Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Festa de São Sebastião na Restinga

O dia de São Sebastião caiu este ano em plena quarta-feira (20 de janeiro), induzindo que as comemorações em vários lugares se transferissem para o final de semana seguinte. Tal se deu na Restinga, distrito de Ritápolis/MG, onde aconteceu a tradicional festa em honra a este santo altamente prestigiado nos meios rurais, como protetor dos sitiantes e fazendeiros, com o atributo clássico de proteger contra a fome, a peste e a guerra; guarda infalível dos rebanhos e plantações contra a ruína das doenças, desde que se tenha fé nele. É por excelência o santo patrono da agropecuária (*). 

A Restinga é dividida em dois grupamentos de casas: um na parte mais alta do terreno foi batizado Restinga de Cima, que conta com uma capelinha de Nossa Senhora Aparecida e outro na baixada, Restinga de Baixo, cujo padroeiro é São Sebastião. Onde fica a sua capela não é na parte mais baixa do povoado, se não mesmo num platô com bela visão panorâmica das montanhas em derredor. Já por isto há quem lhe chame "Restinga do Meio", conquanto o nome não pareça tão comum, posto que, ao pé da letra a capela é parte da Restinga de Baixo. Conta ainda com um cemitério aos fundos, e algumas construções em volta, sediando conferência, casa paroquial, escola e um grande reservatório de água. Sítios nas imediações. O entorno é gramado, ao natural e servido pela estrada não pavimentada que vem da Rodovia BR-494 e segue a Resende Costa, com entroncamentos para a Restinga de Cima (esquerda) e para o Penedo (direita). 

A comunidade é muito tradicionalista e guarda desde longa data a tradição do congado, com festejo do Rosário em setembro, quando o catupé local recepciona as guardas visitantes. Mantém igualmente a folia, ora só na de Baixo, ora nas duas restingas; confluindo sua jornada para o arremate anual nesta festa em questão. Além do grupo da Restinga de Baixo, sob o comando do veterano e respeitadíssimo Mestre Sebastião Ezequiel e de seu seguidor imediato, José Mário, que tem sua própria folia na Restinga de Cima, estiveram também presentes a Folia "Mensageiro do Paráclito", vinda da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), do folião Carlão tendo como embaixadores Pedro Paulo e Antônio Francisco dos Santos; e ainda a folia do Cerrado, bairro de São Tiago, sob o comando e voz de Vanderlei Cardoso. As três companhias demonstraram experiência e excelência na qualidade do que apresentaram, executando toadas muito tradicionais, típicas da região, sobretudo das áreas rurais. 

O povo devoto estava totalmente à vontade no largo gramado. Música mecânica instalada sobre a carroceria de um caminhão, coberto de improviso por um toldo de bambu e lona, animava o ambiente tocando sertanejo nos intervalos de cantoria dos foliões. Gente amiga e aparentada se encontrava por ali, sentando para a prosa debaixo das grandes figueiras bravas. Capela aberta na frente e nas laterais, varrida, florida, pintada de novo. Todo tempo visitantes lhe entram e saem como numa romaria. Os andores de São Sebastião e de Nossa Senhora das Graças estão enfeitados de rosas vermelhas e uma fita atada aos pés da imagem oferece ao fiel uma chance para o ósculo. A marca de batom na fita branca da Virgem é prova inconteste do carinho de um beijo na santa. A fita de São Sebastião é vermelha, como convém a um mártir da fé. 

O cemitério também está aberto e as pessoas o visitam livremente, orando pelos mortos, relembrando entes queridos. A festa abre uma dimensão de saudade, de reencontro, até mesmo com os que já se foram, ora lembrados porque dali também, noutros tempos, foram partícipes. 

Um mastro foi fincado adrede à capela, simples, relativamente baixo, mas tão simbólico com sua estampa dupla, numa face o santo festejado, no outro a Virgem de Fátima. 

Num canto do largo um curral reserva prendas ofertadas ao padroeiro: bezerros e leitões. Diante da casa paroquial, uma mesa forrada de toalha expõe outras prendas diversas _ melancia, moranga, abóbora, feijão guardado em garrafa pet (gratidão pelas boas colheitas...), utensílios domésticos, tapetes e colchas tecidos em teares artesanais _ prendas para o leilão em benefício do festejo. O povo então os chama respectivamente "leilão de gado" e "leilão de mesa", uma tradição das festas deste santo. O povo passa olhando, não mexe, não rouba, respeita, é do santo. Mas já estipula possíveis valores, planejando arrematar. Por vezes nesses leilões se arremata objetos baratos; outras vezes bem acima do que realmente valem, porque o bom leiloeiro sabe apregoar incitando o orgulho e o senso de disputa dos candidatos a arrematante, que se empolgam em lances sucessivos visando superar o "rival", o que torna o leilão atraente, animado, alegria do povo. E é assim mesmo, porque pagar mais que vale é prova de fé posto que subentendido e aceito coletivamente como verdade inconteste, é forma de ajudar a festa e retribuir ao santo as múltiplas benesses recebidas. Essa a lógica do leilão numa festa deste tipo. 

Sai o almoço das folias. Que almoço! Cardápio simples, mas inigualável no sabor. Comida mineiríssima típica. Elogiado ao extremo por quantos o provaram. Confraternização geral, alegria, foliões se misturam independente do grupo que participam. São irmãos imbuídos da mesma missão. Depois cantam no ritual de agradecimento e neste a cozinheira deve segurar a bandeira para ouvir os versos. 

 Achegam-se para debaixo da árvore grande. O mestre do lugar convoca. Encontro das bandeiras, ritual de saudação de uma folia à bandeira da outra e na sequência aos foliões. Momento de paz e união. Os devotos dessas comunidades amam as folias. Juntam em volta para ouvir os versos e apreciar os acordes da sanfona, o dedilhado das cordas, a afinação do requinta, a sintonia da resposta. 

A sineta tocada à porta da sacristia é um sinal imperativo. A missa vai começar. Folias param, o povo mobiliza-se para o templo. O relógio marca 14 horas. Padre Nélio José dos Santos, sempre tão eloquente, sabe como celebrar conservando a atenção de todos e com palavras evangelizadoras que invadem o âmago. Seu apoio às tradições é valoroso e indispensável e o temos visto desde muitos anos com aplausos. O coral local cantou no coro da igrejinha, exímio, se valendo de músicas sertanejas o que muito agrada aos fiéis. 

Na sequência, a partir das 15 horas e trinta minutos, transcorreu o leilão. Primeiro o de mesa. Enquanto as folias voltaram a cantar no largo e os presentes em burburinho a conversar, a comer e beber pelas barracas instaladas, os leiloeiros transitavam entre eles gritando o preço das prendas e pedindo novos lances. Nesse meio tempo passa um homem vendendo peças artesanais de couro trançado: talas, relhos, chaveiros, cinturões, bainhas de canivete. A freguesia está ali, muitos cavaleiros presentes, de chapelão à cabeça, botas e perneiras. Num canto do lugar violeiros cantam uma moda qualquer e logo atraem seu público específico; crianças correm e brincam numa liberdade imensa, gramado afora, sem riscos, sem obstáculos. O gramado, aliás, daqui e dali se ponteia de forte amarelo, dos canários da terra, pássaros canoros de beleza ímpar. 

Daí a pouco os leiloeiros começam a passar com galinhas peiadas (**) e o leilão esquenta. Já mais um tanto e começa o berreiro dos porcos e passam carregando leitões e por fim as pessoas rodeiam o curral para avaliar os bezerros e dar seus lances, momento mais intenso da disputa dos arrematantes. 

Findo o leilão o padre convida ao microfone os fiéis ao início da procissão e o sino da capela reitera o chamado com seus repiques insistentes. Cruciferário toma a dianteira. Duas filas logo se formam. Andores vão no meio e folias atrás, alternando cantoria. Rodeiam o cemitério, circulam pelo lugar, tornam por baixo. Não é itinerário longo, mas concorrido e devoto. Uns poucos foguetes espocam e seu eco se amplia na imensidão de morros. Na chegada os andores entram de marcha à ré, como é de costume. O sacerdote dá a bênção final e a capela se irrompe em vivas a São Sebastião. As folias cantam sua despedida na nave da igrejinha e o povo despe os andores de suas flores, que levadas aos lares são certamente dádivas que adentram nas famílias. 

Despedidas à vista. Sai um carro, vai-se um caminhante, um cavaleiro, uma motocicleta. O largo pouco a pouco esvazia. Barracas se desfazem. Alguém varre a capela e uma zeladora cerra as portas. O compromisso com o sagrado foi cumprido mais uma vez. O equilíbrio das forças terrenas e celestes está garantido de novo para aquela comunidade, como uma aliança inquebrantável. A fome não assolará já que os rebanhos e roçados estão abençoados. Agora é voltar ao trabalho, com a certeza da vitória que só a fé garante... Té logo, cumpadre, vai com Deus!

Andor de São Sebastião na Restinga:
um ramo de oliveira se abre como uma umbela
e a fita vermelha serve ao beijo dos devotos. 

Bandeireiro da folia da Colônia do José Teodoro
em respeitosa atitude durante a cantoria de veneração. 
 
Folia da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), chegando na
Capela de São Sebastião da Restinga de Baixo. 

Folia do Cerrado, de São Tiago, faz sua adoração dentro da capela. 
Sanfoneiro da folia da Restinga. 

Foliões Zé Mário (esquerda), da Restinga de Cima e Sebastião Ezequiel (direita), da Restinga de Baixo, ícones da tradição folieira na região, observam atentamente a cantoria das folias visitantes. 
Senhoras observam a cantoria folieira. 

O povo se aglomera debaixo da imensa figueira para assistir o Encontro das Bandeiras. 

Vendedor de artefatos de couro. 

O leiloeiro apregoa um porco.  

Leilão de galinhas. 

O leilão de gado é muito concorrido. 

Mesa de prendas.
Cruciferário abre a procissão.  

Passagem do andor de São Sebastião acompanhado por folias. 
Fogueteiros saúdam a chegada da procissão. 

Chegada da procissão. No extremo esquerdo da fotografia se observa
o mastro de São Sebastião. 

Notas e Créditos

* No ano anterior este blog divulgou outra festa rural dedicada a São Sebastião, no distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei). Leia clicando no link: CABURU FESTEJA SÃO SEBASTIÃO
** Peiada: que tem os pés atados por peias (cordão ou embira que amarra um pé no outro para imperdir a fuga de um animal correndo). Não confundir com pejada: prenha, grávida. Vocabulário típico dos meios rurais. 
*** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Brumado

Ofereço como homenagem e gratidão à memória dos foliões Geraldo Teixeira e Vico, e  ao casal amigo José Marcos e Maria José, mestres do saber.


            Bruma é neblina, serração, névoa. Brumado é o lugar que tem brumas, nevoeiro. Estas palavras revestem-se de uma poesia natural e revelam um ponto do distrito de São Gonçalo do Amarante, em São João del-Rei, com um bucolismo bem condizente com sua paisagem neblinada no inverno.

            A própria vila de São Gonçalo do Amarante chamou-se em sua origem São Gonçalo do Brumado. Perdido o topônimo original permaneceu contudo o termo em epígrafe em uso noutros pontos distritais, a saber:

- Brumadinho: pesqueiro na foz do Ribeirão do Brumado com o Rio das Mortes, acerca do km 122 da antiga Ferrovia Oeste de Minas, “Linha do Sertão”. Tem duas ou três fazendas próximas;
- Brumado: povoação próxima à vila de São Gonçalo, com dois agrupamentos de residências, um num vale bem definido por morros altos (“Brumado de Cima”) e outro junto ao baixio que serve de leito ao ribeiro supracitado (“Brumado de Baixo”).

            No passado oitocentista o coração desse lugar estava na Fazenda do Brumado, uma antiga construção rural ainda de pé, se bem que com aspecto hoje modificado, que reunia escravaria para trabalhos de plantação, cria e lavra. Vestígios da senzala são visíveis em alicerces de pedra e ainda um represamento de um dos afluentes do Ribeirão do Brumado, destinado a trabalhos de mineração.

            A passagem de sucessivas gerações e donos imprimiu mudanças arquitetônicas na construção e divisões territoriais que fizeram surgir sítios e chácaras em derredor, portanto, o núcleo embrionário desse povoado.

            O meio de vida pouco difere de outras localidades são-joanenses e porque não dizer regionais, com uma pequena produção agrícola e pecuária de subsistência, alcançada por métodos tradicionais de produção, o que diante do quadro econômico imperativo do século XX não abriu perspectivas para seus moradores. Alguns lidam com o artesanato, para inteirar a renda da família.

O êxodo rural era inevitável e suas sequelas são bem conhecidas na roça e na cidade. De cerca de quinze casas no Brumado de Cima, apenas três tem moradores fixos. As demais são ocupadas em alguns dias da semana ou só nos fins de semana. A situação do Brumado de Baixo é a mesma: de uma dezena de casas só três tem ocupação permanente, segundo observação pessoal em julho de 2009.  

Para quem ficou no Brumado, além do trabalho de subsistência no cultivo e criatório como já dito, o caminho também é prestar serviço para sítios e fazendas da região em trabalhos de capinar plantações, roçar pastos, manutenção de benfeitorias (moinhos, currais, cercas, silos, valos d’água, muros de pedra), paga a diária do trabalhador por cerca de 40 a 50% do valor do trabalhador autônomo na cidade. Não resta dúvida que tal situação serve de absoluto desestímulo à permanência do homem no campo.

Outros fatores pesam a favor do êxodo. A escola local fechou as portas e hoje jaz abandonada em meio do mato e de poços de água. As crianças tem agora de se deslocar à vila de São Gonçalo do Amarante ou ao arraial da Trindade, ambos a uma légua de distância. Ainda assim só se pode contar com o ensino fundamental, sendo depois obrigadas a recorrer à cidade para continuidade do estudo.

As estradas são via de regra ruins.

A luz elétrica chegou por volta de 2004 segundo dizem os moradores.

Não há linha fixa de transporte coletivo. É necessário pegar o ônibus da Trindade ou o de São Gonçalo, com pontos de parada distantes.

Uma tradição local que se encontra desaparecida é a das folias, grupos folclóricos ali rastreáveis apenas por notícias orais. Foi afamada na década de 1960 a folia de Geraldo Marcelino Vieira, popularmente conhecido por “Geraldo Teixeira” que no Brumado de Cima foi folião afamado. Seu grupo andava normalmente como é comum na região para os Santos Reis e São Sebastião, mas também para o Divino e ainda para o santo violeiro, São Gonçalo do Amarante. Esta é uma das raríssimas Folias de São Gonçalo do Amarante de que se tem notícias.

Outro grupo local do Brumado de Cima foi a folia do sr. Flávio Francisco Alves, carinhosamente conhecido por “Vico”, que teve uma Folia de São José cuja arrecadação e anúncio se voltavam para a Igreja de São José Operário, no bairro Tijuco, na sede municipal.

Uma tradição ainda forte nessa região é a da medicina popular. O uso da fitoterapia é o remédio de todas as horas. Com a senhora Maria José da Silva Oliveira, a conhecida e dedicada rainha de congado “Maria da Pinta”, moradora local, colhi relevante receituário popular em 25/07/2009:

Infusões alcoólicas: (esfrega-se na área afetada)

1-         Cravo-defunto com arruda: sinusite
2-         Melão de São Caetano: picada de insetos
3-         Caldo de mandioca: creme dermatológico
4-         Carobinha: sarna
5-         Camboatá com capim-gordura: mialgia, reumatismo, coluna, joelho, juntas
6-         Folha de mandioca com cuité do campo: coluna
7-         Caroço de abacate ralado: coluna, reumatismo

Fortificante:
-          1 talha (fatia larga) de marmelada
-          1 frasco de Biotônico Fontoura
-          2 ovos de pata / codorna
-          1 lata de leite condensado
-          3 colheres de mel
Bate tudo no liquidificador e acondiciona em vidro esterilizado na geladeira. Tomar 1 colher por dia.

Bronquite:
1- Mamão grande, verde. Cortar uma tampa e deixar a semente. Põe dentro 1 cebola média ralada, 3 colheres de mel, ½ copo de açúcar mascavo, 4 ramos de hortelã, um punhado de flor de mamão de corda (macho), um punhado de flor de laranjeira e de limão, ½ dúzia de flor de fruta do lobo, uma mão cheia de folhas de elevante e poejo. Tampar com a tampa do próprio mamão, prendendo-a com palito. Por numa forma de bolo levar em forno quente até escorrer caldo. Coar e por em vidro esterilizado.

2- Pegar um ovo de galinha preta e na Sexta-feira da Paixão abrir um tampo e cuspir dentro dele. Colocá-lo dentro de uma meia preta e pendurar em cima do fogão à lenha, onde pega fumaça.

3- Cuspir na boca de um peixe vivo e soltá-lo no rio para levar embora.

4- Trocar dinheiro do bolso por uma esmola de equivalente valor, que tenha sido coletada pelos meninos que, na Semana Santa, batem matraca na porta das igrejas e pedem ofertas para a para a cera do Santo Sepulcro. Na hora de trocar tem que pedir ao menino da igreja que o faça “pelo amor de Deus”. Com esse dinheiro comprar algo comestível para a criança com bronquite e deixá-la comer à vontade. O que sobrar jogar no Córrego do Lenheiro de cima da Ponte do Rosário na hora da passagem da Procissão do Enterro e dali acompanhar até o fim aquele piedoso cortejo.

Maria disse-me ainda que era costume no passado os pais darem banho de sangue de tatu nas crianças para lhes fortalecer e retirar o risco de contrair lepra. E por falar em banhos, para o descarrego ensinou-me o de folhas da congonha conhecida por ticongô, ou ainda da planta chamada solidônia, capazes de, se fervidas e convertidas depois de mornas em banhos, retirar todo mal olhado, forças negativas, maré de azar.

Seu esposo, José Marcos de Oliveira é um artista no manuseio da madeira, fazendo bons trabalhos artesanais de peças importantes na lida rural.

O casal forma ainda uma boa dupla de cantadores de calango e modas.

A vida simples no Brumado reserva muito saber além da tranquilidade. Esquecido por sucessivas administrações, pelejando por melhorias vê a cada dia seus moradores buscarem melhores possibilidades na cidade.

Mas o conhecimento popular ainda persevera na memória coletiva, resistindo ao desaparecimento. Falta-nos ainda valorizá-lo devidamente e quiçá não possa ser uma fonte de recursos para os moradores.  

Brumado de Cima e ao fundo a Serra do Lenheiro,
São João del-Rei/MG, 24/07/2009.

 Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli

sábado, 16 de janeiro de 2016

Alguns elementos tradicionais do antigo carnaval de São João del-Rei

Aspectos Folclóricos do Carnaval São-joanense [1]

Dentro da cultura popular, especificamente no chamado "folclore cíclico" é conhecido o CICLO CARNAVALESCO, com uma série de manifestações, costumes e aspectos que só são vistos nos dias de folia momesca (e nos que lhe antecedem imediatamente), inseridos num contexto bem mais amplo, popular não-folclórico. Ou seja: o carnaval é uma grande festa popular, com aspectos folclóricos e muitos não folclóricos.

Este artigo trata apenas do folclore carnavalesco com respeito a São João del-Rei, numa abordagem meramente descritiva: entrudo, zé pereira, índios, blocos de sujos, nêga maluca, boi, bonecas e caveiras.

1-Entrudo

Foi a expressão antiga do carnaval conhecida nesta cidade. Do latim, introito, entrada. Em 1879 “incumbiu-se de festejar este ano ao deus Momo (carnaval) a Sociedade Juvenil. A Rua Direita converteu-se em bosque e aí ao som da música, postada em palanque, se divertiram mascarados, distribuindo graças e flores”. Registro de Sebastião Cintra, com base no jornal “Arauto de Minas”, de fevereiro.

A expressão maior era a saudável batalha de água, perfumes, farinha e polvilho. Os foliões jogavam estes materiais entre si e nos transeuntes, com seringas de jogar água ou qualquer vasilhame, limões de cera contendo água perfumada e matéria feculosa, lambrecando os brincantes. A escola de samba carioca “Imperatriz Leopoldinense” lembrou-se do entrudo com versos assim:

“Oi, joga água, amor! Limão de cera!
Ôh, vale tudo nessa brincadeira!”

Herança portuguesa foi registrada no Brasil em começo do século XIX por Henry Koster em Pernambuco e Jean Baptiste Debret no Rio de Janeiro, mostrando ambos o trabalho dos servos carregando o material para servir aos senhores na sua lúdica, “nas senzalas e casas-grandes, nivelando amos e servos na alegria igualitária do entrudo”, segundo Câmara Cascudo, que opinou relembrar o carnaval as clássicas saturnálias, februálias, florais, festas orgiásticas assírias, medo-persas, babilônicas, dizendo que “nenhuma crônica grega superava essa explosão de vida dionísica, arrebatada, furiosa e brutal em sua espontaneidade.”

Debret descreveu a confecção do limão de cera ou de cheiro:

(...) simulação de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha de espessura e cuja transparência permite ver o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde. (...) A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja verde de tamanho meio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida. (...) mergulha-se na água fria, (...) Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente, tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão de cheiro.”

O entrudo como era passou. Aqui e acolá, onde as mudanças sociais chegam mais vagarosamente alguns de seus elementos sobrevivem esmaecidos.

2-Zé pereira 

Conjunto formado por uma bateria baseada em percussão grave à custa de surdos, zabumbas, bombos treme-terra. Zé pereira seria o nome dado aos tambores do folguedo e por extensão ao grupo, processo conhecido no folclore coreográfico. O grupo inclui folgazões fantasiados e mascarados, de toda espécie.

Desfila pelas ruas com seus batidos firmes somados aos gritos compassados dos foliões de momo: “Pereira!” E a percussão ataca: “bum! Bum-bum-bum!”, “Zé Pereira! Bum! Bum –bum-bum! Pereira!”... etc., alternando repiques. Pode haver algum canto como este, tradicionalíssimo e divulgado:
“Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que a ninguém faz mal!
Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que hoje é carnaval!”

De costumeiro sai antes do carnaval, anunciando-o em ocasião de alegria, batucada, ensaio de marchinhas e sambas, como Dario Vale observou em Prados/MG: “(...) o tal de “Zé Pereira” que nada mais era que o ensaio de cantos, músicas, danças e folias, feito porém à vista de todos que estivessem pelas ruas e sem o aparato do carnaval propriamente dito.”

Sua origem é portuguesa. Espalhou-se no Brasil, notadamente no centro-sul. Parece ter sido introduzido no Rio de Janeiro, donde teria se espalhado. Luiz Edmundo dá como ano de sua introdução 1852, assim o descrevendo: “sete ou oito maganos vigorosos, tendo por sobre os ventres empinados satânicos tambores, caixas de rufos ou bombos, por entre alucinantes brados, passam pelas ruas, batendo, surrando, martelando, com estrondo e fúria, a retesada pele daqueles roucos e atroadores instrumentos.”

Consta que foi o sapateiro português José de Azevedo Paredes, natural do Porto e com loja na Rua São José, no Rio de Janeiro, o introdutor do folguedo. A novidade pegou e logo surgiram muitos outros. O autor supracitado informa que no Rio o zé pereira “acaba aí por 1906, 7 ou 8, como todas as coisas acabam, mas com esplendor e glória”.

Cascudo baseado em Armando Leça (Música Popular Portuguesa, 156, Porto, s.d.), dá como original do norte português e beiras, onde “barulham na arruada os gaiteiros e zé p’reiras”. Atesta-lhe J. Leite de Vasconcelos (Boletim de Etnografia, n.5, 27, Lisboa, 1938): “O zé pereira figura com frequência nos arraiais festivos do norte e beira”.

Professor Cintra registrou a presença deles em São João del-Rei/MG em 1901:

“Iniciam-se os festejos carnavalescos, promovendo a Sociedade Filarmônica S. Joanense baile à fantasia. O povo postou-se de frente da sede da entidade, situada à antiga Rua municipal, no local onde se construiu o edifício S. João del-Rei, para assistir à chegada dos foliões, alguns exibindo fantasias de elevado preço. As 22 horas a Orquestra Ribeiro Bastos executou a 1ª valsa. No dia anterior, sábado de carnaval, percorreram a cidade os barulhentos zé pereiras. Todas as noites num coreto armado à Rua Municipal, tocava  uma banda de música. No carnaval de 1901 não faltou o perigoso entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.”
            Havia vários destes conjuntos nesta cidade, em bairros, ocorrendo como consta por tradição oral, rivalidade entre eles. Não restou um só grupo nesta terra...

3-Índios

Era uma espécie de bloco formado por indivíduos trajados à imitação de indígenas, de cocar, saiote de penas, ráfia desfiada ou capim, tornozeleiras de penas, portando lanças ou flechas, pele com pinturas. Tinham impressionante realismo, quer na aparência quer na gesticulação ameaçadora, como se fora uma tribo em pé de guerra. Até meados do século XX e com mais força na primeira metade, havia desses grupos, hordas carnavalescas como nomes evocadores de velhas nações íncolas, até com rivalidades umas com as outras. 

Desapareceram. Vez por outra, até hoje, vemos indivíduos com tais trajes, machadinha à mão, de fingimento, isolados, perdidos na multidão como nossos índios de verdade, vivendo quase a esmo na terra que era (é) sua.

4-Blocos de Sujos (**)

Eram grupos caricatos de mascarados diversos, com trajes variados, alguns bem simples, quase maltrapilhos na fantasia, daí o nome. Valiam as posses e a criatividade, com a indispensável animação e senso carnavalesco. Acompanhados de charanga ou de batucada, percorriam animadamente as ruas, atirando confetes, serpentina, perfume de seus lança-perfume e alegria contagiante. Somavam-se outros fantasiados primorosos e sem outra regra senão a descontração: diabos, gatinhos, papangus, fantasmas, bruxas, árabes, mendigos, ciganas, piratas, vikings, pierrôs, colombinas, palhaços, dominós, polichinelos, arlequins e outros seres do passado, da criatividade e do subconsciente, surgiam e se misturavam, usando panos, cordas, fios, materiais brilhantes e outros, que serviam de matéria-prima. Alguns padrões tornaram-se tradicionais. 

5- Nêga Maluca

Brincadeira antiga centrada num personagem que leva este nome, carregando aos braços uma boneca a guisa de bebê, que, simulando não saber quem é o pai verdadeiro, oferece-o aos homens que passam, dizendo a clássica frase: “toma, que o filho é seu!”

O suposto pai oferta um dinheiro qualquer e lá vai a nêga maluca, após as pilhérias de praxe, com o filho nos braços à procura de outro pai, cuja espórtula garantirá a cachaça carnavalesca. Outros ofertam bebidas e lanches. Uma charanga a acompanha.

Os trajes representam uma mulher extravagante, com roupas de vivo estampado, cores berrantes, brincos e colares enormes, peruca despenteada, batom borrado na boca, adereços esquisitos e cacarecos pendurados. Seios postiços enormes. Ancas proeminentes por causa de dois travesseiros que amarra ao corpo sob o vestido, dando-lhe a aparência de uma mulher desajeitada, sem atrativos. No geral é um homem travestido.

É hoje rara esta folgança, aparecendo vez por outra, desgarrada no interior de uma farra qualquer, descaracterizada de seus elementos originais, convertida apenas em mais uma fantasia, aliás, bastante difundida.   

6- Boi

Não temos o folguedo do bumba-meu-boi em sua complexidade estrutural, mas seu personagem central aqui surge – já bastante rarefeito – fazendo as alegrias do carnaval de rua, com o nome de boi, boizinho e rancho do boi. Dança isolado, investindo com chifradas contra a meninada que lhe atiça sem parar. Dança aos volteios, descrevendo círculos e carreiras acompanhado por uma charanga ou batucada. Tocam ritmos do tempo, nada específico. Outras vezes surge em algum bloco, ao qual se mistura. Não há personagens senão o boi de fingimento, feito com uma armação coberta de pano, cabeça e rabo postiços. Um dançante movimenta o estafermo, oculto sobre ele.

Ficou afamado o Rancho do Boi de “seu Fausto” (Fausto de Almeida, falecido em 19/05/1953), no Bairro das Fábricas.

Das bandas do Tijuco – Alto das Águas Férreas, Rua de Santa Clara e Vila São Bento – por vezes sai um boi. Meu pai, David Passarelli, viu-o em Penedo, no município de Ritápolis/MG a trinta e tantos anos. Ainda se mantém em Prados/MG, onde é tradicionalíssimo, com o nome de boi mofado. Em Coronel Xavier Chaves/MG é chamado boi-de-caiado.

7- Bonecas 

Nossas bonecas são simples e parcas. Não as temos com a fartura pernambucana. Surgem, porém, com certa timidez, destacando com sua armação agigantada, vestido de chitão, adereços chamativos. Um indivíduo metido debaixo dela faz dançar aos rodopios e passos miúdos, girando os longos braços a bater a bolsa nos circunstantes, obrigando a abrir a roda de assistência. Faz salamaleques e mesuras. Insere-se no contexto dos blocos caricatos.

Outro tipo é uma boneca ou boneco menor, levado aos ombros por um folião, ou a ele abraçado, como uma companheira de dança, cujas pernas molengas são amarradas às do dançante.

Já os curiosos “Cabeções” que formavam um bloco específico, desapareceram. Os bonecos macrocéfalos ficaram no passado.

8- Caveiras

Bloco típico que prima pelo tétrico, o macabro, brincando com os valores da morte e da vida do além. É um cortejo ao som de música fúnebre, de foliões envoltos em mortalhas, "cáfitas" brancas, lençóis, como fantasmas, máscaras de caveiras em papel machê, já sendo comuns as industrializadas. Monstros, múmias, demônios, zumbis, viúvas em pranto, sangue fingido escorrendo de facadas falsas, caixão arrastado pelas ruas, velas, correntes, ossos bovinos. Vão em lento desfile, ameaçando atacar a assistência, atemorizando as crianças. A passagem do Bloco Os Caveiras é concorrida e esperada. As máscaras artesanais tem valor folclórico.


Bois, personagens do Bloco Recordar é Viver, em desfile pela
Rua Arthur Bernardes, São João del-Rei, 03/03/2014. 


Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. V.1, 326p. p.82 e 100.
DANGELO, Jota. De sambas e sambistas. Gazeta de São João del-Rei, Seção Opinião, Coluna Pelas Esquinas, ano 1, n.26, 16/01/1999.
_________  Noltalgia. Idem. n.27, 23/01/1999.
_________  Agostinho França. Ibidem. n.29, 06/02/1999.
_________  Escola de Samba. Ib. n.30, 13/02/1999.
_________  Flashes do Carnaval. Ib. n.31, 20/02/1999.
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Martins, 1972. V.2, n.11, p.219-222.
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu Tempo. 2.ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1987, v.4, p.767 e ss.
VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p. p.224-227.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli
** Sobre o Bloco dos Sujos não deixe de ler no Blog de São João del-Rei, sob a coordenação do emérito pesquisador Francisco Braga: 

CHICO BRUGUDUM, TIPO PITORESCO DO CARNAVAL SÃO-JOANENSE




[1] - Este subtítulo é na verdade o título da publicação original, in: TRADIÇÃO. São João del-Rei: Subcomissão Vertentes de Folclore, n.5, fev.2000. Boletim Informativo, p.3-5. 
O texto foi adaptado para esta postagem. A versão original pode ser lida pelo link: 
A fotografia foi inserida especialmente para esta postagem. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

São Sebastião e São Benedito: festa em São João del-Rei

São João del-Rei, cidade pródiga em festividades, prepara-se no Bairro de Matosinhos para a realização de mais uma comemoração em honra ao "Santo Mártir Guerreiro", São Sebastião, na Avenida Santos Dumont, co-festejado com "Binidito Santo", o São Benedito (*).

A comemoração se realiza desde o ano de 2001 e conta com a participação das folias de São Sebastião e congados, além do levantamento de mastros. 

A comunidade local é um importante centro de promoção dos valores da conscientização contra o racismo e a discriminação. O movimento de inculturação afro-brasileira local é bastante significativa. No cartaz abaixo anexado como fotografia pode-se avaliar maiores detalhes do evento. 


Cartaz em papel-couché, 40 x 60cm. 

Notas e Créditos

* As expressões entre aspas são habituais nos versos de folia e congado na região das Vertentes para se referir a estes santos.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Leia também: OUTRAS DEVOÇÕES E FESTAS 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Folias de Reis nas Vertentes

Ontem e hoje [1]

                A mais remota notícia sobre a presença da folia de Reis nas Vertentes encontrei em São João del-Rei, datada aproximadamente de 1860, abordada em uma crônica retrospectiva, publicada pelo jornal são-joanense Arauto de Minas, de 08/02/1883, com o nome de Bandos de Reis, com homens trajados como Reis Magos, a cavalo, com cetro e diadema, inclusive o negro que chamam na crônica Rei Congo, conforme registrou o insigne historiador Cintra em suas efemérides.

                Esta manifestação folclórica difundiu-se bastante na região, embora a pesquisa bibliográfica só tenha indicado Carrancas, Conceição da Barra de Minas e Bom Sucesso, com importantes informações anotadas pelos autores. Tais fontes são de história e não de folclorística.

                A pesquisa de campo descortinou o amplo panorama que este folguedo popular conheceu nesta microrregião, hoje com ocorrência bem diminuída, conforme mostram as relações que damos neste número do TRADIÇÃO.

                Antigos mestres e outros assíduos participantes ou assistentes de outrora indicam francas mudanças na folia. Ela saía às ruas de 1º a 6 de janeiro. A maioria dos grupos era rural, ou, sendo urbanos, em maior parte iam cumprir a jornada na roça, visitando sítios, fazenda, casas de agregados, povoados e vilas. Ganhavam a alimentação. Muitas, durantes estes dias pediam pouso nas fazendas, ou seja, só voltavam para casa depois do Dia de Reis (6 de janeiro). Nos pousos, guardada a bandeira benta do grupo, divertiam-se com cantos de moda de viola, toques de toada, cantorias e danças como calango, catira e lundu. Contavam estórias, causos. Levavam um cargueiro, animal de carga com bruacas ou então jacás no lombo, onde conduziam objetos básicos para os seis dias de missão.

                Além do dinheiro angariado ganhavam muitos víveres, pois, nos dizeres deles, o povo da roça tinha pouco dinheiro disponível, mas bom coração para dar à folia galinhas, patos, perus, etc. Por isto os foliões usavam levar auxiliares que encarregavam de levar e cuidar da bicharada ganha. Carregavam pelos pés, atados por embiras (pêias), presos a um longo pau ou bambu (varal), carregado por dois. Lá iam as aves penduradas...

                O Bastião ou Palhaço, personagem mascarado, era comum às folias, mormente acompanhado pela Catirina, também mascarada, “mulher” do palhaço, companheira de infindáveis pilhérias, ambos a própria alegria da folia de Reis. Faziam várias danças, recitavam versos, pediam isto e aquilo ao dono da casa visitada. Cumpre notar que a Catirina era representada por um homem travestido.

                Não era habitual o uso de uniforme. Valia a roupa comum, do dia-a-dia. Os enfeites eram voltados para a bandeira de Santos Reis, feita com tecido branco e azul.

                A partir de meados do século XX, começaram a se difundir as Folias de São Sebastião, com suas bandeiras vermelhas, nas cores do pano que cinge a cintura do Santo Mártir, protetor contra a fome, peste e guerra. Os rurícolas difundiram muito a devoção, crendo neste que lhes protege os roçados de se perderem e as criações de se empestiarem.

                O período da jornada ampliou-se até o dia deste santo, 20 de janeiro.

                A folia de Reis aumentou muito seu período de atividades, do Natal a Santos Reis e, no presente, já é possível vê-las desde o começo de dezembro, o que há dez anos raramente se via.

                Se o número de folia de Reis diminuiu francamente, o das de São Sebastião aumentou e, inclusive, vê-se frequente mistura das duas. Os Reis têm a sua toada, época, versos e bandeira diferentes da outra, o que dava a cada uma a sua identidade, cada vez mais rara. Já é possível ver folia de Reis tocando em toada de São Sebastião e mais raramente o vice-versa; bandeiras quase unicamente vermelhas, na maioria trazendo estampas da adoração dos Magos e de São Sebastião, valendo para as duas folias. Outras vezes, saindo com Reis em época de São Sebastião ou o contrário, e até cantando para São Sebastião com a bandeira de Reis. Enfim, de tal forma se misturam que, nos dias atuais, o predominante aqui nas Vertentes é uma folia mista, de Santos Reis e de São Sebastião. Contudo é possível ainda encontrar grupos “puros”, com a identidade preservada, agindo nos dois períodos, mas em conformidade com as características de cada uma.

                Outras mudanças dizem respeito à urbanização, fruto do êxodo rural. Suburbanização, melhor dizendo. Há poucas folias na roça e as da cidade raramente vão lá. Já não há mais pousos ou cargueiros e poucas vezes ganham um vívere.

                Diante do presépio não se canta mais os vinte e cinco versos de antanho, mas uma forma limitada.

                Quase sumiram os palhaços. Poucas folias os trazem, de Reis ou de São Sebastião, solitário, sem a desaparecida Catirina, e já com pouca habilidade para o papel dificílimo. Este diminuiu quantitativa e qualitativamente. Bem parcas vezes surgem folias com dois Palhaços. O Bastião está se tornando um apêndice?

                Aumentaram os participantes, havendo folias grandes de 15 até 20 pessoas, o que os antigos conhecedores criticam dizendo sobre a dificuldade de controle e recepção nas casas, não cabendo todos nas salas e tornando oneroso ao anfitrião dar um agrado alimentar. Da zona rural algumas vezes surgem folias pequenas e até respeitando a regra de sete participantes.

                Há uma permanente tentativa de uniformização, ainda que simples, dadas as dificuldades financeiras constantes. Alguns grupos mantem-se sem uniforme.

                Surgiram no instrumental os grandes acordeons, banjos, bandolins e até reco-recos. Desapareceu a rabeca. Raríssimo o adufe, a viola, a sanfona de oito baixos. Predominam o violão, o cavaquinho, o triângulo, o chique-chique e o pandeiro. A caixa é sempre indispensável.

                Este artigo não permite aprofundar o assunto em análises e considerações. Caberia num estudo específico e estas linhas não tem outra pretensão senão a de expor uns poucos dados sobre a história, evolução e as alterações das Folias de Reis na Microrregião Campos das Vertentes.

01- Palhaço da Folia de Reis das Águas Férreas, Bairro Tijuco,
durante apresentação no povoado do Fé, São João del-Rei.
Folião: Geraldo Elói de Lacerda; Embaixador: Luthero Castorino da Silva. 1998. 

02- Folia de Reis do Jardim Aeroporto, Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei.
Folião e Embaixador: Duarte Rodrigues Vale. 1993. 

03- Folia de Reis do Barro Preto, Bairro Tijuco, São João del-Rei.
Folião e Embaixador: José Francisco Sales. 1994. 


Referências Bibliográficas  

0    AMATO, Marta. A freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Carrancas e sua história. São Paulo: Loyola, 1996. 288p. p.172-175.

0   CASTANHEIRA FILHO. História de Bom Sucesso. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1973. 263p. p.192-3.

0   CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. v.1, 326p. p.67.

0   GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. p.61-63; 136-140.


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 01, Cida Salles; 02 e 03, Ulisses Passarelli
*** Informantes: as informações de campo, em sua maior parcela, foram cedidas pelos senhores Antônio Geraldo dos Reis, José Camilo da Silva, José Orlando da Silva (“Dinho”), Luís Cândido Gonçalves (“Lu”), João Cândido Gonçalves (“João Candinho”), Luís Santana, João Anastácio da Silva (“João Dondoca”) e Mário Calçavara, todos no município de São João del-Rei, aos quais agradecemos.
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[1] - Publicado em: TRADIÇÃO, São João del-Rei, Subcomissão Vertentes de Folclore, n.3, dez.1999. p.6-7.