores.


Sei que você não me quer
Sua boca é pequena
Sei que você não me ama,
Tão pequena e singela
Mas quero que seja feliz
Eu não sei como cabe
Nos braços de quem te ama.
Tantos beijos dentro dela.


Da amizade ao amor,
O jasmim para ser gostoso
Do amor à saudade,
Tem que ser pesado,
Da saudade à tristeza
O beijo para ser gostoso
De quem ama de verdade.
Tem que ser demorado.


Sua boca é uma rosa
Quer saber meu nome,
Seu nariz é um botão,
Vá à noite no jardim.
Dentro dos teus olhos tem um laço
Meu nome está escrito,
Que prende meu coração.
Numa folha de jasmim.


Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Agradecimento especial: Cida Salles, pela cessão do caderno com anotações das quadras, colhidas em Santa Cruz de Minas entre 1994 e 1996. 
*** Veja também neste blog as outras postagens desta série clicando nos links abaixo: 

QUADRINHAS DE AMOR - parte 4




[1] - Fundanga: o mesmo fundenga, pólvora. Esta quadra nitidamente é uma referência a rituais de terreiro. Nalgumas casas de umbanda usa-se queimar pequena porção de pólvora, quase sempre polvilhada sobre um ponto de entidade riscado no chão, com o intuito de descarregar as energias mais pesadas e negativas que acompanham o consulente. Enquanto a fumaça da queima sobe, o sujeito da trova faz seu pedido.
[2] - Primeiro de abril: tradicionalmente conhecido por Dia da Mentira, quando se usa pregar peças, contar pequenas mentiras por divertimento, armar situações supostamente verdadeiras só por gracejo.
[3] - Esta quadra é um tanto mais rara por se referir a um desejo do homem, muito embora facilmente adaptável para uso feminino. Na imensa maioria o escrito parte da mulher.
[4] - Trova de amor do grupo dos desencantos, desilusões, relativamente numerosas. Algumas são chulas e sarcásticas, senão mesmo, ácidas. “Dar o fora” é rejeitar (expressão popular).
[5] - Rima incomum nas trovas populares: ABAB (rima alternada, cruzada ou entrelaçada) enquanto a imensa maioria adota o esquema ABCB (rima misturada). É visível a influência erudita na forma e no enunciado, absorvida na mesma funcionalidade.
[6] - A poesia popular romântica considera o sol e a lua namorados desencontrados... um surge no céu, outro se vai. 

sábado, 3 de outubro de 2015

Trovinhas bem humoradas e outras quadras populares - parte 2

Um campo riquíssimo para a pesquisa do folclore é o universo da poesia popular, seja por sua imensa vastidão e variedade, seja por refletir com muita transparência e simplicidade os sentimentos e os costumes. Muitas vezes numa humilde trova encontra-se a referência que serve de pista ao pesquisador para enveredar mais a fundo num assunto, que rende certamente um estudo.

Este blog já tem se dedicado ao assunto tendo publicado quatro postagens da série “Quadrinhas de Amor”, uma Quadrinhas do Elvas e uma Trovinhas bem humoradas e outras quadras populares, que ora apresentamos a segunda parte.

Na mesma linha da parte 1, vê-se neste novo conjunto a pronúncia popular naturalmente estropiada nessas quadras, o que contribui para lhes ajustar a métrica, conferir uma verve típica e até mesmo a sonoridade necessária à rima: “véia” (velha), "trabaiadô" (trabalhador) “ôtra” (outra), “cumê” (comer), “armoço” (almoço), “bença” (bênção), “falá” (falar), “farejá” (farejar), “arto” (alto), “valô” (valor), “papé” (papel), “votá” (votar), “surjão” (cirurgião), etc. Da mesma forma os plurais são omitidos: “os olho”, “as veia”, “sete palmo”, “sete mês”, “cinco ano” ...  A palavra “cagô” (cagou), assaz conhecida, é o termo chulo equivalente a defecou; “dentadura” é prótese dentária total removível.

Surgem também os chamados versos-feitos, ou seja, composições fixas que aparecem para compor várias peças do refraneiro. “Lá detrás daquele morro...” , por exemplo, é empregado em várias trovas populares em variações, de extensa ocorrência geográfica. Outros exemplos de versos-feitos: “Ninguém viu o que eu vi hoje”; “Quando eu vim da minha terra”...

Entre o conjunto de quadras incluiu-se um único terceto (nº4). A justificativa é unicamente por fazer par com a trova nº3, com a qual guarda similitude e aparente continuidade.

A quadra nº1 tem ares de ponto, no estilo de pergunta, enigmática e provocativa.

A de nº5, bastante difundida, possui algumas variantes, uma das quais substitui “jatobá” por “manacá”.

Há de se observar que as composições muitas vezes ironizam situações cotidianas (“eu ontem comi no almoço”), brincam com a própria sorte (“fui um homem inteligente”), falam de personagens imaginários (Sá Chiquinha; seu Manuel Antônio...), zombam do próprio amor (“menina, se tu soubesse” ; “menina, casa comigo”), nada porém com cunho discriminador, mas sempre com ar hilário, no contexto da cultura popular.

Por fim é curioso notar as duas últimas peças, coletadas em Santa Cruz de Minas que motejam São João del-Rei, duas cidades extremamente vizinhas. As duas quadras revelam uma rivalidade da primeira urbe para com a segunda: a disputa feminina sobre namorados roubados e o desenvolvimento econômico são-joanense à época da coleta, confrontado com outras cidades regionais como referência.

Seja como for, ainda que aparentemente disparatadas, essas quadras revelam em seu intrínseco ou em seu panorama, a sabedoria e bom humor popular na composição lúdica de trovas avulsas, independentes, anônimas, que se difundem pela oralidade ou anotadas manuscritas em cadernetas e cabeçalho de páginas escolares. No todo transmitem mensagens coletivas e conselhos, ou apenas brincam com a vida, divertem com seu humor de delicioso sabor provinciano, por vezes, chulo.

*  *  *

1-Eu sou filho da caninana,
2-Lá vem Sá Chiquinha,
Neto da cobra-corá,
Rouca, sem poder falar,
Cachorro sem nariz
Trazendo na barra da saia,
Como pode farejá ?
Quarta e meia de fubá ...


3-Seu Manuel Antônio de Sousa,
4-Seu Manuel Antônio Saturnino
Que veio lá do surjão,
Pela cara que tem
Tira esse cará da garupa,
Tem os olho pequenino.
Que isso é mandioca do chão.



5-Lá detrás daquele morro
6-Meu amigo quando come,
Tem um pé de jatobá
Incha as veia do pescoço,
Quem comer,
Parece um cachorro velho
Dá muxiba no mamá...
Quando tá roendo osso.


7-Duas velha muito velha,
8-Lá no alto daquele morro,
Duas velha saragota
Tem um pé de samamabaia;
De tanto falar em casamento
A mulher deu um peido,
Uma velha cagô na outra...
Rebentou o cordão da saia...


9-Ninguém viu o que eu vi hoje,
10-Quando eu vim da minha terra
Lá no alto daquele morro:
Minha mãe disse: “vai, vai!”
Sete palmo de linguiça
Toma a bença a todo mundo,
Correndo atrás de um cachorro.
Que eu não sei quem é teu pai...


11-Eu ontem comi no armoço,
12-Eu já fui homem inteligente,
A Azeitona de uma empada,
Quase que tirei meu curso...
E coloquei o caroço
Do primeiro pro segundo ano
Sobre a toalha engomada.
Da escola fui expulso.


13-Eu nasci de sete mês
14-Eu não conheci meu pai,
Mesmo assim fui bem criado;
Mesmo assim fui bem criado;
Com idade de quinze ano,
Com idade de cinco ano,
Fui eleito deputado.
Fui votá pra deputado.


15-Alecrim verde cheira muito,
16-Preto é tinta que se escreve
Ele seco cheira mais;
Pra dá valô o papé;
A mulher que fia em homem,
Preto é o cabelo da Virge
Morre seca, dando “ais”...
E as barba de São José!


17-A mulher mais as galinhas
18-A mulher velha
Não se deixa passear:
Quando quer dançar um tango
As galinhas o bicho come,
Fica igual uma raposa,
A mulher dá o que falar...
Quando quer pegar um frango.


19-O marmelo é boa fruta,
20-Menina quando eu morrer,
Que dá na ponta da vara;
Vai na cova me adorar,
Mulher que chora por homem
Para ver o teu corpinho
Não tem vergonha na cara.
Faz o meu ressuscitar.


21-Menina casa comigo
22-Menina dos olhos pretos
Qu’eu sô bom trabaiadô,
Cor da linha do retrós,
Com chuva num vô na roça,
Põe a chaleira no fogo,
Com sole também num vô... 
Pra fazer café pra nós.


23-Menina, se tu soubesse,
24- Os jovens beijam devagar
Quanto eu estou te querendo,
Para sentir a doçura,
Eu queria te ver morta
Os velhos beijam depressa
E as formigas te comendo...
Para não cair a dentadura ...


25- Se você está namorando,
26- Juiz de Fora deu um grito
Guarde dentro do baú
Barbacena respondeu;
Que as mulheres de São João
Tiradentes tá doente,
É pior que urubu ...
São João [del-Rei] já morreu ...


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Informantes: quadras 1 a 22 – Aluísio dos Santos (1994-1997), São João del-Rei; 23 – Luthéro Castorino da Silva (1998), São João del-Rei; 24 a 26 (1999), Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas.
- Revisão: 28/10/2025.
- Veja também a série: 

Quadrinhas de Amor - parte 1 
Quadrinhas de Amor - parte 2
Quadrinhas de Amor - parte 3
Quadrinhas de Amor - parte 4


domingo, 29 de março de 2015

Trovinhas bem humoradas e outras quadras populares - parte 1

Há tempos este blog lançou a série "Quadrinhas de Amor", com quatro postagens. Durante a seleção daquelas trovas, apareciam também algumas de outras temáticas. Eram anotadas à parte e renderam a presente postagem, não tão romântica, mas certamente bem humorada, muito embora o tema do amor não esteja de todo ausente. Outros assuntos também perpassam as composições, muitas usando de verso-feitos, comuns a várias trovas: "Quando eu vim da minha terra", "Eu entrei pro mar adentro", "Lá do céu caiu um cravo", etc.

A autoria segue em desconhecido. Não identificada, supõe-se que seja anônima, ou pelo menos, o uso as fez assim. A oralidade as transmite, altera, extingue e renasce, mescla e constrói, mutila e sara. Eventualmente podem ser trecho de uma sequência maior, perdida ou desinteressada em sua função original. Ou, tão somente, fragmento de um canto, um excerto poético. Uma vez em uso folclórico tornam-se folclóricas. Patrimônio oral, advindo da cultura popular.

São cinquenta e quatro quadras independentes, correntes em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, provenientes de variadas fontes, colhidas durante os anos noventa do século XX. Em trinta notas de rodapé surgem informações complementares e explicações breves. 

Eis a sequência. 

*  *  *

Eu entrei por mar adentro
Lá do céu caiu um cravo
Pra brigar com os inglês [1]
De tão alto desfolhou;
Bebi chumbo derretido
Quem quiser casar comigo
Rotei bala nove mês.
Vai pedir quem me criou.


Borboleta pintadinha [2]
Fui no céu contar estrela,
Que pintou Nossa Senhora
Só a do Norte separei;
Eu quero que tu me pinta
É por ser o mais bonito,
O braço dessa viola.
Só contigo casarei [3].


Subi na corda da chuva,
Eu não caso com viúvo,
No estrondo do trovão,
Que viúvo viuvou;
Desci na corda da chuva,
Não estou pra criar pinto
Com dois coriscos na mão [4].
Que outra galinha criou... [5]


Abaixa-te, limoeiro,
Santo Antônio Pequenino
Quero apanhar um limão,
Tinha os olhos de velhaco;
Quero tirar uma mágoa
Namorou Santa Luzia
Que está no meu coração [6].
Espiando pelo buraco [7].


Tenho o meu dentinho de ouro,
Quando eu era soldado
Adornado de marfim;
Meu chapéu era boné,
As moças, nasce pros moços,
Vestido de amarelo
Os moços, nasceu pra mim... [8]
Da cabeça até os pés.


Eu mesmo cortei o pau,
No fundo da minha horta
Eu mesmo fiz a gamela,
Tem um pé de beldroega [9],
Eu mesmo namoro a moça,
Tá parecendo com a cara
Eu mesmo casei com ela... [10]
Da minha defunta égua.


Duas velhas muito velhas
Cascavel no barranco
Duas velhas saragota,
Eu pego com a mão;
Ouviu falar em casamento,
Jaracuçu por ser pequeno,
Uma velha cagô na outra [11].
Bainha do meu facão [12].


O padre foi celebrar missa
O padre foi celebrar missa
Na capela de Belém,
Na capela de Santa Rita,
Foi rezar Ave-Maria,
Foi rezar Ave-Maria,
Disse: “Maricas, meu bem!”[13]
Disse: “Marica, bendita!”


Sou filho do meu pai,
Cascavel bateu guizo,
Sou neto do meu avô,
Caninana repicou;
Sou filho do ganhar dinheiro
Quem quiser casar comigo,
Neto do mau pagador.
Vai pedir ao meu avô.


Esparramei feijão de corda
Esparramei feijão-de-corda
Na panela de gordura,
Na panela de feijão,
O feijão é bom sozinho,
O baião é bom sozinho,
Quem dirá baião-de-dois [14].
Quem dirá de dois baião [15].


Minha boca tá pedindo,
Eu não caso com viúvo,
Minha barriga quer comer,
Que viúvo enviuvou;
Cala boca, minha barriga,
Eu não tô pra criar pinto
Deixa a panela ferver.
Que outra galinha deixou [16].


Da banda de lá do rio,
O cego estava escrevendo,
Dá banda de cá meu bem,
O mudo estava ditando;
De baixo do pé de louro,
O surdo muito atrevido,
Doce de laranja tem.
Atrás da porta escutando ...


Vou mandar fazer um banco
No alto daquele morro,
Da raiz do fedegoso,
Passa boi, passa boiada,
Pra sentar os conhecidos,
Um dia passou um homem
Principalmente os invejoso.
Com a calça remendada [17].


Subi na bananeira,
Não me importa que te morda
Pra apanhar jabuticaba
Marimbondo de ferrão,
Veio o dono das laranjas,
Te cutuca no subaco [18]
_ Não me apanha essas goiaba...
E te manda lá no chão...


Quero ser marimbondo,
Uma velha, muito velha,
Mas não quero ser abelha;
Não comia rapadura,
Quero ser marimbondo
Viu falar em casamento,
Que faz a casa na telha.
A danada ficou dura.


Cigana, lê minha sorte,
Sou pequenininha
Qu’eu te dou cinco merréis [19],
Do tamanho de um botão
Depois que tiver lido,
Trago papai no peito
Além de cinco eu dou dez.
E mamãe no coração.


Eu gosto de um rapaz,
Joguei o lenço pra cima,
Mas ele não me dá bola
Para ver onde caía,
Por isto vou me afogar
Caiu no colo de um velho,
Num copo de Coca-cola [20].
Cruz-credo! Ave Maria! [21]


Eu pedi um copo d’água
Moça que casar comigo
Ela trouxe na gamela,
Está servida de marido:
Você deixa a casa fechada
No almoço come pedra,
Qu’eu passo pela janela [22].
Na janta caco de vidro.


Homem que casar comigo
Se eu gostasse de você
Está servido de mulher:
Como gosto de repolho,
No almoço come pedra,
Te mandaria pro inferno,
Na janta o que tiver.
Pro diabo fazer molho.


Camisa sobre camisa,
Namoro na escola
Camisa do mesmo pano,
É uma grande porcaria:
Se você não souber esse ano,
Começa na sala,
Só mesmo eu te contando.
Termina na diretoria.


Antes eu te amava
Na janela do meu quarto
Como um cravo no craveiro,
Tem Jesus crucificado
Hoje te desprezo
Quem roubar meu namorado
Como um porco no chiqueiro.
Vai morrer esturricado...


Com Deus me deito,
Quando eu vim da minha terra,
Com Deus me levanto;
Trouxe faca e facão,
Eu na beirada,
Pra cortar tornozelo,
A negra no canto... [23]
De valentão ... [24]


Minha calça é de embira,
No fundo da minha horta
Suspensório de cipó,
Tem um pé de cai-cai;
Se quiser me namorar,
Quem quiser casar comigo
Olha pela manga do paletó [25].
Vai perguntar meu pai.


Ia passando nesse caminho
Santo Antônio querido,
Ramo verde me chamou;
Vós, de quem sois?
Cala a boca, ramo verde,
Me arranja o primeiro marido,
Nosso tempo já acabou!
Que o segundo, arranjo depois... [26]


Se a perpétua cheirasse,
Batatinha quando nasce,
Era a rainha das flores,
Esparrama sobre o chão,
Como ela não cheira,
Mamãezinha quando dorme,
Ela não tem seus amores [27].
Dá um peido no colchão... [28]


Quem quiser saber meu nome,
Senhora dona da casa,
Não precisa perguntar,
Seus agrados, nem por isso...
Meu nome é ... (fulano)
Tô aqui a tanto tempo,
Residente nesse lugar.
Nem café, nem mata-bicho! [29]


Quem quiser ter bom sono,
O meu chapéu tem três pontas
Há de ser com boiadeiro:
Tem três pontas o meu chapéu,
Tá dormindo, tá sonhando,
Se não tivesse três pontas
Que as vaca tá no terreiro.
Não era o meu chapéu [30].


Créditos

 Texto, pesquisa e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 21/05/2025.



[1] - Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas.  Inglês: é corrente a corruptela "inguileis".
[2] - “Borboleta pintadinha” é um verso-feito, que aparece na composição de várias trovas. Santa Cruz de Minas.
[4] - Chuva de corda: chuva forte vista de longe, aparentando na linha do horizonte o aspecto tracejado, com linhas ou cordas que descem do céu a terra.
[5] - Expressão de rejeição aos futuros enteados.
[6] - Variante registrada na folia de Reis de Belo Horizonte, Bairro Tirol: “Limoeiro, baixa a rama / que eu quero apanhar limão, / pra tirar uma mancha preta, limoeiro, / que está no meu coração.” Fonte: CD Fulias de Minas Gerais, Belo Horizonte, produção Carlinhos Ferreira.
[7] -  Esta quadrinha, com letra idêntica, em julho de 2013 foi cantada no congado da cidade de Barroso/MG, pelo Capitão Antônio Francisco dos Santos.
[8] - A pronúncia corriqueira é adorado (adornado) e dentin’ (dentinho). Variante cantada em congado (São João del-Rei e Santa Cruz de Minas): “Dentinho de ouro... / adornado de marfim, / negro velho gosta de congo (ou de toco) / morena gosta de mim!” (diversas observações em campo, desde 1992).
[9] - Beldroega: erva rasteira, portulacácea, comestível sob a forma de saladas. Corruptela: "budruega". 
[10]  - Quadra muito difundida. Usa-se pronunciar em sentido crítico para exemplificar alguém que louva a si próprio, auto-suficiente, como se fizesse de tudo, do começo ao fim de um processo.
[11] - Informante: Aluísio dos Santos, 1991, São João del-Rei.
[12] - Leia mais a respeito nas postagens sequenciais FOLCLORE DAS COBRAS – parte 1 e FOLCLORE DAS COBRAS – parte 2.
[13] - Duas quadras paralelísticas motejando um padre namorador. Motivo frequente no anedotário popular.
[14] - Não há rima. Parece fragmento de um canto ou poesia maior. Influência da cultura nordestina, com a citação ao feijão-de-corda (por aqui, mais chamado feijão-de-vagem, embora a expressão não seja de todo desconhecida) e baião-de-dois, prato típico da Região Nordeste do país, referente à mistura do arroz com feijão (este com caldo escorrido previamente), recebendo tempero extra e eventualmente pedaços de alguma carne picados no meio.
[15] - Variante ou sequência da anterior.
[16] - Referência de negação a se tornar madrasta.
[17] - Informante: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996. O palhaço da folia de Reis do Arraial das Cabeças, Bairro Bonfim, São João del-Rei, enunciava nas suas chulas: “No alto daquele morro, / passa boi, passa boiada, / também passa o palhacinho / com a sua namorada.” (1993).
[18] - Subaco ou suvaco: axilas.
[19] - Cinco merréis: cinco mil réis. Referência à antiga moeda do país.
[20] - Inf.: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996. Quadra de composição recente usando expressões populares: dar bola – dar atenção, mostrar interesse, compartilhar um flerte; me afogar – afogar as mágoas, concentrar-se na desilusão, lamentar o destino, descarregar as angústias bebendo.
[21] - Inf.: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996. Três anos antes desta coleta, ouvira o palhaço da folia de Reis do Arraial das Cabeças, no Morro do Bonfim, em São João del-Rei, recitar todo jocoso: “Joguei meu chapéu pra cima / para ver onde caía, / caiu no colo de uma mocinha / é isto mesmo que eu queria...” A expressão religiosa “Cruz-credo, Ave Maria” tem sentido de esconjuro.
[22] - Inf.: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996. 
[23] - Paródia com um tradicional ENSALMO, rezado quando se vai dormir: “Com Deus me deito / com Deus me levanto, / na graça de Deus / Divino Espírito Santo.”
[24] - Aqui apresentado como verso de pé quebrado, tem contudo uma variante com outra métrica: “Quando eu vim da minha terra / trouxe faca e facão / pra cortar crista de galo / e topete de valentão.
[25] - Existe a seguinte variante: “Minha calça é de embira, / meu colete é de cipó, / ainda vou tirar taquara / pra fazer um paletó...”
[26] - Esta quadra se prende à crença que atribui a Santo Antônio de Pádua o papel de casamenteiro. Leia a postagem: AS FESTAS JUNINAS E OS TRÊS SANTOS.
[27] - Quadrinha bastante difundida. Foi informada em 1991, pela avó materna do autor, Maria de Carvalho Santos, no Bairro Centro, em São João del-Rei.
[28] - Paródia sobre uma quadra muito parecida, extremamente difundida, exceto pelo último verso que diz “põe a mão no coração.”
[29] - Mata-bicho: aguardente. O sentido da quadra é irônico: o anfitrião está sendo muito educado, cortês, mas efetivamente não ofereceu nada de beber ou de comer.
[30] - Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1998. Talvez se refira ao antigo chapéu tricorne, muito em voga nas últimas décadas do século XVIII e por conseguinte seria uma trova muito antiga.