Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 8 de dezembro de 2012

A nova igreja de Matosinhos

Em São João del-Rei, no Bairro Matosinhos, foi formada uma comissão composta pelos srs. Waldemar Marques (presidente), Jorge Salomão (vice-presidente), Alfie Lopes (secretário) e José Batista da Costa (tesoureiro), foi formada em 04 de outubro de 1966, para cuidar dos meios da edificação de uma nova igreja. A bênção da pedra fundamental, pelo bispo Dom Delfim Ribeiro Guedes, ocorreu a 09 de setembro de 1968.

Teve assim início a construção da nova igreja no bairro, ladeando a velha, obra no espírito barroco datada de 1770. Pesquisadores já deram maiores detalhes acerca deste triste episódio e não carece repeti-los. A sólida construção veio abaixo e fora daqui repercutiu-se a notícia da demolição. A Comissão Promotora das Comemorações do Centenário da Guerra da Tríplice Aliança, oficiou à sede diocesana rogando não se destruir o templo antigo. Respondeu o bispo [1]:

São João del-Rei, 8 de junho de 1966
Exmo.Sr. General Dióscoro Gonçalvez Vale
DD. Comandante da ID / 4
Belo Horizonte

L.J.C. et M.
Recebi, com o maior aprêço, o veemente apêlo no sentido de obstar a planejada demolição da igreja de Bom Jesus de Matozinhos, desta cidade, apresentado por V. Exa. em nome da Comissão Promotora das comemorações do centenário da Guerra da Tríplice Aliança, que vem, num elogiável programa de civismo, propugnando por medidas que representam a defesa do que é patrimônio de todos nós brasileiros. Na oportunidade, informo a V.Exa. que o referido assunto está sendo estudado e, que, logo que se tenha uma decisão, comunicarei a V. Exa. Esperando em Deus, que tudo seja resolvido satisfatoriamente, apresento a V. Exa. os protestos de alta estima e profunda consideração, subescrevendo-me, de V. Exa. servo em J.C. Delfim Ribeiro Guedes - Bispo de São João del-Rei.

            A intervenção do general se baseava num fato histórico e militar. A mesma fonte informa:

São João del-Rei foi dos municípios que mais concorreram com voluntários [para a Guerra do Paraguai]. Aquela comuna não se limitou a mandar seus filhos para a campanha. Recebia festivamente e tratava muito bem as companhias de voluntários que por ali passavam, como se deu, por exemplo, com as do Sul de Minas, que se destinavam a Uberaba. Interessante é que existe em São João del-Rei (embora haja o propósito de demoli-la) uma igreja histórica, a do Bom Jesus de Matosinhos. (...) os grupos de voluntários de São João del-Rei ali assistiam à missa, antes da partida. Os grupos de voluntários de Passos e de outros lugares que por São João passavam, pernoitavam na igreja e, no dia seguinte, ali mesmo assistiam à missa, antes de continuar a marcha.

            Um dos pretextos é que estava ruindo, baseado no mau estado do telhado, ao qual bastava uma reforma. A imprensa divulgou que o telhado da sacristia tinha caído [2]. Nenhuma providência foi tomada para corrigir o problema. Publicou-se (e era voz corrente), que a igreja não era tombada pelo patrimônio [3]: “esta afirmação pode ser comprovada pelo telegrama recebido pelo Padre Jacinto, pároco daquela região, telegrama este mandado pelo diretor do Patrimônio Histórico Nacional, sr. Rodrigo de Melo Andrade”. O próprio pároco afirmava a falta de tombamento da igreja, como se pode averiguar por seu próprio depoimento num documentário acerca da devoção ao Bom Jesus [4].

Em não sendo tombada uma igreja, a intervenção ou demolição compete unicamente à decisão do clero; mas no caso de ser, depende de autorização legal dos órgãos competentes. Ocorre porém que a igreja era tombada pelo patrimônio, através do processo nº 68-38 do SPHAN, inscrito no Livro de Tombo de Belas Artes, v.1, folha 2, de 04/03/1938. 

            A conclusão da obra durou alguns anos. Em 1977 estava quase pronta [5]:

Padre Jacinto Lovatto Filho, pároco de Matosinhos, vem supervisionando os últimos trabalhos de acabamento da grandiosa igreja do Bom Jesus, daquele bairro, que teve a sua construção iniciada no dia 4 de outubro de 1965, Dia de São Francisco. A nova igreja, com 1.420 m2 de área construída, em forma de cruz, está recebendo agora a parte de mármore em todas as paredes. O altar está centralizado na cruz, sendo que na parte do fundo se encontra o símbolo da Santíssima Trindade e um globo com a imagem de Bom Jesus abençoando-o. Vitrais laterais são em número de vinte e oito, com vidros importados da Bélgica, adquiridos há alguns anos. O piso do corpo do templo será revestido em paviflex. Padre Jacinto reuniu os recursos financeiros para a construção da Igreja com a ajuda dos fiéis da paróquia, que pagam uma mensalidade e, principalmente, das festas ali realizadas periodicamente. Para administrar a execução da obra, foi constituída uma comissão de construção da igreja composta por: Presidente – Waldemar Marques; Vice-presidente – Jorge Salomão; Secretário – Antônio Silveira e Tesoureiro – Pe. Jacinto Lovato.

            A bênção na nova igreja foi dada em 01 de janeiro de 1980. A placa comemorativa, afixada na fachada da igreja, à esquerda de quem entra, diz:

Casa de Deus – Porta do Céu – Gên. XXVIII, 17 Esta igreja matriz do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, hoje consagrada e inaugurada, foi construída no período de 04-10-1965 a 31-12-1979, pela inspiração e direção do pároco, cônego JACINTO LOVATTO FILHO, com a ajuda da generosidade do povo desta cidade, especialmente deste bairro. A comunidade agradece a Deus pela preciosa dádiva. São João del Rey, 01/01/1980.

A história prossegue. Deu esse padre um novo impulso às festividades jubilares do padroeiro. Ao seu tempo tornaram-se famosíssimas na cidade as “Barraquinhas de Matosinhos”, assim apelidadas as quermesses desse jubileu. Quem as alcançou, como este autor, não exita em testemunhar sua excelência. Mesmo assim estiveram sumidas da imprensa. Uma pequena notícia surge nos anos setenta [6]:

Muito animada a festa do senhor Bom Jesus de Matozinhos, que teve início dia 27 de agosto e vai até o dia 14 de setembro. As barraquinhas tem estado todos os dias muito movimentadas, e a novena, que se iniciou domingo, contou com grande número de fiéis. A procissão solene dar-se-á dia 14, às 16:30 horas, percorrendo as principais ruas do bairro.

            Eis portanto que o cônego Jacinto Lovatto Filho [7], legou para Matosinhos obras importantes e contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento social do bairro. É fácil constatar isso da boca dos fiéis que vivenciaram seu trabalho. Seu paroquiato tinha tudo para ser excelente, mas com lástima há de se considerar que foi maculado de forma indelével, pelas desnecessárias demolições [8]. Esse fato, que nunca será demais repetir para a posteridade, recai como uma sombra sobre a história da cidade e servirá de admoestação contínua, para a defesa do nosso patrimônio, como serviram outrossim, o desaparecimento do Aqueduto dos Arcos, do Pavilhão de Matosinhos, dos inúmeros casarões que se foram, da primitiva fonte luminosa da Avenida Presidente Tancredo Neves, da Ponte da Misericórdia, dentre outros tristes exemplos.
            Após esse pároco atuaram os seguintes sacerdotes nessa matriz:

-          padre Adelmo José da Silva (pároco – desde 05/01/1986);
-          padre João Rodrigues de Paula (vigário paroquial);
-          frei Jordano Noordermeer (vigário cooperador);
-          padre Sílvio Firmo do Nascimento (vigário paroquial);
-          padre Delçon José de Oliveira (administrador paroquial – desde março/abril de 1989);
-          padre Pedro Teixeira Pereira (pároco solidário, jan.–jun./1991) [9];
-          padre Lourival de Salvo Rios (vigário paroquial).

            Em 1985 foi criada a paróquia de São Sebastião, sediada na igreja desse mártir em Santa Cruz de Minas. Com isto, um imenso território foi desvinculado definitivamente de Matosinhos. A nova paróquia abrangia toda Santa Cruz de Minas, as colônias do Marçal e Giarola, além de César de Pina e Águas Santas [10].

          As festas de Matosinhos, embora com melhorias religiosas, inclusive, por exemplo, o surgimento das comemorações da Semana Santa e São Cristóvão, continuavam desaparecidas da imprensa. Uma notícia isolada surgiu em 1987, sob o título “A grande Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matozinhos” [11]:

A paróquia do Senhor Bom Jesus de Matozinhos está em festas realizando o jubileu do seu padroeiro. A novena dará início dia 05/09 às 18:30 hs e irá até o dia 13/09. Haverá a celebração da exaltação a Santa Cruz e missas de hora em hora a partir das 6 horas e finalizará com uma grande procissão às 16 horas. Após o término desta haverá bênção e distribuição da sagrada eucaristia. Já estão funcionando no adro da igreja matriz as tradicionais barraquinhas. A novena contará com a participação de vários padres da Diocese sob a coordenação do pároco Padre Adelmo José da Silva e a colaboração carinhosa de Frei Jordano e Pe. João Rodrigues. No que diz respeito à parte administrativa, está sendo reformada a casa paroquial e anexo está um escritório, onde se desenvolverá um trabalho de pároco a nível pessoal com os paroquianos. Também está sendo construída no Bairro da Vila Santa Terezinha, uma funcional e aconchegante igreja, já que a capela antiga se encontrava em estado precário e não atendia às necessidades dos moradores do bairro. Do ponto de vista pastoral induz o leigo a se conscientizar de que ele é uma peça importante na formação da unidade cristã e renovada. O jovem vigário (sic), Padre Adelmo José da Silva, ordenou-se no dia 07/05/1985 e tomou posse na paróquia no dia 05/01/1986. A sua dedicação e carinho, conquistou a todos os paroquianos neste pouco espaço de tempo em que ele está à frente da maior paróquia da Diocese; paróquia esta que conserva suas tradições mas que sob a orientação do jovem pastor, se renova de uma forma moderada, vencendo as dificuldades sendo ele acima de tudo uma luz e guia para o seu rebanho. Ao Padre Adelmo e seus auxiliares, os nossos agradecimentos e que o Sr. Bom Jesus e a Virgem da Piedade os protejam sempre. Raimundo Correa - Presidente

            Estava próximo do fim mais uma fase da vida paroquial em Matosinhos.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli

Notas

- Revisão: 31/08/2025. 


[1] - In: Revista de História e Arte. Belo Horizonte: Instituto de História, Letras e Arte, l966. Ano 3, n. 7.
[2] - Estado de Minas, 28/02/1970.
[3] - Jornal de Minas, n.11, 12/09/1969.
[4] - Devoção ao Sr. Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei, WM Filmagens, 2004. (DVD).
[5] - Tribuna Sanjoanense, n.190, 09/09/1977.
[6] - O Raio, n. 235, 08/09/1976.
[7] - Faleceu em 25/07/2004. Sepultado no dia seguinte, no Cemitério das Mercês. Sobre seus dados biográficos básicos ver o livro de José Cláudio Henriques.
[8] - Ao seu tempo foram demolidas também as capelas primitivas da Colônia do Marçal (N.S. da Conceição) e Santa Cruz de Minas (S. Sebastião) e edificaram-se os templos atuais. Sobre a do Marçal sabe-se que sua construção foi longuíssima e somente em 2002 ganhou a pintura externa e em 2003 o calçamento do adro com bloquetes. Em agosto/2004, iniciou-se a construção da torre. Sua bênção deu-se em 08/12/2005, quando ficou pronta, graças aos esforços do seu primeiro pároco, padre Antônio Claret Albino. No ano seguinte foram construídos a cúpula e os dois medalhões externos com temas marianos. A criação desta paróquia em 1999 desvinculou da administração eclesiástica da Paróquia de São Sebastião, de Santa Cruz de Minas, o território contido no núcleo colonial, além de César de Pina e Águas Santas. 
[9] - Atualmente este sacerdote ainda celebra em Matosinhos, todas as sextas-feiras, 15 horas.
[10] - Santa Cruz de Minas pertencia à paróquia de Santo Antônio, da cidade de Tiradentes, até a criação da paróquia de Matosinhos, quando então, passou para seu controle. Era na ocasião um distrito, com poucas casas ao redor da capela de São Sebastião, cuja pedra fundamental foi benta em 29/06/1937, pelo padre José Bernardino da Silveira, que rezou ali a primeira missa (campal). O terreno para a construção foi doado pela prefeitura de Tiradentes. Fincou-se um cruzeiro no local, donde veio o nome do lugar. Só foi elevada a vila em 30/12/1962 (lei estadual nº 2.764). A emancipação política deu-se a 21/12/1995 (lei estadual nº 12.030). O município foi oficialmente instalado a 01/01/1997, sendo primeiro prefeito o sr. José Antônio dos Santos, que exerceu dois mandatos consecutivos. O primeiro pároco foi o padre Claudir de Possa Trindade, em 1985. Substituiu-lhe o padre Antônio Claret Albino, em 1997 e a este o padre Pedro de Jesus Wiermann, em 1999. Em 1990 estava em construção a capela do Sagrado Coração de Jesus, na COHAB, na mesma jurisdição eclesiástica.
[11] - Tribuna Sanjoanense,  n.542, 21/08/1987.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Congado do Zé Camilo

              Congado "N.S.do Rosário" (catupé), Bairro São Dimas, São João del-Rei / MG

Nesta postagem são visualizadas algumas fotos antigas do saudoso congado do Capitão Zé Camilo. A publicação nesta página é uma especial homenagem à sua pessoa, bem como aos saudosos capitães auxiliares que já partiram, também envolvidos neste terno, em especial Altamiro Ponciano, Jesus do Nascimento, Chico Zacarias, Waldemar Fagundes e Raimundo Camilo.

1º Capitão: José Camilo da Silva (ao centro, apoiado na bengala); 2º Capitão: Valdemar Fagundes (de paletó preto); 3º Capitão: Altamiro Ponciano (ao fundo, com tamborim erguido) Esta guarda de catupé se apresentou na ocasião desta foto histórica na Festa do Rosário da vizinha Santa Cruz de Minas. O grupo foi fundado em 1962 e permaneceu ativo até 1994. A seguir ficou quatro anos desativado e retomou os tambores em 1998, por ocasião do resgate da Festa do Divino, nas mãos do Capitão Raimundo Camilo, filho do fundador José Camilo, com o essencial apoio do 2º Capitão Luthéro Castorino da Silva. Nesta segunda fase o congado se manteve ativo até 2008.

Uma Festa do Rosário no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei,tendo ao fundo a silhueta da Serra de São José.
Festa do Rosário no Bairro Tijuco, diante da Igreja de São José Operário. O Capitão Raimundo Camilo aparece ao centro tendo ao lado outro capitão, Chico Zacarias, com listras verdes na camisa. Na direita da foto o casal dona Júlia Lacerda e Geraldo Elói, dois baluartes das tradições folclóricas no Tijuco. 
O Capitão Zé Camilo e uma princesa, em trajes típicos, durante uma Festa do Rosário no Bairro São Dimas, São João del-Rei, na Capela de Nossa Senhora do Rosário daquele bairro.
O Capitão Zé Camilo com o bastão de comando, ladeado por membros do Reinado e à esquerda,
o Capitão Altamiro Ponciano. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: autores e datas não identificados

Catolicismo contemporâneo em Matosinhos

1991-2011 (resumo)
            
            Um novo tempo na vida religiosa do bairro iniciou-se com a vinda do pároco padre José Raimundo da Costa, empossado em 31 de janeiro de 1991. Com visão de vanguarda e postura progressista, conforme os documentos e orientações mais modernos da Igreja de então, sabendo equilibrar evangelização, comunicação, fé, consciência política e cultura, imprimiu fortes mudanças atualizadoras na estrutura e nos rumos paroquiais.

            Com intensa atividade coordenou a criação de muitas equipes de trabalho, inclusive a tão importante campanha de instalação do canal televisivo da Rede Vida, para o qual tanto colaborou de forma incansável e indelével o sr. Antônio da Silva Serpa; criou a Pastoral Social; reorganizou a Cooperativa dos Pobres e criou a Sopa Bom Jesus, o Clube de Mães, o Centro Cultural e Social da Paróquia, a Livraria Paroquial, informatizou os serviços eclesiásticos locais, promoveu profundas mudanças no sistema de comunicação da paróquia com uma série de programas radiofônicos e alguns televisivos.

            Fez a importante divisão da paróquia em várias comunidades: cada uma com seu coordenador, e para reger a todas estabeleceu uma coordenação geral. Eis portanto que a criação destas unidades articuladas e harmônicas favoreceu o aparecimento de várias festas de menores proporções consagradas aos patronos específicos, intensificando a vivência comunitária.

            Apostando na eficácia da comunicação, o outdoor convencional, fincado na lateral esquerda do adro, e que por diversas vezes tivera de ser reparado, foi substituído por um mais resistente, luminoso e com duas faces, onde se colocam renovadamente, mensagens e lemas/temas relevantes. Igual painel, em menor proporção foi instalado na entrada do Centro Social e Cultural da Paróquia, sito na mesma praça. Matosinhos tornou-se a primeira paróquia da diocese a ter semanalmente seu próprio programa radiofônico e televisivo, além da transmissão ao vivo da santa missa, semanalmente. A força da aposta na comunicação, levou ainda à montagem de estúdio próprio de gravação, numa das salas do santuário.

          Outro pioneirismo desta paróquia é o evento conhecido por Grito do Excluídos, uma marcha pelas ruas da cidade clamando por melhores condições de vida para a população e em favor da consciência política, desde 1997, sempre com crescente participação.

            Foi feita a capela do Santíssimo Sacramento numa sala lateral da matriz em 2002. Neste mesmo ano procedeu-se à reforma completa da parte interna da matriz e a instalação de bebedouros na lateral da sacristia. Reformou também ao longo de seu paroquiato as antigas imagens da igreja e valorizou a tradição dos ex-votos com a reforma da "Sala do Milagres", assim popularmente chamada. 


São Libório. 2013. 

No ano seguinte reformou-se a parte externa, com cuidados estruturais, elétricos e de estilo, colocando-se uma barra de acabamento em pedra ao redor de toda a construção e os azulejos mesclados de azul e branco, a que tantos atribuíam mal gosto, foram pintados de cinza, dando mais uniformidade ao conjunto. As portas e vitrais ganharam reforma com soldas, troca de vidros quebrados e pintura. Houve ampliação dos banheiros; derrubada da mureta que dividia o adro em duas metades na lateral-posterior do templo. A simples medida de se construir rampas na entrada da igreja, foi um sinal de respeito às dificuldades de locomoção dos fiéis que dependem cadeiras de rodas, facilitando seu acesso.

Em setembro de 2002 a matriz foi elevada a santuário diocesano. Foi criada uma sala sobre o batistério, desde então, ponto de reunião dos festeiros do Divino.

No segundo semestre de 2004 foram construídos dois banheiros para portadores de necessidades especiais, um masculino e outro feminino. O santuário, com pintura nova (externa e interna) se completou neste tempo com a reforma no prédio da Catequese, nos fundos do adro: as salas ganharam portas, reparos no reboco e pintura. Tem banheiro próprio. Os ladrilhos da entrada principal, à frente da porta foram substituídos por ardósia. Os postes e grades do adro foram pintados. De 2006 para 2008 novas melhorias: sinalizações para os fiéis, lixeiras no adro, telado protetor dos vitrais do fundo do santuário (útil contra eventuais depredações) e igualmente ali, toldos para diminuir a entrada de luz, eliminando o incômodo reflexo que vinha através deles para dentro da igreja. Ainda houve o fechamento com alambrado da traseira dos banheiros, o que até que se construam mais outros sanitários naquele espaço, veio em boa hora. Foi colocado um tablado junto ao presbitério para posicionar os câmeras durante as filmagens das celebrações. Parte da “Sala dos Milagres” foi usada para o aparelhamento de comunicação. Ainda nesse tempo foi instituída a equipe de acolhida do santuário. Em seu conjunto o santuário melhorou em conservação, aspecto e funcionalidade.

Padre José Raimundo permaneceu como pároco até março de 2011, quando foi transferido para a paróquia de São José Operário, no Bairro Tijuco e o pároco de lá, para Matosinhos, Padre José Bittar. Padre José Raimundo também foi reitor do santuário e coordenador de pastorais da diocese [1]. As transferências envolveram também o vigário, Padre Álisson Sacramento, que foi para o Pilar, tendo em seu lugar em Matosinhos o Padre Rondinelli Cristino [2].

            É importante frisar que neste trabalho desempenhado, que verdadeiramente mudou a fisionomia e o funcionamento paroquial, irradiando muito além de seus limites eclesiásticos, foram fundamentais as ajudas prestadas por tantos abnegados devotos, que assumindo a dianteira de comunidades, pastorais, movimentos, equipes, comissões, etc., deram respaldo à implantação de todo este projeto de fé.

Há de se registrar também igual apoio e participação dos vigários paroquiais, que o coadjuvaram. Tiveram outrossim grande compreensão pelas dificuldades encontradas pelos festeiros do Espírito Santo para manterem o Jubileu do Divino com a dignidade necessária:
  
-          Padre Nélio José dos Santos (1998-9);
-          Padre Paulo Marcelo Daher Gomes Filho (1999-2000);
-          Padre Dirceu de Oliveira Medeiros (2002-4);
-          Padre Odair José de Carvalho (primeiro semestre de 2004);
-          Padre Geraldo Magela da Silva (dez./2004)
-          Padre Állison André Sacramento (nov./2008)

Com a efervescência causada pela reestruturação do Jubileu do Divino, as festas locais em geral voltaram a ser destaque na imprensa. Uma fotografia nas páginas da Gazeta de São João del-Rei, destacada como a foto da semana,  mostrou uma multidão enorme ao redor do andor do padroeiro. Eis sua legenda [3]: “terça, 14, foi feriado em Matosinhos. Milhares de fiéis saíram às ruas em procissão para celebrar o Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos”. A partir de então as notícias sobre as comemorações tornaram-se frequentes na imprensa escrita, somando-se ainda a força da imprensa falada e televisiva.

            É mister não esquecer uma mudança digna de registro: no dia maior da festa de São Judas Tadeu do ano de 2009, na Caieira, o bispo diocesano anunciou na missa campal a criação de uma nova paróquia, sob o nome deste santo, no referido bairro, desmembrada da franciscana. A mudança na jurisdição eclesiástica teve como limite geográfico o Ribeirão da Água Limpa (margem esquerda) e com isto a Comunidade de Santa Clara, até então pertencente à de Matosinhos, passou para a jurisdição da Paróquia de São Judas Tadeu. Também a Gruta do Divino foi por ela englobada. O primeiro pároco tomou posse a 20 de dezembro do mesmo ano, Padre Claudir de Possa Trindade.

            Por fim vale ressaltar as comemorações do cinquentenário da paróquia de Matosinhos em 01/01/2010, com missa solene no santuário presidida pelo bispo. O evento teve cobertura da imprensa televisiva, radiofônica e escrita [4].

Saída da Procissão do Divino em 2009.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: São Libório, Iago C.S. Passarelli; procissão, Ulisses Passarelli. 

Notas 

- Revisão: 28/12/2025. 


[1] As principais realizações dos seus vinte anos à frente da paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos foram resumidas na edição especial do informativo paroquial Comunidade, de março de 2011. O título desta postagem inclui a palavra "contemporâneo" em relação à época que foi escrita, entre 2011 e 2012. Naturalmente, o passar dos anos traz novas contemporaneidades. 
[2] Posteriormente, durante a gestão do Padre José Bittar, vieram outros vigários: Padre Admilson Heitor de Paiva, Padre Geraldo Sérgio França, Padre Jorge Wilsson Carvalho Fonseca, Padre Thairo Guimarães Mesquita, Padre Ronan Jesus da Costa Silva. A gestão do Padre José Bittar na Paróquia de Matosinhos concluiu-se ao final de 2024, assumindo seu lugar o Padre Vinícius Idefonso Campos. 
[3] Jornal: Gazeta de São João del-Rei, n. 61, 18/09/1999.
[4] Jornal: O Grafite, n.33, 30/12/2009. São João del-Rei. 

O Resgate

Remodelação da festa do Divino e a comissão de festeiros

Em geral as comemorações tradicionais de pequeno vulto necessitam de um único festeiro (a). Contudo uma do porte dessa em questão, carece de um grupo de pessoas responsáveis. Já na festa antiga ocorria o nome “comissão”, aplicado ao conjunto de festeiros. Era numerosa, a julgar pela de 1923, que contou com 110 pessoas, cuja lista completa dos nomes a imprensa publicou [1].

            Os tradicionais três dias de festas (a animadíssima festa de 1883 foi uma exceção, perdurando por cinco dias), embora contíguos, tinham comissões organizadoras distintas, que contudo trabalhavam harmoniosamente. O programa dos três dias era publicado unido, mostrando o entrosamento da tripla comissão. Três festas em uma. Não obstante, em 1882 o Arauto de Minas os publica separados: a programação do Divino numa edição, a do Bom Jesus e Virgem da Lapa noutra. Teria a fraternidade das três comissões sido abalada ou foi apenas falta de espaço na folha?

            Nos tempos atuais a festa dura onze dias, o primeiro para anúncio festivo, os nove da novena e mais o dia maior. Há apenas uma comissão, cuja história começa em 1997.

Nesse ano o padre José Raimundo da Costa, pároco de Matosinhos, sabedor do passado brilhante deste festejo, idealizou introduzir uma atração cultural e para tanto providenciou convite a um congado, o de Coronel Xavier Chaves, que ingressou na procissão dando-lhe nova vida. A experiência foi analisada como positiva e promissora e abriu as portas para a reativação do festejo em seus moldes tradicionais.

            No ano seguinte, com aval e apoio deste sacerdote e sob a grande liderança do artista santeiro Osni Geraldo de Paiva, com base em suas pesquisas históricas, idealizou-se restituir a festa jubilar. Para tanto foram convidadas várias pessoas para uma reunião e a mesma se realizou no salão da catequese, na matriz, dia 28 de fevereiro de 1998, com umas trinta pessoas ou mais.

            Aberta a sessão com as preces e explicações do sacerdote, Osni a seguir explanou sobre a história da festa e o ideal de restituí-la. De comum acordo constitui-se um grupo, então chamado “Comissão Pró-jubileu do Divino Espírito Santo de Matosinhos” e  todos os presentes assinaram formalizando o ato.

            Contudo, o grupo foi se esvaziando com o distribuir das tarefas e com a chegada da festa estava na verdade assim constituído, conforme consta no informativo daquele ano[2]:

Presidente: Padre José Raimundo da Costa
Coordenador Geral: Osni Geraldo de Paiva
Informativo: José Cláudio Henriques
Folclore: Luthéro Castorino da Silva, Maria Aparecida de Salles e Ulisses Passarelli
Infra-estrutura: Altivo da Paixão Chaves Berg e Nelson Domingos de Abreu

            Esse foi o grupo diretamente responsável e pioneiro. Destacaram-se também os colaboradores: Antônio da Silva Serpa (“Toninho”), na Coordenação das Comunidades; Adriana Márcia Zim e equipe na alimentação e figurino; Luís Dângelo Pugliesi e Sebastião Machado Gomes (“Jacó”), na divulgação; Sônia Coelho, Nelson Resende e Josino Inácio do Nascimento (“Jota”), na cavalgada - respectivamente como coordenadora, alferes da bandeira e ponteiro; grupos de Renovação Carismática Católica e equipes de liturgia, na liturgia; outros tantos voluntários, sem os quais a tarefa seria impossível ou de êxito limitado.

            A partir do ano seguinte o grupo passou a se chamar oficialmente “Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo”, tendo como sigla, por proposta de José Cláudio Henriques, “CODIVINO”.

            Em 17 de fevereiro de 2000 aprovou o seu estatuto. Embora sem registro em cartório, tem sido seguido pelos festeiros por uma questão de honra. Foi reformado em 4 de setembro de 2001. Por esta ocasião, elegeu-se a diretoria e conselhos de acordo com o estatuto vigente, conforme consta na respectiva ata (nº 37, livro nº 2) ficando assim constituída para um triênio:


Diretoria:
Presidente de Honra: Padre José Raimundo da Costa
Presidente : Ulisses Passarelli
Vice-presidente: Osni Geraldo de Paiva
1º Secretário: Otávio Félix Pereira da Silveira
2º Secretário: José Cláudio Henriques
1º Tesoureiro: Antônio Carlos Garcia
2º Tesoureiro: Nelson Domingos de Abreu

Conselho fiscal:
- Geraldo Elói de Lacerda
- José Antônio de Ávila Sacramento
- Maria Aparecida de Salles

Conselho consultivo:
- Antônio da Silva Serpa
- Damião Guimarães
- Maria Sílvia Teixeira Henriques

Conselheiros suplentes:
- Adriana Márcia Zim
- José Gonçalves de Sousa

            Esse foi o grupo responsável por consolidar o trabalho de reativação, juntamente com Paulo Zini e Kleber do Sacramento Adão, admitidos como mesários duas semanas após a referida eleição. Contou-se também com a inolvidável ajuda de muitas outras pessoas, que com o tempo foram se agregando na qualidade de membros-colaboradores. Embora não sendo mesários, foram responsáveis por muitas tarefas na edificação da festa, que desempenharam com plena fidelidade, como até hoje acontece. Além dessas pessoas existem ainda muitas outras, no exercício do voluntariado em favor da festa, muito embora oficialmente não façam parte da comissão propriamente dita. Em setembro de 2004 a mesa administrativa supracitada foi renovada por processo eleitoral, como determina o estatuto da comissão, para um mandato de três anos. Ficou assim composta, com a participação de novos membros efetivados:


Diretoria:
Presidente de honra: Padre José Raimundo da Costa
Presidente: Nelson Domingos de Abreu
Vice-presidente: José Cláudio Henriques
1º Secretário: Antônio Carlos Garcia
2º Secretário: Leila Andrade
1º Tesoureiro: Antônio da Silva Serpa
2º Tesoureiro: Kleber do Sacramento Adão

Conselho consultivo:
- Otávio Félix Pereira da Silveira
- José Gonçalves de Sousa
- Geraldo Elói de Lacerda

Conselho fiscal:
- Paulo Zini
- José Tadeu Nascimento
- Jânio Fernando Salomão

Conselheiros suplentes (ambos conselhos):
- Ariel Resende Fernandes
- Edmilson Washington da Silva
- Inácia Maria dos Santos
- Joaquim Maia Filho
- José Roberto Zim
- José Trindade Muniz
- Josino Inácio do Nascimento
- Maria Aparecida da Silva Nascimento
- Maria Auxiliadora Reis
- Maria do Carmo da Silva
- Maria Rosária Neto Abreu
- Luciano Rodrigo Andrade Mourão
- Nivaldo Neves

Outros cargos administrativos:
- consultor executivo de folclore e realizações: Ulisses Passarelli
- diretor de organização e gerenciamento do Jubileu: David Passarelli
- relações institucionais: Sebastião Machado Gomes
- coordenador geral da cavalgada: Josino Inácio do Nascimento

            Estes “outros cargos administrativos” são de confiança, sob a escolha do presidente, ou seja, não eletivos e como tal podem variar segundo as circunstâncias e necessidades. O presidente de honra é sempre o pároco em vigor. Com a saída do autor e de seu pai David da comissão após a festa de 2005, os cargos por eles ocupados ficaram vagos. Para o primeiro foi oportunamente convidado em substituição o sr. Raimundo Camilo, conhecido e experiente folião e capitão de congado.

            Ao longo dessa administração, vários outros mesários foram admitidos.

         Nova mesa administrativa foi eleita no segundo semestre de 2007, já que expirara o tempo estatutário da anterior. Ficou assim constituída sua diretoria:

Presidente de honra: Padre José Raimundo da Costa
Presidente: José Cláudio Henriques
Vice-presidente: Nivaldo Neves
1º Secretário: Mara Cristina Reis
2º Secretário: Antônio Carlos Garcia
1º Tesoureiro: Antônio da Silva Serpa
2º Tesoureiro: Jânio Fernando Salomão

Não obtive a colocação dos demais cargos, bem como da eleição seguinte, quando Nelson Domingos de Abreu voltou à presidência.

O grupo de festeiros continua crescendo. Um bom número de novos mesários aparece listada no informativo da festa de 2008, como membros da comissão, além dos já referidos até aqui: Adriana de Assis, Alcina Zanetti Assunção, Ana Paula Silva de Souza, Antônio Alves de Paula Filho [3], Antônio Cipriani Carvalho, Antônio Marcelino de Sousa, Carlos Antônio dos Anjos, Ciro Neves, Eder da Conceição Araújo, Eliana Maria dos Passos, Fábio da Silva, Francisco José do Nascimento, Geraldo Magela Francisco, Geraldo Trindade das Dores, Ismair Januário da Silva, Ivan Campos do Nascimento, Jerônimo Tadeu Trindade, João Bosco Rios, José Adney da Luz, José Francelino, José Luiz da Cunha, José Luiz Gonzaga, Josimar Luiz da Silva Tavares, Lucas de Carvalho, Marcelo José de Carvalho, Maria Auxiliadora Rodrigues, Maria do Carmo Carvalho, Maria Sílvia Teixeira Henriques (retorno), Otacílio José de Castro Lopes, Ronaldo Luiz Francisco (in memoriam), Sanival Rodrigues Nunes, Sebastião de Jesus (in memorian), Sebastião Modesto dos Santos (colaborador efetivado), Sérgio Rocha Silva, Valéria Aparecida de Jesus. No passado a renovação da comissão era mais freqüente, praticamente anual, sobretudo no que diz respeito aos cargos e personagens de cabeceira. Em 1885 por exemplo, surge referência no Arauto de Minas, ao sorteio de novos mesários, ou seja, festeiros que se reuniam em torno de uma mesa para discussões das providências a tomar em favor do evento. 

A comissão persiste ativa e continua fiel aos ideais iniciais, com a renovação natural de seu quadro social, erros e acertos, constantes em todas as atividades humanas.

Primeiro império montado após o resgate, em 1998, em plena Rua Antônio Rocha,
 antes da edificação da Gruta do Divino. Foto do autor.

Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli 



[1] - A Tribuna, n. 464, 18/03/1923. 
[2] - INFORMATIVO DA FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO DE MATOSINHOS. São João del-Rei: Comissão Pró-jubileu do Divino Espírito Santo de Matosinhos, abril / 1998. n. 1, ano1. Expediente, p. 3.
[3] - Foi rei de congado durante 70 anos! A última festa que participou foi a do Divino de 2008, com a animação costumeira e esmero na roupa, falecendo logo depois, a 21 de maio. Na festa do Rosário de São Gonçalo do Amarante (distrito de São João del-Rei, em outubro do mesmo ano, a última rainha a lhe acompanhar, Maria José da Silva Oliveira, prestou uma homenageada à sua memória. O autor dessas linhas já o havia feito por ocasião dos seus 65 anos de reinado, ocasião que recebeu em público um bastão simbólico, encimado por uma coroa esculpida em cedro. Deixou saudade e admiração pela seriedade com que encarava sua missão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Folclore do Parto

Algumas crenças sobre a parturiente, o resguardo e o recém-nascido               

             

Em caráter extensivo, pode-se afirmar que as crendices e os tabus envolvendo a geração de uma vida humana são de ocorrência cosmopolita. Assim também, os cuidados com a mulher grávida, a parturiente, o pós-parto, o período de resguardo e com o recém-nascido, no âmbito da cultura popular, ultrapassam as questões profissionais de medicina e enfermagem e adentram o universo de saberes informais. Cada região tem o seu repertório de práticas e superstições a esse respeito.

Desde sempre, ao visitar uma grávida ou um recém-nascido, as mulheres dão suas recomendações cuidadosas, eivadas de um amor instintivo, um senso comum de proteção. Há um temor de que, qualquer mal, encontre passagem na fragilidade daquele momento primordial da vida. Dois medos, porém, disputam a primazia: o parto amarrado e o mal de sete dias.  

Acredita-se que qualquer pessoa pode “amarrar” um parto, por maldade pura, num ato de vingança ou inveja, através de feitiços pagos a sujeitos inescrupulosos. Por isto as grávidas acorrem às suas preces e benzeduras, e dentre as simpatias, está a de tirar a medida da circunferência total do corpo ao nível do ventre gravídico, com uma fita de cetim, azul ou rosa, e se prender essa fita à imagem de uma santo, sobretudo São Raimundo Nonato, como observado em São João del-Rei / MG, em 1999. Essas fitas de medida são ainda postas nas mãos dos pretos-velhos (almas dos escravizados que ascenderam à condição de entidades espirituais) nos terreiros de umbanda. Essas entidades espirituais, muito iluminadas, que trabalham para o bem, desmancham o amarrio de parto ou o previnem, firmando as fitas e as conservando no gongá até o parto, quando então são devolvidas à mãe para atar à cabeceira do berço e assim servir de firmeza à família. Se valem também da oração a São Cipriano, para desmanche da amarração.   

Parto amarrado é o terror da grávida: dores lancinantes a cortam no baixo ventre, não ocorre dilatação, a criança não toma a posição de saída, ficando atravessada; a pressão sobe muito, a sudorese é intensa e podem sobrevir sequelas e mesmo morte, para o filho ou ambos. Em São João del-Rei, conforme observação no ano de 2006, é corrente a recomendação de que a grávida nunca deve ir a terreiros durante trabalhos de linha esquerda. A influência pode ser danosa para o feto e, sobretudo, se um espírito incorporado de grande densidade tocar no ventre de uma gestante pode eventualmente, ainda que de forma involuntária, gerar deformidades na criança em gestação, em razão do choque energético.  

O mal de sete dias é o famigerado tétano, que ceifa a vida do pequenino por infecção umbilical pelo Clostridium tetani, uma bactéria gram-positiva anaeróbia. O cuidado da parteira [1] com a esterilização de suas tesouras e a assepsia em geral de seu trabalho é a chave do sucesso nos partos caseiros. O processo é preventivo e se seguirá por vários dias nos curativos diários no umbigo da criança, até a queda do coto e total cicatrização. A troca das faixas, a aplicação de antissépticos é fundamental. É costume nos meios populares por a faixa bem apertada e debaixo da gaze embebida em antissépticos, unguentos ou pomadas uma pequena moeda esterilizada, que obriga o recuo do umbigo fazendo com que fique bem curado, assim considerado o que se torna fundo, em vez de raso ou estufado, o que futuramente favorecerá o surgimento de hérnias, segundo crença geral.  

Ainda em São João del-Rei, se acredita que a primeira unha cortada deve ser guardada entre as páginas de um dicionário, ou, na falta deste, de outro livro qualquer. Isto garantirá que a criança cresça como estudiosa e inteligente. 

Se a criança saliva muito, deve-se chamar a madrinha de representar e passar a barra da saia dela em cruz três vezes na boca da criança para parar de babar. Se houver apenas padrinho precisa fazer o mesmo processo com a barra de sua calça.

Para curar sapinho (candidíase oral), uma das receitas é a seguinte: esfregar o local afetado com um pedaço de pano limpo, molhado numa infusão de funcho (Foeniculum vulgare, apiaceae), três folhas de erva de São João (Ageratum conyzoides, asteraceae) e bicarbonato de sódio. A seguir o paninho úmido deve ser jogado na parede, onde fica grudado. Depois que seca, desprende e cai. Então o sapinho começa a melhorar. O procedimento deve ser repetido três vezes. 
 

Quando o recém-nascido apresenta manchas na pele, aplicam-lhe um banho com "água de angu": quando se mexe angu, para que a rapa solte da panela, ela é deixada com água para amolecê-la. Esta é a água usada para este banho.  

E por aí vai. O folclore se constrói no dia a dia. Os saberes formam uma trama contínua em cada passo da vida humana. Basta lembrar nas recomendações que tivemos ou ouvimos alguém dar a outrem e vamos rastrear a cultura popular viva em toda parte.  

Muito embora não se possa recomendar que se faça qualquer coisa do que está aqui escrito a ninguém, ainda assim este texto foi escrito em memória carinhosa das mães, que muitas vezes desprovidas de recursos ou orientações, cuidavam em sua crença de zelar pelo bem estar de seus filhos como lhes parecia correto. Felizmente o avanço da conscientização e da ciência tem melhorado muito as condições de vida do momento natalício, com os atos do pré-natal e as vacinas, por exemplo, teste do pezinho, campanhas de aleitamento materno, etc., tudo confluindo para minimizar as taxas de óbito infantil.

Este texto é um registro do folclore do parto, mas o autor não recomenda em absoluto a aplicação de nenhuma dessas práticas, por serem contrárias às normas preconizadas pela medicina e enfermagem. Sua abordagem nesta postagem é meramente por seu valor etnográfico. Este Blog não se responsabiliza por qualquer eventual dano à saúde decorrente dessas práticas ou semelhantes.  

Para encerrar, segue uma lista de vinte e cinco recomendações neste contexto folclórico, dadas de maneira informal (não científica), por diversos populares em Santa Cruz de Minas, no ano 2002. 


*  *  *

01- Mulher de resguardo não pode comer fígado de galinha, porque provoca rachaduras no seio;

02- não pode deixar o neném arrotar sobre o seio, porque provoca rachaduras e inflamações no peito;

03- banho com a flor do algodoeiro sobre cesariana não deixa os pontos de sutura inflamarem e acelera a cicatrização;

04- deixar uma tesoura ou um calção do pai sob o travesseiro do bebê para não deixar a bruxa vir chupar o umbigo do recém-nascido;

05- desamarrar todos os nós das roupas do enxoval infantil para não amarrar o parto;

06- comer muito almeirão, pera, batata-baroa (= cenoura amarela), mingau de fubá e canja, e beber cerveja preta, tudo para favorecer o aleitamento;

07- para secar o leite e desmamar a criança, espremer o peito para esguinchar leite na parede ou a mulher usa um colar de talos de mamona (Riccinus comunis, euforbiácea). O leite acaba à medida que os talos secam;

08- se uma pessoa visitar a criança em seu sétimo dia de vida e por olho gordo nela, a criança definha e morre, sem chances de recuperação;

09- se der sapinho (candidíase) na boca da bebê, benzer na igreja, com a chave do sacrário, em sinal de uma cruz, três vezes;

10- não pode falar em sapinho perto do recém-nascido, porque só de citá-lo já acomete o bebê;

11- pingar três gotas de leite materno na testa do neném e fazer uma cruz para cortar os males;

12- não tomar chá de hortelã (Mentha spicata, lamiácea), pois seca o leite;

13- a primeira fralda do bebê deve ser jogada sobre o telhado para a lua ver e assim não dar dor de barriga nele;

14- chá de erva da lua não deixa dar dor de barriga (cólicas intestinais) na criança;

15- chá e banho de picão-preto são úteis para tratar a tiriça (icterícia);

16- se o leite da mãe pingar no chão fará secar o aleitamento;

17- o coto umbilical depois de secar e cair deve ser enterrado debaixo de uma roseira. É para o anjo da guarda proteger a criança;

18- o coto umbilical deve ser enterrado debaixo de uma árvore frondosa, preferencialmente mangueira, no terreno da própria residência, fazendo com que a criança cresça amorosa e caseira;

19- o coto umbilical deve ser enterrado fundo, pois se ficar no raso e um rato, cachorro ou gato desenterrá-lo, provocado pelo cheiro, e carregá-lo para o devorar, a criança quando crescer se tornará um ladrão;

20- nos partos caseiros, a derradeira (placenta) deve ser enterrada debaixo da copa de uma árvore frondosa para a mulher ser feliz;

21- criança com tiriça (icterícia) não deve usar roupa amarela, pois aumenta o problema. Deve usar roupa branca para tirar o amarelo da pele;

22- criança depois do batismo firma a cor natural de sua pele (não fica com aparência de doente) e se aquieta;

23- chocolate não é aconselhável para mulher de resguardo. Por ser considerado alimento quente provoca cólicas no recém-nascido por causa da sua caloria passada pelo leite da mãe;

24- produtos suínos devem ser evitados no resguardo pois retardam a cicatrização da cesariana, por serem reimosos;

25- lava-se roupa do neném cedo para ser recolhida ao fim da tarde. Se pegar o sereno da noite passa friagem ao bebê, gerando cólicas.

Criança não identificada. Foto: Andre Bello. Data: não identificada. 
Acervo: Ulisses Passarelli (de origem familiar). 

Referências

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: André Bello, s/d. 

Notas 

[1] Parteira: mulher que, com práticas empíricas, faz trabalhos práticos de obstetrícia. Consta que a Câmara Municipal de São João del-Rei, a 23 de janeiro de 1740, "atendendo ao bem comum, determina que todas as mulheres que tivessem experiência poderiam partejar sem constrangimento de pessoa alguma até não mandarmos o contrário." (Cintra, 1982). 

- Revisão: 24/06/2026.