Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 17 de março de 2015

O glorioso São Benedito

O patrono dos congadeiros

Benedito é um santo católico, muito querido e popular, festejado a 04 de abril, data de sua morte, no ano de 1589. Já recebeu as honrarias da canonização popular (sobretudo dos escravizados) antes mesmo da oficial da Igreja, que se deu em 1807. Há controvérsias sobre sua história. Narram alguns que era mouro, capturado como escravo no norte africano e trazido para a servidão no sul da Itália. Outros, porém, o consideram natural da Ilha da Sicília, cidade de Palermo, filho de pais escravos, naturais da Etiópia, na África. Nasceu em 31 de março de 1524, mas existem divergências que apontam para o ano 1526. 

Ingressou muito jovem na vida religiosa, em mosteiro franciscano, fazendo votos de castidade, pobreza e obediência. Extremamente humilde e bondoso, profetizava e era muito procurado como conselheiro. Levava alimento do convento aos pobres escondido dos superiores nas dobras de seu manto de capuchinho. Certa vez, saindo com os alimentos, foi abordado de surpresa pelo superior do convento que lhe indagando o que levava, respondeu serem flores, rosas. Abrindo o manto de fato apareceram flores, milagrosa transmutação que livrou o Irmão Benedito de castigos. 

Foi célebre cozinheiro do convento, mestre de noviços, superior e depois de novo cozinheiro, sendo considerado patrono da classe e protetor das cozinhas domésticas. É comum ver sua imagem nas cozinhas. Em São João del-Rei às vezes aparece com oferendas, tais como vasilhas postas na frente da imagem com um punhado de grãos de cereais ou um copo com um tanto de café. A crença diz que estes agrados garantem a fartura doméstica. O santo multiplica o alimento, tornando-o farto, bem cozido, bem temperado e saboroso. 

O nome Benedito evoca o sentido de bendito, abençoado. O pesquisador Antônio Gaio Sobrinho esclareceu:

"Seus pais eram escravos negros e haviam feito voto de não gerarem filho, enquanto não obtivessem de seu senhor a promessa de libertá-lo no dia do nascimento. Obtida essa, ao nascer-lhes o filho, exclamaram: 'Benedetto!', palavra que, em italiano, significa felizardo. E assim o menino se chamou Benedito. Benedito de São Filadelfo." (SOBRINHO, 1997). 

Seria a expressão que seus pais usaram para glorificar a Deus no ato do nascimento de seu filho, que ganhou a liberdade ao nascer. O nome Benedito nos terreiros de umbanda é conhecidíssimo não só pelo santo em si que é muito querido e venerado, mas também por nominar diversas entidades espirituais da linha africana; pretos-velhos: Pai Benedito Sanfoneiro, Pai Benedito da Cruz Vermelha, ... do Engenho, de Angola, das Almas, da Calunga, do Cruzeiro, da Guiné. 

Entre os dançadores de jongo e caxambu no Sudeste do país é grande a devoção a este santo. As bandas de congos do Espírito Santo, bem como os ticumbis nutrem por ele uma devoção de dimensão agigantada. Em São Paulo e no sul mineiro goza também de grande prestígio, sobretudo entre as congadas [1]. Aliás, por toda parte, pode-se generalizar, São Benedito é protetor dos congadeiros. É co-festejado com a Senhora do Rosário e é patrono de muitas guardas de congado. Daí ser comum sua figuração em bandeiras, estandartes, quadros de mastros, no nome dos grupos e nas cantigas: 

"Meu São Benedito,
já foi cozinheiro,
Meu São Benedito,
que abençoa seus tempero..."
(Agradecimento de almoço às cozinheiras da Festa do Rosário, 
Coronel Xavier Chaves e São João del-Rei)

Em São João del-Rei, Mestre Luís Santana, memorável capitão de congado, sempre erguia seu mastro nas Festas do Rosário, ladeando o de Nossa Senhora. Dentre seus cantos, não esquecia então deste dístico, curto, mas expressivo:

"Benedito santo,
Benedito é nosso rei!"  BIS

Outro canto dessa guarda, e aliás, difundido por muitas outras da região, reiteradamente cantado todos os anos nos festejos de congadeiros, diz de forma enfática: 

"Benedito santo,
filho de Nossa Senhora, 
ei, Capitão Benedito, 
essa é nossa hora!"

Tem a seguinte variante, no mesmo sentido:

"Benedito santo,
filho da Virgem Maria,
ei, Capitão Benedito,
hoje é nosso dia!"

A expressão "Capitão Benedito", Luís Santana explicava com muita naturalidade, dizendo que São Benedito é o mais verdadeiro de todos os capitães de congado, ou que é o capitão de todas as guardas. Capitão de carne e osso, dizia, era só por imitação do santo. 

Na zona rural de São João del-Rei existe uma capela a ele consagrada no povoado da Vendinha. Em Laje (Madre de Deus de Minas) também existe uma. Tem animada festividade na Igreja do Senhor do Bonfim, em São João del-Rei, não raro com a presença de congado na procissão, convidado de algum outro bairro. Merece destaque especial a festa centenária consagrada a este santo em Aparecida/SP, que reúne todos os anos uma imensa quantidade de congados do interior paulista e de Minas Gerais (oeste, sul, centro, centro-sul, etc).

Congado 'São Benedito', um catupé de Resende Costa/MG, chegando na Festa do Divino
no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, 11/06/2011.

Moçambique 'São Benedito'.
Ribeirão Vermelho/MG, 30/06/2013. 

Referências 

Benedito, o Mouro. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Benedito,_o_Mouro (acesso em 16/03/2015, 18h e 10min)

GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p. p.37-8.

Retirada dos caiapós acontece neste sábado. Prefeitura Municipal de Poços de Caldas: http://www.pocosdecaldas.mg.gov.br/site/?p=8490 (acesso em 17/03/2015, 06h e 55 min)

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli. 

Notas


[1] Em Ouro Fino/MG, sul de Minas Gerais, por exemplo, em sua igreja, as animadas festividades contavam com apresentações de congada, caiapó e bumba-meu-boi (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1964. v.11. p.47-51). Em Poços de Caldas a congada e o caiapó se encontram na festa desse santo num interessante entrecho dramático, que representa a saída do mato, quando os congos vão para a retirada dos caiapós escondidos na vegetação, para juntos festejarem São Benedito.

- Revisão: 01/09/2025. 

domingo, 15 de março de 2015

Encruzilhada: o cruzamento da sorte

“Encruza”. Cruzamento de duas vias. Ponto onde duas ruas, estradas, caminhos ou trilhas se encontram esboçando uma cruz. No sul mineiro o entrocamento de variante do Caminho Geral do Sertão (leia-se atualmente “Estrada Real”) valeu o nome ao município de Cruzília. No Nordeste, pelo interior do Rio Grande do Norte, a nomenclatura é outra: "Quatro Bocas" é uma  povoação recôndita no município de Pedro Velho, indicando a entrada de quatro caminhos, a "boca" de uma estrada. 

Cascudo (s/d), cita que na Roma antiga já corria a crença de que esse é um lugar de espectros. Na Bíblia Sagrada, o Livro de Ezequiel, contém citações aos cruzamentos de caminhos – 16: 31 ("Edificando tu a tua abóbada ao canto de cada caminho, e fazendo o teu lugar alto em cada rua!") e 21: 21 ("porque o rei de Babilônia parará na encruzilhada, no cimo dos dois caminhos, para fazer adivinhações"). 

Na visão popular calcada em antiquíssimas tradições, a encruzilhada é o lugar típico da aparição das assombrações em todo o tempo, mormente na quaresma. É a morada ideal dos seres do imaginário, dos monstros mitológicos aparecerem, dos espíritos malfazejos praticarem seus atos perversos. É o lugar da decisão: para onde seguir? ... Pode levar a um lugar certo (do bem) ou errado (do pecado); rumo da sorte ou do azar. 

Indefinição e incerteza - é o que a encruzilhada proporciona. Quando alguém se vê numa circunstância da vida que tem que tomar uma decisão, que exclui totalmente outra, usamos dizer: "está numa encruzilhada..." ou ao fato da decisão em si dizemos de forma figurada que pertence "às encruzilhadas da vida..."

Como tal exige protocolo. Encruza se atravessa o mais rápido possível e se vai em frente. Parar sobre elas é só o mínimo de tempo possível. Não é lugar adequado para conversar, bater-papo, contar segredos, expectativas ou planos, o que poderá botá-los à perdição. Se a pessoa vem rezando pela rua, ao atravessar um cruzamento deve ao menos em pensamento pedir licença: "_ dá licença!", e assim não sofrerá perturbações. 

Referenciada também num canto de congado: 

"Quando eu vim da Bahia, 
a estrada eu não via... BIS 
cada encruza qu’eu passava, 
uma vela eu acendia!” BIS 
(Catupé, Santa Cruz de Minas, Cap. Luís Pereira dos Santos, 2005). 

É comum os congadeiros aos passarem em formação pelas encruzilhadas, sob o comando do capitão, fazerem uma coreografia na entrada da mesma, chamada "meia-lua", que consiste num movimento semicircular da fila de dançantes da direita passar para a esquerda e a da esquerda passar para a direita. O comando em geral se faz com o cruzamento do braço do capitão, com as palmas das mãos voltadas para cima, tocando-se a nível dos pulsos. O descruzamento será na repetição do movimento coreográfico após a encruzilhada ou na próxima. Uma segunda coreografia, um pouco mais complexa, inclui quatro meias luas, uma em cada boca da encruzilhada. Seja como for, é uma medida preventiva, pois acreditam que seu descuido poderá prejudicar o congado, tal como desafiná-lo, provocar desentendimentos, mal estar físico nalgum congadeiro mais despreparado. 

Em parte da concepção religiosa afro-brasileira, Ogum é o senhor dos caminhos e regente maior do centro da encruzilhada, enquanto seus cantos pertencem a Exu. Daí pedir-se licença a ambos e destinar as entregas (despachos e oferendas) no lugar certo conforme o destino, sob pena de não obter o resultado desejado. Encruzilhada também é área de domínio das entidades de linha esquerda, exus e pombogiras. Neste sentido e com mais detalhes distingue-se a “encruza fechada”: em forma de letra T, domínio das pombogiras, lugar de trabalho de amarração; "encruza em Y": domínio principalmente dos cangaceiros. As atividades religiosas feitas nas encruzilhadas de terra (vias não pavimentadas) são as consideradas mais eficazes, pois guardam a energia da entidade com mais vigor e pureza. Por outro lado, aquelas pavimentadas, as do meio urbano, e também as "encruzas complexas" (entroncamento de várias vias), são de domínio espiritual variado, atribuído a muitas categorias de entidades da linha esquerda. Tais vias são consideradas perigosas, posto que inclusive e principalmente os espíritos sem luz (trevosos), muito atrasados são seus frequentadores. 

Encruzilhada tem dono. É a passagem temerosa, é a travessia do medo, da incerteza, da instabilidade momentânea. É a morada da assombração, do maligno. Esta é a concepção que impregnou a alma da cultura popular. 


Uma encruzilhada em Y. 

Referências Bibliográficas


CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

BÍBLIA SAGRADA. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Revisão: 17/06/2026. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Estrelas: o brilho da tradição

Desde sempre a humanidade construiu um complexo sistema de crenças, mitos e ritos, ligados ou influenciados pelas observações do tempo e dos elementos da natureza. A astronomia, a astrologia e a meteorologia impressionaram o homem da remota antiguidade aos tempos hodiernos, nas mais diferentes culturas e etnias.

Essa cosmogonia ao passar informalmente de geração em geração, nas mesclas culturais fomentadas pelas correntes migratórias, chegou aos dias atuais e impregnou a cultura popular. O folclore dos astros é vastíssimo e universal.

Ora tangenciando a religião ora enveredando pelo mundo da superstição, o entendimento das estrelas e sua nomenclatura vem desde a antiguidade clássica a respeito das constelações, dos signos do zodíaco, a orientação celeste das rotas de navegação marítima. Os gregos de forma especial legaram uma vasta influência através de sua rica mitologia, transposta ao plano estelar.

A influência na poesia popular é uma constante, surgindo muitas estrofes que citam as estrelas.

Existe a restrição muito divulgada de não apontar para a estrela, sob pena de nascer uma verruga na ponta do dedo.

Céu estrelado é indicativo de bom tempo, tempo firme, ausência de chuva, segundo previsão da meteorologia popular.

De maneira mais pragmática, os tópicos abaixo passam em breve revista algumas tradições sobre as estrelas.

Santos Reis rodeado de estrelas numa pintura popular
da bandeira da Folia de Reis "Embaixada da Pedra Negra".
Ijaci/MG, jan./2010.


Estrela Cadente - Nome popular do meteorito. O mesmo que estrela-de-rabo, devido ao rastro luminoso que deixa ao riscar o céu velozmente. Ver uma estrela cadente é sinal de boa sorte. Neste átimo de luz efêmera deve-se fazer um pedido para ser atendido, com grande chance de bons resultados, contanto que não se conte a ninguém. O povo crê, tanto aqui quanto no Nordeste, que é uma estrela comum que muda de lugar no céu. Esta quadra, cantada no reis de boi (modalidade de reisado) potiguar registra a crença:

"A estrela no céu corre,
eu também quero correr;
ela corre atrás da lua,
eu atrás de um bem querer!"
(São Gonçalo do Amarante/RN, 1997)

Luís da Câmara Cascudo registrou em seu Dicionário do Folclore Brasileiro as superstições ligadas à estrela-cadente, vestígios de cultos astrolátricos que recebemos da Europa, via Portugal.

Estrela d’Alva - Nome popular do planeta Vênus, visto a leste, ao alvorecer. Estrela matutina. Inspira a poesia popular, sendo citadíssima nos versos folclóricos:

"Estrela d'Alva alumiou,
coroa do rei, relampiou!"
(Congo, São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 2014)

Sua aparição vespertina ("Estrela Vésper), a mais nítida "estrela" do cair da noite, muitas vezes a primeira visível, ganha o nome de "Papa-ceia":

"Te arretira, Papa-ceia,
que a d'Alva quer brilhar..."
(Enunciado popular, Santa Cruz de Minas, 1995, [1])

Estrela-de-Davi - Estrela mística, de seis pontas. Hexalfa. Símbolo de sabedoria. É um importante símbolo judaico. Na Umbanda é um dos símbolos da Linha do Oriente, chefiada pelo Orixá Xangô. Nas tradições populares funciona como forte elemento protetor contra malefícios espirituais, seja riscada, seja feita de penduricalho, um amuleto que se carregada ao pescoço. Confundida com a estrela de Salomão com grande frequência.

Estrela-da-Guia - A estrela que guiou os Reis Magos, do oriente a Belém. Estrela do Oriente. Cantada e recantada nos versos reiseiros no Brasil e fora dele. Folias, reisados, pastoris, etc. Sua representação simbólica em desenho é uma divisa, um distintivo e também um amuleto. Estrela de cauda, desenhada com um facho luminoso anexo, representação simbólica de sua trajetória celeste.

"Estrela do céu,
Estrela do Oriente,
guia meus passos
daqui para frente!"

"Estrela da Guia,
estrela de meu pai,
guia meus passos
nos caminhos onde vai!"
(Ensalmos, São João del-Rei, 2009, [2])

Estrela-do-Norte - 1 - Nome popular da Estrela Polar, que é “a última das estrelas que formam a cauda da constelação Ursa Menor. No decorrer das épocas e em consequência da precessão dos equinócios, qualquer estrela com uma latitude próxima de + 66º 33’ terá sido, em prazo mais ou menos longo, uma estrela polar.”, informa C. Aulete. Motiva versos:

“Ô lua nova!
Ô Estrela do Norte!
Vou pedir Nossa Senhora
pra te dar uma boa sorte!”
(Canto de agradecimento, Congo, Rio das Mortes [SJDR], 1998)

“Fui no céu contar estrela
só a do Norte separei;
é por ser o mais bonito
só contigo casarei...”
(Trova, zona rural de Bias Fortes, 1997, [3])

É um ponto de referência celeste, um guia e condutor de viajantes, "o norte", buscar o norte, se diz habitualmente; nortear.

O designativo "estrela do norte" caiu no gosto popular e veio a designar no nordeste do país um personagem humano feminino de certos grupos de pastoris (modalidade de pastorinhas). Também serve de nome a várias plantas rubiáceas: Randia aculeata, R. mitis, R. formosa, Gardenia brasiliensis; também da amarilidácea Eucharis grandiflora, segundo C. Aulete, dentre outras plantas.

Flor da estrela do norte em São João del-Rei, 2009. 
Tithonia diversifolia, asteraceae. 

Estrela-de-Salomão - Signo de Salomão, "Sino Samão". Estrela mística, de cinco pontas. Pentalfa. Símbolo de força espiritual. Reúne os mistérios sagrados. Seu desenho aparece com enorme frequência nas bandeiras, instrumentos e uniformes dos grupos folclóricos, emblemática, em função estética e de amuleto ao mesmo tempo. Figura em inúmeros pontos riscados da Umbanda, como elemento central ou satélite, conjugado a flechas, sóis, luas... invocando diversas entidades. Esta estrela desenhada, rodeada por uma circunferência que interliga suas pontas, encimada por uma pequena cruz, representa o Ponto das Almas, que se riscado, seria capaz de invocar a força protetiva das almas.

Estrela de Salomão pintada no couro de um tambor
de congado. Catupé, Santana do Jacaré/MG. 18/10/2015.
 

Setestrelo - nome popular das Plêiades, aglomerado estelar de brilho azulado na constelação de Touro. Sete Estrelas, Sete Estrelos. Influenciou largamente a mitologia de vários povos, inclusive nossos indígenas. É citado na Bíblia Sagrada nos Livros de Jó e Amós e inspira profecias e crenças. Aparentemente foi representado em alguns painéis de pinturas rupestres. 

Cruzeiro do Sul - constelação cujas principais estrelas se dispõe em forma de cruz latina, marcando nitidamente o polo sul celestial, referência importante para os viajantes e navegadores. Para o povo é uma prova concreta do poder de Deus, que marcou de forma perene no céu o símbolo da redenção cristã. Os pastoris nordestinos lembram-se dessa constelação ao saudar as dançantes do cordão azul (em oposição ao cordão encarnado, que é a outra fileira de pastoras, de vestidos vermelhos):

"Estrela do Norte,
Cruzeiro do Sul,
vamos dar um viva
ao cordão azul!"
(Apodi/RN, 1994)

Três Marias - as três estrelas alinhadas ao centro da constelação de Órion, referenciando personagens da Paixão de Cristo. Um canto de terreiro, da Linha das Crianças (erês) assim se expressa:

"Lá no céu tem três estrelas,
todas três em carreirinha,
uma é Cosme e Damião,
outra é Mariazinha."
(São João del-Rei, 2014)

Em carreirinha ou encarreirada vale por alinhada, na mesma reta.

Para maiores detalhes ler a postagem TRÊS MARIAS.
Pontos desenhados com base em estrelas, flagrados a partir de pintura em tamborins de congados de São João del-Rei:
à esquerda, o Ponto das Almas; à direita, o Ponto dos Sete Elementos (representados pelos círculos pretos - céu, terra, sol, lua, águas, matas e pedreiras).
 

Enfeite natalino no "Beco da Escadinha", no
Centro Histórico de São João del-Rei - estrela de cinco pontas.
06/01/2016. 


Detalhe da cabeça do "Boi de Ronda", marcada por uma estrela na testa. 
São João del-Rei, Bairro Caieira. Foto: Ariany Fonseca, 26/08/2024. 


Referências Bibliográficas

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Delta, 1978. 5v. 3998p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d].

Créditos

- Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli.
- Desenhos dos pontos: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] Informante: José Cândido de Salles - natural de Antônio Carlos/MG; morador de Santa Cruz de Minas/MG. 
[2] Informante: Maria do Rosário Neves - natural de Formiga/MG; moradora de São João del-Rei/MG
[3] Informante: Elvira Andrade de Salles - natural de Bias Fortes/MG; moradora de Santa Cruz de Minas/MG. 
- Revisão: 19/06/2025 (com acréscimo da fotografia do boi). 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Uma promessa de três pulos

O devocionário popular credita a cada santo uma especificidade de ação, dentro da qual tem mais força para o caso pedido chegar rapidamente a bom termo. Assim, por exemplo, são os patronos de classe dos trabalhadores e também os santos protetores contra este ou aquele malefício, doença, fatalidade ...

Os fiéis até mesmo se apegam a um santo especialista em achar objetos desaparecidos: "São Longuinho". É invocado quando se perde alguma coisa. Para achar, fazem uma promessa curiosa, dizendo: “Meu São Longuinho, me ajuda a achar ... (tal coisa) que eu te dou três pulinhos!” Aí procuram. Achando o perdido, o santo é agradecido e dá-se três pulos para cima, no mesmo lugar, pagando-se a promessa imediatamente [1]. 

Longuinho seria o centurião que furou o lado de Cristo com uma lança, quando Jesus estava crucificado. Uma gota do sangue do Salvador caindo-lhe no rosto curou um problema de visão. É o que reza a tradição. Converteu-se, deixou de ser militar, passou para a condição de monge, eremita na Capadócia e Cesareia. É também referido como o soldado que reconheceu a divindade de Cristo no ato de sua morte, citado nos evangelhos. Como cristão foi denunciado e considerado desertor. Foi então martirizado por decapitação, tendo antes da morte seus dentes arrancados e a língua cortada.Seu nome verdadeiro seria Cássio. Devido ao episódio da lança, ganhou o cognome de origem grega que significaria "uma lança", Longinus em latim, aportuguesado em Longino, em corruptela, Longuinho. 

Suas imagens e pinturas o representam de duas formas: como soldado com a lança ou como monge, de capuz, bolsa a tiracolo e um lanterna em atitude de alguém que busca algo. Efetivamente parece não haver uma explicação convincente para a sua função de busca de objetos, tão pouco para a forma curiosa de pagamento da promessa. 

Luís da Câmara Cascudo esclareceu que Longinus é o nome de cinco mártires conforme consta no Martiriológio Romano. A promessa curiosa seria paga no Nordeste do Brasil com os mesmos três saltos, citando ainda três gritos ou três assovios. Processo semelhante aconteceria com os pedidos a São Vítor e São Dino. 

Em Guararema/SP tem festa própria. 

Resta ainda dizer que em São João del-Rei algumas vezes é chamado de "São Minguinho". 

Referências 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 

GUARAREMA. Festa de São Longuinho começa hoje em Guararema. Prefeitura Municipal. Disponível em:  http://www.guararema.sp.gov.br/237/secretarias/cultura/noticias/noticias/239/festa+de+sao+longuinho+comeca+hoje+em+guararema  Acesso em 06/03/2015. 

MUNDO ESTRANHO. Porque se pede a São Longuinho prometendo três pulinhos? Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/por-que-se-pede-a-sao-longuinho-promentendo-tres-pulinhos  Acesso em 06/03/2015. 

PAULINAS. 15 de março - São Longuinho. Disponível em: http://www.paulinas.org.br/diafeliz/?system=santo&id=768  Acesso em 06/03/2015. 

WIKIPÉDIA. Longino. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Longino  Acesso em 06/03/2015. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli

Notas 

[1] São João del-Rei e região, fato observado desde a década de 1970. Em verdade ocorre em outras partes do país. 
- Revisão: 27/06/2025.  

segunda-feira, 2 de março de 2015

Características dos animais: cores e denominações

O homem do campo na lida com os rebanhos, geração após geração, desenvolveu uma cultura rural típica e específica sobre a atividade pastoril, que perpassa por vários vieses, como as técnicas veterinárias e zootécnicas empíricas, a mitologia em torno dos animais, os detalhes de seus comportamentos, hábitos de alimentação, crescimento, reprodução, etc. Enfim, sobre todos os elementos da sua atividade, o rurícola construiu seu linguajar e modo de entendimento.

Por aí passa o saber identificar se um bezerro é de boa estirpe e dará um bom lucro no futuro; ou se o cavalo tal é bom de marcha; qual boi pode ser treinado para carrear sob o jugo ou se não será bom para a função. 

O homem desenvolveu com o gado uma afetividade tal que lhe permite ao seu modo tratar as criações com carinho, e assim, retireiros, tropeiros, boiadeiros, muladeiros, sitiantes e fazendeiros se entendem com expressões que aos não afeitos ao seu linguajar habitual podem parecer estranhas. 

Dentre os elementos mais interessantes está a terminologia das cores de pelagem de bois, cavalos, ovelhas e das penas das galináceas, bem como a designação de outras características físicas inerentes à cabeça, cauda, etc. Aquelas que porventura as combinações genéticas fixaram num fenótipo mais ou menos padronizado receberam um nome próprio.

Peculiaridades de um animal servem muitas vezes de inspiração para composições do cancioneiro popular ou de trovas folclóricas. A título de exemplo dentre uma vastidão de composições:

"Eu matei meu boi malhado, 
meu boi de estimação;
eu levei p'ro matadouro
na noite de São João." [1]

"Eu sou aquele zebu,
que tem o chifre torcido;
na hora qu'eu dou meu berro,
meu berro é conhecido!" [2]

Longe de esgotar o assunto numa mera listagem, estão abaixo enumerados uma pequena coletânea de termos da pecuária popular difundidos nesta região. Esteja claro que tal lista não se faz completa e que de fato não o pretendeu ser; igualmente, que não tem limites rígidos de definição, sendo que o entendimento da nomenclatura, passa por variações subjetivas e outras mais, ditadas pelo regionalismo. Até mesmo porque certas tonalidades de pelagem ou de plumagem são comparadas por total subjetivismo, sem uma escala física que defina rigidez na classificação. Tanto mais, existem influências regionais, que dão nomes diferentes a um determinado padrão estético do animal. Para este texto só foram consideradas as denominações populares em voga no Campo das Vertentes, sem se ater à nomenclatura formal dos criatórios e da zootecnia [3]. 

* * *

Araçá - cachorro de cor geral ocre ou parda-amarelada, com estriações escuras, finas e sinuosas por todo o corpo. A saturação do colorido é variada conforme o cão. 

Araçá.

Alazão - castanho-avermelhado, incluindo a crina, que é da mesma tonalidade do corpo. 

Arrepiada - galinha que em vez de ter todas as penas rentes ao corpo, as tem eriçadas.

Arrepiada. 

Azulega - normalmente pronunciada como "zulega". Rês de pelagem cinza-ardósia. 

Baio - amarelado, bege, camurça. 

Baio.

Barbuda - raça de galinhas com um tufo de penas na lateral da cabeça, abaixo dos olhos.

Barbuda.

Calçado - animal com mancha branca uniforme na parte baixa das patas, contrastando com a cor escura do corpo. Parece calçado de botas ou meias.

Capão - capado; castrado segundo os procedimentos da veterinária popular. Habitualmente se emprega com referência aos galos. O homem rural tem por hábito reservar um galo para se tornar capão e como tal, removendo seus testículos, considera que muda sua tonalidade de canto, mas principalmente, que passa a se comportar com um zeloso cuidador de filhotes. Assim, o galo-capão é posto a cuidar dos pintos que nascem e dizem que o faz melhor que as galinhas, que podem então iniciar com brevidade uma nova sequência de postura e choco. Por vezes entregam ao galo-capão diversas ninhadas de diferentes galinhas e assim fica como pai adotivo. Também se diz capão aos galos desprovidos de crista.

"Galinha sem rabo é su (ruca); - bis
Galo sem crista é capão!" - bis
(catupé, Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei)

Capoeireira - rês arisca, que ao ser tangida pelos boiadeiros foge de súbito com grande correria, ocultando-se de ordinário nas capoeiras (pequena mata isolada de outras áreas florestais, no meio do campo ou no cerrado).

Caracu - boi vermelho-tijolo. Referência a uma raça bovina.

Carijó - também chamado pedrês, ou seja, semelhante à pedra, é a mescla de preto, branco e tonalidades de cinza.

Carijó.

Carona - pelagem de bovinos de fundo branco e largas manchas marrons. Equivale ao pampa dos equinos. 

Castanho - animal marrom-avermelhado, em diferentes tonalidades.

Catróia - 1- Animal que tem na pelagem uma mancha preta ao redor olhos. Vaca-catróia. 2 - Schistochlamys ruficapillus: ave passeriforme da família thraupidae, encontrada no Campo das Vertentes, de plumagem aveludada nas cores cinza e canela, com uma característica cor preta em volta dos olhos, como uma máscara. O mesmo que catrol, sanhaço-catróia, gaiteiro, fura-laranja, bico-de-veludo e zorro.

Chumbada - galinha de vários tons de pardo, em padrão de salpicado miúdo, vermiculado e escamado na plumagem. 

Cravo - dizem os passarinheiros das fêmeas de canário de características masculinizadas, que tem dificuldades de acasalar, porque sempre brigam com diferentes machos. Por vezes cantam semelhante ao macho e, se aninham, podem abandonar ovos ou filhotes à morte. Fêmea-cravo. No caso do canário da terra, canário-chapinha ou canário cabeça-de-fogo (Sicalis flaveola), ela tem um porte mais avantajado que de outras fêmeas da espécie e a fronte esboça um tanto amenizado o laranja típico das penas do píleo do macho.

Estrela - criação com uma mancha branca na testa, disforme, contrastando com o restante da pelagem. Equino ou bovino escuro com malha clara na fronte. A terminologia ficou imortalizada na canção de "Vaca Estrela e Boi Fubá", um clássico do inesquecível Patativa do Assaré, cantado e recantado por grandes nomes de nossa música.

Fumaça - rês de cor fuliginosa; denegrido esmaecido.

Javanês - gado de pelagem na cor dominante amarelo-pardacenta, com algumas áreas esbranquiçadas na parte inferior do corpo. 

Javanês. 


Laranja (o) - pelagem parda cambiando ao alaranjado. Curiosamente para animais machos o povo adapta o adjetivo ao masculino: vaca-laranja; boi-laranjo. 

Macuco - boi que apresenta pelagem cinza-pardacento, no tom semelhante ao das penas do macuco, Tinamus solitarius, ave tinamídea da Mata Atlântica. Uma antiga cantoria de congado informado como da zona rural de Bias Fortes/MG, registra a terminologia: 

"Meu boi-macuco
tá no currá;
é dia, gente, 
vamos'inhá!"

Malhada (o) - rês preta, com manchas brancas de tamanhos variados, sem forma definida.

Malhada. 

Mocho - sem chifres. O mesmo que mochado. 

Moira - ou moura. Pelo preto e branco, salpicado entre malhas mais largas.

Moira.

Nabuco - sem rabo ou de cauda curta, seja por característica genética, anomalia do espécime ou acidente. Vaca-nabuca, cachorro-nabuco, galo-nabuco. O mesmo que suruca. 

Nanica - a palavra indica pequeno porte. Raça de galinhas de pernas excepcionalmente curtas, consideradas mansas e boas poedeiras.

Pampa - animal nas cores marrom e branca, em malhas de desenhos aleatórios.

Pampa. 

Pedrês - pelagem branca ou clara, salpicada de escuro de forma esparsa e mais tênue que o tordilho.

Pedrês. 

Pelo de rato - como o nome indica, pelagem de burro ou mula que se aproxima da cor de um rato. Acinzentado, em várias tonalidades.

Pelo de rato.

Picaço - escuro, calçado de branco.

Picaço.

Queimado - semelhante ao retinto, animal de pelagem castanho escuro.

Queimado.

Retinto - gado castanho bem escuro, tirante a vermelho.

Retinto.

Rosilho - semelhante ao tordilho, mas tirante ao avermelhado atenuado.

Ruão - ou ruano (a): pelagem baia aloirada, de crina ruiva. A cor também se aplica a cães.

Sapateiro - pombo ou galo com pernas e dedos cobertos de penas. Pombo-sapateiro; galo-sapateiro.

Sapateiro. 

Suruca (o) - por vezes encurtado para “sura” ou “sú” . O mesmo que cotó, cotôco, nabuco; isto é, sem rabo, ou de cauda ou cabelo muito curto. Existe uma estrofe popular bem humorada que cita a galinha-sura. A versão abaixo procede de Santa Cruz de Minas: 

“Botei minha galinha chocá 
numa moita de capim-gordura, 
quando foi noutra semana, 
tinha pinto com um metro de altura, 
achei que era da minha galinha, 
mas era de galinha-sura...” 
(sextilha popular, Santa Cruz de Minas, 2002). 


Essa sextilha (em variantes próximas) foi incorporada entre a versalhada jocosa dos palhaços de folias de Reis em São João del-Rei e seu distrito de São Gonçalo do Amarante. 

Suruco.

Suruca.

Topete - raça de galinhas com um tufo de penas salientes sobre a cabeça, à guisa de um penacho. 

Topete.

Tordilho - pelagem equina cinzenta com pequeninos salpicados difusos por todo o corpo.

Tordilho.

Trochada - vaca de fundo geral ocre ou amarronzado claro, estriada por linhas sinuosas escuras ao longo de todo corpo. Muito semelhante à designação araçá.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: Ulisses Passarelli (equinos, bovinos, cão); Iago C.S. Passarelli; (galináceos).

Notas 

[1] Informante: Aluísio dos Santos, Bairro Centro, São João del-Rei, 10/02/1999.
[2] Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas, 12/02/1999.
[3] Por exemplo, dois dos mais afamados romances do ciclo do gado nordestino são as cantigas do boi-surubim e do boi-espaço (ou espácio), incorporadas ao repertório do auto folclórico Boi de Reis, no Rio Grande do Norte. Surubim vale a pelagem em padrão de cor que alude à coloração do peixe silurídeo surubim, cinza maculado de preto, em pintas ou rajas; espaço é o boi de chifres grandes e divergentes, muito abertos.

- Revisão: 01/07/2025. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Tradições acerca dos ciganos

Não obstante a característica vida em condição de seminomadismo e da vivência um tanto fechada ao grupo, ficaram algumas heranças culturais dos ciganos em nosso meio popular. Habitualmente não se usa apontar esta ou aquela herança cultural com sendo de influência cigana, como acontece com outras etnias. Suas características identitárias é que marcaram as impressões sociais a seu respeito.

Quando um acampamento cigano se estabelecia nas imediações de uma cidade, logo se via as mulheres com seus vestidos coloridos, longos e rodados com profusão de babados e rendas, a pele de bela cor morena, andarem em grupos pelas ruas convidando os transeuntes à leitura da mão; os homens pelas portas ofertando cordões dourados e tachos reluzentes. Os tachos de cobre dos ciganos gozam da reputação de serem os melhores, sendo por isto valorizados. Por esta qualidade são ambicionados para a produção caseira de doces. 

Outra vertente relevante é a ourivesaria. Faz parte da tradição cigana o habilidoso trabalho com correntes e pingentes, e ainda, o uso dos "dentes de ouro". É grande a procura por serviços de profissionais para aplicações de trabalhos protéticos em liga à base de ouro, sob a forma de coroas totais ou parciais, incrustações (inlay e onlay) e facetas, caracterizando no largo sorriso a ostentação de seu brilhante gosto pelo fulvo metal. 

Negócios de barganha e mesmo compra e venda de animais, sobretudo cavalos, é uma das peculiaridades que mais impregnaram a alma popular na caracterização do povo cigano. Criou-se então a imagem do negociante arguto, ativo, cuja esperteza sempre conflui para o lucro do cigano, embora na aparência a outra parte imagine ter lucrado. Esse dom do negócio, da lábia de convencer sobre qualidades de uma montaria que não chega a tanto, fixou-se na mentalidade popular. O povo então diz que "cigano dá manta", expressão que indica que dá prejuízo a quem negocia com ele, mas o sujeito sai pensando que foi bom negócio. Ninguém trapaceia cigano, diz o povo. Essa sagacidade e não propriamente desonestidade fixou-se noutra expressão popular de uso comum: para indicar que uma pessoa é muito esperta diz-se "fulano é um cigano...", mesmo não o sendo. Com igual sentido é a palavra "ciganagem" para indicar negócios confusos, múltiplos, com volta de uma compensação.

A padroeira do povo cigano é Santa Sara Kali. Sua vida é cercada de fatos lendários que a ligam de forma muito próxima ao círculo de parentes de Jesus ou a seus amigos próximos. Elementos espiritualistas intervieram em sua veneração, que assim passou a muitos devotos sem nenhuma ligação direta com os ciganos. Nesse processo de absorção desta devoção, a imagem da santa ganhou nos altares domésticos ou nos terreiros, oferendas tais como flores, frutas, taças de vinho branco, lenços coloridos e velas azuis que a ligam de imediato à imagem da água, com a qual teria grande força. Seus devotos a invocam principalmente no auxílio às questões amorosas e para fortalecer e trazer à tona a clarividência. 

Em algumas correntes doutrinárias de umbanda, uma das sete linhas é a Linha do Oriente. Os guias ciganos teriam um certo vínculo com esta linha por afinidade, sem serem a rigor membros dela. Fato é que constituem uma linha própria de trabalho que reúne os guias ciganos, espíritos de luz que trabalham na direita, com velas amarelas, ou na esquerda, com velas vermelhas. É um padrão genérico observado em São João del-Rei, mas sujeito a peculiaridades e variações doutrinárias conforme o terreiro ou corrente umbandista. Exemplos de alguns pontos difundidos, coligidos nesta cidade: 

"Ôh, Ciganinha,  ôh, Ciganinha
da sandália de pau;
quando ela chega no reino,
faz o bem, desmancha o mal...

Ôh, Ciganinha, puerê;
ôh, Ciganinha, puerá...
quando ela chega no reino,
faz o bem e corta o mal... "

Os pontos narram o poder dos ciganos: 

"Peguei meu facão dourado,
com o cigano eu fui brigar,
quando foi na sexta-feira
na calunga eu fui morar..." [1]

Os ciganos trabalham firme nos descarrego dos males: 

"Cigano dá, cigano tira, 
cigano leva, pras ondas do mar..."

A esperteza dos ciganos ficou consignada nestes versos de terreiro:

"Ganhei uma barraca velha
foi o cigano que me deu;
o que é meu, é do cigano, 
o que é do cigano, não é meu..."

Ficou evidente na tradição sobre os ciganos a grande habilidade em "ler a sorte", ou seja, prever o futuro, mormente a quiromancia e pela cartomancia, o que também passou ao universo do folclore. Nos cantares do povo, uma cantilena chorosa de congado, do notável Capitão José Camilo da Silva, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei [2], marcou a habilidade de ler o futuro:

"A cigana leu minha sorte,
tô com sina de morrê...
coração dos outros bate,
só o meu não quer bater, ai, ai!"

O sofrimento desse povo, a poesia popular registrou assim, numa jomba moçambiqueira [3]: 

"A cigana chorou, 
chorou, chorou, chorou!
Sentada na beira do mar, 
chorou, chorou, chorou..."

Sobre suas andanças sem paradeiro fixo, uma narrativa popular busca explicação: Jesus andando no mundo, deparou certa vez com um cigano e pediu pouso. O cigano negou e disse-lhe:" _ Vá andando!" E Cristo exclamou: " _ Pois andando há de viver tu e toda a tua geração..." Por isso os ciganos são um povo nômade [4].

Por fim é mister recordar das ciganas como personagens humanas femininas do folguedo natalino das Pastorinhas, elementos típicos do catolicismo popular, interpretadas por meninas que em verdade não pertencem à etnia cigana. Trajam-se de vestido longo, estampado, de cores vivas, lenço à cabeça, no geral adornado por cordões dourados, batendo pandeiros pequenos e enfeitados de fitas coloridas. Usam sandálias ou tamancos. Os adereços incluem correntões, grandes brincos de argola e medalinhas pendentes no lenço sobre a testa. Cantam anunciando que vão à Belém louvar o Menino Deus, mas sem ter o que comer, pedem esmolas para o pão, estendendo pandeiro de bojo para cima, para ali depositar-se o óbolo. Ocorrência em São João del-Rei (Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, 1992) e Tiradentes (Bairro Vargem de Baixo, 1995; 1996; 1999). Em São João eram duas: uma representando a adulta e outra a Ciganinha; em Tiradentes, quatro.

Ciganas, personagens das Pastorinhas da Vargem de Baixo, Tiradentes.
Apresentação na Igreja da Santíssima Trindade, após a Missa de Natal.
Mestra: Ana de Meneses. Captura de imagem de vídeo de Ulisses Passarelli, 25/12/1995.

O canto das ciganas em São João del-Rei era: 

Refrão: (bisado)
"Ai, ai, ai, amor!
É dia, meu Senhor!
Está chegando a hora
do Divino Redentor!"

Estrofes: 
"Eu sou a cigana,
que vivo a esmolar,
peço uma caridade
pra meus filhos sustentar. 

Tomara que chova,
na cidade de Belém,
para plantar o trigo
e colhê-lo também.

Dai uma esmola
pelo amor de Deus,
que a pobre da cigana
ainda hoje não comeu...

Canta a Ciganinha:

"Seja ouro ou prata, 
seja prata ou cobre,
nós aceitamos tudo,
porque somos muito pobres..."

Cigana e Ciganinha: Pastorinhas, Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, São João del-Rei/MG,
se apresentando no interior da Capela de Nossa Senhora Aparecida da APAE, após a Missa de Natal. 
Print de vídeo de autoria desconhecida, 25/12/1992.


Em Tiradentes, no grupo da Vargem de Baixo:

Refrão: (bisado)
"Nos causa gosto, 
nos causa alegria, 
ver que é nascido 
Filho de Maria!"

Estrofes: (bisadas)
"Dai uma esmola
à pobre cigana, 
pois vós bem sabes
que ela não engana.

Eu peço uma esmola, 
pelo amor de Deus,
que a pobre cigana
hoje não comeu!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um vintém,
que a pobre cigana
chegou de Belém!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um tostão,
que a pobre cigana
hoje não tem pão!"

Personagem comum noutras versões do Brasil. Ocorrem em reisados congêneres, nos quais as ciganas folclóricas são as personagens centrais, como por exemplo, no Baile-pastoril das Ciganas. Essa presença reiseira representa um eco do passado, um esforço catequético simbolizado em personagens figurados. (PASSARELLI, 2022). 

Fica assim marcado neste post as tradições regionais que se construíram sobre os ciganos, impressões sentidas pela população que não é cigana, mas que no processo reinterpretação folclórica, criou uma série de tradições que aludem e rememoram os ciganos, senão mesmo e de alguma forma os homenageia, talvez por reconhecer o heroísmo de sua saga, a dor das perseguições e discriminações que já sofreram. 

Mulheres fantasiadas de ciganas no antigo carnaval de São João del-Rei.
Autor e data desconhecidos. Fonte: arquivo Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. 

Referências 

PASSARELLI, Ulisses. Reisados Brasileiros: origem e tipologia. Tiradentes: Aquarius, 2022. 
Santa Sara Kali. In: Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Sara_Kali (acesso em 25/02/2015, 07h 55min)

Notas 

[1] No linguajar específico existe a "calunga-pequena" (campo santo) e a "calunga-grande" (mar). Calunga é pois o cemitério. O Capitão de Congado Luís Santana, de São João del-Rei, certa feita por mim interpelado porque o mar também era chamado de calunga, respondeu-me tristonho: "meu filho, quer cemitério maior que o mar?! Olha quanta gente afundou nos barcos e as caveiras estão lá no fundo... quanto escravo morreu sobre o mar nos navios negreiros... o mar é um cemitério, é calunga sim!"
[2] Coletado em 1994. Outros grupos da região também cantam esta quadra.
[3] Moçambiques de Perdões, Santo Antônio do Amparo, São João del-Rei, Ibituruna/MG. 
[4] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1996.

- Sobre os ciganos ver como leitura indispensável:

DORNAS FILHO, João. Ciganos em Minas Gerais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, v.3, 1948.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. Verbete: Ciganos.

- Revisão: 07/07/2025.
Créditos

-Texto e foto: Ulisses Passarelli. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Caveiras: a morte tratada com bom humor

A caveira é o símbolo mais contundente da morte (*). De tão universal, qualquer um entende que uma vez riscada num frasco indica que o conteúdo é venenoso e põe a vida em risco. Pois bem. Nem sempre, apesar disso, o assunto "caveira" é necessariamente tão sério. Muitas vezes o povo brinca com a morte (**). 

Talvez brinque com a morte porque dela não tem como escapar. Dá asas ao seu medo sob o viés da irreverência. E por aí extravasa... 

Em São João del-Rei o que há de mais notório nessa inter-relação de elementos é sem dúvidas o bloco típico Os Caveiras (***) uma agremiação carnavalesca muito tradicional, que prima pelo humor através do horror, tematizado nos fatos sobrenaturais, além-túmulo. Satiriza a morte com um desfile de foliões metidos em kaftans pretas, brancas ou roxas, portando máscaras de caveiras, ao som de marchas fúnebres. Arrastam correntes, ossos bovinos, caixões com eventuais críticas ao político sujo do momento (nunca falta!). É um dos mais queridos blocos da cidade. Os participantes, com foices de papelão, fazem a voz cavernosa, fingem-se de coxos, fazem que vão atacar a plateia. Múmias, monstros e seres sobrenaturais advindos do imaginário local ou sob a influência dos filmes de terror, também fazem parte do bloco. Destaque pelo valor folclórico para as máscaras de papel-machê, pintadas de branco, com detalhes de contorno em preto e em cor vermelha, uma imitação de sangue escorrido. Trazem os dentes expostos, os olhos esbugalhados e tudo o mais que imprime má impressão e aparência tenebrosa ou ameaçadora. O desfile d'Os Caveiras é sempre um dos momentos mais aguardados do carnaval, desde os anos sessenta, segundo se diz, 1961, embora o registro cartorial tenha vindo mais tarde. 


Alegoria do bloco Os Caveiras.
São João del-Rei, 03/03/2014. 

Além do bloco, esse contexto da morte ironizada pode ser visto noutra manifestação, totalmente desvinculada do carnaval: é o costume de se fazer as caveiras-de-fingimento. Brincadeira que as crianças faziam até a década de 1970, com abóboras e sobretudo mamões verdes, escavando-os até ocarem, abrindo-lhes os olhos, nariz e boca de aspecto medonho e para mais atemorizar, a faziam iluminar por meio de uma vela acesa no interior. Assim preparada era posta em locais ermos, notadamente na quaresma, para que vista à distância, simulasse uma assombração, ou sobre muros e mourões à beira dos caminhos, à beira de porteiras mal afamadas, para assuntar os transeuntes. De praxe ficavam por perto, a fazer barulhos esquisitos, supostamente misteriosos, e jogando pedrinhas, sem se revelar, riam daqueles que acreditavam no seu jogo inocente. 


Muitos se indagarão porque marquei uma data limite aproximada se até hoje se faz isto por aí. É porque somente até essa década pode-se afirmar com segurança que eram feitas essas cabeças de frutos normalmente como qualquer outro brinquedo nacional, mas daí por diante, sobretudo nos anos noventa, de forma avassaladora, sofreu influência dos chamados haloween’s e já não se faz da forma como o conheci em minha infância, exceção feita a algum lugar recôndito. 


Para concluir a questão dos brinquedos com a morte arremato com uma anedota que mais uma vez a memória prodigiosa de meu saudoso avô materno me comunicou (****): certa feita, um padre tinha que fazer um sermão, mas estava muito sem inspiração. Desanimado, não sabia o que falar aos fiéis. Pensou, pensou... Resolveu passar pelo cemitério nos fundos da igreja e no ossuário pegou uma caveira. Saiu com o crânio debaixo do braço e o escondeu no púlpito da igreja. Na hora do sermão subiu, olhou para o povo lá em baixo, raspou a garganta, gaguejou e foi falando espaçado:


_ é meus caros fiéis... Esse mundo é enganador! A vida é incerta. Hoje a gente está vivo, amanhã está igual essa caveira aqui. Tem que respeitar muito os mortos. Porque essa caveira aqui, oh..., ninguém sabe de quem foi! Pode ter sido de teu pai, d'um tio, irmão, ...

Enquanto enumerava possíveis parentes deixou a caveira cair do púlpito e ela bateu lá em baixo bem no alto da cabeça de um careca. Os dentes do maxilar ossudo rasgaram sua pele, que imediatamente sangrou. No mesmo tom que o padre vinha falando, o malfadado devoto, cheio de raiva, falou com voz alta e irritada: 


_ é... Pode ter sido da puta que te pariu também! 

E se foi da missa, irritadíssimo!

Notas e Créditos

* Uma das sete linhas da quimbanda é a "Linha das Caveiras", chefiada pelo respeitadíssimo Exu "seu" João Caveira, fiel ordenança do Orixá Sr. Omulu. Muito ligada à Linha das Almas. As entidades dessa linha se apresentam nas vidências dos médiuns como esqueletos: Manuel Caveira, Tata Caveira, Chico Caveira, Exu Caveira, Exu Sete Ossos, Exu Quebra Ossos, Exu Sete Catacumbas, etc.
** Na região estudada é atitude comum quando uma pessoa sofre um repentino calafrio, inesperado arrepio, se persignar e dizer em tom descontraído, mas no fundo exorcisório: "passa morte, que eu tô forte!"
*** Na cidade de Tiradentes também existiu um bloco Os Caveiras. 
**** Aluísio dos Santos, Centro, São João del-Rei, 1993.

Texto: Ulisses Passarelli
Fotografia: Iago C.S. Passarelli

Leia também: SÃO PEDRO E A CAVEIRA  

Revisão: 21/02/2025

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Gameleira

Gameleira branca ou figueira brava são nomes aplicados a algumas grandes árvores moráceas, principalmente do gênero Ficus, cuja madeira macia é usada em artesanato para esculpir artefatos de cozinha, tais como colher de pau e outros, e principalmente gamelas, donde procede seu nome. As adjetivações referem-se à cor clara da madeira ("branca") e aos frutos parecidos com figos, mas não comestíveis ("brava"). 

Na religiosidade de matriz africana é considerada uma árvore sagrada, morada do orixá Irôco, nos cultos de nação, além de ser domínio dos exus entidades, nas tradições umbandistas. Na raiz de gameleira se faz feitiço para amarrar o inimigo; ou se quebra uma demanda contrária...

Um ponto de congado de São João del-Rei, que o saudoso Capitão Luís Santana cantava, aludia à árvore em questão: 

“Êh, gamelêra! 
          Gamelêra é galho só...” - bis 


O sentido é meramente provocativo: a gameleira é frondosa, agigantada, de bela copa, mas a madeira é fraca, de pouco valor, apodrece fácil. Daí se aplicar ao congado rival, que só tem beleza externa ("galho só...") mas não tem bom cerne, essência, força. 

Da gameleira o povo extrai a seiva para produção de uma espécie cola levada ao fogo em fervura, o visgo, que noutros tempos se usava para pegar pássaros, esfregando a substâncias nos poleiros habituais, onde, ao posar, as pobres aves ficavam coladas. Felizmente a consciência ecológica tem abolido tal prática. 

Tronco e raízes de uma gameleira.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, out./2014.

Notas

- Revisão: 08/07/2025.