Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manuscritos em cédulas

No campo da folk-comunicação, um mecanismo de manifestação popular escrita bastante difundido é o dos manuscritos em cédulas monetárias, sobretudo em forma de corrente. Com este nome o blog já disponibilizou e analisou uma vintena de exemplares colhidos em São João del-Rei, como se pode ler no texto lincado ao fim desta postagem.

No contexto geral, as correntes em notas tem o objetivo de trazer para quem as escreve, recebe e replica, boa sorte e abundância (simbolizada materialmente no dinheiro), em nome de santos populares, quase sempre os santos gêmeos São Cosme e São Damião (ícones da fartura, gemelaridade, duplicação, multiplicidade), Santa Rita de Cássia (protetora nas causas impossíveis, invocação dos momentos de angústia por uma dívida que oprime ou na falta de trabalho remunerado) e São Judas Tadeu (patrono das causas perdidas, contra o desespero). Weitzel (1984, p.178) apontou os seguintes temas de manuscritos em papel-moeda: "desenhos grosseiros, palavrões, frases obscenas, até os mais trabalhados versos de quadras populares. Há orações em correntes milagrosas, adivinhas maliciosas, recados amorosos, piadas e até anúncios de serviços.", dizendo-as presentes tanto anverso quanto no reverso da nota, ou ambas as faces. Destacou o impróprio de mau uso das cédulas monetárias por meio de inscrição, o que as compromete, obrigado a recolhimento e a substituição formal pelo órgão governamental. 

O cunho supersticioso cede ante uma manifestação de fé, que do mundo abstrato se materializa escrita em letras mal traçadas, segundo as regras gramaticais (aqui transcritas com fidelidade aos originais), mas leais à fé emanada de práticas informais da religiosidade popular.

Os dez exemplares ora expostos foram encontrados em notas circulantes em Barbacena, Tiradentes e Santa Cruz de Minas. Mantém uma unidade estilística e de finalidade, inclusive quando comparada a outras coletas [1], como as de Pellegrini Filho (2009). O último exemplar tem um cunho motejador, estando numa categoria que sem acreditar na corrente, adota seu estilo para brincar ironicamente com o próximo, usando do mesmo mecanismo de comunicação popular.

Este Blog, ao divulgar tal assunto, não estimula a prática de danificar cédulas, mas tão somente registra o aspecto etnográfico das mensagens nelas manuscritas por populares anônimos. 

Fragmento de uma cédula de dois reais com manuscrito.

*  *  *

01- "Quem pegar nesta nota nunca ficarrar sem dinheiro Esta nota Edi são damião e di sao cosme Passar 3 nota." (sic, Barbacena, 26/09/1999).

02- "Santa Rita de Cassia Quem Pegar nesta nota nunca lhe Faltara Dinheiro." (sic, Tiradentes, março/2003)

03- "Boa Sorte para quem pegar esta nota São Cosme e São Damião lhe proteja que nunca falte nada Escreva em 3 notas e passe para frente. Não quebre a corrente." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/03/1999). 

04- "Quem pega esta nota vai ganhar muito dinheiro em nome de Cosme e Damião e dará Boa Sorte escreva em 5 notas" (sic, Santa Cruz de Minas, 25/09/1999).

05- "Quem pegar esta Nota tera seu dinheiro multiplicado em lovor a Cosme e Damião. Não quebre esta corrente escreva em 3 Notas." (sic, Santa Cruz de Minas, agosto/2002).

06- "Cosme e Damião ajuda quem pegar esta nota escreva 7 nota nao quebra correte." (sic, Santa Cruz de Minas, 11/05/2003).

07- "São Cosme e São Damião, não deixa faltar dinheiro a quem nesta nota pegar não quebre a corrente. Escreva em 7 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 10/08/2004)

08- "São Judas Tadeu faça quem pegar nesta nota não fique sem dinheiro faça 7 copias." (sic, Santa Cruz de Minas, 18/01/2001)

09- "Santa Rita de Cassia para quem pegar esta nota não lhe faltara Dinheiro. Escreva em 3 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/10/2000)

10- "Escreva isso em 7 notas e terá sorte... para quem receber ASS: Rafael." (sic, Santa Cruz de Minas, 04/07/2001) 


Manuscrito à caneta esferográfica, em nota de dois reais. Letra de forma em maiúsculas, com o seguinte texto: "vai notinha de 2 reais e volte com 2 milhões para trás sex.28 de junho". São João del-Rei, recebida em 2025 (no entanto, a sexta-feira 28 de junho corresponde ao ano de 2024).


Referências 

PELLEGRINI FILHO, Américo.  Comunicação popular escrita. São Paulo: Edusp, 2009. 696p.il + CD

WEITZEL, Antônio Henrique. Folclore literário e linguístico. Juiz de Fora: Esdeva Emp. Gráfica, 1984. 231p. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Leia também: CORRENTES 
- Revisão e acréscimo de fotografia: 11/11/2025; acréscimo de referência: 02/09/2026.  

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ganzá, o ritmo raspado

Ganzá ou canzá é um instrumento musical idiofônico. No Sudeste o ganzá é um instrumento musical raspado, do grupo dos reco-recos; no Nordeste é outro, sacudido, do grupo dos xique-xiques, muito usado no complexo das cantorias de coco, que embalou a inspiração de muitos poetas, artistas, músicos, repentistas, estudiosos da cultura nordestina. Mas para os limites geográficos abordados por este blog o presente texto se centrará no canzá de raspar: reco-reco. 

Ao que parece é de uso muito antigo no país, desde os primórdios da colonização.  Uma referência do ano de 1552, do Colégio dos Meninos de Jesus, na Bahia, os alunos tocavam à moda índia, "con taquaras que son umas canas grossas con que dan en el suelo e con que hacen cantar", segundo referência de TINHORÃO (2000). Mas existem evidências da possível procedência africana deste reco-reco: em Angola, o povo de etnia chokwe usa um reco-reco chamado "dicanza" extremamente semelhante aos nossos canzás [1]. 

Para nós é um reco-reco feito de um gomo de bambu, fechado nos dois extremos pelos próprios tampos naturais do colmo. Nele se entalham cortes transversais (denteado), sobre os quais se risca uma vareta produzindo o som. 

Segura-se num extremo, apoiando-o na palma da mão e o outro extremo se apoia no ombro, tendo, daí, fitas pendentes, de adorno, que pendem para as costas. Pode ter ainda papel picotado colado ao longo de seu comprimento e flores artificiais na ponta, adornando-o.

Muito usado nos congados, sobretudo nos catupés. Aparece, às vezes, em bom número, gerando até um estilo musical, o “catupé raspado”, onde seu efeito idiofônico está em especial evidência (Oliveira/MG). Grupos de congos também o adotam com frequência, como vemos por exemplo em São João del-Rei, Itutinga, Carrancas, Passa Tempo e Desterro de Entre Rios.  

Existem ganzás grandes, feitos com pedaços longos de bambu [2], outros nem tanto; uns finos, outros de maior calibre, dando cada qual um som de timbre diferente.

Usa-se geralmente aos pares, alinhando em parelha os tocadores nas filas de dançantes, daí chamarem outrossim “casal” (São João del-Rei, 2000) ou “cansal” (Passa Tempo, 2003). 

Alguns congadeiros acreditam que além da função musical, o ganzá oferece firmeza ao congado pois segundo se diz, nos tempos do cativeiro, os escravos sem recursos para adquirir outros instrumentos, tinham de se valer para suas atividades culturais de instrumentos rudes, feitos com matéria-prima achada no mato ou de refugo nas fazendas. O ganzá reproduz o som antigo, original dos congados antigos, do tempo dos antepassados. É como se invocasse sua lembrança ou presença. Uma das firmezas é jogar um punhado de fubá dentro do oco do ganzá. A medida que o congadeiro raspa o instrumento o pó do fubá vai caindo pelo caminho, o que se acredita que vá desfazendo maldades de inimigos (São João del-Rei, 2013). 

Em alguns lugares de Goiás chamam-no “marimba”, nome que pode levar a uma confusão com a verdadeira marimba, espécie de xilofone que os africanos legaram ao Brasil. 

Canzás sendo tocados num congo de Passa Tempo/MG, 2013.

Conjunto de ganzás num congo de Itutinga/MG, 2004.

Congo de Carrancas/MG, vendo-se congadeiros tocando ganzás. 2004. 


Referência Bibliográfica

TINHORÃO, José Ramos. As festas no Brasil Colonial. São Paulo: Ed.34, 2000. 176p.il. p.31.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Vídeo: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] Ver: A Cultura dos Chokwe. In: Página Web de Pedro Cabrita, https://pedrocabrita.wordpress.com/importante-conhecer/arte-e-cultura-2/a-cultura-dos-chokwe/ Acesso em 30/12/2015, 07:59h.
[2] Em casos isolados surgem canzás feitos de outros materiais: tubo de cano de PVC, osso bovino ou equino.
[3] Para exemplo do uso do ganzá, assista ao vídeo abaixo, participação do congado de Cláudio/MG na Festa do Divino de São João del-Rei, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 24/05/2015. 

sábado, 6 de setembro de 2014

Árvore da Padiola

Padiola é um estrado ou maca, improvisada de tábuas com varais para se carregar algo, à semelhança de um andor [1]. Conforme o peso do material a se carregar e a dimensão da padiola, é carregada por duas pessoas (uma adiante outra atrás) ou por quatro (duas adiante e duas atrás). Nas roças era usado para transportar cadáveres amortalhados (féretro) até a entrada da cidade ou da vila próxima, em cuja entrada era baixada e o morto descido a um caixão para assim entrar na zona urbana ou núcleo populacional. A padiola era então jogada fora no mato, ou abandonada à beira do caminho.

Em São Gonçalo do Amarante (antigo Caburu), distrito de São João del-Rei,  existia [2] um indivíduo arbóreo de árvore de óleo-vermelho, árvore de óleo ou pau d'óleo (Copaifera langsdorffii / fabaceae), tido como de avançada idade, na saída para o Caxambu, imediações da travessia da estrada pelo Córrego da Passagem, conhecida como “Árvore da Padiola”, pois à sua sombra, outrora, mudavam o cadáver para o caixão e descartavam a padiola. Segundo narram antigos moradores, quando alguém morria em algum sítio, fazenda ou povoado nas imediações, um cavaleiro se apressava por vir até o Caburu para trazer a notícia ao carapina (carpinteiro), que fazia a preparação de um caixão. Preparava-se também a ornamentação que fosse possível improvisar, com flores dos quintais. O cortejo fúnebre seguia até a entrada do Caburu em padiola, onde então, junto à árvore mencionada, o carapina já aguardava com o caixão para trocar o corpo de lugar. Era posto no caixão, recebia as flores, e o cortejo seguia à igreja para as preces e despedidas de praxe. A padiola ficava abandonada sob a sombra da árvore, como uma lembrança macabra, tornando-a parte de um lugar de memórias, funestas em verdade, mas relatado como um ambiente de energia densa, atmosfera triste, meio assombroso ou assombrado. 

Vencido esse costume pelas facilitações da vida atual, no qual o deslocamento foi facilitado pelas estradas melhoradas e a presença de mais automóveis, a árvore ficou como uma lembrança na paisagem, um marco cultural. 

Essa narrativa faz a árvore da padiola ser enquadrada na categoria das árvores míticas. Muito embora fisicamente seja uma realidade, culturalmente se encaixa no universo mítico da comunidade, enquanto ponto de narrativas e memórias. Nisso assemelha-se a outras árvores de diversas regiões, vgetais emblemáticos na paisagem, singulares em seus contexto intangível, ainda que diverso do que é observado no Caburu. Mas outras narrativas não invalidam o valor agregado de patrimônio imaterial a essas árvores gigantes [3]

1- Árvore da Padiola, na estrada Caburu-Caxambu.
Distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 09/10/2011


2- Árvore da Padiola já com adoecimento avançado, percebendo-se perda das folhas. 
Data: 2022. 

3- Árvore da Padiola já morta, em razão da patologia que atingiu suas raízes e parte do tronco. 
Data: 2022. 


Referências

CORONEL XAVIER CHAVES. Listagem de bens culturais inventariados: Exercício 2027. Prefeitura Municipal, 2026. Disponível em: https://coronelxavierchaves.mg.gov.br/prefeitura/wp-content/uploads/2025/12/Listagem-dos-Bens-Culturais-Inventariados-Exercicio-2027.pdf  Acesso 09 set. 2026.

DORES DE CAMPOS. Relação de bens inventariados 2024. Prefeitura Municipal, 2026. Disponível: https://doresdecampos.mg.gov.br/Especifico_Cliente/18094821000108/Arquivos/Paginas/7763///RELA_AO_BENS_INVENTARIADOS.pdf  Acesso 09 set. 2026.

IPatrimônio. Várzea da Palma:Ruínas da Igreja Bom Jesus de Matozinhos. Disponível em: https://www.ipatrimonio.org/varzea-da-palma-ruinas-da-igreja-bom-jesus-de-matozinhos/#!/map=38329&loc=-17.21036994181268,-44.819852113723755,17  Acesso: 15 set. 2026.

LAGOA DOURADA. Patrimônio Histórico. 2022. Disponível em: https://www.lagoadourada.mg.gov.br/  Acesso em 12 abr. 2022.

MINDURI. Tombamentos: histórico da Árvore de Óleo. Disponível em: https://www.minduri.mg.gov.br/v1/tombamentos/  Acesso em 16 set. 2026. 


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2 e 3- autor (a) não identificado (a). 

Notas 

[1] Obs.: na construção civil é também usada para carregar material de obra, por dois trabalhadores. O mesmo que banguê (Região Nordeste). No Nordeste do país e área norte mineira o costume dos enterros rurais adotava sobretudo a rede trespassada a um pau para carregar o defunto, em vez da padiola. 

[2] Infelizmente, a velha Árvore da Padiola pereceu por uma doença que gerou apodrecimento de parte de seu tronco e raízes, vindo a cair naturalmente no período chuvoso, de janeiro de 2022. Quando este este texto foi publicado no blog, ela ainda estava de pé, aparentemente saudável. 

[3] Alguns exemplos de indivíduos arbóreos que se destacam por sua inserção paisagística e patrimônio imaterial agregado: Figueira Encantada (Dores de Campos, 2024); o grande jequitibá próximo à Cava Amarela (Coronel Xavier Chaves, 2026); figueira sob cuja sombra Dom Pedro II descansou, em Lagoa Dourada - tombada pelo Decreto nº1005/2002 (Lagoa Dourada, 2022); a árvore de óleo em uma praça de Minduri, tombada em 2004, Decreto nº670 (Minduri, 2026); a frondosa gameleira da ruína da igreja da Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma (IPatrimônio, 2026), dentre outros exemplos.

- Revisão, ampliação textual, acréscimo de fontes e fotografias: 15/09/2026. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Congos: congadeiros de saias

É de entendimento genérico que as saias são elementos do vestuário feminino. Contudo, nos meios folclóricos, dançantes masculinos de certos folguedos as adotam sem restrição como parte do uniforme, em geral, vestidas por cima das calças. São via de regra conhecidas por sainha ou saiote.

Estas saias ora são brancas, mas quase sempre tem colorido vivaz, em cor única para o mesmo grupo, ou multicolorida; plissada ou lisa, rendilhada ou apenas com bicos de renda nas bordas, por vezes com um ziguezague de fitas de cor em destaque, outras vezes ainda com apliques florais, agalonada e de babados ou franjas.

Pela imensa região Nordeste do país os grupos de congos tradicionais usam grandes saiotes armados sobre aros escondidos sob o pano, dando uma intensa armação ao conjunto. Foram muito típicas nos grupos do Rio Grande do Norte, a ponto de surgir a designação "congos de saiote", hoje desaparecidos ante os congos de calças e "calçolas" (calções). Os saiotes dos congos ainda tem uso recente nos congos de Oeiras/PI, Pombal/PB, Cairu/BA, Milagres/CE, dentre outros.

Em Minas Gerais, vários grupos de congados tem por característica o uso dessas saias. Em geral são curtas, a nível da coxa ou do joelho, mas existem exceções, como mostra a foto abaixo, gentilmente cedida para reprodução pelo capitão desta guarda de moçambique da cidade de Passos, sr. Feliciano Batista da Silva.

Moçambique, Passos/MG. Autor e data não identificados. 

Uma lenda informada em São João del-Rei, aliás, muito conhecida entre os congadeiros, relata a origem dos congados. Numa das múltiplas versões, refere-se claramente ao uso dos saiotes [1]:


"Nossa Senhora do Rosário apareceu numa gruta. Isso foi no sertão, no tempo dos antigos. O povo achou a imagem e fizeram uma procissão. Levaram ela para uma capela, mas no outro dia, quando voltaram lá ela tinha sumido. Acharam de novo lá na gruta. Aí os negros foram dançando congo buscar ela mas ela não acompanhou por causa que eles usavam sainha, roupa de carnaval. Então foram os negros velhos, tudo simples, com roupa de saco alvejado dançando para ela o moçambique. Aí a santa agradou e subiu no andor. Levaram ela para a igreja e os congos foram atrás acompanhando, mas não entraram por causa da sainha colorida. Nossa Senhora ficou lá no altar e não saiu mais." 


Fica claro a concepção dos saiotes atribuídos aos grupos de congos e não aos moçambiques. Na prática, porém, vários grupos moçambiqueiros as usam. 

Uma explicação ouvida de informantes congadeiros em Contagem, narra que o congo com a sainha faz um movimento de limpeza ou varredura do caminho por onde passará o moçambique com o reinado. O movimento dos dançantes na fila do folguedo faz a saia balançar ritmadamente, o que é interpretado como uma ação de varrer (vide nesta postagem o grupo de Piracema, como ilustrativo do referido movimento). O congo retira os males para o moçambique passar. Estas concepções hierarquizam os congados conforme as narrativas populares. 

Numa fotografia da década de 1960 que dispomos, tirada em São João del-Rei, aparece um catupé com os saiotes, fato incomum. Próximo daqui, na Restinga (Ritápolis - 1996) e no Cajuru (Resende Costa - 1987), vimos os dançantes de catupé amarrarem na cintura um grande lenço estampado imitando saia. Frise-se que nesta região estes folguedos não usam saiotes, mas noutra área mineira, no Serro, o empregam. Nos congados de Barroso, Piedade do Rio Grande e Ibertioga, há também uso de saias fingidas ou aventais, feitas com longos panos alvos, com artísticos bordados em pontos de cruz e acabamento em abrolhos. Tais aventais também foram registrados no moçambique gaúcho, da cidade de Osório.

Os saiotes aparecem também nalgumas marujadas como em Diamantina e São Gonçalo do Rio Preto. Seja como for, os saiotes representam elementos muito típicos das fardas congadeiras, notavelmente das guardas de congo, ao que parece remetendo a padrões antigos de vestimenta, trajes alusivos à nobreza de outrora já perdidos no passar dos séculos. Para melhor exemplificar os estilos, as fotografias abaixo mostram grupos mineiros bem representativos. 

Congo, Brás Pires/MG, 09/01/2010.

Congo, Contagem/MG, 21/10/2014.

Congo, Piracema/MG, 01/11/1998.

Congo, Piranga/MG, 09/01/2010.

Congo, Rancho Novo (Conselheiro Lafaiete/MG), 18/07/1999.

Congo, Rio Piracicaba/MG, 09/01/2010.

Congo, São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 09/01/2010.

Congo, São Miguel do Anta/MG, 09/01/2010.

Congo, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG), 15/11/1998.

Congo, São Gonçalo do Amarante - Caburu
(São João del-Rei/MG), 13/10/2013.

Créditos

- Informante: Capitão de Catupé, sr. José Camilo da Silva (São João del-Rei, Bairro São Dimas,1992)
-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Fotografia do congo de São Gonçalo do Amarante: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

- Revisão: 28/05/2026. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Práticas populares contra raios e tempestades

E a devoção a São Jerônimo e Santa Bárbara


Nos meios populares, em várias regiões do Brasil, inclusive aqui na região das Vertentes, para se evitar acidentes elétricos por faíscas, tão logo começa a relampear, reza-se para São Jerônimo e Santa Bárbara, ou simplesmente se usa exclamar seus nomes. Acender velas é um complemento comum. 

Nas piores intempéries queima-se à guisa de um incenso, a palha benta do Domingo de Ramos, como meio de evitar que aquela casa seja atingida pelos raios e para abrandar a tempestade. Costume idêntico se observa em Portugal, conforme pesquisou Altimar de Alencar Pimentel, que escreveu que “na Península Ibérica, recorre-se a Santa Bárbara, São José e São Jerônimo para abrandar as precipitações atmosféricas (p.27)”. Câmara Cascudo também atesta a tradição ibérica que recebemos, acerca da proteção destes santos contra os extremos meteorológicos das tormentas.


Uma narrativa assaz conhecida conta que Santa Bárbara (280-317), natural da Nicomédia (atual Izmit), na Turquia, foi morta por degolamento pelo próprio pai, Dióscoro, inconformado com a fé cristã da filha, que ela não renegou mesmo após terríveis torturas em praça pública. Quando seu algoz cortou sua cabeça, imediatamente foi fulminado por um raio, seguido de estrondoso trovão. Está claro porque se tornou protetora contra raios e tempestades, tradição conhecida além-mar. Padroeira dos soldados artilheiros e dos mineiros, razão que possivelmente justifique sua imagem na igreja histórica de Nossa Senhora do Pilar em São João del-Rei, cidade nascida das minas do ciclo do ouro. Seu dia votivo é 04 de dezembro.

Já São Jerônimo (347-420) não aparenta uma ligação direta com a questão das descargas atmosféricas, sendo incógnita a razão de seu padroado sobre os raios. Nasceu na atual Eslovênia e tem por dia votivo o 30 de setembro. Doutor da Igreja, foi um religioso que legou à humanidade dentre outras obras importantes, a versão latina da Bíblia, conhecida como Vulgata, traduzida do hebraico. 

São venerados além da Igreja Católica Apostólica Romana, a exemplo da Igreja Ortodoxa. São Jerônimo também é considerado por anglicanos e luteranos. Os dois santos são muito prestigiados no Candomblé e na Umbanda, sincretizados com os orixás Iansã e Xangô, ela, sua esposa espiritual, tendo o raio figurado como insígnia. 

Nos versos populares as invocações aos dois respeitadíssimos santos aparecem em algumas composições. No calango:

(...) 
Tô 'panhando água no poço,
tô esperando água limpá,
São Jerônimo, Santa Bárb'ra,
começou relampiá!
(...)
(São João del-Rei, 1996)*

No catupé:

_ Eu vi Santa Bárb'ra no ar,
tempestade no mar...   
_ Brandô!
(Santa Cruz de Minas, 2004)**

Outros versos contudo se valem dos sons da intempérie para auto-afirmações de poder, capacidades, coragem: 

“Não tenho medo da chuva
 nem também do turuvão; 
tomara que chova muito 
pra lavá meu coração!” 
(quadra popular, Barbacena, 1996) 

“Quem manda chuva é truvão, 
quem sigura cerca é môrão!” 
(Catupé, São João del-Rei, 2000)

"Subi na corda da chuva,
no estrondo do trovão;
desci na corda da chuva,
com dois coriscos na mão..."
(calango, Santa Cruz de Minas, 1997)

Ou com outro término: 

(...)
"quem nunca comeu corisco, 
não sabe se raio é bão!" (bom)

A física demonstra que o raio tanto sobe da terra às nuvens quanto desce daquelas ao chão, mas para o povo sempre cai.

Em São João del-Rei fala-se de uma árvore, o cedro de Santa Bárbara (cinamomo ou árvore de Santa Bárbara), que seria capaz de atrair raios de uma maneira especial. Não se deve tê-lo junto à casa mas um pouco mais afastado é útil, pois puxa a descarga elétrica, afastando-a da residência. Também lhe atribuem a irradiação de forças positivas para a propriedade. O banho com as folhas fervidas desta árvore é um descarrego espiritual na linha de Iansã. Qualquer objeto remanescente de uma benzeção posto junto a ela faz o efeito mais rápido. Assim, talos de mamona da benzeção de cobreiro depositados junto ao tronco desse cedro fazem o malefício secar mais rápido (Santa Cruz de Minas, 1999).
Cedro de Santa Bárbara (Melia azedarach, meliaceae)

O povo acredita (e é crença muito difundida), que quando o raio vem dos céus, traz na ponta uma pedra, que é enterrada sete metros no solo com a força da descarga. Então, como se fosse viva, a cada ano sobe um metro, até chegar à superfície, toda energizada. Se por acaso ao arar um terreno ou passar por um velho abrigo de povos autóctones, encontra-se um machado de pedra ou um virote, diz-se que é a "pedra de raio". É pois um artefato que tem a rocha como matéria-prima, feita por primitivos homens paleolíticos e neolíticos. A pedra de raio é conservada em casa para livrá-la das descargas atmosféricas e proteger seu dono contra malefícios variados. Nos congás e pejis tem caráter votivo aos orixás já citados nesta postagem, como seu símbolo e firmeza, presente e irradiante.


Pedra de raio 

Em Santa Cruz de Minas, anotei a curiosa simpatia de se jogar uma peneira de taquara no terreiro da casa, em plena chuva forte, devendo necessariamente cair emborcada, para prender a emissão de raios. A oração que antecede este ato é a seguinte***: 


Palavra santíssima,
contra raio e tempestade,
Deus foi feito homem,
velho foi feito carne.
Cristo Rei que vem em paz,
Cristo nasceu da Virgem Maria,
Cristo manda, Cristo reina!
De todo mal corisco e tempestade. 

Crê o povo que o espelho atrai o raio o que a ciência desmente. Mas ignorando isto, quando relampeia não se olha no espelho e até mais ao extremo, se lhe encobre com um pano. Este é o preceito popular, que inclui ainda não mexer com nada de metal, sobretudo de ponta, não abrir torneira nem tomar banho, cuidado já com um certo sentido pois metal e água são excelentes condutores de energia elétrica. Uma restrição tradicional é durante a tempestade que cai raios, suspender toda atividade, não ter relação sexual, não xingar, não discutir com ninguém, apenas rezar e aguardar. O raio tem de ser respeitado, pois representa a ira de Deus. 


Referências bibliográficas

PIMENTEL, Altimar de Alencar. Sol e chuva: ritos e tradições. Brasília: Thesaurus, [s.d.]. 
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: [s.d.], 930p.

Referências na web

Jerónimo. Wikipédia, acesso 01/09/2014, 08h.
Bárbara de Nicomédia. Wikipédia, acesso 01/09/2014, 08h.

Notas e Créditos 

* Informante: Pedro Reis da Silva 
** Capitão: Luís Pereira dos Santos
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1997. Prece considerada muito forte, que não deve ser enunciada fora da ocasião propícia. Informou também os calangos. A expressão "Deus foi feito homem, velho foi feito carne" foi sem dúvidas inspirada no primeiro capítulo do Evangelho Segundo São João (Jo 1, 1-3; 14-15). A invocação direta a Jesus parece ser uma alusão ao episódio da tempestade acalmada, quando dentro de uma barca no Lago da Galiléia (Lc 8, 22-25; Mt 8, 18-27, Mc.4, 35-41). 
****Texto e foto-montagens: Ulisses Passarelli
*****Fotos: Iago C.S. Passarelli, 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O folclore dos dentes - parte 3

Vocabulário popular da odontologia

O universo popular da cultura informal, do linguajar diário, criou um vasto vocabulário em torno da dentição e de certas práticas clínicas odontológicas. Ele mostra um modo muito especial de visualizar as relações de saúde do homem com respeito aos dentes, constituindo uma curiosa forma de nomenclatura, algumas vezes extensiva até a quem trabalha na área. 

Não é nada técnico, oficial nem científico, tampouco desrespeitoso. É folclore, vivo e alegre, perspicaz nas observações, registrando ora com humor ora com uma pitada de sofrimento a realidade do problema da saúde bucal, que em parte ainda atinge lamentavelmente uma parcela significativa do país. 

Os termos foram recolhidos por longos anos de vivência clínica em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Foram preservados de maneira anônima em velha anotação de pesquisa. 

Guia de tentos e dentes. São João del-Rei, 2007. 

Banguela (o) – desdentado, total ou parcial. Termo pejorativo que remete aos benguelas, etnia africana, bantos de Angola escravizados no Brasil. Tinham o costume de limar os dentes gradativamente desde muito cedo, de tal forma que em idade avançada eram minúsculos, por questões que consideravam estéticas e talvez rituais. Por analogia, quem tinha dentes pequenos ou faltantes eram equiparados aos benguelas. Eram embarcados ao Brasil pelos traficantes de escravos no porto de São Filipe de Benguela, possessão portuguesa em Angola. 

Beque – sorriso falho quando só aparecem os caninos (ou algum pré-molar), quando os incisivos já foram extraídos. Termo absorvido do futebol. 

Bloco – coroa total metálica.

Boca de latrina – expressão pejorativa: sujeito acometido por intensa halitose.

Boqueira – queilite angular. Lesão nas comissuras labiais (ângulos da boca) associada à perda da dimensão vertical e infecção fúngica.

Boticão – “buticão”, fórceps. Instrumento usado para extrair dentes.

Cabresto – mentoneira, aparelho usado em ortodontia e ortopedia funcional dos maxilares. Analogia ao equipamento de couro e metal usado na cabeça dos animais de carga e montaria.

Caco – foco residual ou resto radicular. Remanescente dental inaproveitável, extremamente destruído pela cárie e doença periodontal.

Chapa – 1- Dentadura. 2- Radiografia. “Bater uma chapa” (radiografar).

Chumbinho – amálgama.

Cobra caolha – amálgama aplicado numa única fóssula oclusal de pré-molar inferior. Ver: olho de cobra.

Cocada – prótese total removível ainda em confecção, na fase de prova dos dentes em cera. 

Curativo – capeamento pulpar; restauração provisória. 

Dentadura – Prótese total removível. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional.

Dentão – dente excepcionalmente grande; caso de macrodontia.

Dente crescido – caso de pericementite: inflamação aguda no periodonto, ao redor do cemento, causando incômoda e dolorosa sensação de extrusão dentária.

Dente da frente – incisivo.

Dente de cavalo – dente anterior grande e de ângulos nítidos; incisivo proeminente.

Dente de leite – dente decíduo. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional. Sua tonalidade muito branca lembra a do leite[1].

Dente de mandioca – dentes anteriores superiores muito brancos, grandes, de tamanho e forma muito parecidos, com pouca distinção morfológica entre incisivos centrais e laterais [2].

Dente de traíra – dente afiado, pontiagudo, como do peixe traíra (gênero Hoplias, família erythrinidae).

Dente do juízo – terceiro molar.

Dente do siso – ou apenas, “siso”; terceiro molar. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional. O mesmo que “dente do juízo”, nome dado devido ao período que estes dentes erupcionam (“nascem”), em torno de 18-21 anos de idade em média, quando o jovem atinge a maioridade [3].

Dente inflamado – literalmente, dente acometido por pulpite. O povo adota este conceito por extensão para outras situações clínicas dolorosas, tais como: pericementite, abscessos (crônicos ou agudos) e osteíte.

Dente mole – elemento dentário com mobilidade, gerada pela perda patológica de implantação óssea.

Dente podre – dente extensamente destruído por lesão cariosa. Geralmente é resultado de uma cárie aguda e, por vezes, rampante.

Dentucinho – 1- criança com dentição mista (“fase do patinho feio”), na qual os dentes permanentes parecem ser grandes em relação ao tamanho da face infantil, ainda em crescimento. Dentes com diastema (afastamento com falta de ponto de contato entre elementos contíguos). 2- diminutivo de dentuço.

Dentuço – pessoa com os dentes anteriores grandes. Dentudo. É sempre de uso zombeteiro, especialmente aplicado aos portadores de protrusão maxilar.

Distraí – corruptela comum de extrair. Exodontia, avulsão cirúrgica.

Dor de dente – odontalgia. Diz-se dos sintomas de pulpites e lesões ósseas periapicais (junto ao ápice da raiz dentária).

Estrelinha – amálgama, para as crianças.

Goleiro - incisivo inferior remanescente. 

Heróis da resistência – últimos dentes remanescentes em uma boca edêntula em sua quase totalidade. Não raro restam apenas os dentes anteriores inferiores.

Limpa-trilho – diz-se quando os incisivos mediais superiores são muito protrusos. Analogia à forte peça de ferro que os trens a vapor antigos, as maria-fumaça, tem na frente, a fim de tirar objetos dos trilhos, para evitar acidentes por descarrilamento da locomotiva.

Limpeza – procedimento de profilaxia dental: raspagem de cálculos, remoção de manchas, polimento dentário – indistintamente.

Marfim – 1- esmalte dentário. 2- resina de uso odontológico estético.

Massinha – cimento de óxido de zinco e eugenol usado em restaurações provisórias e capeamentos (diretos e indiretos).

Mata-cobra – articulador de garfo ou charneira, usado para montagem de modelos de gesso em laboratório.

Mau hálito – halitose.

Nervo do dente – a polpa dentária e não especificamente as suas terminações nervosas.

Obturar – de forma indevida é sinônimo de restaurar. Obturar é tampar, fechar. Restaurar é restituir forma, função e estética.

Olho de cobra - amálgama aplicado nas duas fóssulas oclusais de pré-molar inferior. Ver: cobra caolha.

Panela – os molares. Também se diz das amplas cavidades cariosas que acometem estes dentes.

Pé do dente – região cervical da coroa (próximo à gengiva) e colo do dente. É comum o paciente queixar-se da dor nesta área nos casos de recessão gengival e abrasão local do tecido dentário.

Perereca – prótese parcial removível muco-suportada, sem grampos fundidos e eventualmente com grampos improvisados com fios ortodônticos. Pelo suporte deficiente, “salta” da boca, daí “perereca” - o que pula.

Pilão – molar. O termo se aproxima da etimologia inicial, pois que, molar vem de mó, a pedra de moer, donde surgem as palavras moinho, moagem, moleiro, moenda. Pilão é o artefato de rocha ou madeira, usado primitivamente para moer, por vias manuais e não por mecanismo mecânico. O molar é o dente responsável pela moagem do alimento.

Piorréia – “periodontose”; periodontite avançada. Lesão do periodonto quando o dente já apresenta franca mobilidade, muito tártaro, sangramento gengival, tecido de granulação, alteração das características anatômicas da região peridental.

Pivô  - pivot, coroa com espiga. Coroa unitária com pino intracanal integrado à própria coroa, cimentado em conjunto. Em grande parte substituído pelo sistema de núcleo metálico fundido cimentado antes da coroa propriamente dita, num sistema mais eficiente.

Platina – amálgama. O povo supõe que o amálgama seja feito por platina, talvez porque no passado sua liga recebia pequenos percentuais deste metal raro e precioso.

Presa – canino. Terceiro dente da bateria anterior, imediatamente após os incisivos.

Quisto – cisto.

Rancá – extrair dente; exodontia.

Ratinho – pessoa com dentes semelhantes aos de um rato. Se o dente é pequeno dizem “ratinho”, se grande e protruso, “ratão”.

Rôti – Roach, PPR (prótese parcial removível), sistema a grampos fundidos, geralmente em liga de cromo-cobalto.

Sapinho – candidíase oral, principalmente em crianças. Lesão esbranquiçada e sangrante, causada pela infecção fúngica por Candida albicans.

Sorriso cento e um – diz-se que alguém tem este sorriso quando falta um único incisivo na bateria anterior. É uma aproximação bem humorada com a matemática: 101 é formado pelos algarismos um, zero e um; como na boca – um dente, sem dente, outro dente ...

Sorriso de piano – arco dentário com elementos de tamanho e forma próximas, tendo o aspecto nitidamente quadrilátero. A monotonia da composição gerou a analogia com o teclado de um piano.

Sorriso mil e um – faz-se pelo mesmo princípio do cento e um, porém quando faltam dois incisivos vizinhos um do outro.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014.  

Notas 

- Revisão: 31/12/2025.
- Leia também:

O folclore dos dentes - parte 1
O folclore dos dentes - parte 2



[1] - Na gíria futebolística, sobretudo no futebol informal, infanto-juvenil, “dente de leite” é o jogador muito ruim, que é posto em campo só para complementar o número regimental de jogadores, sendo excluído das jogadas importantes.
[2] - As crianças de São João del-Rei costumam brincar com a casca da mandioca (Manihot utilissima, euforbiaceae), utilizando a parte interna (muito branca), cortada à faca pelas bordas, onde se faz entalhes que imitam dentes pela forma. Curvam em forma de arco dentário e alojam esta “dentadura de mandioca” no vestíbulo bucal, mantendo-a presa pela musculatura do lábio superior e bochechas.
[3] - No interior potiguar, em 1996, em Santo Antônio (do Salto da Onça) e Caicó (nas comunidades rurais de Laginhas e Sabugi), o terceiro molar é chamado de "quexá" ou “dente quêro”. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Quadrinhas de amor - parte 3

Esta postagem apresenta aos estudiosos e amantes da poesia popular mais cinquenta quadras compostas sob a inspiração do amor, parte de uma coleção bem maior, em parte já exposta neste blog e com outros números planejados. 

São quadras anônimas e talvez em alguns casos tornadas propositalmente "anônimas", ou em outras palavras, quiçá apropriadas pelo povo de autores conhecidos e repetidas de boca em boca ou de caderno em caderno, como se fossem de autoria própria. E assim ganham asas e se reconfiguram sob novas influências, variantes, corruptelas e regionalismos. É um processo de folclorização. 

As trovas de amor revelam muitas vezes uma filosofia popular que rege os relacionamentos, mormente os da juventude e adolescência. Outras vezes mostra na sua trama um amor platônico; desilusão, paixão ou tão somente simpatia. Algumas tem desfecho gentil e educado, mas por vezes se fazem grosseiras e até cômicas. Nota-se também em algumas a repetição de fórmulas, tais como os versos-feitos, que aparecem em várias quadras de diferentes procedências. 

O saber popular permite toda esta flexibilidade. Em sua lógica não se prende a fórmulas rígidas. O importante é ser funcional.

Página de um caderno de poesia popular.
Santa Cruz de Minas, 1996. 

Sei que você gosta de mim,
Menina, se tu soubesse,
Embora diga que não.
Como eu te tenho amor,
A boca nem sempre diz
Tua caías em meus braços
O que senti o coração.
Como o sereno caiu na flor.


Menina, minha menina,
O amar e o querer bem,
Quem te fez tão bonitinha?
Todos dois andam junto,
Foi o sol, foi a lua,
O amar passa trabalho,
As estrelas miudinha...
Querer bem padece muito.


Da roseira nasce espinho
O suspiro mais a saudade,
E nasce também a flor;
São dois amor que eu tenho:
Do seu orgulho, carinho,
O suspiro é quando eu vou,
Do seu desprezo, a dor...
A saudade é quando eu venho.


Com A escrevo amor,
Fiz o A pra te amar,
Com P escrevo paixão,
Fiz o Q pra te querer,
Com R escrevo Roberto[1],
Fiz o D pra te deixar,
A letra do meu coração!
Somente quando eu morrer.


Seus olhos são de veludo,
Se eu fosse uma pedra,
Seu sorriso, encantador;
Queria que você sentasse,
Sua boca é meu livro,
Mas como sou gente,
Na faculdade do amor.
Queria que você me amasse.


Joguei uma pedra n’água,
Sua boca é uma rosa,
A onda foi espalhando,
Seu nariz é um botão,
Uma lágrima discreta
Dentro dos teus olhos tem um laço
Veio em meu rosto molhando.
Que prende meu coração.


A paixão e a saudade
Menino dos olhos pretos
São duas fiéis companheiras:
Olhos preto, matadô,
A paixão dura pouco,
Se eu morrer por esses dias
A saudade a vida inteira.
Seus olhos que me matô...


Sua mãe é uma rosa,
Dentro da minha casa,
Seu pai é um jardim,
Corre água sem chover,
Os dois trabalharam juntos
Não sei se são meus olhos
Pra criar você pra mim.
Que chora por não te ver.


Você disse que sou criança
Você disse que sou criança,
Recebi isto com fervor,
Criança sei que sou;
Pois mesmo pequenina,
Um dia você sentirá saudades
Estou morrendo de amor.
Da criança que te amou.


Oh, meu querido
Mandei te retratar
Da minha veneração!
Na parede de meu quarto,
Deus grave suas palavras
Para na hora que não te ver
Dentro do meu coração.
Consolar com seu retrato.


Os pássaros pedem ar,
Os pássaros perderam as penas,
Os presos, liberdade,
Os peixes perderam as escamas,
Eu peço a você,
Eu vivo perdendo tempo,
Amor e felicidade.
Amando quem não me ama.


Moreno dos olhos lindos
O beijo que você me deu
Que um dia encontrei,
É sofrimento para mim,
Não sei o que tu tens
Andarei sempre sofrendo,
Que logo apaixonei.
Até chegar o meu fim.


O amor é como um punhal,
É triste a dor da saudade
De dois cortes fatais,
Ao despedir de alguém.
Quem ama sofre muito,
Quem parte, parte chorando,
Quem não ama sofre mais ...
quem fica, chora também.


Hoje eu vi uma abelha[2],
O vento quando é forte
Pousada, tonta de amor,
Joga folha no chão;
Em tua boca vermelha,
O amor quando acaba
Pensando que era uma flor.
Deixa dor no coração.


Enquanto o mundo for mundo
Se entre duas pedras
Enquanto Deus governar,
Pode nascer uma flor,
Enquanto você desistir,
Então, por que entre nós
Outro, não hei de amar.
Não pode nascer um amor?


A folha da bananeira
Eu tive um sonho esta noite,
Tem quatro ou cinco recortes
Sonho de tanta alegria,
Hei de te amar
Sonhei que me casaram a força
Até na hora da minha morte.
Logo com quem eu queria.


Quando vires a tarde fria,
Quando ver o dia triste,
Não pense que vai chover
A tarde querendo chover,
São meus olhos tristes
Lembre-se que são meus olhos
Que choram por não te ver.
Que choram por não te ver.


Subi no pé de lima
Não te ofereço rosas
Chupei lima sem querer;
Porque tem espinho;
Espetei no espinho
Mas te ofereço meu coração
Pensando que era você.
Com todo amor e carinho.


Se amar for pecado
Sou um jardineiro imperfeito,
Quero ser um pecador,
Pois, no jardim da amizade,
Para ser crucificado
Quando planto um amor-perfeito,
Nos braços do meu amor.
Nasce sempre uma saudade...


De saudade ninguém morre,
Meu amor me deu um beijo,
Vive sempre a sofrer,
O meu corpo estremeceu,
Creio que é verdade,
Depois de nove meses
Pois vivo sempre a sofrer.
O nosso filho nasceu...


Com Deus me deito,
As letras pegaram fogo,
Com Deus me levanto,
Corri para salvar;
Breve eu terei
Salvei a letra ... [3]
Você ao meu canto[4].
O resto deixei queimar.


Quando eu tinha 11 anos
Minha vida é um céu
Só pensava em brincar,
Quando estou do teu lado,
Agora que tenho o dobro
Vira inferno,
Só penso em te amar.
Quando estamos separados.


Ribeirão que corre água,
Se eu fosse uma rainha,
No fundo corre areia,
Te daria o meu reinado,
Se amar fosse crime,
E se fosse uma andorinha,
Eu estaria na cadeia.
O meu ninho do telhado.


Quando eu te amava
O teu rosto é lindo,
Você era a flor do meu canteiro.
Teu sorriso encantador,
Agora que te odeio,
Não me canso de falar,
Você é o porco do meu chiqueiro.
Eu você é meu amor.


Do céu quero uma estrela,
Esta noite eu tive um sonho,
Do jardim quero uma flor,
Na praia do mar sereno:
Dos teus lábios quero um beijo
Sonhei que estava beijando
Do teu coração quero amor.
Seu lindo rosto moreno.


* Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
*** Leia também: 



[1] - Verso que permite a flexibilização da letra inicial para ajustar a qualquer outro nome.
[2] - Leia sobre o folclore das abelhas na postagem: As abelhas na cultura popular
[3] - Enuncia-se a letra inicial do nome do amado.
[4] - Paródia de uma conhecidíssima oração do tipo ensalmo: “Com Deus me deito, / com Deus me levanto, / na graça de Deus,/ do Divino Espírito Santo.” Ela enseja também outra paródia, de cunho antes humorístico que desrespeitoso, da mesma procedência desta série de quadras: “Com Deus me deito, / com Deus me levanto, / eu na beirada, / a negra no canto.”