Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.
O excelso padroeiro do Bairro Matosinhos, a cada 14 de setembro, é novamente festejado por uma multidão de fieis em São João del-Rei, no dia maior de seu grande jubileu. Após a preparação habitual da novena e todas as celebrações ao longo destes últimos dias, culminou a festividade com a concorridíssima procissão, esperado momento que trouxe a veneranda imagem [1] às ruas do bairro, sob os acordes da Banda Sinfônica do Santuário de Matosinhos.
Como bem diz seu hino de louvor [2], o Bom Jesus em clemência demonstra na expressividade de sua imagem um olhar terno de um pai do povo, acolhedor, piedoso e repleto de graças, benesses aos que tem fé e seguem sua palavra. Com grande eloquência diz a estrofe em tocante melodia:
"Bom Jesus, Pai de Clemência!
Tende dó dos vossos filhos...
Dai alívio às nossas dores,
Bom Jesus de Matosinhos!"
Muito embora em si não haja novidades, a repetição do evento é extremamente participativa, como uma premissa renovadora das esperanças e da fortaleza da fé. O jubileu prima pela evangelização e congrega socialmente a comunidade e visitantes em torno da liturgia. A força da palavra é notável no jubileu. O badalar do sino em anunciação marca os momentos principais, convocando os devotos. Muitos aproveitam o ensejo para visitar a "Sala dos Milagres", nome popular de uma das dependências do santuário onde se concentram numerosos ex-votos [3].
Concluída a movimentação religiosa, dispõe-se de diversões, que socializam a massa humana. O adro do santuário e largo ficam apinhados de gente: shows diários em palco ali armado, sonorizado e iluminado, barraca de jogo de víspora - tão querido - e barraca de comes e bebes. Do lado externo outras tantas barracas e bancas cuidam de comercializar alimentos e bebidas.
A festa jubilar é o resultado de uma fé motriz, que arregimenta muitos voluntários, colaboradores, festeiros, ajudantes, compondo uma comissão de abnegados devotos, que em trabalho silencioso e intensivo entregam sua dedicação e esforço em prol do sucesso do evento religioso. Esse povo de Deus em mil e uma tarefas prepara tudo. O jubileu tem o seu suor. Merece efusivo parabéns toda a equipe envolvida na organização.
Vista parcial da imagem do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
Momento da missa: apesar de grande, a igreja lotada não comporta os fieis que ouvem a celebração do adro do santuário.
Aspecto do altar-mor enfeitado de flores.
O trono: a cruz vazia, algo muito simbólico... Jesus está nas ruas, abençoando o povo!
14 de setembro: Dia da Exaltação da Santa Cruz. Um buquê de orquídea olho de boneca (Dedrobium nobile) faz a ornamentação específica.
Exemplar de ex-voto pintado, exposto à visitação pública. Acervo do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei.
Na saída da procissão pelo portão central do adro, o povo se aglomera e uma chuva de papel picado cai sobre o andor.
Pálio guarnecido por lanternas carregada por membros de irmandades religiosas.
Detalhe da custódia contendo uma relíquia.
Enquanto o Santuário se esvazia a rua lota: em demonstração pública da fé a multidão acompanha em prece a grande imagem do padroeiro.
Aspecto da principal artéria do bairro (Avenida Josué de Queiroz) tomada de fiéis durante a passagem da procissão.
[1] As imagens do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, Divino Espírito Santo, Nossa Senhora da Lapa e São Libório, deste Santuário, foram patrimonializadas pelo seguinte documento: Imagens antigas do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, Inventário de Patrimônio Cultural, 2020. Secretaria de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal de São João del-Rei.
[3] Os ex-votos deste santuário revestem-se de valor etnográfico e também foram inventariados: Conjunto de ex-votos do Santuário do Sr. Bom Jesus de Matosinhos, Inventário de Patrimônio Cultural, 2022. Secretaria de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal de São João del-Rei.
- Os inventários mencionados nas notas 1 e 3 foram aprovados e validados pelo CMPPC (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural), e constando no rol do patrimônio formalmente reconhecido pelo município, conforme consta no Decreto nº11.558, 16/12/2024.
De
início é fundamental observar algumas informações panorâmicas sobre o
município, extraídas do portal do IBGE: população estimada em 2024 de 10.994
pessoas; densidade demográfica em 2022 de 21,02 hab./km2. Gentílico
alto-rio-docense. Área municipal 518,053 km2, sendo a área urbanizada de 2,37
km2. Está inserido na Mesorregião Zona da Mata, Microrregião de
Viçosa, Zona Intermediária e Zona Imediata de Barbacena. O bioma predominante é
a Mata Atlântica. O gado leiteiro e a produção de carvão vegetal são
expressivos no município. Na agricultura o cultivo de cereais tem seu expoente
no milho, seguido do feijão; entre as lavouras permanentes o destaque é a
tangerina e nas temporárias, a cana de açúcar (BRASIL, 2025).
Um
resumo do histórico, segundo a mesma fonte é o seguinte:
antes
da colonização, era habitado por índios Croatas e Puris, de origem Tupi,
espalhados por toda a região. Os primeiros exploradores vieram de Guarapiranga,
atual município de Piranga. Desceram pelo Rio Espera e daí subiram pelo Rio
Xopotó, objetivando a exploração de minérios. Em 1711, o Alferes Francisco
Soares Maciel, líder de uma bandeira, chega à região do Xopotó e funda um dos
primeiros arraiais da região, denominado São Caetano do Xopotó. Este arraial
trouxe ainda mais exploradores que se espalharam e se fixaram às margens do Rio
Xopotó, criando novos povoados.
Em 1759, quando José Alves Maciel chegou à região, esta já se encontrava
habitada por bandeirantes e índios Croatas e Puris. Tais terras haviam sido
doadas para José Alves Maciel pelo Rei de Portugal, recebendo do Governador
interino, José Gomes Freire de Andrade, uma sesmaria, denominando sua
residência Xopotó. Acima, mais tarde, casou-se com D. Vicência Maria de
Oliveira, mulher que muito influenciou para a construção da primeira capela e a
doação de terras para a atual cidade de Alto Rio Doce. A sesmaria de terras
doada a José Alves Maciel transformou-se em fazenda e passou a denominar-se Fundão
e posteriormente, com a construção da capela, passou a chamar-se Sítio São José.
Com a fixação de mais moradores, fundou-se o povoado de São José do Xopotó, em
19-03-1764, onde foi construída a primeira Capela de São José, no alto do Morro
Seco, desenvolvendo ali o povoado núcleo da cidade. Em 1820 foi construída
pelos moradores uma capela maior no lugar onde hoje está a Igreja Matriz. Em
1830 a Capela foi elevada a Curato, e em 1832 o Curato foi elevado à Freguesia,
tendo as Capela de Desterro do Melo, Rio Espera, São Caetano e Senhora dos
Remédios como filiais. A Paróquia foi instituída em 1833, tendo o Padre
Agostinho Cezário de Andrade como seu primeiro Pároco. Em 1882 a Capela foi
demolida e foi construída em seu lugar uma Igreja de duas torres. Entre 1917 e
1919 essa Igreja foi demolida e construída a atual Igreja Matriz de São José
pelo Padre Messias de Senna Batista. O nome de São Sebastião do Xopotó, permaneceu
até a emancipação política do Município. Quando foi elevado à categoria de
Vila, a Sede Municipal passou a denominar-se Alto Rio Doce, por ser naquela
época a mais alta cidade localizada na zona das cabeceiras(nascentes) do Rio
Doce. O povoado foi elevado a Vila com o nome de Alto Rio Doce através do
Decreto n° 26, em 07-03-1890. Em 24-05-1892, foi elevada a categoria de Cidade.
(BRASIL, 2025).
Sobre
a sua história administrativa consta que:
Freguesia
com a denominação de São José do Xopotó, pelo Decreto de 14-07-1832 e pela Lei
Estadual n° 2, de 14-09-1891. Elevado à categoria de Vila com a denominação de
Alto Rio Doce, pelo Decreto Estadual N° 26, de 07-03-1890, desmembrado do
Município de Piranga. Sede na antiga povoação de São José do Xopotó.
Constituído de 3 Distritos: Alto Rio Doce (ex-São José do Xopotó), Dores do
Turvo e São Caetano do Xopotó. Instalado em 30-08-1890.Elevado à condição de
Cidade com a denominação de Ato Rio Doce, pela Lei Estadual nº 23, de
25-05-1892. Em Divisão Administrativa referente ao ano de 1911, o Município é
constituído de 3 Distritos: Alto do Rio Doce, Dores do Turvo e São Caetano do
Xopotó. Nos quadros de apuração do Recenseamento Geral de 1-09-1920. Pela Lei
Estadual n° 843, de 07-09-1923, Alto do Rio Doce, adquiriu do Município de
Barbacena o Distrito de São Domingos de Monte Alegre.
Em Divisão Administrativa referente ao ano de 1933, o Município é constituído
de 4 Distritos: Alto Rio Doce, Dores do Turvo, São Caetano do Xopotó e São
Domingos do Monte Alegre. Assim permanecendo em Divisões Territoriais datadas
de 31-12-1936 e 31-12-1937. Pelo Decreto-Lei Estadual N° 148, de 17-12-1938, é
criado o Distrito de Abreus e anexado ao Município de Alto Rio Doce. Sob a
mesma Lei supracitada desmembra do Município de Alto Rio Doce o Distrito de
Dores do Turvo, para formar o novo Município de Senador Firmino (ex-Conceição
de Turvo). E, ainda o Distrito de São Caetano do Xopotó passou a chamar-se
Cipotânea e São Domingo de Monte Alegre tomou a denominação de São Domingos. No
quadro fixado para vigorar no período de 1939-1943, o Município é constituído
de 4 Distritos: Alto do Rio Doce, Abreus, Cipotânea e São Domingos. Pelo
Decreto-Lei Estadual n° 1058, de 31-12-1943, o Distrito de São Domingos passou
a chamar-se Missionário.
No quadro fixado para vigorar no período de 1944-1948, o Município é
constituído de 4 Distritos: Alto do Rio Doce, Abreus, Cipotânea e Missionário.
Assim permanecendo em divisão territorial datada de 01-07-1950. Pela Lei
Estadual n° 1039, de 12-12-1953, desmembra do Município de Alto Rio Doce o
Distrito de Cipotânea. Elevado à categoria de Município. Em Divisão Territorial
datada 01-07-1955, o Município é constituído de 3 Distritos: Alto do Rio Doce,
Abreus e Missionário. Assim permanecendo em Divisão Territorial datada de
01-07-1960. Pela Lei Estadual n° 2764, de 30-12-1962, é criado o Distrito de
Vitorinos e anexado ao Município do Alto Rio Doce. Em Divisão Territorial
datada de 31-12-1963, o Município é constituído de 4 Distritos: Alto Rio Doce,
Abreus, Missionário e Vitorinos. Assim permanecendo em Divisão Territorial
datada de 2007. (BRASIL, 2025).
A drenagem fluvial do município faz parte da bacia doceana, “banhado
pelos rios Piranga, Xopotó, Mutuca, Brejaúba” contando com o atrativo
paisagístico de diversas quedas d’água, sendo favorecido pela amenidade
climática (temperado úmido). Tanto mais, destacam-se os “eventos voltados para
gastronomia tais como: Festival de Angu, Festival de Cachaça e Festival de
Gastronomia na modalidade comida de boteco” (MINAS GERAIS, 2025).
O
brasão municipal destaca a agropecuária (ramos de café e milho; cabeça de boi)
e a devoção católica a São José, padroeiro do município. (ALTO RIO DOCE, 2025).
No
campo da cultura popular é tradicional a congada (marujos) do distrito de Missionários.
Já no decorrer do carnaval o “Bloco da Burrinha” reúne grande quantidade de participantes e acontece desde
1968. Atualmente o bloco desfila em três dias sucessivos: domingo, segunda e
terça de carnaval, denotando sua grande popularidade.
Em
linhas gerais atende ao padrão geral dos Ranchos de Boi brasileiros, com desfile alegre,
descontraído, que reúne fantasiados de todo tipo, e o boi ao centro fazendo
correrias de pega nos foliões incautos ou naqueles provocadores. Junto a este
núcleo surgem outros personagens gravitando em torno da movimentação do boi. No
caso específico de Alto Rio Doce, são vários bois e burrinhas (ou mulinhas, como ouvimos foliões também a chamarem), além de diversos
bonecos gigantes. Embora sejam personagens comuns a outros blocos ou ranchos
equivalentes, neste município em especial a burrinha se sobrepôs em preferência
à nomenclatura da manifestação cultural, um fato incomum. No geral é o boi que
polariza o nome do grupo.
Ao
observar as alegorias algumas características afloram de imediato. Os bonecos
tem estrutura corporal simples, trajes imitando a roupa humana (calça, camisa,
vestido) em grande tamanho; mas a cabeça tem aspecto aprimorado, sendo possível
reconhecer as fisionomias que retratam, de personagens reais ou fictícios. Os
bois e burrinhas possuem o mesmo sistema construtivo: armação metálica leve,
fina, revestida de tecido de cor intensa. O brincante fica dentro da alegoria
até a altura da cintura e o restante do corpo de fora, como se cavalgasse o boi
ou a burrinha. Essa leveza estrutural e a cabeça totalmente para fora (o que dá
boa visão), favorece as corridas atrás das pessoas. No geral os bois tem o
chifre longo, bem arqueado, em forma de meia lua. Todos tem cabeça de pano, o
que também contribui para a leveza da alegoria. Todo dançante de um boi ou de
uma burrinha veste-se com calça e blusa de corte simples, tosco no acabamento,
em tecido ramado ou florido (chitão) e invariavelmente mascarado. As máscaras
observadas são de feitura industrial, em látex, silicone ou acetato, representando
monstros e outros seres bestiais. É provável que esses aspectos representem
processos de alteração evolutiva, favorecida pelas múltiplas possibilidades de
material industrializado facilmente disponível, mais acessíveis, e já praticamente
prontos, em relação ao grande trabalho manual para produzir cabeças de bois a partir
de caveiras, armações trançadas de bambu e máscaras a partir de pedaços de
couro.
A
parte musical fica a cargo de uma banda de música, acompanhada de bateria de
percussão. Tocam marchinhas carnavalescas durante o cortejo. Não observamos
canto específico.
Uma
característica observada em Alto Rio Doce é o translado das alegorias e músicos
antes do desfile. Na tarde, carros e ônibus atravessam a cidade carregando-os,
sob o som de buzinas e sirenes, como que emitindo um alerta de preparação a
chamar a atenção das pessoas. Dentro dos ônibus os percussionistas põem-se em
batucada. Bois, burrinhas e gigantes vêm em uma carroceria de caminhão. O
cortejo motorizado atravessa diversas ruas e se concentra em um dos extremos da
cidade. Na hora aprazada, partem de volta pelas ruas com os veículos, para o outro
extremo da cidade, próximo ao cemitério. No largo fazem a concentração final
antes da saída. Descem todos dos veículos e de pés no chão vão preparar-se
dentro das alegorias, vestir as máscaras, dar vida aos bonecos. Músicos
aprontam os instrumentos, afinam, aquecem os tambores. Há muita agitação,
principalmente dos jovens, que formam uma grande massa de foliões. A animação
toma conta do ar.
Vídeo 1: cortejo motorizado, trazendo foliões diversos, músicos e alegorias.
Autor: Betânia Nascimento Resende, 03/03/2025
O
cortejo inicia a descida ao centro da cidade. Na ladeira, já os bois e burrinhas
disparam desenfreados na frente, pondo em corrida uma multidão de crianças até
a praça onde está a Prefeitura e o Fórum. Os bonecos descem no meio do cortejo,
devagar, com dança comedida e compassada. Um mais habilidoso faz corrupios com
a grande estrutura de um boneco. Na retaguarda os músicos. E o povo folião ao
redor, por toda parte. A alegria é contagiante, o ritmo envolvente. Uns jogam
confete, outros, espuma de spray. Há
muitas pessoas com fantasias variadas, mas nota-se ser comum as fantasias de “coelhinho”
por parte das jovens.
O
desfile segue ao lado da Igreja Matriz e vai até a Capela do Rosário, junto ao
coreto. Param ali por um tempo. Há muita gente reunida naquela praça, que os
estava esperando. Igualmente pelas calçadas, pessoas em aguardo do cortejo
passam a acompanhar na passagem do grupo de foliões, que desta forma vai se
encorpando.
Depois
descem a grande ladeira ao centro e vão por fim em direção a área próxima a
Rodoviária para o encerramento.
Não
restam dúvidas ao contemplar este folguedo acerca de sua tradicionalidade e o aspecto
identitário com o povo alto-rio-docense. O envolvimento da parcela juvenil e
infantil da cidade faz antever a esperança de continuidade com o passar dos
anos; a grande quantidade de pessoas à margem das calçadas ansiosas pelo
cortejo demonstra com clareza o senso de pertencimento. A própria ornamentação
carnavalesca das ruas por parte da Prefeitura Municipal remete à estética do
Bloco da Burrinha. Tudo isto se soma para demonstrar as características
imateriais desse genuíno patrimônio cultural de Alto Rio Doce.
Fotografias
(03/03/2025): Ulisses Passarelli (1 a 17) e Betânia Nascimento Resende (18 a 27).
Informantes locais:
irmãos Márcio e Edmilson Teixeira Guimarães, sobrinhos de um dos fundadores, Zé Marcelo. Agradecemos a gentileza da atenção e informação.
1- Brincante em uma alegoria de boi.
2- Diversidade de bonecos.
3- Boi mocho (sem chifres).
4- Burrinha.
5- Boneco representando Zé Marcelo, um dos fundadores.
6- Mais um boi.
7- Bonecos em ação durante o desfile. Aos fundos, o imponente prédio do Fórum.
8- Traje típico e riqueza de movimento.
9- Cortejo ganha as ruas, enchendo-as de alegria.
10- Bloco na rua une a contemplação do patrimônio material e imaterial.
11- Desfile diante do prédio escolar.
12- Detalhe de um boneco.
13- Boneca ornamentada com adereços carnavalescos.
14- Coreto ornamentado; banner tematizado no Bloco da Burrinha. O coreto funciona como base de sonorização.
15- As crianças iniciam na brincadeira.
16- Criança descansa sentada sobre um boi.
17- Placas de ornamentação carnavalesca na via pública, tematizadas no Bloco da Burrinha. Ao fundo, a Igreja Matriz de São José.
18- Boneca inspirada na "Rainha de Copas", personagem do conto "Alice no País das Maravilhas".
19- Boneca com adereço de cabeça que lembra uma "Melindrosa".
20- Bonecos ao lado da Igreja Matriz.
21- Detalhe da banda.
22- Bateria e Igreja Matriz.
23- Cores vivas são onipresentes.
24- Folião com camiseta alusiva ao nome do bloco.
25- Detalhe do sistema de cavalgadura: uma haste transversal é segura para ajudar no guiamento da alegoria; suspensório a mantém nos ombros; estrutura vazada permite o folião ficar com meio corpo para fora e outra metade para dentro, com os pés no chão; parte interna não visível por conta do tecido que imita o couro.
O
município de Arantina está situado na Mesorregião Sul/Sudoeste de Minas,
Microrregião de Andrelândia, Região Intermediária e Imediata de Juiz de Fora. A
população estimada para 2024 era de 2.991 pessoas, com densidade demográfica de
32,60 hab./km2, área de 89,420 km2. A silvicultura é
significativa no município, com produção de madeira em tora, lenha e carvão.
Outra fonte econômica de destaque é o gado bovino, notadamente o leiteiro (BRASIL,
2025).
A
drenagem fluvial é feita pelo Rio Turvo Pequeno, da bacia do Rio Grande, região
de terras altas da Serra da Mantiqueira, com ponto culminante na Serra do
Caxambu. Algumas cachoeiras e os pontos altos serranos garantem belas paisagens
para contemplação e entretenimento. Alguns monumentos (torres da antiga cerâmica,
patrimônio ferroviário, capelas e museu) constituem atrativos turísticos
(MINAS, 2025).
Como
resumo histórico consta que:
Ao
redor da estação ferroviária de Arantes, instalada dentro do município de
Mantiqueira (hoje Bom Jardim de Minas), surgiu um pequeno povoado. Em dezembro
de 1943, o lugar foi elevado a distrito, ganhando a denominação de Arantina.
Vinte anos depois, em 01 de março 1962, Arantina ascendeu à categoria de
cidade. O Município situa-se junto à zona turística do Circuito das Montanhas
Mágicas da Mantiqueira, numa região de transição do planalto de Cruzília, a leste,
e o maciço da Mantiqueira, a oeste. Em outubro, a cidade comemora a festa da
padroeira, com missas, procissão e outros atrativos para as crianças da cidade
e dos municípios vizinhos. A produção anual de leite, na sua quase totalidade
são exportados para Bom Jardim de Minas e Andrelândia. A agricultura é a de
subsistência. O alto do Curralinho, com 1379 metros de altitude, é seu ponto
mais elevado. Pertence a Bacia do Rio Grande, região dos Circuitos das Águas,
sua área é de 89,54 Km2. Onde hoje está a sede do município existia um paiol
(utilizado para guardar milho colhido) do Fazendeiro Juca Pereira, dono de
grande parte das terras onde se localizam hoje as cidade de Arantina e o
distrito de Rutilo. Ao redor desse paiol foi erguendo um povoado, que se fortaleceu
com a chegada da ferrovia Centro Atlântica. Uma outra empresa que fez com a
cidade se mantesse em ritmo de crescimento foi a Cerâmica Nossa Senhora
Aparecida, hoje já desativada. O aniversário da cidade é comemorado no dia 01 de março, data sua fundação. Cidades limítrofes, Bom Jardim de Minas, Andrelândia e Liberdade. Gentílico - Arantinense. (BRASIL, 2025).
Arantina
tem por assim dizer uma sólida ligação com a ferrovia, e não sem razão, o
brasão municipal figura o desenho dos trilhos bem ao centro. Da mesma forma,
outros elementos icônicos, como as chaminés da cerâmica, o gado e o esboço das
montanhas estão configurados no brasão. Em complemento, este excerto destaca
elementos históricos:
O
povoamento do lugar teve início no decorrer da segunda metade do século XIX,
com a construção do trecho da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM)
que viria a cortar a cidade. Atualmente destacam-se o artesanato produzido no
município e eventos realizados anualmente, como o carnaval de Arantina. (...) O
povoado se consolidou com a fabricação de cerâmica. Dado o crescimento
econômico, pela lei estadual nº 1.058, de 31 de dezembro de 1943, cria-se
o distrito subordinado a Bom Jardim de Minas, que recebeu seu nome em
homenagem à estação ferroviária. Arantina se emancipou pela lei estadual
nº 2.764 de 30 de dezembro de 1962, sendo instalada oficialmente em 1º de março
de 1963. (WIKIPÉDIA, 2025).
A
cultura popular tem marca forte com as folias de Reis e realização de notável encontro
de companhias reiseiras a 06 de janeiro [1]. Outro
ponto alto é o carnaval arantinense, que conta com significativo prestígio
oriundo dos blocos. Este aspecto encontra-se bastante consolidado e o senso
comum de variadas opiniões populares reafirma que o Bloco do Boi é o destaque. Interessante
observar que são parcas as notícias do folguedo boi no sul mineiro.
Uma
notícia jornalística a propósito informava dessa multidão nas ruas para acompanhar
o carnaval de Arantina e as quatro décadas de tradição do Boi elevavam-se numa
homenagem ao Sr. Zico, tido como primeiro toureiro do bloco (Correio do
Papagaio, 2013).
De
fato, é fácil observar a popularidade gigante, não apenas no número de
participantes, mas principalmente pela vivência ativa na brincadeira,
fantasiados ou não, mas fazendo coro ao insistente grito, cada vez que o boi
alivia suas correrias:
“_ Cadê o boi?
_
Cadê o boi?”
E
parte de novo o boi embalado em carreira atrás dos foliões, que disparam pela
rua. Em certa medida, guardadas as proporções, faz recordar a festa espanhola
do boi de verdade solto pelas ruas ante as provocações e fugas das pessoas.
Mas
além da alegoria do boi, também existem as mulinhas e bonecas, que igualmente
dão suas trombadas nas pessoas! E o Chico
Pança, com seu jeito rechonchudo atiça o boi e toma suas esbarradas, mas ao
cair nada sofre, posto que o macacão vermelho que veste é recheado de palha
seca de bananeira, que ampara as suas quedas. Muito curioso notar que o Chico
Pança veste-se de vermelho, e segundo uma das lideranças do bloco informou,
sempre foi assim... O vermelho é a cor tradicional dos toureiros, do pano de
provocar o boi. Ao mesmo tempo também recorda que nos rodeios de hoje e nas
touradas de ontem, há e havia um personagem chamado genericamente de palhaço,
vestido de forma extravagante, acolchoado, que faz escaramuças ante o boi a fim
de distraí-lo para livrar peões de sua atenção. Assim, mesmo em formato
descontraído, o palhaço funciona na prática como protetor. O Chico Pança
recorda um pouco disso e induz uma investigação mais aprofundada se acaso representa
uma sobrevivência fragmentada das antigas touradas ou se inspirou nelas.
As
bonecas gigantes são personagens relativamente comuns em folguedos de boi em
várias partes do país. Em Arantina fica nítido sua feitura artesanal, tendo
como base um balaio de taquara, a cabeça feita de uma cabaça, a vestimenta,
pintura do rosto e adereços, tudo evoca um aspecto de originalidade, ligado à
arte popular. Os braços são articulados no ombro, de tal forma, que o brincante
sob a alegoria, puxa por dentro um cordão, que se liga aos braços da boneca e a
faz sucessivamente erguê-los e baixa-los. Dois nomes foram informados para as
bonecas: Passinha e Maria Comprida.
As
mulinhas durante esta observação eram três, armadas ao modo tradicional sob a
estrutura de um balaio emborcado, coberto de tecido imitando o couro da
alimária. No mais, são adereços que imitam cabresto; pernas de fingimento
pendentes nas laterais, e cordões que erguem a estrutura para fixação nos
ombros, como um suspensório. Elas também dão seus esbarrões no povo.
O
boi propriamente dito tem a mesma estrutura tradicional de outros bois, mas
percebe-se que é caracteristicamente alongado. Por isto, em seu próprio giro
esbarra nas pessoas, o que faz parte da brincadeira. Nas costas do boi a giba ou
cupim típico das raças zebuínas é formado pela própria cabeça do brincante que
vai embaixo, coberta pelo tecido como um capuz e o rosto tampado por tecido em
tela, que permite a visão relativa para guiar o brincante.
A
música o tempo todo é formada por percussão. Uma batucada formada por bumbos e
taróis mantém um ritmo contínuo, como uma pulsação para o desfile. Não há canto
típico.
Muita
gente comparece fantasiada livremente, sem um padrão definido. Mas percebe-se certa
quantidade de pessoas vestidas com fardas, a imitar soldados do exército ou dos
bombeiros; fantasias de operários, de anjos, de bailarinas, e também, macacões
de retalhos, lembrando um pouco alguns trajes de palhaços de folias de Reis.
Entre
esses foliões fantasiados com certa frequência observa-se a brincadeira de se
derrubar mutuamente, sem nenhuma belicosidade, mera lúdica, ora por se jogar um
nas costas do outro, ora por meio de uma rasteira.
Também
são comuns os foliões travestidos: homens de mulher, mulheres de homem.
O
boi inicia sua concentração diante de um bar na Rua Emília Marx Lacerda, Bairro
Lagoão. A batucada já ativa atrai participantes e curiosos. Logo mais se
deslocam tocando até uma quadra poliesportiva próxima, onde adentram em
concentração. E não demora que encha de gente! Enquanto isto, em canto
reservado, os personagens se preparam em suas alegorias. Uma turma ajuda Chico
Pança se vestir, revestindo-o de palha. E a alegria completamente descontraída
toma conta do ambiente. Muita agitação, e de tanto em tanto gritam pela
presença do boi.
Enquanto
isto um fato marcante é o arremesso de farinha de trigo. Deliberadamente se
jogam farinha, no rosto, na cabeça, até no ar, que fica por alguns segundos, um
pouco embaçado pelo pó suspenso. Em especial essa guerrilha de farinha que os
informantes garantiram ser muito típica e tradicional, remete de imediato à
imagem do velho entrudo, já relatado no século XIX no Rio de Janeiro,
artisticamente nas aquarelas do francês Jean Baptiste Debret. Mas não só no Rio
de Janeiro, mas de fato o entrudo foi muito popular em várias partes do Brasil;
e assim, em Arantina, esta reminiscência se evidencia.
Ainda pode atestar a popularidade do
Bloco do Boi o fato dele sair às ruas por dois dias durante o carnaval, no
domingo e na terça-feira. Neste último dia, ao se recolher, costuma-se dizer
que vão matar o boi, forma figurada de dizer que ele sairá das vistas do
público, posto que seja recolhido até o outro carnaval.
A presença de jovens é muito
marcante no Bloco do Boi, uma presença maciça. Muitas crianças acompanham e do
ato do aprendizado pela observação, resultou há cerca de quinze anos o
surgimento do “Bloco do Bezerro”, que é uma cópia do Bloco do Boi, no entanto
em vez de juvenil é sua versão infantil. Com isto a transmissão do conhecimento
toma forma de maneira eloquente, materializada em uma agremiação própria. Até
uns anos o Bloco do Bezerro acontecia no mesmo dia do Bloco do Boi, apenas que
era de tarde enquanto o do boi à noite. Mas de uns tempos para cá passou a
acontecer no sábado e segunda-feira, alternando assim os dias, o que garante
que durante a festa toda tem boi.
Quanto à idade do Bloco do Boi não
se pode apurar precisamente a data. Um informante[2],
confirmou que tendo morado em Arantina em 1975 presenciou a manifestação
cultural, o que a remete a meio século para trás. Um dos organizadores[3]
informou a década de 1960 como sendo a da criação, tendo surgido em Arantina
mesmo, sem ter copiado de outro lugar, assegurou. A data oscilou em 1964 ou
1969, não soube dar precisão. O mesmo também disse que o Bloco não tem um organizador
específico ou liderança única. É uma ação entre amigos, um divertimento
coletivo preparado livremente pela comunidade.
O Bloco do Boi desfila em uma grande
giro pelas ruas da cidade. Uma faixa de pano vai estirada na dianteira, segura
por dois foliões. O nome do bloco vai escrito entre desenhos de boizinhos. A
rua se lota, como uma massa humana centrada no boi, um rancho de alegria agitando
a todos por onde passa.
Texto, fotos e vídeos (02/03/2025): Ulisses Passarelli
Agradecimentos aos informantes, sobretudo, a Ariany Fonseca, pelo acolhimento e a
Betânia Nascimento Resende, pelo apoio
fundamental à concretização dessa pesquisa.
Vídeos
Fotografias
Folião jogando farinha.
Detalhe da cabeça de uma das bonecas.
Pessoal da batucada.
O núcleo do bloco em pose fotográfica, reunidas as alegorias.
A boneca Maria Comprida em movimentação.
Multidão pelas ruas, acompanhando o Bloco do Boi.
O boi investe no povo.
Detalhe de uma das mulinhas.
Chico Pança.
O boi.
[1] Informante:
Ariany Aparecida Costa Oliveira Fonseca, advogada, Arantina, em 02/03/2025.
[2] Informante:
Luthero Castorino da Silva, ferroviário aposentado, São João del-Rei, em
01/03/2025.
[3]
Pedro Iuri, descendente de alguns fundadores do Bloco do Boi: Mário Miquelino
(seu avô) e Joaquim (seu tio), que juntamente com trabalhadores da ferrovia se
juntaram para iniciar a brincadeira. Ver: https://www.facebook.com/watch/?v=1571054890360757