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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 5 de abril de 2016

Breve História da Criação do Quicumbi, o Cemitério Municipal de São João del-Rei

Nos tempos coloniais o costume era que os enterramentos se dessem no interior das igrejas. Os velhos templos do século XVIII das cidades históricas ainda conservam algumas vezes tábuas de assoalho muito antigas e largas, numeradas em baixo relevo. Guardam as campas, onde outrora eram sepultados os cadáveres. Obviamente que o crescimento da população e as razões da higiene pública inviabilizaram semelhante prática [1].

Foi então, que as preocupações de ordem sanitária começaram lentamente a ganhar corpo na centúria seguinte. VALE (1985) esclareceu que: "uma Carta Régia de 14 de janeiro de 1801 proibiu enterramentos nas Igrejas. Parece, porém, que à vista de muitas representações que se levantaram de todas as partes do Reino, tanto em Portugal como no Brasil, essa disposição não foi levada em conta.”

Já no regime imperial, uma lei datada de 01/10/1828, do Imperador Dom Pedro I proibiu os sepultamentos no interior das igrejas obrigando a construção de cemitérios. Não foi sem resistência, representações e protestos que esta lei vingou. A ordem não foi bem vista. Sepultar na igreja fazia parte de um sistema religioso bastante arraigado e partia de uma ideia de redenção: o corpo no interior da casa santa, a Casa de Deus, era como se já estivesse mais próximo da salvação por estar em território sagrado. Da impopularidade desta mudança por toda parte em geral, o caso mais proeminente ocorreu na Bahia, gerando uma revolta popular com apoio do clero e das irmandades, que ficou conhecida por “cemiterada”, quando o povo insatisfeito, protestando rua afora, invadiu o cemitério quebrando tudo. No caso de Salvador a situação foi agravada pela concessão do governo provincial dada a uma empresa para explorar os sepultamentos (SENA, 1981). 

Em São João del-Rei, transcreveu o professor GAIO SOBRINHO (2010) um ofício de 23/04/1829, do Secretário da Câmara às ordens terceiras e irmandades, reportando à lei imperial do ano anterior, para não se sepultar mais dentro das igrejas, a partir de 1º de janeiro do ano seguinte, elegendo-se uma elevação de terreno junto à Casa do Conselho como local para o cemitério geral onde se enterrariam membros de todas as confrarias.

A edificação dos cemitérios prosseguiu. A mudança veio para ficar. Além do cemitério geral, cada irmandade cuidou de criar o seu próprio, o que foi ratificado por uma ordem governamental da província em 1833 (GAIO SOBRINHO, 2010). Sem afastar-se muito dos templos, eram construídos nos adros, nos fundos ou arredores. O campo de enterramentos ainda era santo... Mas, no geral, e em especial em cidades muito tradicionalistas como São João del-Rei, praticamente, para ser enterrado, era preciso pertencer a um determinado sodalício religioso. Isto porque cada irmandade, confraria e ordem terceira se esforçava por construir seu próprio cemitério, por assim dizer, reservado ou restrito aos seus irmãos filiados. Assim correu no século XIX.

Uma exceção em São João del-Rei foi o a Irmandade da Misericórdia, ligada às atividades hospitalares da Santa Casa, que tinha um cemitério fronteiriço, onde hoje está o Colégio Nossa Senhora das Dores, ou mais exatamente nos seus fundos, junto à encosta do barranco. O pequeno Cemitério da Misericórdia acolhia os corpos de indigentes, loucos, leprosos... os proscritos da sociedade oitocentista. Esta irmandade mantinha também um leprosário, “lazareto”, como se dizia, conservando os pacientes com hanseníase numa unidade isolada, onde hoje está o Teatro Municipal.

Ocorre que em 1881 a dita Irmandade da Misericórdia acabou com o lazareto e ao que tudo indica já não havia onde reservar os pacientes de Hansen daquela época; não bastasse, no final do século XIX, em 1897, o cemitério desta irmandade estava lotado e o referido colégio em franco processo de construção, demandando a extinção do cemitério (ALVARENGA, 2009).

A questão gerava um severo problema de ordem pública e a administração municipal se viu às voltas com esta questão. Paralelamente, era o início do período republicano e a primeira constituição do novo regime previa a separação do governo e da religião, a chamada laicização do estado. Portanto, era mister a edificação de um cemitério público, desvinculado da Igreja.

Neste aspecto, indicam os estudos do professor Antônio Gaio Sobrinho, que um texto publicado no jornal local "A Pátria Mineira", datado de 30/01/1890, indicava a necessidade iminente de construção de um cemitério em local apropriado baseado nas razões da higiene: “Os cemitérios devem ser construídos fora do recinto da cidade, numa distância de 1000 a 1500 metros, em terreno seco e colocado de tal forma que os ventos dominantes não levem os eflúvios para a cidade; fartamente arborizados e mesmo separados da cidade por uma zona arborizada” Etc. Ainda o mesmo autor cita mais um texto a propósito do mesmo jornal e ano, datado de 11 de setembro, que frisava: “que a cidade dos mortos seja separada da dos vivos por uma fila de árvores que impeçam aos ventos levar em suas correntes as emanações e os micróbios que infeccionam o ar.” (GAIO SOBRINHO, 2001).

Havia um medo de que gases, vapores, eflúvios, emanações, micróbios advindos das sepulturas esparramassem epidemias pela cidade. Era ainda a crença no mal ar. É muito útil neste momento transcrever mais um trecho do mesmo professor, que elucida sobre a escolha do local, em tudo coerente com aquilo que A Pátria Mineira reclamara anos antes:

“Em São João del-Rei, em março de 1897, uma comissão de médicos composta pelos doutores Cornélio E. das Neves Milward, José Teles de Morais Barbosa, Juvenal das Neves e Galdino E. das Neves Sobrinho, indicava a região do Quicumby como apropriada para a construção do cemitério público por ‘situar-se no norte/nordeste da cidade, distante dois quilômetros, separada da povoação por colinas e florestas que impedem o vento e ser um terreno úmido e permeável que facilita a decomposição cadavérica.’ Em 30 de novembro de 1898, a Câmara desapropriava a chácara do Quicumbi para nela se estabelecer um lazareto [2] e o cemitério municipal, que, no ano seguinte, seria dividido em 4 partes, reservando-se uma para os não católicos. É curioso, porém, que num livro de óbitos da Ordem Terceira de São Francisco, antes desse ano, já existem referências a enterramentos no Quicumbi.” (GAIO SOBRINHO, 2001, p.100).

Por este texto observamos que o local servia aos requisitos, que segundo a visão da época, eram os propícios. O mais interessante era a indicação da existência das matas entre a região escolhida e o centro da cidade, o que se deduz fossem de cobertura florestal a encosta do Bairro das Fábricas, Dom Bosco, Lava-pés (atual Bairro São Dimas), Bela Vista, Barro - áreas hoje completamente urbanizadas.

Foi então que o poder público resolveu adquirir a Chácara do Quicumbi. Informou CINTRA (1982), que em 09/02/1898 uma lei municipal declarou esta chácara como de utilidade pública para efeito da criação do cemitério local. O proprietário da Chácara do Quicumbi era o Major Joaquim de Castro e Sousa, que falecera dez anos antes, em 05/01/1888. Era casado com Elmira Maximiana Batista, da família Batista Machado.

Hebdomadários locais registraram que a Resolução nº 147, da Câmara Municipal são-joanense, de 22/04/1899 autorizou sua construção, com portão de ferro. Foi orçado em sete contos de réis (S.JOÃO D’El-REY, 1899). Mais tarde, o cemitério passou por uma reforma, ou apenas, reparos em 1923, cuja extensão não se sabe, pois a notícia jornalística foi muito lacônica (A TRIBUNA, 1923).

Quanto à palavra quicumbi é um tanto enigmática e não está claro seu significado exato. Uma interpretação oral diz que significa “barro mole”, referência ao terreno argiloso desta região, que teria um grau de umidade adequado à dissolução dos cadáveres. Particularmente não colocamos crédito nesta interpretação. A palavra é claramente de origem africana, ou mais especificamente angolana: “cumbi" significa sol ou luz, tanto em idioma quimbundo quanto no ambundo (PEREIRA, 2005, p.344) [3]. Por sua vez se prestou à formação de várias palavras de sentido semelhante, variando apenas os sufixos, referindo-se a um grupo folclórico de dança, folguedo, espécie de congado.

O que se sabe ao certo por registros da cultura popular do início do século XIX é que havia uma cerimônia com danças e cantorias usada para as ocasiões fúnebres de sepultamento de membros da realeza africana que no Brasil estavam subjugados como escravos. No féretro, os escravizados então dançavam o quicumbi ou cucumbi. Esta mesma dança era usada nos rituais da puberdade, referência a ritos de passagem, comemorativo da mudança da infância para a adolescência.

Quicumbi era, portanto um tipo de congado, um auto popular, dança folclórica de caráter dramático (segundo a base conceitual deixada por Mário de Andrade). Brasil afora ele assumiu diversos formatos, afastando-se ao longo dos anos de seu objetivo central e se integrando em alguns lugares ao ciclo festivo do Rosário e em outros ao do carnaval, sob diferentes nomes: quicumbi, cucumbi, cacumbi, ticumbi, catumbi. 

O registro exato da dança do quicumbi em São João del-Rei nunca o localizamos. O nome da chácara [4] parece, contudo, e pela lógica, ser uma referência à dança, principalmente por se tratar de uma região antigamente isolada, distante da cidade, escondida por matas no interior das quais os escravizados e forros, nos tempos do maldito cativeiro, poderiam fazer seus rituais longe dos olhos discriminadores da sociedade escravocrata.

Túmulo da Jovem Desconhecida: local de devoção popular no Quicumbi.
São João del-Rei/MG. Setembro/1998.

Referências bibliográficas

ALVARENGA, Luís de Melo. História da Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei (1783-1983). Belo Horizonte: Formato, 2009. 444p.il. p.48-49.

CABRITA, Leonel Pedro. A Cultura dos Chokwe. Página Web de Pedro Cabrita, 2012. Disponível em: https://pedrocabrita.wordpress.com/importante-conhecer/arte-e-cultura-2/a-cultura-dos-chokwe/  acesso em 24 nov. 2025.

GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n], 2001. 128p. p.81-100.

GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.159 e 203.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed.  Belo Horizonte: Imprensa Oficial: 1982. 2v.

PEREIRA, Edmilson de Almeida. Os tambores estão frios: herança cultural e sincretismo religioso no ritual de Candombe. Juiz de Fora:  FUNALFA Edições; Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005. 624p.il. 

SENA, Consuelo Pondé de. A Cemiterada: curioso motim baiano. In: MAN, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1981. n.10, ano 12. p.3-6.

VALE, Dario Cardoso. Memória histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n], 1985. 344p. + anexos. Os Cemitérios, p.105-106.

Referências hemerográficas

S.João d’El-Rey, n.17, 13/05/1899. São João del-Rei.

A Tribuna, n.468, 15/04/1923. São João del-Rei.

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] As tensões sociais entre a administração municipal e os setores religiosos ao final do século XIX, por conta do cemitério público, podem ter sido relevantes. Na vizinha cidade de Prados, por exemplo, no mesmo ano do nosso Quicumbi, registrou VALE (1985), que a partir de 22/03/1898 a administração sobre o cemitério foi tirada da Igreja, "muito a contragosto do Revº Vigário da época _ Padre Antônio Cardoso Damasceno _ representando a Irmandade do Santíssimo Sacramento _ , que protestou e procurou até embargar outra que não fosse a sua administração" (p.106). Por fim, um decreto de trinta de abril daquele ano regulamentou as atividades do Cemitério de Prados.

[2] Para saber mais sobre a história dos leprosos em São João del-Rei, leia também neste blog o texto: OS LÁZAROS.

[3] Tanto mais, há tambores, atabaques ou batuques que evocam este termo: entre os quiocos, ngoma ya kasumbi, é o nome de um atabaque pequeno (PEREIRA, 2005, p.547); entre os chokwe, também em Angola, há um atabaque chamado cacumbi-e-cass (CABRITA, 2012). 

[4] E existe também o pequeno Córrego do Quicumbi, na mesma área do cemitério, hoje engolido por galerias subterrâneas sob a urbe. 

- Revisão: 24/11/2025.  

domingo, 10 de agosto de 2014

Os lázaros

Breve história dos leprosos em São João del-Rei

Desde remota antiguidade, o homem teme terrivelmente a doença causada pelo bacilo de Hansen, a famigerada lepra, hoje preferencialmente chamada hanseníase - dados os desgastes e discriminações surgidas em torno do termo lepra, que por séculos restringiu e mesmo isolou seus doentes do convívio social, em diferentes culturas e épocas. A actinobactéria causadora é Mycobacterium leprae, hoje combatida com eficácia graças a tratamentos poliquimioterápicos, sendo uma doença curável. Os processos educativos atuais colaboram com a melhoria da conscientização, pelo fim da discriminação e almejam um tratamento humanitário. A conscientização passa também pelas orientações do autoexame, capazes de identificar fases iniciais da doença, o que facilita a cura através de um tratamento precoce, que deve ser sempre incentivado. 

No passado, porém, os pacientes com hanseníase sofreram o opróbrio de uma sociedade discriminadora, fomentada pela própria religião que os considerava impuros (Lev. 13: 2-3). O complexo ritual judaico de purificação está descrito no capítulo 14 do Levítico. Até manchas nas paredes, apenas mofo, era considerado sinal de impureza leprosa e podia resultar na derrubada da moradia e descarte dos materiais de obra. O impuro tinha várias interdições religiosas e a lepra era encarada como praga ou castigo divino. Mas Cristo os curava piedosamente (Lc. 16: 11-19): "Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!" (...) "Levanta-te, e vai, tua fé te salvou."

Consta que na idade média quando andavam pelas ruas tinham que portar uma sineta, cujo som alertava de sua chegada, pelo medo extremo de contaminação que havia.

O personagem bíblico Lázaro é o patrono dos afetados pela hanseníase. Sua história narrada pela Bíblia é um extraordinário caso de sofrimento humano, pois que coberto de lesões corpóreas, na agonia da dor e prurido, os cães lambiam suas feridas (Lc.16: 19-31). Lázaro recebeu de Cristo a extraordinária recompensa da ressurreição, num dos episódios mais marcantes da passagem terrena de Jesus (Jo. 11: 1-44). Há quem lhe negue a existência, colocando-o na categoria de mera parábola, ou ainda, dizem os exegetas, que o tal Lázaro ressuscitado não é o mesmo chagado, mas ao povo isto nada importa e não passa de falta de fé: Lázaro é um só, santo exemplar, modelo de humildade e resignação. 

São Lázaro. Capela de Nossa Senhora das Vitórias, 13/06/2013.
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG).

Ora, bem mais tarde, sobrevém outra vida em santidade que se soma ao tema das doenças dermatológicas: São Roque (séc.XIV), o santo francês de Montpellier, que cuidava dos doentes da peste negra, que assolava a Europa, acabou contaminado pela mesma. Sua imagem também mostra ferida exposta com o cão a lamber.

Imagem de São Roque. Igreja de São José e Nossa Senhora das Dores.
Alfenas/MG. 03/08/2019.


Ambos passaram para o devocionário popular como protetores contra doenças da pele (a rigor não apenas a lepra). No mais, ao costume católico, se somou o sincretismo religioso afro-brasileiro, que identificou por similitude de atributos: São Lázaro ao respeitadíssimo orixá  Sr. Omulu, o velho, e a São Roque, a Obaluaiê, o jovem. Orixá ligado às almas (no sincretismo, uma alusão à passagem do Lázaro bíblico no mundo dos mortos e seu retorno pelo poder do Messias) e a ocorrência das lesões cutâneas: peste, lepra, "bexiga" (varíola), "ferida brava" (leishmaniose tegumentar), "fogo selvagem" (pênfigo foliáceo). O povo acredita que o santo/orixá pode livrar a pessoa desses males, ou por outro lado, ambiguamente, pode castigar gerando estes males, quando se lhes desrespeita. Automaticamente o cachorro é seu animal votivo e símbolo de sua proteção.

Nos terreiros, rituais próprios são dirigidos para prevenção e cura, entre pontos cantados, firmezas, oferendas e banho com "flor de Omulu" ou "deburu"(pipoca), quando esta é esfregada no corpo do consulente (que permanece vestido) e depois despachada, promovendo descarrego dos males.

O povo procura as igrejas onde tem imagem dos santos citados para alcançar suas graças de cura, ou lhes oferece intenção de missas, ou deposita óbolos nas caixas de coleta como oferta pecuniária na intensão de conquistar as benesses dos santos. Em Santa Cruz de Minas nos anos noventa, colhi a informação de que quando alguém tem feridas nas pernas, deve pegar um pires ou prato e sair rua afora pedindo esmola pelo amor de Deus, em nome de São Lázaro. O fruto da coleta deve ser entregue numa igreja e assistir a missa na intensão do santo, que a cura logo vem. Raras são suas igrejas específicas. Em Passa Tempo há uma capela dedicada a São Lázaro.

Capela de São Lázaro. Olaria (Ibertioga/MG). 19/06/2021.

Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de São Lázaro.
Povoado do Cajuru, Seritinga/MG. Agosto/2015. 

Em São João del-Rei o saudoso "Chico Cumbuca", morador do Morro da Bela Vista, rei de congado e conceituado benzedor de feridas nas pernas, era devotíssimo de São Lázaro, a quem recorria nas benzeções. Conservava sua imagem num oratório ao ar livre, no jardim fronteiriço de sua morada, pois dizia que não era bom ter a imagem deste santo dentro de casa por causa do tipo de graças que operava (movimentação de energias densas, que podem trazer desequilíbrios para o lar).

Na cultura popular, a religiosidade simples do povo oferece aos santos a mesa dos cachorros (para São Lázaro) e o galo (para São Roque). A mesa é um velho rito citado no Brasil setentrional e parte do Nordeste, mas também foi conhecida em Minas Gerais, inclusive no Campo das Vertentes. Consiste basicamente em estender no chão uma toalha de mesa, por pratos servidos de boa e farta comida e buscar cães para que comam. Os cachorros comem nos pratos e a mesa é ofertada ao santo como pagamento de promessa ou para pedir uma graça a São Lázaro. Foi conhecido nesta região [1]. O galo de São Roque é referência ao costume rural de consagrar desde pintinho um galo a São Roque, que é criado isolado do contato com galinhas de maneira vitalícia, permanecendo virgem. O costume garante a saúde do restante da criação. O galo só é substituído por outro em caso de morte e não pode ser usado como alimento, vendido, trocado ou doado.

Pela relação da lepra com São Lázaro, o substantivo próprio adjetivou-se para designar os doentes de hanseníase: um lázaro, equivale a um leproso, numa enunciação piedosa, visando eufemismo; lazarento ao contrário é um xingamento pejorativo, revestido de escárnio; lazareto é leprosário (Brasil) ou leprosaria (Portugal), centro de recolhimento e tratamento de leprosos, morféticos.

Em São João del-Rei os cuidados com os doentes de hanseníase vem de longa data e falar deles é falar dos excluídos.

Notícias jornalísticas de São João del-Rei sobre as vítimas de hanseníase.


Os cuidados iniciais aos excluídos eram dados pela Irmandade de São Miguel e Almas, criada em 1716. Mais tarde esta missão foi transferida à Casa da Caridade, criada em 1783 pelo irmão Manuel de Jesus Fortes (ALVARENGA, 2009). Em um documento de 1805 os vereadores de São João del-Rei solicitam ao governador a criação de um hospital para se recolher leprosos:

"respeito à liberdade e licença com que vivem as pessoas lazarentas que, sem cautela nem temor de infeccionar aos mais, caminham impunemente pelas ruas, habitam, comem e bebem, sem reserva, nas casas dos particulares, entram de mistura nos templos, onde por acinte passam a lavar as chagas em Água Benta" (...) "Manoel de Jesus Fortes, que nesta vila tem estabelecido um hospital público para os pobres enfermos de outras moléstias, suplica e lembra a indispensável necessidade que há do estabelecimento de semelhante hospital" (SOBRINHO, 2010).

Esta instituição foi convertida em Santa Casa da Misericórdia em 1816 e de fato manteve um leprosário em terreno próprio, exatamente onde hoje se situa o Teatro Municipal. Uma deliberação da mesa administrativa da Irmandade da Misericórdia, determinou em 1817 a construção de um muro de pedras isolando o lazareto e impedindo a livre circulação dos doentes, "para evitar que eles possam ir comunicar-se e infestar os moradores da Vila". Quando morriam, eram sepultados no pequeno Cemitério da Misericórdia, criado em 1819 e desativado em 1897.

Falando sobre a Santa Casa de Misericórdia, Richard Francis Burton, em 1867, comentou com brevidade: "possui, também, anexos para insanos, leprosos e portadores de doenças contagiosas." (BURTON, 2001, p.158)

É de se imaginar as dificuldades surgidas com o fim do serviço a estes pacientes. O lazareto da Santa Casa foi demolido em 1881. SOBRINHO (2001) informa que a partir do parecer de uma comissão de médicos reunida em março de 1897, definiu-se a região do Quicumbi [2], onde havia uma chácara, como propícia ao estabelecimento de um lazareto e um cemitério. Com este intuito, foi declarada de utilidade pública no ano seguinte, por força de uma lei municipal de 09 de fevereiro (CINTRA,1982). [3]

No ano de 1927 foi inaugurado o "Posto de Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas", nos diz o jornal local A Tribuna, de 22 de maio. Nas edições seguintes saíam notas jornalísticas esclarecendo a quantidade de pacientes atendidos, número de novos casos, referências a casos antigos, total de injeções aplicadas, cirurgias e outros procedimentos. O mesmo jornal em 1931 relata a criação de uma filial são-joanense da "Sociedade Mineira de Proteção aos Lázaros e Defesa contra a Lepra". No concorrido ato da inauguração discursaram e foram intensamente aplaudidos os senhores, Eloy Reis e Francisco Mourão Filho. A direção desta instituição ficou assim constituída: Presidente - Coronel José do Nascimento Teixeira; 1 º Vice-presidente - Padre José Maria Fernandes; 2º Vice-presidente - Comandante do 11º R.I.; 1º Secretário - Luís de Melo Alvarenga; 2º Secretário - Professor Antônio R. Avellar; Tesoureiro - Carlos Alberto Alves.

Desta data em diante escasseiam as notícias sobre os cuidados dispensados aos pacientes de hanseníase.

Meus pais me narraram certa feita uma marcante lembrança de suas infâncias, na década de 1950, em São João del-Rei, que vez por outra via-se pelas ruas acometidos de hanseníase a cavalo, marcados por curativos e bandagens, olhados por todos com ressalvas. Pediam ajuda aos pedestres e pessoas em observação nas janelas, sem desmontar do animal e a oferta lhes era dada meio à distância. Comentava-se do temor da doença pois um dos pedintes não teria nariz. Se pediam água ou comida, não lhes negavam, mas não aceitava-se de volta os vasilhames, abandonados na via como resíduo sólido. 

Notícias orais dão conta de ter existido um leprosário no Caquende, povoado sito no extremo sudoeste da zona rural de São João del-Rei. Recordo ainda dos tempos de criança, de ouvir as senhoras recomendando entre si não receber em casa ninguém do Caquende, não pegar na mão para cumprimentar e se desse algo de comer ou beber, descartar depois a vasilha, pois podiam trazer consigo a contaminação da temida doença, que naquela São João del-Rei dos anos setenta, parecia ainda atemorizar como se fora nos tempos bíblicos.


Cuidados com os pacientes de hanseníase eram noticiados nos jornais da cidade.

Créditos

-Texto, fotografias e fotomontagens: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Esta oferenda sui-generis é de uso antigo e em ocaso. Informações orais dão conta da realização da mesa dos cachorros ou mesa de São Lázaro em: 
- Jacuí (sudoeste de Minas Gerais): informante Henrique Américo Marques de Oliveira, Passos-MG, 29/07/1997; 
- Santa Cruz de Minas (centro-sul de Minas Gerais): informante Elvira Andrade de Salles, Córrego, Santa Cruz de Minas, 1996;
- Santa Rita do Ibitipoca (centro-sul de Minas Gerais): informante Júlio Prudente de Oliveira, Maquiné, São João del-Rei-MG, 1996.  

[2] Quicumbi: palavra incógnita, de origem africana, banto, plausivelmente da língua quimbundo, formada pelo radical cumbi, traduzido por "sol". Aparece no Brasil ligado a outros prefixos formando palavras similares: cacumbi, cucumbi, ticumbi (e corruptelas: catumbi, cacumbinho, tiquimbi), todas nominando um folguedo popular, dança folclórica, espécie de congado, registrado em Pernambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em variações estilísticas e de desenvolvimento dramático. A significação exata não é conhecida. Relatos antigos informam que originalmente eram praticados na ocasião da circuncisão dos filhos da realeza africana escravizada no Brasil, daí, a palavra quicumbi e suas variantes, em conjunto, serem entendidas sob o significado de "puberdade", festa de um antigo ritual de passagem para a adolescência, com cantos e danças, mais tarde absorvida pelos ciclos festivos do rosário e carnaval, mais intensos e frequentes. Em São João del-Rei nunca encontrei referências de quicumbi como folguedo, embora não fosse impossível em sua origem. Foi sim, o nome de uma chácara do século XIX, que pertencera ao Major Joaquim de Castro e Sousa, falecido em 05/01/1888. Convertida em campo santo pelo poder público da cidade, ainda hoje o são-joanense chama "Cemitério do Quicumbi" ao Municipal, dando notável resistência ao africanismo. O Córrego do Quicumbi, que nasce na grota ao pé do morro aos fundos, está praticamente seco, engolido pela canalização do urbanismo e supressão da vegetação original pela ocupação urbana.

[3] O processo pode ter demorado um pouco, pois notícias jornalísticas do S.João del-Rey, revelam uma resolução municipal, nº147, datada de 22/04/1899, que autoriza a construção do cemitério com portão de ferro. O orçamento era de 7 contos de réis.

- Referências hemerográficas: acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

 - Revisão e acréscimos de fotografias: Ibertioga e Alfenas - 16/05/2025; Seritinga - 04/07/2025. 


Referências bibliográficas

ALVARENGA, Luís de Melo. História da Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei (1783-1983). Belo Horizonte: Formato, 2009. 444.p.il.
BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: 2001, Senado Federal.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p. 
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.
SOBRINHO, Antônio Gaio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p.
SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.204-206.

Referências hemerográficas

A Sentinella, n.2, 14/10/1934, São João del-Rei.
A Tribuna, n.854, 22/05/1927, São João del-Rei.
A Tribuna, n.1.091, 11/10/1931, São João del-Rei.
S.João del-Rey, n.17, 13/05/1899, São João del-Rei.

Referências na internet

Lepra - Wikipédia (acesso: 09/08/2014, 06:13 h)
Mycobacterium leprae - Wikipédia (acesso: 09/08/2014, 06:13 h)
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida