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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Capelas e igrejas católicas consagradas a Jesus em São João del-Rei

Em São João del-Rei, em plena zona urbana, três antigas igrejas setecentistas foram erigidas como que nos vértices de um triângulo imaginário, consagradas ao Senhor Bom Jesus, sob diferentes invocações: numa colina ao sul, aquela singela capelinha branca, dedicada ao Senhor do Bonfim (1769); ao norte, também num morro elevado, a do Senhor do Monte, de data exata incerta, ao que se evidencia, do final do século XVIII; na baixada da várzea da Água Limpa, à beira do antiquíssimo Caminho Velho e de maiores dimensões que as anteriores, surgiu em 1770 a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

Contraponteando quatro igrejas coloniais dedicadas a Maria, no Centro Histórico, estas três consagradas ao Cristo ficaram à margem do núcleo urbano principal, pelos então chamados arrabaldes. Apesar da distância e aclive às duas primeiras, nem por isto, deixaram de ser prestigiadas pelos devotos, sendo alvo de romarias ao longo dos anos e animadas festividades, conforme atestam antigas fontes jornalísticas da cidade. 

Capela do Senhor Bom Jesus do Bonfim, São João del-Rei, set./1998. 

Sobre a Capela do Bonfim [1] o que se sabe é que no ano de 1769, segundo Cintra (1982), a 06 de maio:

"O Senado da Câmara da Vila de S.João del-Rei concede a José Garcia de Carvalho 'dezesseis braças de terra que pede pagando de foro a este Senado em cada ano meia oitava de ouro'. 'O suplicante como devoto do Senhor do Bonfim pretende fazer uma capelinha para se celebrar missa, a qual pretende fazer no morro por detrás da Intendência' (etc.)".

Pela data, fica claro então que a afirmação de que este templo é o mais antigo da cidade, ainda corrente entre muitas pessoas, não procede de forma alguma. Sabe-se que antes dele houve uma igreja no Bonfim, mas dedicada à padroeira Nossa Senhora do Pilar, "edificada no Morro da Forca, mais ou menos no lugar onde se encontram as duas caixas de água velhas e o Grupo Escolar Inácio Passos à Praça Guilherme Milward" (Alvarenga, 1971). Foi construída logo depois da Guerra dos Emboabas (1707-1709), quando a primitiva, que lhe antecedeu, da época da fundação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar (1705), situada no morro oposto, encosta das Mercês, junto às lavras, foi incendiada numa das refregas entre paulistas e emboabas. Bem, a Igreja do Pilar que existiu no Bonfim foi demolida em detrimento da atual Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar (título dado em 1965), no ano de 1721 e parte de seus materiais aproveitados na obra desta última, a definitiva. 

Interior da Capela do Bonfim vendo-se nas laterais as imagens de
São Francisco de Assis (esq.) e São Benedito (dir.). Setembro/1998. 

O Morro do Bonfim na parte mais baixa possui um cruzeiro antigo, possivelmente do fim do século XIX, marcando o centro da Praça Guilherme Milward, popularmente chamada até hoje "Morro da Forca", local onde no passado erguia-se o cadafalso da vila. Neste cruzeiro até uns anos eram afamadas as Festas de Santa Cruz, pelo mês de maio, hoje desaparecidas [2]. Afamaram-se também no bairro as barraquinhas do padroeiro, que se concluem no primeiro domingo de agosto, conforme mostra esta notícia do jornal A Opinião, nº 23: “Começaram no dia 20 deste as novenas do senhor do Bom-fim, que terminarão no dia 29 do corrente, havendo todos os dias, após as novenas, leilão de prendas”.

Sua capela em São João del-Rei recebeu um sino novo em 1919, vindo de São Paulo, graças aos esforços de Severiano Rodrigues, dentre outros, conforme notícia do jornal A Tribuna, nº255.

Cruzeiro do Morro da Forca. Ao fundo, a Capela do Bonfim. 

Já a igrejinha do Senhor dos Montes foi erigida em data imprecisa, devido à ausência de documentos primitivos, decerto perdidos. É possível deduzir que seja do final do século XVIII ou começo do seguinte, com base nesta citação de Cintra (1982), referente à data 23/02/1801:

"Para constituição do patrimônio da Capela do Senhor Bom Jesus do Monte, Manoel de Sá Peixoto e sua mulher Bernarda de S.José adquirem do Pe. Antônio Gonçalves de Siqueira, zelador e provedor do citado templo, 'uma chácara sita ao sopé do Senhor do Monte desta Vila com seus pertences, horta, quintal, pasto que ao presente se acha cercado de muros e valo', (etc.)". 

Cruzeiro e Igreja do Senhor Bom Jesus do Monte, São João del-Rei, 1998. 

Ora, o patrimônio de uma capela era formado no ato de sua construção ou imediatamente antes, por ocasião do planejamento da obra, mas habitualmente não décadas antes. No mais o texto supratranscrito diz "ao sopé do Senhor do Monte desta Vila". O nome veio com a capela, não antes. O sistema antigo de denominação de logradouros era assim. O nome primitivo mudava com a construção da igreja do lugar, do qual existem muitos exemplos. 

É frequente se afirmar que foi construída na década de 1840. Se assim foi, o quer dizer da citação de 1801? É possível que tenha havido uma capela primitiva, substituída ou ampliada nos meados dos oitocentos? A capela original é certamente dos setecentos. Luiz Antônio do Sacramento Miranda, em gentil colaboração, informou pessoalmente, acerca da possibilidade do nome original dessa devoção ser "Bom Jesus de Trás os Montes", uma referência à geografia portuguesa, mais tarde alterada para Senhor dos Montes. 

Burton (1976), ao vê-la em 1867, não teve uma impressão positiva e escreveu sobre esta construção:

"À nossa esquerda, fica a horrorosa capela de Nossa Sra.(sic) do Monte, parecida com os templos das modernas colonias espanholas, com duas janelas (com persianas pintadas de vermelho) e uma só porta, dando a impressão de um rosto sem nariz."

No ano de 1900 foi construída sua única torre, conforme noticia o jornal O Combate, nº 10:

"Graças aos esforços do zeloso encarregado da capella do Senhor Bom Jesus do Monte o estimado sr. Emilio Viegas - foi levantada uma torre que está prompta na referida Capella. É um trabalho sólido e elegante que muito realça a bellesa da poetica Egrejinha."

Em maio de 1905, um jornal da cidade (O Repórter, n.19) registrou em nota intitulada "Senhor dos Montes":

"Com muita concurrencia e sempre animadas correram as festas que se fizeram nos dias 21, 22 e 23, na bella capellinha do Senhor Bom Jesus dos Montes, pitoresco arrabalde desta cidade. São procuradores das festas do anno de 1906, os senhores Lucio Justino de Andrade do 1º dia; José Machado do 2º e Francisco de Paula Assis do 3º."

Os zeladores da capela eram então os srs. Capitão Francisco Balbino de Mello e Emílio Viegas (O Repórter, nº27).

A Câmara por esta época tocava obras de abastecimento d'água no Senhor dos Montes. Em setembro de 1905 ficou pronto o chafariz provisório do bairro, obra de canalização de José Francisco de Athaydes, jorrando água abundante e de melhor qualidade que a do restante da cidade, nos diz O Repórter nº35.

No ano seguinte a imprensa registrou nas páginas d'O Repórter nº15, a animação dos quatro dias festivos, com grande aglomeração de povo. Foi destacada a boa ordem dos festejos. Tocou a Orquestra e Banda Lira Sanjoanense sob a regência de Luiz Batista Lopes. O celebrante foi o Padre Custódio Sabino Franklin.

No cruzeiro fronteiriço, desde longa data, as romarias de maio eram coroadas com fervorosas festas em honra à Santa Cruz. Tais festejos alcançaram celebridade e sendo o local considerado um arrabalde à época, os melhoramentos que chegavam eram inaugurados ao tempo desses festejos, como a chegada da luz elétrica, tardiamente em 1926, marcada a inauguração para o primeiro dia dessa festa no "Senhor-dos-Montes" (como se intitula a nota d'A Tribuna, nº737), que anunciava também promessa de canalização de água potável para o ano seguinte, pelos esforços do Deputado Estadual (na época se dizia Provincial) Sr. Basílio de Magalhães. Em outra nota do mesmo jornal e com o mesmo título, em julho, nº744, anunciava-se a nova pintura externa da igreja, elogiada pelo resultado e motivo de celebrações locais.   

A Capela do Bonfim é ligada aos franciscanos da Paróquia de São Francisco de Assis e a do Senhor do Monte desvinculou-se em 1999 da do Pilar, tornando-se em nova paróquia a 26 de novembro daquele ano. Augusto Viegas, em parágrafo magistral, assim se referiu às capelas do Bonfim e Senhor do Monte sobranceiras à cidade:

"Muito brancas, armadas de argênteos campanários que ressoam a distâncias imensas e da cruz, que se projeta até o infinito, dir-se-iam, ante o esplêndido destino a que as consagrou a tradição, cândidas sentinelas morais a velarem pela fé e pelo civismo da população que no vale entre elas moureja." (sic, p.265)

Noutro lado da cidade, em Matosinhos, destaca-se o santuário onde concorrem fiéis desde os setecentos. No platô do grande bairro, edificou-se a partir de 1770 uma bela igreja, de cuja primeira festividade já se tem notícia quatro anos depois, por ocasião de Pentecostes. O local, até então denominado Vargem da Água Limpa, ganha desde então  denominação de Matosinhos. A devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos se disseminou com grande vigor, bem mais que outras invocações aqui populares. Ainda hoje a Procissão do Senhor de Matosinhos é das mais concorridas, sem exagero, uma das cinco maiores da cidade em volume de fiéis, se não for a maior... No santuário destacam-se as comemorações da Semana Santa, crescentes em vigor e dois jubileus, um consagrado ao Divino Espírito Santo e outro ao padroeiro. Além, destas, correm várias outras comemorações anuais. 


Frontispício e interior da primitiva Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. São João del-Rei.
Autor e data não identificados. Fotos gentilmente cedidas por Osni Paiva. 

Lamentavelmente a igreja primitiva do Senhor de Matosinhos foi demolida por ocasião de seu bicentenário e substituída pela atual que se vê parcialmente na fotografia abaixo.

Santuário do Senhor Bom  Jesus de Matosinhos, set.2004.
São João del-Rei/MG.

Na zona rural de São João del-Rei, a devoção ao Cristo também se nota fortemente. No povoado do Chaves, extremo sul do município, no alto de uma colina aplainada no topo, desde ao longe se avista a Capela do Bom Jesus do Monte Calvário, dos meados do século XX, onde o Senhor Bom Jesus é festejado anualmente, em animado evento que congrega toda aquela comunidade e demais sitiantes e moradores dos povoados circunvizinhos [3]. Tanto no povoado da Cananéia (distrito de Emboabas) quanto na Colônia do José Teodoro (distrito de São Gonçalo do Amarante) existem capela centenária sob orago do Sagrado Coração de Jesus [4]. A da Colônia foi construída em 1909 e as famílias de migrantes italianos tiveram força decisiva no processo de sua construção. A da Cananéia não se sabe a data precisa da construção, supostamente na década de 1920 ou pouco antes. 


Capela do Bom Jesus do Monte Calvário (demolida), povoado do Chaves.
Imagem do acervo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
São João del-Rei. Data: 19/09/2013. 

Capela do Sagrado Coração de Jesus, povoado da Cananéia.
Imagem do acervo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
São João del-Rei. Data: 02/07/2013. 


Capela do Sagrado Coração de Jesus, Colônia José Teodoro,
em vista frontal e posterior. Fevereiro/2004.

 
Sá Luíza da Cananéia, foi uma senhora cuja dedicação à vida religiosa, bem se poderia, de certa forma e guardadas as proporções, por analogia, comparar-se à de Nhá Chica. É uma personagem popular ainda lembrada pelo povo fiel do distrito de Emboabas que está a merecer uma pesquisa aprofundada e urgente das fontes memorialísticas. Foram seus esforços que encabeçaram as obras de edificação da capela rural dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no povoado da Cananéia.

Na Colônia, a igrejinha simpática parece olhar do morro para a antiga estrada para Ritápolis e para o leito da extinta Linha do Sertão, da EFOM. Foi c


Referências Bibliográficas

ALVARENGA, Luís de Melo. Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Juiz de Fora: Esdeva, 1971. 80p.il.

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. 

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. 

VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1969. 


Referências Hemerográficas

O Combate, n.10, 05/09/1900
O Repórter, n.19, 25/05/1905
O Repórter, n.27, 16/07/1905
O Repórter, n.35, 17/09/1905
O Repórter, n.15, 20/05/1906
A Opinião, n.23, 21/09/1907
A Tribuna, n.255, 18/05/1919
A Tribuna, n.737, 29/04/1926
A Tribuna, n.744, 18/07/1926

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Fotografias  Ulisses Passarelli, exceto indicação em contrário na respectiva legenda. 

Notas 

[1] Segundo Gaio Sobrinho (2010, p.211), na Rua Marechal Bittencourt (antiga Rua da Cachaça), no Centro Histórico de São João del-Rei, houve um Oratório do Senhor do Bonfim, conforme notícia de 1815. Os oratórios eram pequeninas capelas, à semelhança dos passinhos.

[2] O Cruzeiro do Morro da Forca e a Capela do Senhor do Bonfim foram patrimonializadas por mecanismo de Inventário de Patrimônio Cultural (IPAC), respectivamente em 2017 e 2014, sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural. O Cruzeiro do Morro da Forca está contido na Zona de Tombamento municipal do Centro Histórico e a Capela do Bonfim na Zona de Entorno,  conforme cartografia baseada na Lei nº 3.531, de 06/06/2000. O cruzeiro foi completamente restaurado no começo da década de 2020. 

[3] A Capela do Monte Calvário passou por completa alteração no princípio da década de 2020, quando uma nova igreja bem mais ampla e moderna foi construída envolvendo-a, de modo que ao término da obra a original foi demolida. A atual não guarda mais nenhuma ligação arquitetônica com a antiga. 

[4] A devoção ao Sagrado Coração de Jesus difundiu-se bastante pelas igrejas rurais da região: Penedo (Ritápolis), Igreja do Gaspar, no Elvas (Tiradentes), São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei) - junto com o padroeiro, etc.

- Obs.: as referências hemerográficas foram tomadas de jornais publicados em São João del-Rei, pertencentes ao acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

- Revisão: 25/10/2026 - nesta revisão o título original "Terra de Jesus" foi substituído pelo atual, considerado mais adequado. 

domingo, 6 de julho de 2014

Nossa Senhora da Saúde

(Ofereço com gratidão a Luiz Antônio Sacramento Miranda)

Nossa Senhora da Saúde é devoção de origem europeia ligada à cura de epidemias. Em Veneza, onde está sua basílica, foi a peste a força motriz dessa devoção, acometendo a cidade italiana em 1630. Também é conhecida no México, desde o século XVI. Em Portugal foi surgida no século XVI no auge de dois grandes surtos de peste (1569 e 1599). Difundida em terras lusitanas foi depois trazida ao Brasil contando relativamente com poucos templos de que é orago no país. Em Minas Gerais, no Campo das Vertentes, duas construções foram-lhe consagradas: uma em São João del-Rei outra no vizinho balneário das Águas Santas (Tiradentes). 

Em São João del-Rei sua devoção se fixou no Bairro Senhor dos Montes. A capela do padroeiro do bairro teve o patrimônio adquirido em 1801, sendo que a 23 de fevereiro daquele ano, segundo Sebastião de Oliveira Cintra:

"Manoel de Sá Peixoto e sua mulher Bernarda de São José adquirem do Pe. Antônio Gonçalves de Siqueira, zelador e provedor do citado templo "uma chácara sita ao sopé do Senhor do Monte desta vila com os seus pertences, horta, quintal, pasto que ao presente se acha cercado de muros e valo, com obrigação de prestarmos todo o guisamento necessário de vinho e hóstias para as missas que se disserem na dita Capela do Senhor do Monte, bem como de azeite para a lâmpada, cujo trato nos obrigamos a cumprir por nós, nossos herdeiros e testamenteiros, bem como o dito vendedor se obriga a fazer bom dito trato, convenção e por tudo depor e a salvo por seus herdeiros e testamenteiros, e de nos haver empossados nas ditas casas e chácara na forma que hoje existe". O registro do documento foi feito a 30-12-1802, por iniciativa do Pe. Siqueira." (CINTRA, 1982). 

Professor Antônio Gaio apontou o ano de 1847 como sendo a data da capela, o que certamente se a alguma grande reforma que lhe deu nova configuração (SOBRINHO, 1996). 

O antigo jornal homônimo da cidade, no ano de 1899, deu conta de um festa animadíssima, com reza de terço, apresentações musicais, sermão, Te-Deum e leilão de prendas, tudo em benefício da construção da torre da capela do padroeiro, obra datada do ano seguinte [1]. Sobre ela escreveu CINTRA (1982): "Em maio de 1900 o Dr. Joaquim Domingues Leite de Castro, Agente Executivo Municipal, sancionou a Resolução que autorizava a concessão do auxílio de "quinhentos mil réis" para a conclusão das obras da torre."

Em 1906 a imprensa são-joanense divulgou esta nota pelo jornal O Repórter, nº13: "Ficou adiada para o próximo domingo, 13, a festa do Senhor Bom Jesus do Monte, que é costume celebrar-se a 3, seguindo-se as festas de N.S. da Piedade e da Saude, todas na encantadora Capella no poetico arrabalde de Senhor dos Montes."

No século XX, com o crescimento populacional, a pequena capela, já não comportava os fiéis e foi então construída ao lado uma nova igreja (felizmente sem demolir a antiga!) e esta foi consagrada a Nossa Senhora da Saúde. A edificação se deu graças aos esforços do Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva, de saudosa memória. A inauguração deu-se por bênção do Bispo Diocesano Dom Delfim Ribeiro Guedes, em celebração acontecida às 15 horas do dia 30/06/1974. 

A Paróquia do Senhor Bom Jesus do Monte só foi criada em 1999 por decreto episcopal de 1º de abril, a partir de um desmembramento da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, com instalação a 26 de novembro do mesmo ano. O primeiro pároco foi o Padre José Roberto Vale Silva e o segundo, o Padre Ilton de Paula Resende, segundo o blog Senhor Bom Jesus do Monte.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde, Bairro Senhor dos Montes,
São João del-Rei/MG, 05/07/2014.
 


As propriedades físico-químicas especiais de certas águas minerais favorecem melhorias de saúde e de algumas enfermidades. Tal se deu com algumas fontes que nascem na encosta norte da Serra de São José, no município de Tiradentes, às quais, desde o século XIX, se atribuiu nos meios populares o poder da cura, sendo logo chamadas de Águas Santas [2]. A narrativa popular é a seguinte: certo escravizado fora incumbido de diariamente buscar água potável em um cântaro, para abastecer a casa grande. Tinha feridas nas pernas, de um possível eczema, incurável, diziam. Quando começou a nova tarefa, sempre entrava na água até o nível do joelho para alcançar o ponto alto onde deixava o pote a encher. Em alguns dias suas feridas apresentaram sensível melhora e logo ele atribuiu o fato a um poder miraculoso daquela fonte, concluindo com o fechamento total das lesões pelos banhos sucessivos. Não tardou o batismo, Águas Santas. A fama espalhou e gente de todo lado vinha em busca de melhoras. O local se tornou um balneário e ganhou um ramal ferroviário da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) em 1910. 

MEGALE (1986) comentou sobre a devoção a esta santa: "A cidade mineira de Poços de Caldas recebeu o nome de Vila de Nossa Senhora da Saúde das Águas de Caldas, por decreto governamental em 1874, talvez devido à fama de suas águas sulfurosas, que naquele ano foram submetidas a um exame por ordem do governo imperial." 

Salvo engano, segundo a crença dos fiéis, pode-se inferir de semelhante associação do poder das águas e o poder de Maria nas curas tanto na próspera cidade sul-mineira quanto na pacata Águas Santas.  Deu-se então  início à construção de uma capela desta invocação, conforme informação do jornal O Repórter nº46, em 1906:

"Capella de N.S. da Saude. O ilustre e estimavel sr. Antonio Gonçalves de Araujo Penna e sua prezada consorte, a exma. sra. d. Joanna Theolinda Meira de Araujo Penna, residentes no Rio e proprietarios nas Aguas Santas de Tiradentes, onde vêm, annualmente, veranear, em companhia de seus dignos filhos, em boa hora, resolveram edificar ali uma pequena capella, dedicada a N. Senhora da Saude, a sua custa, tendo para esse fim alcançado já licença da auctoridade diocesana. No dia 10, revestida de toda a solemnidade, realisou-se a benção da pedra fundamental da capella no proprio local." (Etc.)

A 20 de fevereiro de 1915, garante as páginas d'O Zuavo, inaugurava-se a Capela de Nossa Senhora da Saúde das Águas Santas, mandada construir pelo farmacêutico Antônio Gonçalves de Araújo Penna. Houve duas missas na ocasião, celebradas pelo Monsenhor Ernesto Gustavo Coelho e pelo Vigário Antônio Carlos. 

Nas vésperas de seu centenário seria muito bem-vinda uma obra de restauro e uma animada festa comemorativa do centésimo aniversário de construção.

Programa das festividades de inverno nas Águas Santas, ano 2014,
consagradas a São Pedro e São Paulo. Impresso em papel off-set, 22 x 31cm, cor branca com escritos pretos.
 


Capela de Nossa Senhora da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
ao sopé da Serra de São José. 18/05/2014.  


Referência Hemerográfica

O Repórter, n.13, 06/05/1906. São João del-Rei. 
O Repórter, n.46, 16/12/1906. São João del-Rei. 
O Zuavo, n.27, 21/02/1915. São João del-Rei. 
S. João d’El-Rey, n.17, 13/05/1899. São João del-Rei. 

Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. v.1, p.91-92.

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986. 376p. p. 354-355.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104p.il. p.24.

Referência na Internet

WIKIPÉDIA. Nossa Senhora da Saúde. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nossa_Senhora_da_Sa%C3%BAde  Acesso em 04/07/2014. 
SÃO JOÃO DEL-REI. Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. Disponível em: https://bmsjdr.phl.bib.br/ 
Blog Senhor Bom Jesus do Monte. Disponível em:  http://senhorbomjesusdomonte.blogspot.com.br/p/comunidades-da-paroquia.html Acesso em 15/06/2017. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Agradecimentos a Luiz Antônio Sacramento Miranda pelo apoio a respeito da história das igrejas católicas do Bairro Senhor dos Montes.    

Notas

[1] O Bairro Senhor dos Montes, foi tipicamente festeiro. Eram célebres as festas da Santa Cruz em maio (foco de romarias) e as do padroeiro em setembro, como por exemplo na década de vinte, quando num coreto, tocou a Banda Ribeiro Bastos, regida pelo professor José Quintino dos Santos (jornal O S. João del-Rei, n.25, 02/09/1920). Na mesma década a parte externa da capela foi reformada e houve animada festa inaugural. A professora local, Albertina Dias, ofereceu na escola uma mesa de doces finos ( jornal A Tribuna, n.767, 18/07/1926).

[2] A saber, tem propriedades medicinais, indicadas como auxiliares no tratamento de nefrites, impotência, alergias, eczema, artrite e como ativante do metabolismo. A radioativa tem temperatura estável em 27,5 º C e a magnesiana a 18ºC. Informações contidas numa placa que havia afixada no balneário. Infelizmente, já fazem vários anos que essas fontes estão sem jorrar água, motivo de protestos populares e campanhas em prol da reativação da fonte. 

- Revisão: 22/12/2025. 
- A festa de Nossa Senhora da Saúde teve seu cadastro aprovado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, conforme ata CMPPC nº 577, de 03/12/2025, com juntada ao processo de Registro "Festas Religiosas de São João del-Rei", Processo 047/22, categoria Celebrações, homologado pelo Decreto nº10.225, 07/12/2022.