Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 31 de março de 2016

Folias do Divino: algumas antigas cantorias

Nesta postagem segue um pequeno registro de versos de folia do Divino, dados como muito antigos, segundo a memória dos informantes, eram da primeira metade do século XX.  A data da coleta é janeiro de 1994. 

O primeiro procede de São João del-Rei (*): 

"O Divino pede esmola,
mas não é por precisar;
ele bate de porta em porta
é só para experimentar..."

Os demais são da zona rural de Bias Fortes (**), muito embora a informante residisse em Santa Cruz de Minas. 

"A pombinha do Divino, oi!
voou e chegou agora;
pra vê esses devoto,
homenagear Nossa Senhora!

A pombinha do Divino, oi!
Ela chegou e falou;
vim trazer o meu Mestre,
meu Mestre, nosso senhor!

A pombinha do Divino, oi!
Voou e chegou agora;
para ver nossa folia,
nome de Nossa Senhora!

Já chegou Menino Deus, oi!
numa noite de São João;
chegou o nosso Divino,
para ver a a devoção!

Acendeis aquela luz,
que alumeia no escuro;
vou pedir Jesus Clemente,
o que é coração duro!"

A referência ao "coração duro" é comum entre muitas folias da região. Esta se expressão significa que o folião está cantando a algum tempo e o dono da casa visitada ainda não se dignou abri-la, fazendo a bandeira do grupo esperar a recepção. 

As folias do Divino são de remota procedência ibérica. Eram difundidas tanto em Portugal quanto no Arquipélago dos Açores e os colonizadores a trouxeram para o Brasil, ocorrendo em todas as regiões nacionais. Também conhecida nos Campos das Vertentes, ainda hoje alguns grupos mantém por aqui a força desta tradição devocional. 

Finda a Semana Santa o tempo de jornada dessas folias iniciou-se e em breve já estarão nas ruas em visita às moradias, preparando os caminhos da Festa do Divino, em Pentecostes. 

Folia do Divino, Águas Férreas, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG.
Folião: Geraldo Elói de Lacerda.
Embaixador: Luthero Castorino da Silva.
13/08/1999.  

Notas e Créditos

* Informante: Sr. Aluísio dos Santos
** Informante: Sra. Elvira Andrade de Salles
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotografia: Cida Salles
***** Para saber mais sobre as Folias do Divino acesse este link: ELEMENTOS FESTIVOS (item 20)

domingo, 27 de março de 2016

Cachaça: uma dose de cultura popular

"Aprecie com moderação"

Antes de tudo é sempre útil alertar que este blog registra as práticas de uso de substâncias como remédio não para recomendar seu uso, mas tão somente por seu valor etnográfico. Da mesma forma um texto dedicado à cachaça não é um incentivo ao consumo e somos solidários ao tratamento do alcoolismo. A cachaça aqui figura por seus desdobramentos culturais no campo do folclore brasileiro.

Todo mundo diz e, de fato, a cachaça é a bebida nacional. Aguardente de cana de açúcar, que o povo conhece Brasil afora por várias alcunhas. Em São João del-Rei e municípios vizinhos, por exemplo, é corrente a sinonímia: birinight, branquinha, marvada, canjibrina, moça branca, parati, danada, marafa (o), pinga, uísque de pobre, água que passarinho não bebe, caninha. Beber cachaça (e oportunamente outras bebidas) é... : matar a sede, tomar um gole, chamar uma no peito, molhar a palavra, tirar a poeira da garganta, mandar uma pra dentro, lubrificar a goela, afogar as mágoas, bochechar uma, tomar umas cana (*)... e tantas outras expressões pitorescas. O bebedor inveterado desta aguardente é o cachaceiro, pingaiada, pudim de cachaça.

Tantas palavras e expressões para indicar uma coisa só revelam indubitavelmente sua imensa popularidade.

Escrever sobre a cachaça é um desafio capaz de render um livro substancial. Traçar seu simples panorama cultural numa postagem é uma temeridade, pois sempre faltará muito a se dizer. Mesmo correndo este risco é preciso rememorar que esta bebida se liga ao ciclo econômico da cana de açúcar, sua matéria prima, que teve imensa importância no país. Teve grande vigor desde o século XVII e depois de altos e baixos frente à economia, ainda persevera teimosa Brasil afora ganhando ares mais nobres e já vira produto de exportação. Ao lado dos grandes engenhos estava um alambique, destilando o fermentado da garapa para gerar a cachaça. Em torno do engenho e das plantações de cana estava o trabalhador braçal, desde o regime escravocrata até hoje, desenvolvendo não só o produto em si como também o seu reflexo cultural (**):

"Põe cana no engenho,
deixa moer!
Meu amor está doente
não sei se é pra morrer...

Põe cana no engenho,
deixa passar!
Meu amor foi embora
não sei se vai voltar..." 


"Mestre Domingos,
que veio fazer aqui?
Vim buscar meia pataca
pra tomar um parati."

O cancioneiro folclórico está repleto de versos que se referem a engenhos, cana, canavial, cachaça. Existe até mesmo uma dança rural chamada engenho-novo.

Interessante relembrar que até mesmo o nome comercial de muitas marcas de cachaça traz a presença cultural: umas trazem sobrenomes familiares (por vezes de longa tradição na produção), outras o de lugares, ainda de sensações ao tomá-la e ainda, algumas até divertidas, pitorescas e irônicas, por vezes inimagináveis, mas que de fato são estratégias de marketing. Não é raro que o próprio rótulo acompanhe essas características e acaba por se tornar uma atração à parte por sua arte e há mesmo quem colecione garrafas de pinga em razão de seus rótulos, alguns bastante criativos que fazem alusão ao complexo cultural desta bebida.

Existe uma busca frequente pela cachaça de boa qualidade e por força de expressão a mais procurada é a "pinga da roça", assim chamada a de produção caseira, rural, a nível artesanal, conservando um grau de pureza pelo aroma e sabor. A boa qualidade dessa cachaça de produção limitada é tão reconhecida que o consumidor quando a quer no bar de costume, pede ao balconista: "_ traz uma da boa!" Como um código bem conhecido, já se sabe que o freguês quer a pinga da roça. Do lado oposto o apreciador põe a bebida de fatura industrial e ainda aquela que mesmo sendo "da roça", sofreu adulteração por parte de algum comerciante inescrupuloso, que em vista do rendimento do volume e do lucro acresce misturas ao líquido, alterando-o. "Pinga envenenada", dizem. Assim reza a cultura popular.

Existe até mesmo um santo protetor: atribui-se a Santo Onofre o papel de guardião do produtor de cachaça e do bebedor. O motivo aparente é apenas o fato de sua iconografia o representar tendo a tiracolo uma cabaça, a guisa de cantil, porque era um ermitão. O povo logo diz que é sua reserva de aguardente. Então, para agradá-lo e alcançar sua graça, diante da imagem oferecem vez por outra um copo que contém a bebida querida. Ao santo também se atribui o poder de trazer fartura então quando o desejo é este, é também usual colocar umas moedas no fundo do copo. Se a necessidade é intensa o a imagem é inserida no copo, ficando imersa na cachaça. Por isto, às vezes usam de imagens feitas de ligas metálicas em vez de gesso. Pequeninas imagens de Santo Onofre em chumbo são trazidas no bolso ou metidas na carteira. A estampa emoldurada em quadro por vezes é afixada em paredes de certos botequins (***).

Nos terreiros a tradição da cachaça perpassa sobretudo os trabalhos da linha esquerda, como bebida consagrada aos exus, seja diretamente usada durante os trabalhos ou nas entregas, nas Casas de Força ou nos pontos de seu domínio espiritual (cemitério, encruzilhada, linha do trem). No geral a cachaça é conhecida por marafa ou marafo no universo cultural dos terreiros. 

Já por esta relação com os exus certas pessoas temem aceitar cachaça da mão de outra pessoa e vai aí certa dose não só de cuidados preventivos mas também de discriminação. Fato é que o povo chama de "pinga temperada" à cachaça que supostamente foi benzida por alguém de terreiro, sendo muito temida como capaz de desarranjar a vida do sujeito que a tomar, que embarca então numa maré de azar e doença, infortúnio e declínio. Nada há nela que a possa identificar como tal, o que a maldosa fez foi alterar sua energia, para o lado maléfico, à custa de supostos poderes sobrenaturais. 

Neste sentido, nas folias e congados o responsável muitas vezes traz num embornal um cachacinha ao dispor do grupo, sempre ofertada com muita moderação, evitando assim propositalmente que bebam de outrem ou no botequim, onde creem exista muita carga ruim, energia negativa, que desarmoniza a companhia reiseira ou o terno do Rosário. Acreditam também que tomar uma pequena dose antes de começar a missão folieira ou congadeira fecha o corpo à entrada de males e perigos e da mesma forma ao encerrar, cortando as demandas para que não sejam levadas para casa, motivo de desequilíbrio para o lar. No mais é corriqueiro afirmar que a pinga tomada ao começar garante a afinação da cantoria, pois logo faz o sujeito pigarrear, retirando eventuais obstruções das cordas vocais para um canto afinado. Nas folias ouvimos muitas vezes que sem essa pinga de abertura as vozes dos folieiros não se encontram, ou seja, não se harmonizam no escalonamento da resposta ao verso solista do embaixador. Tantas outras vezes observamos que o folieiro ou congadeiro que não bebe molha a polpa do dedo na pinga (****) e passa na testa em cruz como se fosse uma água benta. Já o vimos também passarem na nuca, nos pulsos e tornozelos, pontos fracos, na intensão de "fechar o corpo". Tanto mais, esfregar pinga no couro da caixa ou tamborim o firma de modo a não rebentar nem desafinar. 

A pinga revela-se capaz de "fechar" não só o corpo como também o objeto à chegada dos maus ares. Fecha também objetos como no caso da caixa. Outro exemplo: um veículo que está sempre inexplicavelmente dando prejuízo ao dono sem ser por falta de manutenção ou por estar por demais velho e desgastado, está sendo alvejado por inveja: arruma a roda, estraga o escapamento; conserta a partida, danifica o carburador... É mau olho! Alguém deseja aquele carro e não o pode comprar ou dá por mal empregado a pessoa ter tal bem. O remédio é a cachaça: despeja-se um pouco sobre os pneus, tendo o cuidado de fazer cruzado _ molha-se uma roda da frente da esquerda e a seguir a de trás da direita; depois a da frente da direita e por fim a de trás da esquerda, ou vice-versa, mas cruzando, garantia da proteção invisível mas inquebrantável. 

Não bastasse, cachorro ou gato em casa adoentado, definhando, arrepiado, comendo muito pouco, tristonho, amuado: pinga-se uma dose de cachaça sobre a cabeça do bicho e ele soergue, retoma em um ou dois dias o comportamento normal. Explica-se: ter um animal em casa é bom, diz o povo, porque o mal que viria para o dono se desvia para o animal, que então se ressente. O ato de passar a cachaça em sua cabeça dissolve esse fluido ruim e liberta-o desse terrível sortilégio, sem o devolver ao dono. 

Seja nos bares para servir ao gosto da freguesia seja em casa, é costume também preparar certas garrafas de pinga acrescentando uma porção de ingredientes naturais à bebida pura. Assim, o cipó milhomem adicionado em cavacos à cachaça, além de lhe emprestar um leve sabor amargo, serve segundo a crença de afrodisíaco e para fechar o corpo à entrada de maus fluídos, uma alusão ou alegoria referente ao nome do vegetal, "milhome", "milhomem", "mili-home": mil homens! Também é creditado o poder de rejuvenescimento sexual à pinga com uns pedaços de nó de cachorro, madeira que deixa a aguardente bem avermelhada. A pinga com carqueja diz que é boa para o fígado; com jurubeba também, embora seja mais usual esta no vinho; pinga com semente de sucupira indicam para o estômago. Outras mais não tem indicação medicinal definida na cultura popular mas são saborizadas com freguesia certa: cachaça com pedaços de coco da baía, com cavacos de lascas de sassafrás (que confere um interessante gosto amadeirado e intenso aroma), canela, abacaxi, gengibre, casca de limão (principalmente da variedade taiti), etc. Cada qual feita em dosagem sem exageros para não mascarar por demasiado o sabor original da cachaça, no que reside um certa prática.

Outro remédio folclórico é bochechar com cachaça para aliviar dores de dente. Acreditam também na pinga como vermífugo, daí mais uma alcunha, "mata-bicho":

"Senhora dona da casa,
seus agrado, nem por isso...
quanto tempo eu tô cantando,
nem café, nem mata-bicho!"

Assim resmunga o brincalhão palhaço da folia de Reis ao anfitrião por estar se apresentando há muito tempo e não obstante o riso que desperta (o agrado), não recebeu nada em troca, nem mesmo algo que beber. Assim ouvimos em São João del-Rei, cidade de múltiplas faces culturais.

Em tempo, crê o povo que o mata-bicho é mais eficaz se ingerido em jejum! Aliás, é de se lembrar que um dos sinônimos de lombriga (Ascaris lumbricoides) é "bicha".

Como não poderia deixar de ser a cachaça tem seu lado profano. Povoa o anedotário fartamente. Por toda parte ouvimos piadas de bêbados. O conto popular mais lendário também tem seus exemplares, sobretudo na assaz conhecida narrativa que Deus criou a cana e o diabo, a cachaça; Aquele fazendo algo doce como o céu, o opositor a bebida que queimava como as caldeiras do inferno, desvirtuando a obra do Senhor.

A pinga é parte acompanhante indispensável de uma parcela da culinária típica. Após a pinga se come algo à base de carne como "tira-gosto". Essa palavra que tantas vezes pronunciamos é a expressão que literalmente se refere a mascarar o queimor da aguardente, o gosto de seu álcool. Há bares especializados em tira-gosto. A via oposta também existe. Então se o apreciador toma um prato de mocotó ou de dobradinha logo diz que seu gosto "pede uma pinga" para acompanhamento. Caso contrário, o sabor parece incompleto... 

Noutros tempos, quando dos mutirões de capina das roças, os trabalhadores ao concluir a tarefa e entregar o resultado na mão do proprietário da terra por meio do ritual de "entrega da bandeira", recebiam deste cachaça em fartura para comemoração da conclusão dos serviços. Em oposição, quando um fazendeiro ou sitiante não cuidava das plantações capinando-as nem permitia que em suas terras ocorressem os mutirões, se acaso chegasse o natal e a roça ainda não estava carpida, colocavam no meio dela às escondidas e em retaliação, um boneco de trapos chamado "joão do mato". Esse boneco tinha de ordinário uma garrafa de pinga ao seu lado e uma enxada velha em frangalhos. A simbologia no caso está claramente apontando para a preguiça, marcada pela bebida e pela ferramenta inútil. 

Nos pousos de boiadeiros e tropeiros não faltava a pinguinha regando a boa prosa, a lembrança dos causos de assombração, das confusões por uma mulher faceira ao fim de um baile, a saudade de uma festa num arraial. No embornal do pescador vai a garrafinha. Quando se bate lage, os trabalhadores por fim ganham um "pão de sal" (pão francês) recheado de molho de carne moída ou de salsichas e café... e cachaça. Se não tiver não valeu a laje. Xingam, praguejam. Muitos o dizem, carregam as latas de concreto por causa da pinga que ganharão ao final. 

A pinga aquece espantando o frio nas montanhas de Minas, quando a neblina as encobre. Se a geada assola os campos e o retireiro tem de vir de madrugadinha ao curral esgotar uma vaca na ordenha, logo toma uma que é para "cortar a friagem". 

No verão, se uma chuva forte surpreende, para não deixar resfriar se toma uma cachaça...

Em tudo e por tudo a pinga é uma bebida incomum. Cambiando entre o sagrado e profano, entre a apreciação e o vício, entre a finalidade econômica e o simples prazer, ela constituiu o núcleo de um intrincado universo cultural. Sempre alguém lembrará um uso antigo, dos tempos do vovô, ou um emprego inusitado lá pras bandas de minha terra, quiçá de uma moda de viola que lhe decante as qualidades e desgraças, uma décima, uns versinhos do cancioneiro. E como na cultura popular cabe ao homem a fama de cachaceiro, e, uma vez bêbado, se mete em arruaças e vira alvo de comentários mordazes e admoestações, talvez por vingança da crítica feminina e dos conselhos do sacerdote, ou apenas por pilhéria, compõe peças assim (*****): 

"Quem quiser que o povo
devoto seja,
bota um boteco,
na porta da igreja...

As mocinha solteira 
de opinião,
debaixo da cama
tem seu garrafão...

As mulher casada 
que tem seus marido,
não bebe na vista,
mas bebe escondido...

O padre também 
com sua coroa, 
eu vi lá na venda
bebendo da boa...

Eu não falo mais 
pra não agravar,
mulher pra cachaça,
parece gambá..."



1- Montagem com garrafas e copos descartáveis no calçadão
da Avenida Leite de Castro, São João del-Rei, comemorativa
do Dia Nacional da Cachaça. 13/09/2014. 

2- Inscrição "Troco por Pinga" na lateral de um veículo parada em
rua de São João del-Rei. 22/02/2016. 
3- Garrafa de cachaça revestida de trançado de palha
e cuias para bebê-la. São João del-Rei, 04/11/2014. 

Notas e Créditos

* Observar atentamente que a expressão popular "tomar umas cana" indica beber cachaça e "tomar cana" é estar preso, ir para a cadeia, "entrar em cana". O sentido contextual pode contribuir para a interpretação.
** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998, Santa Cruz de Minas.
*** No complexo sincretismo religioso afro-brasileiro, Santo Onofre se alinha com Ossãe, orixá das matas, senhor das folhas, das ervas medicinais e plantas sagradas, a quem se pede licença antes de colher qualquer vegetal com este objetivo.
**** Frisamos o detalhe da polpa do dedo, pois habitualmente não se molha a unha, que supõe cruzar as energias, dando efeito contrário ao esperado. 
***** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, 1996. Dado pelo próprio como muito antigo. Quadras são cantadas bisadas a cada dois versos.
****** Texto e fotografias 1 e 2: Ulisses Passarelli; fotografia 3 : Iago C.S. Passarelli.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Duas lendas do ouro são-joanense

Várias localidades das Vertentes surgiram da mineração do ouro ou a vivenciaram durante um período de sua história. O ciclo do ouro deixou fortes impressões na cultura popular (*). Ainda hoje, passados tantos anos, correm na boca do povo estórias alusivas àquela atividade econômica que foi muitas vezes o embrião de um núcleo urbano. O ouro é parte importante de nosso folclore. 

Contam (**), por exemplo, que o ouro de São João del-Rei foi descoberto nos arredores da atual Igreja do Carmo por três rapazes que localizaram um veio enorme. Começaram a extração às escondidas mas tiveram de parar por causa da grande quantidade de água subterrânea. A Igreja do Carmo teria sido construída bem em cima das principais "panelas" de ouro descoberta pelos três rapazes. Corre também a narrativa que esse famoso veio começaria na bêta do Tanque aos fundos do Barracão da Prefeitura, e como um túnel, passaria por baixo da Rua Marcondes Neves, da Rua Gomes Pedroso e da Praça Augusto das Chagas Viegas ficando as principais galerias por baixo do templo carmelita, onde imensas riquezas ainda existiriam. Dizem que a mineração naquele ponto era tão intensa que demandava centenas de escravos. Um desmoronamento certa feita soterrou trezentos trabalhadores braçais e alguns feitores. Depois disto, a escavação parou e construíram a Igreja do Carmo em cima, marcando o local da tragédia. 

A história contudo ensina que o ouro de São João del-Rei não foi descoberto nos arredores do Carmo, embora essa região da urbe também tenha sido escalavrada pelos almocafres, picões e alavancas. Os primeiros descobertos teriam se dado em 1704 no Alto das Mercês pelo português Manoel João de Barcelos e concomitantemente por Lourenço da Costa por detrás daquele morro, no Ribeirão São Francisco Xavier. 

Outro conto (***) diz que certo homem comprou uma velha bêta, praticamente improdutiva. Seu objetivo era reativá-la e ficar rico. Tinha uma ganância desmedida. Como a produção fosse baixa, querendo enriquecer, fez um trato com o capeta prometendo-lhe em troca da riqueza a própria filha como pagamento.

Certo dia a mocinha estava caminhando quando por acidente escorregou e caiu na bêta pedregosa. Lá no fundo o rabudo (****) a possuiu, confirmando assim o pacto. Correram para resgatá-la e de forma impressionante foi retirada de lá sem nenhuma lesão, algo inexplicável, pois qualquer um que ali caísse morreria sem dúvidas. 

Naquele mesmo dia acharam grandes pepitas de ouro e também nos dias consecutivos se achava do nobre metal em abundância. Lavraram o veio rochoso, como muito sucesso para riqueza do proprietário. 

Mas assim como o dono da bêta enriqueceu de repente, dado um prazo começou o infortúnio. O ouro sumiu da mina, nada se achava e o que tinha guardado foi perdido em gastos sucessivos e rápidos, até a miséria absoluta. O rico minerador terminou seus dias como um mendigo. 

Serra do Lenheiro no Alto das Mercês, São João del-Rei, 12/08/2013:
vestígios de mineração - à esquerda um mundéu; à direita, escavações e cascalheiras.

Notas e Créditos

* A exemplo desta afirmação, leia também neste blog: OURO: UM CICLO CULTURAL
** Informante: Sr. Aluísio dos Santos, 05/01/1994, São João del-Rei
*** Informante: Sr. Luís Santana, 19/01/1994, São João del-Rei
**** Rabudo: um dos muitos sinônimos do demônio... tinhoso, cão, bruto, capiroto, pemba.
***** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

terça-feira, 15 de março de 2016

A Morte do Quilombola

Segue o registro de mais um conto popular, desta feita na modalidade "causo", narrando a passagem de um escravo fugido em idade avançada. Paralelo à sabedoria do homem simples, a nota maior é a reflexão sobre a salvação da alma. Foi relatado em São João del-Rei, como sendo muito antigo... 

*  *  *

Diz que foi no tempo do cativeiro, a cento e tantos anos atrás... Certo padre em longa jornada, passando à cavalo num ermo de serra, beirando umas grotas, avistou uma tapera e nela um velho fugitivo das correntes do cativeiro. 

O velho escravo estava em agonia de morte. O padre imaginou que não haveria outra oportunidade e querendo salvar a alma do quilombola, pediu para ele: 

_ Fala: "Jesus, Maria e José!"

Mas o moribundo já muito idoso, pleno em humildade, simplório ao extremo, só conseguiu com dificuldade dizer: 

_ "Cará na maromba tá que nem fubá..."

Tantas vezes o sacerdote pediu ao velho quilombola que falasse o nome de Jesus, tantas ele repetia a mesma frase, refletindo sua única ambição, quem nem sequer tinha força física para cumprir: colher cará (*) na maromba, um cercado improvisado com varas, pois o alimento estava no ponto da colheita, sequinho, igual fubá. 

E assim entregou-se à morte. O padre, certamente, entendeu que apesar de não ter dito o nome do Salvador aquela alma estaria salva pela misericórdia do Pai, em virtude das agruras que a vida lhe proporcionou e a pureza que conservou consigo. 


Notas e Créditos

* Cará: conhecido por cará-do-ar, cará-de-cerca ou cará-de-pedra é uma planta trepadeira que produz tubérculos comestíveis. Pertence ao gênero Discorea. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, jan./1994.

sábado, 12 de março de 2016

Congo de São Gonçalo na Festa do Divino

Congo "Nossa Senhora do Rosário" de São Gonçalo do Amarante
(ex-Caburu), distrito de São João del-Rei/MG, durante o Jubileu do Espírito Santo
(Festa do Divino), na sede do município, Paróquia do Santuário do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em 24/05/2015. 
Nestas cenas, o terno se desloca sob o 
comando do Capitão Lourival Amâncio de Paula pelas ruas do Bairro de
Matosinhos rumo ao Salão Comunitário de Santo Antônio, 
onde os congados se reúnem para o Recolhimento do Reinado.

Cantos entoados no vídeo 

"Eu vim de longe,
    tô chegando agora;  BIS
eu vim visitar
   a Nossa Senhora!"     BIS
(até 02:10)

"O papai não deixa...    BIS
a mamãe quer me bater!"
(até 03:45)

"Lá do céu tá caindo fulô!  BIS
Lá do céu tá caindo fulô!"  (*)
(até o final)

Notas e Créditos

* Fulô: flor, "fulôre". Corruptela muito comum, senão mesmo tradicional.
** Vídeo: Iago C.S. Passarelli
*** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 10 de março de 2016

Folias de São Sebastião se encontram em São Gonçalo do Amarante


Encontro de folias em São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu),
distrito de São João del-Rei, em 25/01/2015. Neste vídeo, 
inicialmente canta a folia da Colônia José Teodoro, deste mesmo município,
do Folião Carlos Leandro de Oliveira, sob a voz do Embaixador 
Antônio Francisco dos Santos. A seguir canta a folia da própria vila de
São Gonçalo, do Folião e Embaixador Lourival Amâncio de Paula. 


Notas e Créditos

* Vídeo e edição: Iago C.S. Passarelli
** Texto e acervo: Ulisses Passarelli

sábado, 5 de março de 2016

Assombrações do tempo roxo

"O tempo mudou muito...",  alertam os mais velhos. Nesta frase enigmática que traz em si um suspense, revelam as mudanças de comportamento frente ao que é esperado para cada época, cada tempo, cada circunstância. Assim, nesta quadra do ano, espera-se a penitência e a credulidade à "flor da pele", ou seja, a fé evidente, a crença como prioritário.

Mas não tem sido. A sociedade é outra. Movida pelo materialismo crescente e o impacto de uma era tecnológica, o homem do interior dia a dia se distancia de suas raízes culturais e é engolido pela avalanche globalizadora. Daqui e dali ecoam como estórias de um passado sempre curioso de se ouvir e imaginar, fragmentos de nossa mitologia mais típica como a que aflora todos os anos na quaresma, por ventura teimando em desaparecer da memória dos mais velhos e de algum lugar mais recôndito.

A região Campos das Vertentes, tradicionalista como é, ainda propicia ouvir causos da quaresma assombrosa (*), sobretudo na zona rural (**).

A mula-sem-cabeça (***) segundo se diz, galopa acelerada soltando labaredas. Tarde da noite corre pelas ruas desertas e seu tropel pode ser ouvido. Mas apesar de encantada, se entrar numa via que tem uma igreja, ela nunca ultrapassa esta. Daquele ponto retorna. Se ela entrar numa rua que tem duas igrejas, entre cada extremo que estão, fica presa sem ultrapassá-las, chega numa igreja volta para a outra, até o dia clarear, quando então desencanta e volta a ser mulher, que aparece caída numa beira de calçada, meio tonta ou desmaiada. Assim contam em São João del-Rei e Tiradentes.

Quaresma também é tempo propicio para efetuar o trato com o pemba. Nesse tempo o demônio anda à solta, então aquele indivíduo que ambiciona algo aproveita para a horas mortas, nas encruzilhadas, chamar o diabo e fazer seu pedido, que obterá ao preço de sua alma, que não mais se salvará. Assim, quem quer aprender a tocar um instrumento e não tem o dom, faz um trato musical na Sexta-feira da Paixão, meia-noite. Leva o instrumento para a encruza e logo vem uma galinha com os leitões; depois que se vai aparece um cabrito e, por fim, o próprio capeta aparece sob a forma de homem, vestido de capa preta, e, tomando o instrumento nas mãos, toca-o de forma exímia. A seguir o devolve a seu dono que de imediato já consegue tocá-lo e tal instrumento nunca desafina. Tornou-se um músico virtuoso pelo trato com o maligno. Assim é corrente na memória da cultura popular são-joanense.

Ainda em São João del-Rei é difundida a narrativa de um certo baile acontecido na quaresma. Por ser desrespeitoso, numa época de recolhimento, teve um fato extraordinário. Surgiu um forasteiro muito bem vestido, elegante, charmoso. O estranho era irresistível para as moças. Exímio dançarino, bailou com todas. Foi então, lá pelas tantas, já em horas avançadas, sem ninguém nada cismar e sequer cuidar que era o "tempo roxo", que alguém olhou para os pés do tal dançarino e escandalizado, gritou em alta voz que eram pés de pato. O desespero e a debandada foi geral pois só assim reconheceram que o estranho era o próprio tinhoso. 

Caso idêntico já ouvimos em outras oportunidades, variando apenas que os pés do dançarino eram de bode, ou, noutra versão, de boi. 

Em Santa Cruz de Minas ainda nos anos noventa corria a narrativa acontecida numa certa chácara daquele município, que no lusco-fusco vespertino, de repente, vários porcos roncavam e batiam dentes no terreiro da casa e logo os moradores assustados com o forte barulho, imaginaram que os porcos tinham fugido do chiqueiro e foram verificar. Qual nada! Logo o som misterioso desapareceu, pois de fato os porcos verdadeiros do chiqueiro estavam presos e em silêncio. O ruído era do além, assombração.


Notas e Créditos

* Vide a este respeito neste blog: ASSOMBRAÇÕES E PENITÊNCIA
** Sobre alguns mitos na zona rural leia: ASSOMBRAÇÕES NO CABURU
*** Virar mula-sem-cabeça é como receber um castigo perpétuo. O povo acredita que a mulher que se envolve amorosamente com um padre passa a se transformar neste assombro. Outra possibilidade é quando um casal tem uma sequência de sete filhas. A sétima virará mula-sem-cabeça irremediavelmente a não ser que seja batizada pelo nome de "Maria", que então neutralizará a sina.
**** Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 1 de março de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 2

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1948)

O que foi dito como introdução à primeira parte desta postagem (acesso por link ao final deste post) serve exatamente a esta segunda parte. Portanto, por questão de praticidade, para não repetir as palavras, vamos direto à exposição da nova coletânea de notícias avulsas e independentes. É recomendada a leitura das notas de rodapé, que contém alguns comentários sobre as notícias.

Poço do Olho d'Água no Ribeirão São Francisco Xavier,
Serra do Lenheiro, São João del-Rei/MG

1900:
- Reforma na Igreja das Mercês – “Estão muito adeantados os reparos que, na Igreja das Mercês, estão sendo feitos pela actual Mesa Administrativa. O forro já está decorado, tendo sido estampado um retrato da Virgem das Mercês, ladeado pelos seus servos S.Pedro Nolasco e S.Raymundo Nonato. As obras restantes prosseguem.” (O Combate, n.10, 05/09/1900)

1901:
- “Praça Pedro Paulo – A Camara Municipal, reconhecendo os relevantes serviços prestados pelo illustre Coronel Pedro Paulo da Fonseca Galvão, em sua sessão, do 28 do passado, deu o nome do benemerito militar, á Praça, que se estende, da ponte das Officinas[1] ao Ribeirão d’Água Limpa. Foi um acto de justiça. Apresentamos ao Coronel Pedro Paulo os nossos parabéns.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Mercado Municipal – Dentre as medidas redundantes em economia ao Thesouro Municipal, está o arrendamento do nosso Mercado e sabemos que está no animo da nossa Municipalidade por em hasta publica o arrendamento d’aquelle edifício publico. Ultimamente a fiscalização do Mercado Municipal tem ficado bastante despendiosa para os Cofres Publicos municipaes e por esse motivo quer e pretende a Camara arrendal-o e para isso estão sendo estudadas as bazes respectivas.” (O Combate, n.104, 21/09/1901)

- Hotel Oeste de Minas[2] (anúncio): “Attenção – Hotel Oeste de Minas – Valentim e Santos Martinelli – aposentos arejados, salões, bilhares, parques, banheiros, duchas e carro para conducção de hospedes, isto gratis. Não aceitam tuberculosos. Diarias: adultos...7$000 Creanças e creados pagarão um preço razoável, na occasião combinado. As famílias ou grande numero de pessoas gozarao do abatimento que sera convencionado. S.João d’El-Rey”. (O Combate, n.128, 30/11/1901)

1905:
- “Quaresma – Ao que consta, ouviremos, pela Quaresma e semana santa, o Stabat Mater de Rossini, o de Calvo, o de Pergolesi e o de nosso inolvidável conterrâneo Presciliano Silva; as missas e credos de Giorza, de Salvi e de Bellini; e, na sexta-feira maior, a majestosa composição de L.Perozi: Ceia e Morte de Christo. É uma excelente nova para os amantes da boa musica, nada sendo preciso accrescentar acerca do desempenho reservado a taes composições, que está confiado á orchestra do maestro Ribeiro Bastos.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

- “Relógio – Já sahiu da Europa um excelente regulador, que a Mesa da Irmandade do Sacramento, com auxilio da Camara, destina a nossa egreja Matriz, em substituição ao velho relógio que, pelo seu incessante trabalhar, já tem as molas principaes estragadas, regulando mal.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

1906:
- Reforma do Mercado– “Estão muito adeantadas as obras, que estão sendo realisadas no Mercado Municipal e destinadas a receberem a nova grade de ferro, que a Camara manda colocar ali, levando mais esse acto para o activo de seus serviços a esta cidade e no Municipio.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906) [3]

- “Nuvem de gafanhotos – Como em Juiz de Fora, no mesmo dia 9, segundo telegramma transmitido dessa cidade para a imprensa carioca, seguindo o mesmo rumo de norte a sul, cerca de 2 horas da tarde, atravessou aqui uma grande nuvem de gafanhotos, em certos pontos tão intensa que conseguiu encobrir os raios solares. Alguns eram de tamanho nunca aqui visto, não deixando de causar um certo temor na população. Felizmente a travessia dos terríveis insectos foi de uma hora, mais ou menos.” (O Repórter, n.37, 14/10/1906)

1907:
- “Ramal de Pitanguy – Por estes três meses, diz telegrama do snr. Dr. Chagas Doria ao snr. Ministro da Viação, deverá ser inaugurado o ramal de Pitanguy, melhoramento importante, que, desde muito tempo, está a reclamar a sympathica cidade sertaneja.” (O Repórter, n.22, 23/06/1907)[4]

- Problemas sanitários – “O dr. F. Catão realmente precisa de tomar um destes trens, mas não para se ir de vez, mas para voltar o mais breve possível, e trazer em sua companhia gente que nos ajude a fazer reclamações contra a agua suja, a praia[5] suja, o matadouro sujo, as ruas sujas que temos nesta hospitaleira, e salubre cidade.” (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

1917:
- “Chuva Providencial – Parece que alguém lá das alturas, attendendo ás reclamações do povo, delle condoeu-se e mandou, no segundo dia de festas em Mattosinhos, uma chuvinha miúda incumbida de aplacar o pó que era barbaro e inclemente. Ninguém lá de cima tem obrigação de mitigar os soffrimentos dos que estão cá em baixo; compete somente á Câmara mandar irrigar o Largo de Mattosinhos e trazer-lhe uma capina em regra, porque só ela tira proventos do povo com pesados impostos e taxas absurdas. Os negócios de nossa Câmara vão de mal a pior. É o povo queixar-se ao bispo.” (A Nota, n.24, 30/05/1917)[6]

- “Apparecem os gafanhotos – Lá pelos lados de Aguas Santas e nas imediações do estribo do Brighentti, começam a aparecer densas nuvens de gafanhotos, pondo em polvorosa o pessoal por onde passam os bandos dos danninhos insectos. Quem nos trouxe a noticia affirma-nos que durante a passagem dos terríveis orthopteros nota-se uma escuridão qual a da noite; afirma-nos mais o nosso informante que o espectaculo é medonho e quem o presencia tem a impressão perfeita do barulho de uma hélice de aeroplano em franca rotação. É bem provável que, devido a nossa cidade achar-se nas proximidades onde os gafanhotos estão aparecendo tenhamos dentro em breve de observar também tão terrível espectaculo. Caso apareça tão terrível flagello entre nós, como providenciará a nossa Câmara? É ir-se preparando desde já...” (A Nota, n.25, 31/05/1917)[7]

- “Voluntários de manobras – No quartel do 51º batalhão de Caçadores encerrou-se hontem a inscripção para o voluntariado de manobras. A mocidade de S.João d’El-Rey acaba de dar mais uma prova de seu nunca desmedido civismo. Alistaram-se 213 voluntarios, dos quaes 202 foram considerados aptos, 9 julgados incapazes e 2 não compareceram á inspecção medica. Podemos dizer com orgulho que S.João d’El-Rey é a cidade de Minas que maior numero de reservista tem dado ao exercito; com o contingente de agora esse numero attinge acerca de quatrocentos homens.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)[8]

1923:
- Aquisição de terreno – a Resolução Municipal nº481, de 31/03/1923, autoriza o executivo à compra de um terreno, “por quantia não excedente á da compra effectuada ao sr. Francisco Messias da Silveira, a parte pertencente a d. Ermelinda da Silveira Milward no immóvel chamado “Olhos de Agua”, junto ás vertentes da represa velha do abastecimento desta cidade.” (A Tribuna, n.468, 15/04/1923)[9]

1926:
- “Estação de Caburu – É justo salientarmos nesta folha os constantes esforços com que contribuiu para a construção da estação de Caburu o sr. cel. Antônio Balbino de Sousa. Aquelle nosso prezado amigo desdobrou-se em boa vontade e atividade para a consecução do importante “desideratum”, tornando-se, portanto, merecedor dos mais effusivos louvores.” ( A Tribuna, n.751, 28/05/1926)[10]

- Escola distritais – a lei municipal nº496, de 27/11/1926, autoriza a criação de uma escola noturna na Colônia José Teodoro e outra em “Nazareth”, atual cidade de Nazareno. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)[11]

- Estrada de Turvo – por força da lei municipal nº497, de 27/11/1926, a Câmara Municipal de São João del-Rei autorizou a despesa de 10:000$000 (dez contos de réis), como subvenção parcelada para o exercício financeiro do ano seguinte, para construção da estrada de automóveis interligando esta cidade a Turvo, atual Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)

1932:
- Festa no Albergue – “Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicada a S.José, as tradicionais festividades que se realisam na Capela do Albergue Santo Antonio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado numero de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão”. (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)[12]

1938:
- “Missa dos Alfaiates - A comissão de alfaiates encarregada de promover a missa em honra à S.Geraldo, o protetor da classe, pede-nos avisemos que por falta de sacerdote não pode ser celebrada hoje, dia do milagroso santo, ficando por isso transferida para amanhã, ás 7 horas na Igreja Matriz. A referida comissão faz um apêlo para que todos os alfaiates compareçam a esse ato religioso, afim de ganharem graças para o constante progredir religioso desta tão numerosa classe operária.” (Diário do Comércio, n.181, 16/10/1938)[13]

- “Nova rodovia de S.João del-Rei á Barbacena – As empresas de transporte desta cidade, estando á frente o Expresso S.João e o fazendeiro Abel Carlos Moreira Campos, do distrito de Padre Brito, projetaram a construção de uma linha rodoviária, ligando o distrito de S.Francisco do Onça ao Ponto Chique, quilometro 27 da estrada de Ibertioga, ficando desse modo S.João del-Rei ligada a Barbacena por uma nova via, num percurso de 80 quilometros certos. Essa rodovia destina-se principalmente ao tráfego de caminhões pesados e de ônibus com as rampas em gráca necessários a tais transportes.” (Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938)

1948:
- “De Prados - Natal dos pobres - Consoante o costume, realizou-se nesta cidade, a 25 de dezembro, o já tradicional almoço ajantarado oferecido pelas exmas. familias aos pobres da localidade. Devido ao mau tempo reinante, essa interessante refeição coletiva não teve a mesma concorrência dos anos anteriores, tendo dela participado uns 200 pobres. As respeitáveis irmãs de caridade da Santa Casa serviram o almoço, com a cooperação de distintas jovens do nosso escol social.” (Diário do Comércio, nº2.975, 04/01/1948)

Placa indicativa improvisada no distrito de Emboabas (ex São Francisco do Onça)
indicando o entroncamento para Ponto Chique. 

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade
Referência Bibliográfica

Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959.

Notas e Créditos

*Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog a primeira parte desta postagem como mais notícias históricas:



[1] - Ponte das Officinas: o sentido exato não está claro e pode se referir a duas pontes: 1- havia uma ponte sobre o Córrego do Lenheiro interligando a Rua Antônio Rocha à Paulo Freitas, em frente às oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Esta ponte não existe mais. Ficava exatamente entre as atuais pontes Inácio Zózimo de Castro e Monsenhor Tortoriello; 2- pequeno pontilhão da via férrea sobre o Córrego da Tabatinga, na saída da estação, entrada do Bairro São Judas Tadeu (antiga Caieira). É possivelmente a esta ponte que se refere o texto, pois dela à Ponte do Ribeirão da Água Limpa ainda hoje é o logradouro conhecido por Praça Pedro Paulo, popularmente, “PPP”, outrora chamada “Estrada da Tabatinga”. Era o caminho antigo de acesso a Matosinhos.
[2] - O Hotel Oeste de Minas sofreu terrível incêndio em 1919, que representou o seu fim. O prédio, contudo, construção muito sólida, foi mantido e hoje em excelente estado de conservação, sedia o CESC (Centro Social e Cultural), do 11º BI, Regimento Tiradentes, do Exército Brasileiro.
[3] - O mercado naquele tempo ficava exatamente ao lado da Prefeitura Municipal, no terreno onde mais tarde foi construído o Fórum, prédio que hoje serve à Câmara Municipal.
[4] - O ramal referido era um trecho de via férrea de cerca de 45 km, que interligava a cidade de Pitangui à “Linha do Sertão” da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com a qual se encontrava exatamente na Estação de Velho de Taipa, km 436,928. A inauguração se deu em 23/11/1907.
[5] - Praia: nome corriqueiro que os são-joanenses dão ao Córrego do Lenheiro, que entrecorta a cidade.
[6] - Tradicionalmente, desde o século XVIII, eram três dias de festejos subsequentes: Domingo de Pentecostes consagrado ao Divino Espírito Santo, segunda-feira (o segundo dia), consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a terça a Nossa Senhora da Lapa.
[7] - Até 1930 a Câmara Municipal congregava todos os poderes. Um dos vereadores era escolhido para ser o agente executivo, cargo que corresponde ao atual de prefeito. Daí, em todas estas notícias antigas, os pedidos de providências e as referências a autorizações, sempre partem da Câmara. Somente com o Estado Novo de Getúlio Vargas se estabelece o regime de prefeituras, separando o executivo do legislativo.
[8] - Notar que este fato ocorre no período coincidente com o da 1ª Guerra Mundial.
[9] - Ainda hoje a região do Olho d’Água, no Ribeirão São Francisco Xavier, em área do Parque Ecológico Municipal da Serra do Lenheiro, é fornecedora de água para abastecimento público.
[10] - Este Sr. Antônio Balbino de Sousa, foi Imperador da Festa do Divino no ano de 1923, salvo caso de engano por se tratar de um homônimo. A este respeito veja a postagem: AS FESTAS DE 1923. Estação de Caburu: ficava no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex Caburu. Esta notícia é intrigante pela data (1926), porque consta que a estação deste distrito só foi inaugurada quatro anos depois, em 1930 (A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930), com o nome de Mestre Ventura. Seria a mesma plataforma férrea? Antigos moradores de São Gonçalo referem-se a uma primitiva parada do trem no km 123, contudo, a Estação de Mestre Ventura ficava no km 127,137. Seriam as mesmas plataformas de embarque e desembarque? Ou a inaugurada em 1926 era a parada do Km 123, depois substituída pela estação de 1930 no km 127? Para aumentar a controvérsia, o “Prontuário Geral das Estações Ferroviárias”, referenciado nesta postagem, dá para a Estação de Mestre Ventura a data de 07/09/1931... Seria ainda uma remodelação daquela de 1930? Eis um campo aberto a pesquisas de confirmação. A estação foi demolida após a erradicação dos trilhos e dela só restam vestígios das pedras da plataforma e a caixa d’água.
[11] - Nazareno emancipou-se de São João del-Rei em 1953. A escola da colônia não existe a muito tempo e está arruinada.  
[12] - A Capela de Santo Antônio, do Albergue Santo Antônio, nos limites entre a Rua Frei Cândido e Praça Dom Silvério, no Bairro das Fábricas, data de 1912.
[13] - Outra notícia da Festa de São Geraldo promovida por alfaiates surge no jornal A Tribuna, n.692, de 25/10/1925, que diz que o santo é “protetor da laboriosa classe”. Daria motivo para um oportuno estudo a hipótese da construção da capela deste santo no alto do morro que ganhou seu nome, ter sido ou não sob a influência ou iniciativa dos alfaiates, haja vista estar nos limites do Bairro das Fábricas, onde se situavam várias fábricas de tecidos, estabelecidas a partir do final do século XIX. Afirmou Augusto Viegas que a Capela de São Geraldo foi “erigida em 1914, graças principalmente aos esforços de Lúcio Justino de Andrade, modesto operário” (p.262). Qual a real importância que o estabelecimento das tecelagens teve na urbanização daquela área da cidade?