Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 6 de julho de 2014

Nossa Senhora da Saúde

(Ofereço com gratidão a Luiz Antônio Sacramento Miranda)

Nossa Senhora da Saúde é devoção de origem europeia ligada à cura de epidemias. Em Veneza, onde está sua basílica, foi a peste a força motriz dessa devoção, acometendo a cidade italiana em 1630. Também é conhecida no México, desde o século XVI. Em Portugal foi surgida no século XVI no auge de dois grandes surtos de peste (1569 e 1599). Difundida em terras lusitanas foi depois trazida ao Brasil contando relativamente com poucos templos de que é orago no país. Em Minas Gerais, no Campo das Vertentes, duas construções foram-lhe consagradas: uma em São João del-Rei outra no vizinho balneário das Águas Santas (Tiradentes). 

Em São João del-Rei sua devoção se fixou no Bairro Senhor dos Montes. A capela do padroeiro do bairro teve o patrimônio adquirido em 1801, sendo que a 23 de fevereiro daquele ano, segundo Sebastião de Oliveira Cintra:

"Manoel de Sá Peixoto e sua mulher Bernarda de São José adquirem do Pe. Antônio Gonçalves de Siqueira, zelador e provedor do citado templo "uma chácara sita ao sopé do Senhor do Monte desta vila com os seus pertences, horta, quintal, pasto que ao presente se acha cercado de muros e valo, com obrigação de prestarmos todo o guisamento necessário de vinho e hóstias para as missas que se disserem na dita Capela do Senhor do Monte, bem como de azeite para a lâmpada, cujo trato nos obrigamos a cumprir por nós, nossos herdeiros e testamenteiros, bem como o dito vendedor se obriga a fazer bom dito trato, convenção e por tudo depor e a salvo por seus herdeiros e testamenteiros, e de nos haver empossados nas ditas casas e chácara na forma que hoje existe". O registro do documento foi feito a 30-12-1802, por iniciativa do Pe. Siqueira." (CINTRA, 1982). 

Professor Antônio Gaio apontou o ano de 1847 como sendo a data da capela, o que certamente se a alguma grande reforma que lhe deu nova configuração (SOBRINHO, 1996). 

O antigo jornal homônimo da cidade, no ano de 1899, deu conta de um festa animadíssima, com reza de terço, apresentações musicais, sermão, Te-Deum e leilão de prendas, tudo em benefício da construção da torre da capela do padroeiro, obra datada do ano seguinte [1]. Sobre ela escreveu CINTRA (1982): "Em maio de 1900 o Dr. Joaquim Domingues Leite de Castro, Agente Executivo Municipal, sancionou a Resolução que autorizava a concessão do auxílio de "quinhentos mil réis" para a conclusão das obras da torre."

Em 1906 a imprensa são-joanense divulgou esta nota pelo jornal O Repórter, nº13: "Ficou adiada para o próximo domingo, 13, a festa do Senhor Bom Jesus do Monte, que é costume celebrar-se a 3, seguindo-se as festas de N.S. da Piedade e da Saude, todas na encantadora Capella no poetico arrabalde de Senhor dos Montes."

No século XX, com o crescimento populacional, a pequena capela, já não comportava os fiéis e foi então construída ao lado uma nova igreja (felizmente sem demolir a antiga!) e esta foi consagrada a Nossa Senhora da Saúde. A edificação se deu graças aos esforços do Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva, de saudosa memória. A inauguração deu-se por bênção do Bispo Diocesano Dom Delfim Ribeiro Guedes, em celebração acontecida às 15 horas do dia 30/06/1974. 

A Paróquia do Senhor Bom Jesus do Monte só foi criada em 1999 por decreto episcopal de 1º de abril, a partir de um desmembramento da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, com instalação a 26 de novembro do mesmo ano. O primeiro pároco foi o Padre José Roberto Vale Silva e o segundo, o Padre Ilton de Paula Resende, segundo o blog Senhor Bom Jesus do Monte.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde, Bairro Senhor dos Montes,
São João del-Rei/MG, 05/07/2014.
 


As propriedades físico-químicas especiais de certas águas minerais favorecem melhorias de saúde e de algumas enfermidades. Tal se deu com algumas fontes que nascem na encosta norte da Serra de São José, no município de Tiradentes, às quais, desde o século XIX, se atribuiu nos meios populares o poder da cura, sendo logo chamadas de Águas Santas [2]. A narrativa popular é a seguinte: certo escravizado fora incumbido de diariamente buscar água potável em um cântaro, para abastecer a casa grande. Tinha feridas nas pernas, de um possível eczema, incurável, diziam. Quando começou a nova tarefa, sempre entrava na água até o nível do joelho para alcançar o ponto alto onde deixava o pote a encher. Em alguns dias suas feridas apresentaram sensível melhora e logo ele atribuiu o fato a um poder miraculoso daquela fonte, concluindo com o fechamento total das lesões pelos banhos sucessivos. Não tardou o batismo, Águas Santas. A fama espalhou e gente de todo lado vinha em busca de melhoras. O local se tornou um balneário e ganhou um ramal ferroviário da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) em 1910. 

MEGALE (1986) comentou sobre a devoção a esta santa: "A cidade mineira de Poços de Caldas recebeu o nome de Vila de Nossa Senhora da Saúde das Águas de Caldas, por decreto governamental em 1874, talvez devido à fama de suas águas sulfurosas, que naquele ano foram submetidas a um exame por ordem do governo imperial." 

Salvo engano, segundo a crença dos fiéis, pode-se inferir de semelhante associação do poder das águas e o poder de Maria nas curas tanto na próspera cidade sul-mineira quanto na pacata Águas Santas.  Deu-se então  início à construção de uma capela desta invocação, conforme informação do jornal O Repórter nº46, em 1906:

"Capella de N.S. da Saude. O ilustre e estimavel sr. Antonio Gonçalves de Araujo Penna e sua prezada consorte, a exma. sra. d. Joanna Theolinda Meira de Araujo Penna, residentes no Rio e proprietarios nas Aguas Santas de Tiradentes, onde vêm, annualmente, veranear, em companhia de seus dignos filhos, em boa hora, resolveram edificar ali uma pequena capella, dedicada a N. Senhora da Saude, a sua custa, tendo para esse fim alcançado já licença da auctoridade diocesana. No dia 10, revestida de toda a solemnidade, realisou-se a benção da pedra fundamental da capella no proprio local." (Etc.)

A 20 de fevereiro de 1915, garante as páginas d'O Zuavo, inaugurava-se a Capela de Nossa Senhora da Saúde das Águas Santas, mandada construir pelo farmacêutico Antônio Gonçalves de Araújo Penna. Houve duas missas na ocasião, celebradas pelo Monsenhor Ernesto Gustavo Coelho e pelo Vigário Antônio Carlos. 

Nas vésperas de seu centenário seria muito bem-vinda uma obra de restauro e uma animada festa comemorativa do centésimo aniversário de construção.

Programa das festividades de inverno nas Águas Santas, ano 2014,
consagradas a São Pedro e São Paulo. Impresso em papel off-set, 22 x 31cm, cor branca com escritos pretos.
 


Capela de Nossa Senhora da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
ao sopé da Serra de São José. 18/05/2014.  


Referência Hemerográfica

O Repórter, n.13, 06/05/1906. São João del-Rei. 
O Repórter, n.46, 16/12/1906. São João del-Rei. 
O Zuavo, n.27, 21/02/1915. São João del-Rei. 
S. João d’El-Rey, n.17, 13/05/1899. São João del-Rei. 

Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. v.1, p.91-92.

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986. 376p. p. 354-355.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104p.il. p.24.

Referência na Internet

WIKIPÉDIA. Nossa Senhora da Saúde. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nossa_Senhora_da_Sa%C3%BAde  Acesso em 04/07/2014. 
SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. Disponível em: https://bmsjdr.phl.bib.br/ 
Blog Senhor Bom Jesus do Monte. Disponível em:  http://senhorbomjesusdomonte.blogspot.com.br/p/comunidades-da-paroquia.html Acesso em 15/06/2017. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Agradecimentos a Luiz Antônio Sacramento Miranda pelo apoio a respeito da história das igrejas católicas do Bairro Senhor dos Montes.    

Notas

[1] O Bairro Senhor dos Montes, foi tipicamente festeiro. Eram célebres as festas da Santa Cruz em maio (foco de romarias) e as do padroeiro em setembro, como por exemplo na década de vinte, quando num coreto, tocou a Banda Ribeiro Bastos, regida pelo professor José Quintino dos Santos (jornal O S. João del-Rei, n.25, 02/09/1920). Na mesma década a parte externa da capela foi reformada e houve animada festa inaugural. A professora local, Albertina Dias, ofereceu na escola uma mesa de doces finos ( jornal A Tribuna, n.767, 18/07/1926).

[2] A saber, tem propriedades medicinais, indicadas como auxiliares no tratamento de nefrites, impotência, alergias, eczema, artrite e como ativante do metabolismo. A radioativa tem temperatura estável em 27,5 º C e a magnesiana a 18ºC. Informações contidas numa placa que havia afixada no balneário. Infelizmente, já fazem vários anos que essas fontes estão sem jorrar água, motivo de protestos populares e campanhas em prol da reativação da fonte. 

- Revisão: 22/12/2025. 
- A festa de Nossa Senhora da Saúde teve seu cadastro aprovado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, conforme ata CMPPC nº 577, de 03/12/2025, com juntada ao processo de Registro "Festas Religiosas de São João del-Rei", Processo 047/22, categoria Celebrações, homologado pelo Decreto nº10.225, 07/12/2022. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estações abandonadas

É com grande pesar que vemos ao longo do itinerário da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), alguns remanescentes arquitetônicos em lastimável estado de conservação. Não bastasse a injustificável paralisação das atividades e erradicação dos trilhos, com várias construções históricas demolidas, algumas ainda jazem em penúria à espera de ações capazes de recuperá-las, enquanto bem patrimonial. Este sucateamento é um desrespeito à história e ao papel  econômico-social das ferrovias no país e em nossa região, em especial. Bem se podia, a bem da memória, conservá-las e dar-lhes como monumento uma utilização prática para a comunidade, que seria em processo educacional, aliada da preservação. 

Existem muitas possibilidades a estudar. Uma vez restauradas estas velhas estações hoje depredadas, imundas, sujeitas à invasão, poderiam ser centros de artesanato, ou de memória, museu, biblioteca, espaço cultural para exposições, lançamento de livros, apresentações culturais, local de realização de palestras, cursos, ponto de reunião de associações comunitárias, aulas, cursos de capacitação e reciclagem, sede de instituições por comodato, etc, etc, etc, a se propor, a se pensar e planejar. Qualquer opção acima é melhor que a vista hoje, um quadro funéreo.

Neste sentido é mister lembrar os exemplos das estações de Ibituruna e Coqueiros (esta no município de Nazareno), antes na mesma situação deplorável, hoje restauradas e úteis. É o que esperamos das autoridades e gestores responsáveis por estes bens. Outros exemplos poderiam ser enumerados mas estes se mostram explícitos o suficiente para representar o quadro geral. 

Estação de César de Pina em abril de 1999...

... e em 18/05/2014, ainda mais degradada e já sem o telhado da plataforma. 
Estação de Nazareno em 1976 ...
... e em janeiro de 2014: lamentável abandono!
Estação de Nazareno, 26/01/2014. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: César de Pina, Ulisses Passarelli; Nazareno, 1976, David Passarelli; Nazareno, 2014, Iago C.S. Passarelli


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Trenzinho das Águas

Ramal das Águas Santas

"Trenzinho das Águas"... É assim que a população em geral o chamava. Em 22/08/1910 foi aberto este ramal (CESAR DE PINA (ANTIGA CHACRINHA)). No entanto consta que a inauguração foi em 21/08/1911 (A ESTAÇÃO CÉSAR DE PINA). Foram assentados os trilhos do ramal das Águas Santas, imediatamente à direita da linha atual, no sentido de quem sai da cidade, no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei. Uma casinha de guarda-chaves havia em frente à igreja velha, ambas demolidas. Exatamente na curva que existe ao fim da reta que passa diante da igreja, a linha desse ramal partia rumo ao Rio das Mortes. Através de um pontilhão atravessava o rio. Pela Vargem do Marçal, rumava para seu destino. Passava ao lado da atual Cooperativa de Produtores de Leite (antigo e popular “Bezerrão”), junto ao autoposto de abastecimento que ali existe, cruzava a atual Avenida 31 de Março a nível de seu trevo e corria ao longo de toda a atual Rua Monsenhor Silvestre de Castro e Rua Américo Deodoro Briguenti (formadas sobre o leito dos trilhos retirados), ia até a Colônia do Giarola e ao chegar em César de Pina, virava à direita e aí havia uma estação. Desta ia rumo ao famoso balneário de águas de propriedades medicinais, radiotivas e magnesianas, que ajudam no tratamento de doenças. O trem parava em alguns lugares, servindo à população em geral. Segundo o Prontuário das Estações eram as seguintes paradas e estações: 

paradas / estações
quilometragem
inauguração
Várzea do Marçal (estrada) – parada
98,000
14/11/1923
Colônia (estrada) – parada
100,149
21/08/1911
Giarola (estrada) – parada
102,108
21/08/1911
César de Pina – estação
104,945
12/10/1923
Chacrinha (estrada) – parada
108,000
21/08/1911
Águas Santas – estação
108,237
21/08/1911

Na Colônia a parada era junto à cerâmica que ali existia [1], próximo à Gruta de Nossa Senhora de Lourdes. 

Chaminé da cerâmica da Colônia, em agosto de 2004.

No Giarola a parada ficava próxima à Capela de Nossa Senhora das Mercês, construída sob a liderança do sr. Luigi Giarola [2].

Sem conhecimento de datas precisas, mas é comentado que nesse Ramal das Águas, logo após o pontilhão sobre o rio, tinha um entroncamento do qual saía sub-ramal, até o sopé do Morro do Cascalho, em Santa Cruz de Minas, passando próximo à atual escola da Fundação Bradesco, nas imediações do antigo Campo de Aviação. Sua função era carrear cascalho – fruto inclusive das inúmeras escavações auríferas ali realizadas nos setecentos, sobretudo pelos escravizados de Marçal Casado Rotier, trabalho perpetuado nas cascalheiras ainda visíveis. Esse cascalho era usado para assentamento dos dormentes.

Idealizou-se fazer um prolongamento do ramal das Águas Santas até Entre Rios de Minas, passando pelo Ribeirão do Mosquito e Lagoa Dourada, mas essa ideia não progrediu [3].

As fortes chuvas de 1911 desarranjaram as estruturas da via férrea desse ramal, que até a execução dos reparos, correu só até o Giarola [4]

Mudanças no horário do ramal das Águas Santas, determinadas para iniciarem a partir de 08 de março de 1915, também aboliram os trens Chagas Dória-São João, deixando para servir ao bairro, apenas os de Águas Santas-São João, causando o descontentamento dos usuários. Moradores de Matosinhos solicitaram então ao diretor da EFOM, Dr. Agostinho Porto, que restabelecesse os trens que haviam sido suprimidos, pois só os das Águas Santas não bastavam ao bairro. O texto interessa ser transcrito pois retrata a fisionomia do bairro à época [5]“Mattosinhos desenvolve-se extraordinariamente. Ali reside grande numero de familias. A pitoresca localidade está se tornando um ponto chic de S. João. Sob o ponto de vista comercial e industrial o seu desenvolvimento então é enorme”. 

Dr. Agostinho Porto, em fotografia de data e autor não identificados,
publicada no jornal são-joanense A Tribuna, n.147, 29/04/1917. 

Comenta a nota, que o comércio local movimentara no mês anterior, quantia superior a um conto (um milhão de réis), muito devendo neste sentido, ao “inteligente comerciante, sr. Fidélis Guimarães, que ali movimenta diversas indústrias” [6]. Ao que parece o diretor da ferrovia atendeu ao pedido desfazendo o erro. Sua popularidade cresceu, ou talvez, para refazê-la, promoveram uma animada festa em sua homenagem em Matosinhos, no Athletic Club, já no mês seguinte[7].

O “Trenzinho das Águas” como ficou conhecido, marcou época, e seus horários, assinalados pelo silvo saudoso das locomotivas, que serviam igualmente a Matosinhos, era como um relógio para a população e tinha um charme único. A desativação deste ramal se deu em 1966 (A ESTAÇÃO CÉSAR DE PINA; CESAR DE PINA (ANTIGA CHACRINHA)). O fim do "Trenzinho das Águas" deixou aberto uma lacuna de nostalgia em quantos o conheceram. Para além do aspecto utilitário cotidiano, seu papel de interligação de São João del-Rei a um balneário, lugar de entretenimento e terapia, decerto contribuiu para isto. 

Há pouco em Matosinhos ainda se via vestígios do lugar que se assentava seus trilhos, mas um aterro recente os encobriu. No barranco do rio ainda se veem os sinais do pontilhão e dentro das águas os troncos que o sustentavam (o pesqueiro local ficou por isso conhecido por “Tocos”). Outros sinais estão no começo da Avenida 31 de Março, entre o trevo e a “Ponte do Bezerrão” avista-se na vargem a elevação do lastro da linha férrea. Fazem alguns anos parte do trecho erradicado, convertido em rua, no Giarola, foi fechado, o que gerou grande confusão entre os moradores locais, pois era de servidão pública [8]. Poucos sinais restaram hoje. A estação das Águas foi demolida e a de César de Pina está arruinada [9].  

Tocos: vestígios do pontilhão do "Trenzinho das Águas" no leito do Rio das Mortes. 28/04/2012.  

Estação César de Pina, abr./1999. 

Estação César de Pina, 20/08/2005. 

Estação César de Pina, 18/05/2014. 

Referências

A Estação de César de Pina. Estação de Memórias, Tiradentes, Minas Gerais. Disponível em: https://estacaodememorias.org.br/tiradentes/a-estacao-cesar-de-pina/#:~:text=Devido%20a%20seu%20estado%20de,Acervo%20do%20autor. Acesso em 06 ag. 2025. 

Cesar de Pina (antiga Chacrinha), Município de Tiradentes, MG. Estações Ferroviárias do Brasil. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_efom/cesar.htm Acesso em 06 ag. 2025. 

PRONTUÁRIO GERAL DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS: 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Sobre este ramal ver: Trem das Águas Santas. Ferrovia Oeste de Minas; memória e história. 2.ed. São João del-Rei: Vitral Bureau Cultural, 2014. Documentário (DVD). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JastN6J9dTE  Acesso em 05 ag. 2025. 

Notas 

Revisão: 06/08/2025. 


[1] - Informações orais coligidas por Francisco José de Rezende Frazão, que gentilmente me transmitiu e a quem agradeço, dão conta de que o dono da cerâmica era o sr. César Briguentti Neto (conhecido por “Cesário”); o administrador o sr. Américo Deodoro Briguentti e o mestre-ceramista o sr. Alfredo Tortieri, que plausivelmente orientou sua construção, pois era experiente no assunto, tendo inclusive construído uma cerâmica em Juiz de Fora.
[2]  - Luigi Giarola era o administrador do núcleo colonial. A seu respeito ver: OLIVEIRA, Jorge Silva de. A imigração italiana e a família Carazza em São João del-Rei.  Governador Valadares: Valadares, 2000.
[3] - A Opinião, nº ilegível, 03/09/1910.
[4] - A Opinião, n. 119, 17/12/1911.
[5] - A Tribuna, n. 34, 07/03/1915.
[6] - A Tribuna, n. 40, 18/04/1915.
[7] - A Tribuna, n. 45, 23/05/1915.
[8] - Jornal de São João del Rey, n. 142, 29/10/1989. 
[9] - A estação de César de Pina foi restaurada em 2023. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Algumas antigas curiosidades sobre Matosinhos

O Bairro Matosinhos, em São João del-Rei / MG, em sua longa caminhada histórica, foi palco da ocorrência de muitos fatos, alguns dos quais com características de certa peculiaridade. Nesta postagem estão resumidas algumas delas, recolhidas sobretudo de antigas fontes jornalísticas publicadas nesta cidade, acessadas no acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 


1-      Escola de Laticínio e Enfermaria Militar
Em 1909 houve uma escola de laticínio no bairro. Veja-se um anúncio a este respeito [1]“sôro de leite. Vende-se em Mattosinhos, a 100 réis o balde de 10 litros e a 40 réis o sôro grosso de manteiga, na Leiteria S. Raphael.”

Em 1915 essa leiteria foi transferida para a atual cidade de Antônio Carlos, antiga Sítio, logo abaixo da estação férrea, próximo à descida da Serra da Mantiqueira [2]A perda do laticínio gerou protestos locais e seu prédio ficou devoluto até que no ano seguinte, correu a notícia da criação de um posto zootécnico  [3]

"Esteve nesta cidade, em dias da semana passada, o sr. dr. Mourthé, engenheiro da Secretaria da Agricultura, que aqui veio fazer o orçamento das obras necessarias á instalação de um posto zootechnico. O posto será installado no terreno que pertenceu à extinta Escola de Lacticinios, em Mattosinhos."

O projeto fracassou. No local foi se estabelecer uma polêmica enfermaria militar, destinada a cuidar de casos de beribéri[4]. Sob crítica, um hebdomadário noticiava [5]:

"Por acto do governo estadual, foi doado ao Exercito Nacional o proprio onde funcionou a Escola de Lacticinios em Mattosinhos (...) ao fim humanitario é verdade, mas incongruente de servir como hospital de beribericos do Exercito."

Temia-se que do dito estabelecimento de saúde espalhasse infecções aos moradores, o que não só os afetaria diretamente, como também atrapalharia a fama de pureza ambiental do lugar. Tal proporção alcançou a polêmica, que o governador do estado, na época, Delfim Moreira, encaminhou a propósito um telegrama ao deputado estadual Odilon Andrade, representante regional na assembleia, visando acalmar a população, com garantias que a unidade de tratamento em nada afetaria o lugar e ali estaria em caráter provisório [6]. E de fato a enfermaria se estabeleceu e dela, certa feita, a imprensa descreveu uma trágica “scena de sangue” [7]:

"Na tarde de terça-feira na Enfermaria Militar do 51º de Caçadores, situada em Mattosinhos, o soldado José de Sousa, por motivos futeis, assassinou á faccadas o cabo Motta, crivando-lhe o corpo de golpes. São ambos do 51º de Caçadores e o cabo Motta era estimado o gosava de bom conceito. O assassino está preso."

2-  Transporte
Em data anterior à construção do ramal ferroviário das Águas Santas, lá naquele balneário, no município de Tiradentes, havia o Petit Hotel e Restaurant, propriedade do sr. Francisco Augusto de Ulhôa Cintra. Para a condução até seu estabelecimento, dispunha de carruagem tipo trole, puxada por uma parelha de bestas, que carreava hóspedes e turistas, das Águas Santas até Matosinhos, Centro e Tijuco. Ele foi também precursor das exibições cinematográficas na cidade [8].

3-      Avião
Consta que em 1913, pela primeira vez se viu um avião nesta cidade. Chegou desmontado num vagão-prancha, da estrada de ferro e o aviador, Ernesto Darioli, o montou na Praça Pedro Paulo. A população acorreu em peso, alvoroçada pela novidade. Contudo, as condições atmosféricas estavam inadequadas para se alçar voo e enquanto aguardavam o momento certo, muitas horas se foram passando e o povo ficou insatisfeito. Insuflados os ânimos, o responsável, sentindo a forte pressão popular, decolou a aeronave assim mesmo e pouco voou: caiu no bambuzal do campo de futebol do Athletic Club [9].

4-      Foras da lei
Ladrões já agiam no bairro em 1939, não poupando nem a igreja [10]“um audacioso larapio assaltou o cofre de esmolas e surrupiou o seu conteúdo. A policia precisa dar um passeio por lá, é o que esperam os moradores do populoso bairro”.

Em 1976 os moradores estiveram às voltas com um assediador sexual. As páginas jornalísticas denunciavam [11]:

"Recebemos reclamações de moradores do bairro do Matozinhos que anda solto nas ruas e ninguém tem a coragem de dizer que existe no bairro um homem que abusa da inocência das crianças, com promessas de doação de pássaros e outras bobagens mais, para atrair garotos menores para dentro de sua casa." (Etc.).

5-      Descendente de Tomé
A imprensa local destacou em 1945 o nascimento nesta cidade de Tânia Mara, descendente do primeiro morador da área do atual Matosinhos, Tomé Portes del-Rei. Era filha do casal João Crysostomo de Campos (1º Tenente) e Carmelita Macedo Campos. A menina era ligada aos Bueno, através de sua avó paterna, até Bartolomeu Bueno Gago e deste ao povo de Tomé. A genealogia completa está nos jornais [12].

6- Grupos folclóricos
Apenas pelas informações orais sabe-se que existiu um congado na área da Vila Nossa Senhora de Fátima pelo final dos anos cinquenta e começo da década seguinte. Era uma guarda de moçambique, do capitão “Geraldão”. Uma segunda guarda era de catupé; surgiu pouco depois, no Bom Pastor, sob o comando do Capitão “Zé Tita”. Geraldão era responsável por um terreiro na Vila ao qual se ligava a guarda. 

Já Zé Tita morava próximo a Horta Velha, no atual Bom Pastor de Baixo. Consta que era também palhaço, marungo ou bastião, o personagem mascarado da folia de Reis, salvo engano, na folia do “Chico Zacarias”, das bandas do Tijuco. Após seu falecimento substituiu-o como marungo o sr. Altamiro Ponciano, conhecido Capitão de congado do Bairro São Dimas (guarda do Zé Camilo), festeiro do Rosário no Bairro São Geraldo e sobrinho de Geraldão. Este congado de Matosinhos esteve presente na primeira festa do Rosário que se realizou no bairro São Geraldo, em 1958, juntamente com o terno do capitão Luís Santana, do Bairro São Dimas. 

Sugestiva a interligação antiga desses bairros por meio desses capitães.

Congado do Zé Tita. Foto: autor e data não identificados. 
Gentilmente ofertada para reprodução por Altamiro Ponciano.

Quanto às folias foi afamada noutros tempos a de João Ramos e mais recentemente, na década de 1990: do sr. Otávio José Gatti (“seu Juquinha”), no Pio XII, cuja última apresentação sob seu comando se deu em 1998. Tinha por embaixador o afamado sr. Jésus; a do “Nhonhô”, era do Bom Pastor de Cima, que também tinha alguns componentes da Casa da Pedra. Tinha por embaixadores Antônio Marinho e Dimas Lobo; e ainda a folia do sr. José Joaquim Filho (“Zé Moreno”), da Vila Santa Terezinha, que se manteve até 1994 a partir do qual em virtude de problemas de saúde de seu mestre já não encontrou mais condições de permanecer. Zé Moreno foi um dos mais capacitados foliões conhecidos nesta cidade que o adotou, pois era natural de Ribeirão dos Pintos (Resende Costa). Fora discípulo do célebre mestre-folião “Zé Biguá”, de Congonhas / MG [13].

Nem aquele congado nem essas folias adentraram no século XXI. Exceção se faz à Folia "Embaixada do Bom Pastor", que ainda prossegue ativa desde 1999, sob a organização do folião Geraldo Domingos Resende (“Didinho”), um remanescente da folia do sr. Juquinha.

Folia do Divino Embaixada do Bom Pastor, Matosinhos, São João del-Rei/MG.
Folião: Geraldo Domingos Resende.
Foto: Iago C.S.Passarelli, 2012.


Bandeira e viola - Folia do Nhônhô durante uma apresentação.
Foto: Ulisses Passarelli, 1995.

Zé Moreno aparece na sanfona, comandando uma saudosa apresentação
de sua folia no antigo auditório da Rádio São João.
Foto: Ulisses Passarelli, 1995.

8- Cinema
Em 1951 instalou-se nesta cidade o Cine Arthur Azevedo, com clube teatral homônimo, no seu mesmo prédio à entrada do bairro Tijuco (Rua General Osório). Mais tarde a empresa abriu uma filial no Matosinhos, situada na Avenida Josué de Queiroz [14]Não existe mais cinema no bairro.

7-      Jocosidade
Em velhos jornais da cidade figuram algumas passagens irônicas acerca do bairro ou como indireta a algum morador seu:

“Diálogo [15]
-          Que tens, Mattosinhos, diz o Fabrino, estás a chorar?
-          Pois tenho razão, respondendo o Mattosinhos, com o violino quebrado debaixo do braço, fui expulso da orchestra pelo maestro, que me disse não ter mais violino para me dar, pois si eu quebro todos com o queixo.
-          Infeliz de quem sendo queixudo e tendo veia de artista se mette a tocar violino. De hoje em diante passe a tocar o bombo com o queixo ou o empregue como castanholas.”

*  *  *

“Telegrammas – Do nosso correspondente – Mattosinhos [16]
23 (retardo devido exercicio bananeiras). Segue grande numero voluntarios, sendo chefe capm. Tonelli; especialidade manejos. Povo Canudo espera chefe voluntarios. Passagem acima gratis.”


8- Esporte
Matosinhos foi também importante polo esportivo. Neste bairro foi sediado o "Sport Club Brasil", conforme notícias do jornal são-joanense A Tribuna, nº1.406, de 05/12/1937. 

Fotomontagem do autor, acervo do site da Biblioteca Municipal
Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei.

Créditos  

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 31/07/2025. 

[1] - A Opinião, n. 16, 01/09/1909.
[2] - A Tribuna, n. 45, 23/05/1915.
[3] - O Zuavo, n. 76, 20/02/1916.
[4] - “Doença devida à deficiência de vitamina B1, e que se manifesta pela rigidez espasmódica dos membros inferiores, com atrofia muscular, paralisia, anemia e nevralgias. // F. é palavra do Ceilão (atual Bangla Desh) béri, e significa grande fraqueza”. AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Delta, 1978.
[5] - O Zuavo, n. 85, 18/05/1916.
[6] - Reforma, n. 13, 04/05/1916.
[7] - Reforma, n. 5, 02/05/1914.
[8] - Informação pessoal datada de 23/12/2008 dada pela professora Ana Maria de Oliveira Cintra, filha do historiador e genealogista Sebastião de Oliveira Cintra, que por sua vez é filho do proprietário daquele estabelecimento. Foi verbalmente corroborada pelo pesquisador Silvério Parada, na mesma data.
[9] - LOPES, Antônio Tirado. Relatos interessantes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v. 6, 1988.
[10] - Diário do Comércio, n. 360, 20/05/1939.
[11] - O Raio, n. 235, 08/09/1976.
[12] - Diário do Comércio, n. 2.124, 08/04/1945 e O Correio, n. 1.090, 15/04/1945.        
[13] - Informação pessoal do sr. Sebastião Carvalho da Silva (“Tião do Fole”), em 19/01/2007.
[14] - Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1988, p.106.
[15] - The Smart, n.4, 06/12/1908.
[16] - A Gralha, n.3, 30/07/1899.