Um domingo antes da Festa da Ressurreição é Ramos. Domingo de Ramos, hoje. Das igrejas o povo em procissão carrega ramos verdes louvando a Cristo.
As raízes estão na Bíblia Sagrada. O Evangelho de Mateus narra no capítulo 21 (versículos 1-11) como foi triunfal a entrada de Jesus em Jerusalém perto da Páscoa, montado numa jumenta como previra o profeta. Disse o evangelista: "Então a multidão estendia os mantos pelo caminho, cortava ramos de árvores e espalhava-os pela estrada. E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia clamava; 'Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!" [1] Em João, explicitamente, diz o evangelho: "Saíram eles ao seu encontro com ramos de palmas, exclamando: 'Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!' "
A prática é extremamente difundida como festa litúrgica e assim, um número incontável de capelas, igrejas, paróquias a executam: fiéis acompanham a imagem triunfal do Cristo ou a custódia; o clero participa devidamente paramentado; o canto entusiasmado de hinos fica evidente e ramos acenam ao ar pelas mãos dos devotos. Os próprios templos se ornam, enramados nesse dia.
Sobre a antiguidade desta procissão servirá de testemunho o texto de Saint Hilaire (1944, p.157), referindo-se à Procissão do Domingo de Ramos, nas primeiras décadas do século XIX, em Capitinga, próximo a Piunhi:
"Encontrei muita gente que de lá voltava e levava grandes frondes de palmeira bentas. Estas verdadeiras palmas, em uso em todo o país lembram muito melhor a origem da festa do que os mesquinhos ramos de bucho ou loureiro que se distribuem nas nossas igrejas".
Informou ainda que o bucho era distribuído nas igrejas do norte francês e o loureiro nas do sul da França.
Essas festas em verdade tinham imenso valor no interior nacional. Ramos abre a Semana Santa, que culmina com a Festa da Páscoa. Disse o mesmo autor acerca das famílias rurais indo à missa:
"No sertão, onde as fazendas são frequentemente bastante afastadas da paróquia, só os homens aí vão no decorrer do ano; mas nas duas grandes festas, Natal e Páscoa, a família inteira empreende a viagem; empilham-se as mulheres e crianças nos carros de boi; passam-se alguns dias na casa que se possui na vila, e, em seguida, volta-se à habitação." (Saint Hilaire, 1944, p.165).
Pela mesma época, com pouca diferença, Debret (1972, p.144) também confirmava a popularidade da festa pascoal: "as festas de Natal e da Páscoa, sempre favorecidas no Brasil por um tempo magnífico, constituem épocas de divertimentos tanto mais generalizados quanto provocam mais de uma semana de interrupção no trabalho" .
Essas palmas (Cycas), ramos de várias palmeiras (areca, aricanga (Geonoma), indaiá e outras), além de vegetais aromáticos (manjericão, rosmaninho, alecrim), usadas e abençoadas na procissão deste dia, o povo guarda em casa o ano todo crendo no seu poder de afugentar os males. Se é percebida uma presença estranha em casa, como um mal assombro, ou se uma forte tempestade ameaça estragos, basta queimar a palha benta de Ramos e sua fumaça, qual incenso sagrado, afugenta os malefícios. O poder desta palha vence no Domingo de Ramos do ano seguinte, quando ela deve ser substituída por outra.
Fotografias 1 a 5 - Procissão de Ramos entre a Igreja de Nossa Senhora
do Rosário e a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei.
Referências
Bíblia Sagrada. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965.
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. 2.ed. São Paulo: Martins, 1972. v.3. 296p. Coleção Biblioteca Histórica Brasileira, n.2.
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. v.1, 157. Coleção Brasiliana, série 5ª, v.68.
Créditos
-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 09/04/2017.
Notas
[1] Outros evangelhos também registraram esta passagem: Mc 11, 1-11; Lc 19, 29-40; Jo 12, 12-19.
- Revisão: 22/05/2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário