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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

São Gonçalo do Amarante: breve histórico de um distrito de São João del-Rei

 

            São relativamente poucas as informações que se dispõe sobre a história desse distrito. Estudos ora em curso confluem ou trazem evidências que surgiu à margem do Caminho Geral do Sertão, via de acesso do período colonial, consolidada no século XVII, pela qual os sertanistas adentravam o território, expandindo-o à custa do apresamento dos indígenas e em contínua busca de riquezas minerais (Passarelli, 2025). No entanto, a pesquisa não é conclusiva, pois ainda coteja documentos, rastreia relatos de época, traceja possíveis rotas, procura em campo as velhas cavas e caminhos abandonados. Não há informação concreta, mas sim evidências, que apontam uma possibilidade plausível.

Em extensão territorial o distrito é relativamente pequeno, com 96,51 km2 (Wikipédia, 2026), o menor de São João del-Rei. Dessa cidade, se divide a leste-sudeste pela elevação da Serra do Lenheiro. Sua divisa norte e noroeste acompanham o itinerário do Rio das Mortes, tendo o município de Ritápolis na margem oposta. A divisa oeste e a sul se fazem por linha sinuosa que atravessa as elevações, dividindo São Gonçalo do Amarante respectivamente do município de Conceição da Barra de Minas e do distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno.

A população do distrito de São Gonçalo do Amarante, segundo dados do IBGE do ano 2010, era de 1.035 pessoas, sendo a população do setor[1] (sede distrital) da ordem de 265 pessoas residentes (142 homens, 123 mulheres), em domicílios particulares que totalizam 141 unidades, sendo 89 ocupadas (IBGE, 2019).

À margem de um antigo caminho

            O Caminho Geral do Sertão a partir de São Paulo, grosso modo, surgiu pelo aproveitamento e alargamento de antigas trilhas indígenas. Seguia pelo vale do Rio Paraíba do Sul, até a zona de travessia da muralha natural da Serra da Mantiqueira, mormente a Garganta do Embaú, pela qual se alcançava o alto serrano que corresponde ao atual sul do Estado de Minas Gerais. O caminho trilhava a norte, até alcançar o Rio das Mortes, em Ibituruna. Daí por diante, há divergências de interpretação, talvez geradas por bifurcações do caminho. Seja como for, ou o caminho em si, ou uma derivação dele, rumava a leste, em direção ao trecho médio do Rio das Mortes, onde havia um ponto de travessia, entre as elevações visíveis à longa distância, depois chamadas Serra do Lenheiro e Serra de São José. Daí por diante o caminho tomava rumo nordeste, em direção à região do Rio das Velhas. (Derby, 1899-A; Derby, 1899-B; Guimarães, 1985). Entre as duas serras supracitadas, floresceu a cidade de São João del-Rei e do lado oposto da Serra do Lenheiro, a noroeste imediato da cidade, surgiu o distrito de São Gonçalo do Amarante.

            Tal caminho, contudo, em fins do século XVII ou início do XVIII recebeu um atalho na altura da roça de Manoel de Sá, na área hoje no sul de Minas (Mourão, 2019). Com isto, o trecho até a travessia do Rio das Mortes ficou bastante encurtado, abreviando a viagem: o atalho rumava à Serra das Carrancas e atravessava o Rio Grande cerca de onde hoje se situa as comunidades de Capela do Saco e Caquende, saindo a seguir no povoado do Tijuco, Rio das Mortes Pequeno e por fim na área que se formou São João del-Rei (Antonil, 1711; Brito, 1732). O atalho deixou fora do tráfego maior de viajantes todo o trecho relativo a Ibituruna. O lugar do atalho, onde a estrada bifurcava, passou a ser denominado de Encruzilhada; mais tarde, Cruzília (Lima Júnior, 1985). O Caminho Geral do Sertão foi cognominado “Caminho Velho”, aproximadamente a partir do ano 1700, quando a abertura ou melhoria do caminho entre o Rio de Janeiro e as minas motivou sua denominação em “Caminho Novo”; ao passo que o Caminho Geral do Sertão, sendo anterior, recebeu a alcunha de Velho, prevalecendo a partir daí essa denominação (Guimarães, 1986).

            Diante disso, como dito, todo o trecho conectado a Ibituruna, perdeu bastante seu protagonismo. Mas Ibituruna, considerada sob a fundação de Fernão Dias Paes em 1674 (Pompéia, 2009), prosseguiu ligada a São João del-Rei até sua emancipação em 1962. O caminho de interligação entre os dois lugares, possivelmente corresponde em grande parte ao primitivo leito do Caminho Geral do Sertão, que passava por Conceição da Barra de Minas (também emancipada de São João del-Rei em 1962), surgida do povoado da Boa Vista, no qual se erigiu na década de 1720 a capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Segundo Antônio Gaio Sobrinho, no seu livro “Memórias de Conceição da Barra de Minas”, ao mencionar Fernão Dias Paes e a sua famosa Bandeira das Esmeraldas, em 1674-5, o mesmo teria seguido: “inicialmente, direção paralela ao curso do Rio das Mortes, atravessou as regiões que seriam depois Conceição da Barra e São Gonçalo do Brumado. Cerca de doze léguas distante de Ibituruna, vadeou o rio, rumo ao Norte, no local que, posteriormente, se chamaria “Porto Real da Passagem” (Gaio Sobrinho, 1990, p.21).

Esse autor defendeu a hipótese de ser esse o Caminho Geral do Sertão, e apresentando a defesa, manifestou que “o dito caminho de ligação, entre Ibituruna e São João del-Rei, passava por Conceição da Barra, São Gonçalo do Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes e até São João.” (Gaio Sobrinho, 1990, p.22).

A partir de Conceição da Barra de Minas, a Serra do Mama Rosa era o marco geográfico de direção na paisagem; e, passando pela área do atual povoado da Boa Vista (não aquele que deu origem a Conceição da Barra de Minas), vinha a referência altaneira da Serra do Caxambu e daí ao atual São Gonçalo do Amarante; deste à Serra do Lenheiro e São João del-Rei.  

Antiga cava paralela à atual estrada do Caburu, na travessia do

 vale do Ribeirão do Brumado: 
possível vestígio do Caminho Geral do Sertão.  

Alterações toponímicas

            A região distrital era rota firmada e ponto de paragem. É desde então que surgem notícias de São Gonçalo do Brumado, nome primitivo do local. “Brumado” refere-se à peculiaridade climática, favorecida pelas condições úmidas e montanhosas do lugar, com abundância de nevoeiro, brumas – brumado é lugar de muitas brumas, neblina, serração. Há pouca distância corre o Ribeirão do Brumado. No entanto, outra interpretação sugere que o nome brumado procede de embromado, no sentido de logro, engano, equívoco – uma referência ao lugar que se tinha uma expectativa de ter riquezas minerais, mas que revelou-se desprovido ou com quantidade pouco compensadora de ouro e outros minérios de valor.              O nome original setecentista é alterado por força da Lei nº843, de 1923, passando a se chamar Caburu, palavra de origem indígena tupi, com duas possibilidades de tradução: junção de “cab” (vespa, marimbondo) com “uru” (cesto, balaio), ou seja, a caixa de marimbondos; o vespeiro. Outra hipótese é ser corruptela de “cabaru”, que significa cavalo. O topônimo permaneceu até 28 de junho de 1990, quando a Resolução nº 1.081 da Câmara Municipal de São João del-Rei alterou o nome do distrito para São Gonçalo do Amarante, com plena referência ao padroeiro (Passarelli, 2014).

Reprodução da Resolução nº1.081, de 28/06/1990, da Câmara Municipal de São João del-Rei, a qual altera o topônimo Caburu para São Gonçalo do Amarante na designação distrital.

 Cronologia

1720-1730: construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo do Brumado (Wikipédia, 2026).

1732: construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1738: a 10 de fevereiro é batizado Gonçalo, na igreja de São Gonçalo do Amarante. Era filho de Lourenço Ribeiro Brito e de Quitéria Corrêa de Almeida. O celebrante foi o capelão Padre Dionísio Ferreira Alves (Cintra, 1982).

1738: a 20 de junho é aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de São Gonçalo do Amarante (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do Museu de Arte Sacra).

1746: um “Auto de vereança determina a Francisco Ribeiro, ‘morador ao pé de S. Gonçalo’, a Francisco Martins Guimarães e a seu sócio Antônio Duarte, moradores no Sítio do Pega Bem, que providenciassem a abertura de caminhos” (Cintra, 1982).

1749: “Os moradores das capelas de N.S. da Conceição da Barra, São Gonçalo da Ibituruna, N. S. de Nazaré, São Gonçalo do Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filiais do Pilar de São João del-Rei, pedem a criação da paróquia de N.S. da Conceição da Barra” (Guimarães, 1995).

1777: A) a 14 de setembro escravizada parda Ana e seus filhos são libertos da Fazenda do Pega-bem pela escritura assinada por Francisco Martins Guimarães e sua esposa, Maria Ribeira da Silva. Há um registro que o dito fazendeiro foi padrinho de um batizado realizado na capela de São Gonçalo do Amarante, em 28 de outubro de 1743; B) a 19 de setembro Manoel da Costa Vilas Boas e Gama é empossado como Capitão de Ordenança do distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1792: a 15 de dezembro, “O Visconde de Barbacena assina Carta de Sesmaria a favor de Jerônimo José Martins – ‘meia légua  de terras em quadra’, terras devolutas situadas no Pega-bem, atual distrito do Caburu, confinado com terras do Ten. Bonifácio Gonçalves de Aguiar, com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas da Gama, e com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas Gama, e com as do patrimônio do Pe. João da Costa Guimarães, e as dos herdeiros de Francisco Lobo Rios.” (Cintra, 1982).

1804: falecimento do Alferes Jerônimo José Martins na Fazenda do Pega-bem, distrito de São Gonçalo do Brumado. Era português natural da freguesia de São Torquato, termo da vila de Guimarães, Arcebispado de Braga. (Cintra, 1982).

1807: falecimento em 05 de agosto do Tenente Bonifácio Gonçalves de Aguiar, cujo testamento se deu na Fazenda do Caxambu, no distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1809: a 9 de dezembro,“Joaquim de Souza Lopes é eleito Juiz da Vintena das Aplicações de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno e São Gonçalo do Brumado”. (Cintra, 1982).

1811: a 15 de agosto, “o Conde de Palma concede a José Gonçalves de Aguiar a patente de Cap. do Distrito de S. Gonçalo do Brumado”. (Cintra, 1982).

1815: aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que congregava os homens negros. No entanto, evidencias textuais apontam que a irmandade já existia anteriormente e inclusive existe recibo avulso do século anterior (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do Museu de Arte Sacra).

1828: a Fazenda do Mama Rosa, na área de São Gonçalo do Brumado, é vendida a seis de dezembro pelo Capitão-mor Francisco de Paula Vilas Boas e Gama e sua esposa, Rosa Joana do Vale Amado de Abreu e Melo, ao Guarda-mor Luiz Fortes de Bustamante e Sá. (Cintra, 1982).

1829: a 03 de julho, Manoel José da Silva é nomeado para o cargo de zelador da Capela de São Gonçalo do Amarante. (Cintra, 1982).

1830: Nasce em São João del-Rei a 30 de julho o Coronel Aureliano Mendes da Silva Caldas, o qual foi fazendeiro em São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1838: falece a 23 de março o Padre-mestre e Orador Sacro Manoel da Paixão e Paiva, que fez parte da Aula Régia de Latim. Ao falecer, deixou diversos filhos reconhecidos em seu testamento, dado na Fazenda Retiro Venturoso. De sua propriedade deixou 19 escravizados e as Fazendas do Mundo-vira e de São Gonçalo. As três fazendas mencionadas estavam no território de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1840: a 14 de abril, o Alferes José Cândido Alves é confirmado para o posto de Inspetor de Quarteirão de São Gonçalo do Brumado. (Cintra, 1982).

1850: a lei nº 472, de 31 de maio, restaura o distrito de São Gonçalo do Brumado que fora abolido na primeira metade daquela centúria (Barbosa, 1971).

1865: Lei nº 1.265, de 19 de dezembro, suprime o distrito (Barbosa, 1971).

1866: falece a dois de janeiro o alferes José Cândido Alves, na Fazenda do Brumado. Era natural de São João del-Rei, filho de João Damasceno Alves e Tereza Maria de Jesus. Foi Juiz de Paz e Subdelegado no distrito e membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São Francisco (Cintra, 1982).

1868: Lei nº 1.561, de 20 de julho, restabelece o distrito (Barbosa, 1971).

1875: Lei nº2.103, de 04 de janeiro extingue o distrito de São Gonçalo do Brumado (Barbosa, 1971).

1875: Lei nº 2.142, de 28 de outubro, novamente restaura o mesmo distrito (Barbosa, 1971).

1876: Lei nº 2.281, de 10 de julho, eleva a Capela de Santo Antônio, no Rio das Mortes a matriz paroquial. Engloba também o distrito de São Gonçalo do Brumado, como freguesia (Barbosa, 1971; Barbosa, 2008).

1890: Decreto nº 131, de 03 de julho eleva o antigo distrito policial de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno a distrito de paz e extingue a Freguesia de São Gonçalo do Brumado. Este também passa a distrito de paz (Barbosa, 1971; Barbosa, 2008).

1900: Lei municipal nº78, de 23 de novembro, suprimi o distrito de paz de São Gonçalo do Brumado (Barbosa, 2008). A Câmara Municipal suprime o distrito de São Gonçalo do Brumado, anexando-o ao distrito da sede. Com isto, os recursos para o lugar foram reduzidos à metade. O ato gerou muitas discussões políticas. (O Combate, n.30, 05/12/1900).

1903: falece Romualdo Honório de Oliveira, a 11 de abril, o qual foi Juiz de Paz em 1890 em São Gonçalo do Brumado, negociante e fazendeiro, deixando vasta descendência cuja genealogia foi organizada por Sebastião de Oliveira Cintra (Cintra, 1982).

1905: Resolução nº320 da Câmara Municipal, de 03 de abril, autoriza obras para conserto na estrada de São Gonçalo do Brumado (O Repórter, 1905).

1918: falece José Pedro de Carvalho, na Fazenda do Gondou, a 28 de maio. (Cintra, 1982). 1923: A) Lei nº843 restabelece a Freguesia de São Gonçalo do Brumado, com o novo nome de Caburu (Barbosa, 1971). B) É instalado o serviço de correio no Caburu (A Tribuna, 1923) [2]. C) O livro de atas nº 2 (o nº1 está aparentemente desaparecido) do Apostolado da Oração e  Liga do Sagrado Coração de Jesus indica a seguinte diretoria: Padre Frei Simeão van den Akker (Diretor), sr. José Honório de Carvalho (Presidente), sra. Maria Estevan de Carvalho (Vice-presidente), sr. Pedro Honório de Oliveira e sra. Rita Sérvula dos Santos (Secretários). Além destes, havia vários zeladores e associados (acervo da instituição).

1924: no primeiro dia do ano houve a solenidade de instalação do recém-criado distrito do Caburu. As intempéries prejudicaram a cerimônia. Houve discursos e ao término, banquete (A Tribuna, 1924).

1926: a 30 de maio ocorre a instalação distrito judiciário do Caburu, por força do decreto 7.232, de 18 daquele mês e ano (Barbosa, 2008).

1936: fundação da Conferência de São Gonçalo do Amarante, a 10 de maio – sodalício religioso de natureza caritativa.

1945: O grupo escolar de São Gonçalo do Amarante desaba devido ao abandono no qual as autoridades o deixaram (Diário do Comércio, 1945).

1946: transferência do cemitério do adro da igreja para o alto da colina, na entrada do distrito, com inauguração a 22 de outubro.

2006: ampla obra de reforma da Igreja e reconstrução do campanário.

2021: obra emergencial no decorrer do primeiro semestre, de apoio à fundação do ângulo anterior direito da igreja (esquerda do observador), o qual estava apresentando problemas de recalque, gerando trincas e desaprumando da parede, a ponto de afetar internamente o tirante.

2025: encerramento das atividades da escola local. O prédio, um próprio municipal, onde funcionou passou à gestão do Congo-vilão Nossa Senhora do Rosário por meio de Termo de Cessão de Uso, válido por 15 anos, com a finalidade de servir de sede ao congado e construção de um memorial da comunidade.

Aspectos políticos e econômicos

              É mister observar que entre 1850 e 1923 o distrito foi várias vezes abolido e reestruturado por força de leis, passando entre as categorias de povoado, freguesia e distrito. Tal oscilação é sintomática de instabilidades econômicas e pressões políticas, possível indicação que merece um estudo específico aprofundado. 

              Além da atividade agropecuária dessas fazendas, notícias orais dão conta que no passado explorou-se ouro de aluvião na área distrital beira-rio em alguns córregos e grotas, com vestígios dos serviços de mineração ainda visíveis. Para além, uma cartografia do final do século XIX aponta em sua legenda áreas mineradas ao redor da sede distrital, conforme a imagem abaixo.

  

Recorte cartográfico do mapa de São João del-Rei observando-se a posição de São Gonçalo e as marcações pontuadas imediatamente à sua esquerda (entre a sede distrital e o Córrego do Mama Rosa) e à direita (vale do Ribeirão do Brumado), correspondendo a áreas mineradas, segundo legenda do original. Fonte: Arquivo Público Mineiro. Ano: 1895. 

 

No mais, nas imediações da Pedra Ramalhuda minerou-se cassiterita (“minério de casqueiro”), há cerca de 60 ou 70 anos passados, com raspagem da superfície do solo, e ainda, nos anos 1980 retirava-se o mesmo minério ao sopé dos morros à margem do Rio das Mortes, próximo ao leito ferroviário, abrindo-se pelo barranco galerias de exploração, conhecidas por “mina-tatu”, por conta do aspecto que tomavam, semelhante às escavações de um tatu (mamífero dasipodídeo).

Fora das rotas principais, representada pelo Caminho Velho e as variantes dele nascidas, o pequeno arraial formado teve poucas possibilidades que favorecessem seu crescimento. A população antiga ou sua significação econômica setecentista pode ter sido maior no passado que se julga à primeira vista, tomando por base a dimensão da igreja distrital, que de imediato impressiona ao visitante. Ela é reveladora do poderio econômico de fazendeiros, que decerto devem ter patrocinado a edificação. Fato é que nas primeiras décadas dos oitocentos a realidade local era desanimadora, a ponto do militar português Raimundo José da Cunha Matos, por lá passando na primeira metade do século XIX, ter afirmado que o arraial era muito decadente, ainda que, o afirmou, tivesse se originado da mineração, reconhecida fonte de riquezas (Matos, 1836).

A atividade econômica se atém à agropecuária de subsistência, com o excedente da produção voltado para comercialização. Nos meios folclóricos, a linguagem popular atribuiu aos são-gonçalenses a alcunha senão tanto pejorativa, mas antes, bem humorada, de “quiabeiros”, referência à venda de quiabo e outras hortaliças e legumes para a cidade, trazidos no passado em lombo de burros tropeiros, pelos tortuosos caminhos da Serra do Lenheiro, conforme explicitou Passarelli (2013) em seu texto “Apelidos Gentílicos” [3]. A configuração espacial da vila de São Gonçalo do Amarante se desenha imediatamente ao norte da estrada de acesso, polarizada ao sul pelo cemitério e no extremo oposto pela Pedra Ramalhuda. A parte central se destaca pelo largo gramado, amplo e plano, estabelecido diante da igreja do padroeiro, que é a maior construção local e cartão postal. No largo também se revelam a presença do antigo cruzeiro e ainda um coreto mais recente. Em 2016 foram instalados aparelhos coletivos de ginástica pela municipalidade, entre o coreto e o cruzeiro. O casario em sua maior parte é de um só pavimento e situa-se circulando o largo, ou margeando as poucas ruas, como a que vem do cemitério, a que vai para a Pedra Ramalhuda (Rua das Flores), a Travessa Cava Funda, a Rua da Bomba (referência à unidade de bombeamento de água potável) e outras.

Considerações finais

O distrito de São Gonçalo do Amarante guarda ainda em seu aspecto geral as marcas da ruralidade e o clima bucólico. Portador de uma história tricentenária, que talvez rivalize em temporalidade com a da própria cidade de São João del-Rei, conheceu no passado pré-colonial a cultura indígena marcante, decerto dissolvida e/ou absorvida pelo movimento colonizador. Narrativas e fenótipos ainda remetem a essa página esquecida da história, sugerindo pesquisas arqueológicas e outras. Inclusive, já tem sido encontrados ao acaso alguns artefatos líticos de superfície, bem como fragmentos cerâmicos que remetem a esses povos macro-jês, talvez puris e catauás, ora reunidos em exposição no acervo do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei (São João del-Rei, 2024-B).

Mas ainda mais antigo que esses vestígios materiais, certamente é o monumento megalítico composto pela Pedra Ramalhuda e pela Pedra Redonda, ainda em estudo, mas que se revelaram promissores. Na Ramalhuda já foi constatada ligação astronômica e segue em maiores averiguações, sugerindo ter sido um monumento pré-histórico, dos grupos humanos caçadores-coletores (Ferreira et al., 2025).

No panorama cultural, o distrito ora se destaca pelo grupo de congado, do tipo congo, tido como muito antigo, mais que centenário, ainda bastante preservado e que anima de forma marcante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que se realiza tradicionalmente no segundo domingo de outubro.

Outras festas locais que mobilizam bastante a comunidade são a de São Sebastião (janeiro), a Semana Santa (abril) e a do padroeiro, São Gonçalo do Amarante (julho), todas elas patrimonializadas e inclusas no calendário oficial de eventos religiosos do município[4]. Os povoados ligados ao seu território também tem suas festas religiosas próprias.  

No distrito ainda se encontram algumas tradições culinárias, como a saborosa comida mineira feita no fogão à lenha, a produção de quitandas, doce de leite, queijo minas frescal, pastéis (Bar do Sidney) e frango frito (Bar do Vado).

No passado, outras manifestações da cultura popular marcaram época, fortalecendo os laços comunitários: Folias de Reis, Boi Malhado, Encomendação das Almas, Quadrilha Junina, queima de judas, mutirões de capina de plantações e roçado de pasto, rezas da Santa Cruz. Todas desapareceram, sendo que dessa última ainda sobrevivem alguns elementos que aos poucos vão caindo em ocaso, como enfeitar e rezar junto ao cruzeiro central e enfeitar as cruzes de fachada das casas no dia 03 de maio. Também houve uma banda de música no local, alvo de tentativas de soerguimento nos últimos anos.

Na localidade conhecida por Cruz da Cristina, um mirante natural com vista privilegiada para a Serra do Lenheiro, para além de alguns achados arqueológicos fortuitos, é corrente a devoção popular à alma de uma andarilha, conhecida apenas por “Cristina”, falecida há mais de um século, como medianeira de graças.

Referências

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A TRIBUNA, n. 467, 08/04/1923, São João del-Rei.

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BRITO, Francisco Tavares de. Itinerario Geographico: com a verdadeira descripção dos Caminhos, Estradas, Rossas, Citios, Povoaçoens, Lugares, Villas, Rios, Montes, e Serras, que há da cidade de S.Sebastiao do Rio de Janeiro. Sevilha: Officina de Antonio da Sylva, 1732. 26p.

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O COMBATE, n.30, 05/12/1900, São João del-Rei.

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PASSARELLI, Ulisses. Apelidos gentílicos. Tradições Populares das Vertentes, 17 jul. 2013. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2013/07/apelidos-gentilicos.html Acesso em 30 set. 2026.

PASSARELLI, Ulisses. Toponímia: uma expressão do patrimônio cultural. 11 fev. 2014. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2014/02/toponimia.html Acesso em 30 set. 2026.

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Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 



[1] Segundo o código do IBGE, o setor São Gonçalo do Amarante recebe o número de identificação 316250015000001

[2] Estas efemérides de 1923 se devem a atuação política do sr. Carlos Augusto Alves de Oliveira, morador dessa comunidade que na ocasião era vereador e atuou fortemente para elevar o arraial a distrito e trazer um serviço de correios. Informante: seu bisneto, Everaldo Guimarães (set.2026).

[4] Processo de Registro “Festas Religiosas de São João del-Rei”, CMPPC-046/18 e 047/22. Patrimonialização administrativa pela Lei nº5.443, 20/06/2018, alterada pela Lei nº6.078, 02/05/2024. Ratificação pelo decreto nº 10.225, com mudança do livro de inscrição (de Modos de Fazer para Celebrações).

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