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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Superstições do espelho

Os Irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), em trabalho memorável, coligiram na Alemanha versões de contos e fábulas, que eternizaram em livro nas primeiras décadas do século XIX e que ainda hoje, encantam adultos e crianças. Dentre eles, um dos mais conhecidos é o conto de fadas Branca de Neve. Tornado um grande clássico cinematográfico em 1937, sob a genialidade extraordinária de Walt Disney, marcou-nos com cenas sublimes e aprimorada técnica, e uma frase antológica: "Espelho, espelho meu...", com a qual a madrasta de Branca de Neve, possuída das piores características humanas, fitando um espelho mágico, perguntava-o quem era a mulher mais bela do reino. Sempre fidedigno, respondia o espelho por meio de uma voz, que era ela, a rainha, a de maior beleza. Mas um dia, a enteada, Branca de Neve, alcançou no vigor da juventude, uma beleza ainda maior, anunciada pelo espelho mágico e motivo de cruel perseguição pela madrasta invejosa. 

Na mitologia das mães d'água universais e congêneres, a sereia aparece sentada numa pedra à beira-mar, observando-se. Vaidosa, fita sua própria beleza irresistível num pequeno espelho de mão. Dentre os orixás, as prestigiadas Iemanjá e Oxum também tem o seu espelho ritual, o abebê, que não apenas reflete a beleza, mas também, simboliza a vaidade e conecta a alma. 

O espelho, rodeado de búzios brancos, preso a uma capa com capuz, é fetiche do orixá Dadá, protetor dos vegetais.

Desde longa data até aos dias atuais, o espelho é um objeto ligado a algumas superstições. A título de exemplo, em São João del-Rei e circunvizinhanças é corrente é corrente na tradição popular que:


 Palhaços de folia de Reis de Ritápolis/MG, vendo-se o típico chapéu de cone
com aplicação de espelhos. Data: 1996 (esquerda, com a bandeira) e 1995 (direita). 


- quebrar um espelho representa mal presságio, sorte ruim. Quebrar um vidro comum já não tem o mesmo significado, considerando-se sinal de boa sorte, pois se quebrou um mal iminente, inveja, demanda. Para alguns umbandistas corre a crença que os exus protetores usam os cacos de vidro como armas contra espíritos sem luz (quiumbas). O mesmo não acontece com o espelho; 

- não é bom olhar num espelho quebrado, pois confunde a mente ao ver a própria imagem distorcida; 

- dá azar conservar um espelho quebrado em casa. Atrai coisas ruins, espanta a boa sorte. Deve-se livrar dele; 

- olhar concentradamente um espelho, em prece ao anjo da guarda, para mostrar um fato que está acontecendo e no qual se pensa com firmeza, pode permitir a vidência do mesmo, revelado como uma cena de projeção mental diante do espelho;

- pessoa que se transforma de estado emocional ao se ver no espelho, por exemplo, passando de calma a agitada ou nervosa, está acompanhada de encosto (espírito perturbador em companhia); 

- xingar, falar palavrões, impropérios diante do espelho, ou olhar nele com ódio e rancor, faz com que o mal retorne para a própria pessoa;

- não se deve segurá-lo ou nele olhar durante uma tempestade pois atrai raios; 

- para prevenir a atração dos raios, deve-se cobri-lo completamente com um pano durante a chuva; 

- reflete mau-olhado para quem enviou. Rebate as más influências. Por isto é muito usado preso aos chapéus de dançantes de folguedos populares ou colocado no cômodo da frente de uma casa, para expulsar o mal dali para a rua. Certos folcloristas tem interpretado o fato como uma inconsciente representação solar, pelo brilho refletido, velhíssima herança astrolátrica. Respeitosamente, não endossamos esta visão, apostando antes em uma crença espiritualista:  espíritos considerados inferiores, malfazejos, não olham de forma alguma no espelho, pois não toleram ver suas próprias formas desarmônicas. Sua imagem refletida cheia de deformidades espanta eles mesmos [1]. Logo o espelho nos chapéus não permite sua aproximação. De fato, se é mais comum fixá-lo na área frontal do chapéu, mas não é raro vê-lo também nas laterais e atrás, cortando a aproximação por todos os lados. 

Espelho ao centro do chapéu de um congadeiro
de Santa Cruz de Minas. 2014. 

Cascudo (s/d) registrou muitos exemplos supersticiosos acerca do espelho, atestando sua universalidade e ancestralidade, ligando-o à mitologia e explicando que a imagem representa o duplo, o outro eu, no ponto de vista psicanalítico, passível de males como a própria matéria. 


Referências 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli (congado) e Ulisses Passarelli (folias).

Notas 

- [1] Esse tema também foi aproveitado em outro desenho animado estadunidense: os Thundercats (1985), alienígenas egressos do planeta Thundera, representavam gatos humanóides com super poderes, munidos das melhores virtudes, os quais, estabelecendo-se no Terceiro Mundo, enfrentavam um inimigo poderoso e malvado, Mumm-Ra, uma espécie de múmia indestrutível, que somente se podia repelir refletindo sua imagem em uma superfície espelhada. 
- Revisão: 08/03/2026. 

3 comentários:

  1. Interessante este relato sobre a superstição do espelho, desde pequeno escutava de meus pais sobre isso.
    É saudável relembrar fatos e histórias do nosso rico folclore.
    Parabéns pelo relato.

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    1. Prezado Maury: agradeço muito a visita, o comentário e por ter se inscrito como seguidor deste blog. É um trabalho de formiguinha o desta página, mas ela vai contribuindo fielmente com o registro da cultura popular, revelando a riqueza de nosso folclore, sempre em temas variados. Continue acompanhando as atualizações.
      Abç.cordial.

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  2. Parabéns pelo.blog não se pode deixar morrer as crenças

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