Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 13

Barriga verde – principiante, inexperiente.

Bicho bom – gíria em processo de desuso, indicativa de pessoa bonita, atraente.

Boa praça – gente boa, de boa índole, prestativo, educado, gentil, bondoso.

Bofe – os pulmões.

Botar as unhas pra fora – revelar a verdadeira personalidade maldosa, antes oculta sob a falsa imagem de bondade.

Cacunda – africanismo: ombros, espáduas. “Carregar na cacunda”: literalmente, trazer o peso sobre os ombros, uma responsabilidade.

Cambota – 1- peça de madeira que compõe a roda do carro de bois, em forma de semi-círculo; 2- cambalhota; reviravolta.

Camelo – traste, tranqueira, bicicleta velha, motocicleta ruim, carro imprestável, pipa (papagaio, pandorga) de má qualidade. “Desceu o morro num camelo danado...” (numa bicicleta velha, por exemplo).

Caminho de São Tiago – a via-láctea; mancha esbranquiçada e alongada visível num céu aberto e sem luminosidade da lua. 

Cangote – pescoço e principalmente a nuca. 

Carretel – a ATM (articulação têmporo-mandibular); o côndilo da mandíbula em sua articulação com a fossa glenóide do osso temporal.

Casa do chapéu – local imaginário que simboliza algo muito longe, ermo.

Chapuleta – grande, volumoso.

Colondria – corja, canalhice.

Com cinco pedras na mão – com agressividade. Brutalmente.

Com um pé atrás – com desconfiança, com cisma. Diz-se da atitude de precaução.

Disgrama – eufemismo de desgraça; coisa muito ruim; tragédia; xingamento para ocasiões de grande contrariedade.

Do diabo pra trás – o pior possível, péssimo, horrível, muito ruim.

É mais fácil nascer cabelo no ovo – expressão usada para indicar algo impossível, que jamais acontecerá.

É mais fácil nascer dente na galinha – idem.

Empaçocado – embolado, denso, farináceo, ressequido.

Enguiço – sujeito de índole rixenta; pessoa que arranja confusão por qualquer coisa.

Enjirizado – “injirizado”, o que tem ojeriza; antipatia, raiva, nervosismo.

Esborrachou – arrebentou, estatelou.

Espigado – comprido, alongado, magro e longo. “Sujeito espigado”.

Está pensando na morte da bezerra (variante: “Esperando a morte da bezerra”) – indicativo de inércia, falta de atitude, ausência de pró-atividade.

Fazer tempestade em copo d’água – fazer confusão por coisa mínima; tumultuar por algo que pode ser resolvido diplomaticamente.

Fuleiro – ordinário, de pouco valor, de má qualidade, insignificante.

Fundo do baú – algo muito velho; lembrança de alguma coisa antiga; rememorar uma situação ou fato que a muito ninguém se lembrava: “tirar do fundo do baú”, expor do passado ao presente.

Guela – garganta, faringe. (A pronúcia é tremada: “güela”). “Pegar na guela”: estrangular, sufocar.

Levou quem trouxe ... – situação de azar, danação; expressão para indicar o momento exato que uma situação se vira para o descontrole.

Mais cacique do que índio – expressão indicativa de que muita gente quer mandar mas não quer ser mandada; local ou situação onde uma autoridade não se impõe e vários dão a diretriz, achando-se suficientes para isto. Serviço cheio de chefes.

Mais feio que o diabo dando cria – horroroso, medonho, muito feio.

Meio caminho andado – metade de uma questão resolvida. Situação encaminhada, em andamento, mas não concluída.

Mole-mole – a traqueia.

Morde e sopra -  aquele que ataca e a seguir presta socorro, como se não tivesse culpa. Dissimulado.

Muita galinha e pouco ovo – literalmente, muito trabalho para relativamente pouco retorno financeiro. Situação econômica desfavorável ante grandes responsabilidades.

Não dá o braço a torcer – aquele que mesmo estando errado e sabendo do erro, não o admite de forma alguma.

Papagaiada – falatório, falação, algaravia, conversa muito alta e confusa, muita gente falando ao mesmo tempo.

Passarinha – o baço.

Pegar no guatambu – trabalhar, iniciar um serviço. Expressão de origem rural: guatambu é uma madeira amarelada muito usada para fazer cabos de ferramentas, sobretudo enxadas, em razão de sua resistência. O mesmo que tambu.

Pegar o boi pelo chifre – enfrentar a situação de peito aberto, com vigor, despachadamente, encarando os riscos. Assumir uma demanda na linha de frente, sem intermediários.

Pipoco – estouro, explosão.

Rapa do tacho – o último, o resto, o caçula.

Rolo armado – confusão ou desentendimento prestes a acontecer; situação embaraçosa na iminência de se deflagrar.

Tem a boca maior que o estômago – Expressão aplicada a quem tem grande gula; diz-se de quem come demais, compulsivamente.

Tem o olho maior que a cara – tem enorme ambição. Expressão para indicar grande usura.

Tirambaço – disparo violento, tacada forte, pedrada, soco brutal.

Tiro no pé – erro crasso que atinge quem errou. Dar um tiro no pé é tomar uma atitude impensada que trará graves consequências para si próprio.

Trepar nas tamancas – ficar muito nervoso; descontrolar-se emocionalmente; xingar muito; gritar impropérios contra alguém.

Trocando de pato pra ganso – mudando de assunto; passando repentinamente de uma questão para outra.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Brincadeiras infantis - parte 2: facécias

Facécias são brincadeiras verbais, de crianças, jovens ou adultos, no geral de aspecto disparatado, sem qualquer sentido aparente, mas que na verdade existe, desde que contextualizado nos parâmetros da cultura popular.

As facécias desafiam a imaginação, descontraem e socializam. Muitas vezes, senão mesmo sempre, elas vem recheadas de verve e, às vezes, de sarcasmo. Seu enunciado se desenvolve entre duas crianças, ou entre crianças e adultos ou até mesmo apenas entre adultos, embora que sejam marcadamente infantis ou juvenis, mas mantendo viva a criança que existe dentro de cada um. 

Uma categoria das mais conhecidas é a do "cúmulo", com a qual se brinca com o extremo imaginário das coisas ou circunstâncias, no sistema de pergunta e resposta entre duas pessoas. Exemplos coligidos em São João del-Rei, nos anos noventa do século passado:


_ Qual é o cúmulo da rebeldia?
_É morar sozinho e querer fugir de casa...

_ Qual é o cúmulo da lentidão?
_ É jogar uma bola na sexta e ela só cair no sábado...

_ Qual é o cúmulo da economia?
_ É usar papel higiênico dos dois lados...

_ Qual é o cúmulo da magreza?
_ É se deitar na agulha e se cobrir com a linha...

_ Qual é o cúmulo da inocência?
_ É uma menina-moça espremer os peitinhos achando que é espinha (acne) inflamada...

_ Qual é o cúmulo da rapidez?
_ É fechar uma gaveta (ou cofre) trancando a chave de dentro...

_ Qual é o cúmulo do silêncio?
_ São dois esqueletos brigando sobre uma folha (chapa) de zinco...

_ Qual é o cúmulo da força?
_ É dobrar uma rua e quebrar duas esquinas...


Outra categoria é o "pelo sinal", de que existem muitos exemplos, e que ora segue este de Santa Cruz de Minas, colhido no final dos anos noventa: 

"Pelo sinal
do bico real,
comi angu com toicinho
me fez mal"

As facécias brincam com frequência com o tema alimentar, como estes exemplares da mesma cidade e época:

"Boi magro ficou no cocho,
não come mais porque tá frouxo..."

"Bendito paca,
louvado cutia,
se tivesse mais,
ainda queria..."

Alguns exemplares se fixaram como dísticos de Santa Cruz de Minas:

"A minha vida é uma traficança:
O destino aperta, a saudade avança."

"Sô do Morro da Bananeira,
Olho sua cara, me dá caganeira..."

Em São João del-Rei o exemplar abaixo se aproveita de uma rima para fazer o trocadilho:

"Seu Chico Tripa
quando fica tiririca,
põe o dedo na titica
da Chiquinha pra cherá...

A Mariquinha,
comeu tripa de galinha
foi contar pro namorado
que comeu macarronada..."

Outro da mesma fonte:

"Cumpadre Zacarias,
que mora lá no sul
barba de sapé
do olho azul..."

As facécias possibilitam a combinação de elementos espontâneos da cultura popular, compondo gracejos que contribuem com momentos simples de entretenimento pela força da oralidade.

Créditos

Informantes: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1996; José Cândido de Salles e Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, década de 1998.
Texto: Ulisses Passarelli
Notas

Revisão: 03/04/2025.   

domingo, 8 de novembro de 2015

Cidade das Pontes

São João del-Rei goza de características específicas perante as demais cidades da região, razão pela qual recebeu cognomes tais como São João dos Queijos (devido à alta produção de queijos excelentes), Terra da Música, Cidade onde os Sinos Falam, A Mais Barroca Cidade de Minas, etc. A urbe se desenvolveu num vale entre serras e as condições geográficas impuseram córregos ao seu centro, vertendo das encostas dos morros. As casas se formaram em ambas as margens que se fizeram interligar por meio de inúmeras pontes. Diante do fato supra, bem caberia outra alcunha, respeitosa, claro: "Cidade das Pontes".

No século XIX, o militar português Cunha Matos em seu estudo sobre Minas Gerais, relatou:

"Há poucas pontes de pedra lavrada e algumas de madeira são cobertas de telha. As pontes mais notáveis são: a do Rio Grande, perto da Vila de São João del-Rei; (...) As pontes de pedra da Vila de São João del-Rei são as melhores da Província." (MATOS, 1981, p.44).

As pontes começam a surgir no sopé da Serra do Lenheiro, no final do Bairro Tijuco, região que outrora era conhecida por Betume, por causa do barro preto untuoso ali abundante. É o atual Residencial Lenheiro. Segue o Córrego do Lenheiro transposto por muitas pontes à medida que adentra mais pela cidade. Algumas são humildes como a que liga o Residencial Lenheiro e o Barro Preto, outras suntuosas como as de pedra; ou charmosa, afrancesada, como a do Teatro; de ferro como a da Biquinha, a dos Suspiros e a da Estação; velhas obras de alvenaria como a Benedito Valadares, inaugurada no centenário de elevação à cidade (1938), até hoje importantíssima no trânsito da cidade. 

Outras pontes ficaram na lembrança, como a que havia possivelmente na Rua Direita (imediações do Museu de Arte Sacra) sobre o ínfimo Córrego da Muxinga, datada de 1745; a que aparece na citação de SOBRINHO (2010) de um recibo da Câmara Municipal de 1719 (recibo 168, pg.17): "Por quatorze oitavas de ouro que deu a Manoel Ferreira do conserto que fez na Ponte do Aterrado que vai para a Igreja Matriz por ordem de que se lhe passou mandado em 29 de dezembro de 1719" (p.35) - Igreja Matriz que a esse tempo ficava no Morro do Bonfim; ou a ponte na antiga "Rua da Misericórdia", sobre o Córrego do Segredo, a conhecida Ponte da Misericórdia, da qual sem qualquer misericórdia, foi feito drástico aterramento, substituída por sistema de galerias. A Ponte da Misericórdia era de pedra, como as da Cadeia e do Rosário, porém de um só arco. Foi construída em 1798 pelo Mestre-canteiro Aniceto de Sousa Lopes (CINTRA, 1982).

Mais que isto, além do fluxo mais central, do Lenheiro, mais pontes se multiplicam pelo Rio Acima, entremeio o Guarda-mor e a Vila Maria; no Bairro de Matosinhos, existem várias, ao longo do Ribeirão da Água Limpa, já abordadas em postagem intitulada "Pontes de Matosinhos"; e tantas, tantas outras pela zona rural, algumas ainda em estrutura de tabuado de madeira.

Não seria má ideia um estudo multidisciplinar de envergadura sobre essas pontes todas, mapeando-as e marcando-as por georreferenciamento; estudo histórico, fotografias em ângulos variados, qualificação estilística, tecnicamente relato do estado de conservação que seria importante base de referência para a administração municipal planejar manutenção, e, quiçá, visionariamente, até as roteirizando como atrativo turístico: "Roteiro das Pontes"... Por que não?!

Doravante segue em rápidos tópicos algumas de nossas pontes, novas e antigas, com indicativo ao término de cada item, o nome do jornal de onde a notícia foi extraída. Em geral as notícias confluem para problemas de manutenção destas benfeitorias públicas. Não há qualquer outra intenção neste post além de juntar numa só cesta as frutas dispersas em muitos galhos. É apenas um amontoado de informação que poderá, talvez, um dia, contribuir para quem queira aprofundar no assunto.

1- Córrego do Lenheiro com vista parcial em sequência das pontes da Cadeia,
do Teatro e Benedito Valadares, em São João del-Rei.
 

- Em 1877 foram feitos reparos na Ponte do Porto e a fonte jornalística clamava que outras pontes do município, sobre o mesmo rio, necessitavam de consertos urgentes. (Arauto de Minas, n.1, 08/03/1877). 

- A ata da sessão 38 da Câmara de Vereadores, de 12/03/1887, consta, segundo Sobrinho (2010), a leitura de um "ofício assinado pelo Sr. Teófilo Reis e Joaquim Ramalhão declarando terem, com o auxílio de vários cidadãos, construído um pontilhão tosco de madeira em frente à Estação da Oeste e sobre o ribeirão que atravessa esta cidade a bem do interesse público e comercial" (p.140). Outra notícia da Ponte da Estação no século XIX é uma subscrição visando reconstruí-la, datada de dezembro de 1888 (A Verdade Política, n.14, 21/12/1888). [1]

- Conserto da Ponte do São Caetano (Bairro Tijuco), com substituição de dois pés direitos e uma tesoura; diversos consertos na Ponte do Pedro Alves (sobre o Córrego das Águas Férreas, entre a Gameleira e as Águas Gerais, no Bairro Tijuco); substituição das guardas e de todo o assoalho da Ponte da Água Limpa (em Matosinhos), ao valor de 1: 854$710. (São João d’El-Rey, nº3, 22/02/1899).

- A Ponte da Estação, ou como também era dita, Ponte da EFOM, foi construída sobre o Córrego do Lenheiro, com trilhos e estabelecida acima das máximas enchentes, permitindo franca passagem. Foi originalmente assoalhada com pranchões, até a largura de 2 metros e o comprimento de 35 metros. (S.João d’El-Rey, nº3, 22/02/1899).

- Resolução nº 148, de 22/04/1899, autoriza reparos na estrada da Colônia do Marçal entre a Ponte Pequena e o lote nº 147. (S.João d’El-Rey, nº17, 13/05/1899).

- Reconstrução da ponte sobre o Ribeirão Santo Antônio, na Fazenda do Ribeirão entre Lage e a Estação de Santa Rita, na Oeste de Minas. A obra foi posta em hasta pública, orçada em 2:801$594. (O Combate, n.13, 26/09/1900).

- A imprensa denunciava que a Ponte do Carandaí estava caída a 3 ou 4 anos e já matara um colono italiano. O texto jornalístico noticiava o abandono das pontes da cidade, que só seriam, vistas às vésperas eleitorais e "então ficará tudo como antes e como está a Ponte de Santa Rita, a de Mattosinhos e todas as outras publicas, bem como as ruas da cidade." (O Resistente, nº351, 1-3/11/1900). [2]

- Notícias indicam a reconstrução da ponte rural diante da Estação Ferroviária do Rio das Mortes (depois Estação João Pinheiro e finalmente, Congo Fino), ora no município de Conceição da Barra de Minas, mas a esse tempo pertencente a São João del-Rei (O Combate, n.90, 20/08/1901). Foi construída graças aos esforços do Vereador Tenente Euzébio de Resende. O construtor foi o Major Carneiro Felipe (O Combate, n.95, 31/08/1901). [3]

- Referência a um gasto de quinhentos mil réis como auxílio para a construção da Ponte do Carandaí, segundo registro numa ata de 28/09/1901. (O Combate, n.159, 19/03/1902).

- Inauguração da ponte sobre o Rio das Mortes no dia 28/10/1900 no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. Houve missa e bênção pelo Padre Neves Parreira. Dentre os discursos, destacou-se o Dr. Leite de Castro, agente executivo municipal (equivalente ao atual prefeito), que entregou oficialmente a obra de forma simbólica ao sr. Olympio Moreira de Carvalho, presidente do conselho distrital. “A banda de musica do arraial que em alegres toques abrilhantou a festa _ tocou o hymno nacional, ouvido de pé, e todos de chapéo na mão.” (O Combate, n.21, 31/10/1900).

- Resolução nº318, da Câmara Municipal, de 25/02/1905, autoriza consertos nas pontes de Matosinhos e Porto, além de aterro no cemitério público (Quicumbi). (O Repórter, n.25, 02/07/1905).

- O problema da falta de cuidado com as pontes vinha de muitos anos. Então, o sarcástico jornal são-joanense, “The Smart”, assim manifestou com verve na edição nº8, em 1909: “Segundo as últimas observações astronômicas, calcula-se que os candelabros da ponte Roque Balbi serão inaugurados no anno de 3963, ao meio dia.” Já na sua décima edição, no mesmo ano de 1909 ironizava a situação de várias pontes: “Ponte da Estação _ Eu sou os escombros de Sicilia e Messina; aqueles postes são as pirâmides sobreviventes. Idem da Cadeia _ Eu sou o patíbulo: este candelabro é o signal da forca. Amen. Idem do Rosario _ Eu sou procurada só de noite e sirvo de capa ... Coro (em tom de terço) _ Nós todas somos um ninho de pulgas... Illuminae-nos... Evitae-nos...” (The Smart, n.8, 01/01/1909; The Smart, n.10, 17/01/1909).

- Lei municipal nº214, de 05/06/1909, autoriza mudança da ponte de frente da estação ferroviária para a Rua Cristóvão Colombo. (A Opinião, n.2, 14/07/1909). Existiu naquele local, interligando-a à Praça Pedro Paulo, uma passarela de ferro, que se alinhava à Rua Aureliano Pimentel. A mesma foi profundamente danificada pela grande enchente de 1982 e passou por reparos. Outras enxurradas também deixaram seus danos e vieram reparos até que foi interditada e mais tarde removida. Por uns tempos foi improvisada um "pinguela", assim chamada a passarela provisória em madeira. Depois foi também retirada e o local ficou um tempo sem estrutura de travessia. A ponte atual veio na década de 1990.

- Operários da Ferrovia Oeste de Minas socorrem a ponte de madeira que interligava a Rua Antônio Rocha ao trecho médio da Paulo Freitas. A fortíssima enchente de 1917, que causou grandes danos na cidade, também a atingiu; mas, no dia seguinte, os referidos operários já promoveram os reparos. (O Zuavo, n.99, 21/01/1917). Esta ponte não existe nos dias atuais. Ficava entre as atuais ruas Ignácio Zózimo de Castro (Praça Raul Soares/Rua Antônio Rocha) e Padre Tortorielo (Praça Afonso Dalle/Avenida Leite de Castro/Rua Antônio Rocha).

- Em 1932 um hebdomadário exibia em suas páginas o seguinte apelo: “A ponte fronteira a estação está exigindo novo tablado, principalmente em alguns trechos, onde aquilo mais parece armadilha de onça. Sendo aquela uma passagem só de pedestres, transito obrigatório de muitas creanças era o caso do concerto não se fazer esperar, pois a falada e (trecho ilegível) da ponte da Rua Maria Tereza parece que vai demorar mais uns dias...” (Folha Nova, n.10, 08/05/1932).

- Acerca do mau estado de conservação da Ponte da Estação clamava-se para a necessidade de reforma urgente. (O Diário do Comércio, n.1276, 02/06/1942).

- A Ponte do Teatro foi alvejada por críticas por parte da imprensa em razão de reparos inconclusos aos quais foi submetida. (Diário do Comércio, n.2144, 03/05/1945).

- O tráfego de veículos sobre a Ponte do Teatro se dava de um por vez, devido à sua pequena largura. O fechamento dessa ponte ao tráfego de veículos automotores gerou muita polêmica (Tribuna Sanjoanense, n.189, 02/09/1977; O Sabiá, n.7, set./1977).

- Foi inaugurada em 1985 a Ponte Padre Tortoriello, durante a administração municipal do Dr. Cid Valério. Interliga a Rua Antônio Rocha (Centro) à Avenida Leite de Castro (Bairro das Fábricas), no lugar exato onde situava-se o pontilhão da via férrea da Estrada de Ferro Oeste de Minas da chamada "Linha do Sertão". Ficou conhecida por "Ponte do Zé Abrão".  (O Raio, n.399, 21/09/1985).

- Em abril de 1990 é inaugurada a Ponte Ignácio Zózimo de Castro, nome que homenageava um comerciante que tinha uma mercearia na Rua Paulo Freitas/Praça Raul Soares. Esta ponte substituiu outra que havia no mesmo lugar, menos robusta e que havia sido sucessivamente danificada por enchentes, sobretudos por trombas d'água da década anterior: o famoso e medonho temporal de 1982 causou-lhe profundos danos. Apesar dos reparos não foi mais a mesma... Chegou a estar um tempo interditada ao tráfego. A gestão municipal que veio após a inauguração, alargou a sua pista de rolamento.

- A calçada da Ponte da Cadeia é alargada através da remoção de uma faixa de pavimentação de paralelepípedos para extensão dos passeios em 40 cm de ambos os lados. Com isto ganhou-se segurança para os pedestres e a pista de rolamento tendo ficado mais estreita, impossibilitou o trânsito de veículos de grande porte, protegendo este patrimônio da cidade. Apesar da lei municipal nº2.487, de 1989 proibir o trânsito de veículos pesados no centro histórico, o desrespeito por parte dos motoristas e a fiscalização insuficiente  levaram a esta medida (Gazeta de São João del-Rei, n.263, 30/08/2003). Contudo, na Ponte do Rosário, a medida de alargamento das calçadas com o mesmo intuito só viria uma década depois, em julho de 2013.

- Servidores da Secretaria de Obras trabalharam para fazer reparos na cabeceira da Ponte da Rodoviária, que cedeu em 17/01/2005. A fotografia estampada na fonte jornalística mostra os trabalhadores batendo estacas, mas as obras previam também aplicação de concreto armado, aterro, "abertura de passagens de água e reforma nos passeios." (Gazeta de São João del-Rei, n.334, 22/01/2005).

- Um homem que passou mal caiu de uma ponte na entrada do Bairro Tijuco, ao tentar escorar numa das suas muretas, já que a mesma estava quebrada (ausente em parte) e veio a falecer. A reportagem revelou o estado crítico de algumas pontes da cidade. O fato se deu na Ponte Chafy Moyses Hallak. (Gazeta de São João del-Rei, n.560, 23/05/2009). [4]

- Depois de longo processo judicial, guardas de balaustre de cimento da Ponte Sírio-libanês foram trocadas por guardas de canos de ferro em janeiro e fevereiro de 2010, mais adequadas ao entorno de bem tombado que é o patrimônio da EFOM. A ponte foi inaugurada em 1996, estabelecida diante da estação ferroviária e ficou conhecida por "Ponte de Mão Inglesa", por ser a única da cidade com mão de direção invertida (Folha das Vertentes, 144, fev./2010).

- A Ponte do Athletic, entre a Praça Pedro Paulo e Rua General Aristides Prado teve o tráfego interrompido por vários dias em razão do afundamento de parte da cabeceira em janeiro de 2014. Foi devolvida à normalidade em 07/02/2014.


2- Queda da ponte de madeira sobre o Córrego do Limpa-goela, na Colônia do José Teodoro,
que dá acesso à centenária Capela do Sagrado Coração de Jesus, após as fortes chuvas de fevereiro de 2004.


3- Ponte diante da praça, na intercessão das avenidas Nossa Senhora do Pilar
e Andrade Reis, aparente durante o afundamento da galeria após temporais, em fevereiro de 2004. Discussões

sobre o fato indicam, contudo, que a verdadeira Ponte da Misericórdia está aterrada imediatamente a jusante,
no cruzamento das vias. Esta seria uma ponte interna  do Colégio Nossa Senhora das Dores, que o interligaria ao
seu então anexo próximo à Igreja de São Gonçalo. A área era fechada mas foi aberta com a construção da Avenida
Nossa Senhora do Pilar, na área do Segredo (Centro). 

Referências Hemerográficas

Coleção de jornais antigos de São João del-Rei, acervo da Biblioteca Pública Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p.

MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1981. v.2, 337p.  

Créditos

- Texto, pesquisa, acervo e fotografias 2 e 3: Ulisses Passarelli.
- Fotografia 1: Iago C.S. Passarelli, 24/09/2014. 

Notas 

[1] Devido a um temporal ruíram 50 metros do cais em construção, abaixo da Ponte da Estação, com a chuva noturna de 13 de dezembro de 1907 (A Opinião, n.47, 14/12/1907).
[2] A Ponte Vitório Tarôco sobre o Rio Carandaí, na Colônia do Giarola, liga este bairro às colônias do Felizardo e Recondengo (ainda em São João del-Rei) e ao povoado do Barreiro (município de Coronel Xavier Chaves), sitos do outro lado do mesmo rio. A que atualmente se encontra instalada foi inaugurada em abril de 1995, pelo Prefeito Nivaldo José de Andrade, em substituição à anterior, que era de madeira e estava muito precária. Na verdade muito antiga. A Ponte de Santa Rita citada no texto jornalístico é a ponte sobre o Rio das Mortes no povoado de Ibitutinga, no acesso ao então distrito de Santa Rita do Rio Abaixo, hoje município de Ritápolis. Situa-se ao longo da Rodovia Federal BR-494.
[3] Para saber mais sobre a construção desta ponte leia também a postagem RETALHOS PARA A COLCHA DA HISTÓRIA. 
[4] A Ponte Chafy Moyses Hallak é uma das três que leva popularmente o cognome de "Ponte da Biquinha". Ela se situa sobre o Rio Acima (nos tempos coloniais conhecido como Córrego das Barreiras) e acessa a Praça da Biquinha à Avenida Eduardo Magalhães. A outra, é uma pequena ponte de ferro rebitado, piso cimentado, tendo uma cruz de ferro trabalhado, suspensa em cada cabeceira, sendo que a do lado do Tijuco se encontra desaparecida. Situa-se entre a Praça e a Rua Rossino Baccarini; e, finalmente a terceira, está imediatamente à montante desta e tem o nome oficial de Ponte Braz Camarano Primo, datada de 1994, obra criticada por causa de sua altura mínima. Contudo, informações dão conta de uma ponte inaugurada em 1968 com o nome de "Padre José de Anchieta", durante a administração Milton Viegas, que interligou a Rua Padre José Maria Xavier à Praça Fausto Mourão. Seria esta uma ponte anterior à Chafy Moyses Hallak ou apenas seu nome anterior? Ou seria a pequena passarela de ferro sita a montante no Rio Acima? O assunto exige pesquisa nos arquivos municipais e antigos jornais são-joanenses.

- Revisão: 09/07/2025. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Congados festejam o rosário em Conceição da Barra de Minas

Ontem, domingo, Dia de Todos os Santos, em Conceição da Barra de Minas, os grupos regionais de congado estiveram de novo às ruas festejando o rosário de Nossa Senhora com a notória animação de sempre, movidos por grande devoção e respeito.

A comemoração habitualmente se realiza somente com a presença do terno de catupé local, a “Congada Nossa Senhora do Rosário”, grupo sob o comando do simpático Capitão “Vicente Cristino” (Vicente Cirilo Ribeiro), baluarte da cultura popular local, pessoa de elevado e positivo conceito. Certa feita, uma modesta tentativa de inserir outros grupos no evento foi feita, mas não teve prosseguimento. Já este ano, com o fundamental apoio do pároco, Padre Saulo José Alves bem como da comunidade, houve sucesso no intento: além do animado terno da cidade, também estiveram presentes os seguintes grupos visitantes: “Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário”, de Ritápolis (catupé), da Capitã Adelita; “Nossa Senhora do Rosário”, do Bairro Solar da Serra, São João del-Rei, do Capitão Jailson (moçambique); “Santa Efigênia”, de Santa Cruz de Minas, dos Capitães Tadeu e Danilo (moçambique); “Nossa Senhora do Rosário”,  de Dores de Campos (marujos).

O evento foi claramente prestigiado pela população concepcionense, que veio à praça, às ruas e janelas acompanhar a movimentação dos ternos, que encheram as vias com sua alegria costumeira. Diante da Igreja do Rosário, o mastro fincado acenava para o festejo, bastante enfeitado de cordões floridos, dando-lhe um ar deveras gracioso.
Uma nota extremamente significativa foi a realização de uma missa inculturada, que além do excelente coral do lugar, contou com os toques dos congadeiros, que em peso participaram da celebração, com igreja lotada de fiéis da cidade. Com alegria habitual, também houve a oferta de alimentos, legítimo e pedagógico reconhecimento de gratidão à terra que tudo nos provê pela graça inefável de Deus.


A título de observação é importante ressaltar como a tradição em Conceição da Barra de Minas vem sendo mantida em seus detalhes enriquecedores: quando em outubro de 2000 presenciamos este festejo, vimos o Rei e Rainha trazidos à igreja durante o recolhimento do reinado, limitados por um cercado de varas azuis, como se fosse um cordão de isolamento marcando seu espaço sagrado. Em cada quina, uma pessoa do lugar segurava a ponta de uma das varas fechando o quadrilátero. No mais, o casal vinha de cetro à mão, e sob umbela. Pois bem: novamente, em 2015, a cena foi a mesma, idêntica em sua ritualística, mostrando a força da tradição local, ora em crescimento com a vinda de guardas convidadas, recepcionadas com tamanha cordialidade e respeito pela comunidade, pelo Capitão Vicente e pelo Padre Saulo, que deixaram a certeza que no próximo ano se repetirá ainda com mais vigor.

Congadeiros e mastro, diante da Igreja do Rosário
em Conceição da Barra de Minas. 

O sacerdote recepciona e abençoa os congadeiros e o reinado à porta
da Igreja do Rosário em Conceição da Barra de Minas.


Notas e Créditos

* Texto e fotografias (01/11/2015): Ulisses Passarelli

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Foliões penitentes

Folia do Divino da Rua São João, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, canta o pedido de perdão durante o ato penitencial, na missa da véspera de Pentecostes, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, durante o Jubileu do Divino. O Folião e Embaixador Antônio Ventura, com maestria conduz o canto ao som de seu acordeon. 18/05/2013. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli

sábado, 24 de outubro de 2015

A tradição mostra sua força: cem mil visitas !!!

Estamos chegando a mais uma cifra importante na estatística deste blog: cem mil visitas alcançadas! São mais de três anos no ar, denotando a consolidação de um trabalho e não apenas uma aventura digital. A proposição da isenção político-partidária e da ausência de finalidade lucrativa tem sido rigorosamente mantida.

Em comemoração, acabamos de importar todas as 146 postagens de nosso outro blog, Matosinhos: história & festas, focadas na história do grande Bairro de Matosinhos, em São João del-Rei e suas festividades, notadamente as do Jubileu do Divino. Qualquer dúvida sobre as fontes de informação das postagens referentes a Matosinhos, sugerimos recorrer ao post Referências Bibliográficas, que reúne a listagem de títulos pesquisados. Assim, congregamos aqui um maior volume de informações da Mesorregião Campos das Vertentes facilitando a pesquisa, a referência, o conhecimento, o registro. Com isto, totalizamos neste momento 642 postagens publicadas, dedicadas à história, memória, cultura popular, eventualmente perpassando temas como ferrovia e meio ambiente. 

Os Campos das Vertentes são campos do saber, os mais diversificados, celeiro de tradições muito significativas, donde verteram historicamente cultura para regiões circunvizinhas. Aqui, além da riqueza do patrimônio material, também o imaterial fervilha dando-lhe vida, dinâmica. Nas festas populares os elementos religiosos e profanos se mesclam e complementam em equilíbrio, o povo traz suas congadas, visita as casas com as folias, ergue mastros, conduz rainhas em cortejo. 

Nas praças e largos erguem cruzeiros e grutas, pontos sagrados de congregação comunitária. 

As benzeções ainda não foram abandonadas. Perseveram as simpatias, as receitas de garrafada, a riqueza da medicina popular. Nossa culinária é célebre e tanto mais, os queijos... Os causos de assombração, as lendas etiológicas, os mitos cativantes enlevaram diversas gerações. As técnicas de produção ainda resistem: como fazer um cartucho de amêndoas, um doce de figo, um sabão de bola? 

O palavreado típico do natural das Vertentes gerou um falar bem mineiro. Com provérbios e expressões o homem se expressa melhor. 

Suas mãos são hábeis para fazer artesanatos, rendas, pinturas, esculturas, cantarias, nos legaram obras extraordinárias. 

Seu peito exala fé, exporta devoção, transborda amor e respeito ao sagrado, que põe para fora sob a forma de ladainhas, benditos, ensalmos, toques de sinos, tapetes de ruas, promessas, rezas bravas, rituais. 

Ex-votos, calango, pastorinhas, encomendação das almas, procissões, cantares, brincadeiras de criança, tradições agro-pecuárias, toponímia, crenças, superstições, previsões folclóricas da meteorologia, trovas ... de tudo isto que tem nas Vertentes aqui tem um pouco, que com muita satisfação este blog põe no ar e compartilha, via de regra reconhecendo o importantíssimo papel dos mestres da cultura popular na manutenção de nossas tradições. 

Fica consignada nossa gratidão a todos os visitantes, assíduos ou eventuais, que são a razão de ser desta página eletrônica. 

1- Não basta beijar a bandeira do congado. O devoto toca a testa saudando e pedindo força.
Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG. 2015. 

2- Artista confecciona um tapete de rua na Sexta-feira da Paixão.
São João del-Rei. 2015.

3- Folia do Divino visita uma casa. O proprietário recepciona a bandeira e o folião.
Folia da Colônia José Teodoro, São João del-Rei. 2015.

4-  Ex-votos. Santuário da Santíssima Trindade, Tiradentes/MG. 2015. 

5- Sapinhos no carnaval de São João del-Rei. 2015. 

6- Pimenta de pau ou pimenta de macaco: tempero da culinária mineira.
Brumado de Cima (São João del-Rei). 2015. 

7- Negra-mina ou folha santa: ingrediente para banho de descarrego na corrente
da linha africana. São João del-Rei. 2015.
8- Cruz de beira de estrada. Subida para a Porteira da Volta, nas imediações de
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei). Anos 1990. 

9- Gruta de São Pedro. Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei). 2014. 
10- Imperadores carregam o andor do Espírito Santo.
Jubileu do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. 2015. 
 Notas e Créditos

* Texto, acervo e fotos nº 2, 4, 5, 7, 8 e 9: Ulisses Passarelli
** Fotos 1, 3, 6 e 10: Iago C.S. Passarelli 


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Congados festejam o rosário nos Campos das Vertentes

O segundo semestre se destaca no campo da cultura popular pelas festividades consagradas a Nossa Senhora do Rosário. Na área das Vertentes elas se iniciam com as de Ibituruna, tradicionalmente no último domingo de junho e se encerram com as da Canela, na zona rural de São João del-Rei, no segundo domingo de novembro,

Mas é em setembro e outubro que se concentram o maior número de comemorações, por vezes, três, num único final de semana, em povoados e bairros diferentes. 

Os congados são sem dúvidas o elo em comum em todas estas festas e o seu ponto de maior destaque. Os grupos, ou conforme terminologia mais adequada _ guardas ou ternos _ compartilham um sistema colaborativo, indo uns nas festas dos outros, consoante convite, na esperança de serem retribuídos em participação nos seus próprios eventos. É graças a isto que numa festa vemos grupos de muitas cidades. 

É de se ver sua apresentação, com que originalidade e vigor incansável acontece, sob o sol ardido e cada dia mais implacável, como dançam com garra, num empenho notável. A população gosta e acorre às ruas para ver os congadeiros em seu cortejo e sob as árvores das praças se conglomeram as pessoas à sombra para apreciá-los. Neste interim, vendedores ambulantes aproveitam para vender algo. Além de eventuais barraquinhas de costume, aparecem os vendedores de picolé e sorvete, algodão doce, maçã do amor, amendoim torrado, terços e rosários. E tudo isto compõe o cenário festivo, entremeio a toques de sinos, fogos de artifício e celebrações.

As comemorações do rosário pontuam o calendário festivo com uma peculiaridade extraordinária de elementos etnográficos, folclóricos, sagrados! Musicalidade, colorido, coreografia, alegria e confraternização são ingredientes marcantes. É a celebração da vida. É manifestação de gratidão e expressão de fé, na certeza de angariar bençãos para o cotidiano e graças para as causas mais aflitas. O rosário é uma irmandade gigante, intangível, indescritível. Só se pode senti-la. Falar sobre o rosário é muito difícil...

Foto 1: Igreja do Rosário em Ritápolis no dia maior de sua festa,
vendo-se à direita os mastros de São Benedito e de N.S. do Rosário. 04/10/2015.

Foto 2: congado do distrito da Restinga em sua chegada à Igreja do
Rosário, na sede do município de Ritápolis. 04/10/2015.  

Foto 3: Congo de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei)
 em marcha pelas ruas durante a Festa do Rosário. 11/10/2015.

Foto 4: Sob a bandeira de Nossa Senhora Aparecida, o congado de São Gonçalo do Amarante
caminha para o largo afim de levantar o seu mastro. 11/10/2015. 

Foto 5: Durante a Festa do Rosário de Passa Tempo, o moçambique de
Ibituruna entoa sua jomba de louvor. 18/10/2015.
Notas e Créditos

* Texto, acervo e fotos 1, 2 e 5: Ulisses Passarelli
** Fotos: 3 e 4, Iago C.S. Passarelli

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ditados - parte 5

Ajoelhou, tem que rezar – começou uma ação, tem que concluí-la.

Antes só que mal acompanhado – a estar em companhia de pessoas desonestas, de má índole, violentas, é melhor permanecer solitário.

Boca fechada não entra mosquito – não se deve falar demais pois acaba se dizendo o que não é necessário e causa embaraço.

Boca que não merece beijo, pimenta nela! – pessoa que só fala asneiras, ofensas, xingamentos, é logo execrada.

Cada macaco em seu galho – cada pessoa deve se ater ao assunto de seu domínio; cada um deve se conservar nos limites de seu trabalho, sem se preocupar com o dos outros.

Cada um sabe de si; Deus, de todos – cada indivíduo deve cuidar exclusivamente de seus problemas, anseios e afazeres, sem se preocupar com a vida do outro.

Cão que ladra não morde – pessoa que ameaça demais não cumpre aquilo que ameaçou.

Dado, até injeção na testa – sendo de gratuito, tudo é válido.  Variante: “... injeção na veia”.

Dar com uma mão e tirar com a outra – oferecer uma coisa e tomar outra; trazer um benefício e um prejuízo, simultaneamente.

Deixa eu cuidar da vida que a morte é certa – dito de incentivo à pró-atividade; cuidar das coisas necessárias ao cotidiano sem perder tempo com o supérfluo.

Desculpa de peidorreiro é barriga inchada – sempre existe uma culpa atribuída a algo, quando de fato depende-se da ação da pessoa.

Em festa de jacu, inhambu não entra – entre poderosos, ricos, o desfavorecido não tem oportunidade.

Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas – onde o perigo é muito grande, até quem tem proteção se cuida mais.

Farinha pouca... meu pilão primeiro! – quando os recursos são minguados, primeiro se olha para as próprias necessidades, depois para as necessidades alheias.

Gato escaldado não cai no pote de água fria – quem já caiu numa cilada, de qualquer  embuste tem medo.  Variante: “... tem medo de água fria”.

Levar a fama sem deitar na cama – levar uma fama ruim sendo inocente. É um ditado contrário a outro: “Fez a fama, deita na cama” , ou, “... chora  na cama, que é lugar quente”.

Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga – não se deve preocupar excessivamente com o futuro. Deve-se trabalhar e confiar na graça de Deus.

Não se quebra a perna de um burro por ele dar coice – não se pune apenas por uma má resposta ou rispidez.

O lobo perde o pelo, mas não perde o vício – o homem maduro dá sinais de perda da vitalidade mas não perde a libido.

O maior cego é aquele que não quer ver – diz-se da pessoa que teima em não admitir uma verdade que está às claras, visível por todos.

O melhor da festa é esperar por ela – a ansiedade gerada pela espera de uma acontecimento, acaba sendo mais satisfatória que o próprio evento em si, por vezes, decepcionante.

O olho do dono é que engorda o gado – o responsável por um negócio deve acompanhar de perto a evolução do mesmo, o que garante seu êxito. Variante:  “... engorda o cavalo”.

Papagaio come milho, periquito leva a fama – uma pessoa faz o ato, outra leva a culpa.

Para agradar ao santo se beija as pedras – para se alcançar um objetivo, muitas vezes é necessário tomar atitudes indesejadas.

Para quem é, bacalhau basta! – para quem não tem elegância, fineza, polimento, qualquer coisa serve.

Para quem sabe ler um pingo é letra – para quem tem perspicácia, qualquer sinal indica ou prenuncia o que ainda não foi revelado.

Pau que nasce torto morre torto – o defeito da personalidade não tem correção.

Princípio de cantiga é assobio – o início dos acontecimentos é prenunciado por pequenos fatos.

Quem nasceu para ter pena é galinha – diz-se do sentimento de ter dó dos outros, ter pena, desestimulando-o.

Quem avisa amigo é – quem alerta o outro de algum perigo ou problema que sinaliza proximidade é verdadeiramente um amigo.

Quem cala consente – quem é acusado de algo e não se defende está admitindo a culpa.

Quem casa quer casa – quem ingressa num matrimônio deseja ter sua individualidade, a própria residência, sem coabitar com outras pessoas que não apenas o cônjuge.

Quem conta um conto aumenta um ponto – a estória ou o fato, cada vez que é recontado, vem acrescido de novos elementos.

Quem corre atrás de muito fica sem nenhum – provérbio contrário à ganância, estimulando a não ser usurário.

Quem deve a Deus paga a Deus; quem deve ao diabo, paga ao diabo – quem deve paga de qualquer jeito, mas paga a quem deve: se a dívida é com o lado do bem, pagará aos bons, não aos maus; mas sempre pagará. É um provérbio que contraria o seguinte desta listagem e em geral é dito entre pessoas de formação espiritualista. De alguma forma ele vai reiterar o ditado “Fuja de dever, quer pagar é certo...”, que assegura que de qualquer forma uma punição virá. Estes provérbios referem-se a uma dívida moral, espiritual, por uma atitude indevida. Não é dívida monetária.

Quem deve a Deus, paga ao diabo – erros de conduta, as contas serão cobradas pelo maligno.

Quem gosta de bucho é panela de pressão – ditado comparativo: “bucho” é termo usado com referência à pessoa indesejada, mal quista; “bucho” de fato é o termo popular para designar o estômago da vaca, usado como alimento, cozido, matéria-prima do prato “dobradinha”. O sentido alegórico indica que a pessoa não tolera pessoa intratável (“bucho”).

Quem gosta de casamento é padre e fotógrafo – referência às dificuldades e dissabores de uma vida matrimonial. O provérbio é zombeteiro, referindo-se que quem gosta de casamento é quem ganha dinheiro com ele.

Quem já foi rei nunca perde a majestade – quem teve um cargo importante, uma vez saído dele, permanece com a empáfia que sustentava enquanto empossado no mesmo.

Quem morre por gosto, regalo da vida – referência às pessoas que se habituaram a queixar-se de tudo, a lamentar da sorte, a prenunciar sua própria doença e morte, sem reagir ou tomar atitude. No geral se refere às pessoas que exacerbam pequenos problemas para aparentar ao outro grande sofrimento.

Quem não arrisca não petisca – quem não tenta, aposta, arrisca, não terá chance de alcançar resultados.

Quem nasceu para ter coleira é cachorro – provérbio que renega a submissão, afirmando com convicção a condição de independência e liberdade.

Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza – quem não experimentou um prazer da vida, quando o prova, insiste nele até ao exagero.

Quem quebra galho é macaco gordo – a expressão “quebrar galho” significa fazer favores, prestar benesses. O ditado, em forma de analogia, renega esta atitude, estimulando que cada um resolva seus próprios problemas.

Quem tem filho barbudo é gato – sentido: que tem de cuidar de pessoa já adulta, barbado, é a própria pessoa, não outrem. Ditado contrário ao abuso de quem sem agir, conta com a ajuda alheia.

Quem tem quem por si chora, todo dia morre – quem vive lamentando e encontra quem consola, não deixa de lamentar; vicia na prática do queixume.

Quem vê cara não vê coração – quem observa apenas a aparência não capta a essência da pessoa, seu caráter, a personalidade, os valores humanos.

Sua cabeça é seu guia – cada um faz o que quer; o que deve fazer, orientado pela própria consciência ou desorientado pela falta dela.

Todo pé torto tem seu chinelo velho para calçar – a pessoa por mais desprovida de atributos que seja _ sempre encontrará alguém que possa agradar dela e fazer par. Um ditado equivalente é: “Toda panela velha tem sua tampa”.

Um boi solto lambe-se todo – a pessoa que vivia sem liberdade, quando a alcança, perde-se inebriado pela sensação da liberdade.

Um burro carregado de livro não é doutor – uma pessoa com muito estudo, mas sem polimento no trato com o próximo não é digno da intelectualidade adquirida. “Burro” se diz de quem tem pouca inteligência ou estudo, ou no sentido exato deste provérbio, “burro” é o indivíduo grosseiro, deselegante, que trata o próximo com rispidez. “Coiceiro”.

Um pai cuida de dez filhos, dez filhos não cuida de um pai – quando o progenitor precisa de atenção e ajuda, os filhos não fazem pelo pai o sacrifício correspondente que o pai fez por eles. Uma variante substitui a palavra “cuida” por “trata”. Esta expressão consta de uma famosa e educativa e emblemática canção da música caipira, “Moda do Couro de Boi”.

Um tatu cheira o outro – as pessoas se aproximam para convívio por afinidade de comportamento.

Uns agradam dos olhos, outros da remela – tem pessoas que aparentam se prender aos defeitos explícitos que o companheiro apresenta, renegando outras pessoas quem excedem em qualidades. “Remela” é termo popular para a secreção que se junta no ângulo interno dos olhos.


Notas e Créditos


*Texto: Ulisses Passarelli