Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Brincadeiras infantis - parte 6: pular corda

Pular corda é mais que uma brincadeira. É também ginástica, teste físico de habilidade, rapidez e coordenação motora. Já por isto, iniciada na infância, por vezes a extrapola e alcança a idade adulta até em treinamento de atletas. 

Mas para os limites deste blog, o que por enquanto interessa para abordagem é o desenvolvimento em si do ato. Consiste em girar uma corda em movimentos ritmados, contínuos, desenvolvendo um giro em sentido vertical por sobre a cabeça do brincante, que deve pular para permitir que a corda passe sob seus pés, suba atrás das costas, passe no alto da cabeça, desça em direção aos pés, que, com novo pulo se supera o giro que se completa. E assim indefinidamente.É a habilidade de pular sobre uma corda que passa célere. Quando não se consegue ela embaraça nos pés e a pessoa perde a vez de brincar, devendo cedê-la para outra. Brincantes habilidosos conseguem permanecer pulando sem errar por longo tempo ou até mesmo quando se acelera a passagem da corda. 

A passagem da corda é pela força do impulso do braço. Isto se chama "tocar corda". 

A pessoa pode pular corda sozinha, usando de uma mais curta, ela mesma toca e pula, individualmente. Há pessoas muito habilidosas, que conseguem fazê-lo com notável destreza e velocidade e aumentando a complexidade sabem mudar a rapidez e direcionamento para variar o pulo. 

Pode-se brincar em duplas: usa-se uma corda maior, amarrada uma extremidade a uma estrutura fixa (poste, árvore, coluna...); a outra extremidade fica com a criança que toca a corda. A segunda criança pula, mas é de praxe alternar quem toca e quem pula. 

Mas a forma mais comum é em trios: duas crianças tocam juntas a corda, cada uma segurando num extremo e a terceira pula, depois alternando as posições. 

Por vezes várias crianças pulam, alternando a vez de cada uma. E a brincadeira varia: se a corda é longa o bastante, brincam quatro ao mesmo tempo: duas tocam e duas pulam juntas, exigindo perfeita sincronia para uma não atrapalhar a outra. É comum nesses casos pularem lado a lado, ou uma virada para a frente e outra para trás, ou ainda alternarem habilidosamente, vis a vis e depois costas a costas. Até três pulando juntas é possível, desde que a corda tenha tamanho suficiente. Mas é ainda mais difícil.

O ato em si de pular se soma em alguns casos à cantiga, cujo ritmo do enunciado, um tanto recitativo, dita também o ritmo que se deve tocar e por conseguinte pular a corda. O canto como marcação. Eis alguns exemplares, muito disseminados no Campo das Vertentes, mais exatamente colhidos em Santa Cruz de Minas, embora não lhes sejam exclusivos *:  

"coroa, coroinha,
do rei, da rainha,
_ Um!
_ Dois!
_ Três!"
(agacha e gira no momento que a corda passa sobre a cabeça)

"Aonde você quer casar?
_ Na igreja?
_ Na macumba?
_ Na Polícia Militar!" 
(sai e dá lugar a outra. A corda não pára nem para sair nem para entrar)

"Com quem você quer casar?
_ Solteira?
_ Viúva?
_ Solteira mosqueteira da vovó!" 
(idem)

"Um homem bateu em minha porta
e eu... a-brí!
Senhoras e senhores,
pulem num pé só! (pula-se com um só pé, recolhendo o outro)
Senhoras e senhores,
dá uma rodadinha! (gira-se)
e vai...
pro olho...
dá... rú... á!"
(sai às pressas...)

"Salada, saladinha,
bem temperadinha,
com sal!
Pimenta!
Fogo!"
(não sai. Ao enunciar bem enfático "Fogo!" as crianças que tocam a corda aumenta a velocidade de maneira repentina e intensa e mantém até que a que está pulando erre. Ganha quem ficar mais tempo)

"_ Comadre ... (fulana),
vamos passear?
_ Vamos!
_ Tem cachorro?
_ Não!
_ Pode entrar." 
(fórmula para iniciar: quando diz "pode entrar" a criança entra sob o giro da corda que já está em movimento)

Notas e Créditos

* Informante: Maria Aparecida de Salles, 1994-1997
** Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Folia de Coqueiros

Nesta postagem o Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta um novo vídeo da Folia de Reis "Vai da Boa Vontade", do distrito de Coqueiros, município de Nazareno, no Campo das Vertentes de Minas Gerais. 

Em tudo e por tudo esta folia conserva em si o que há de autêntico, original, genuíno, sob o comando e voz do Mestre Folião Celso. A toada alegre e acelerada logo chama a atenção pela afinação e pela movimentação dos dois bastiões (palhaços ou marungos) que fazem a interlocução com os devotos que recepcionam a bandeira e por vezes, como sinal de gratidão pelas ofertas, dançam um pururuca (ou espanta-cabrito), um ritmo célere sapateado em torno do bastão posto no chão. 

A comunidade de Coqueiros está nas margens do Rio das Mortes, entre o trecho médio e baixo. Outrora foi região economicamente importante devido à presença da grande fazenda do Barão de Coqueiros, da qual só restam ruínas, vetustos alicerces de pedra. Hoje o local vive de pequenas atividades agro-pecuárias, o trabalho em canaviais e em atividades de mineração. 

Outrora a Estrada de Ferro Oeste de Minas passava pelo local. A velha estação ainda está lá, desprovida de trilhos mas ora reformada e em uso pela comunidade. Porém, nada substitui a função e a nostalgia da velha maria fumaça. 

Há uma pequena igreja católica no lugar, dedicada a São Francisco. 

O vídeo a seguir revela uma apresentação da folia local na comunidade quilombola de Palmital, no mesmo município, durante as comemorações do Dia da Consciência Negra, a 20 de novembro de 2016, ocasião que estavam presentes outros grupos culturais. 

1- Alguns componentes da Folia de Coqueiros pousam para uma fotografia
no povoado do Palmital.

2- Estação Ferroviária de Coqueiros, restaurada. 

3- Manhã às margens do Rio das Mortes em Coqueiros. 

4- Ruínas em pedra da antiga Casa do Trolley,
vestígio ferroviário de Coqueiros. 

5- Antiga casa de servidão da ferrovia em Coqueiros.
Na parede a marca do nível que água do rio atingiu durante uma grande enchente. 

6- Panorama do lugar.  

7- Canoeiro transpõe o Rio das Mortes.  

8- Capela de São Francisco de Assis, Coqueiros.  


Notas e Créditos

* Fotografias e vídeo: Iago C.S. Passarelli (1: 20/11/2016; demais: 05/05/2013)
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A linguagem do tempo

           
            Escrever sobre o tempo é uma ousadia! Mas vamos arriscar... Na cidade mineira de Passa Tempo, a oeste de São João del-Rei, em plena praça pública existe um monumento que representa uma senhora fiandeira trabalhando numa roca. Lembro então de ter ouvido ali, a narrativa suposta ou aparentemente lendária, decerto com um fundo de verdade, que em passado distante, a área da urbe era um pouso de boiadeiros e tropeiro. Em passagem sempre viam junto ao rancho uma senhora fiando seu algodão. Ao cumprimentá-la, tinham por resposta algo do tipo: “vou bem meu filho, tô aqui passando o tempo...”

            Essa humilde frase fixou-se na memória popular e estando latente na minha, inspirou esta pequena crônica do tempo, que nada mais faz, que coligir tradições folclóricas sobre o tempo, vigentes em São João del-Rei e região.

O homem, desde datas imemoriais, tramou sua relação com o tempo. Casou-se com ele. Percebeu logo que tudo dependia do tempo de cada coisa, no domínio da natureza, das estações do ano, das colheitas, do calendário anual. Eivado por um espírito religioso e ao mesmo tempo se deixando levar pela superstição, a relação humana com o tempo se construiu no bojo de sua cultura variando a cada etnia, época e influência religiosa majoritária e aspectos místicos e míticos.

Prescreve o Livro do Eclesiastes, em seu terceiro capítulo, que debaixo dos céus há “um tempo para cada coisa”. A partir desta assertiva desfia uma longa lista de paralelos (Ecl 3, 2-8):

“há tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir...” (etc)

            Por fim, conclui categórico: “todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo.” (vers.11) e “aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que já passou” (vers.15).

            Debaixo dessa lição bíblica e guiado pela cultura popular, o brasileiro tem o seu jeito próprio de encarar os mistérios temporais, fruto que é de muitas correntes étnicas, digamos assim... temporizando tudo. Em Minas Gerais e em São João del-Rei, grande celeiro de tradições, não seria diferente, na zona urbana e na rural. Senão, vejamos: as estações do ano, que demarcam a relação do homem com a terra e na Terra, ganham de ordinário o cognome de tempo das águas (primavera + verão) e tempo da seca (outuno + inverno), isto no Centro-sul, que pelo Nordeste se inverte. O elemento definidor é a preponderância das chuvas, que qualificam o clima tão somente em úmido e seco.

            As condições de calor e luminosidade ao longo do dia propiciaram na linguagem coloquial algumas expressões curiosas, que de tanto as repetir, tornaram-se de tal forma comuns que não lhes notamos sua essência poética: barra do dia (faixa clara no horizonte leste, se contrastando com a escuridão noturna; primeiro sinal do amanhecer), romper da aurora (instante que o sol aparece, inundando de luz a imensidão), de manhãzinha (bem cedo, logo após a aurora), meio dia (doze horas), volta do dia (quando a aparência do sol a pino, pende rumo oeste; entre 13 e 16 horas); cair da tarde (fim da tarde, após as 16 horas, de tardinha); hora da Ave Maria ou hora das almas (18 horas, que o povo chama de “seis horas da tarde”); tarde da noite (após as 21 horas); meia noite (zero hora, horário mágico, do encantamento); horas mortas (entre meia noite e 3 horas: domínio dos espectros e assombros; o mal está à solta); madrugada (fim da noite, após as 3 horas até o clarear). Esteja claro que nessa pitoresca nomenclatura, muito influenciou o homem do campo, em sua cuidadosa observação da natureza, regrado por ela e dela dependendo amiúde para as atividades corriqueiras. Migrado para a cidade, logo sua experiência se somou à visão urbana e em conjunto, ambas, construíram essa relação.

            Não é à toa que o rurícola define suas atividades anuais com expressões como tempo da colheita, tempo da queimada, tempo do plantio, época de poda, safrinha, entressafra. A produção agrícola pelo sistema tradicional se esboça por períodos que devem ser respeitados segundo a sabedoria ancestral acumulada. Para lavrar a terra e produzir o alimento, base da vida, é preciso antes entender o tempo e conhecer todos os seus detalhes. Um canto de certo pássaro, uma brisa diferente, neblina adversa, um sinal ao redor da lua, formiga de correição rondando a casa... Aquilo que parece trivial é na verdade o indicativo da meteorologia popular. Ao ver as evidências naturais o produtor já se prepara para a mudança do tempo, já sabe se semeará em breve ou se deverá aguardar mais.

Como foi que adquiriu o conhecimento do efeito das lunações? Observador por natureza sabe que a verdura colhida na lua nova tende ao amargor; a semente levada ao solo na minguante pode minguar... A madeira cortada na cheia apodrece logo e por aí vai, sem fim, no folclore riquíssimo do tempo nosso de cada dia.

            Até mesmo para narrar uma estória, aqueles contos fabulosos que deleitaram nossa infância, já o narrador principia com expressões que evocam antiguidade: Naquele tempo... De primeiro... No tempo dos antigos... No tempo que os bichos falavam... No começo do mundo... Há muito, muito tempo atrás... E segue a lenda, o causo, o mito, o conto. Até a forma de entonação da expressão de abertura já dramatiza a pretendida ancestralidade, testemunho de fatos que não acontecem mais, mas que do passado distante acenam verdades e lições que pretendem guiar a conduta até os dias de hoje, ou ao menos explicar certas coisas. Eis o âmago da literatura oral popular. Quando não, reveste-se de ar meramente anedótico, de passatempo, e logo alguém diz: “ah... isso é do tempo que se amarrava cachorro com linguiça!”

            Se o sujeito passa por um período de vicissitudes, não tarda os conhecidos solidariamente, anunciarem: “coitado! Está passando por um tempo amargoso...” Como se tempo tivesse sabor... E talvez tenha, porque quando se está vivenciando a inocência da infância ou a de um idílio deveras apaixonado, ousamos dizer: “está vivendo um tempo doce!”

E se o tempo está difícil para questões especificamente financeiras, se diz: tempo das vacas magras. Se a época é de fartura é tempo das vacas gordas. Parece uma alegoria inspirada nas pragas do Egito, que recaíram sobre o orgulhoso faraó, conforme nos narra o Velho Testamento.

Aliás, sobre estas questões financeiras, não há expressão mais arraigada que tempo é dinheiro. O capitalismo a carimba todos os dias em nossa testa. A vida hodierna é uma correria. As vinte e quatro horas do dia parecem pouco para cumprir tantas tarefas. É preciso abreviar tudo para ganhar tempo. Não se pode perder tempo, pois o tempo é precioso e se não for bem aproveitado, além dos prejuízos materiais, logo o tempo da vida transcorre sem nos apercebermos.

Mas o tempo é também sábio. Ele ensina tudo e cura as feridas da alma. Assim prescreve a filosofia do povo. Já por isto, cunhou as expressões: deixa o tempo correr...” e nada melhor que o tempo...”. Elas se opõem ao preceito do parágrafo anterior de não perder tempo, mas aquele é mais dos negócios, este, mais espiritualizado.

O congadeiro de São João del-Rei[1], fiel a este ensinamento, canta nos catupés, à guisa de um trava-línguas:

“Vamos dar tempo ao tempo,
Tempo que o tempo tem,
Os ventos que sopram no norte,
Sopram no sul também!”

No linguajar religioso específico dos terreiros de matriz africana ou sob sua influência, se ouve algumas entidades espirituais dizerem: “tempo grande” (ano), “tempo curto” (dia), “sete tempos” (semana), “hora grande” (momento da morte). São formas de expressar que alcançam uma dimensão simbólica, de um conteúdo intangível. No seu calendário festivo, os umbandistas em geral, por exemplo, tem por costume dizer tempo das crianças, em referência à época de setembro que festejam os erês, festa de ibeijada, comemoração voltada aos guias de crianças; em contrapartida, o tempo dos negros velhos, expressão consagrada pelo uso, refere-se a maio, quando no dia 13 culminam as comemorações alusivas à libertação dos escravos. No mesmo contexto existe ainda a expressão forças do tempo, alusão um tanto difusa às energias temporais, as forças externas ao terreiro: força dos ventos, força do luar, força do sol, força das tempestades... tudo isto é força do tempo. Neste caso específico tempo não tem o sentido de marcação das horas, mas de energia natural e exterior [2]. Quando um objeto está supostamente carregado, energizado com forças contrárias ao bom andamento do terreiro, de ordinário se aconselha: “deixa dormir no tempo...”, ou seja, põe-se de fora para que o sereno e o luar, ou a chuva da madrugada e o orvalho da manhã o purifiquem. Isto é força do tempo. Uma expressão curiosa é “pai tempo”, que é uma espécie de mastro encimado por uma bandeira toda branca, sem fixação de nenhuma efígie ou símbolo. É fincado no lado externo do terreiro de umbanda ou do barracão de candomblé, ou no quintal da casa de quem nele acredita. Pai tempo fica por tempo indeterminado, dia e noite, estação após estação, enquanto resistir aos desgastes que a natureza lhe impõe. É um elemento telúrico que concentra sobre si as forças dos orixás que sobre ele pairam e as carreia, junto com as forças do tempo, para o solo daquele ambiente sagrado ou que se quer sacralizar. Pacifica. Energiza. Fluidifica o bem para aqueles que ao passar por ele lhe tocam as mãos ou a testa.

Existe mesmo uma entidade de origem africana, um inquice banto chamado Tempo [3] cultuado no terreiros de nação Angola e Congo. Equivale ao orixá Irôko dos candomblés de nação Ketu e ao orixá Loko da nação Jeje. Tempo tem domínio sobre o tempo, no sentido de duração, extensão da vida e execução do karma. A árvore da figueira brava ou gameleira branca lhe é consagrada.

Existe ainda uma outra árvore de seu domínio, a "capoeira branca", que em linguagem espiritualista chama-se cazanga-tempo, ou apenas, alcazanga, de cuja madeira se fazem cruzes e amuletos considerados muito potentes por sua ação no destino.

Os festejos populares usam com frequência a demarcação ampla do tempo. “Tempo de festa” é a época de uma comemoração anual: tempo do Natal, tempo de carnaval, tempo da coresma (quaresma), tempo do Divino, tempo das fogueiras, tempo do rosário. Tempo aqui é época; período cíclico e ritualístico de celebrar as devoções populares e divertir-se [4].

            Como o texto já vai longo e o tempo para leitura é curto, é tempo de alinhavar um arremate. E que ninguém se zangue por ele ou o qualifique de desrespeitoso! É tão somente uma brincadeira. O exemplar abaixo [5] é uma lúdica infantil escrita, parte da chamada folk-comunicação. As crianças a replicavam escrevendo-as em folhas de caderno como se fossem enigmas para os colegas decifrarem. E punham-se a ler: 

“Tempo viu tempo,
Tempo como tempo,
Tempo é tempo,
Tempo fácil tempo,
Tempo fazer tempo,
Tempo um tempo,
Tempo bobo tempo,
Tempo ler tempo,
Tempo tanto tempo,
Tempo tempo tempo.”

            Como o conjunto de palavras aparenta ser um disparate sem significado algum, logo protestava o leitor. Mas caía em raiva ao ser alertado que o sentido estava apenas na leitura sequencial das palavras do meio de cada verso, de cima para baixo, ou seja: “viu como é fácil fazer um bobo ler tanto tempo”...


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli


[1] - Informante: Luthero Castorino da Silva, São João del-Rei, 1992.
[2] - O tempo no sentido de exterior é bem conhecido pelo conceito popular mesmo fora da significação religiosa. Se uma madeira posta no quintal a descoberto apodrece, então dizem: “perdeu porque ficou no tempo”; se o cão ou o gato vem dormir dentro de casa, logo o senhor o toca para fora sob alegação que “esse bicho é do tempo”...
[3] - Irôko ou Tempo – um orixá considerado raro. Raízes Espirituais. http://www.raizesespirituais.com.br/iroko-orixa-raro/ (acesso em 24/11/2016, 08:30h)
[4] - Em paralelo se diz: “tempo de folia” (época das folias de Reis saírem às ruas); “tempo de congado” (época dos congados tocarem nos largos). Em conceito bem mais chulo forjou o povo a expressão “tempo cagado”, uma referência que resmunga contra os dias chuvosos, frios, daquela chuva miúda e contínua.
[5] - Informante: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 2016. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Cultura florida: as flores no folclore e na religiosidade do povo

As flores estão em toda parte, na zona urbana e rural. Desde jardins, praças, alamedas, vasos... até a situação nativa, no habitat, nas matas, nos campos e nas serras. Acostumamos a vê-las e na faina diária dos afazeres, poucas vezes paramos para contemplá-las ou notar seus usos que extrapolam a mera ornamentação.

É fato que a cultura popular absorveu o tema das flores, não apenas por sua óbvia poética, pois povoa uma infinidade de versos recitados e cantados; também adquiriu alguns elementos religiosos. Invadiu o universo simbólico do folclore e mesmo mais prático, ou físico, como no caso dos usos como remédio.

Interessante notar que o processo construtivo desse saber envolveu de fato as mais diversas fontes étnicas mesmo com as flores não nativas, importadas da Europa, por exemplo, e aqui ganharam a cor local das tradições. A arnica do Velho Mundo não corresponde às nossas Lychnophora. Mas alguns usos ou indicações populares se equivalem. Outras mais, da mesma procedência, aqui no Novo Mundo tornaram-se flores votivas de orixás africanos, aclimatados no panteão dos nossos imensuráveis candomblés e umbandas. 

Das margaridas e outras compostas o povo viu na disposição de sua inflorescência o formato ou desenho de um sol, daí dizer-se que é uma flor solar. Disso resulta a crença que ter margaridas no jardim traz bons augúrios, iluminação, positividade. Com o girassol o raciocínio é o mesmo. A artemísia, como miniatura tem igual sentido e encontra uso nas beberagens contra cólicas e enxaquecas. 

Sobre as rosáceas foi construída uma rede de saberes. As de flores amarelas são procuradas e queridas por se crer que tê-las plantadas garante fartura para o lar. É óbvio a analogia do amarelo de suas pétalas com o dourado do ouro. Quanto mais vigorosa e florífera, tanto maior o potencial para se conseguir melhorias financeiras. Compõe também oferendas e firmezas para Oxum nas cachoeiras*. As rosas brancas tem grande popularidade. As típicas são via de regra oferendadas a Iemanjá; outras variedades tem uso para banhos de firmeza da linha dos negros velhos e ainda para uso na medicina popular, atribuindo-se-lhes poder calmante, depurativo e desinflamatório para males uterinos e por isto o povo consome a flor in natura como salada ou usa de seu esfregaço em água para se beber aos poucos, ou mesmo após fervura. Já as rosas vermelhas nos terreiros umbandistas tem uso mais limitado ao campo de atuação espiritual de Bombogira (Pomba Gira, diz-se habitualmente) e das Ciganas, para os mais diversos trabalhos e não apenas aos de natureza amorosa como muitos supõe. A variedade "Príncipe Negro" é reputada como a de maior energia espiritual. Além da tradição religiosa afro-brasileira, todas as rosas são consideradas flores especiais consagradas a Nossa Senhora do Rosário, sobretudo as de flores cor de rosa, cor atribuída ao manto da Virgem Maria. Nas procissões da inolvidável padroeira seus andores via de regra vem repleto dessas flores e na chegada à igreja, em plena empolgação, logo os populares acorrem a retirá-las levando-as consigo para usos que superam a finalidade estética: por serem abençoadas transmitem esta bênção de forma duradoura a quem as conservar ou dão matéria-prima para remédios. Debaixo das roseiras se enterra o umbigo dos recém-nascidos. A sua sombra se reza para o anjo da guarda. Ter sobre a cômoda do dormitório um souvenir em forma de rosa, feito de prata, é elemento propiciador de boa sorte e prosperidade. 

Em verdade um grande número de outras flores são votivas de orixás e oferendadas a diversas entidades, variando também com influências regionais: manacá (para Nanã), trombeteira ou saia branca (para exus), crisântemos brancos (para hindus), marcela do campo (para boiadeiros), colônia (para Iemanjá), etc.

Sobre as orquídeas outra postagem deste blog já se dedicou, cuja leitura sugerimos por complemento. 

Das amarilidáceas o destaque é o lírio de São José, que no interior os devotos ofertam ao protetor dos carpinteiros. Na frente de sua imagem uma jarra com estas flores o ornamenta; no seu andor um lírio é posto à sua mão. Mesmo na imaginária tradicional é típico a imagem deste santo ter um lírio branco nas mãos. Parece uma sobrevivência extraordinária da narrativa apócrifa de seu casamento com a Virgem Maria. Segundo o Papiro Bodmer, entre os pretendentes, uma vez submetidos à prova da escolha imposta pelo sacerdote judaico, inesperadamente do bastão do carapina José saiu um pomba, fato tido como sinal divino de sua eleição para esposo. Acredita-se que houve aproximação deste episódio com o do florescimento da vara de Aarão, narrado na Bíblia Sagrada, Livro dos Números, capítulo 17, versículos 14-25. Um lírio africano, o Crinum scabrum introduzido no Brasil é cultivado nos jardins sob o nome de lírio de Ogum, cuja cor branca e vermelha contribuiu para a terminologia. As açucenas são votivas dos caboclos de Oxóssi. 

Um costume bastante arraigado é lançar pétalas sobre os andores quando de sua passagem sob uma sacada de sobrado ou qualquer elevação. A procissão se interrompe, os carregadores voltam o andor na direção da pessoa que faz aquela singela homenagem. Diz-se que o santo "está dando a graça". E o devoto lança sobre a imagem uma chuva de flores e papel picado. Quando isto acontece nas Festas do Rosário, logo os congadeiros se põe a cantar:

"Lá do céu tá caíno fulô!
Lá do céu tá caíno fulô!"

"Fulô" é corruptela de flor. "Fulôre", "flôre"...

No desativado grupo de pastorinhas que havia no Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, em São João del-Rei, havia a cena dramática do Despertar das Flores: quatro crianças representavam as flores, com trajes típicos que lhes evocavam as principais características _ três meninas faziam a sempre-viva, a rosa e margarida; um menino fazia o jasmim. Aparecia uma garota em trajes de fada, com uma vara de condão e após recitativo de apresentação, tocava a cabeça de uma criança que simulava um flor em letargia, abaixada no chão. A flor se erguia, como que despertando ou desabrochando e recitava seu verso. E assim com cada uma até que a fada convidava a todas para cantarem um hino ao Salvador. Além desta encenação, possuía os personagens Jardineiro, Florista e Floreira!

O tema das flores é vastíssimo e universal. A mitologia e as crenças clássicas o conhecem _ a flor de lótus, a flor de lis. Tematiza elementos da heráldica e da numismática; povoa narrativas populares e versos cantados; é matéria-prima para remédios ** e firmezas. Seu tema é parte do rico folclore e das tradições religiosas do Campo das Vertentes e de São João del-Rei, donde procedem estas informações.

1- Artemísia, popularmente, "artimijo": matéria-prima para remédios populares. 15/02/2008. 
2- Rosa Príncipe Negro: para trabalhos espirituais fortes. 29/10/2009.

3-  Rosa vermelha de cacho: para firmezas e trabalhos. 29/10/2016.

4- Rosa branca de cacho: para banhos de descarrego e banhos de firmeza. 22/05/2009. 

5- Rosa branca de remédio: uso na terapia empírica da tradição popular. 29/10/2016. 

6- Lírio de Ogum. 10/12/2013.

7- Açucena clara. 31/03/2009. 
8- Açucena escura, 25/11/2016. 

9- Lírio de São José, em vista frontal e lateral.
04/03/2008. 


10- Vista parcial do interior da Capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade
com ornamentação floral de rosas. São João del-Rei. 18/04/2014.
 
11 e 12- Capela de Nossa Senhora da Conceição (vista e detalhe) 
observando-se no frontispício, sobre o portal, o elemento decorativo em forma de vaso de flores.
Capela do Saco (Carrancas/MG), 2012. 

13- Detalhe do altar lateral da Igreja de São Gonçalo do Amarante, no
distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), com pintura
de elementos florais. 12/10/2014.

Referências Bibliográficas


MORALDI, Luigi. Evangelhos Apócrifos. São Paulo: Paulus, 1999. 393p. Natividade de Maria: Papiro Bodmer, p. 61-90

PASSARELLI, Ulisses. Pastorinhas de Dona Glorinha. Revista Mineira de Folclore, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.18, novembro/1997. 207p. p.184-200. 

Notas e Créditos

* Oxum do Ouro é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição ou com Nossa Senhora Aparecida;
** Remédios: este blog desaconselha o uso de qualquer remédio sem pleno conhecimento de seus efeitos, da matéria-prima e do modo de fazer. É sempre um risco para a saúde. O registro nesta página tem finalidade meramente cultural, etnográfica.
***Texto e fotografias (1 a 12): Ulisses Passarelli
**** Fotografia 13: Iago C.S. Passarelli

domingo, 11 de dezembro de 2016

Senhora do Rosário é quem mandou !!!

O antigo congo do Caburu circula pelas ruas do distrito de São Gonçalo do Amarante. A voz do Capitão Lourival anuncia que foi Nossa Senhora do Rosário que deu aquela ordem:

"Quem mandou,
quem mandou?
Senhora do Rosário
é quem mandou!"



É preciso continuar, ano após anos, cumprindo a força de seu reinado na bucólica comunidade rural do município de São João del-Rei. Em 2016 não foi diferente. Como de costume, no segundo domingo de outubro, este ano coincidindo com o dia nove, a população do lugar se irmanou no festejo tão aguardado, movida pela fé e pela tradição. 

O vídeo seguinte mostra um pequeno momento desta festa, quando os congadeiros saindo da Travessa Cava Funda chegam ao largo no dia maior.



Notas e Créditos

* Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 09/10/2016
*** Capitão: Lourival Amâncio de Paula

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Na minha terra se fala assim - parte 14

Babujar – sujar de baba, misturar com saliva, beber algo direto no gargalo (sem usar copo, caneca ou xícara). Ato repudiado por ser anti-higiênico. Beber no bico: por a garrafa na boca _ é o próprio ato de babujar, mesclar o conteúdo com cuspe, saliva.

Baquiado – que sofreu um baque, uma queda, resvalo. Enfraquecido. Decadente.

Biboca – ou biriboca. Palavra de origem indígena: escondido (no sentido de recôndito); longínquo. “Fulano mora num biboca”. “Não vou lá naquela biriboca.”

Boia – comida. Para efeito deste vocabulário o termo não é abordado no sentido do verbo boiar (flutuar), aquilo que boia, flutua; o sentido é de alimento: “comer a boia” (almoçar ou jantar), “boiar” (alimentar); “a boia está fria”.

Café com leite – neutro, peso morto, não essencial, dispensável. Refere-se a pessoas que estão participando de algo, mas nada estão somando. Se forem retiradas tudo continua como antes. “Fulano é café com leite”. Jogador de futebol que em campo não joga nada; o mesmo que dente de leite.

Chispa1- fagulha, labareda: “uma chispa de fogo iniciou a queimada”. 2- ordem para ir embora com rapidez: “chispa, menino!”; ou seja, corre, vá, saia daqui, fuja. O verbo chispar significa correr, no sentido de fuga espavorida. “Passou chispando...”.

Conversa vai, conversa vem – diálogo cheio de voltas sem chegar ao âmago da questão; rodeio de palavras que não focam o assunto; prévia numa conversa antes de se abordar o tema principal. Expressão intermediária inserida numa narrativa, para indicar que além do que está sendo narrado, houve ainda, muita conversa antes de se chegar ao fato e a seguir, após enuncia-la, se narra o fato.

Dar sopa – dar bobeira, marcar touca, não se acautelar, descuido, falta de prevenção.

De tanta preguiça a minhoca ficou sem osso – expressão usada diante do inerte, passivo, preguiçoso ao extremo. Tem antes o caráter de insulto que de conselho ou lição moral, por isto se qualifica como expressão e não ditado, não obstante o tamanho do enunciado e a imediata aparência proverbial.

Descambar – mudar de direção repentinamente e contra a vontade, inverter o lado que se ia, descer um morro, tombar numa grota ou montanha, despencar, cair na ribanceira. “A bicicleta descambou com ele ladeira abaixo.”

Desfiar o rosário – contar uma longa e lamentosa narrativa; externar problemas íntimos e angústias; desabafar as decepções contando a alguém.

Dois pesos, duas medidas – agir de uma forma com uma pessoa e de outra forma com outra; tratar uma situação de uma maneira e noutra ocasião, mudando os sujeitos, tratar de outra maneira. Medida sem imparcialidade. Abordar de forma distinta a ricos e pobres. Discriminar.

Dose – situação desagradável, constrangedora; diálogo ruim: “é dose!”; “foi dose!”. Diz-se do que é difícil suportar. Por vezes vem intensificado sob a forma de expressão: dose pra leão; dose pra elefante; dose pra cachorro. Sempre é usado de forma exclamativa e reticente. Pessoa de difícil convívio social: “fulano é dose!” Parece uma alusão a uma dose de bebida ardente ou de remédio amargo, difícil de ingerir.

Dragão – pessoa desprovida de qualquer padrão de beleza; muito feio. Palavra de insulto.

Em cima do riscado – corretíssimo, alinhado, sem qualquer erro.

Encafifar – cismar, desconfiar, suspeitar. Permanecer em longo silêncio como se buscasse na mente uma resposta para algo: estar encafifado.

Esganar1- atacar, avançar, agredir de unhas e dentes. Sinal de ferocidade: “começaram a brigar e a mulher esganou o marido...” 2- comer compulsivamente e sem regras mínimas de boa educação: esganado (devorador), esganação (fome desmedida).

Fazer gato e sapato – ou fazer de gato e sapato. Fazer o que quiser com alguém, desrespeitar, humilhar, ofender, menosprezar, minimizar, desqualificar, abusar de uma pessoa: “xiiii... dava dó de ver; fez gato e sapato dela!”

Ficar pianinho – cumprir rigorosamente as regras; obedecer fielmente; não reclamar de nada. Manso. “Fica pianinho, filho, pra você não ser demitido!”

Filar – tomar (no sentido de usurpar), tirar uma porção, pegar algo que não lhe pertence. Pequeno furto. Filão: quem tem o mal hábito de filar.

Firme igual prego no angu – expressão bem humorada: sendo o angu mole, um prego nele fincado jamais poderá ter firmeza. Muito usada na conversa corriqueira, no ato de se cumprimentar um amigo: “_ ô fulano, bom dia! Como está? Firme?” ao que se responde: “ _ Firme igual prego no angu!”. Não é raro que se siga uma risada. Está subentendido que aquela pessoa passa por qualquer dificuldade ou limitação, preocupação ou descontrole, mas que leva com bom humor e resignação. Também se diz: “firme igual bosta”; “firme igual prego na gelatina”; “firme igual prego na bananeira”. No sentido de amenizar uma vicissitude não deixa de ser uma expressão de eufemismo.

Fogo – termo exclamativo, que indica uma situação agitada, com certo descontrole, hiperatividade: “É fogo, viu!”. “Ele é fogo!”. Para se qualificar o comportamento de um indivíduo por vezes se torna em expressão: fogo na roupa ou fogo no cu. Já a expressão fogo de palha tem outro sentido: indica uma pretensão passageira, brevidade de uma intensão, ação descontinuada, falta de persistência para alcançar o objetivo, algo que começa com intensidade e rapidamente decai.

Fora de hora – em horário impróprio. Tarde da noite. Além do horário de convívio familiar.

Inhambado – atrapalhado, descontrolado, desgovernado. “O serviço tá todo inhambado”.

Invisão – visão assombrosa, aparição espectral, vidência fantasmagórica.

Joia – ótimo; excelente. “O concerto estava joia!”; “o sapateiro arrumou a sandália e ficou joia”.

Lereia – conversa fiada, diálogo sem proveito, palavreado sem sentido, rodeio de expressões.

Lomba – ou lombeira. Soneira, sonolência, preguiça. Vontade extrema de descansar, dormir nas tardes quentes e após se alimentar muito. O mesmo que timoneira.

Matar quem está me matando – matar a fome, comer, alimentar-se.

Meia pedra; meio tijolo – mais ou menos. Diz-se daquilo que não se pode ter exatidão. Razoável.  “_ Como você está passando? _ Ah, vou levando... meia pedra, meio tijolo.”

Meio de mundo – ermo; lugar despovoado e longínquo, ambiente inculto, paragem que não tem nada. “Lá é um mei’ de mundo danado!”

Michorna – bagunça, desordem, ambiente desregrado. “Isso aqui tá uma michorna ...”

Não está com nada no balaio – insignificante, inexpressivo, sem representatividade, de pouca influência, sem poder de mando. “Fulano não está com nada no balaio!”

Não faz falta nem fartura – expressão usada para qualificar negativamente uma pessoa, cuja presença ou ação nada soma nem subtrai; pessoa cuja presença é dispensável. Peso morto. “Não precisa chamar fulano pra reunião; ele não faz falta nem fartura”.

Pandu – barriga; estômago. Encher o pandu: comer muito, devorar.

Pele e osso – magérrimo, caquético. “O cachorro tá pele e osso”.

Porongo bobalhão, idiota, apalermado, sem expediente, sem pró-atividade.

Rompante – arrogância, petulância, modo agressivo de se expressar. Falar com rompante (com impetuosidade). Chegar num rompante (sem humildade).

Sacalão – balançar com vigor, sacudido brutal, resvalo forte. “Tomou um sacalão”.

Saco de batatas – pessoa inerte, entregue à preguiça. “Levanta daí, saco de batatas!”

Sungar – suspender (no sentido de erguer); levantar. “Sunga a tábua”, diz o pedreiro ao servente.

Tilosca – considerável, significativo, desejável. É termo sempre exclamativo e enfático, usado para indicar a opinião quando não se convém usar as palavras formais: “Ô tilosca!”.

Timoneira – grande sonolência durante o dia, não o sono normal que vem à noite. Desânimo extremo ao calor do dia. Bocejos subsequentes e muito próximos uns dos outros.


Tratar a pão de ló – cuidar com todo zelo; tratar da melhor forma possível, não apenas no sentido de alimentar com fartura e qualidade. Dar o melhor de si para outrem. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli