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terça-feira, 7 de abril de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 11

Meia-foda – pejorativo: baixinho. Pessoa de pequena estatura, sem ser propriamente anão.

Miquenta  - cheia de luxo, de cerimônias, rapapés, etiquetas.

Molhaceira – umidade, lugar molhado demais.

Na panela das almas – diz-se do que foi adquirido por um preço muito abaixo do que realmente vale; baratíssimo. “Comprou na panela das almas”. Talvez seja referência ao vasilhame que outrora se deixava nos cruzeiros para por oferendas em sufrágio das almas. Referência a dinheiro miúdo, muito trocado.

Não dá ponto sem nó – expressão que indica que uma ação foi meticulosamente planejada para resultar em lucro, benefício, promoção.

Não está no gibi –indicativo do que é incalculável, inimaginável, de alta expressão. Denota espanto e admiração.

Não sei por que cargas d’água – de maneira desconhecida, de forma incógnita, por motivo não informado. “Não sei por que cargas d’água, estava tudo planejado mas deu errado...”

Nem a malho! - de jeito algum, jamais, de maneira nenhuma. Negativa absoluta. Malho é um tipo de marreta usada pelos ferreiro para bater o ferro em brasa sobre a bigorna.

Nem que a vaca tussa! – idem.

Nó cego – “picareta”, “morcego”. Sujeito que não assume seus atos. Pessoa escorregadia aos compromissos. Indivíduo não confiável. “Dar nó”: faltar a uma obrigação ou compromisso. Voltar atrás com a palavra, faltar com um acordo verbal; não ir ao serviço.

No cu do cachorro – muito escondido, oculto, onde ninguém acha, sumido, desaparecido. “Sumiu com a chave. Enfiou no cu do cachorro.”

No cu do zé esteves – idem.

No cu do zebedeu – ibidem.

Novinho em folha – novíssimo, muito novo, restaurado, reformado. “O carro voltou novinho em folha da oficina”.

Olho de peixe morto – “olho caído”, olhar morteiro; aparência de sonso; cara de sonolento sem de fato estar com sono. Ptose palpebral.

Onti! – desconjuro: de jeito nenhum; para longe de mim; não quero jamais. “não vou lá... onti!”

Outros quinhentos! – Exclamação de melhoras; indicação de excelência. Ótimo. “Depois da pintura nova, a casa ficou outros quinhentos!”

Ovo de Colombo – solução inusitada para um fato que parecia indissolúvel. Resolução simples para um caso difícil. Diz-se que Cristóvão Colombo pôs fim a uma disputa na qual tentavam colocar um ovo em pé mas sempre desequilibrava e caía. Ele dizendo que era fácil, assumiu a questão e a resolveu, batendo na mesa o ovo para que quebrasse uma parte da casca e assim perdendo o arredondamento natural, parou na vertical.

Panaca – idiota, bobalhão, palerma.

Papa-anjo – pejorativo: aquele (a) que se relaciona com pessoas muito mais jovens. Diz-se de quando a disparidade de idades num namoro é grande demais.

Papa-defunto – pejorativo: adepto dos sepultamentos e velórios. Aquele que está presente a muitos enterramentos.

Papa-hóstia – pejorativo: beato. Pessoa que vai demais à igreja. Quem é muito afeito ao sagrado, mas muitas vezes é renegado na sociedade, porque é cheio de iniquidades.

Par de jarrinha – casal ou dupla de hábitos exdrúxulos, pessoas de costumes inusitados, que de imediato chamam a atenção sobre si pelo jeito diferente de ser.

Passar o carro na frente dos bois – adiantar demais a ordem natural das coisas, atropelar o andamento de um caso, excluir etapas, passar uma fase adiante da outra indevidamente.

Patati, patatá – “conversa fiada”, “conversa pra boi dormir”. Assunto sem proveito, diálogo de pouca consistência, palavras dispensáveis. “Veio falar comigo: patati-patatá... e não sei o quê... não gostei da prosa dele não”.

Pau de virar tripa – pessoa muito magra. Alusão pejorativa a uma vara que se usa para facilitar a limpeza das tripas (intestinos) do porco abatido, que serão usadas para confecção de embutidos (linguiça, chouriço). A vara, longa e fina, ajuda a ação de virar do avesso a tripa para melhor limpeza dos resíduos.

Pau pra toda obra – multisserviço; o que serve para múltiplas funções. Aquele que domina várias tarefas.

Pé de serra – miserável. Fora dos padrões sociais urbanos.

Pé rapado – pobre, sem propriedades, sem posses. “Não casa com ele minha filha, que é um pé rapado, não tem aonde cair morto...”

Pega pra capar – “tendepá”.  Correria, confusão, discussão, desordem, tumulto, algaravia. “A festa terminou num pega pra capar, aquela gritaiada...”

Pegar com a boca na botija – pegar em flagrante. Ver o fato no momento que ele está acontecendo.

Pela madrugada! – expressão sempre exclamativa, indicando espanto, admiração, indignação. “Descobriram mais uma fraude... pela madrugada!” Não quer dizer que foi descoberto de madrugada.

Pendão das almas – indivíduo muito magro e alto, “dispinguelado”. Ver: pinguela.

Perder a tiana – perder a paciência por completo, alterar-se, sem calma, esbravejar. A pronúncia é “tchiana”.

Periquita – “p’riquita”. Termo popular de linguagem chula, usado como sinônimo de vagina. “Soltar a periquita”: ter relações sexuais com vários homens. “Periquitinha”: adolescente, moça bem jovem. Neste caso o termo não tem nenhuma conotação sexual ou pejorativa. É antes um apelido carinhoso, aliás, em ocaso.

Pernas pra quem tem! – “pernas pra que(m) te quero!” Expressão usada para indicar fuga. Ato de correr muito para escapar. “Viu uma onça no mato, pernas pra quem tem!” Fuga espavorida.

Perrengue – doente. “Perrengado” ou “aperrengado”: adoentado, não muito bem de saúde, convalescente, prostrado, com fraqueza física. “Perrengagem”: o que traz malefício para a saúde: “adoeceu porque caçou perrengagem na chuva; ficou todo molhado...”

Petecar – atrapalhar, estragar, desordenar, dar errado. “Eh, meu amigo... nosso plano petecou tudo!”.

Picareta – além de ferramenta de escavações, picareta é, em sentido pejorativo, o indivíduo que não cumpre bem as obrigações do trabalho, “embrulhão”, “morcego”; aquele que falta ao serviço, chega tarde, sai cedo. Também é trapaceiro, desonesto, salafrário, enganador.

Picoco – “Cucuruto de terra”, “murundum”, “montinho”. Pequena elevação bem localizada e delimitada de solo, destacando na planura. “Veio correndo e tropeçou num picoco”. Não confundir com “pitoco”, que tem o sentido de pequeno pedaço.

Picuinha – implicância, impor dificuldades desnecessárias, burocratizar. “Não resolveu o caso porque ele tá criando picuinha.”

Pindaíba – 1- nome de algumas árvores anonáceas do sudeste e sul do Brasil, consideradas ameaçadas. De sua casca o povo rural retira uma fibra resistente conhecida por embira, usada para amarrios rústicos. 2- situação de miséria, penúria, endividamento: “ele perdeu o emprego, está na pindaíba...”

Pinguela – 1- pequenina ponte improvisada só para um pedestre de cada vez, para travessia de córregos e valas, feita com um tronco de árvore ou feixe de grande bambus. 2- pessoa magérrima. É uma comparação pejorativa ao primeiro sentido da palavra, por analogia à imagem do que é fino, estreito, magro. 

Pintar o sete – “Pintar e bordar”. Quebrar a ordem estabelecida, sair da regra social, aprontar traquinagens, fazer estrepolias, travessura. “O moleque pintou o sete! Ele é da pá virada!”

Pintar os canecos – idem.

Plasta – “prasta”. Pessoa moleirona, inerte, de pouca atividade, sem expediente, preguiçoso. Palerma. “Fulano é um plasta!” Por vezes vem de forma redundante, como num xingo: “plasta mole!”

Pras cucuias – aquilo que está sumido, distante, intangível: “viajou pras cucuias, pro Norte...” Embora não tão incisivo, tem em certa medida o mesmo sentido de “pros quintos das arraias!”: “ah... foi lá pras cucuias...” (lugar indefinido, inimaginável, longe das vistas, onde não incomoda mais).

Pros cocos – mal feito, sem zelo, construído de qualquer maneira, sem critério. “A festa foi feita tudo pros cocos...” (feita de qualquer modo; festa ruim); “o pedreiro construiu a casa pros cocos...” (o serviço profissional deixou a desejar).

Pros quintos das arraias! – “pros quintos dos infernos!” Expressão sempre exclamativa e impetuosa, excludente, de catarse, como que expulsando ou renegando algo mal, para longe, para onde ficará neutro. Tem o sentido de expulsão, eliminação: “vou mandar meus inimigos pros quintos das arraias!”

Puaia – pessoa boa, prestativa, virtuosa, honesta, agradável, querida. Expressões em sinonímia: “feijão sem bicho”, “boa praça”, “peça fina”, “gente boa”. Caipirismo em desuso: “o sô Zé é puaia, feijão sem bicho!”

Tiquinho – "Tiquin'". Pouquinho, muito pouco. “Um tiquinho de gente”: pouca gente, ou, uma pessoa pequena ("pingo de gente"). “Tiquinho de comida”: almoço parco. 

* Texto: UIisses Passarelli

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