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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 24 de julho de 2014

Derla

Derla é um arco de madeira, terminado por um gancho de ferro em cada extremo, que se leva às costas, apoiado aos ombros, para se carregar cestos ou balaios pendurados, contendo verdura, legume, rizomas comestíveis e frutas. Carregar a derla exige um tanto de força física e outro tanto de equilíbrio do peso, pois o próprio movimento corporal, ao se caminhar, gera o balanço da derla. 

Em São João del-Rei, as mulheres italianas e suas descendentes, até a década de 1970, vinham das colônias de imigrantes com suas derlas, trazendo esses mantimentos colhidos em suas propriedades para a venda na cidade. O ponto de reunião era a esquina da Rua Frei Cândido com Avenida Leite de Castro, no Bairro das Fábricas, beirando a linha férrea da EFOM, do Trem do Sertão. Os moradores das cercanias, já habituados à presença delas, acorriam para as compras, à margem dos trilhos. O cenário arquitetônico em derredor era de edificações térreas, na maior parte residenciais, cuja estética remetia ao ecletismo; a Igreja de Dom Bosco ao alto, como um marco na paisagem. As quatro fábricas de tecidos da avenida estavam na ativa e dessa forma muitos moradores eram operários das tecelagens. 

A presença das mulheres verdureiras compunha um cenário típico do Bairro das Fábricas, uma característica de seu comércio, que fazia parte da rotina dos finais de semana. O alimento era produzido de forma naturalista, sem agrotóxicos, valendo-se de repelentes naturais de pragas (pulverização com água de cinza e certas ervas maceradas), da própria fertilidade do solo e do uso de esterco como adubo. Ajustava-se ao que atualmente se qualifica como alimento "orgânico". Era fruto de um árduo trabalho braçal e longa caminhada desde as colônias. Sua presença não representava prejuízo para os estabelecimentos que já forneciam hortifrutigranjeiros, à época chamados "mercadinhos"; tampouco para as bancas de verdureiros estabelecidos no Mercado Municipal. Elas tinham seu momento presencial e espaço. O comércio, em geral, era mais ou menos dividido assim: pães, vendidos em padarias; carne, em açougues; verduras e legumes, no Mercado e mercadinhos; cereais, farinhas, mantimento em geral, fumo, sabão e produtos diversos, encontrava-se nos armazéns; peixes em peixarias, remédio em farmácias. Não que esses estabelecimentos tenham desaparecido, mas houve também grande transformação do comércio. Os supermercados pré-existente nas cidades do interior, com frequência eram semelhantes a grandes mercearias. Com sua multiplicação na década de 1980, a maioria dos supermercados ingressaram no conceito marcadamente em uma linha de influência estadunidense e passaram a levar ao extremo o superlativo de seu nome, colocando nas gôndolas tudo aquilo que o pequeno comércio ofertava e muito mais. Sob o pretexto de praticidade, facilitação das compras, os supermercados ocuparam o espaço antes das mercearias, e dentro deles, o cliente já traz o pão, o peixe, a verdura, etc. Símbolo capitalista e da facilitação da vida corrida, da qual pouco tempo sobra para ir a vários estabelecimentos, ele não deixou maiores oportunidades às outras formas de estabelecimentos, literalmente eliminando os pequenos concorrentes em disputa acirrada. 

A par dessa transformação, a própria ocupação da terra também se alterou muito, seja com o parcelamento do solo (criando-se micropropriedades onde era difícil manter as plantações), que além do sustento caseiro, permitisse a venda do excedente; seja com a venda da terra - por diversas razões - e/ou mudança de atividade. Disso resulta que as comunidades tradicionais de verdureiras, que cultivavam na base da agricultura familiar, em grande parte foram desfeitas e não havia mais espaço para essa venda ambulante de verduras. 

Romantismo e saudosismo à parte, as mudanças sociais, de trabalho e da economia, do próprio regramento ligado a autorizações de venda ambulante, vigilância sanitária e questões mais pontuais, levaram a derla ao desuso. Ela perdeu seu espaço e sentido. Virou cena do passado, lembrança apagada pela transformação urbana, mas também configura um símbolo de uma época que detinha outra relação do são-joanense com o comércio e com a terra.


Derla.


Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli  

Notas

- Revisão e expansão da postagem: 06/03/2026

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