Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 28 de junho de 2016

O histórico povoado do Córrego

O povoado do Córrego, velho como o ouro das Minas Gerais é hoje uma porção urbana de Santa Cruz de Minas, "A Menorzinha do Brasil". Porém, quem vê hoje o Córrego, local aprazível, não imagina talvez sua antiguidade...

Desde os primórdios da exploração aurífera na região é conhecido o topônimo "Córrego", dado a uma pequena localidade junto ao antiquíssimo caminho que interligava o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar (hoje São João del-Rei) ao Arraial Velho de Santo Antônio (hoje Tiradentes), através do Porto Real da Passagem.

O nome é uma referência ao Córrego de Dona Antônia, um regato que nasce num boqueirão ao sopé da Serra de São José, em terras brejosas, donde lacrimejam olhos d'água, nascentes que se reúnem o formam o pequeno regato supra-nominado, que praticamente em linha reta corre por cerca de um quilômetro ou pouco mais e já deságua  na margem direita do Rio das Mortes.

No seu trecho médio é cortado pelo citado caminho, hoje incorporado à Estrada Real. Neste ponto, a montante, ainda existe no mato pequena barragem de concreto armado, que represa sua água e produz uma bica onde era costumeiro se reunirem as lavadeiras na típica atividade. A memória popular falava do Córrego como local de garimpeiros teimando em faiscar; em ciganos acampados berganhando cavalos, tachos de cobre e cordões de ouro; de carreiros tangendo carros de boi gemedores; tropas de muares indo e vindo. Casos de assombrações eram comuns. Falavam dos mistérios da quaresma velha, da porca misteriosa com os pintinhos; da mula sem cabeça; dos feitores da Fazenda do Córrego como fantasmas que ainda fazem barulho de chicote e de pedras caindo sobre telhados... 

Ainda na primeira metade dos anos noventa do século passado, o Córrego era entendido pela população de Santa Cruz de Minas como um bairro limitado entre a Rua Osvaldo Lustosa e a fonte de água no princípio da Serra de São José (no Serrote), onde fica a última residência. Era então um conjunto de poucas casas pequenas e algumas chácaras, além da sede da Fazenda do Córrego, construção do princípio dos setecentos. A atividade econômica local se limitava à produção de mel, de leite e de verduras.

Nos dias atuais o Córrego ampliou bastante o número de casas, a partir da fragmentação de suas chácaras. O incremento do turismo como atividade econômica importante contribuiu para abertura de várias oficinas e lojas de artesanato, inclusive fabricação de móveis rústicos e de madeira de demolição. Conta também com bares e pousada.

O Córrego na Guerra dos Emboabas

Sua primeira citação procede da época da Guerra dos Emboabas. No relato de uma testemunha do conflito e seu combatente, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira, é informado que durante a contenda os paulistas vindos das minas do Rio das Velhas (Caeté, Sabará) se aglomeraram justamente no Córrego em 1708 (*):

(...) "contínuas tropas de paulistas que chegavam a este distrito, retirados dos emboabas daquelas partes do Rio das Velhas (...) desabalaram para este Rio das Mortes e juntos onde chamam o Córrego, lugar da outra parte do rio, que fica entre as duas vilas" (p.104)

Foi a partir do Córrego que os paulistas divididos em grupamentos ("mangas") se acoitaram pelos matos quando souberam que uma grande tropa inimiga estava de chegada. Um destes grupos, fugindo do Córrego, foi emboscado no célebre episódio do Capão da Traição, possivelmente na região do Pombal, rio abaixo. 

O Córrego no conflito de divisas entre São João del-Rei e Tiradentes

O Córrego foi incluso no território de São João del-Rei quando foi definida sua sesmaria patrimonial por ordem do Governador da Capitania, em 16 de agosto de 1714, medindo duas léguas em quadra, como se pode perceber do croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976: p.39).

Esta jurisdição porém duraria pouco. A criação da vila vizinha de São José del-Rei (atual Tiradentes) em 1718 despertaria conflitos de território com São João del-Rei desde o princípio. Sua segunda sesmaria patrimonial, de 28 de março de 1718 define o território da nova vila com meia légua em circunferência com pião no centro da vila. Com isto houve justo na área do Córrego uma ligeira sobreposição à sesmaria de São João del-Rei, tomando-lhe o Córrego, como mostra croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976: p.52), que afirma: "fica bem evidente que o povoado do Córrego passou a integrar a sesmaria patrimonial da vila de São José, na ligeira interpenetração na sesmaria da vila de São João, em virtude da curvatura da linha limite" (p.53).

Em 1719, a demarcação oficial de oito de fevereiro, definiu o Córrego de Dona Antônia como divisa, por ordem do Ouvidor Geral, informa ainda BARREIROS (1976: p.69):

"(...) mandou o Ouvidor Geral continuar a mediçam hindo para a parte do Corrigo, (...) mandou o dito Ouvidor Geral fazer disso exame, e achando ser na forma que o haviam informado, mandou que o Corrigo chamado de D. Antonia o qual vem pelas fraldas do dito morro (Serra de São José) entrar no dito Rio das Mortes foçe marco, e divida para esta parte do Corrigo na mediçam e demarcaçam da dita Villa de Sam Joseph..."

Esta divisa prevaleceria até o fim de 1755, quando, a 17 de dezembro, o Ouvidor Geral  da Comarca do Rio das Mortes, Francisco José Pinto de Mendonça determinou novos limites entre as duas vilas pelo Rio das Mortes, ficando as terras da margem esquerda com São João del-Rei e as da direita com São José del-Rei (Tiradentes). Assim o povoado do Córrego se fixava fora da área de conflito territorial, na jurisdição de São José (BARREIROS: 1976, p.100).

Porém, novamente, as divisas seriam mexidas na área do Córrego. BARBOSA (2008), informa que a lei nº2.242, de 26/06/1876, anexou ao termo de São João del-Rei a Vargem do Porto e o Córrego. Já a lei nº2.938, de 23/09/1882, restabeleceu as antigas divisas em São João del-Rei e Tiradentes, que ainda permanecem, exceção feita à região do núcleo colonial que era de Tiradentes e passou a São João del-Rei no final do século XIX (Colônia do Giarola e vizinhas).

Descoberta de ouro no Córrego

É sabido que ouro foi descoberto também no Córrego e aí houve muita atividade mineradora. O Sargento-Mor José Matol, participante da Guerra dos Emboabas, relatou em 1740 (**):

"Nesta (Vila de São João del-Rei), e na de S.José, e seus termos se lavra até o presente por terra, e pelo mesmo rio das Mortes, e suas margens, e se tem topado em diferentes tempos com boas pintas, e grandes manchas; porque de outra parte do rio, aonde chamam o Córrego, que também é descoberto desde o princípio destas minas, se tem dado várias catas de grandes conventos, como também por mato dentro da Vila de S.José, e ainda na mesma Vila com boas e ricas Guapiaras." (o grifo é nosso)

A parte grifada acima revela a antiguidade da descoberta do ouro no Córrego: desde o princípio destas minas (do Rio das Mortes)... quer dizer primeira década do século XVIII, pois o ouro em Tiradentes foi descoberto em 1702, em São João del-Rei e Prados em 1704, gerando o fluxo de aventureiros na região, que obviamente redundou nos descobertos do Córrego.

VELLOSO (1920) em matéria de jornal informou que em 01 de fevereiro de 1723, o governador D. Lourenço de Almeida nomeou Francisco Ferraz de Souza, Domingos Xavier Fernandes (avô de Tiradentes) e José da Rocha Antão, respectivamente, Provedores dos Reais Quintos dos distritos de Prados, Mato Dentro ou Bichinho e Córrego, do termo da vila de São José e em 02 de julho do mesmo ano, passando pela vila, deu a Manoel da Silva Lobo o cargo de Capitão da Companhia de Ordenança do Distrito do Córrego, informa ainda Herculano Velloso. Para esse autor, a "povoação do Córrego, que foi, pelas suas ricas lavras, um dos mais importantes destritos, nos tempos coloniaes, do Rio das Mortes."

Mas quanto a ser distrito importante, ressalte-se _ enquanto a mineração prevaleceu. Com a decadência da exploração mineral o povoado perdeu importância. VALE (1985) informa que em 1830 o número de fogos no arraial do Córrego era de trinta e dois. A palavra "fogos" significa lares, onde existe um fogão para fazer o alimento de uma família. Portanto, 32 fogos equivale a 32 casas. Para se ter melhor noção do que representava esse tamanho, compare-se com outros arraiais do mesmo termo naquele remoto ano: Bichinho tinha 33, Resende Costa (então chamada Lage), 53; São João Batista (atual Morro do Ferro), 15; Desterro, 15; Passa Tempo, 119; Cláudio, 99; Lagoa Dourada, 86; Ritápolis (então Santa Rita do Rio Abaixo), 39; Prados, 84; e por fim, a própria Tiradentes, à época vila de São José, 158 casas. 

Toda a área do Córrego desde suas nascentes e as imediações do Serrote e daí ao Morro do Bom Despacho foi extensamente explorada em busca de riquezas minerais. Ainda é possível ver na encosta da Serra de São José em Santa Cruz de Minas muitos vestígios da atividade humana mineradora, tais como cascalheiras, monturos, betas, socavões, grupiaras _ nas quais o braço escravo trabalhou arduamente. 

A Fazenda do Córrego

É uma construção histórica, ainda existente, que se celebrizou por ser moradia do rico minerador Marçal Casado Rotier, que no princípio dos setecentos empreendeu por força de seus muitos escravos, intenso trabalho de exploração mineral na Serra de São José e além, rumo à várzea que ganharia seu nome, hoje Colônia do Marçal. 

De descendência franco-portuguesa, Marçal nasceu em Lisboa e veio ao Brasil com alguns irmãos. Foi juiz ordinário em São João del-Rei (1719) e benfeitor da edificação da Matriz de Tiradentes. Informa ainda GUIMARÃES (1996: p.108 e ss.), que Marçal pelo acontecimento da sedição militar da capital (Vila Rica, hoje Ouro Preto) enviou ajuda ao governador. Tanto mais, que em 1735 arrematou em hasta pública a construção da Ponte do Porto e a fez sobre o Rio das Mortes, ficando com o direito de cobrança do pedágio de sua transposição. A obra foi muito importante pois interligava as duas importantes vilas coloniais del-Rei, São João e São José, o que antes era feito por travessia embarcada. Também foi provedor da Irmandade do Santíssimo de São José del-Rei.

Marçal faleceu em 1767 e foi sepultado na Matriz de Santo Antônio em Tiradentes. 

A Capela do Bom Despacho

Após o primeiro trecho da Serra de São José conhecido por Serrote (***), a encosta seguinte é conhecida por "Morro do Bom Despacho", nome que prevalece até a área da famosa cachoeira à margem da Estrada Real, por isto mesmo batizada "Cachoeira do Bom Despacho", em área territorial de Santa Cruz de Minas. 

A razão do nome se prende a uma devoção de procedência portuguesa, Nossa Senhora do Bom Despacho, que teve nessa encosta uma primitiva capelinha a ela dedicada. MEGALE (1986: pp.68 e 69) informou ser:

"antiga e rara invocação da Senhora do Bom Despacho existente em algumas igrejas de Minas Gerais, principalmente nas zonas de mineração, foi provavelmente trazida pelos frades agostinianos (...) o título fora dado à Virgem Santíssima porque foi no "despacho" da Encarnação que se viu o prestígio de Maria perante Deus (...) Foi, pois, a encarnação do Verbo Divino um dos grandes despachos que os pecadores alcançaram a seu favor."

Não se conhecem dados exatos sobre a data de fundação da capela, atribuída a Marçal Casado Rotier.

SANTOS FILHO (1996) escreveu que na referida capela "em 1721, um morador do local, João de Oliveira, juntamente com outros moradores não nomeados no documento, fizeram uma petição ao visitador do bispado do Rio de Janeiro para erigir uma irmandade religiosa 'do Sr. dos Passos pela mmª. devoção que tem a imagem deste Senhor pella haverem mandado buscar...' A 2 de outubro de 1721, Gaspar Ribeiro Pereira, tesoureiro do bispado do Rio de Janeiro, expede o documento de criação da Irmandade dos Passos."

Em 1727 a imagem do Senhor dos Passos foi transladada da Capela do Bom Despacho para a Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, esclareceu o mesmo autor, numa procissão da penitência durante uma estiagem e nunca mais voltou. A irmandade logo se transferiu também. 

A despeito deste fato a capelinha do Córrego continuou em atividade religiosa e servindo a sepultamentos de escravos, mas no começo do século seguinte entrou em franca decadência e em 1832, diz ainda Olinto Filho, a Irmandade do Santíssimo mandou recolher os materiais religiosos da ermida da serra. Obviamente, que sem acervo religioso o prédio foi abandonado e entrou em ruína. Foi assim que o diplomata inglês Richard Burton a viu em 1868: 


"Passamos por muitas chácaras, agora em ruínas, relembrando os
dias de opulência de São João. Um lugar celebrado fica a cerca de duas milhas
da ponte, à margem direita do rio e na estrada de oeste, que vai para Lagoa
Dourada. O lugar deserto é hoje chamado Vargem de Marçal Casado Rotier,
um franco-português, e tem sido falado como a futura capital do Brasil.
À esquerda, ergue-se a Serra do Córrego, prolongamento suleste
da Serra de São José: a massa irregular de calcário e arenito ainda conserva,
segundo dizem, ouro e cristal de rocha. Em seu sopé, fica uma arruinada
povoação de cabanas miseráveis e belas árvores frutíferas, e, mais adiante, a
capela de Nossa Sra. do Bom Despacho. A igrejinha era bem tratada, quando
o ouro abundava no córrego e havia pomposas festividades anuais; nos
últimos quinze anos, caiu em ruínas."

Relatos orais de antigos moradores do Córrego e de outros locais de Santa Cruz de Minas dão conta que aventureiros, iludidos com a crença de que havia ouro escondido nas paredes da igrejinha e seu assoalho, começaram a saqueá-la: escavavam o piso, esburacaram as paredes, remexeram os túmulos, tudo à busca de riqueza. Assim as paredes caíram e com elas o telhado, até ser destruída ao rés do chão.

Procissão das Almas

Narra o folclore do lugar que tarde da noite, a horas mortas, se ouvia na antiga estrada do Córrego, ainda não pavimentada, poeirenta e escura, uma ladainha de pessoas passando em prece. Nitidamente se percebia que se tratava de uma atividade religiosa. Vindos da cidade, rumo ao Córrego e mais além, na serra, passavam os penitentes em reza.

Porém, quando se chegava à janela para vê-los passar, nada se avistava, ninguém, a não ser o sopro de um vento gelado e misterioso que levantava poeira; ou então, segundo outros, via-se muita gente fluida como fumaça, imagem fantasmagórica e fugidia que desaparecia de repente. Eram as almas penadas suplicando salvação, em cortejo procissional.

Epílogo (por enquanto... por encanto!)

Essas almas brumosas em procissão, para onde iriam? Fugidias, penosas, sofredoras... Talvez buscar despacho deste mundo (onde ainda estão presas) junto a Nossa Senhora, nas pedreiras da serra! Iriam para o perdido cemitério do Bom Despacho, que aguarda escavações arqueológicas? Não se sabe... A cultura popular não o diz; apenas sugere. E essa memória permanece. O povo ainda hoje chama o local da inconspícua ruína da capela de "cemitério" e a elevação onde está de "Morro do Bom Despacho", mesmo já passado um século de seu aniquilamento. 

Não bastasse o topônimo, quem anda por lá vê porventura, restos queimados de velas brancas, sinal votivo às almas, bem onde houve o cemitério. Que coisa extraordinária essa memória do povo, resquícios, vestígios de um história semi-registrada, mal registrada ou não registrada. Testemunhos!

O Córrego foi lugar de tudo isto: de rezadeiras, tropeiros, feitores, garimpeiros, soldados das companhias de ordenança tomando conta do ouro de Sua Majestade, escravos carregando carumbés, capatazes zelando pela Fazenda do Córrego, oleiros massando barro para fazer adobe, carreiros com vara de ferrão, ciganas lendo a mão, paulistas... praguejando emboabas e carregando de pólvora velhos bacamartes. 

Essas almas encantadas simbolizam todo esse povo que do passado construiu uma história, como os artesãos de hoje prosseguem fazendo. 




Antiga casa no Córrego, testemunha material da antiguidade do lugar. Década de 1990.
Boqueirão onde estão as nascentes do Córrego de Dona Antônia. 29/09/2013. 
Bica no trecho médio do Córrego de Dona Antônia. Março/2004. 
Lixo no leito do Córrego de Dona Antônia, pouco abaixo da bica. Setembro/2004. 
Confluência do Córrego de Dona Antônio no Rio das Mortes. Março/2004.  

Referências Bibliográficas

BARBOSA, José Víctor. S. João d'El-Rey atravez suas ephemerides. São João del-Rei: Imprimax,  2008 (fac-símile ed. Casa Assis, 1930). 46p.il.

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1976. 128p.

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Trad. de David Jardim Júnior. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.

DANGELO, André (org.) Origens Históricas de São João del-Rei. Belo Horizonte: BDMG Cultural, 2006. 127p. 

GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei: século XVIII - história sumária. São João del-Rei: [s.n.], 1996. 147p.

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego: memória histórica. Inconfidências. Tiradentes: SAT, julho/1996, n.6.

VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de PradosBelo Horizonte: [s.n.], 1985.

VELLOSO, Herculano. O Tiradentes é Sanjoanense? O São João d'El-Rey, n.08, 06/05/1920. 

Notas e Créditos

* "História do distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação das suas vilas", Sargento-mor José Álvares de Oliveira, 1750-1751. (in DANGELO: 2006)
** "Notícia que dá a R.P.Diogo Oliveira, o sargento-mor José Matol sobre os descobrimentos do Famoso Rio das Mortes", Sargento-mor José Matol, 1740.  (in DANGELO: 2006)
*** Serrote: o mesmo que serrota, ou seja, pequena serra, pedreira grande que em seu conjunto aparenta ser uma serra de proporção menor que a circunvizinha. 
****Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli

domingo, 26 de junho de 2016

A saudosa folia de Santa Cruz de Minas

De forma bem superficial e prática, sem abordar questões históricas, pode-se dizer a título de mera observação prévia, que as folias de São Sebastião no Campo das Vertentes são extensões temporais das folias de Reis, com nova roupagem. 

Fortemente arraigadas a esta área das Minas Gerais, desenvolveram-se com grande aceitação popular em torno da devoção ao Guerreiro da Fé, o Mártir São Sebastião, prestigiado protetor contra, a fome a peste e a guerra. Vencido o Dia de Reis (seis de janeiro), até o dia vinte, circulam em missão. Janeiro é pois o seu tempo. 

A bem da verdade o costume regional atribui a esta folia a mesma ritualística jornadeira de visitar famílias, cantar de porta em porta, saudar aos anfitriões, venerar ao santo estampado em sua bandeira com versos cantados, solicitar em seu nome um donativo e em agradecimento entoar novos versos, que culminam com o pedido de devolução da bandeira e a despedida. A diferença das folias de Reis, de maneira bem sintética é que não visitam presépios, que via de regra a este tempo já foram desfeitos e por conseguinte não cantam aos Reis Magos, a não ser eventualmente se um detalhe inesperado o exigir. Os versos são todos voltados carinhosamente a São Sebastião. Alguns grupos tocam ritmos diferentes para as duas folias, outros não, só mudam os versos e a bandeira. 

Em Santa Cruz de Minas o padroeiro é São Sebastião. Nada mais natural que numa região folieira como esta, encravada entre São João del-Rei e Tiradentes, ambas com forte tradição de folias, que Santa Cruz também as tivesse em alta conta. Nos meados do século XX eram mais comuns e afamou-se o grupo de Miguel Silva e "Lóca", por longos anos. Depois esteve uns tempos desativada e retornou nos anos noventa sob a bandeira do Folião Sebastião Mário e a voz do Embaixador Murilo, experiente, afinado e conhecedor da tradição. Pouco depois Murilo assumiu a folia por completo e a manteve por alguns anos, estando nos dias atuais desativada. 

A igreja do santo na cidade festeja São Sebastião em janeiro com grande concorrência popular em programação intensa e afamadas quermesses, as tradicionais "Barraquinhas do Porto", por longos anos faladas em São João del-Rei como excelentes. Pois bem. Ainda hoje é corriqueiro que no dia maior folias vindas de municípios vizinhos espontaneamente passem pela igreja em diferentes horários ou mesmo participem da procissão. O município tem assim uma vocação, digamos assim, a esta atividade cultural e bem poderia firmar um bom encontro de folias ou mesmo recompor a folia. 

Mas enquanto isto não se concretiza, fiquemos com os acordes saudosos de uma saída da folia local em 1995, quando a treze de janeiro partiram mais uma vez para visitar os devotos em suas casas. 



Notas e Créditos

* Texto, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli
** Ver também neste blog: FOLIA DO PORTO

terça-feira, 21 de junho de 2016

Pastorinhas de Tiradentes

O tradicional folguedo natalino das pastorinhas está hoje praticamente extinto nos Campos das Vertentes. Outrora os festejos natalinos em São Tiago, São João del-Rei, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São Sebastião da Vitória e Tiradentes _ talvez em outras localidades _ eram marcados pelos louvores singelos das pastoras cantando nos presépios armados nas igrejas, salões comunitários e residências. 

Formados tipicamente por crianças e adolescentes, sob a coordenação de abnegadas mestras, os grupos foram pouco a pouco se desativando. O vídeo abaixo resgata uma apresentação das pastorinhas da Vargem de Baixo, bairro da cidade de Tiradentes/MG, no natal de 1995, no interior do Santuário da Santíssima Trindade, logo após a missa das 10 horas. 

No vídeo vemos os cantos das personagens: Pastoras e Pastores, Ciganas, Libertina e Reis Magos sob a coordenação da saudosa senhora Ana de Meneses, que conduzia o grupo com dedicação e respeito.  

Pastorinhas da Vargem de Baixo, 25/12/1995 - vídeo

Segue por fim algumas fotografias ilustrativas da autenticidade deste grupo. Os links ao fim da postagem possibilitam maiores informações sobre esta tradição. 

1- Pastorinhas da Vargem de Baixo na mesma ocasião do vídeo acima,
no adro do Santuário da Santíssima Trindade.

2- Pastorinhas da Vargem de Baixo cantando no coreto durante a Festa do Divino
em Matosinhos, São João del-Rei. Em evidência os Reis Magos. 23/05/1999. 

3- Pastorinhas da Vargem de Baixo cantando no coreto durante a Festa do Divino
em Matosinhos, São João del-Rei. Em evidência a Libertina. 23/05/1999. 

Notas e Créditos

* Texto, vídeo, edição e acervo (fotos e vídeo): Ulisses Passarelli
** Fotografias: 1- Ulisses Passarelli; 2 e 3 - João Hipólito
*** Para saber mais sobre as pastorinhas acesse os links abaixo:


PASTORINHAS DE TIRADENTES

ACHEGAS AO ESTUDO DAS PASTORINHAS

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Alecrim cheiroso, alecrim dourado!

Alecrim é o nome popular aplicado a alguns vegetais aromáticos. Basicamente formam dois grupos:o de horta e o do campo.

1- O alecrim-de-horta: Rosmarinus officinalis, planta lamiácea originária da região mediterrânea, bem aclimatada ao Brasil. A tradição popular do Campo das Vertentes deu-lhe alguns usos:

a) como remédio (*), em decocção, na função de regulador da pressão arterial, febrífugo, estimulante da função estomacal; 
b) em banhos, de finalidade espiritual, da cabeça para baixo, abrindo a mediunidade e descarregando. É considerado uma erva de Oxalá (São João del-Rei, 2000). Para plantá-lo, deve-se estar com o coração puro, do contrário, ele não "pega" (nasce, brota). Há o verso próprio para plantá-lo: 

“Eu planto este alecrim 
na hora de Deus, amém!
Se este alecrim pegar, 
meu amor pega também.” 
(Santa Cruz de Minas, 2000); 

c) como tempero, para carnes vermelhas sobretudo, em pequenas porções. 

2 - Alecrim-do-campo: nome de algumas plantas asteráceas arbustivas do gênero Baccharis, próprias das áreas abertas, nativas do Brasil.  Existem alguns usos populares: 

a) os ramos ajuntados em feixe e amarrados a um pau como um cabo, são usados para confecção de vassouras de uso geral, para limpeza de casas, terreiro de fazenda, quintais, forno de fazer quitanda; 
b) especificamente para fazer vassouras de finalidade espiritualista, varrendo o ambiente no sentido de descarregá-lo. Acredita-se que varrer um lugar com uma vassoura de alecrim traz calmaria, serenidade, sossego; 
c) como incenso ou defumador, afastando males se queimadas as folhas secas; 
d) banho espiritual de descarrego, puro ou misturado a outros ingredientes, tomando-se o cuidado de usar o alecrim "macho" para homens (Baccharis dracunculifolia) e o "fêmea" para mulheres. Considerado erva da linha de caboclos. Uma variedade contudo, conhecida tradicionalmente por "cabelo de negro" é considerada erva dos guias da linha africana, ou seja, dos negros velhos; 
e) banho medicinal da cultura popular contra edemas e feridas de perna; 
f) esfregado na roupa é usado para espantar carrapato quando se tem que caminhar num pasto em época de seca. 

O alecrim nas pastagens motivou uma peça cantada no cancioneiro geral muito difundida e também conhecida nesta região, sobretudo como canto infantil,como esta versão são-joanense:  

“Alecrim, alecrim dourado,   BIS
que nasceu no campo sem ser semeado!
Foi meu amor, que me disse assim,    BIS
que a flor do campo é o alecrim!” 

 Também o registramos como canto de congado, entre os anos 2000 e 2001, num catupé de São João del-Rei:

"Alecrim cheiroso, alecrim dourado,
nasceu no campo sem ser semeado!"

1- Alecrim do campo "cabelo de negro". Bairro Guarda-mor, São João del-Rei. 
2- Alecrim do campo "macho". Bairro Caieira, São João del-Rei. 

3- Alecrim do campo "fêmea". Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas. 


3- Alecrim da água: variedade muito parecida ao alecrim do campo, porém viceja à beira dos regatos. O uso na cultura popular é praticamente idêntico. Nos banhos de descarrego atribui-se que traz a força do elemento água. 

É citado num verso de congado: 

"Ora vamos, ora vamos,  BIS
ora vamos, devagar...
Alecrim na beira d'água,   BIS
meus peixinhos vai nadar!"
(Congo, São Gonçalo do Amarante - São João del-Rei. Canto em ocaso. Informante: Capitão Lourival Amâncio de Paula, 11/10/2015)

4- Alecrim de água no habitat. São João del-Rei. 

5- Detalhe de um ramo de alecrim de água. 

Notas e Créditos

* Como é de praxe neste blog não aconselhamos nem recomendamos o uso de qualquer substância com finalidade medicinal pelo eventuais riscos que podem causar à saúde. Apenas registramos o uso popular pelo valor folclórico e etnográfico.  
** Texto: Ulisses Passarelli


*** Fotografias: 1 e 4- Iago C.S. Passarelli; 2, 3 e 5- Ulisses Passarelli

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Crônica da sitoplástica


Dia desses, não sei porque, me veio à lembrança o sabor dos pirulitos que eram vendidos em plena rua, aqui em São João del-Rei, por um sujeito numa bicicleta antiga. Chamavam-no de "Rato". Seu nome, não sei. Os pirulitos eram pendurados no guidon, ensacados, revestidos de açúcar de confeiteiro (finíssimo e alvo...) e tinham várias cores: azuis, verdes, amarelos, vermelhos... laranja, posto que corados. Sabor inigualável e inesquecível dos anos setenta, que o arquivo de químicas de odores do cérebro acusou ainda existir em minha memória. 

Esta mera lembrança, em si isenta de significado maior foi, porém, o pretexto para esta matéria. É que os pirulitos do Rato, ambicionados pelos moleques de meu tempo, tinham formato exato de um galo. Isto era seu charme. Não era qualquer pirulito. Era um galinho. Por isto a petizada o queria. 

Fazer alimentos com um formato que remeta à arte popular é o que chamamos em folclorística de sitoplástica. 

ARAÚJO (1985), em notável trabalho, elucidou: "sitoplástica é termo proposto por Cecília Meireles em seu estudo sobre arte popular brasileira, para configurar a arte comestível das doceiras e quituteiras" e completou _ "o principal representante dessa arte marginalizada é o alfenin", que, segundo o autor, "ainda persistem na tradição culinária brasileira, notadamente, no Nordeste." Alfenins lembram nossas balas quendi (*) só que em vez de ter sua forma cúbica ou de paralelogramo, são puxados a formar bonecas, animais, cachimbos e outros objetos (**). 

Havia também pequenos pirulitos muito semelhantes àqueles em forma de galo, só que o formato era de chupeta. Felizmente, contudo, ainda temos a venda dos deliciosos pirulitos de cone, esses guarda-chuvas de comer. São sabores de outras épocas adoçando a amargura de hoje.

E o que dizer das tradicionais Balas Mazzoni? Eram deliciosas bolinhas de cor (brancas, verdes e vermelhas - cores da bandeira italiana), que se grudavam entre si e grudaram em nossa saudade teimando em partir. Ainda recordo de comprá-las pesadas na hora, a granel.

Estas formas alimentares nostálgicas trazem em si o atrativo do sabor aliado à aparência de um bicho, de um boneco, um objeto. Minha mãe fazia sequilhos nas férias estudantis e nos servia na hora do filme da tarde, com um achocolatado ou café, enquanto assistíamos a arte do stop motion nos filmes de aventura do marinheiro Simbad. Esses sequilhos eram biscoitos cuja massa era cortada em forma de aves, estrelas, corações. Se os fizesse como simples biscoitos não eram tão bons quanto biscoitos em forma de estrela, embora a massa fosse a mesma. É a mágica da sitoplástica. 

Naquele tempo, Lagoa Dourada vendia nas padarias afamadas, além do célebre e incomparável rocambole, uma grande rosca de massa branca e macia e casca morena sequinha, em formato exato de uma jacaré. Não poderia ter outro nome: pão-jacaré

Em contrapartida, São João del-Rei vendia o pão-tatu, doce, no estilo da massa do pão-jacaré, de sabor extraordinário, ainda mais se recheado por uma fatia de queijo mineiro fresco. A casca deste pão tinha um formato tal, que, fazendo duas pontas, tinha no intermédio como que cintas transversais, à guisa de uma carapaça de tatu, daí seu nome.

Outro desta estirpe é o pão-combate, um pão doce sovado muito tradicional, cuja massa é montada em duas metades que encontram ao centro como duas luvas de boxe se tocando como numa luta. 

Por vezes a indústria se inspira na arte popular e assimila suas tradições dando forma a alimentos específicos, mas em essência, ou strictu sensu, a sitoplástica se refere ao trabalho manual sobre o alimento, formatando-o em aparências específicas. Assim, uma doceira confecciona com imenso trabalho um doce dentro de duas metades de uma noz, e lá vem a noz fingida; uma salgadeira faz massa folheada abrindo-a como o casco de uma canoa e a recheia de maionese e temos uma barquete; outra faz a massa para fritar, como um charuto, longo, cheio de queijo e presunto e tem-se uma cigarrete (do francês, cigarette, cigarro); ainda mais, uma massinha em anel ao redor de uma rodela de salsicha lembra um globo ocular e pálpebras e ganha o nome de olho de perdiz; um pão doce largamente recheado de creme amarelo, aparente, amplo como o sorriso de uma miss, é a marta rocha; mas se trocam seu creme por doce de leite, vira bomba; nas festas de aniversários, noivados, batizados e outras, fazia-se espetinhos de azeitona (sem caroço), palmito e queijo ou presunto - em pequenos pedaços - trespassados por um palito de dentes. Depois de muitos deles prontos, se revestia uma melancia de papel aluminizado e nela se espetava em derredor os tais espetinhos. A montagem, espinhenta, cheia de pontas, ganhava o pitoresco nome de capeta

Roscas, tranças, casadinhos, louro-moreno (doce que alterna em espiral massa clara e escura), bichinhos comestíveis... quantas formas realçando o sabor pela sugestão psicológica. Provocação artística para estimular o apetite. Extravasamento da arte interior para a massa exterior. A arte do comer. A arte de comer. Eis a sitoplástica. Cada recanto terá o seu exemplo, sua tradição, todas dignas de serem preservadas. 

Hoje, quando passo na Praça Raul Soares, ali perto da banca de revistas, sinto saudades de quando pedia minha mãe para comprar os pirulitos do Rato. Nessa vida louca faltam coisas assim para se sobrepor à faina interminável.  


Alfenins. Natal/RN. 1998.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Iaperi. Elementos da Arte Popular. Natal: Universitária, 1985. 86p.il. p.64-65

Notas e Créditos

* Quendi: possivelmente esta palavra derive do inglês, candy, doce. O quendi é feito basicamente de açúcar molhado e raspa de casca de limão, preparado ao fogo até o ponto de enrolar, quando é rolado sobre pedra fria em bastões e cortado em figuras geométricas aproximadamente quadrangulares e depois levemente deprimido por um garfo, que lhe deixa ao consolidar sinais de linhas ou traços na parte de cima. É de costume enrolado em papel de seda colorido e de extremos picotados. Doce fino. Se é tirado do fogo antes do ponto de enrolar forma o tradicional "puxa-puxa", nome assim aplicado pela natureza elástica da massa, delícia em ocaso. 
** No Maranhão, em Alcântara, pelas Festas do Divino, surgem os tradicionais "doces de espécie", de herança ibérica e forma própria, à base de coco. 
*** Texto: Ulisses Passarelli


sábado, 4 de junho de 2016

Moçambique na Jaguara





Moçambique "Santa Efigênia", de São João del-Rei/MG, Bairro São Geraldo,
cantando na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Jaguara
(Nazareno/MG), durante as comemorações da Consciência Negra. 


"Na igreja eu vou,
na igreja eu vou,
na igreja eu vou
ver Nossa Senhora 
e Nosso Senhor!"

Notas e Créditos

* Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 29/11/2015
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Jaguara... que nome é este?

O arraial da Jaguara é uma comunidade quilombola, distrito de Nazareno/MG. Situa-se no limite extremo daquele município, delimitado imediatamente pelo Córrego da Cachoeira ou Córrego da Jaguara, cuja margem oposta já é São João del-Rei. Na verdade, Jaguara pertencia a este município até dezembro de 1953, ano que Nazareno se emancipou.

Jaguara situa-se imediatamente ao sul da Rodovia BR-265, a apenas 4 km de distância. Está a 19km de Nazareno, 40km de São João del-Rei e a 7km do Caquende, nas margens da Represa de Camargos (que barrou o Rio Grande).

Hoje cercada por grandes plantações no passado foi uma zona de matas cerradas, da qual existem alguns capões vestigiais. A comunidade em si consiste de pequenas propriedades rurais e um aglomerado de casas numa encosta de terras férteis. Bem ao centro há uma pedreira e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, padroeira local. Há também um pequeno cemitério, no alto do morro sobranceiro. Na parte baixa se destaca o campo de futebol, na várzea do córrego citado. Junto dele, uma pequena bica de água potável, sempre procurada para dessedentar os viandantes.

Possuiu uma forte tradição de carreiros e tropeiros, que as mudanças sócio-econômicas esfacelaram e hoje se encontra desaparecida. A região intermediava comércio de produtos agropecuários com outras comunidades no lombo dos burros cargueiros no gemido do carro de bois.

A festa da padroeira é um destaque local, em julho, e ainda a Festa da Consciência Negra, em novembro, que congrega a convite grupos culturais vindos de outras paragens, tais como congados, capoeiras e o grupo Pilão de Nhá (este do Caquende).

O local fica nas imediações do Caminho Velho da Estrada Real (Caminho Geral do Sertão), que atravessava o Rio Grande entre a Capela do Saco (Carrancas) e Caquende (São João del-Rei). Ora, o roteiro para as minas traçado na obra de Francisco Tavares de Brito, datado de 1732, conforme citação de LIMA JÚNIOR (1995), revela que após Carrancas se chegava ao Rio Grande e depois o ponto seguinte era Tijuca e depois Rio das Mortes Pequeno e São João del-Rei. Por estas informações se deduz que o tal caminho ao transpor o Rio Grande seguia para a região da atual São Sebastião da Vitória (distrito são-joanense), ao lado da qual existe o povoado do Tijuco, certamente o mesmo citado neste roteiro.

A palavra Jaguara é de origem indígena. SAMPAIO (1987) ensinou sobre a palavra jaguar: "corr. ya-guara, aquele que devora ou dilacera, o devorador. Forma primitiva no tupi: yauara. No guarani, yauá. Alt. Jaguá, Jaguara." Como se sabe, jaguar é onça. Já a forma "jaguará" explicou da seguinte forma: "corr. Yaguá-rá, tirado da onça, a ficção de onça. É o nome de um folguedo, que se fazia, entre os catecúmenos, com o disfarce de uma onça, envolta de palhas e folhas secas. Pode ser também de Jaguar-ã, a onça erguida, ou de pé. Bahia." (p.265). Além do sentido de onça, jaguar e suas variantes podem também significar "cão" (p.167, nota de rodapé 238). No folguedo do bumba-meu-boi e em vários reisados, um dos personagens mais populares é o "jaraguá" ou "jaguará", um estafermo que representa um ser fantástico, de silhueta alta, esguia, revestida de pano, terminando por uma caveira de equino ou muar, presa a um mecanismo que faz seus dentes bater estrepitosamente movida por um indivíduo metido debaixo desta fantasia. O jaraguá dança aos corrupios, batendo queixada, avançando na molecada de forma bravia. A partir da palavra jaguar existem muitas derivações, todas de alguma forma aludindo à imagem da onça ou do cachorro.  

Não seria improvável que o nome do arraial fosse uma referência primitiva à existência local de onças (jaguares). Região de matas, rica em água... é possível. Sabe-se que a região teve onças, inclusive a toponímia deixou uma pérola, "Ribeirão do Onça", que corta o distrito são-joanense de Emboabas, antigo São Francisco do Onça. 

Mas é preciso considerar também que houve nos primeiros tempos da mineração um facínora que apavorou a região, cognominado "Jauguara". O nome do povoado seria talvez uma alusão ao apelido deste malfeitor? Um epônimo? No livro organizado por DANGELO (2012), encontramos o fundamental relato do Sargento-mor José Álvares de Oliveira, figura histórica de grande importância, que lutou na Guerra dos Emboabas e a testemunhou em seu manuscrito "História do distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação das suas vilas". Em tal obra encontramos o registrou da personalidade do bandido Jauguara.

Na véspera da Guerra dos Emboabas, os paulistas aterrorizavam o pequeno Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, hoje São João del-Rei, armados até os dentes e esbravejando valentia pela ganância do ouro e do poder. Dentre eles houve um que se destacou na barbárie _ nos dizeres da testemunha da época, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira _ "e não só com estas tumultuosas amotinações mas com as bravezas de um taubateano cognominado Jauguara que pela língua da terra é o mesmo que cachorro bravo o qual, quando se embriagava, tomava por empresa em fazer-se por a cavalo e armado com os seus escravos encaminhava-se por distância de mais de uma légua para esse arraial e entrava por ele dando mostras de sua bebacidade pelas bocas de suas espingardas semeando as ruas de chumbo e, pela mesma sua boca, com tais latidos que o mesmo era jauguara neste arraial que o cerbero no inferno e em tudo o mesmo porque se o cerbero no inferno era faminto das almas o Jauguara nas minas o era das vidas em que cevava a sua fonte e a de alguns amigos que se queriam valer da sua boa vontade."

Cérbero era um cachorro monstruoso, infernal, mitológico, dotado de três cabeças, que os gregos da antiguidade acreditavam tomar conta dos portões do mundo dos mortos. Curiosa comparação a do sargento-mor, que bem permite imaginar o quão execrável foi este tal de Jauguara. Também se nota que ele não morava em São João del-Rei, posto que para ali chegar "encaminhava-se por distância de mais de uma légua", escreveu José Álvares de Oliveira.

Outra fonte de informação é ORTIZ (1996, p. 308), que ensinou:

"Um dos primeiros descobridores de ouro na região do rio das Mortes, no final da última década seiscentista, foi Gaspar Vaz da Cunha, apelidado Jaguaretê ou o Jaguara, também morador em Taubaté, onde foi juiz ordinário. Aqueles anos acampou ele com a bandeira no citado território aurífero, onde os índios lhe mostraram o metal precioso no capim, sob a forma de folhetas e grãos. Aí instalou ele suas lavras."(grifo do próprio autor)

O sufixo "etê" no tupi significa verdadeiro, legítimo, autêntico. Jaguaretê é portanto o jaguar verdadeiro, a onça legítima.

Comenta o autor que o dito Jaguara depois voltou para Taubaté, onde, no ano de 1700 ganhou uma sesmaria em Piracuama, próximo a uma das gargantas da Mantiqueira que dava passagem ao território de Minas. Teria então aberto uma via para facilitar acesso à área do ouro: "Em 1703 fez abrir um caminho, provavelmente cortando essa sesmaria, unindo o bairro de Pindamonhangaba ao Sapucaí e varando o sertão até as campinas de Capivari." A seguir voltou ao Rio das Mortes, onde estabeleceu moradia no começo dos setecentos, "dedicando-se às atividades mineiras e revelando-se intransigente inimigo dos emboabas."

Esclarece ainda ORTIZ (1996, pp. 221-222) que Gaspar Vaz da Cunha foi capitão e que em 1678 foi juiz ordinário e de órfãos. Sua esposa chamava-se Vitória de Siqueira, "de quem deixou geração"

Uma informação histórica interessante foi levantada foi GAIO SOBRINHO (2013). Apontou que um acórdão da Câmara de São João del-Rei, de 10 de outubro de 1777, tomava medidas de contenção das atividades do quilombo da Jaguara: "acordaram em, por ser muito preciso no Distrito da Jaguara, subúrbios da Alagoa Verde, por nesse Distrito constar haver negros quilombolas fazendo distúrbios revoltados, nomear para capitão-do-mato a Manoel José de Morais, por nele concorrer os requisitos nesta ocupação e que o escrivão lhe passe a carta patente."

Seria muito bem vindo um criterioso e duradouro projeto na Jaguara. Algo que levantasse sua memória por meio dos moradores mais idosos, identificasse suas potencialidades e alternativas econômicas para fixar seus moradores na terra de seus antepassados. Aliado a isto, algo que lhes garantisse o bem estar e direitos, e é claro, a valorização de sua cultura quilombola, paralelamente à da comunidade vizinha do Palmital, também reconhecida como remanescente de quilombo. 

Segue uma seleção de fotografias que flagram imagens do povoado em festa, por ocasião das comemorações da Consciência Negra de 2015. 

Chegada dos moçambiqueiros. 


Cruzeiro, ponto de devoções populares. 

Exemplar típico da arquitetura rural. 

Refrigério dos dançantes à sombra das árvores locais

Detalhe de um rosário de tentos. 

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo recebe os moçambiqueiros. 

Capitão "Borracha" mata a sede na bica d'água junto ao campo de futebol. 

Antiga residência de tropeiro. 

Velha árvore junto à pedreira. 

Aspecto do casario. 

Besouro preto: um grande escaravelho.

Crianças da comunidade em alvoroço, se preparam para a participação nas comemorações quilombolas. 

Uma moradora da comunidade durante a festa. 

A água secou...
Velha bica de servidão pública, onde se colhia água e lavava roupa. 

Pequeno roçado à beira da rua. 

Aspecto de uma rua na Jaguara. 

Em vigorosa marcha de rua, o moçambique de São João del-Rei, Bairro São Geraldo,
marca sua presença na Festa da Consciência Negra, batendo os toques (ritmos)
de jomba e carijó.  

Córrego da Cachoeira ou Córrego da Jaguara, tributário da margem direita do Rio Grande,
que hoje deságua diretamente na Represa de Camargos. Vista tomada de cima da ponte que interliga a comunidade ao Caminho Velho. 

No intervalo da função, Sá Rainha aprecia a festa olhando de um alpendre.

Componentes do grupo Pilão de Nhá, vindos do Caquende. 


Referências Bibliográficas

DANGELO, André G.D. (Org.). Origens Históricas de São João del-Rei. Belo Horizonte; BDMG Cultural, 2006. 127p.il. p.103-104. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Fontes Históricas de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 154p. p.109-110.
LIMA JÚNIOR, Augusto de. Caminhos Antigos de Minas Gerais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.8, 1995. 132p. p.119-128.
ORTIZ, José Bernardo. São Francisco das Chagas de Taubaté. 2.ed. Taubaté: Prefeitura Municipal, 1996. Coleção Taubateana, n.10. 858p. v.2: Taubaté Colonial. 
SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. Introdução e notas de Frederico G.Edelweiss. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. Coleção Brasiliana, v.380. 359p.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 29/11/2015.
*** Para saber mais sobre esta comunidade quilombola leia também:

COMUNIDADES DA JAGUARA E PALMITAL SÃO CERTIFICADAS ...
20 DE NOVEMBRO - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
JAGUARA - FEDERAÇÃO DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS