Sob o nome de muxirão é conhecido no Brasil o costume rural dos pequenos agricultores se auxiliarem mutuamente e de forma gratuita, em favor de um, reunindo-se para exercer uma tarefa de execução impossível só pelo indivíduo ou mesmo por sua família. Posteriormente o ajudado participará de outros muxirões em auxílio das pessoas da comunidade que lhe ajudaram.
A palavra muxirão tem procedência
indígena e ao longo do território nacional se desdobrou em muitas corruptelas:
mutirão (a mais conhecida, por isso doravante, usada neste texto) mutirom,
mutirum, muxirã, muxirom, pixurum, ponxirão, putirão, putirom, puxirão, puxuru
e puxirum. Surgem como sinônimos Brasil afora: ademão, adjunto, ajutório,
ajuri, ajuricaba, arrelia, bandeira, batalhão, boi-de-cova, côrte, estalada,
faxina, junta, pega-de-boi, suta.
É costume antiqüíssimo, difundido no
Brasil todo e em diversos países da América, África, Europa e Ásia nos quais
vai recebendo uma vastidão de nomes.
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Mutirão de capina, Restinga (Ritápolis/MG). |
Muitos estudiosos os tem abordado mas destaco dentre eles os seguintes ensinamentos:
"O
Mutirão, velho hábito das populações rurais brasileiras, não poderia ser
examinado longe da realidade econômica nacional (...) não só no Brasil como em
vários países, o Mutirão depende mais ou menos da organização do trabalho
rural, da carência de mão de obra etc., aspectos logicamente ligados à
estrutura econômica agrária e, por conseguinte, à própria economia regional." (MOTA, p.12)
* * *
(...) "há uma instituição de solidariedade social, nem eventual nem episódica, com todas as características de permanência e generalidade. (...) Se esse apoio recíproco não existisse, muito piores seriam as condições de vida das nossas populações rurais.(...) mesmo na fase em que nos encontramos, de transição de uma economia colonial para uma economia pré-capitalista, ainda aqui o corretivo do mutirão se afirma para desbastar arestas e encher os vazios da pobreza." (GALVÃO, p.14)
* * *
"O mutirão é uma instituição social que atenua, corrigindo-os, os efeitos individualistas que a economia latifundiária imprimiu à vida rural brasileira." (CASCUDO, p.603)
Em Minas Gerais é costume bastante
arraigado e na microrregião Campos das Vertentes onde focalizei esta pesquisa
foi bastante usado, hoje resumido a ocorrências muito eventuais em comunidades rurais
mais isoladas e tradicionalistas. Em geral desapareceu das povoações, banido
pela força conjunta da pressão capitalista, de fatores da globalização, do
fluxo migratório para novas frentes agro-pecuárias de outras regiões, do êxodo
rural e por algumas distorções trazidas pelas leis trabalhistas e de proteção
aos menores de idade (assíduos nos mutirões). A falta de oportunidades e de
infra-estrutura no campo, além da especulação imobiliária, contribuem também
para a dissolução das comunidades rurais. Uma vez que os agentes desse costume
se transferem para as periferias, eles não tem possibilidade de mantê-lo e logo
desaparecem. Na cidade só resta o mutirão para “bater laje”, ou seja, concretar
a laje de uma casa.
Não compete a um pequeno artigo ilustrativo
explorar em análises cada um destes ítens supra-expostos.
Por tudo isso, muito embora não estejam
exterminados, mas pelo menos semi-extintos ao menos por aqui nas Vertentes, opto
por uma questão de bom senso em escrever no passado.
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Mutirão de Capina, Restinga (Ritápolis/MG). |
Eram ocasiões de mutirões: capina de grandes plantios, roçado de pastos, abertura ou limpeza de regos de irrigação, valas para divisão de terras e estradas de servidão à comunidade; taipamento de casas ou mesmo sua construção completa, certas colheitas e seu carregamento, abate de um porco grande, limpeza de áreas que serviriam a festas da comunidade, serviços de tecelagem (mutirões femininos), derrubada de matas, carregamento de madeira, encoivaramentos, obras de certas pontes, edificação de capelas rurais, etc.
Distinguiam-se duas modalidades deste serviço
voluntário: o mutirão propriamente dito, que era solicitado aos companheiros
por quem dele precisava, ou oferecido por eles (ou pelo líder comunitário), que
reconheciam a necessidade do proprietário; ou em outra qualquer circunstância,
mas sempre com o consentimento do dono da terra, que por saber de antemão, se
preparava para o evento com comes-e-bebes suficientes e gente para ajudar na
cozinha, pois é de praxe tratar fartamente dos componentes de um mutirão. É
ponto de honra. Retribuição indispensável e instantânea. A segunda modalidade
era a “traição”, que mais que sinônimo de mutirão, designava aquela sua versão
que se realizava de surpresa, sem que o beneficiado soubesse, posto que era
tramado “pelas suas costas”. A turma de trabalhadores chegava de repente no
sítio ou fazenda, pela madrugada e acordava os moradores com grande algazarra,
entre tiros para o ar, foguetes, cantoria, batidos de pedras no metal da enxada
ou foice. Assim anunciados e feitas as saudações, partiam direto para o
serviço, enquanto o anfitrião acorria desorientado para arranjar de uma só vez
comida, quitandas, café e cachaça para todos.
Fica claro que enquanto os homens pegavam nas
ferramentas pesadas, se estabelecia um mutirão paralelo, o da cozinha, a cargo
das mulheres, aceleradas nos preparativos, sempre abundantes.
O dono da terra ficava como um pêndulo no
balanço entre a cozinha e a roça, dando atenção a todos e por assim dizer
supervisionando as tarefas, sem porém nenhum autoritarismo.
O número de participantes era sempre muito
variado pois dependia da disponibilidade e boa vontade de ajudar. Obviamente
que pessoas antipatizadas naquele meio não recebiam tal ajuda e por
conseguinte, quanto mais benquisto mais participantes teria o mutirão em seu
favor. Relatos orais falam de vinte a oitenta integrantes. Claro que variava
também com o tamanho da tarefa e o da própria comunidade rural.
Os mutirões mais freqüentes por aqui eram os
de capinar e os de roçar.
Para o de capina prevaleciam dois sistemas de
tarefas: o de quadros e o de eito. Os líderes logo ao chegar ao lugar do
serviço, punham-se a medir o solo por meio de varas (cada uma com 11 palmos e
meio – ou seja aproximadamente 2,50 m cada), em comprimento e largura, marcando
terrenos em quadriláteros, de duas a quatro varas ou mais, que entregavam a
cada trabalhador. Pegavam no serviço com firmeza e sempre havia o intuito de
terminar mais cedo que os outros. Quem não dava conta e pelo almoço não tinha
terminado, era alvo de zombaria por parte dos companheiros.
Após a alimentação, o serviço remanescente
era tomado de imediato no sistema de eito. Todos compunham como que uma linha
de trabalhadores, em sentido transversal ao terreno. Avançavam capinando juntos,
mas nunca a fileira se fazia homogênea. Os melhores de serviço eram postos nas
extremidades e mais para o centro ficavam os menos produtivos. Como os extremos
logo avançavam mais, a formação tomava o formato de uma meia-lua e se ela
fechasse em círculo sob os do centro... Aí então o motejo era enorme! Os do
meio se esforçavam ao máximo para que isso não acontecesse, pois o chefe da
turma, quando via que para isso caminhava, logo gritava como interjeição entre
a cantoria: “olha a coruja!” ou “olha o homem do bumbo!”. Era como a senha para
que acelerassem. E nesse jogo passavam horas.
Em tempos muito remotos havia o costume de um
indivíduo correr ao longo da fileira batendo um tambor para compassar o ritmo
das enxadadas. Ainda se usava uma espécie de fantoche de pano imitando uma
coruja, que era fincada numa estaca no meio do roçado e ficava de lá como que
vigiando os trabalhadores. Era o incentivo pois o bicharoco de trapos ficava
com a pessoa retardatária até o próximo mutirão e o sujeito era então alvo de
intermináveis pilhérias. Assim também que o caixeiro batia seu instrumento mais
perto do atrasado para lhe estimular o ritmo. Desaparecidos de fato, ficaram
apenas no palavreado como lembrança.
Durante os quadros não, mas no eito, a
cantoria era desenfreada, puxada pelos mais experientes, um encabeçando cada extremo
da fileira (eram os “orélas”). Desafiavam-se mutuamente, exibindo seus dotes
improvisatórios e o conhecimento acerca de versos antigos decorados. Em Piedade do Rio Grande eram chamados "capitães de roça".
Os demais capinadores ou roçadores
respondiam em vogais prolongadas como se aboiassem, mas respondendo em
uníssono, ou prolongando o fim dos versos, então escalonando vozes como nas folias de Reis.
Os cantos deste trabalho seguiam a
estilos, variáveis conforme a região. Em Alagoas por exemplo, reparou Alceu M.
Araújo que o chamavam “aboio de roça”, diferente do aboio do vaqueiro, mas
guardando certa similitude estrutural.
Por aqui um estilo é a “derrubada”,
cantada por ocasião dos serviço com foice, enxada ou machado. Os versos
habitualmente aludem às coisas simples da roça e parecem ingênuos aos olhos do
observador urbano. É também conhecida no sudoeste mineiro.
"Agora qu’eu vô cantá, -
ô laranjeira!
Qu’inda hoje eu num
cantei, - ô laranjeira!
Eu quero exprimentá meu
peito, - ô laranjeira!
S’inda ‘stá como eu
deixei, - ô laranjeira!"
(Passos/MG. O solista canta os versos
e os demais respondem “ô laranjeira”)
Para o centro-norte mineiro se diz
“guaiano de roça” (ou guaiana), diferenciando-o do verdadeiro guaiano, que é
canto acompanhado de dança em filas vis-a-vis,
desempenhado nos intervalos das folias de Reis.
O “jongo de roça” se discernia pela
influência afro no seu estilo e não raro se intercalavam palavras de base
africana:
(Solista:)
"Oi que puê, que puê!
Oi, norungandá,
quimbarca maioê, rê, rê, rê!
_ Êh...! Chega a barca,
barquêro,
quero m’imbarcá,
passá pro lado de lá,
subí no arto de
montanha...
ei, saravá quem é?"
(Desafiante:)
"_ Êh...! Saravá dono
roça,
saravá dono de roça!"
(Cubango, Resende Costa/MG)
Um estilo muito próximo era a “jomba”,
que ainda sobrevive absorvida pelos moçambiques, sobretudo no rumo oeste
mineiro. O desafio se processava numa linguagem travada, até por vezes quase
dialetal, por meio de pontos, cujo significado só os iniciados poderiam
entender. Até porque muitas vezes estavam eivados de misticismo religioso
referentes aos orixás e entidades espirituais. Por isto cantavam algo cuja
interpretação ficava ininteligível ou era interpretada às avessas:
"Vovô pegô o machado
E foi pro rio pescá;
Vovó pegou o anzol
E a lenha foi cortá,
Se eu canto jombê,
Ôceis intende jombá..."
(Ibituruna/MG)
Algumas vezes um trabalhador ousava
intrometer-se no desafio e tentava interpretar e responder o verso proposto,
que se repetia até ser desvendado por um certo desafiante. Mas se não houvesse
o traquejo os mais velhos poderiam “amarrá-lo” através da cantoria ou mesmo
revidar com temíveis feitiços, de fato ou apenas na ameaça verbal, apenas
propondo um verso misterioso que o intimidasse:
"Num mexe com marimbondo
Sem ter palha pra queimá
Marimbondo é bicho bravo
Inda faz casa no ar..."
(São Gonçalo do Amarante, São João del
Rei/MG)
A “acabada de roça” era com os
versos derradeiros, sempre alegre e não mais de porfia, trazendo satisfação e
recobrando os ânimos:
“Ei, candimba!
Arruma a mala,vai embora
_ Oi, candimba!”
(Cubango)
ou:
“Vamos’imbora, gente!
Vamos’imbora gente,
Até para o ano se Deus
quisé!”
(Santa Rita do Ibitipoca)
Para terminar e sempre em intensa
alegria, arrancavam um ramo do mato, ou planta de milho ou cana, e com ele
vinham na dianteira, de volta da lavoura
para a sede da fazenda ou sítio, acenando-o qual um pendão. É a “bandeira”. Por
vezes eram duas: uma ficava com o chefe do mutirão (“turmeiro”) e tinha um pano
ou lenço vermelho amarrado, e outra era entregue ao “patrão” (dono do terreno),
com um pano branco.
Os trabalhadores chegavam pulando no
ritmo da cantiga, enxada ou foice ao
ombro, batendo no metal com uma pedra fazendo-o tinir ou percutindo
ritmadamente uma enxada contra a outra.
Entregar o ramo como uma bandeira
(daí dizerem “festa das bandeiras”) era o simbolismo de entregar a missão.
O dono da terra agradecia a todos e
se confraternizavam com a comilança extra, a cachaça corria solta e diante de
uma fogueira improvisada no terreiro da fazenda, passavam outras tantas horas
tocando instrumentos musicais e cantando modas caipiras, dançando catiras,
canas-verdes lundus, quimbetes, batuques de viola, mazurcas e outras danças.
Da parte de todos havia o esforço de
cumprir as tarefas antes do Natal, pois a roça que ficasse sem limpeza até esta
data extrema, fosse por grande desleixo do seu dono ou por não permitir o
mutirão, era alvo de uma represália sui-generis
chamada joão-do-mato, estafermo ironizador e de finalidade expurgatória, que às
escondidas punham na sua lavoura. Mas deste detalhe não vou explanar neste
texto, pois já foi tema de outro, que publiquei a uma década.
Assim em resumo corriam os mutirões
embora que detalhes se vissem daqui e dali e que me fogem no momento deste
breve relato.
É fato lastimável o desaparecimento
deste costume que além de uma finalidade prática utilíssima, tinha um grande
poder agregador na comunidade, banindo o egoísmo. Não se fazia por dinheiro,
mas por consideração. A paga era a alegria de uma união fraterna, a satisfação
da dança e do canto, a fartura alimentar. As condições sociais desfavoráveis
desestruturaram quase por completo o sistema de vida rural e suas tradições.
Sem articulação não tem mais como viver, nem na roça vazia de gente nem no
subúrbio lotado de estranhos.
Referências
bibliográficas
ARAÚJO,
Alceu Maynard. Folclore Nacional.
São Paulo: Melhoramentos, 1964.
AULETE,
Caldas. Dicionário Contemporâneo da
Língua Portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Delta, 1978.
CASCUDO,
Luís da Câmara. Dicionário do Folclore
Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]
GALVÃO,
Hélio. O Mutirão no Nordeste. Rio de
Janeiro: Ministério da Agricultura, 1959. Coleção Documentário da Vida Rural,
n.15.
MOTA,
Ático Vilas-Boas da. Mutirão:
inquérito lingüístico-etnográfico-folclórico. Goiânia: Impresa Universitária,
1964. V.1, questionário.
PASSARELLI,
Ulisses. Topei com o joão-do-mato... Revista
da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, n.19, agosto/1998.
Cantos
afro-descendentes: vissungos. Suplemento.
Belo Horizonte: Secretaria Estadual de Cultura, out./2008.
Notas e Créditos
* Texto: Ulisses Passarelli, agosto/2007.
** Fotografias: autor e data não identificados. Reproduções de fotografias presentes na sacristia da Capela de São Sebastião na Restinga do Meio (Ritápolis/MG), consentidas pelo zelador da época.
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