Outros trabalhos

▼

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Bloco do Boi, Conceição da Barra de Minas

 

O município de Conceição da Barra de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva, na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.

Entre as tradições populares merece especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local (catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período quaresmal, a encomendação das almas [1] e na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância, culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2] mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural muito arraigada.

O carnaval concepcionense segue as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes. Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.

A descrição que se segue é baseada na observação in loco, da saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.

Em essência é um rancho de boi, bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido), com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas cores.

A charanga é formada por músicos locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.

Pessoas diversas, fantasiadas ou não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.

Em Conceição da Barra de Minas não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que propriamente atacando.

Em diálogo com o funcionário da Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e havia a figura de um Toureiro.





Referências

IBGE. Portal Cidades: Conceição da Barra de Minas. 2026. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/conceicao-da-barra-de-minas/panorama  Acesso em 22 fev. 2026.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. il.  

Créditos

- Texto, fotografias e vídeo: Ulisses Passarelli.  

Notas

Nenhum comentário:

Postar um comentário