Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador São Crispim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Crispim. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Erês

Os Guias de Criança na umbanda


Os “erês” ou “ierês” podem ser contemplados na religião de umbanda pela perspectiva da crença ou através da doutrina. Segundo acredita a crença da umbanda, em geral, os erês são espíritos infantis, de crianças desencarnadas, que em vez de se dirigirem para uma nova reencarnação, tornaram-se entidades espirituais (guias), trabalhando nas tendas ou terreiros para a caridade. Está óbvio para a umbanda, que não são todas as crianças falecidas que se transformam em entidades. Em alguns lugares são relacionadas por sincretismo aos santos gêmeos São Crispim e São Crispiniano e em outros a São Cosme e São Damião (bem mais frequente); ou ainda, à entidade Alabá, irmanada a Doum. A data da festa própria é 27 de setembro, coincidindo com o dia de São Cosme e São Damião, na maioria dos terreiros de umbanda. Embora que, por finalidade prática de disponibilidade de datas e a fim de facilitar a reunião dos participantes os terreiros podem deslocar a festividade para uma data próxima. Mas, nesse contexto, via de regra, setembro é normalmente mencionado como "Mês das Crianças". 

Já do ponto de vista mais doutrinário, em essência, os erês são referidos como espíritos de elevada pureza, não necessariamente em estado pueril, mas que, ao se manifestarem, apresentam-se sob uma forma arquetípica infantil. Daí o médium que lhes serve de aparelho à incorporação comporta-se tal como uma criança, seja menino ou menina. Alguns erês de umbanda aparentam-se como se tivessem pouca idade (primeira infância); outros mais, dão ares de pré-adolescentes. 

Tais guias possuem nomes próprios, a maioria no diminutivo. Na umbanda, por exemplo: Ismael, Benjamim, Algodão, Pedrinho, Luizinho, Joaquinzinho, Joãozinho, Chiquinho, etc. - são os “meninos” - Mariazinha (da Praia, da Cachoeira, do Jardim ...), Terezinha (... de Angola), Izildinha, Iarinha, Odetinha, Estrelinha, Aninha, etc. - as “meninas”.

Trabalham com velas azuis e rosas ou com essas duas cores conjugadas na mesma vela (bicolor). Eventualmente, conforme a causa que trabalham, usam velas de outras cores, como branco, amarelo e verde. Agem espiritualmente muito bem no desmanche de feitiços de qualquer espécie e na transformação do entristecimento em alegria. Existem interpretações de crença de alguns terreiros que certos espíritos de crianças e, sobretudo, adolescentes que em vida terrena foram traquinas por demais, trabalham na energia de linha esquerda, chamados “Exus Mirins”, como um contraponto ou complemento energético. Mas também nesse quesito há divergência doutrinária, pelo que, algumas lideranças de terreiro ensinam que Exu Mirim não é necessariamente uma criança, mas sim um "novo Exu", ou seja, um espírito que iniciou-se recentemente na seara de entidade, como um estágio ou treinamento para de fato ascenderem à condição de Exus. Nesse caso, o termo mirim, derivado da língua tupi com o significado de pequeno, não se refere ao tamanho físico por alusão à criança, mas sim, numa expressão de humildade, um reconhecimento que são menores hierarquicamente que os verdadeiros Exus. 

Seu dia votivo é a quarta-feira, junto com os pretos velhos, que os supervisionam nos trabalhos,  para conter excessos. Os erês habitualmente os chamam de "vovôs" e "vovós".

São espíritos brincalhões, alegres, cheios de molecagens sadias, agindo em seus aparelhos ("cavalos") de forma pueril: brincam no chão com carrinhos e bonecas, chupam bico (chupeta), pedem balas, confeitos e maria-mole. Ao brincar, por vezes lambuzam os consulentes com suas guloseimas e desfazem trabalhos de magia negativa. 

As insígnias principais são a chupeta, o estilingue, carrinhos e bonecas. 

Os alimentos preferidos são doces de todo tipo, balas, confeitos, jujubas, pipocas, cocadas, pés-de-moleque, arroz-doce, maria-mole e refrigerantes. Tem predileção por bala de mel e bala de goma com a qual fazem as mais fortes firmezas.

Os trabalhos são entregues em jardins floridos, sem espinho, ou em campos gramados, sob uma árvore; eventualmente, em cachoeiras. Nas umbandas mais intensamente marcadas pela cultura iorubá que a bantu, geralmente aparecem sob a égide de Oxalá, como uma falange, embora haja um ramo doutrinário que os considerem numa linha própria, comandada por Yori. Alguns erês vibram eventualmente no enfeixamento energético de outros orixás (Erês de Ogum, Erês de Oxum...) ou de forças naturais (águas, pedreiras, matas, etc.). [1]

Em São João del-Rei/MG, as Festas de Erês (ou Ibejada) foram contempladas com processos de registro, na categoria "Celebrações", reconhecendo-as formalmente como patrimônio cultural do município, dada sua amplitude e significação histórica e social. De início, houve o reconhecimento individual da Festa dos Erês praticada na Tenda Espírita  Umbandista Pai Benedito d'Angola, fundada em 1980 e ainda em atividade, sob a dirigência espiritual do sr. José Isaías (São João del-Rei, 2018) [2]. Posteriormente, outro processo de registro de patrimônio cultural amplificou o reconhecimento ao incluir as Festas de Erês de outros terreiros do município, para além das expressões devocionais católicas ligadas a São Cosme e São Damião (São João del-Rei, 2022). [3]

Por fim, ainda que brevemente, destaca-se que em outras religiões vigentes no Brasil as concepções sobre as crianças são outras. No catimbó, por exemplo, há as entidades “Gogique e Gogideque”, moleques da Índia (Cascudo, 1978).

Em alguns candomblés a designação coletiva de “erês” diverge da umbanda, ao acreditar-se que representam espíritos protetores das iaôs (filhas de santo): Sambangola, Pé-de-Pavão, Beké, Estrelinha, Cavunje, Chico-Chico, Deuandá, Bom-Nome, Mbámbi, Dourado, Cardeal, etc. (Cascudo, s/d). Por vezes recebem festa própria no barracão ou roça de culto, no final de setembro ou a 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida e das Crianças. Via de regra, no candomblé se ligam ao orixá Ibeiji, recebendo as oferenda de caruru, e nos terreiros de maior flexibilidade ritualística, sem prejuízo para guloseimas e brinquedos.

No espiritismo, tendo por base os ensinamentos de Allan Kardec em "O Livro dos Espíritos" (questões 197 a 199), se diz que as crianças ao morrerem, logo são acolhidas no plano espiritual e retomam com brevidade a consciência acerca do seu verdadeiro estágio espiritual e se programam para reiniciar um novo processo reencarnatório. 

No catolicismo popular, acredita-se serem transformadas em anjos, dada sua inocência. A Bíblia Sagrada diz que: “Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários e que reduz ao silêncio vossos inimigos” (Salmo 8, 3); para além, é assaz conhecida a passagem evangélica na qual Jesus, ao ver repelidas algumas crianças que dele se aproximavam, admoestou: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas" (Evangelho de Mateus, 19,14). 

Firmeza para erês na Cachoeira do Bom Despacho,
Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG. 
06/12/2015.

Mesa de guloseimas no decorrer da Festa dos Erês da Tenda de Umbanda Ogum de Ronda,
São João del-Rei. 25/09/2022.


Referências 

Bíblia Sagrada. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965. 1602 p. + anexos.

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas da magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930 p.il.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 

SÃO JOÃO DEL-REI. Festa dos Erês – Festa de São Cosme e Damião, da Tenda Espírita Umbandista Pai Benedito D’Angola. Processo de Registro de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2018. 

SÃO JOÃO DEL-REI. Festas de Cosme, Damião, Erês e Ibeiji de São João del-Rei. Processo de Registro de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2022. 


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] Até este ponto da narrativa a fonte de conteúdo é a experiência vivencial e de pesquisas do próprio autor na umbanda em São João del-Rei/MG, desde o ano de 1998, incluindo memórias, observações e entrevistas a lideranças religiosas. 
[2] Processo 060/18, Resolução 004/18 - 23/11/2018, Homologação Decreto nº7.794, 28/11/2018. 
[3] Processo 048/22, Resolução 008/22 - 07/12/2022, Homologação Decreto nº10.226, 07/12/2022. 

- Revisão: 06/09/2026 (com acréscimo de informações, fontes e fotografias).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Crispim & Crispiniano

Crispim e Crispiniano são santos irmãos, gêmeos, romanos, nobres, festejados a 25 de outubro. Fizeram pregações na França, onde foram martirizados, em Soissons, no ano 285/6 (certas fontes dizem 287), por decapitação, no império de Diocleciano, sob as ordens Maximiano Hércules. Rezende (1970) descreve detalhes do longo martírio nas mãos de Ricciovaro, ministro de Maximiano, entre açoites, punções dolorosas sob as unhas e tentativas frustradas de matá-los em fervura e por afogamento. Sua vida só findou ao terem as cabeças decepadas.

O professor Antônio Gaio Sobrinho, atendendo gentilmente a um pedido meu, em comunicação pessoal, passou-me proveitosas informações desses santos, das quais ora transcrevo o seguinte:


“suas cabeças foram levadas para a Igreja de São Lourenço, em Roma, enquanto os seus corpos teriam permanecido em Soissons, onde mais tarde, pelo século VI, lhes foi erguida pelos sapateiros, uma igreja. Igual irmandade, em 1560-1572, lhes construiu também uma igreja em Lisboa”. (...) Sua ligação com os sapateiros é, segundo consta, porque, para não sobrecarregarem os fiéis com a despesa de sua alimentação, trabalhavam durante as horas vagas, como sapateiros. (...) Atribui-se a um possível milagre destes santos o tradicional costume de se colocarem na chaminé, em vésperas de Natal, os sapatinhos das crianças para receberem presentes. O costume surgiu quando, numa véspera de Natal, eles, perseguidos por bárbaros, se refugiaram num casebre rural, onde vivia uma pobre viúva com duas crianças, descalças, porque até seus tamanquinhos haviam sido utilizados para acender o fogão para preparar-lhes uma humilde refeição, inclusive com a pouca matula que eles mesmo traziam consigo. De madrugada, antes que a viúva se levantasse, eles já haviam tomado estrada. Quando a mulher se levantou e se aproximou da chaminé (...) ficou maravilhada ao ver ali dois pares de sapatinhos que os dois irmãos santos, durante a noite fizeram para as crianças. E mais, os sapatinhos estavam cheios de moedas de ouro." 


São considerados protetores dos sapateiros, segundo tradição medieval. Rezende (1970, p. 195) informou que de sua tenda de sapateiro, os gêmeos convertiam a população, devido a terem grande freguesia:

"faziam da sua banca de trabalho uma cátedra evangélica, e com tal persuasão pregavam, que, durante quarenta anos de apostolado amável e insinuante, fizeram toda aquela gente desertar os templos pagãos, deitar por terra os ídolos, convertendo-se à adoração do verdadeiro Deus toda a cidade e redondeza." 
 
Em São João del-Rei, os sapateiros festejavam esses gêmeos, conforme atestaram algumas notas jornalísticas: 

“Um grupo de rapazes desta cidade, officiaes de sapateiro, desde annos atraz crearam aqui a festa de S.Chrispim, padroeiro da classe, e este anno ella cresceu de brilho e solemnidade. Constou a festa, realizada no dia 25 [de outubro], na Matriz, de missa com musica e á tarde Te Deum Laudamus, tendo funcionado uma esplendida orchestra organizada com profissionaes de um e outro côro; isto é, de musicos da Orchestra Ribeiro Bastos e da Lyra Sanjoannense, todos sapateiros”. (O Repórter, 1906).

Uma outra notícia desta festa é oferecida por outro jornal desta cidade:

"Agora, são os sapateiros que vão homenagear o seu padroeiro, estando programmatizados para hoje, consagrado a S.Crispim e S.Crispiniano, diversos actos religiosos, que serão encerrados com uma luzente procissão e um solemne  "Te Deum Laudamus" (A Tribuna, 1925). 

A adoção de um patrono para uma classe profissional é um costume enraizado na Idade Média, das corporações de ofício com seus mestres, aprendizes e um santo patrono. A mesma nota supra, por exemplo, dá conta que no dia 16 daquele mês e ano os alfaiates da cidade haviam promovido os festejos de São Geraldo, "protetor da laboriosa classe." [1]

A festa dos gêmeos não é mais realizada. Aliás, já quase não há sapateiros. 

A Igreja canonizou outros quatro santos com o nome de Crispim, além de São Críspulo e Santa Crispina, com os quais não devem ser confundidos. 

Nas religiões de matriz africana são devocionados por sincretismo em alguns terreiros, sem nenhuma ligação com os sapateiros, mas sim com a infância e mais especificamente com as entidades denominadas erês. Nalguns candomblé estão sincretizados com o orixá das crianças e gêmeos, Ibeiji, em paridade a São Cosme e São Damião. Na umbanda são venerados na Falange das Crianças (erês), da Linha de Oxalá, como consta neste ponto cantado (curimba): 

“Cosme e Damião!  
Oi, Doum! 
Crispim, Crispiniano, / 
São os filhos de Ogum!”. 
 
Foi com esta releitura que a devoção chegou aos dias atuais, voltada para a proteção infantil.

Sua oração consta no tradicional livro de preces espiritualistas “Cruz de Caravaca da Capa Preta” e pede pelas tantas... “união, concórdia e confiança”, graça que teriam alcançado pela intercessão da Virgem Maria. 

Referências 

A TRIBUNA. São João del-Rei, n.692, 25 outubro1925.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

Livro da Cruz de Caravaca da Capa Preta. 3.ed. Rio de Janeiro: Espiritualista, [s.d]. p. 131-132.  

O REPÓRTER. São João del-Rei, n.39, de 28 outubro1906.

REZENDE, José Severiano de. O meu flos sactorum. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971. 258p.



Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] O ofício de alfaiate tem menção muito antiga em São João del-Rei. Uma licença foi concedida pela Câmara da Vila, em 26 de março de 1719, a Manoel André, "para abrir sua loja e para exercer seu ofício de alfaiate." (Cintra, 1982).  

- Revisão: 06/09/2026.