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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 25 de maio de 2014

Festa na Candonga

Os eventos culturais nas Vertentes não param. Numa grande efervescência eles acontecem em vários municípios. Neste domingo, 25 de maio, se destacou pela autenticidade dentro de uma programação simples mas plena em sua base comunitária, no povoado da Candonga (Tiradentes/MG), a festa da padroeira, Nossa Senhora Auxiliadora. 

Largo em festa: a capela aberta e iluminada recebe os fiéis e repica o sino; a barraca prepara delícias; a gruta recém-construída aguarda bênção; congadeiros acompanham a procissão com seu batuque e cantoria. 
Na Candonga é digno de registro que por fim se concretizou um anseio de dez anos: a construção de uma gruta em honra a São Miguel Arcanjo, que foi possível graças aos esforços comunitários e a ajuda do poder público municipal. Mas é de se destacar com justiça o nome de Luís Pereira dos Santos, que movido por uma fé viva no Arcanjo Sagrado, a muito vem lutando por esta realização. 

Detalhe da bênção da gruta. 
Houve uma missa festiva na capela às 14 horas, seguida de procissão com os andores de Nossa Senhora Auxiliadora e de São Miguel, até a entrada da Cachoeira do Bom Despacho, bem defronte à Serra de São José. Foi acompanhada pelos congados de Santa Cruz de Minas (catupé) e do Solar da Serra - moçambique (Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei), além de um grupo são-joanense de percussão e inculturação.

A procissão beira a Serra de São José através da Estrada Real. 
No retorno foi dada benção inaugural a uma guarita de parada de ônibus e à gruta, com entronização da imagem de São Miguel, em meio a alguns fogos de artifício. Chegando à capela, ocorreu a benção aos fiéis e o citado sr. Luís, em companhia de seu irmão Marcos, festeiros do lugar, distribuiu rosários de confecção artesanal aos capitães de congado, colaboradores e autoridades, um agrado de reconhecimento e gratidão. 

Os irmãos Marcos e Luís presenteiam o Capitão de Congado Luthéro Castorino com um terço.
O capitão sr. Luthero Castorino, Presidente da Associação dos Agentes Culturais das Vertentes, que congrega regionalmente os congados e folias, tomando a palavra, manifestou as conquistas dessa associação, conseguidas de forma gradativa graças à persistência, trabalho e apoio. 

O congado do Solar da Serra ainda se apresentou por tempo considerável, na capela, na gruta e no largo e depois seguiu ao lanche preparado com especial carinho, a saber, feijão amigo, refrigerante, pão com carne moída e molho, bolinho de feijão. 

Depois foi agradecer e partir. Mas o povo permaneceu em burburinho no movimento da barraca de comes e bebes e víspora, grande alegria das festas tradicionais. 

A nova gruta é uma semente plantada que almeja crescer em forma de irmandade e de um novo congado para o lugar. Oxalá se concretize.


Notas e Créditos

* Texto e fotos (2014): Ulisses Passarelli

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma fábula da bicharada: o bicho-folharal


Foi numa época de seca muito forte. Toda água estava esgotando e os animais da mata estavam com sede. Fizeram uma reunião: o tatu, a onça, o tamanduá, o macaco, toda bicharada estava lá. A assembléia decidiu por um mutirão formado por todos aqueles bichos furar um poço na parte mais baixa, na esperança de achar água potável. O coelho foi o único a discordar, negando-se ao trabalho.

Os animais protestaram com razão, porque se ele não ajudasse na labuta não poderia beber. A onça por ser a mais temida deu o veredito: ela mesma tomaria conta do poço. "Ai" do coelho! Se atrevesse beber sem ter trabalhado, o devoraria...

Os animais começaram o serviço custoso. Os tatus logo puseram a cavoucar. Outros bichos carregavam terra, outros mais buscavam paus para escora e assim foi por alguns dias, mas o coelho... nada de ajudar! Só de longe olhando e rindo da serviçada sem fim.

A cisterna ficou pronta depois de muita peleja e a bicharada matou a sede à vontade, sem perseguição alguma. O coelho não apareceu. “Viu só”, comentou a onça com impáfia, “o orelhudo não se atreveu...”

Mas de longe ele observava e deu um jeito de enganar a escolta da onça. Besuntou o corpo todo de mel e depois rolou sobre as folhas secas da mata que grudaram no seu pelo deixando-o irreconhecível. Arrancou uns ramos de samambaia e chuchou-os ao pelo embolotado. Lá foi o coelho disfarçando o andar, num gingado diferente. A onça vislumbrou desconfiada a chegada.

_ Boa tarde!
_ Boa tarde, senhora!
_ Que mal lhe pergunte, mas... quem é o senhor?
_ (Respondeu o coelho com vozeirão gutural, disfarçando) sou o bicho folharal.
_ Folharal?! Uai... mas eu nunca vi o senhor aqui. Donde o senhor é?
_ Eu vim lá de longe daqueles morro. Tô de viagem e lá vou pras banda de lá... Mais tô com muita sede, esse sole bravo, seca danada...
_ Quê isso! Num vai ficar com sede não. Óh, furamo esse poço aqui, os bicho tudo, de menos o sem vergonha do coelho... Mas deixa ele passar por aqui... Mais...e, o sinhôre pode bebê o quanto quisé. É um visitante.
_ Brigado!

Foi lá o coelho, digo, o folharal, e tomando de uma cumbuca, matou a sede o quanto quis enquanto a onça o olhava de baixo em cima, cismada, mas sem atinar o logro.

_ Água boa essa aqui, viu. Fresquinha! Brigado a sinhóra...
_ De nada!
_ oh, num arrepara não mais já tamo na vorta do dia e ainda tenho mais de légua pr’aquele rumo. Eu vô chegâno. Muito agradicido!
_ Vai com Deus, seu Folharal!

Saiu o descarado do coelho naquele requebrado. A onça meio pasmada olhava sua figura no fim da trilha. Quando a distância era já segura, O Bicho folharal voltou-se para a direção da onça e começou a sacudir o corpo todo e arrancar todas aquelas folhas e ramos e vendo-se livre do disfarce, riu demais daquela bruta. E saiu correndo disparado pra grota abaixo, entremeio de moitas e moitas até sumir.

Ficou revoltada, aos urros de estremecer a mata. A bicharada veio saber da nova. Ficaram fulos de raiva. Foi a raposa que deu a idéia da vingança.

_Oh, vão fazê assim: nóis cavuca uma cova e dona onça deita nela de barriga pra cima. Cubrimo ela tudo de capim e fôia seca. Fica lá paradinha...  sem mexê nada, só com um furinho no mei’ das  fôia pra mode respirá. Aí vamo ispaiá nutícia que a terra tá revortada co’a seca e vai escancará a boca e mostrá seus dente, que devora tudo quanto é bicho morto no chão. O cuêi’ é munto curioso e vai chegá pra vê. Aí a sinhora arreganha a guela que impurro ele lá dentro. Daí é só mordê. Esgana ele! Disaforado!
_ uai, sô... Muito boa idéia! Cumé que num pensei nisso...
_ Ah,com todo respeito, eu sô a raposa num é a toa...
Assim fizeram. Os animais em roda, circulando o lugar onde a suposta boca da terra iria se abrir.
_ Chega aqui perto cuelho, óia ali que a terra lá vai rachando... Chega aqui pertinho, pr’ocê vê!
_ Não, daqui mesmo tá bão. Tá dano pra vê...
_ Ah lá os dente pontano! Óia que bruto, cuêi’ !

Ele esticou o pescoço e vendo que era uma presepada da onça com a raposa, abaixou ligeiro pegou uma grande pedra e jogou na garganta da onça. E deu o fora o mais rápido que pode. A onça se debatendo sufocada esperneava de dor sem poder reagir e nenhum bicho teve coragem de chegar perto para acudir. O coelho sumiu no mundo. Nunca mais voltou naquela região.


Notas e Créditos

* Informante: Luís Pereira dos Santos, povoado da Candonga (Tiradentes / MG), 2007.
** Adaptação textual e desenho: Ulisses Passarelli.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Bandeira de Anastácia


Bandeira do Congado "N.S.do Rosário e Escrava Anastácia", da Candonga (Tiradentes / MG). 
Capitães: 1º Luís Pereira dos Santos; 2º "Prego".
Foto: Iago C.S.Passarelli, out.2012. 
A Escrava Anastácia é um ícone do sofrimento escravo e ao mesmo tempo um grande exemplo e símbolo da resistência africana. Santificada nos meios populares, acreditam as pessoas que sua alma faça milagres. Sua imagem representa uma escrava amordaçada com máscara de flandres, que se usava cruelmente para impedir aos cativos de engolir ouro e pedras preciosas nos trabalhos das minas. Para Anastácia o castigo teria vindo trazido pelo ciúme de uma sinhá, já que era dotada de grande beleza e rejeitara sucessivos assédios dos sinhozinhos. O maldoso castigo teria cortado sua pele e infeccionado, gerando tétano ou gangrena que a levou a óbito. Seria de origem congolesa, servindo à casa da famosa latifundiária mineira "Dona Joaquina de Pompéu", no sertão centro-oeste mineiro. A Escrava Anastácia goza de grande prestígio na cidade do Rio do Janeiro e por aqui tem especial (mas não exclusiva) devoção pelos umbandistas, associada à Linha Africana, comandada pelos pretos-velhos.
A questão de sua real existência ou cunho lendário se tornou secundária ante o efeito emblemático que alcançou, tal como Rosa Egpicíaca, heroínas da cultura e religiosidade afro no Brasil.
Ao lado de santas e santos ligados ao ideal de africanismo e toda a luta anti-racismo (São Benedito, Santa Efigênia, Santo Elesbão, Santo Antônio de Noto, Santo Antônio Catigeró, N.S.Aparecida), a Escrava Anastácia figura no campo religioso como bandeira de uma causa, tal como Chico Rei e Zumbi fazem paralelo noutra dimensão de luta.
Sugiro a quem queira aprofundar neste assunto consultar a excelente obra de Maciel de Aguiar (Série HISTÓRIA DOS VENCIDOS) que narra a saga dos heróis afro-brasileiros no estado do Espírito Santo ou ainda o texto de Dirce Guerra Botalho "Anastácia: mito ou santa?" publicação do Boletim de Leitura, nº16, jun./1996, São Paulo, do Museu de Folclore Rossini Tavares de lima / Associação Brasileira de Folclore, p.5-8, principal fonte de apoio para minha consulta sobre a escrava virtuosa, Anastácia. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Congado de Tiradentes




Congado "Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia", surgido em meados de 2012 no povoado da Candonga (Tiradentes/MG), fundado pelo 1º Capitão "Luís  Fragaia" (Luís Pereira dos Santos) 
(batendo pandeiro na filmagem). O canto está a cargo do 2º Capitão, "Prego" (Claudinei Matias do Nascimento), neste vídeo em toque de marcha moçambiqueira. Participação na Festa do Rosário do Bairro São Dimas, em São João del-Rei. O grupo se fixou em Tiradentes, no Bairro Capote. 

Notas e Créditos

* Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli, set.2012.