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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 28 de junho de 2016

O histórico povoado do Córrego

O povoado do Córrego, velho como o ouro das Minas Gerais, é hoje uma porção urbana de Santa Cruz de Minas, "A Menorzinha do Brasil". Porém, quem vê hoje o Córrego, local aprazível, não imagina talvez sua antiguidade...

Desde os primórdios da exploração aurífera na região é conhecido o topônimo "Córrego", dado a uma pequena localidade, junto ao antiquíssimo caminho que interligava o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar (hoje São João del-Rei) ao Arraial Velho de Santo Antônio (hoje Tiradentes), através do Porto Real da Passagem.

O nome é uma referência ao Córrego de Dona Antônia, um regato que nasce em um boqueirão ao sopé da Serra de São José, em terras brejosas, donde lacrimejam olhos d'água, nascentes que se reúnem e formam o pequeno regato supranominado, que praticamente em linha reta corre por cerca de um quilômetro e duzentos metros e já deságua  na margem direita do Rio das Mortes.

No seu trecho médio é cortado pelo citado caminho, hoje incorporado à denominação Estrada Real. Neste ponto, à montante, ainda existe no mato pequena barragem de concreto armado, que represa sua água e produz uma bica onde era costumeiro reunirem-se as lavadeiras na típica atividade. A memória popular falava do Córrego como local de garimpeiros teimando em faiscar; em ciganos acampados barganhando cavalos, tachos de cobre e cordões de ouro; de carreiros tangendo carros de boi gemedores; tropas de muares indo e vindo. Casos de assombrações eram comuns. Falavam dos mistérios da quaresma velha, da porca misteriosa com os pintinhos; da mula sem cabeça; dos feitores da Fazenda do Córrego como fantasmas que ainda fazem barulho de chicote e de pedras caindo sobre telhados... 

Ainda na primeira metade dos anos noventa do século passado, o Córrego era entendido pela população de Santa Cruz de Minas como um bairro limitado entre a Rua Osvaldo Lustosa e a fonte de água ("Bica do Lorinho") no princípio da Serra de São José (no Serrote), onde fica a última residência. Era então um conjunto de poucas casas pequenas e algumas chácaras, além da sede da Fazenda do Córrego, construção do princípio dos setecentos. A atividade econômica local se limitava à produção de mel, de leite e de verduras e a criação de porcos.

Nos dias atuais o Córrego ampliou bastante o número de casas, a partir da fragmentação de suas chácaras. O incremento ao turismo como atividade econômica importante contribuiu para abertura de várias oficinas e lojas de artesanato, inclusive a fabricação de móveis rústicos e de madeira de demolição. Conta também com bares e pousada [1].

O Córrego na Guerra dos Emboabas

Sua primeira citação procede da época da Guerra dos Emboabas. No relato de uma testemunha do conflito e seu combatente, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira, é informado que durante a contenda, os paulistas, vindos das minas do Rio das Velhas (Caeté, Sabará) se aglomeraram justamente no Córrego em 1708 [2]:

(...) "contínuas tropas de paulistas que chegavam a este distrito, retirados dos emboabas daquelas partes do Rio das Velhas (...) desabalaram para este Rio das Mortes e juntos onde chamam o Córrego, lugar da outra parte do rio, que fica entre as duas vilas" (p.104)

Foi a partir do Córrego que os paulistas divididos em grupamentos ("mangas") se acoitaram pelos matos quando souberam que uma grande tropa inimiga estava de chegada. Um destes grupos, fugindo do Córrego, foi emboscado no célebre episódio do Capão da Traição, possivelmente na região do Pombal, rio abaixo. 

O Córrego no conflito de divisas entre São João del-Rei e Tiradentes

O Córrego foi incluso no território de São João del-Rei quando foi definida sua sesmaria patrimonial por ordem do Governador da Capitania, em 16 de agosto de 1714, medindo duas léguas em quadra, como se pode perceber do croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976, p.39).

Esta jurisdição porém duraria pouco. A criação da vila vizinha de São José del-Rei (atual Tiradentes), em 1718, despertaria conflitos de território com São João del-Rei desde o princípio. Sua segunda sesmaria patrimonial, de 28 de março de 1718 define o território da nova vila com meia légua em circunferência com pião no centro da vila. Com isto houve justo na área do Córrego uma ligeira sobreposição à sesmaria de São João del-Rei, tomando-lhe o Córrego, como mostra croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976, p.52), que afirma: "fica bem evidente que o povoado do Córrego passou a integrar a sesmaria patrimonial da vila de São José, na ligeira interpenetração na sesmaria da vila de São João, em virtude da curvatura da linha limite" (p.53).

Em 1719, a demarcação oficial de oito de fevereiro, definiu o Córrego de Dona Antônia como divisa, por ordem do Ouvidor Geral, informa ainda BARREIROS (1976, p.69):

"(...) mandou o Ouvidor Geral continuar a mediçam hindo para a parte do Corrigo, (...) mandou o dito Ouvidor Geral fazer disso exame, e achando ser na forma que o haviam informado, mandou que o Corrigo chamado de D. Antonia o qual vem pelas fraldas do dito morro (Serra de São José) entrar no dito Rio das Mortes foçe marco, e divida para esta parte do Corrigo na mediçam e demarcaçam da dita Villa de Sam Joseph..."

Esta divisa prevaleceria até o fim de 1755, quando, a 17 de dezembro, o Ouvidor Geral  da Comarca do Rio das Mortes, Francisco José Pinto de Mendonça determinou novos limites entre as duas vilas pelo Rio das Mortes, ficando as terras da margem esquerda com São João del-Rei e as da direita com São José del-Rei (Tiradentes). Assim o povoado do Córrego se fixava fora da área de conflito territorial, na jurisdição de São José (BARREIROS, 1976, p.100).

Porém, novamente, as divisas seriam mexidas na área do Córrego. BARBOSA (2008), informa que a lei nº2.242, de 26/06/1876, anexou ao termo de São João del-Rei a Vargem do Porto e o Córrego. Já a lei nº2.938, de 23/09/1882, restabeleceu as antigas divisas em São João del-Rei e Tiradentes, que ainda permanecem, exceção feita à região do núcleo colonial dos migrantes italianos, que era de Tiradentes e passou a São João del-Rei no final do século XIX (Colônia do Giarola e vizinhanças).

Descoberta de ouro no Córrego

É sabido que ouro foi descoberto também no Córrego e aí houve muita atividade mineradora. O Sargento-Mor José Matol, participante da Guerra dos Emboabas, relatou em 1740 [3]:

"Nesta (Vila de São João del-Rei), e na de S.José, e seus termos se lavra até o presente por terra, e pelo mesmo rio das Mortes, e suas margens, e se tem topado em diferentes tempos com boas pintas, e grandes manchas; porque de outra parte do rio, aonde chamam o Córrego, que também é descoberto desde o princípio destas minas, se tem dado várias catas de grandes conventos, como também por mato dentro da Vila de S.José, e ainda na mesma Vila com boas e ricas Guapiaras." (o grifo é nosso)

A parte grifada acima revela a antiguidade da descoberta do ouro no Córrego: desde o princípio destas minas (do Rio das Mortes); isto quer dizer primeira década do século XVIII, pois o ouro em Tiradentes foi descoberto em 1702, em São João del-Rei e Prados em 1704, gerando o fluxo de aventureiros na região, que obviamente redundou nos descobertos do Córrego.

VELLOSO (1920) em matéria de jornal informou que em 01 de fevereiro de 1723, o governador D. Lourenço de Almeida nomeou Francisco Ferraz de Souza, Domingos Xavier Fernandes (avô de Tiradentes) e José da Rocha Antão, respectivamente, Provedores dos Reais Quintos dos distritos de Prados, Mato Dentro ou Bichinho e Córrego, do termo da vila de São José e em 02 de julho do mesmo ano, passando pela vila, deu a Manoel da Silva Lobo o cargo de Capitão da Companhia de Ordenança do Distrito do Córrego, informa ainda Herculano Velloso. Para esse autor, a "povoação do Córrego, que foi, pelas suas ricas lavras, um dos mais importantes destritos, nos tempos coloniaes, do Rio das Mortes."

Mas quanto a ser distrito importante, ressalte-se, enquanto a mineração prevaleceu. Com a decadência da exploração mineral o povoado perdeu importância na região. VALE (1985) informa que em 1830 o número de fogos no arraial do Córrego era de trinta e dois. A palavra "fogos" significa lares, onde existe um fogão para fazer o alimento de uma família. Portanto, 32 fogos equivale a 32 casas. Para se ter melhor noção do que representava esse tamanho, compare-se com outros arraiais do mesmo termo naquele remoto ano: Bichinho tinha 33, Resende Costa (então chamada Lage), 53; São João Batista (atual Morro do Ferro), 15; Desterro, 15; Passa Tempo, 119; Cláudio, 99; Lagoa Dourada, 86; Ritápolis (então Santa Rita do Rio Abaixo), 39; Prados, 84; e por fim, a própria Tiradentes, à época vila de São José, 158 casas. 

Toda a área do Córrego desde suas nascentes e as imediações do Serrote e daí ao Morro do Bom Despacho foi extensamente explorada em busca de riquezas minerais. Ainda é possível ver na encosta da Serra de São José em Santa Cruz de Minas muitos vestígios da atividade humana mineradora, estruturas de valor arqueológico e histórico tais como cascalheiras, monturos, betas, socavões, grupiaras _ nas quais o braço do homem escravizado trabalhou arduamente. 

A Fazenda do Córrego

É uma construção histórica, ainda existente, que se celebrizou por ser moradia do rico minerador Marçal Casado Rotier, que no princípio dos setecentos empreendeu por força de seus muitos escravos, intenso trabalho de exploração mineral na Serra de São José e além, rumo à várzea que ganharia seu nome, hoje Colônia do Marçal. 

De descendência franco-portuguesa, Marçal nasceu em Lisboa e veio ao Brasil com alguns irmãos. Foi juiz ordinário em São João del-Rei (1719) e benfeitor da edificação da Matriz de Tiradentes. Informa ainda GUIMARÃES (1996, p.108 e ss.), que Marçal pelo acontecimento da sedição militar da capital (Vila Rica, hoje Ouro Preto) enviou ajuda ao governador. Arrematou em hasta pública a construção da Ponte do Porto, que teria ficado pronta em 1735 [4] e a fez sobre o Rio das Mortes, ficando com o direito de cobrança do pedágio de sua transposição. A obra foi muito importante pois interligava as duas importantes vilas coloniais del-Rei, São João e São José, o que antes era feito por travessia embarcada. Também foi provedor da Irmandade do Santíssimo de São José del-Rei.

Marçal faleceu em 1767 e foi sepultado na Matriz de Santo Antônio em Tiradentes. 

A Capela do Bom Despacho

Após o primeiro trecho da Serra de São José conhecido por Serrote [5], a encosta seguinte é conhecida por "Morro do Bom Despacho", nome que prevalece até a área da famosa cachoeira à margem da Estrada Real, por isto mesmo batizada "Cachoeira do Bom Despacho", em área territorial de Santa Cruz de Minas. 

A razão do nome se prende a uma devoção de procedência portuguesa, Nossa Senhora do Bom Despacho, que teve nessa encosta uma primitiva capelinha a ela dedicada. MEGALE (1986, pp.68 e 69) informou ser:

"antiga e rara invocação da Senhora do Bom Despacho existente em algumas igrejas de Minas Gerais, principalmente nas zonas de mineração, foi provavelmente trazida pelos frades agostinianos (...) o título fora dado à Virgem Santíssima porque foi no "despacho" da Encarnação que se viu o prestígio de Maria perante Deus (...) Foi, pois, a encarnação do Verbo Divino um dos grandes despachos que os pecadores alcançaram a seu favor."

Não se conhecem dados exatos sobre a data de fundação da capela, atribuída a Marçal Casado Rotier.

SANTOS FILHO (1996) escreveu que na referida capela "em 1721, um morador do local, João de Oliveira, juntamente com outros moradores não nomeados no documento, fizeram uma petição ao visitador do bispado do Rio de Janeiro para erigir uma irmandade religiosa 'do Sr. dos Passos pela mmª. devoção que tem a imagem deste Senhor pella haverem mandado buscar...' A 2 de outubro de 1721, Gaspar Ribeiro Pereira, tesoureiro do bispado do Rio de Janeiro, expede o documento de criação da Irmandade dos Passos."

Em 1727 a imagem do Senhor dos Passos foi transladada da Capela do Bom Despacho para a Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, esclareceu o mesmo autor, numa procissão da penitência durante uma estiagem e nunca mais voltou. A irmandade logo se transferiu também. 

A despeito deste fato a capelinha do Córrego continuou em atividade religiosa e servindo a sepultamentos de escravizados; mas no começo do século seguinte entrou em franca decadência e em 1832, diz ainda Olinto Filho, a Irmandade do Santíssimo mandou recolher os materiais religiosos da ermida da serra. Obviamente, que sem acervo religioso o prédio foi abandonado e entrou em ruína. Foi assim que o diplomata inglês Richard Francis Burton a viu em 1868: 

"Passamos por muitas chácaras, agora em ruínas, relembrando os
dias de opulência de São João. Um lugar celebrado fica a cerca de duas milhas
da ponte, à margem direita do rio e na estrada de oeste, que vai para Lagoa
Dourada. O lugar deserto é hoje chamado Vargem de Marçal Casado Rotier,
um franco-português, e tem sido falado como a futura capital do Brasil.
À esquerda, ergue-se a Serra do Córrego, prolongamento suleste
da Serra de São José: a massa irregular de calcário e arenito ainda conserva,
segundo dizem, ouro e cristal de rocha. Em seu sopé, fica uma arruinada
povoação de cabanas miseráveis e belas árvores frutíferas, e, mais adiante, a
capela de Nossa Sra. do Bom Despacho. A igrejinha era bem tratada, quando
o ouro abundava no córrego e havia pomposas festividades anuais; nos
últimos quinze anos, caiu em ruínas." (BURTON, 1976). 

Relatos orais de antigos moradores do Córrego e de outros locais de Santa Cruz de Minas dão conta que aventureiros, iludidos com a crença de que havia ouro escondido nas paredes da igrejinha e seu assoalho, começaram a saqueá-la: escavaram o piso, esburacaram as paredes, remexeram os túmulos, tudo à busca de riqueza. Assim as paredes caíram e com elas o telhado, até ser destruída ao rés do chão (CRUZ, 2016; RESENDE e FREITAS, 2017).

Procissão das Almas

Narra o folclore do lugar que tarde da noite, a horas mortas, se ouvia na antiga estrada do Córrego, ainda não pavimentada, poeirenta e escura, uma ladainha de pessoas passando em prece. Nitidamente se percebia que se tratava de uma atividade religiosa. Vindos da cidade, rumo ao Córrego e mais além, na serra, passavam os penitentes em reza.

Porém, quando se chegava à janela para vê-los passar, nada se avistava, ninguém, a não ser o sopro de um vento gelado e misterioso que levantava poeira; ou então, segundo outros, via-se muita gente fluida como fumaça, imagem fantasmagórica e fugidia que desaparecia de repente, e assim se esvaía o murmurinho de vozes. Eram as almas penadas suplicando salvação, em cortejo procissional.

Epílogo (por enquanto... por encanto!)

Essas almas brumosas em procissão, para onde iriam? Fugidias, penosas, sofredoras... Talvez buscar despacho deste mundo (onde ainda estão presas) junto a Nossa Senhora, nas pedreiras da serra! Iriam para o perdido cemitério do Bom Despacho, que aguarda escavações arqueológicas? Não se sabe... A cultura popular não o diz; apenas sugere. E essa memória permanece. O povo ainda hoje chama o local da inconspícua ruína da capela de "cemitério" e a elevação onde está de "Morro do Bom Despacho", mesmo já passado um século de seu aniquilamento. O lugar ainda é usado como ambiente ecumênico, de diversas expressões devocionais, que se estendem além, em direção às cachoeiras serranas do município. 

Não bastasse o topônimo, quem anda por lá vê, porventura, restos queimados de velas brancas, sinal votivo às almas, bem onde houve o cemitério. Que coisa extraordinária essa memória do povo, resquícios, vestígios de um história semiregistrada, mal registrada ou não registrada. Testemunhos!

O Córrego foi lugar de tudo isto: de rezadeiras, feitores, garimpeiros, soldados das companhias de ordenança tomando conta do ouro de Sua Majestade; pretos a carregar carumbés; capatazes que zelavam pela Fazenda do Córrego; oleiros em movimento de amassar barro para fazer adobe; carreiros com vara de ferrão a clamar por seus bois de carro; tropeiros tangendo mulas que carregavam bruacas e jacás cheios de mercadorias, acompanhando o tinir do cincerro da égua madrinheira; ciganas a ler a mão; lenhadores carregando feixes de paus; paulistas praguejando emboabas e carregando de pólvora velhos bacamartes e clavinas. 

Essas almas encantadas simbolizam todo esse povo que do passado construiu uma história, como os artesãos de hoje prosseguem fazendo essa construção dinâmica. 




Antiga casa no Córrego, testemunha material da antiguidade do lugar. Década de 1990.

Boqueirão onde estão as nascentes do Córrego de Dona Antônia. 29/09/2013.
 
Bica no trecho médio do Córrego de Dona Antônia. Março/2004.
 
Lixo no leito do Córrego de Dona Antônia, pouco abaixo da bica. Setembro/2004. 

Confluência do Córrego de Dona Antônio no Rio das Mortes. Março/2004.  

Vista da cidade de Santa Cruz de Minas (esquerda) e da Serra de São José (direita); linha azul - traçado aproximado do Córrego de Dona Antônia, desaguando no Rio das Mortes; linha vermelha - área aproximada do antigo povoado do Córrego. Marcação e captura de imagens: Ulisses Passarelli, 16/07/2024, 21h 48min. Altura de visão: 4,21 km. Fonte: Google Earth. 

Imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho, do antigo Arraial do Córrego, 
fotografada em Tiradentes. Segundo o Historiador Olinto Rodrigues a fotografia é de 1943
e a imagem desapareceu da Matriz de Santo Antônio entre 1966 e 1970.
Fonte: livro "Relíquias da Terra do Ouro", de Edgar Cerqueira Falcão,1946.
Disponível em: Facebook


Detalhe da arte e escrita do Livro de Compromisso da Irmandade de Senhor dos Passos, 
da Capela do Bom Despacho do Córrego, acervo transferido para a igreja Matriz de Santo
Antônio em Tiradentes, na primeira metade do século XIX. 
Fonte: CRUZ, 2016. 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, José Víctor. S. João d'El-Rey atravez suas ephemerides. São João del-Rei: Imprimax,  2008 (fac-símile ed. Casa Assis, 1930). 46p.il.

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1976. 128p.

BRITO, Francisco Tavares de. Itinerario Geographico. Sevilha: Officina de Antonio da Sylva, 1732. 26 p. 

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Trad. de David Jardim Júnior. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 

CRUZ, Luiz Antônio da. Serra de São José: Educação Patrimonial Escola Estadual Amélia Passos/
Santa Cruz de Minas-MG. Tiradentes: Mandala Produção, 2016. 

DANGELO, André (org.) Origens Históricas de São João del-Rei. Belo Horizonte: BDMG Cultural, 2006. 127p. 

GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei: século XVIII - história sumária. São João del-Rei: [s.n.], 1996. 147p.

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

RESENDE, Betânia Nascimento, FREITAS, Lígia Cristina (Org.). Minha cidade, minha identidade. Santa Cruz de Minas: Mandala Produção/Prefeitura Municipal, 2017. 80p. 

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego: memória histórica. Inconfidências. Tiradentes: SAT, julho/1996, n.6.

VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985.

VELLOSO, Herculano. O Tiradentes é Sanjoanense? O São João d'El-Rey, n.08, 06/05/1920. 

Créditos

Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Em 03/02/2024, foi inaugurado no Córrego, Avenida Ministro Gabriel Passos, nº 2.082, o Museu da Cutelaria "Fio das Gerais", sob curadoria de Luciano Chaves, cuteleiro profissional com mais de três décadas de vivência na cutelaria. É o primeiro e atualmente único museu de Santa Cruz de Minas, que se desponta com um potencial imenso para crescimento, sendo um lugar educativo e prático, ideal para que no futuro formalmente funcione como ponto de cultura e espaço de memória. Possui um acervo muito significativo, cuja diversidade vai desde peças do Ciclo do Ouro, do cangaço e do tropeirismo à cutelaria contemporânea, dentre outras. Está aberto às visitações e já se tornou uma referência neste tema, inclusive por conta das peças de valor histórico, técnico e estético de seu acervo. Para saber mais a respeito, acessar os links seguintes: 



[2] "História do distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação das suas vilas", Sargento-mor José Álvares de Oliveira, 1750-1751. (in DANGELO: 2006)

[3] "Notícia que dá a R.P.Diogo Oliveira, o sargento-mor José Matol sobre os descobrimentos do Famoso Rio das Mortes", Sargento-mor José Matol, 1740.  (in DANGELO: 2006)

[4] A ponte sobre o Rio das Mortes teve construção licenciada em 1730 pela Câmara de São João del-Rei e o arrematante da obra foi o rico minerador Marçal Casado Rotier, que a teria concluído em 1735 (CINTRA, 1982; GUIMARÃES, 1996). A obra de Francisco Tavares de Brito a menciona em funcionamento: “Entra-se na Villa de S. João del Rey no Rio das mortes. (...) Logo que se sahe de Villa de S. João se passa em Canoa o Rio das mortes (se não quer passar pela ponte, de que se paga quarenta reis)” (BRITO, 1732, p.5). Portanto, o tráfego foi liberado antes da sua conclusão, ou a data do fim da obra está equivocada, tendo o término sido antes.

[5] Serrote: o mesmo que serrota, ou seja, pequena serra, pedreira grande que em seu conjunto aparenta ser uma serra de proporção menor que a circunvizinha. 

Revisão e acréscimos: 16/07/2024 e 14/04/2025.  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Jaguara... que nome é este?

O arraial da Jaguara é uma comunidade quilombola, pertencente ao município de Nazareno/MG. Situa-se no limite extremo daquele município, delimitado imediatamente pelo Córrego da Cachoeira ou Córrego da Jaguara, cuja margem oposta já é São João del-Rei. Na verdade, Jaguara pertencia a este município até dezembro de 1953, ano que Nazareno se emancipou. Jaguara situa-se imediatamente ao sul da Rodovia BR-265, a apenas 4 km de distância. Está a 19km de Nazareno, 40km de São João del-Rei e a 7km do Caquende, nas margens da Represa de Camargos (que barrou o Rio Grande).

Hoje cercada por grandes plantações,, no passado foi uma zona de matas cerradas, da qual existem alguns capões vestigiais. A comunidade em si consiste de pequenas propriedades rurais e um aglomerado de casas numa encosta de terras férteis. Bem ao centro há uma pedreira e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, padroeira local. Há também um pequeno cemitério, no alto do morro sobranceiro. Na parte baixa se destaca o campo de futebol, na várzea do córrego citado. Junto dele, uma pequena bica de água potável, sempre procurada para dessedentar os viandantes.

Possuiu uma forte tradição de carreiros e tropeiros, que as mudanças sócio-econômicas esfacelaram e hoje se encontra desaparecida. A região intermediava comércio de produtos agropecuários com outras comunidades no lombo dos burros cargueiros no gemido do carro de bois.

A festa da padroeira é um destaque local, em julho, e ainda a Festa da Consciência Negra, em novembro, que congrega a convite grupos culturais vindos de outras paragens, tais como congados, capoeiras e o grupo Pilão de Nhá (este do Caquende).

O local fica nas imediações do Caminho Velho da Estrada Real (Caminho Geral do Sertão), que atravessava o Rio Grande entre a Capela do Saco (Carrancas) e Caquende (São João del-Rei). Ora, o roteiro para as minas traçado na obra de Francisco Tavares de Brito, datado de 1732, conforme citação de JÚNIOR (1995), revela que após Carrancas se chegava ao Rio Grande e depois o ponto seguinte era Tijuca e depois Rio das Mortes Pequeno e São João del-Rei. Por estas informações se deduz que o tal caminho ao transpor o Rio Grande seguia para a região da atual São Sebastião da Vitória (distrito são-joanense), ao lado da qual existe o povoado do Tijuco, certamente o mesmo citado neste roteiro.

A palavra Jaguara é de origem indígena. SAMPAIO (1987) ensinou sobre a palavra jaguar: "corr. ya-guara, aquele que devora ou dilacera, o devorador. Forma primitiva no tupi: yauara. No guarani, yauá. Alt. Jaguá, Jaguara." Como se sabe, jaguar é onça. Já a forma "jaguará" explicou da seguinte forma: "corr. Yaguá-rá, tirado da onça, a ficção de onça. É o nome de um folguedo, que se fazia, entre os catecúmenos, com o disfarce de uma onça, envolta de palhas e folhas secas. Pode ser também de Jaguar-ã, a onça erguida, ou de pé. Bahia." (p.265). Além do sentido de onça, jaguar e suas variantes podem também significar "cão" (p.167, nota de rodapé 238). No auto do Bumba-meu-boi e em vários Reisados, um dos personagens mais populares é o "Jaraguá" ou "Jaguará", um estafermo que representa um ser fantástico, de silhueta alta, esguia, revestida de pano, terminando por uma caveira de equino ou muar, presa a um mecanismo que faz seus dentes bater estrepitosamente movida por um indivíduo metido debaixo desta fantasia. O Jaraguá dança aos corrupios, batendo queixada, avançando na molecada de forma bravia. A partir da palavra jaguar existem muitas derivações, todas de alguma forma aludindo à imagem da onça ou do cachorro.  

Não seria improvável que o nome do arraial fosse uma referência primitiva à existência local de onças (jaguares). Região de matas, rica em água... É possível. Sabe-se que a região teve onças, inclusive a toponímia deixou um topônimo, "Ribeirão do Onça", que corta o distrito são-joanense de Emboabas, antigo São Francisco do Onça. 

Mas é preciso considerar também que houve nos primeiros tempos da mineração um facínora que apavorou a região, cognominado "Jauguara". O nome do povoado seria talvez uma alusão ao apelido deste indivíduo? Um epônimo? No livro organizado por DANGELO (2012), encontramos o fundamental relato do Sargento-mor José Álvares de Oliveira, figura histórica de grande importância, que lutou na Guerra dos Emboabas e a testemunhou em seu manuscrito "História do distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação das suas vilas". Em tal obra encontramos o registrou da personalidade do destemido Jauguara.

Na véspera da Guerra dos Emboabas, os paulistas aterrorizavam o pequeno Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, hoje São João del-Rei, armados até os dentes e esbravejando valentia pela ganância do ouro e do poder. Dentre eles houve um que se destacou na barbárie _ nos dizeres da testemunha da época, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira:

"e não só com estas tumultuosas amotinações mas com as bravezas de um taubateano cognominado Jauguara que pela língua da terra é o mesmo que cachorro bravo o qual, quando se embriagava, tomava por empresa em fazer-se por a cavalo e armado com os seus escravos encaminhava-se por distância de mais de uma légua para esse arraial e entrava por ele dando mostras de sua bebacidade pelas bocas de suas espingardas semeando as ruas de chumbo e, pela mesma sua boca, com tais latidos que o mesmo era jauguara neste arraial que o cerbero no inferno e em tudo o mesmo porque se o cerbero no inferno era faminto das almas o Jauguara nas minas o era das vidas em que cevava a sua fonte e a de alguns amigos que se queriam valer da sua boa vontade."

Cérbero era um cachorro monstruoso, infernal, mitológico, dotado de três cabeças, que os gregos da antiguidade acreditavam tomar conta dos portões do mundo dos mortos. Curiosa comparação a do sargento-mor, que bem permite imaginar o quão temido foi este tal de Jauguara. Também se nota que ele não morava em São João del-Rei, posto que para ali chegar "encaminhava-se por distância de mais de uma légua", escreveu José Álvares de Oliveira.

Outra fonte de informação é ORTIZ (1996, p. 308), que ensinou:

"Um dos primeiros descobridores de ouro na região do rio das Mortes, no final da última década seiscentista, foi Gaspar Vaz da Cunha, apelidado Jaguaretê ou o Jaguara, também morador em Taubaté, onde foi juiz ordinário. Aqueles anos acampou ele com a bandeira no citado território aurífero, onde os índios lhe mostraram o metal precioso no capim, sob a forma de folhetas e grãos. Aí instalou ele suas lavras."(grifo do próprio autor)

O sufixo "etê" no tupi significa verdadeiro, legítimo, autêntico. Jaguaretê é portanto o jaguar verdadeiro, a onça legítima.

Comentou o autor que o dito Jaguara depois voltou para Taubaté, onde, no ano de 1700 ganhou uma sesmaria em Piracuama, próximo a uma das gargantas da Mantiqueira que dava passagem ao território de Minas. Teria então aberto uma via para facilitar acesso à área do ouro: "Em 1703 fez abrir um caminho, provavelmente cortando essa sesmaria, unindo o bairro de Pindamonhangaba ao Sapucaí e varando o sertão até as campinas de Capivari." A seguir voltou ao Rio das Mortes, onde estabeleceu moradia no começo dos setecentos, "dedicando-se às atividades mineiras e revelando-se intransigente inimigo dos emboabas."

Esclarece ainda ORTIZ (1996, pp. 221-222) que Gaspar Vaz da Cunha foi capitão e que em 1678 foi juiz ordinário e de órfãos. Sua esposa chamava-se Vitória de Siqueira, "de quem deixou geração". 

Uma informação histórica interessante foi levantada foi SOBRINHO (2013). Apontou que um acórdão da Câmara de São João del-Rei, de 10 de outubro de 1777, tomava medidas de contenção das atividades do quilombo da Jaguara: "acordaram em, por ser muito preciso no Distrito da Jaguara, subúrbios da Alagoa Verde, por nesse Distrito constar haver negros quilombolas fazendo distúrbios revoltados, nomear para capitão-do-mato a Manoel José de Morais, por nele concorrer os requisitos nesta ocupação e que o escrivão lhe passe a carta patente."

Seria muito bem vindo um criterioso e duradouro projeto na Jaguara. Algo que levantasse sua memória por meio dos moradores mais idosos, identificasse suas potencialidades e alternativas econômicas para fixar seus moradores na terra de seus antepassados. Aliado a isto, algo que lhes garantisse o bem estar e direitos, e é claro, a valorização de sua cultura quilombola, paralelamente à da comunidade vizinha do Palmital, também reconhecida como remanescente de quilombo. 

Segue uma seleção de fotografias que flagram imagens do povoado em festa, por ocasião das comemorações da Consciência Negra de 2015. 

Chegada dos moçambiqueiros.

Cruzeiro, ponto de devoções populares. 

Exemplar típico da arquitetura rural. 

Refrigério dos dançantes à sombra das árvores locais. 

Detalhe de um rosário de tentos. 

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo recebe os moçambiqueiros. 

Capitão "Borracha" mata a sede na bica d'água junto ao campo de futebol. 

Antiga residência de tropeiro. 

Velha árvore junto à pedreira. 

Aspecto do casario. 

Besouro preto: um grande escaravelho.

Crianças da comunidade em alvoroço, se preparam para a participação nas comemorações quilombolas. 

Uma moradora da comunidade durante a festa. 

A água secou...
Velha bica de servidão pública, onde se colhia água e lavava roupa. 

Pequeno roçado à beira da rua. 

Aspecto de uma rua na Jaguara. 

Em vigorosa marcha de rua, o moçambique de São João del-Rei, Bairro São Geraldo,
marca sua presença na Festa da Consciência Negra, batendo os toques (ritmos)
de jomba e carijó
.  

Córrego da Cachoeira ou Córrego da Jaguara, tributário da margem direita do Rio Grande, que hoje deságua diretamente
na Represa de Camargos. Vista tomada de cima da ponte que interliga a comunidade ao Caminho Velho. 

No intervalo da função, Sá Rainha aprecia a festa olhando de um alpendre.

Componentes do grupo Pilão de Nhá, vindos do Caquende. 

Referências Bibliográficas

DANGELO, André G.D. (Org.). Origens Históricas de São João del-Rei. Belo Horizonte; BDMG Cultural, 2006. 127p.il. p.103-104. 

JÚNIOR, Augusto de Lima. Caminhos Antigos de Minas Gerais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.8, 1995. 132p. p.119-128.

ORTIZ, José Bernardo. São Francisco das Chagas de Taubaté. 2.ed. Taubaté: Prefeitura Municipal, 1996. Coleção Taubateana, n.10. 858p. v.2: Taubaté Colonial. 

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. Introdução e notas de Frederico G.Edelweiss. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. Coleção Brasiliana, v.380. 359p.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Fontes Históricas de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 154p. p.109-110. 
Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 29/11/2015.

Notas 
- Revisão: 19/09/2025. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Monumentos em Matosinhos

            “Razões” do progresso puseram abaixo todo o casario colonial do Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG e mais recentemente as casas de estilo eclético, restando poucos exemplares. A arquitetura vernacular é preponderante no bairro. Como ícones monumentais restaram a Estação Ferroviária Chagas Dória e a Estátua-chafariz conhecida por Deusa Ceres. 

            No fim da década de 1990 um apelo de moradores mais sensíveis do bairro visava restaurar o pouquíssimo que sobrou. Sempre divulgando, aqueles esforçados cidadãos acabaram por lançar um projeto, “Triângulo Histórico Monumental do Bairro de Matosinhos”, que tinha por vértices a restauração da estação de Chagas Dória, a construção de uma réplica da igrejinha demolida (para servir de capela do Santíssimo e sala de ex-votos) e outra réplica, ainda que só da fachada, do também demolido pavilhão do bicentenário. A igrejinha seria feita no adro da atual e o pavilhão no desativado matadouro.

            A ampla divulgação levou a muita repercussão na imprensa, mas por falta de verbas e, sobretudo, de vontade política, o projeto não se concretizou e dele não se tem mais falado [1]. A estação foi restaurada bem depois, sem vínculo algum com este projeto.

1-      Estátua-chafariz
Controvertida é a história deste monumento, cheio de incertezas históricas. Novas considerações e estudos revelam equívocos do passado e trazem outras interpretações. É divulgado que esta peça de ferro fundido foi adquirida pela Câmara Municipal em 1887, mas exatamente a fonte original desta informação é por oras desconhecida. Mas parte-se do pressuposto de ser verdadeira em razão de se tratar de um equipamento urbano, cuja aquisição e instalação é da alçada do poder público. 

Tradicionalmente o chafariz encimado por uma estátua tem sido interpretado como Ceres, que na mitologia romana é a deusa da agricultura e da colheita. Neste sentido o monumento representa uma mulher elegante, segurando ferramentas de uso agrário (ancinho e segador) e tem aos pés um feixe de ramos de trigo. Na base, como um pedestal muito bem trabalhado, há de cada lado duas caras medonhas de cujas bocas jorrava água para dentro das respectivas bacias. Essa carantonha representa o Fauno, entidade romana da natureza.

Outras interpretações, porém, lhe atribuem um aspecto de jovem rapaz com trajes romanos, portanto estátua masculina, representativa do verão.

Ficava na lateral da igreja demolida. Em certa época dos novecentos, este chafariz foi retirado de Matosinhos e enviado para o Bonfim, onde ficou junto à estação de tratamento de água. Retornou a Matosinhos, ocupando o centro da praça. Era cercado de uma grade baixa, pintada de cor alaranjada, prejudicando ainda mais o seu visual, já poluído por conta dos trailers e barracas que ali infestavam. A grade não lhe garantia segurança, tanto que no final de 1998 uma tampa de ferro fundido da parte posterior de sua base, cheia de floreados em alto relevo, foi roubada e vendida para um ferro-velho da cidade. Felizmente pôde ser recuperada. Com a reforma da praça em 2003 essa grade foi retirada.

No carnaval de 1999, um gaiato em flagrante desrespeito subiu sobre a estátua-chafariz, pendurou em sua cabeça um pano como se tivesse com um lenço amarrado. Assim fotografada, saiu na Gazeta de São João del-Rei, como a foto da semana, na edição n. 32, de 27 de fevereiro daquele ano.

            Embora seja um chafariz há anos não jorra água.

Esta estátua possui Tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, desde o ano 2000 [2] e Inventário de Patrimônio Cultural, aprovado em 2013.

Na cidade, já correu proposta de retirá-lo de Matosinhos e trazê-lo para o centro histórico da cidade, sob alegação do patrimônio arquitetônico do bairro estar todo degradado e assim não fornecer mais entorno e ambiente propício. A ideia é duramente combatida pelos apaixonados por Matosinhos.

Sobre a origem desta estátua hoje se sabe graças à perspicácia do professor Antônio Gaio Sobrinho que se trata de uma peça da fundição francesa Val d’Osne [3]. Pensava-se antes numa origem italiana, de Turim.

Estátua-chafariz de Matosinhos, fontanário tradicionalmente chamada "Deusa Ceres", terminologia hoje em contestação, diante de seu nome original "L'eté" (Verão). Autor: Iago C.S. Passarelli, 04/08/2013.

O fontanário restaurado e trasladado para a 
Estação Chagas Dória em 2024. Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025.  

2-      Chafariz da Chácara dos Simas

         Houve em Matosinhos um outro chafariz. Era em estilo barroco, matéria-prima de pedras, com frontispício em cantaria. Localizava-se próximo à igreja. Certo prefeito o retirou, sob a alegação de restaurá-lo e Matosinhos não reviu o monumento. Lincoln de Souza noticiou acerca de um chafariz colonial removido do bairro, possivelmente esse mesmo[4]:

desenterrado aos pedaços dos fundos de uma velha chacara colonial do suburbio de Matozinhos e reconstruida cuidadosamente, está hoje nas imediações do quartel do 11º Regimento de Infantaria a atestar a sobria elegancia de suas linhas arquitetonicas.

Chafariz de Matosinhos, segundo uma antiga ilustração.
Cortesia: Osni Paiva.

3-      Monumento à Guerra dos Emboabas

Datado de 12/10/1990. Situa-se na praça principal. É um marco de pedra com placa metálica, portando longo letreiro em memória desse embate, travado no período inicial da mineração, no qual São João del-Rei foi um dos centros com episódios mais aguerridos.

Autor: Ulisses Passarelli, 06/03/2014.


Em especial, houve o célebre episódio do Capão da Traição, no qual um grupo de paulistas foi assassinado pelos emboabas impiedosamente, apesar de já terem se rendido dentro de um capão (o mesmo que capoeira, pequena mata), daí dizer-se que foram traídos. O marco rememora em especial esse fato trágico.

O lugar exato do capão não é conhecido. Uma das correntes defende que se situasse em Matosinhos, tendo a seu favor grandes nomes como Basílio de Magalhães e Lincoln de Souza. Eis uma citação deste [5]:

"O arrabalde de Matozinhos a tres quilometros da cidade, onde se realizam anualmente tradicionais festejos religiosos, cuja fundação data de 1774, foi teatro de triste episodio que passou á historia conhecido como o do “Capão da Traição”."

Estudos de Guimarães (1986) apontam como local mais plausível as proximidades do Pombal, onde nasceu o são-joanense, Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A terceira possível localização seria nos arredores dos povoados de Canela e Goiabeiras, em São João del-Rei, tese que tem como baluarte Eduardo Canabrava Barreiros.

Este monumento foi removido de sua posição original, relativamente próximo aos trilhos da Maria Fumaça, quando da reforma da praça que lhe deu a feição atual com a retirada dos traillers. Hoje se situa mais defronte ao SENAI, à frente aos aparelhos de ginástica. O verso da pedra que fixa a placa com o letreiro citado ganhou outra placa, de natureza política, referente à inauguração da  academia comunitária, como se pode ver nas fotos abaixo. 


Pedra afixada na Praça de Matosinhos, contendo a placa referente à Guerra dos Emboabas (face voltada para a igreja) e à inauguração dos aparelhos de ginástica (face voltada para a rua). Autor: Ulisses Passarelli, 06/03/2014.
Obs.: esta placa encontra-se atualmente removida (03/08/2025). 

4-      Monumento da Maçonaria

Está situado na praça, mais próximo à estação, no divisor de pistas que serve de retorno da saída da Rua Bernardo Guimarães. Sobre uma base de concreto armado, em forma de coluna, se assenta em tamanho considerável, o símbolo maçônico do esquadro invertido, sobreposto pelo compasso, tendo ao centro a letra gê, maiúscula. Datado de 27/10/1995, comemora o centenário da Loja Maçônica Charitas II, desta cidade.

Monumento maçom em Matosinhos.
Foto: Ulisses Passarelli, 02/01/2014.

Monumento já requalificado, segundo placa nele afixada, durante 
administração 2018-2020. Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025. 


Placas do monumento. 
Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025. 

5-      Monumento ao primeiro pároco de Matosinhos

Busto em homenagem ao Cônego Jacinto Lovatto Filho, posto na praça, após a reforma de 2010, defronte o santuário, no ano do cinquentenário da paróquia. Inaugurado em agosto.


Busto do Padre Jacinto. 
Foto: Iago C.S.Passarelli, 2012. 


Busto com dano (óculos removido). 
Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025. 

Uma das placas do monumento. 
Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025. 

Outra placa do monumento. 
Autor: Ulisses Passarelli, 03/08/2025. 


Referências

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: José Olympio / INL, 1976.

GUIMARÃES, Geraldo. O Capão da Traição. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n. 4, 1986.


Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotosgrafias: conforme legendas.

Notas


- Revisão: 03/08/2025. 


[1] - Alguns textos jornalísticos publicados em São João del-Rei, sobre o projeto do Triângulo Histórico:
ACI del-Rei, n. 45, out./1998; Gazeta de São João del-Rei, n. 15, 24/10/1998; n. 17, 07/11/1998; n. 34, 13/03/1999; n. 37, 03/04/1999; n. 40, 24/04/1999; n. 44, 22/05/1999; Tribuna Sanjoanense, n. 974, 30/03/1999; n. 976, 20/04/1999; n. 980, 18/05/1999.
[2] - Notícia sobre este tombamento: O Grande Matosinhos, n. 13, nov. / 2000. São João del-Rei. Dados sobre este tombamento: Decreto Municipal 11.558, 16/12/2024 (Processo 028/00; Resolução CMPPC: 006/00, 11/10/2000; Homologação: Decreto 2.628, 18/10/2000).
[3] - Informação pessoal de Francisco José de Rezende Frazão, 25/04/2012.
Ver a respeito desta notícia: SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Deusa Ceres: ela não é italiana, é francesa! O Grande Matosinhos. Coluna Gente & Notícia, n.146, abr.2012. Disponível em: www.ograndematosinhos.com.br, acesso em 26 abr. 2012.
Sobre este monumento ver também: CARVALHO, José Maurício de. Chafariz da deusa Ceres. Tribuna Sanjoanense, n. 1.040, 03/10/2000.
[4] - SOUZA, Lincoln Teixeira de. Coisas e aspectos do Brasil. O Carioca, Rio de Janeiro, 15/02/1941. In: Viagens pelo Brasil e ao Estrangeiro: caderno de viagens. (Exemplar da Biblioteca Pública Municipal Batista Caetano de Almeida, São João del-Rei) 
[5] - SOUZA, Lincoln Teixeira de. Predios e sitios historicos de São João del-Rei. 18/02/1941. In: Viagens pelo Brasil e ao Estrangeiro: caderno de viagens. (Exemplar da Biblioteca Pública Municipal Batista Caetano de Almeida, São João del-Rei).