Agosto [1] é um mês esquisito, um clima indefinido, indefinível... transição entre inverno e primavera. Na Mesorregião Campo das Vertentes se apresenta nem frio, nem quente, ou, ao mesmo tempo, frio e quente; seco, sempre seco; vento sobre vento. Frio de noite, calor de dia. Rajadas inesperadas sopram sobre as folhas das árvores. A secura das pastagens tornam o período terrível para o gado, que emagrece demais. Córregos secam. Queimadas por toda parte acinzentam os campos. Apenas o ipê amarelo, de florada exuberante contraponteia a secura com seu colorido vivaz. O homem do campo então roça, capina, faz coivaras; prepara a terra _ cavouca, ara, faz leras, covas de plantio _ mas não lança sementes, que não nasceriam no chão esturricado.
Eis o panorama de agosto. Uma mês cuja natureza revela-se desfavorável à fartura e criação. É agouro só... (Costa, 1998).
Devoto católico que compreende esses sinais da natureza não queima pasto nem coivara no dia dez de agosto. É a data de São Lourenço. O santo morreu tostado em martírio numa grelha. No seu dia a queimada ofende o santo e se torna descontrolada. Um pé de vento surge do nada e lança fagulhas no ar; redemoinhos inesperados jogam tição aceso além do aceiro, na mata e o fogo faz um estrago medonho, trazendo um prejuízo terrível. O santo precisa ser respeitado pelo agricultor devoto do catolicismo.
Em agosto o cão fica estranho, pega mais fácil a "raiva" (hidrofobia). É "mês de cachorro louco" [2]. Então se apega com Santa Quitéria que é a santa que previne essa virose terrível.
As avós ensinavam que se em nossa direção viesse um cachorro em atitude agressiva tinha que se dizer com firmeza e rapidez: "São Roque! São Roque! São Roque!", assim, três vezes, que é número mágico a garantir efetividade segundo a crendice. O bicho parava de repente e depois mudava de direção sem atacar o devoto. São Roque é festejado a 16 de agosto, padroeiro contra pestilências (Gaio Sobrinho, 1997). Morreu jovem, de peste negra. Sua imagem mostra um cachorro lambendo suas feridas. Pois bem. Carvalho (2008, p. 246) chama a atenção para o fato de que pairam dúvidas sobre este santo: seu próprio nome é pouco conhecido, pois Roque seria um sobrenome; não há certeza sobre a data de nascimento e morte, esta geralmente mencionada como sendo no ano 1357. Era natural de Montepellier, onde teria nascido e morrido. Segundo ainda a mesma fonte, São Roque teria no peito uma marca de nascença, em forma de cruz.
São Roque nalguns terreiros é sincretizado com Obaluaiê, o grande orixá que tem domínio sobre as doenças dermatológicas, forma jovem do orixá Sr. Omulu (o Velho), ambos, senhores de muita das entidades chamadas Exus. Por conseguinte, agosto é mês de festejar os Exus entidades (catiços). Nos terreiros, conforme a linha ou orientação espiritual, os médiuns cumprem obrigações, preceitos, fazem oferendas especialmente dedicadas a esses mensageiros universais, guardiões e agentes do movimento de realização.
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Imagem de São Roque - Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG. Data: 10/09/2020. |
Nas igrejas e capelas poucas festas expressivas acontecem. No primeiro domingo é a vez do Senhor do Bonfim, cujo dia oficial é 06 de agosto; no meio do mês é a vez do Trânsito de Nossa Senhora, uma festa litúrgica que envolve três título marianos: dia 14, Nossa Senhora da Boa Morte; dia 15, Nossa Senhora da Assunção e Nossa Senhora da Glória. O ensinamento catequético prega que Maria não teve uma morte comum como nós outros, mas uma forma especialíssima, chamada "dormição" e foi levada de corpo e alma aos céus em sua assunção e para glória foi coroada como rainha aos pés da Santíssima Trindade. Porém, dos três títulos, o mais marcante é o primeiro, que se excede em popularidade aos demais e chega a nomear a própria festa, "
Festa da Boa Morte". Bom fim; boa morte. A morte santificada, como um prêmio ao comportamento cristão modelar, glorificação de uma vida santa.
Via de regra as noivas não gostam de casar em agosto. Dá azar. Logo dana a brigar com o esposo e não tarda a separação.
"Agosto é mês do desgosto". Então se reza, para que as coisas aconteçam "a gosto de Deus..." Muitas mortes acontecem, e não faltam referências a personalidades falecidas nesse tempo, o que só fortalece a fama de agosto.
Não se tem certeza das razões dessa fama macabra. O oitavo mês do ano tem esse nome em homenagem ao Imperador Romano César Augusto.
Agosto, o mês negativo, se despede. Os crédulos respiram aliviados. Setembro se aproxima e com ele a primavera, a regularização climática, a esperança de chuva, a fertilidade dos solos. As festas reiniciam. A vida é um ciclo, a cultura popular também, porquanto seja parte dessa vida. Os congadeiros se aprontam: vai começar a temporada de festejos em honra ao rosário! Salve, Maria!
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Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo, São João del-Rei, setembro/2016.
(papel couché, 29,5 x 41,7cm) |
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Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Dimas, São João del-Rei, setembro/2016.
(papel couché, 29,3 x 41,7cm) |
Referências
CARVALHO, Geraldo Barroso de. Meu santo protetor. Barbacena: Gráfica e Editora Cidade de Barbacena, 2008. 270 p.
COSTA, Gutemberg. Agosto: mês de desgraça e desgosto. O Mossoroense, 30 de agosto de 1998, Mossoró. p.2.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. Belo Horizonte: SEGRAC, 1997. 153p.
Créditos
- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
Notas
[1] Agosto é também o Mês do Folclore, tendo no dia 22 sua data comemorativa, em memória de William John Thomms, o inglês que nos legou essa palavra e a base de seu conceito:
folk-lore. Sobre este assunto ver as seguintes postagens:
FOLCLORE NOSSO DE CADA DIA
FOLCLORE, CULTURA POPULAR E PATRIMÔNIO IMATERIAL
[2] Uma das crenças regionais diz que o cachorro enlouquece devido à forte dor que sente ao contrair miíase ("bicheira") no ouvido.
Revisão e acréscimo da fotografia da imagem de São Roque: 05/08/2026.
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