Um dia desses, não sei por qual motivo, me veio à lembrança o sabor dos pirulitos que eram vendidos em plena rua, aqui em São João del-Rei, por certa pessoa em uma bicicleta antiga. Chamavam-no de "Rato". Seu verdadeiro nome, desconheço. Os pirulitos eram pendurados no guidão, ensacados, revestidos de açúcar de confeiteiro (finíssimo e alvo) e tinham várias cores: azuis, verdes, amarelos, vermelhos ou laranja, posto que eram corados. Sabor inigualável e inesquecível dos anos setenta, que o arquivo de químicas do cérebro acusou ainda existir em minha memória.
Foi esta mera lembrança, em si isenta de significado maior, o pretexto
para esta crônica. É que os pirulitos do Rato, ambicionados pelos moleques de
meu tempo, tinham formato exato de um galo. Nisto consistia seu charme. Não se
tratava de qualquer pirulito; era um galozinho! Por isto a petizada o
queria.
Sitoplástica é a ação de fazer alimentos com um formato que remeta à
arte popular, segundo terminologia técnica de folclorística.
ARAÚJO (1985, p.64-65), em notável trabalho, elucidou: "sitoplástica
é termo proposto por Cecília Meireles em seu estudo sobre arte popular
brasileira, para configurar a arte comestível das doceiras e quituteiras" e
completou _ "o principal representante dessa arte marginalizada é
o alfenin", que, segundo o autor, "ainda persistem
na tradição culinária brasileira, notadamente, no Nordeste." Alfenins lembram as nossas balas quendi [1], só que em vez de ter a
sua forma cúbica ou de paralelogramo, tem a massa puxada, quando ainda está em
fase moldável, de modo a formar bonecas, animais, cachimbos e outros objetos [2] .
Havia também os pequenos pirulitos muito semelhantes àqueles em forma de
galo, só que o formato era de chupeta. Felizmente, ainda temos a venda dos
deliciosos pirulitos de cone, esses guarda-chuvas de comer. São sabores de
outras épocas, adoçando a amargura de hoje.
E o que dizer das tradicionais Balas Mazzoni? Eram deliciosas bolinhas
de cor (brancas, verdes e vermelhas - cores da bandeira italiana), que grudavam
entre si e grudaram em nossa saudade teimando em não partir. Ainda recordo de
comprá-las, pesadas na hora, a granel.
Estas formas alimentares nostálgicas trazem em si o atrativo do sabor
aliado à aparência de um bicho, boneco ou objeto. Minha mãe fazia sequilhos nas
férias estudantis e nos servia na hora do filme da tarde, com um achocolatado
ou café, enquanto assistíamos a arte do stop motion nos filmes
de aventura do marinheiro Simbad. Esses sequilhos eram biscoitos cuja massa era
cortada em forma de aves, estrelas, corações. Se os fizesse como simples
biscoitos não eram tão bons quanto os biscoitos em forma de estrela, embora a
massa fosse a mesma. É a mágica da sitoplástica.
Naquele tempo, Lagoa Dourada vendia nas padarias afamadas, além do
célebre e incomparável rocambole, uma grande rosca de massa branca e macia e a casca
morena, sequinha, em formato exato de um jacaré. Não poderia ter outro
nome: pão-jacaré.
Em contrapartida, São João del-Rei vendia o pão-tatu, de sabor levemente adocicado e textura macia, muito
apetecível se recheado por uma fatia de queijo mineiro fresco. A casca deste
pão tinha um formato tal, que, fazendo duas pontas, continha como que cintas
transversais, à guisa de uma carapaça de tatu, daí seu nome.
Outro desta estirpe é o pão-combate,
uma massa doce sovada muito tradicional, montada em duas metades que se encontram
ao centro. Por analogia a duas luvas de boxe se tocando como numa luta, esta
aparência rendeu-lhe o batismo de pão-combate.
Por vezes a indústria se inspira na arte popular e assimila suas
tradições dando forma a alimentos específicos, mas em essência, ou strictu
sensu, a sitoplástica se refere ao trabalho manual sobre o alimento,
formatando-o em aparências específicas. Assim, uma doceira confecciona com
imenso trabalho um doce dentro de duas metades de uma noz, e surge a noz fingida; uma salgadeira faz massa
folheada abrindo-a como o casco de uma canoa e a recheia de maionese e temos
uma barquete; outra faz a
massa para fritar, como um charuto, longo, cheio de queijo e presunto e tem-se
uma cigarrete (do
francês, cigarette, cigarro); ainda mais, uma massinha cortada em
anel, ao redor de uma rodela de salsicha, algo que lembra um globo ocular e as
pálpebras e assim ganha o nome de olho
de perdiz; um pão doce largamente recheado de creme amarelo, aparenta o
amplo sorriso de uma miss, é a marta rocha; mas se trocam seu creme por doce de leite, se chama bomba; nas festas de aniversários,
noivados, batizados e outras, fazia-se espetinhos de azeitona (sem caroço),
palmito e queijo ou presunto - em pequenos pedaços - trespassados por um palito
de dentes. Depois de muitos deles prontos, se revestia uma melancia de papel
aluminizado e nela se espetava em derredor os tais espetinhos. A montagem,
espinhenta, cheia de pontas, ganhava o pitoresco nome de capeta.
Roscas, tranças, casadinhos, louro-moreno (doce que alterna em espiral massa clara e
escura), bichinhos comestíveis... Quantas formas realçando o sabor pela
sugestão psicológica de seu visual! Provocação artística para estimular o
apetite. Extravasamento da arte interior para a massa exterior. A arte do
comer. A arte de comer. Eis a sitoplástica. Cada recanto terá o seu exemplo,
sua tradição, todas dignas de serem preservadas.
Hoje, quando passo na Praça Raul Soares, ali perto da banca de revistas,
sinto saudades de quando pedia minha mãe para comprar os pirulitos do Rato.
Nessa vida louca faltam coisas assim para se sobrepor à faina interminável.
Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Iaperi. Elementos da Arte Popular. Natal:
Universitária, 1985. 86p.il. p.64-65.
Créditos
Texto e fotografia: Ulisses Passarelli
Notas
* Texto publicado (sem a fotografia desta postagem) na Revista da Academia de Letras de São João del-Rei, n.12, 2023. p. 250-253.
** Revisão: 31/03/2025.
[1] - Quendi: possivelmente
esta palavra procede do inglês, candy, doce. O quendi é feito
basicamente de açúcar molhado e raspa de casca de limão, preparado ao fogo até
o ponto de enrolar, quando é rolado em bastões sobre uma pedra fria e então cortado
em figuras geométricas aproximadamente quadrangulares. Depois é levemente
deprimido por um garfo, que lhe deixa sinais de linhas ou traços na parte de
cima. Por tradição é enrolado em papel de seda colorido e de extremos
picotados. É considerado um doce fino. Se é tirado do fogo antes do ponto de
enrolar forma o tradicional "puxa-puxa", nome assim aplicado pela
natureza elástica da massa, uma delícia em ocaso.
[2] - No Maranhão, em Alcântara, pelas Festas do Divino, surgem os tradicionais "doces de espécie", à base de coco, moldados em diversos formatos. É uma herança ibérica.
Passarelli, Uma viagem pelo sabores da Memória é algo que preciso aplaudir e curtir devidamente.
ResponderExcluirParabéns, este texto é uma preciosidade para a Memória do Sabor. Luiz Cruz
Muito obrigado, Luiz Cruz. Você que trabalha tão bem com a memória popular, certamente seria tocado pelo sabor desta saudade. Abraço fraterno.
ExcluirUlisses, meu caro amigo, viajei no tempo e no gosto. Fui professor do filho do "Rato" que, até pouco tempo, tinha as formas do pirulito. Você, Passarelli, nós encanta com suas crônicas e palestras, pelo falar fácil e cativante. Abraço! Artur.
ResponderExcluirEm Montes Claros até hoje algumas famílias fazem doce deleite com formato de porquinho e galinha. Duram semanas ...
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