Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 20 de setembro de 2026

Boi do Culóia e seu legado: Tiradentes/MG

Este blog, criado despretensiosamente em meados de 2012, chega aos seus catorze anos de existência e a contagem de um milhão e meio de visitas! Uma cifra significativa para uma temática centrada em tradições populares. Desde alguns anos a realidade é outra e a indisponibilidade de tempo já não permite postagens tão frequentes como antes. No entanto, pouco a pouco todas as antigas postagens estão passando por revisão, submetendo-as a eventuais correções, melhorias, acréscimos, informações adicionais, novas fontes de referências, inclusão de fotografias extras, adequação de linguagem aos ditames atuais - tudo quando e quanto se faz necessário. Dessa forma, o blog está vivo e permanece dinâmico, em contínua renovação e crescimento, resistindo à dureza do cotidiano. 

Na presente data o blog apresenta uma nova postagem, comemorativa desse um milhão e meio de visitas. Uma matéria sobre o Boi do Culóia, uma tradição tiradentina de antiga raiz cultural que deixou marcas no carnaval da histórica cidade de Tiradentes e um legado que possibilitou continuidades, sob novos formatos, adequando-se a cada tempo e circunstância. Esperamos que esta postagem seja útil às pesquisas e de agradável leitura. 

Nesta oportunidade agradeço imensamente, em nome do blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES pela confiança no trabalho desenvolvido, fidelidade e acompanhamento dos leitores, sem os quais certamente esta página eletrônica já estaria desativada há muito tempo. As visitas numerosas, as pesquisas feitas aqui no conteúdo e o uso das matérias para atividades de educação patrimonial são o melhor estímulo que tenho tido para continuar escrevendo e pesquisando. Vamos em frente! Gratidão! 

Ulisses Passarelli

*  *  *

A atual cidade de Tiradentes teve como primórdios o Arraial de Santo Antônio [1], fundado em 1702 por Tomé Portes del-Rei, então Guarda-mor das minas do Rio das Mortes, que tinha autoridade para tomar posse das terras auríferas em nome da coroa portuguesa e determinar a divisão dos lotes de mineração (datas minerais). Esse primeiro ouro foi-lhe revelado por outro bandeirante paulista, João de Siqueira Afonso, experimentado minerador, que de retorno a São Paulo, a partir de seus descobertos no Tripuí e em Guarapiranga, passou pelo núcleo de povoamento primitivo estabelecido por Tomé Portes, o Arraial do Rio das Mortes, que funcionava como ponto de hospedagem, reabastecimento de mantimentos e víveres, além de ser um posto onde se pagava taxa pela travessia fluvial. Observando nas areias indícios de presença de ouro, João de Siqueira Afonso deixou a Tomé Portes del-Rei as indicações precisas. Por esta razão, ao primeiro cabe o papel de descobridor e ao segundo de fundador, consideradas, respectivamente, a experiência no garimpo e a autoridade para fundar (Henriques, 2006). 

Como outras localidades do período, rapidamente o arraial se expandiu impulsionado economicamente pela riqueza mineral e logo alcançou o foro de vila, em janeiro de 1718, passando a se chamar São José do Rio das Mortes e posteriormente São José del-Rei (Velloso, 2013; Wikipédia, 2026). Foi alçada à condição de cidade  pela Lei provincial n.° 1.092, de 7 de outubro de 1860 (IBGE, 2026).  Logo após a entrada da República foi denominada Tiradentes [2]. É uma cidade situada no trecho médio do Rio das Mortes, em um vale próximo à foz do Rio Elvas, tendo como exuberante cenário de fundo a Serra de São José, assemelhando-se a uma muralha rochosa, com o sopé revestido por Mata Atlântica. A população estimada para 2025 é de 8.056 pessoas (IBGE, 2026).

Tiradentes, São João del-Rei, Prados e Santa Cruz de Minas – considerados os nomes atuais – são municípios que outrora constituíram um forte núcleo de mineração aurífera no médio Rio das Mortes, compartilhando entre si uma cultura coirmã, muito embora, cada qual, com suas peculiaridades. No que tange a Tiradentes, uma vez que a mineração se tornou decadente, o comércio, já previamente estabelecido, exerceu um papel preponderante na manutenção da economia, marcada pelo movimento do tropeirismo, que garantia o fluxo de mercadorias para fora da localidade e que marcou a cultura local (Cruz et al., 2014). 

No decurso do século XX a cidade tinha um ar interiorano, de pequena movimentação, munida de um casario de elevadíssimo valor arquitetônico, muita história, arte e cultura, com um cenário ímpar em sua inserção na paisagem. Essas características singulares chamaram a atenção dos meios cinematográficos e televisivos dos anos noventa em diante e o adentrar do século XXI, a tendência a ser cenário de filmagens, cinema, minisséries, novelas se expandiu rapidamente, embora já iniciada antes. O lugar se tornou afamado, valorizou-se economicamente e a atividade turística reacendeu Tiradentes. Atualmente diversos segmentos do turismo podem ser observados no local, notadamente o turismo cultural e o de eventos. Não obstante esse campo exitoso, o turismo local tem algumas características massivas e impacta a cultura local, exige uma atenção de gestão muito especial, a fim de minimizar os conflitos e envolver a população no processo (Pellegrini Filho, 2000). Entretanto, a longa discussão que se abre diante desse quadro não cabe nessas páginas, mas certamente pode ser detectada também no carnaval tradicional. 

Cruz et al. (2016, p.19 e 20) ao comentar sobre o carnaval tiradentino, revelou como na década de 1960 havia rivalidade entre clubes carnavalescos locais, estimulando a elaboração de carnavais muito animados. Mas que, vencida essa fase, o carnaval dessa cidade histórica “se reduziu ao Boi do Culóia”, expressão que denota a significação que essa manifestação cultural alcançou. Segundo os autores, “Culóia” era a alcunha de: “Geraldo Bibiano Ferreira (2/12/1944 – 6/4/1986), filho de Oscar e Geralda Ferreira, era torcedor entusiasta do Aimorés Futebol Clube e participava com sua alegria dos piqueniques no alto da serra.” Seu boi era feito à moda tradicional, a partir de uma caveira bovina, afixada a um balaio de bambu, emborcado para fazer as vezes de corpo do animal e a cobertura por tecido de chita, que imitava o couro. Consta ainda, que, “além do boi, Culóia criou uma série de personagens carnavalescos. O Preto Velho perambulava pelas ruas e a Nega Maluca dançava com muita irreverência e era acompanhada por todos. Vestia-se de mulher e mantendo seus longos bigodes.” Ainda se referem que no ano 2000 a Escola Estadual Basílio da Gama, ao buscar um resgate das memórias do carnaval tiradentino, criou o Bloco Reviver, por meio do qual presta-se homenagem a “esse folião tão alegre que, por algum tempo, fez a festa praticamente sozinho. O boi foi reconstruído e mais uma vez, esteve nas ruas fazendo a alegria da criançada e abrindo oficialmente o carnaval da cidade.” Luiz Cruz ponderou ainda uma observação bastante significativa sobre o Culóia [3]

Culoia criava personagens para cada dia do Carnaval, uma vez saiu de Cigana, com compridas tranças, em vestido longo muito rodado e seios volumosos. Nesta fotografia da década de 1980, ele saiu de PRETO VELHO e fez a alegria dos tiradentinos e dos raros turistas. O tempo passa, o tempo voa. Culoia fez uma referência a uma entidade de matriz afro, isso há décadas; tudo transcorreu naturalmente e no contexto momesco. Recentemente, Tiradentes se revelou muito preconceituosa e racista, a espelhar atraso e pobreza espiritual. Carnaval é alegria, cultura, memória e ruptura de paradigmas. 

Culóia, fantasiado de preto velho, em um carnaval tiradentino da década de 1980. 
Autor e data não identificados. Fonte: Cruz et al. (2016). 

No entanto, sobre o Boi do Culóia, é importante ressaltar a informação pessoal gentilmente concedida em 27 de agosto de 2025, pelo historiador Olinto Rodrigues dos Santos Filho, grande conhecedor da memória, história e tradição tiradentina, segundo o qual, houve anteriormente o “Boi do Sô Bento”, na década de 1940, o qual descia com o grupo a partir da Santíssima Trindade, pouco antes do carnaval, como que o anunciando, na quinta e sexta-feira. Seria aparentado ao Culóia, que teria mais tarde dado seguimento à tradição, ao criar seu próprio boi, já nos anos setenta. 

Ao que parece o Boi do Culóia, como herdeiro do Boi do Sô Bento, foi uma manifestação pautada no tradicionalismo, capaz de arregimentar participantes e admiradores, desenvolvendo-se com simplicidade e originalidade. Pelo menos é o que se depreende de diálogos com pessoas que presenciaram a manifestação, há muito desaparecida e da qual praticamente não restou ou muito pouco há de documentação audiovisual e imagética. 

O novo estado de ser da cultura carnavalesca tiradentina, ainda comporta um boi como o que era feito pelo Culóia? Esta pergunta retórica ecoa com algumas possibilidades de resposta. David Nascimento, ao discorrer sobre as relações da cidade com a loucura, sintetiza as transformações da urbe, que podem ser transpostas para o contexto ora em análise: 

Em Tiradentes, até o final da década de 1980 e início da de 1990, era comum encontrar alguns loucos por suas ruas, fossem eles dali ou vindos de outros lugares, como Bichinho (Vitoriano Veloso), distrito de Prados. Além de ter certa “liberdade” no deslocamento dos ditos loucos, poderia chamar atenção a forma como a cidade e seus moradores se relacionavam e os incluíam. As mudanças econômicas e políticas passadas por Tiradentes ao longo de seus quase trezentos anos poderiam dar indícios de como eram as condições que possibilitaram certas relações, já que, diferente de outras cidades mineiras do ciclo do ouro, o lugar não teve grande desenvolvimento econômico a partir da queda da produção aurífera, o que influenciou as relações de trabalho e sua organização. (p.79-80) (...) o abandono da cidade, devido seu empobrecimento político e financeiro durante os sécs. XIX e XX. Assim observado, a partir de tal empobrecimento e dos desmembramentos em novas vilas e cidades, Tiradentes se retrai e perde sua importância no cenário político (p.83). (Nascimento, 2017). 

Em outra fonte, o mesmo autor chamou a atenção para as perdas de identidade decorrentes das amplas medidas de preservação do patrimônio material, sem equivalência condizente com o patrimônio imaterial, associado a outras questões decorrentes da grande transformação deflagrada a partir da atividade turística, na forma como se transcorreu em Tiradentes. Mencionou o deslocamento populacional da comunidade autóctone para os espaços periféricos, “a inexistência de sentido/relação entre as cidades” e seus patrimônios, como possíveis problemas. A partir disso podem surgir efeitos negativos, tais como “depredações do patrimônio material, desrespeito com as manifestações culturais (patrimônio imaterial), crescimento da violência” e, tanto mais, desenvolver-se: 

ressentimento e a crença de que ocorre injustiça/desigualdade (de direitos). Tal crença funda uma situação de oposição entre “nós” (os moradores de Tiradentes) e “eles” (turistas, parte do empresariado e poder público). Por fim, isso pode ser observado quanto à certa insatisfação que indica a falta de relação/perda do “bem comum” (espaço público), da “identidade cultural” ou do patrimônio (i)material (Nascimento, 2023). 

Tais narrativas parecem demonstrar uma desambientação; um esfacelamento do antigo modus vivendi para atender a novas perspectivas ditadas pela virada econômica e social trazida pelo turismo. Nessa linha de raciocínio, das transformações da comunidade tiradentina, Rogério Paiva ao tratar do mito do Caboclo d’Água revela nas entrelinhas como a tal desambientação também abalou a própria transmissão do mito e as vivências simples do lugar: 

os “causos” contados por nossos avós e que se referem a uma cidade que não existe mais, a um tempo em que a crendice e a ingenuidade permitia o diálogo do real com o fantástico. Sonhar era permitido. Não há muito tempo (entenda-se década de oitenta para trás) era comum uma roda de conversa à noite, na porta da casa, em que os mais velhos contavam histórias para uma plateia de meninos invariavelmente curiosos e amedrontados. Eram histórias dos tempos em que a cidade ainda era uma ruína colonial, sem energia elétrica e sem movimento (Paiva, 2012). 

Neves (2013) demonstrou as mudanças a partir dos tombamentos de centros históricos em 1938 pelo SPHAN, mais voltado para valores arquitetônicos e notavelmente as fachadas dos imóveis, o foco no barroquismo (p.32). Em Tiradentes sobreveio mais tarde ações de recuperação de imóveis a partir dos anos 1980, fato que contribuiu “para o surgimento de estudos relacionados ao potencial turístico que a cidade oferece e para que, com o tempo, surgisse o turismo elitizado, onde a área central de Tiradentes passou pela transmutação e os imóveis residenciais irão se tornar estabelecimentos comerciais” (p.43). No entanto, a propaganda turística ganhou forças em meados da década seguinte e ocorreu um “processo de (re)construção do “centro histórico” como uma “autêntica” vila barroca mineira, em verdade um cenário-simulacro-mercadoria a ser consumido por turistas de alto poder aquisitivo” (p.44). Prossegue o autor alertando que: 

esse processo de transmutação da área central fez com que ela ganhasse uma nova história territorial e se convertesse em “espetáculo”, “simulacro” ou não lugar, um espaço “gentrificado” com edificações “históricas” a serem consumidas por turistas. Essa transmutação fez com que grande parte da população de origem tiradentina fosse excluída do “usufruto” da área central da cidade e com que os edifícios históricos ganhassem novas funções socioeconômicas (Neves, 2013, p.64). 

Pelo visto, para compreender a continuidade do Boi do Culóia é preciso trazer em mente estas transformações e não apenas apontar a ausência (sempre lamentável) de seu organizador. Para além, a cidade vivencia um novo clima cultural. 

Nessa perspectiva é fundamental discorrer sobre a experiência escolar extraordinária desenvolvida na Escola Estadual Basílio da Gama. O Bloco Reviver que é organizado nessa unidade de ensino, mescla cultura, educação patrimonial e entretenimento, envolvendo intensamente os jovens estudantes e crianças, professores e demais funcionários, na organização da agremiação. Para além dos trabalhos de bastidor, que antecederam por dias ao desfile, certamente fruto de longo trabalho e planejamento, o dia maior, conforme observado em 2026, foi marcado pela escola de portas abertas à comunidade, devidamente enfeitada como motivos carnavalescos. No seu pátio central estudantes em franca animação estavam enfeitados de diversas formas e havia material disponível para incrementarem suas fantasias. Estandartes marcavam o ambiente e um boi, montado sobre uma carriola metálica, estava em posição de destaque. Coberto de chita e feito com uma caveira bovina relembrava o antigo Boi do Culóia. Pouco antes da saída, foi feito internamente um concurso de fantasias. Logo irrompeu uma banda de metais, tocando inúmeras marchinhas carnavalescas. 

A saída foi pela manhã daquela sexta-feira prévia de carnaval oficial, no ano de 2026, em torno das dez horas. Rua afora, o cortejo momesco transcorreu com imensa animação, boa organização e segurança, rumo à parte central da cidade. Aberto pelos estandartes e fechado pela banda, tinha ao centro os estudantes, docentes e funcionários como foliões, cantando e pulando as marchinhas, uma profusão de confetes e serpentinas. O efeito visual de muitos aros enfeitados, brandidos no ar, chamava a atenção de longe, como adereço dos foliões. E adiante deles, um homem conduzia o boi sobre o carrinho, apenas empurrando-o, embora que ritmadamente, como se acompanhasse a toada das marchinhas. 

Basicamente o desfile tem essas características e admite algumas observações pertinentes. De início que, o movimento histórico do tropeirismo pode, eventualmente, ter deixado marcas de costumes e um ambiente cultural propício ao desenvolvimento desse tipo de manifestação. Tropeirismo entendido no sentido amplificado, não apenas no que diz respeito apenas às tropas em si, mas à vida rural como um todo, representada pela cultura de tropeiros, boiadeiros e carreiros (Passarelli, 2013). O Boi do Sô Bento e o Boi do Culóia aparentemente se alinham com essa perspectiva, mesmo inseridos na folia momesca. Sua inativação também parece representar uma transformação na cultura local, aproximadamente coincidente com o início da reconfiguração da cidade para atender ao grande fluxo turístico ao qual se abriu. Não surgiram novas lideranças capazes de seguir com o Boi após o falecimento de Culóia. Outras cidades regionais também com forte ligação ao tropeirismo, igualmente tiveram ou têm seus bois, a exemplo de Dores de Campos e Prados, dentre outras (Passarelli, 2023). 

Outra consideração é sobre as homenagens subsequentes à figura do Culóia. Para além do ser humano em si e do seu legado, daquilo que fez como marca cultural, sugere-se a representação de uma memória saudosista, de algo que já não é mais como se fazia. Como se o modelo do passado fosse uma referência de identidade à qual se rende homenagens e se busca referências para a recriação ou releitura da manifestação. Isto é possível graças ao sentimento de pertença gerado, que se ancora no modelo passado, tido como fonte de autenticidade, que ainda faz sentido para a comunidade autóctone ou pelo menos parte dela. 

Em paralelo, a própria ocorrência abundante de atividades culturais primordialmente desconectadas da cultura local de raiz, provoca uma reação inversa, revivescência ou afirmação de identidade à título de resistência cultural. Assim, mesmo diante de modificações performáticas, o nome do Culóia e o símbolo do boi sobrevivem ao tempo. 

Por fim, chama a atenção o boi ora desprovido de um personagem humano interiorizado na alegoria (“miolo” ou “tripa”), uma vez que se encontra estático sobre um carrinho ou carriola. Seu movimentador vem agora exposto e não oculto sobre o chitão. Em uma observação rasa isso ao primeiro olhar aparenta ser uma descaracterização nua e crua. Conforme o viés analisado, pode de fato receber essa interpretação. Mas há circunstâncias específicas, talvez, a segurança dos alunos fosse mais comprometida ante o Boi em livre movimentação, nas suas correrias e pegas. Por outro lado, é preciso rememorar que em Goiana, Pernambuco, os desfiles da Aruenda, desde datas remotas, traziam a figura alegórica rígida de um animal sobre um carrinho (no caso um leão com uma coroa à cabeça), ao centro do desfile, embora que o contexto fosse outro (Oliveira, 1949). Também observado em alguns maracatus de outrora, referiu-se Cascudo (s/d, p.553) que “às vezes reaparecem animais de palha ou de madeira, reminiscências totêmicas de tribos, desfilando, como diante do rei do congo, eleito e aclamado na escravidão e no exílio dos engenhos de açúcar.” Os exemplos pernambucanos da Aruenda e do Maracatu, folguedos de matriz africana, apenas visam nesse texto explicitar que o caso tiradentino do boi sobre um carrinho não é o único no universo das manifestações da cultura popular brasileira, porquanto atende ao objetivo figurativo. Tanto mais, o novo formato que reconfigura a dinâmica do boi não aboliu sua figura duradoura, que resiste, seja assim sobre roda ou estampado no estandarte, o que demonstra seu forte simbolismo e ancoragem enquanto referência cultural. Não apenas na experiência escolar em si, na qual o Boi do Culóia renasce dentro do Bloco Reviver, mas também, a nível teatral, como as representações efetivadas no ano de 2014, pela Oficina de Teatro Entre & Vista [4], que prestou sua homenagem ao Boi do Culóia, como se observa na iconografia do presente texto. Ainda outro bloco, o tradicionalíssimo Os Abandonados, em alguns desfiles inclui a figura do boi. A força memorialística do personagem Culóia e de seu boi perseveram em resistência ao tempo, como um verdadeiro legado.

Existe sempre a possibilidade, tanto que o boi em Tiradentes prossiga nessa nova configuração, quanto, outrossim, que dentre os jovens estudantes surja uma liderança que resgate o boi como era, ou pelo menos, mais aproximado aos esforços de Sô Bento e do Culóia. O tempo dirá. 









Atividade cultural da Oficina de Teatro Entre & Vista de homenagem ao Culóia e seu boi em 2014, em Tiradentes. 
Autor: David Inácio Nascimento. 




Cena do Bloco 'Os Abandonados', em Tiradentes [5], data não identificada, incluindo uma alegoria de boi, com estética que rememora não os bois regionais, mas sim os bois maranhenses. Autor: Luiz Antônio da Cruz. 




Cenas do Bloco Reviver, mantendo a tradição dos bois no carnaval de Tiradentes. Alegoria do boi parcialmente mantida em característica típica: caveira de boi, ornamento de flores e fitas, cobertura de tecido de chita. Corpo alterado para caixa em vez de balaio. Ainda com a presença do “miolo” humano movimentando o boi. 
Autor: Luiz Antônio da Cruz. Data: não identificada. 








Aspectos do desfile do Bloco Reviver a partir de seu ponto de organização e concentração, na Escola Estadual Basílio da Gama, em Tiradentes, a 13/02/2026, observando-se: banda de metais que faz acompanhamento; a persistência temática da figura do boi em um dos estandartes; a alegoria do boi, convertida em peça montada sobre uma carriola, arrastada pelas ruas; ampla participação de jovens estudantes. Autor: Ulisses Passarelli. 

Referências 


ALVARENGA, Luís de Melo. São João del-Rei e seu Fundador. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.4, 1986.105 p. p.7-13. 

CRUZ, Luiz Antônio da (Org); BOAVENTURA, Maria José (Org.); GOMES, Márcia Heliane (Pesq.); CRUZ, Suelen Lopes da (Pesq.). Memória Tropeira. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2014. 70p. il. 

CRUZ, Luiz Antônio da (Org); BOAVENTURA, Maria José (Org.); GOMES, Márcia Heliane (Pesq.); CRUZ, Suelen Lopes da (Pesq.). Memória e Tradições Populares. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2016. 112p. il. 

HENRIQUES, José Cláudio. Bairro de Matosinhos: berço da cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2003. 

IBGE. Tiradentes. Portal Cidades. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/tiradentes/panorama  Acesso em 11 set. 2026. 

NASCIMENTO, David Inácio. A loucura na vila: reflexões sobre a loucura em Tiradentes. Interthesis, v.14, n.1, jan.abr. 2017, Florianópolis. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2017v14n1p79 Acesso em 07 set. 2026. 

NASCIMENTO, David Inácio. Turismo, identidade cultural e pertencimento: os riscos de depredação de cidades históricas. I Seminário de Segurança e Turismo – 13ª RPM. São João del-Rei, Polícia Militar, 16 ag. 2023. 

NEVES, Rodrigo. História e turismo: a “mercadorização” do “patrimônio histórico” e a elitização da área central de Tiradentes, Minas Gerais (1980 -2012). 2013. 134 f. il. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de São João del-Rei. Departamento de Ciências Sociais, Política e Jurídicas. 

OLIVEIRA, Waldemar de. Outro bailado típico de Goiana: a Aruenda. Contraponto. Recife. n.11. Dez.1949. 

PAIVA, Rogério. Por onde anda o Caboclo d’Água. Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 29 nov. 2012. Disponível em: https://ihgt.blogspot.com/2012/11/por-onde-anda-o-caboclo-dagua.html Acesso em 07 set. 2026. 

PASSARELLI, Ulisses. Caminhos do Folclore: Estrada Real - caminho de tropas, boiadas e folclore. Tradições Populares das Vertentes, 26 jun. 2013. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2013/06/estrada-real-caminho-de-tropas-boiadas.html Acesso em 20 set. 2026. 

PASSARELLI, UIisses. O folguedo do boi no Campo das Vertentes. In: ABRÃO, Felipe Calil (Org.). Boiada Reunida. Goiânia: Ed. Alta Performance, 2023. 204p. p.71-84.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Ed. Manole, 2000. 188p. 

VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a vila de São José em tempos coloniais. 3.ed. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2013. 108p. 

WIKIPÉDIA. Tiradentes. 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes_(Minas_Gerais) Acesso em 16 ag. 2026. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli, 16/08/2026-20/09/2026. 
- Fotografias: conforme legenda. 

Notas 


[1] Três anos mais tarde, em 1705, quando se estabeleceu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, aproximadamente na área que hoje corresponde a uma parte do Centro Histórico de São João del-Rei, o Arraial de Santo Antônio, por ser anterior, passou a ser cognominado “Arraial Velho”. (Alvarenga, 1986). 

[2] Por força do Decreto Estadual n° 3, de 06 de dezembro de 1889 (Wikipédia, 2026).

[3] Facebook, Luiz Cruz, postagem de 26/02/2025. Disponível em: https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=10222474606888486&id=1669036113&rdid=Ao1Rmkuvp1TLqyJ4#  Acesso em 09 set. 2026.

[5] O mesmo bloco, contudo, no ano 2000, segundo fotografia publicada em livro, já abrigava um boi em formato tradicional da região (Pellegrini Filho, 2000 - Prancha 28E).  

- Agradecimentos especiais aos tiradentinos colaboradores dessa postagem, que gentilmente cederam imagens e/ou informações preciosas: César Reis, David Inácio Nascimento, Luiz Antônio da Cruz e Olinto Rodrigues dos Santos Filho.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Bloco do Boi, Conceição da Barra de Minas

 

O município de Conceição da Barra de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva, na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.

Entre as tradições populares merece especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local (catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período quaresmal, a encomendação das almas [1] e na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância, culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2] mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural muito arraigada.

O carnaval concepcionense segue as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes. Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.

A descrição que se segue é baseada na observação in loco, da saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.

Em essência é um rancho de boi, bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido), com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas cores.

A charanga é formada por músicos locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.

Pessoas diversas, fantasiadas ou não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.

Em Conceição da Barra de Minas não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que propriamente atacando.

Em diálogo com o funcionário da Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e havia a figura de um Toureiro.





Referências

IBGE. Portal Cidades: Conceição da Barra de Minas. 2026. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/conceicao-da-barra-de-minas/panorama  Acesso em 22 fev. 2026.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. il.  

Créditos

- Texto, fotografias e vídeo: Ulisses Passarelli.  

Notas

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Como vai nossa primeira devoção?

 

O dominador europeu após singrar os mares e aportar nesta Terra de Santa Cruz, ávido por riquezas a explorar, valeu-se de inúmeros subterfúgios para colocar sob seu comando os povos originários e os africanos trazidos para o regime da escravidão. Aliada ao poder governamental, a religião foi um atalho para este processo e a cruz a trilha inicial.

 

Sendo símbolo maior do cristianismo, foi diante dela que se celebrou em solo baiano, a primeira missa deste país, celebrada por Frei Henrique Soares (de Coimbra), em 26/04/1500, em Porto Seguro. Os catequizadores usaram a cruz para doutrinarem os indígenas, como adotaram o rosário para com os africanos, dentre outros símbolos e objetos sagrados.

 

O invasor usou o canto e a dança no processo de catequese, ambos tão queridos das três etnias mais numerosas de nossa formação humana. Surgiram danças e folguedos religiosos cumprindo esta função. Atualmente, a Roda de São Benedito, a Dança de São Gonçalo, as Folias e muitos Congados (no sentido mais genérico) são exemplos e heranças deste sistema, com modelos também noutros países da América Latina, destacando-se a Dança de Santa Cruz nas terras paulistas, estudadas por ARAÚJO (1964) e PELLEGRINI FILHO (1985).

 

Três de maio foi estabelecido como o Dia da Santa Cruz, dito Invenção da Santa Cruz, relembrando a descoberta da cruz na qual Cristo foi pregado, feita por Santa Helena, no século IV. Também a 14 de setembro é festejada _ Exaltação da Santa Cruz _ data, contudo, mais eclesiástica que popular.

 

Esta festa rareou. Uns dizem que o fato se deve à mudança da data oficial, de maio para setembro, quebrando a tradicionalidade, pois os devotos se habituaram à festa no outono. Esta mudança decerto prejudicou o festejo, que, porém, não deve ser culpada isoladamente, haja vista as mudanças sociais vigorosas, incluindo o forte êxodo rural, por ser festa, sobretudo, dos meios não urbanos, ligada ao calendário agrícola. Vale frisar que não é festa exclusivamente rurícola, pois ocorre também nas cidades. Mas é nas roças que atinge maior expressão e originalidade, coincidindo, mormente, com a zona de cultura caipira.

 

Em São João del-Rei foram especialmente afamadas  de Santa Cruz no Senhor dos Montes, durante muitos anos, informou CINTRA (1982). Também na ladeira do Pau d’Angá [1]no centro da cidade, diante do grande cruzeiro fincado na colina pedregosa, animados festejos durante anos saudaram a cruz, juntando devotos a rezar o terço e a cantar benditos. Atualmente esta rua é chamada Carvalho Resende, velhíssimo caminho, desde o século XVIII para a mina de ouro do Barro Vermelho, hoje conhecida por Cel. Tamarindo. CINTRA (1988) cita verso de 1892 dando ar misterioso ao lugar:

 

“Jesus, que casa assombrada!

Coitado de quem for lá...

Junto à subida chamada

- Ladeira do Pau d’Angá!”

 

Na festa de 1918, segundo a mesma fonte, o Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho, após pregação, dirigiu a cerimônia de adoração à cruz. Num ambiente enfeitado e iluminado, com uma corporação musical tocando num coreto. Bem próximo, na esquina com Rua Padre Faustino, o Cruzeiro Velho ainda é cuidadosamente adornado, em especial no tempo da Santa Cruz. Ambos são visitados pela Encomendação das Almas pela quaresma.

 

No Bairro São Dimas, o popular Lava-pés, diz-se que o cruzeiro que ladeia a Capela do Rosário (bem mais recente que ela), foi fincado para espantar dois sacis-pererê que atentavam o lugar, assoviando de uma parte e respondendo de outra. Após colocar-se o símbolo sagrado o assombro cessou. Faziam rezas de Santa Cruz por lá.

 

Nas Águas Férreas, Bairro Tijuco, festejou-se o santo madeiro próximo à ponte, num cruzeiro que ali havia. Embora retirado deste lugar, os encomendadores de almas, como herança tradicional, ainda param ali para rogar rezas em sufrágio daqueles que Deus já chamou.

 

Na Festa de Santa Cruz usava-se pendurar numa trave diversas sinetas. As crianças brincavam batendo nelas com varas. Seu som metálico _ contam _ anunciava à vizinhança a reza noturna, após a qual se confraternizavam. O som de campainhas e sinetas é ritual, marcando momentos importantes da cerimônia e afastando maus espíritos. Uso universal.

 

Cantavam o tradicional Bendito da Santa Cruz, do qual segue um fragmento:


“Bendito, louvado seja,

Nos céus a divina luz,

E nós também cá na terra

Louvemos a Santa Cruz!

 

Jesus, quando morreu,

Deixou o mundo sem luz,

Para remir os pecadores

Que morreu na Santa Cruz.”

 

Em meados da década de 1990 uma moradora promoveu a reza de Santa Cruz publicamente nas Águas Férreas, por promessa, diante de uma grande cruz portátil, enfeitada de papel picotado. Distribuiu cruzinhas adornadas aos moradores mais vizinhos.

 

Noutro ponto do Bairro Tijuco, no também já inexistente Cruzeiro do Betume, SOUZA [s.d.] descreveu uma lenda da mula-sem-cabeça. O monumento ficou registrado na mesma obra, em desenho de Armando Pacheco.

 

Na Gruta do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário (confluência da Rua Antônio Rocha com a Rua Antônio Josino Andrade Reis), no Centro, no ano 2000, onde também existe um cruzeiro, foi rezado um terço em honra à Santa Cruz no dia 03 de maio, com participação da comunidade local.


Algumas partes da zona urbana ainda fazem rezas simples à Santa Cruz a 03 de maio ou em dias próximos a este, sem pompa ou aparato, com um público modesto, porém fiel. Enfeitam ainda o Cruzeiro do Morro da Forca (no Bairro do Bonfim), o do Senhor dos Montes e o do Pau d’Angá.

 

Na área rural ressalva-se as rezas e cantos no arraial do Fé, município de São João del-Rei, junto ao Cruzeiro das Missões, no alto de um campo:


“Bendito és, louvado seja,

Nos céus a divina luz

Por nós também cá na Terra

Louvemos a Santa Cruz.

 

Naquele Monte Tabor

O verde brilhava à luz;

Depois do raio saiu

O enfeito da Santa Cruz.

 

Então o Filho de Deus,

Por ver o mundo sem luz

Nos deixou a sua graça

No santo lenho da cruz.

 

Ela é todo o nosso bem

Sua glória nos conduz

Quando for o penhor da Terra

Louvemos a Santa Cruz.

 

Essa pia redenção

Amparo, meu Bom Jesus,

Para remir os pecadores

Que morreu na Santa Cruz.

 

Bendito és, louvado seja,

Para sempre a Santa Cruz!

Bendita seja sem fim,

Para sempre, amém, Jesus!”

 

Notar a riqueza de fundamentos bíblicos e figurações religiosas neste bendito. Acendem velas junto do Cruzeiro das Missões e o enfeitam com flores. Rezam o terço e pedem perdão pelos pecados [2]

 

“Perdão, meu Jesus,

Perdão, Deus de Amor.

Perdão, Deus Clemente

Perdoai-me, Senhor!

 

Perdão, Deus Clemente,

Perdoai-me, Senhor!

Eis-me aos vossos pés,

Grande pecador...

 

Por meus enormes crimes,

Perdoai-me, Senhor!”

 

Sendo a reza para pedir chuva _ fato de ampla difusão no país _ molham o cruzeiro com água no madeiro e carregam pedras pesadas por penitência, postas junto à cruz:

 

“Senhor Deus, misericórdia!

Misericórdia, Senhor!

Nos dê chuva que nos molha;

Nos dê o pão que nos consola!

Nós somos pecadores

Morremos na fome ...” [3]

 

Destaca-se também neste município a devoção a Santa Cruz no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, tanto na vila que leva este nome quanto nos povoados do Largo da Cruz e Trabanda. Enfeitam o cruzeiro com flores, bambus, ramos, fitas, bandeirolas ao redor e do seu topo ao chão, papel picotado, corrente de papel. Após a parte religiosa pode haver pequena e simples festa de Largo com música regada a comes-e-bebes.


De modo especial, no Largo da Cruz, o mês de maio inteiro, todas as noites a comunidade se reúne para rezar no cruzeiro adornado, único monumento religioso local. Era um cruzeiro de madeira, enfeitado a cada 03 de maio. Mais tarde, por seu mau estado de conservação foi substituído por um de alvenaria, enfeitado a 1º de maio. Cantam o tradicional Bendito de Santa Cruz.

 

Em dois outros distritos deste município ainda mantém rezas e enfeites nos cruzeiros: São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu) e São Sebastião da Vitória. Vale por fim relatar uma prática muito expressiva usada neste dia. É a troca dos enfeites das cruzes de fachada, que o ano inteiro marcam e abençoam a frente (entrada) das casas, fixadas geralmente ao portal ou sobre ele e à sua lateral ou, ainda, ao caixilho da janela.

 

Tem em torno de 30 cm de comprimento, feitas em madeira. É de praxe enfeitá-las com papel-crepon picotado em alças ou repiques simples, podendo ter flores complementando, naturais ou artificiais, de papel ou plástico. Outros complementos são fitas de papel, pendentes dos extremos.

 

Muito usadas na zona rural, diz-se que outrora não havia casa da roça que não a ostentasse na humilde fachada. Se a frequência já não é mais a mesma, contudo, ainda não se pode taxá-las de raras e quem passar pelas estradas vicinais, pouco depois do terceiro dia de maio as verá com enfeites novos. São encontradas também na área urbana, sobretudo nos subúrbios, mas em proporção consideravelmente menor. Além de São João del-Rei vários municípios vizinhos mantém este costume.

 

É corrente a lenda que narra que, na noite de Santa Cruz, Nossa Senhora em espírito passa pelas ruas vendo quais as casas enfeitaram de novo a cruz de seu bento Filho. Ali ela derrama a sua benção e proteção. Onde não adornaram e ainda mais, naquelas que tem a cruzinha na fachada, Ela passa direto, sem voltar a sua bondade para aquele lar.

 

Tal lenda é um incentivo piedoso à manutenção do costume, possível reinterpretação popular do Livro do Êxodo, cap.12, vers.7 que comenta sobre a instituição da páscoa judaica, quando disse Deus a Moisés e a Aarão que deveria ser ofertado um cordeiro, do qual “tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sobre as duas ombreiras e sobre a verga da porta das casas em que o comerão”.

 

As humildes festas de Santa Cruz, acíclicas, praticamente preparatórias às juninas, estão hoje em São João del-Rei bastantes apagadas, resistindo porém nas áreas rurais mais conservadoras.


Cruzeiro do Atalho, Distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG). Data: 03/05/2019. 

Alvorada diante do cruzeiro. Festa do Rosário na Gruta do Divino. 
São João del-Rei, Centro. Data: outubro/1999. 

Cruz de Fachada, afixada em uma porta de entrada de residência. 
Caieira, São João del-Rei. Data: 03/05/2011. 


Referências

 

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.


CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. v.1, 326p., p.91-2.


CINTRA, Sebastião de Oliveira. Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei. Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1998. 24p.


PELLEGRINI FILHO, Américo. Folclore Paulista: calendário e documentário. 2.ed. São Paulo: Cortez/Sec. Cultura, 1985. 240p.


SOUZA, Lincoln de. Contam que... lendas da histórica e tradicional cidade mineira de São João del-Rei. São João del-Rei: A Colegial, [s.d.]. 87p.il. p.31-3.

 

Créditos

 

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

 

Notas

 

- Publicação original adaptada para esta postagem extraída de:

PASSARELLI, Ulisses. Como vai nossa primeira devoção? Tradição. Informativo da Subcomissão Vertentes de Folclore. São João del-Rei, n.8, maio/2000.


- Obs.: as fotografias desta postagem não faziam parte da publicação original.


- Agradecimentos especiais aos principais informantes: Antônio Geraldo dos Reis (Águas Férreas), Mario Calçavara e Catarina Calçavara (Fé), Luís Santana (São Dimas), Delfina Ribeiro (Largo da Cruz), Elvira Andrade de Salles (Santa Cruz de Minas), Júlia Maria de Lacerda e Geraldo Elói de Lacerda (Águas Férreas). 

 

- Revisão: 30/09/2025. 



[1] - Ingazeira (Inga edulis), ingá, angá. Árvore mimosácea de valor medicinal cuja casca em decocção é utilizada como curativo de feridas antigas e para diarreias em clisteres. Fonte: BALBACH, Alfons. A flora nacional na medicina doméstica. São Paulo: Edificação do Lar, [s.d.]. p.909.

[2] Canto muito divulgado com diversas variações de texto e música, na mesma linhagem. 

[3] Canto também divulgado. Uma variante de Santa Cruz de Minas/MG diz no último verso: “não nos deixa morrer na fome!”