Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um tradicional grupo de pastorinhas das Vertentes

PASTORINHAS EM SÃO TIAGO [1]

         Sob o nome de pastorinhas é conhecido um grupo folclórico do Sudeste do país, constituído de crianças, no geral meninas, trajadas à pastora. No período natalino visitam as residências e igrejas, cantando na Missa do Galo ou noutra celebração. Saúdam os presépios com cantos, danças e toques instrumentais.

É uma tradição de bases históricas ibéricas. Através de variados personagens e por vezes de cenas dramáticas, anunciam a natividade de Jesus e episódios correlatos à boa nova, tais como a visita dos magos e dos pastores. Além disso, podem recolher ofertas. É uma modalidade reiseira.

Existe Brasil afora diferentes versões congêneres dessa manifestação. Rarefeita em toda sua área geográfica de ocorrência, encontra em Minas Gerais algum refúgio nas comunidades tradicionais. No centro-sul do estado, microrregião Campo das Vertentes, foi costume muito arraigado e ora em ocaso. Persistem três grupos ativos, sendo um em São João del-Rei, outro em Tiradentes e um terceiro em São Tiago. Deste último se ocupa este texto, segundo observações realizadas em 2001.

            Desconheço a data precisa de sua introdução nesta cidade, o nome do primeiro responsável ou de onde seria o seu modelo. Já existia na década de 1940, organizadas pela sra. Percília Maria da Conceição. Mais tarde assumiu o grupo a sra. Antônia Geralda São Tiago. Desativou-se em 1981. Reativou-se vinte anos mais tarde, com notável apresentação na Festa do Divino, de São João del-Rei.

            O grupo conta com 16 a 20 crianças pré-adolescentes. As Pastoras trajam vestido branco, com avental vermelho, chapéu de palha com fita vermelha ao redor da copa. Carregam xique-xiques feitos de tampinhas de garrafas amassadas, trespassadas por um arame e presas a uma haste de madeira. São os únicos instrumentos. Há também os personagens: São José, Nossa Senhora (que carrega a imagem do Menino Jesus, oferecendo-a para o beijo devoto) e os Três Reis Magos, todos com trajes caracterizadores.

            Não é grupo peditório, mas levam uma bandeja sobre a qual se pode depositar o donativo voluntário.

            O primeiro canto que entoam é o seguinte:

Natal! Natal!
Os anjos cantaram
Glória in excelsis
Nasceu Jesus!
glória a Belém,
ao peregrino,
Nasceu a vida,
hinos entoaram
Filho do Eterno,
nasceu a luz.
vamos também.
Jesus Menino.

            A primeira quadra é muito tradicional. Bisada, funciona como refrão.

A seguir entoam qualquer outra peça do repertório, que inclui também a conhecida canção natalina “Noite Feliz”, de Franz Gruber. Não há ordem fixa para a execução. Outro canto:

Louvemos ao Filho
Louvemos ao Filho
Louvemos ao Filho
da Virgem Maria;
que veio da altura;
que é feito menino;
que glória na Terra,
tomando os aspectos,
terá sobre a Terra,
no céu alegria!
da humana figura!
sublime destino!

            Também aqui a primeira quadra é o refrão.

Vinde cristãos,
Foi numa noite venturosa
Juntemos aos pastores,
vinde à porfia,
em que nasceu o Salvador
vamos com eles a Belém
cantar um hino de louvor
e os anjos com voz harmoniosa,
e lá nós cantemos
hino de paz e alegria.
deram no céu este clamor.
ao Salvador que hoje vem.

            O refrão lamentoso é em latim: “Glória! / In excelsis Deo” (Glória a Deus nas alturas).

Ainda em latim, cantam um tradicional hino natalino. A tradução é uma gentileza do professor Antônio Gaio Sobrinho:

Adeste fideles
(Aproximai-vos fiéis
Natum videte
(Vêde nascido
laeti triunfantes,
alegres, triunfantes,
regem angelorum!
o Rei dos Anjos!
venite, venite,
vinde, vinde,
Venite, adoremus! - bis
Vinde, adoremos!
in Bethlém!
a Belém!)
Venite adoremus Dominum
Vinde adoremos o Senhor!)

            A coreografia das partes é quase inexistente, limitando-se o pé de dança ao balançar ritmado do corpo na cadência da toada musical.

            O grupo mescla características eminentemente folclóricas com outras de origem erudita ou ao menos semi-culta, como o hino católico cantado em latim. Sua organizadora é uma devota afeita aos rituais da Igreja, sendo muito ligada à vida musical daquela cidade e a outras manifestações folclóricas locais.

            Chama especialmente a atenção no conjunto sua composição estritamente feminina, inclusive nos papéis masculino, a saber, São José e os Reis Magos, representados por meninas travestidas de homens, segundo observação efetuada em 2001. Note-se que alguns grupos deste folguedo abrem exceção à participação de meninos na execução dos papéis masculinos. Ë de se observar também que certos versos são tradicionais no repertório de outras pastorinhas e folias de Reis.

            Anoto por fim, que se confrontado com outros modelos de Pastorinhas é um grupo relativamente simples na sua estruturação, com poucos personagens, conservando além das Pastoras, apenas aqueles outros de cunho bíblico. Sua singeleza não lhe diminui o valor, senão mesmo o reforça.

            A vida ativa deste grupo se deve hoje, sem dúvida alguma, aos esforços abnegados de sua fiel organizadora, que merece aplausos e o respeito de todos nós.

Pastorinhas, São Tiago / MG,1947. Foto de arquivo, que ilustrou a edição deste texto no jornal Cidadania (São Tiago, n.54, dez./2006 – jan./2007), uma gentileza do editor Ricardo Alessandro da Mata.


Pastorinhas,São Tiago / MG, 1981. Foto cedida para reprodução pela mestra do grupo, sra. Antônia Geralda, a quem dedico e manifesto gratidão. 
* Texto: Ulisses Passarelli


[1] - In: Cidadania, São Tiago, n.54, dez./2006 – jan./2007. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Congado de Prados

Nos albores do século XVIII no Campo das Vertentes foram descobertos sucessivamente várias jazidas de ouro que trouxeram aventureiros ávidos pela fortuna de toda a parte da colônia e de além-mar. Juntas formaram o que passou para a história como as "minas do Rio das Mortes", terminologia usada para diferenciá-las de outro grupamento de garimpos, as "minas do Rio das Velhas" (Sabará, Caeté, etc.). 

Entre as minas do Rio das Mortes floresceu a de Prados, a partir de 1704, coetânea à de São João del-Rei (mesmo ano) e Tiradentes (1702). E desse período em diante pipocaram os descobertos auríferos: Córrego, Cuiabá, Ponta do Morro, Canjica, Lagoa Dourada, etc. 

Para o árduo trabalho de mineração veio o escravo africano e por onde se fixou logo a ordem catequética vigente implantava um templo dedicado a Nossa Senhora do Rosário, eleita sua protetora gloriosa. Em Prados também foi assim. A atraente Igreja do Rosário teve sua construção a partir de 1785, segundo VALE (1985: p.157). Em torno da devoção ao rosário floresceram os rituais do reinado e o cortejo dos congados. 

VALE (1985: pp.185 a 187) analisou despesas e recebimentos da Irmandade do Rosário e registrou o gasto de 8$400 em 1823-4 para música no dia do reinado; receita em 1832-3 advinda de doações do Rei, Rainha, Rainha de Promessa, Juíza, Juíza do Ramalhete, Juíza da Promessa; em 1838, despesa de 2$240rs aos tocadores de caixa (*).

A tradição dos congados em Prados ficou desativada por longos anos mas foi recuperada no início do século XXI com a formação da guarda "Nossa Senhora do Rosário", no estilo dos catupés regionais. Desde então, anualmente tem acontecido animadas festividades em honra ao rosário naquela cidade com todas as características típicas e além disto, o congado pradense participa de festas em várias cidades da região. 

Nas fotografias abaixo algumas registros de imagem deste grupo quando de sua participação na Festa do Divino de São João del-Rei, no Bairro de Matosinhos. 






Referências Bibliográficas

VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p. + anexos

Notas e Créditos 

* Registra outrossim "para o Rev. João Roiz. de Mello, pela Missa cantada no dia de Reis... 2$800rs" (p.185). 
** Texto e acervo: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 1 a 3- Iago C.S. Passarelli, 11/06/2011; 4- Ulisses Passarelli, 04/06/2006. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Pastorinhas de Tiradentes


Pastorinhas da Vargem de Baixo [I]

Ulisses Passarelli

            Consta por tradição oral que as pastorinhas em Tiradentes-MG vem de longa data, que porém, não sabe-se qual é. Não descobri o nome de sua primeira organizadora, nem tão pouco de qual modelo se valeu para introduzir este folguedo natalino no histórico lugar, ou ainda, quando foi desativado.
            Fato é que, na década de 1980, depois de muitos anos de paradeiro, com base no grupo antigo, foi reativada esta manifestação folclórica pela senhora Alice Lima Barbosa, no centro da cidade. Nova paralisação seguiu-se.
            Em 1990 formou-se novo grupo, pelos esforços da sra. Ana de Meneses (enfermeira de profissão; atualmente vereadora), natural de Dores de Ganhães-MG. Pessoa de boa vontade, trabalhadora, muito tem se dedicado a serviços comunitários, com mães e crianças, desde religião a futebol, passando por quadrilha e pastorinhas. Explica que aprendeu o folguedo com Dona Inácia, do Bairro Cascalho, que participara do primeiro grupo e a ensinou tal e qual como ainda se conserva (ano 2000), no Bairro Vargem de Baixo. Tal bairro foi bem humilde mas já apresenta vários melhoramentos, embora algumas crianças participantes sejam carentes. Fica à margem esquerda do Rio das Mortes, tendo ao lado a linha férrea da velha e tradicional Maria-fumaça, a nossa querida “Bitolinha”.
            O número médio de participantes é de 25 crianças ou pouco mais com idade em torno de 7 a 12 anos, divididas entre os seguintes papéis: os masculinos – quatro Pastores (meninos), trajados de calça e colete marrons, camisa branca; três garotos como Reis Magos vestidos de túnica nas cores branca, bege e púrpura, com manto amarronzado, cingidos de turbante ou de coroa de papelão coberta de papel dourado. Calçam sandálias. Na mão trazem os presentes: uma caixinha dourada ou baúzinho (ouro), uma naveta de igreja (incenso) e um ramo (mirra). Os femininos – quatro Ciganas com vestidos longos, rodados e plissados, mangas curtas, cheias, com elástico a altura do antebraço; pala e cabeção no vestido; lenço à cabeça. Tudo em tecido de estampa vivaz, bem colorida de bolinhas. Brincos de argola. Tamancos. Laçarote na cintura. Medalhinhas douradas na fronte. Na mão pandeiros enfeitados de fitas multicores. Uma Libertina, com longa túnica, calçada de sandália e a cabeça guarnecida por um pano longo que lhe cai sobre o busto. Cores sempre claras, tons pastéis. Sua figura lembra a mulher do Oriente Médio. Um número variável de Pastoras, com roupas de saia a altura dos joelhos, de pano com estampado miúdo – verde, azul ou vermelho – e, do mesmo tecido, um lenço à cabeça. Blusa e aventais brancos, manga curta, meio bufante, gola aberta em “U”. Calçam tamanquinhos de madeira com correia de couro e carregam cestinhos de papelão cheios de flores e revestidos da mesma fazenda da saia.
            O texto é simples, desenvolvido em cerca de quinze minutos ou pouco mais, com limitados pontos coincidentes com outras pastorinhas do Sudeste conforme a bibliografia consultada, senão nalgumas passagens muito generalizadas em outros grupos, conforme está indicado.
            Apresentam-se no período natalino, em visita a casas, igrejas e presépios. Em Tiradentes é possível ver pastorinhas e folias de Reis cantando pelo Natal, dando-lhe um cunho tão tradicional[1], com o apoio do pároco, Revº. Padre Ademir Sebastião Longatti. Chegando o grupo ao lugar onde cantarão, adiantam-se dois Pastores e virados para a assistência, declamam:

Jesus nasceu quando o galo na terra cantou!
Noite de paz, noite de amor, noite de luz!
Venham todos cantar!
É Natal do Menino Jesus!

            Pode haver mais declamação, de fundo religioso e espírito natalino. Então, entra cantando todo o grupo, em fila dupla paralela, na seguinte ordem: Pastores, Pastoras, Libertina, Ciganas e Magos. A organizadora procura colocar as crianças nas alas em ordem crescente de altura corporal. O canto de entrada é o seguinte [II] :

Natal, Natal! 

Estou indo 
Nasceu Jesus!
para Belém,
Nasceu a vida,
nasceu Jesus
nasceu a luz! [2]
p’ra nosso bem!

            Entram em marcha ao som deste canto na igreja ou casa visitada. Vale notar que não há acompanhamento de instrumentos. A música é apenas vocal.
            Nova posição: colunas – três ou quatro – ficando as crianças maiores nas colunas de trás e as menores na frente. Duas pastoras se adiantam e declamam olhando para o altar, presépio ou imagem:

Quero o céu hoje inteiro se abrindo,
Quero ouvir esta noite os arcanjos
Toda luz que vem lá do céu.
De harmonia que só Deus escuta;
Que venha a nós a vossa luz!
Quero ouvir os anjos falando com anjos
Deus possa ser o céu mais lindo
Pois nasceu nosso Deus numa gruta!
Que nasceu Jesus em Belém.


            Pode-se acrescer mais declamação. As pastorinhas então cantam louvando:

Vinte e quatro de dezembro
Os anjinhos lá do céu
Salve, oh Maria,
Meia-noite, deu sinal,
Em um coro angelical
Virgem de Nazaré!
Rompe agora a primavera
Estão cantando mais alegres
É Santa Mãe de Cristo,
Nesta noite de Natal! [3]

Nesta noite de Natal!

Esposa de São José.



Vamos, pastorinhas, vamos,
Viva, Jesus!
Viva, etc.
Vamos adorar!
Viva,  Jesus!

As boas novas anunciar!
Em sua lapinha


Cercada de luz! [4]


            Quando se visita uma casa há este canto específico para chegar:

Senhora dona da casa
Meu Jesus por mim nascido
Dê licença para entrar;
Na lapinha de Belém,
Viemos de longes terras
Foi nascer tão pobrezinho
O presépio visitar.
Para nos enriquecer.


Somos pobres pastorinhas
Na cidade de Belém
Nada temos para dar;
Ainda temos que chegar
Damos flores a Jesus
E por isso não podemos,
Paz pedimos para este lar.
Não podemos demorar.
(Refrão:)
Gloria in excelsis Deo!
Gloria in excelsis Deo!

            Os cantos são acompanhados de expressiva gesticulação das pastoras, reforçando a mensagem dos versos. Exemplos: em “os anjinhos lá do céu”, apontam para cima; “viva, Jesus!”, acenam as mãos, sacudindo-as; “salve, oh Maria!”, correm o braço do peito à direita, numa reverência; “somos pobres pastorinhas”, mãos no peito, girando o tronco; “nada temos para dar”, fazem sinal de negação com o indicador; “damos flores a Jesus”, indicam as cestinhas de flores de carregam. Não dançam. Só gesticulam.
            Feita a louvação apresentam-se as Ciganas, que se destacam do grupo. Cantam à parte, paradas:

Daí uma esmola

A pobre cigana,
Pois vós bem sabes  BIS
Que ela não engana!

            Então entra o refrão cantado pelas Pastoras e Ciganas, enquanto estas batem os pandeiros, acompanhando com passos sincronizados à direita e esquerda:

Nos causa gosto,

Nos causa alegria,
Ver que é nascido  BIS
O Filho de Maria!

            Param de cantar e tocar os pandeiros. Segue no mesmo esquema alternando estrofe e refrão, este sempre com toque dos pandeiros e dança:

Eu peço uma esmola
Eu peço ao senhor
Eu peço ao senhor
Pelo amor de Deus
Que dê-me um vintém,
Que dê-me um tostão,
Que a pobre cigana
Que a pobre cigana
Que a pobre cigana
Hoje não comeu. [5]
Chegou de Belém.
Hoje não tem pão.

              Recolhem no pandeiro as esmolas acaso ganhas. Voltam às colunas.
            Sai a Libertina do meio das crianças e em posição de destaque, canta com uma entonação muito marcante, dramática, virando-se lentamente para um e outro lado com expressiva movimentação dos braços. Canta sozinha mas no refrão é ajudada pelas pastoras que batem os pés em marcação de passo. Seus tamancos geram um efeito de percussão:

Eu sou uma libertina,
Ando aqui peregrinando,
Perdoai-me, oh Cristo!
Venho de Jerusalém,
Guiada por uma luz,
Dai-me vosso perdão;
Mas quero emendar-me
Por um astro cintilante,
Que eu vos dou em troca BIS
Daqui para Belém!
Que me mostrou Jesus!
O meu coroação!
(Refrão:)
Daí-me oh Cristo!
Daí-me vosso perdão;
Que eu vos dou em troca  BIS

O meu coração!

             A parte da Libertina é conhecida noutras pastorinhas, conquanto não ocorra nos grupos das vizinhanças de Tiradentes. Está nitidamente fragmentada pois noutras versões existe uma cena anterior onde as Pastoras ao seguirem para Belém para louvar o Menino Jesus, perdem uma companheira, que entrega-se à libertinagem por influência de Satanás, que chega a figurar na dramatização. Só depois de outras passagens é que ela percebe seu erro pecaminoso e pede perdão, arrependida, querendo seguir o mesmo caminho das companheiras. Nítido fim educativo, catequizador. Na Vargem de Baixo apresenta-se apenas a parte final deste entremez, desconhecendo-se a forma completa. Sempre foi assim em Tiradentes ou a teatralização inteira perdeu-se (ou foi abolida) na transmissão desta manifestação folclórica?
            Encerra-se com o número dos Três Reis. Também se adiantam para cantar e havendo presépio, vão até ele onde depositam seus presentes.

Os Reis Magos do Oriente
Lá das bandas do oriente,
Esta mirra perfumosa
Guiados por uma luz,
Uma estrela nos guiou.
Em vossos pés depositar,
Vem curvar-se reverentes
Ofertar ao Deus-Menino

Como prova de amizade

Ao seu rei, o Bom Jesus.
Este ouro que vos dou.
Vossas glórias incensar.

            Retiram-se para cantar noutra paragem, podendo então cantar uma música de igreja na saída.
            As pastorinhas, por vezes prefixadas com as designações “cordão”, “reis” e “folia” de pastorinhas, é manifestação típica do Sudeste do Brasil e se diferencia das versões de outras áreas. A do Norte é a que mais se lhe assemelha. Os nomes mudam: pastoral, pastoril, baile-pastoril, lapinha. A forma do Sudeste é hoje rara. Reduziu-se muito nos quatro estados desta região, sendo as terras mineiras seu maior reduto na atualidade... E causa alegria saber que as Vertentes contribuem nesta lista de sobreviventes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Théo. O Reisado Alagoano.
LAMAS, Dulce Martins. Pastorinhas, pastoris, presépios e lapinhas. Rio de Janeiro: Olímpica, 1978. 173p.
PASCOAL, Ednéa do Marco. As pastorinhas: estudo do folclore angrense. Rio de Janeiro: Olímpica, 1975. 93p.
PASSARELLI, Ulisses. Pastorinhas do Menino Jesus. In: Carranca. Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.23, jul.1997, p.8.
_______ . Pastorinhas de Dona Glorinha. In: Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, n.18, nov.1997, p.184-200.
PAZ, Ermelinda Azevedo. As pastorinhas de Realengo. Rio de Janeiro: UFRJ/FUNARTE, 1987. 137p.
REZENDE, Angélica de. Lembrando o Natal e suas tradições. Belo Horizonte: Sion, [s.d.]. 110p.



[1] - No Bairro Vargem de Baixo da cidade de Tiradentes há também uma folia de Reis, comandada pelo sr. Hildo Rosa. Outras mais, vindas da zona rural, percorrem a cidade.
[2] - Canto conhecido nalgumas folias de Reis. Na do Arraial das Cabeças (Bairro Bonfim), em São João del-Re,i cantava-se: “Natal, Natal! / Natal chegô! / Natal querido, / do Redentô!”.
[3]  - Quadra difundida, com variantes. Exemplos: “Vinte e quatro de dezembro / meia noite, deu siná, / rompe orora a primavera / viva a noite de Natá.” (Reisado, Satuba – Rio Largo/AL); “Em dezembro, a vinte e quatro, / meia noite deu sinal / - que Jesus tinha nascido / era noite de Natal!” (Pastorinhas, Miracema/RJ).
[4]  - Nas pastorinhas de Angra dos Reis / RJ há este canto dos Pastores: “Ora viva, Jesus! / Ora viva, Jesus! / Dentro da lapinha / cercado de luz!”
[5]  - Quadra divulgada em pastorinhas. Foi registrada em Miracema/RJ, Angra dos Reis/RJ e São João del-Rei / MG.



[I] - In: Tradição. São João del-Rei, Subcomissão Vertentes de Folclore, n. 4, jan. / 2000.
[II] - O folclorista Américo Pellegrini Filho em “Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada”, livro publicado em São Paulo pela Editora Manole, em 2000,  incluiu no seu livro um tópico dedicado às pastorinhas, citando este texto de minha autoria. Consta em sua aprimorada pesquisa o registro musical em pauta dos cantos deste grupo folclórico. 


Os Três Reis Magos, personagens das Pastorinhas da Vargem de Baixo.
Foto: João Hipólito, 1999. Recorte: Ulisses Passarelli, 2012.

sábado, 6 de outubro de 2012

Congado das Mulheres




"Congada Azul e Branco de Nossa Senhora Aparecida", de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), durante a Festa do Rosário na própria comunidade, em 08/10/2011. Capitão: Domingos Sávio dos Passos.
Foi fundada em 2006. Trata-se de uma guarda mista, predominantemente de mulheres, mas também com alguns homens, mesclando elementos de congo (vestimenta, formação) e de catupé (música, cujo ritmo é conhecido "batidão"). A outra guarda local (congo) é tipicamente masculina e pela característica da "Azul e Branco", é carinhosamente alcunhada por "Congado das Mulheres". 

Notas e Créditos

* Texto e acervo:Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Folia do Fé

O povoado do Fé situa-se no distrito de São Gonçalo do Amarante, em São João del-Rei/MG e é constituído de um pequeno conjunto de casas, chácaras e sítios tendo uma igreja dedicada a São Vicente de Paulo. Dista seis quilômetros da sede municipal. 

A tradição das folias de Reis no distrito é muito arraigada, embora as mudanças sociais e o êxodo rural as estejam extinguindo na região e das muitas que haviam restam poucas. No Fé uma folia que marcou época pela longa atividade, qualidade musical e fundamento dos versos foi a "Folia do Luís Candinho" (Luis Cândido Gonçalvez), grande mestre dessa arte reiseira, que trazia a tradição de sabedoria familiar, posto que seu pai e irmãos mantinham uma folia no Caburu (atual São Gonçalo do Amarante, vila que encabeça o distrito), que se celebrizou como a "Folia dos Candinho". 

A folia visitava as casas locais e ainda, caminhando à pé nas noites escuras pelas estradas vicinais e trilhas de mato, ia aos sítios e residências, na Colônia do Bengo, Buião, Cruz das Almas, Cunha, Serra do Julião, Brumado de Baixo e outras localidades. 

A foto abaixo, assaz saudosa, flagra o momento de uma partida para jornada, saindo da casa do mestre, que aparece de chapéu ao centro da foto, com a viola ao peito. Na bandeira, o insigne folião Mário Calçavara, que após o falecimento de Luis Candinho assumiu a direção da folia. 

Folia do Fé em 1993. 
Notas e Créditos

* Texto, fotografia e acervo: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Marujos de Barbacena

A cidade de Barbacena, situada na Mesorregião Campos das Vertentes, encabeçando uma de suas três microrregiões (a que leva seu nome), está numa situação geográfica e cultural entre as Vertentes e a Zona da Mata. Justo nesta última, são abundantes as guardas de marujos, aliás, seu tipo mais comum de congado. 

Seria então natural que Barbacena tivesse seu terno de marujeiros. Em sua terra seu festejo acontece na Igreja de Santa Efigênia. 

Com certa frequência eles em espírito de irmandade e movidos pela devoção viajam até São João del-Rei onde participam da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo e da Festa do Divino no Bairro Matosinhos. As imagens abaixo retratam uma destas participações, no Bairro São Geraldo, a 18/08/1996. 

Naquele mesmo ano, em Barbacena, uma octogenária, "Dona Josefina", informou-me alguns cantos de marujos dados como muito antigos, que puxara da memória prodigiosa: 

"Eu não vim aqui por mestre
(ai) nem pro ensino de ninguém! - bis
Que eu sou dos que aqui estão
(ai) que nós todos canta bem..." - bis

"Oi, viva o Rei, viva a Rainha!
Viva a Rainha e viva o Rê!
Viva o Capitão-Mestre
e o Capitão de Aruê-êh!"

"Rainha nova,    BIS
Rainha de Portugal
Oi, viva a Rainha nova,   BIS
que deu nós a liberdade!"

"Nossa Senhora da Penha
(ai) é madrinha de João; - bis
eu também sou afilhado 
(ai) da Virgem da Conceição! - bis

"Nossa Senhora da Penha
(ai) é madrinha de João; - bis
eu também fui batizado
(ai) da Virgem da Conceição!" - bis

"(Ai) Eu sou marinheiro,
(Ai) Eu sou marinhá,
eu tô na canoa,
(Oi) eu quero remá!"

"Eu nasci numa campina,
lá por cima de uma serra,  BIS
firma ponto, minha gente,
que nós estamos em guerra! BIS

É agulha de marinheiro,  
alfinete de mariá!   BIS
firma ponto minha gente
tão querendo me tomá..."    BIS




Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli .

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Primeira Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei

Primeira Festa do Rosário realizada no Bairro São Geraldo, São João del-Rei / MG, 1958.
Observar o reinado ao fundo, o catupé do Capitão Luís Santana (Bairro São Dimas) à direita, o moçambique do Capitão Geraldão à esquerda (Vila Nossa Senhora de Fátima). 
 Foto gentilmente cedida para reprodução pelo sr. Luís Santana. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: autor não identificado, 1958.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Congado de Tiradentes




Congado "Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia", surgido em meados de 2012 no povoado da Candonga (Tiradentes/MG), fundado pelo 1º Capitão "Luís  Fragaia" (Luís Pereira dos Santos) 
(batendo pandeiro na filmagem). O canto está a cargo do 2º Capitão, "Prego" (Claudinei Matias do Nascimento), neste vídeo em toque de marcha moçambiqueira. Participação na Festa do Rosário do Bairro São Dimas, em São João del-Rei. O grupo se fixou em Tiradentes, no Bairro Capote. 

Notas e Créditos

* Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli, set.2012.