Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 16 de janeiro de 2016

Alguns elementos tradicionais do antigo carnaval de São João del-Rei

Aspectos Folclóricos do Carnaval São-joanense [1]

Dentro da cultura popular, especificamente no chamado "folclore cíclico" é conhecido o CICLO CARNAVALESCO, com uma série de manifestações, costumes e aspectos que só são vistos nos dias de folia momesca (e nos que lhe antecedem imediatamente), inseridos num contexto bem mais amplo, popular não-folclórico. Ou seja: o carnaval é uma grande festa popular, com aspectos folclóricos e muitos não folclóricos.

Este artigo trata apenas do folclore carnavalesco com respeito a São João del-Rei, numa abordagem meramente descritiva: entrudo, zé pereira, índios, blocos de sujos, nêga maluca, boi, bonecas e caveiras.

1-Entrudo

Foi a expressão antiga do carnaval conhecida nesta cidade. Do latim, introito, entrada. Em 1879 “incumbiu-se de festejar este ano ao deus Momo (carnaval) a Sociedade Juvenil. A Rua Direita converteu-se em bosque e aí ao som da música, postada em palanque, se divertiram mascarados, distribuindo graças e flores”. Registro de Sebastião Cintra, com base no jornal “Arauto de Minas”, de fevereiro.

A expressão maior era a saudável batalha de água, perfumes, farinha e polvilho. Os foliões jogavam estes materiais entre si e nos transeuntes, com seringas de jogar água ou qualquer vasilhame, limões de cera contendo água perfumada e matéria feculosa, lambrecando os brincantes. A escola de samba carioca “Imperatriz Leopoldinense” lembrou-se do entrudo com versos assim:

“Oi, joga água, amor! Limão de cera!
Ôh, vale tudo nessa brincadeira!”

Herança portuguesa foi registrada no Brasil em começo do século XIX por Henry Koster em Pernambuco e Jean Baptiste Debret no Rio de Janeiro, mostrando ambos o trabalho dos servos carregando o material para servir aos senhores na sua lúdica, “nas senzalas e casas-grandes, nivelando amos e servos na alegria igualitária do entrudo”, segundo Câmara Cascudo, que opinou relembrar o carnaval as clássicas saturnálias, februálias, florais, festas orgiásticas assírias, medo-persas, babilônicas, dizendo que “nenhuma crônica grega superava essa explosão de vida dionísica, arrebatada, furiosa e brutal em sua espontaneidade.”

Debret descreveu a confecção do limão de cera ou de cheiro:

(...) simulação de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha de espessura e cuja transparência permite ver o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde. (...) A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja verde de tamanho meio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida. (...) mergulha-se na água fria, (...) Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente, tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão de cheiro.”

O entrudo como era passou. Aqui e acolá, onde as mudanças sociais chegam mais vagarosamente alguns de seus elementos sobrevivem esmaecidos.

2-Zé pereira 

Conjunto formado por uma bateria baseada em percussão grave à custa de surdos, zabumbas, bombos treme-terra. Zé pereira seria o nome dado aos tambores do folguedo e por extensão ao grupo, processo conhecido no folclore coreográfico. O grupo inclui folgazões fantasiados e mascarados, de toda espécie.

Desfila pelas ruas com seus batidos firmes somados aos gritos compassados dos foliões de momo: “Pereira!” E a percussão ataca: “bum! Bum-bum-bum!”, “Zé Pereira! Bum! Bum –bum-bum! Pereira!”... etc., alternando repiques. Pode haver algum canto como este, tradicionalíssimo e divulgado:
“Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que a ninguém faz mal!
Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que hoje é carnaval!”

De costumeiro sai antes do carnaval, anunciando-o em ocasião de alegria, batucada, ensaio de marchinhas e sambas, como Dario Vale observou em Prados/MG: “(...) o tal de “Zé Pereira” que nada mais era que o ensaio de cantos, músicas, danças e folias, feito porém à vista de todos que estivessem pelas ruas e sem o aparato do carnaval propriamente dito.”

Sua origem é portuguesa. Espalhou-se no Brasil, notadamente no centro-sul. Parece ter sido introduzido no Rio de Janeiro, donde teria se espalhado. Luiz Edmundo dá como ano de sua introdução 1852, assim o descrevendo: “sete ou oito maganos vigorosos, tendo por sobre os ventres empinados satânicos tambores, caixas de rufos ou bombos, por entre alucinantes brados, passam pelas ruas, batendo, surrando, martelando, com estrondo e fúria, a retesada pele daqueles roucos e atroadores instrumentos.”

Consta que foi o sapateiro português José de Azevedo Paredes, natural do Porto e com loja na Rua São José, no Rio de Janeiro, o introdutor do folguedo. A novidade pegou e logo surgiram muitos outros. O autor supracitado informa que no Rio o zé pereira “acaba aí por 1906, 7 ou 8, como todas as coisas acabam, mas com esplendor e glória”.

Cascudo baseado em Armando Leça (Música Popular Portuguesa, 156, Porto, s.d.), dá como original do norte português e beiras, onde “barulham na arruada os gaiteiros e zé p’reiras”. Atesta-lhe J. Leite de Vasconcelos (Boletim de Etnografia, n.5, 27, Lisboa, 1938): “O zé pereira figura com frequência nos arraiais festivos do norte e beira”.

Professor Cintra registrou a presença deles em São João del-Rei/MG em 1901:

“Iniciam-se os festejos carnavalescos, promovendo a Sociedade Filarmônica S. Joanense baile à fantasia. O povo postou-se de frente da sede da entidade, situada à antiga Rua municipal, no local onde se construiu o edifício S. João del-Rei, para assistir à chegada dos foliões, alguns exibindo fantasias de elevado preço. As 22 horas a Orquestra Ribeiro Bastos executou a 1ª valsa. No dia anterior, sábado de carnaval, percorreram a cidade os barulhentos zé pereiras. Todas as noites num coreto armado à Rua Municipal, tocava  uma banda de música. No carnaval de 1901 não faltou o perigoso entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.”
            Havia vários destes conjuntos nesta cidade, em bairros, ocorrendo como consta por tradição oral, rivalidade entre eles. Não restou um só grupo nesta terra...

3-Índios

Era uma espécie de bloco formado por indivíduos trajados à imitação de indígenas, de cocar, saiote de penas, ráfia desfiada ou capim, tornozeleiras de penas, portando lanças ou flechas, pele com pinturas. Tinham impressionante realismo, quer na aparência quer na gesticulação ameaçadora, como se fora uma tribo em pé de guerra. Até meados do século XX e com mais força na primeira metade, havia desses grupos, hordas carnavalescas como nomes evocadores de velhas nações íncolas, até com rivalidades umas com as outras. 

Desapareceram. Vez por outra, até hoje, vemos indivíduos com tais trajes, machadinha à mão, de fingimento, isolados, perdidos na multidão como nossos índios de verdade, vivendo quase a esmo na terra que era (é) sua.

4-Blocos de Sujos (**)

Eram grupos caricatos de mascarados diversos, com trajes variados, alguns bem simples, quase maltrapilhos na fantasia, daí o nome. Valiam as posses e a criatividade, com a indispensável animação e senso carnavalesco. Acompanhados de charanga ou de batucada, percorriam animadamente as ruas, atirando confetes, serpentina, perfume de seus lança-perfume e alegria contagiante. Somavam-se outros fantasiados primorosos e sem outra regra senão a descontração: diabos, gatinhos, papangus, fantasmas, bruxas, árabes, mendigos, ciganas, piratas, vikings, pierrôs, colombinas, palhaços, dominós, polichinelos, arlequins e outros seres do passado, da criatividade e do subconsciente, surgiam e se misturavam, usando panos, cordas, fios, materiais brilhantes e outros, que serviam de matéria-prima. Alguns padrões tornaram-se tradicionais. 

5- Nêga Maluca

Brincadeira antiga centrada num personagem que leva este nome, carregando aos braços uma boneca a guisa de bebê, que, simulando não saber quem é o pai verdadeiro, oferece-o aos homens que passam, dizendo a clássica frase: “toma, que o filho é seu!”

O suposto pai oferta um dinheiro qualquer e lá vai a nêga maluca, após as pilhérias de praxe, com o filho nos braços à procura de outro pai, cuja espórtula garantirá a cachaça carnavalesca. Outros ofertam bebidas e lanches. Uma charanga a acompanha.

Os trajes representam uma mulher extravagante, com roupas de vivo estampado, cores berrantes, brincos e colares enormes, peruca despenteada, batom borrado na boca, adereços esquisitos e cacarecos pendurados. Seios postiços enormes. Ancas proeminentes por causa de dois travesseiros que amarra ao corpo sob o vestido, dando-lhe a aparência de uma mulher desajeitada, sem atrativos. No geral é um homem travestido.

É hoje rara esta folgança, aparecendo vez por outra, desgarrada no interior de uma farra qualquer, descaracterizada de seus elementos originais, convertida apenas em mais uma fantasia, aliás, bastante difundida.   

6- Boi

Não temos o folguedo do bumba-meu-boi em sua complexidade estrutural, mas seu personagem central aqui surge – já bastante rarefeito – fazendo as alegrias do carnaval de rua, com o nome de boi, boizinho e rancho do boi. Dança isolado, investindo com chifradas contra a meninada que lhe atiça sem parar. Dança aos volteios, descrevendo círculos e carreiras acompanhado por uma charanga ou batucada. Tocam ritmos do tempo, nada específico. Outras vezes surge em algum bloco, ao qual se mistura. Não há personagens senão o boi de fingimento, feito com uma armação coberta de pano, cabeça e rabo postiços. Um dançante movimenta o estafermo, oculto sobre ele.

Ficou afamado o Rancho do Boi de “seu Fausto” (Fausto de Almeida, falecido em 19/05/1953), no Bairro das Fábricas.

Das bandas do Tijuco – Alto das Águas Férreas, Rua de Santa Clara e Vila São Bento – por vezes sai um boi. Meu pai, David Passarelli, viu-o em Penedo, no município de Ritápolis/MG a trinta e tantos anos (por volta de 1968). Ainda se mantém em Prados/MG, onde é tradicionalíssimo, com o nome de boi mofado. Em Coronel Xavier Chaves/MG é chamado boi-de-caiado.

7- Bonecas 

Nossas bonecas são simples e parcas. Não as temos com a fartura pernambucana. Surgem, porém, com certa timidez, destacando com sua armação agigantada, vestido de chitão, adereços chamativos. Um indivíduo metido debaixo dela faz dançar aos rodopios e passos miúdos, girando os longos braços a bater a bolsa nos circunstantes, obrigando a abrir a roda de assistência. Faz salamaleques e mesuras. Insere-se no contexto dos blocos caricatos.

Outro tipo é uma boneca ou boneco menor, levado aos ombros por um folião, ou a ele abraçado, como uma companheira de dança, cujas pernas molengas são amarradas às do dançante.

Já os curiosos “Cabeções” que formavam um bloco específico, desapareceram. Os bonecos macrocéfalos ficaram no passado.

8- Caveiras

Bloco típico que prima pelo tétrico, o macabro, brincando com os valores da morte e da vida do além. É um cortejo ao som de música fúnebre, de foliões envoltos em mortalhas, "cáfitas" brancas, lençóis, como fantasmas, máscaras de caveiras em papel machê, já sendo comuns as industrializadas. Monstros, múmias, demônios, zumbis, viúvas em pranto, sangue fingido escorrendo de facadas falsas, caixão arrastado pelas ruas, velas, correntes, ossos bovinos. Vão em lento desfile, ameaçando atacar a assistência, atemorizando as crianças. A passagem do Bloco Os Caveiras é concorrida e esperada. As máscaras artesanais tem valor folclórico.


Bois, personagens do Bloco Recordar é Viver, em desfile pela
Rua Arthur Bernardes, São João del-Rei, 03/03/2014. 


Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. V.1, 326p. p.82 e 100.
DANGELO, Jota. De sambas e sambistas. Gazeta de São João del-Rei, Seção Opinião, Coluna Pelas Esquinas, ano 1, n.26, 16/01/1999.
_________  Noltalgia. Idem. n.27, 23/01/1999.
_________  Agostinho França. Ibidem. n.29, 06/02/1999.
_________  Escola de Samba. Ib. n.30, 13/02/1999.
_________  Flashes do Carnaval. Ib. n.31, 20/02/1999.
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Martins, 1972. V.2, n.11, p.219-222.
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu Tempo. 2.ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1987, v.4, p.767 e ss.
VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p. p.224-227.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli
** Sobre o Bloco dos Sujos não deixe de ler no Blog de São João del-Rei, sob a coordenação do emérito pesquisador Francisco Braga: 

CHICO BRUGUDUM, TIPO PITORESCO DO CARNAVAL SÃO-JOANENSE




[1] - Este subtítulo é na verdade o título da publicação original, in: TRADIÇÃO. São João del-Rei: Subcomissão Vertentes de Folclore, n.5, fev.2000. Boletim Informativo, p.3-5. 
O texto foi adaptado para esta postagem. A versão original pode ser lida pelo link: 
A fotografia foi inserida especialmente para esta postagem. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Antigos Carnavais de São João del-Rei

Em São João del-Rei a tradição carnavalesca se consolidou sobre décadas de experiências. Muitos ritmistas, sambistas, figurinistas e agremiações deixaram seu legado para outras gerações. A fama do evento nesta terra cresceu e correu por regiões distantes.

Aspecto parcial do bloco "Carnaval de Antigamente", 
no Largo do Rosário, São João del-Rei, 2013.
O estudo do carnaval antigo desta cidade nos fornece dados muito interessante sobre a história desta grande festa popular e ajuda a compreender o carnaval atual, sobretudo a paixão do são-joanense pela folia momesca.

Os velhos jornais aqui editados são fartos em informações sobre o carnaval e se revelam uma fonte preciosa de pesquisas. De suas páginas sabemos do gosto pelo entrudo desde os oitocentos, um extrovertido jogo de jatos d'água entre os brincantes do momo, por meio de grandes seringas chamadas bisnagas, ou mesmo baldes e bacias; guerra de limões e laranjas de borracha ou cera, que continham perfume e estouravam ao contato com o corpo pela força do arremesso; batalhas de farinha.

Esta prática a tivemos da península ibérica. Derivado do latim introitus ("entrada", referência à chegada do período quaresmal), no Brasil e Portugal o termo é o mesmo, entrudo; já na Espanha existem variações, segundo José António Fidalgo Santa Mariña (***): entroido (Galiza), antruxu (Astúrias e Léon), antroydo (León e Cantábria), entruejo (Sanábria, Zamora).

Porém o entrudo, embora que durante um período fosse uma das maiores características do carnaval, não agradava a muitos. O velho costume foi em verdade combatido pelas autoridades. O artigo 153 do Código de Posturas de São João del-Rei, edição de 1887, proibia o entrudo e o comércio das laranjas e limões de cheiro. 

A imprensa combateu este costume: “(...) reviveu até o antigo e nunca assaz condenado entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.” (O Resistente, n.374, 21-23/02/1901).


No ano seguinte o jogo de molhar prosseguiu, como comprova o recorte em foto acima, cuja mordaz crítica apóia a ação policial de coibir o entrudo, mas pergunta se as mulheres também seriam presas como os homens nos casos de transgressão, deixando claro ser uma farra comum  (A Farpa, n.14, 09/02/1902).

Também nos antigos reclames comerciais pode-se rastrear o costume nos anúncios da imprensa para o carnaval: “Bisnagas de todos os tamanhos, sortimento colossal na Charutaria do Commercio. – Rua Moreira Cesar, 10. (...) Borrachinhas para limão, por atacado e varejo na Charutaria do Commercio.” (O Repórter, n.6, 26/02/1905).


O carnaval de 1907 foi bastante animado. Garante o jornal acima retratado, que "o tiroteio de confetti, bisnagas e o lança perfumes esteve fortissimo", acontecendo de forma ordeira. A banda de música do Asilo de São Francisco, que era sediado no atual prédio onde funciona o DAMAE tocou animadamente num coreto armado na esquina das ruas Moreira César e Duque de Caxias (ex-Rua Direita), nomes antigos das atuais Arthur Bernardes e Getúlio Vargas, respectivamente. O jornal em questão destacava a atuação da agremiação Dominós Fúnebres (O Repórter, n.3, 17/02/1907).

Mas como o entrudo persistisse não obstante o crescimento dos grupos organizados de desfile, houve ainda proibições e ação policial no sentido de coibir o arraigado costume: “o doutor Alvaro Correa Bastos Junior, Delegado de Policia da Comarca de S.João d’El-Rey, Minas Gerais, etc., FAZ saber, para conhecimento dos interessados, que é prohibido o jogo de entrudo, e que serão estrictamente observadas as Posturas Municipaes” (A Opinião, n.129, 15/02/1912).


Mais tarde, na década seguinte, as referências aos ataques momescos com águas, pós e objetos de cera rareiam ou desaparecem da imprensa são-joanense, muito embora outros combates tenham persistido vigorosos: "as batalhas de confettis e lança-perfumes feriram-se com galhardia e denodo" . Garante o mesmo jornal o sucesso do desfile do Clube X.P.T.O. formado por uma "rapaziada batuta". Na esquina das ruas Direita e Moreira César, o poder público municipal armou um coreto, em torno do qual o povo se juntou para ouvir a fanfarra militar (A Bigorna, n.1, 08/03/1923).


Os irreverentes redatores "Chuca-chuca & Bijuca", invocando os foliões dos blocos, ranchos e cordões da cidade, divulgaram de forma auspiciosa a esperança de um animado carnaval para o ano de 1928, que principiou com o alegre batucar de um zé pereira, velho costume da passagem do ano, promovido pelas agremiações da cidade como um anúncio do carnaval (O Penetra, n.7, 01/01/1928).


Parecem mesmo terem sido proféticas suas palavras.  O órgão de imprensa do ilustre Basílio de Magalhães dedicou uma primeira página inteira ao carnaval daquele ano, detalhando as atividades. Na enumeração das agremiações descreveu a ordem do desfile de cada uma. O Clube X, "veterana sociedade carnavalesca", tinha um ar mais aristocrático e se destacava pela pompa e organização; os ranchos, União das Flores, Custa mas Vai, Qualquer nome Serve e Boi Gordo, desfilaram com o estandarte como abre-alas, seguidos de fanfarra de clarins, diretoria a cavalo ou num carro próprio, conjuntos de pastoras, carros alegóricos, banda de música; os blocos, mais livres em sua estrutura de desfile, marcaram a tradição com o Preto e Branco, "constituído de elementos representativos de nosso escol social", o Bloco da Interrogação foi organizado pela família  do comerciante Aniceto Antunes, que "saiu em caminhão muito chic, entoando belas canções". O Bloco do Oh! esteve sob o comando de Ivan de Andrade Reis. Os Turunas, emplumados à moda indígena, tradição muito arraigada aos carnavais antigos da cidade, sob a direção de Eduardo Cancio, "alcançou um successo digno de applausos." Desfilaram também o Bloco do Zero, o Bloco do Eu Suponho e Bloco da Cruz Vermelha (A Tribuna, n.912, 26/02/1928).


Esse mesmo jornal, quatro anos mais tarde, trazia impresso acima do próprio nome uma convocação que garantia ser o carnaval de São João del-Rei o melhor do estado (A Tribuna, n.1.103, 10.01.1932).


Em 1934 o número de ranchos aumentou com a chegada do Pierrot Brasileiro, que convidou o sr. João Pereira, diretor jornalístico do órgão de imprensa que o noticiou, para o cargo de orador oficial do grupo (A Sentinella, n.2, 14/10/1934).

Por esta época não se falava em escolas de samba. Seu estabelecimento por aqui foi bem mais tarde, a grosso modo, coincidindo com o fim, primeiro, dos cordões, depois, dos ranchos. Mas isto é outra história...

Notas e Créditos

* Textos e fotos: Ulisses Passarelli
** Fonte da pesquisa jornalística: acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG.
*** In: FERREIRA, Hélder (org.). Máscara ibérica. Porto: Caixotom, 2006. v.1.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A festa do Sr. Bom Jesus de Matosinhos em Portugal

Isabel Lago informou que a festa do Bom Jesus de Matosinhos, na cidade portuguesa de Matosinhos, tem o nome de romaria. Em sua obra se baseia o breve resumo que se segue.

Inicialmente processava-se em um só dia, a terça-feira após Pentecostes (segunda oitava). No início do século XX, ocorria de domingo a terça e a partir de seus meados, passou a durar doze dias: nove antes de Pentecostes, o próprio domingo do Espírito Santo, a segunda e a terça subsequentes. A novena é matutina, anunciada por foguetes. Na véspera do Divino, o grupo folclórico chamado Zé Pereira [1] marcha batucando pelas ruas. Eram há alguns anos acompanhados por grandes bonecos chamados Gigantones, que se moviam por um homem que se metia embaixo daquela fantasia. A igreja é primorosamente enfeitada. Meia-noite é solto foguetório especial. No Domingo de Pentecostes, finda a celebração das 9 horas, as bandas de música adentram pelo “arraial” (lugar do festejo) e se apresentam. "Segunda-feira à tarde, após as vésperas solenes, lançava-se o fogo dos bonecos. O dia grande sempre foi a terça-feira”, diz a autora. Há a presença de muitos romeiros e pagadores de promessa. Celebra-se uma missa solene e o sermão tem destaque. Acontecia no passado o “namoro à carreira”, forma tradicional de flerte. Pela tarde, mais fogos de artifício. Há parque de diversões e muitas barracas, vendendo comes e bebes e louças de barro. Há pouco mais de vinte anos a romaria foi incluída nas festas da cidade, tendo a partir de então inseridas várias outras atividades, culturais e desportivas. Desde os anos noventa foi incluída uma procissão do Senhor do Padrão. A imagem primitiva desde 1967 não sai mais em procissão, devido às condições de conservação [2]

Zé Pereira, Matosinhos, Portugal. Acervo: Isabel Lago. 
Foto extraída do jornal O Grande Matosinhos, São João del-Rei.

Referências

LAGO, Isabel. Uma rota de fé: a devoção ao Bom Jesus de Matosinhos no Brasil. Matosinhos (Portugal): Câmara Municipal, 2003.  


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 08/08/2025. 


[1] - Os zé pereiras foram introduzidos no Brasil pelos portugueses, mas aqui se adaptaram para o carnaval, única ocasião em que se apresentam. Hoje são muito raros. Sobrevivem dentre outros locais em Ouro Preto, Rio Novo, Mar de Espanha, Ritápolis. A respeito ver: PASSARELLI, Ulisses. Aspectos Folclóricos do Carnaval São-Joanense. Tradição, Subcomissão Vertentes de Folclore, SJDR, fev. / 2000. n. 5. p. 3-5.
PASSARELLI, Ulisses.  Enterro do Zé Pereira. Carranca. Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, jul. / 2001. n. 69.
[2] - O Grande Matosinhos, n. 31, maio / 2000 e n. 32, jun. / 2000. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Bonecão do Zé Pereira

Bonecão carnavalesco do Mestre Quati, Bloco Recordar é Viver, São João del-Rei/MG.
Desfile na Avenida Presidente Tancredo Neves.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia (05/03/2000): Ulisses Passarelli.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Zé Pereira: imagem alegórica do carnaval de outrora

Um antigo refrão carnavalesco, assaz conhecido, atesta a inocuidade desta manifestação folclórica: “viva o zé pereira, que a ninguém faz mal ...” Como de fato a afirmação é legítima. As mudanças sociais é que fizeram mal ao zé pereira. A dinamicidade tremenda do carnaval o consumiu.

Este bloco carnavalesco é um folguedo alegre, barulhento, de irresistível ritmo firmado na percussão de frenéticos tambores - dentre bumbos, zabumbas, surdos, caixas e treme-terras, ou vem animado por uma charanga. Nele se misturam mascarados tradicionais, gente fantasiada de bichos e de bonecos gigantes.    

           De origem portuguesa, atesta o pesquisador Luís da Câmara Cascudo ser o “zé p’reira” natural do norte e das Beiras, aparecendo também nas festas dos oragos locais e nas romarias. Foi introduzido no Brasil primeiramente no Rio de Janeiro oitocentista.

       A novidade fixou-se e rapidamente se espalhou atingindo outros Estados e ganhando cores locais.

Com toques estilizados, adentrou nas grandes sociedades carnavalescas, de rua e de salão.Vila Velha (ES), Pelotas (RS), Goiás (GO), São Bento do Sapucaí (SP), Parati e Vassouras (RJ), Ouro Preto, Mariana e Prados (MG), etc., conheceram a tradição. De muitos lugares desapareceu, sendo hoje raríssimo. Os bonecões acompanhados de charanga e batuqueiros persistem animados em certas cidades paulistas: Atibaia, Iguape, Caraguatatuba, Redenção da Serra, Torrinha e Santana do Parnaíba [1]. Em Minas é afamado no Rio Novo, além de um grupo autêntico em Ritápolis.

Em São João del-Rei marcou época. Na primeira década do século XX até um pouco depois, vários destes grupos desfilavam pelas ruas, vindos de diversos bairros, encontrando-se na avenida e nutrindo certa rivalidade. O Bairro do Senhor dos Montes ficou célebre pelo seu grupo. Um dos registros do prof. Sebastião Cintra, nas “Efemérides de São João del-Rei”, noticia que em 1901, “no sábado de carnaval, percorreram a cidade os barulhentos Zé Pereiras”. O jornal são-joanense “O Repórter” registrou-os. Na edição n.2, de 05/02/1905, encontra-se este trecho: “Barulhoso Zé Pereira tem atordoado os moradores vizinhos á sede do Clube X e a pacifica população das ruas por onde elle tem transitado”. Na de n.4 o jornal atesta que “desde domingo passado que os préstitos do immortal Zé Pereira, tem se succedido, cada qual mais chibante e apparatoso disputando a victoria pelo chic, e numero de socios, uns ostentando asseiados carros, vistosos animaes e outros a pé, sempre em alegria cresente e animadora, fazendo crer que hoje e nos seguintes dias, proprios, mais se enthusiasmarão, honrando e homenageando o deus Momo”. No ano seguinte o mesmo órgão da imprensa reclamava acerca do desânimo do carnaval e a ausência de preparativos (n.1, 04/02/1906): “Os meninos é que estão a zabumbar o Zé Pereira, mas um zé sem futuro, zé que não formará e nem fará as nossas delícias”. Já na edição n.96, de 10/2/1910, em meio a severas críticas à desorganização e desânimo do carnaval daquele remoto ano e aos exageros do entrudo, há este lamento: “Nem ao menos o zabumbar de um Zé Pereira, animado, tão comum em outras localidades de menor importância, tivemos este ano”. Mas esta manifestação ainda durou mais alguns anos e depois sumiu. Só ficou na memória do são-joanense. Parece que do seu esfacelamento surgiram subsídios para os blocos de sujos. Mas averiguar isto exige pesquisa própria. E se o zé pereira é o pai dos blocos de sujos, é então avô do nosso querido “Lesma Lerda”.

E qual não foi a surpresa quando em 14/02/2000, a edição n.1.101 do jornal-mural “Amanhecer”, desta cidade, anunciou: “Zé Pereira domingo de carnaval... concentração 13 horas no Largo do Rosário. Bonecos gigantes e boi-bumbá. Parabéns ao Neném Quati e sua turma”. Era a força espontânea da memória coletiva brotando novamente! E saiu o zé pereira, descendo da Rua das Flores (atual Maestro Baptista Lopes) e se reunindo no Rosário, donde desceu pela avenida central com autenticidade numa memorável e calorenta tarde, girando os bonecões macrocefálicos na pisada certeira dos toques da charanga.

Penso que pelo valor histórico e folclórico este bloco merece grande atenção, hoje desfilando com o nome de “Recordar é Viver”, ainda sob o comando do “Mestre Quati” (Benedito Reis de Almeida). Compõe uma faceta bastante genuína do nosso carnaval de rua. E suas reminiscências foram bases formadoras do carnaval atual. O carnaval tradicional merece um grande apoio.

Vista parcial do bloco do Mestre Quati no desfile do ano 2000. 

Notas e Créditos

* Texto (fevereiro/2002; modificado em 14/06/2009) e foto (05/03/2000): Ulisses Passarelli.
** Obs.: O Professor Antônio Gaio Sobrinho transcreveu em um de seus livros notícia jornalística de 1924 sobre o zé pereira em Conceição da Barra de Minas, àquela época, um distrito são-joanense: "nestes dias, de 3 horas da tarde em diante, começarão a percorrer as ruas os numerosos grupos e cordões de fantasiados e retumbante zé pereira." (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.208).


[1] - In: Revelando São Paulo: Festival da Cultura Paulista Tradicional. SP: CEC, 2003. (DVD) 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Nótulas sobre o antigo carnaval de São João del-Rei/MG

Apenas com o objetivo descritivo de repassar algumas informações obtidas o presente texto olha para trás à procura dos confetes passados, das serpentinas de outros tempos.

Uma característica do carnaval antigo era o entrudo e de tão forte na folia momesca se tornou como que seu sinônimo, embora fosse apenas um de seus atrativos. Constava de um jogo alegre de água (em bacias, baldes ou bisnagas), polvilho ou farinha, perfumes, e todos terminavam lambuzados. Os perfumes eram acondicionados em vesículas de cera em forma de limão ou laranja que se rompiam ao chocarem contra o corpo de um circunstante. Mais tarde foram trocados por borrachinhas contendo a água de cheiro.

Era costume muito arraigado. O Código de Posturas são-joanense proibia o entrudo e o comércio das laranjas e limões de cheiro [1].

A imprensa também combateu este jogo [2] : “(...) reviveu até o antigo e nunca assaz condenado entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.”

Pode-se rastrear a tradição nos anúncios dos jornais para o carnaval [3]: “Bisnagas de todos os tamanhos, sortimento colossal na Charutaria do Commercio. – Rua Moreira Cesar, 10. (...) Borrachinhas para limão, por atacado e varejo na Charutaria do Commercio .”

Houve proibições e ação policial no sentido de coibir o arraigado costume [4]: “o doutor Alvaro Correa Bastos Junior, Delegado de Policia da Comarca de S.João d’El-Rey, Minas Gerais, etc., FAZ saber, para conhecimento dos interessados, que é prohibido o jogo de entrudo, e que serão estrictamente observadas as Posturas Municipaes”. Em 1907 uma página jornalística comemorava[5]: “Felismente foram, de todo supprimidos os limões e esguinxos d’agua que tanto prejudicavam o folguedo carnavalesco. Ainda bem.”

Mas o entrudo não se extinguiu assim tão rápido. O comércio dispunha de artigos nele usados [6]: “Carnaval. Borrachinha para limões, encontram-se á venda no Bazar Japonez. R.Moreira Cezar, n.10, S.João d’El-Rey.” Este anúncio foi repetido na edição seguinte do mesmo jornal, do dia 6, e uma nota intitulada “carnaval”, deu conta de que o “malsinado” entrudo foi vigoroso, pelas bacias d’água e célebres limões de cera e borracha, atirados a torto e a direito sobre qualquer transeunte desprevenido. Comenta ainda da música executada, “no celebre corêto da rua Moreira Cezar, com as bambinelas de baeta e arcadas de bambus para attrair o povo”, taxando-as de caiporismo. Mais uma edição adiante critica o desânimo e desorganização do carnaval daquele ano: “Nem ao menos o zabumbar de um Zé Pereira, animado tão comum em outras localidades de menos importancia, tivemos este anno. Em compensação, porém, o entrudo tocou as raias do exaggero: agua em abundancia, supplantando, quasi por completo, o jogo de confetti, sempre mais agradavel e divertido.”

Era uma fase de transição. Ainda existia o jogo de água, farinha e perfumes, mas perdia força a cada dia, sob o incentivo às batalhas de confetes e serpentinas, bem como os desfiles de clubes organizados, que viviam de forma concomitante ao entrudo. Eis algumas citações:


"Carnaval. É hoje o 1º dia do tríduo carnavalesco, tríduo do Momo, o rei da folia e da festança. Desde Domingo passado que os prestitos do immortal Zé Pereira, tem se succedido, cada qual o mais chibante e apparatoso disputando a victoria pelo chic, e numero de socios, uns ostentando asseiados carros, vistosos animaes e outros a pé, sempre em alegria cresente e animadora, fazendo crer que hoje e nos seguintes dias, proprios, mais se enthusiasmarão, honrando e homenageando o deus Momo. Os clubs até hoje organizados são 115, 109, 13 de Maio e do Calúbra. Eia, rapaziada! A alegria, a folgança!" [7] 

* * *

(...) "Á noite a concurrencia de populares se fasia notar principalmente na Rua Moreira Cesar, onde se erguia um coreto para a banda “Ribeiro Bastos” executar suas escolhidas peças. (...) As batalhas de confetti foram até certo ponto intensas e renhidas e do mesmo modo as de lança-perfumes. (...) A policia não permitiu no ultimo dia o corta-jaca e o maxixe no Municipal, evitando assim algumas dos rolos do costume". [8] 
* * *

"Batalha de Confetti. Na rua Municipal, 18-22 h, com a banda do quartel". [9] 

* * *

"Carnaval. O Bazar Japonez recebeu um grande sortimento de lança-perfume, confetti, serpentinas, mascaras e novidades proprias para esses folguedos, que está vendendo muito barato. Rua Municipal, 5". [10] 

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"Na confluencia das Ruas Direita e Moreira Cezar, a municipalidade fez armar um artistico coreto onde se ouvia uma fanfarra de um dos nossos batalhões do Exercito (...) As batalhas de confetti e lança-perfumes feriram-se com galhardia e denòdo ..." [11] 

* * *

"Club X. Os valentes carnavalescos, no dia 2 deste, já deram o panno de amostras com um retumbante ZÉ PEREIRA com vários carros e puxado pela banda de musica do 11 regimento uniformizada a caracter". [12] 

* * *

"O apreciado Clube X realizou Quinta-feira um animado Zé Pereira, que percorreu as principaes ruas da cidade. Na movimentada passeata saiu acompanhado de numerosos automoveis e precedido de bandas de clarins e de musica, um dos bellos carros allegoricos do carnaval do ano passado".[13] 

* * *

"Zé Pereira. A 31 do anno passado, effectuaram os sympathicos ranchos carnavalescos desta urbe, Custa mas Vae e Zero, uma passeata pelas ruas desta cidade em saudação ao povo sanjoanense".[14]

* * *

“Approxima-se o carnaval. Usem o lança-perfume Vlan, o mais perfumado e inoffensivo, prefiram as serpentinas David, as suas cores são as mais vivas e o seu papel o mais resistente”. [15]


Enfim são muitas as provas do esplendor daqueles carnavais, explícitas em citações jornalísticas, apenas algumas das quais aqui selecionadas para exemplificar. Também são abundantes as informações orais de antigos foliões do momo.

Fala-se nos blocos de índios, ou seja, de pessoas com fantasias emplumadas, armadas com flechas e arcos, lanças e machadinhas, tomando nomes de tribos conhecidas e desfilando como se simulassem hordas, com tal realismo que metiam medo na criançada.

Os zé pereiras que sobreviveram até cerca da década de 1950 se enchiam de bonecões macrocefálicos, os populares “cabeções”, girando e balançando seus braços longos e molengas, no gingado característico, revividos a partir do ano 2000 pelo afamado “Mestre Quati” (Benedito Reis de Almeida).

Pequenos grupos se divertiam pelas periferias fazendo desfilar o boi, tal como o do falado “seu Inácio”, dos lados do Betume (imediações da Igreja de São José Operário, Bairro Tijuco), além de outros. Sim, aquele mesmo do bumba-meu-boi, desgarrado entre batuqueiros dando arrancos e chifradas rua afora, sempre atiçado e pondo moleques a correr. 

Ali pelas Águas Férreas surgia o urso, ou melhor, um folião de mais ânimo metido sobre um quente traje felpudo, de encardida estopa, imitando a figura de um urso, fazendo-se adestrado por um homem que o fazia dançar, preso numa corda, tangido a chicote. Figura tradicionalíssima, conhecida no carnaval de outras partes do Brasil, mormente no Nordeste, onde ainda vive. Evoca os velhos espetáculos de rua da Europa quando artistas de rua exibiam esses animais nas praças e feiras, depois de os amansar sob terríveis torturas, como a televisão já mostrou. 

A nêga maluca era um homem com peruca desarranjada, pele tisnada de carvão, boca bem borrada de baton, seios postiços exagerados, ancas recheadas de travesseiro, para amparar as eventuais quedas e fazê-la uma figura ainda mais desajeitada. De andar trôpego, acorria a entregar um boneco nos braços de seu pretenso cônjuge, alegando sua paternidade na clássica frase: “toma, que o filho é seu”. Sempre refugada, depois de muita pilhéria e afetamento, saía a curiosa personagem com sua charanga acompanhante a caçar outro pai para seu filhinho, depois de arrecadar uma oferta daquele, qual pensão alimentícia, revertida à beberagem do grupo. A fantasia permanece mas sem o enredo do passado.

Os animadíssimos blocos de sujos, com mascarados de toda estirpe, brincavam por aí livremente. Não canso de dizer que são filhos do zé pereira, seus legítimos herdeiros, como o querido e atual Bloco do Lesma Lerda é o seu neto.

O fim dessa era vem nos meados do século XX, quando toda a atenção se converge para os bailes carnavalescos de clubes e suas matinês, além do aparato das grandes agremiações - escolas de samba, ranchos e cordões, que inauguram um novo tempo no carnaval da cidade. Mas isto é assunto para outro texto...

Boi de carnaval, Águas Férreas, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, 05/03/2000.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli, 17/07/2007
** Obs.: os jornais citados nesta postagem foram todos publicados em São João del-Rei e fazem parte do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 
*** Revisão e acréscimos em 22/03/2017
[1] - CÓDIGO DE POSTURAS DE SÃO JOÃO DEL-REI, 1887, art.153.


Referências Hemerográficas

[2] - O Resistente, n.374, 21-23/02/1901.
[3] - O Repórter, n.6, 26/02/1905.
[4] - A Opinião, n.129, 15/02/1912.
[5] - O Repórter, n.2, 11/02/1907.
[6] - O Repórter, n.94, 03/02/1910.
[7] - O Repórter, n.4, 25/02/1906.
[8] - A Tribuna, 21/02/1915.
[9] - O S.João d’El-Rey, n.101, 19/02/1922.
[10] - O S.João d’El-Rey, n.101, 19/02/1922.
[11] - A Bigorna, n.1, 08/03/1923.
[12] - O S.João d’El-Rey, n.43, 06/01/1921.
[13] - A Tribuna, n.507, 06/01/1924.
[14] - A Tribuna, n.1.006, 05/01/1930.
[15] - A Tribuna, n.455, 14/01/1923.