O município de Conceição da Barra
de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de
São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas
como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi
o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente
o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva,
na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos
poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo
se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das
Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram
erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o
feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.
Entre as tradições populares merece
especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local
(catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro
é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período
quaresmal, a encomendação das almas [1] e
na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância,
culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2]
mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa
do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie
de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural
muito arraigada.
O carnaval concepcionense segue
as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes.
Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na
atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar
o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.
A descrição que se segue é
baseada na observação in loco, da
saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura
Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de
janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.
Em essência é um rancho de boi,
bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao
som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de
montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá
movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo
exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A
estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado
era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma
garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como
contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma
caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido),
com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas
cores.
A charanga é formada por músicos
locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol
e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.
Pessoas diversas, fantasiadas ou
não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as
conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.
Em Conceição da Barra de Minas
não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente
provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos
delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade
o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que
propriamente atacando.
Em diálogo com o funcionário da
Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a
alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco
foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado
ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do
Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em
sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar
o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como
ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas
diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e
havia a figura de um Toureiro.
IBGE. Portal Cidades: Conceição da Barra de Minas. 2026. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/conceicao-da-barra-de-minas/panorama Acesso em 22 fev. 2026.
SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. il.
Créditos
- Texto, fotografias e vídeo: Ulisses Passarelli.
Notas



