Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quadrinhas do Elvas

Nesta postagem é apresentada uma coleção de vinte e cinco trovas populares em formato de quadras, independentes entre si, procedentes do distrito do Elvas (Tiradentes/MG). O tema do amor é o dominante, construído de forma muito tradicional, com a simplicidade e verve características da cultura popular. São exemplares típicos da poesia popular brasileira. 


Quando eu aqui cheguei
Eu jurei, você jurou,
Duas moças cochichou;
Qual dos dois jurou verdade?
uma disse para a outra:
Eu jurei minha firmeza,
_ fura-capa aqui chegou...
Você jurou só falsidade...


Olhos verdes, tristes,
No meio desse salão,
Olhos pretos não tem valor,
Vou mandar fincar um prego,
Olhos azuis são fingidos,
Você anda namorando
Olhos castanhos falam de amor.
Pensando que eu sou cego.


Olhos azuis, falsos,
Você está rindo de mim,
Pretos, feiticeiros,
Vi seus dentes lumiar,
Verdes, traiçoeiros.
Os meus eram de ouro,
Castanhos, verdadeiros.
Eu ranquei para te dar.


Beijo na testa é respeito,
Eu queria ser abelha,
Beijo no rosto é carinho,
Daquela que faz o mel,
Beijo no queixo é desejo,
Queria fazer um ninho
De subir mais um pouquinho.
Na pedra do seu anel.


Com meus olhos te vejo,
Joguei o anel na pedra,
Com minha boca te chamo,
Retiniu mais de uma hora;
Com meus lábios te beijo,
O amor dos outros cega,
Com meu coração te amo.
O meu passa e vai embora.


Nos olhos azuis o céu lá se encontra,
Tenho dois anéis nos dedos,
Nos castanhos, paixão e amor,
Um de ouro, outro de prata,
Nos verdes, há muita alma,
Tenho dois amores no mundo,
Nos negros, mágoa e dor.
Uma é branca, outra mulata.


Gosto de azaléia,
Joguei meu anel na água,
Gosto de jasmim,
Era de pedra e se afundou,
Gosto de sua mãe,
O amor que tu me tinhas,
Que criou você pra mim.
Era pouco e se acabou.


Gosto de rosa branca,
Se você fosse uma árvore,
Plantei no meu jardim;
Eu queria ser cipó,
Gosto mais de tua mãe,
Nascia em sua raiz,
Que criou você pra mim.
Nos seus galhos dava nó.


Fui num jardim,
Menina se tu soubesse, 
O jardim escureceu,
Quanto eu estou te querendo,
Dentro de uma flor,
Eu queria te ver morta
Você apareceu.
E as formigas te comendo...


Dizem que o amor é mentira,
Eu queria ser formiga,
Dizem que o amor é ilusão,
Daquelas que fura o chão,
Mas pobre daquele que vive,
Queria furar seu peito
Sem amor no coração.
Para ver seu coração.


Menina, se tu me amas,
Com pena peguei na pena,
Dê um jeito no olhar,
Somente pra lhe escrever,
Eu também sei querer bem,
A pena caiu da mão,
Mas não sei adivinhar.
Com saudade de te ver.


Ainda que seu pai não queira,
Se eu soubesse fazer doce,
Tua mãe não queira não,
Melado fazia pra você,
Eu querendo, tu querendo,
É um docinho açucarado,
Tudo está em nossas mãos.
Docinho como você...

A folha da laranjeira,
Está criando perereca,
Tua mãe tá me criando,
Para ser minha boneca.


 
A maria fumaça sobre o Rio Elvas, na divisa entre São João del-Rei e Tiradentes.

Notas e Créditos

* Informante: Sr. Luthéro Castorino da Silva, 1998, de São João del-Rei, que as teria anotado no Elvas. Agradecemos pela gentileza da informação e a ele, desde sempre lutador em prol da preservação das tradições folclóricas oferecemos esta postagem. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Foto: Iago C.S. Passarelli, 21/07/2013.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Roda, morena!

Uma antiga tradição nesses dias frios de junho era a dança em redor das fogueiras dedicadas aos santos desse mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, em festas de intenso valor comunitário e de forte apelo rural. A confraternização se fazia por gestos simples de alegria espontânea e através das danças, das quais a quadrilha se tornou a soberana. 

Mas além desta outras existiram pelos povoados semeados entre as serras do interior. Algumas, de herança cultural africana, como os batuques, caxambus, quimbetes e lundus; outras, evocando movimentos ibéricos, como o desaparecido esquinado, o engenho-novo, a cana-verde e a roda-morena (também chamada rodinha e roda de São João). 

Sobre esta última em especial acontecia sem época certa para ser efetuada, conquanto fosse comum nas festas juninas. Nesta dança rural os dançantes, sem distinção de sexo ou idade, formavam um círculo e dançavam, com um personagem solista ao centro, que cantava uma quadra dentro do ritmo certo. Os demais respondiam com o refrão. Voltava à roda e outro vinha ao centro, cantando outra quadra. O coro repetia o refrão e assim por diante. 

A título de exemplo eis uma roda procedente de Coronel Xavier Chaves (*):

Refrão (coro): 
"Roda, Morena! 
Morena, roda!” - bis

Estrofes (solista): 
“Eu vim de longe, 
tô chegando agora, 
eu vim com Deus 
e Nossa Senhora!” 

ou 

“Você disse que vai, 
eu também quero ir; 
você não vai mais 
também já decidi ...” 

Mas além da dança, sob o mesmo nome foi conhecida uma modalidade de canto de trabalho adotado nos mutirões e nos serviços pagos de roçar pasto. Os trabalhadores mais rápidos ficavam nos extremos do eito e os menos habilidosos ao centro. Na medida que o eito avançava, os da beirada iam adiantando mais com os golpes da foice fechando gradativamente um semi-círculo. Uma vez formado, trabalhavam no sentido de desfazê-lo e assim caminhava o eito. Numa versão de Antônio Carlos, cantavam (**): 

Refrão (coro): 
“Roda morena! 
Roda morena! 
Você vai, não me leva, 
oi, morena!...” . 

Estrofes (solista): 
“Eu desci pra rua abaixo 
num cavalo marchadô, 
uma moça na janela 
banô lenço e me chamô...” (abanou lenço)

“Moça tu não me conhece, 
não sabe da onde eu sô, 
da macega eu faço a cama, 
do sereno o cobertô...” 

“Eu sou o cravo da índia, 
que o destino estraçaiô! 
Abrandai meu coração 
que a saudade me deixô...” 

“Querido cravo da Índia, 
que o destino estraçaiô, 
se o cavalo der garupa, 
me leva, qu’eu também vô!”


Notas e Créditos

* Informante: Sr. Luís Santana, 1996. 
** Informantes: Sr. José Cândido de Salles e Sra. Elvira Andrade de Salles, 1999. 
*** Texto: Ulisses Passarelli

sábado, 20 de junho de 2015

Retalhos para a colcha da história - parte 1

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1939)

(ofereço com gratidão a Francisco José de Rezende Frazão)


Diz uma velha máxima que a história se constrói sobre documentos. É bem verdade e assim vão sendo pesquisados editais, testamentos, ordens, ofícios, declarações, procurações, recibos, processos, etc. Mas a despeito da incontestável importância da história assim edificada, muitas vezes outros aspectos ficam para trás.

O presente texto almeja apenas contribuir com referências esparsas para futuros estudos maiores. Uma mera citação abaixo transcrita pode ser o gatilho que dispara uma pesquisa específica sobre um dado tema. A história não oficial e aspectos de cultura geral podem estimular o leitor pelo interesse à pesquisa. Foram perscrutados antigos jornais publicados em São João del-Rei, disponíveis para consulta pública no site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, a cujo acervo pertencem.

Sem menosprezar a metodologia acadêmica, mas à guisa de complemento, a pesquisa pelo viés aqui proposto mostra uma informação mais aproximada do povo ou refletindo diretamente seus elementos culturais e é neste sentido que tem um interesse especial para os objetivos deste blog, enquanto parte do processo de reunião de elementos que contribuam na identificação das características regionais.

As notícias foram colhidas despretensiosamente, quando se fazia outras pesquisas temáticas específicas. Então, em si, não guardam qualquer vínculo umas com as outras. É tão somente uma colheita e exposição em ordem de data para facilitar a consulta, merecendo alguns comentários de rodapé. A maioria das notícias foi transcrita na íntegra, respeitando a grafia original. Ao fim de cada tópico existe a indicação imediata da referência ao jornal pesquisado, número e data da edição.

Desta forma sucedem-se notícias de festas, circo, teatro, cinema, personalidades, obras públicas, carnaval, leis e resoluções, denúncias, reclames comerciais, etc. Estes fragmentos, qual uma colcha de retalhos, embora de cores e texturas diferentes, compõe no todo uma peça que ajuda a traçar o cenário da vida da sociedade naquela época (1900-1939). Revelam aspectos propriamente históricos e outros até pitorescos aos olhos de hoje, mas que ao seu tempo foram importantes na construção da identidade do são-joanense, da sua mineiridade e igualmente de algumas comunidades vizinhas citadas por estarem em condição distrital ou sob influência cultural imediata.

Sem mais delongas eis o novo conjunto de notícias, na mesma linha e objetivo do que já fizemos parcialmente para os distritos (*).

Fortim dos Emboabas. Alto das Mercês, São João del-Rei/MG. 

1900:
- “Festa do Carmo. Terminaram, no dia 16, as festas do Carmo desta cidade. Nesse dia houve missa solemne, as 11 horas da manha. A tarde teve logar a procissão de N.S. do Carmo, que percorreu diversas ruas da cidade, acompanhadas pelas bandas de musica do 28º Batalhão e Lyra S.Joannense[1]. A entrada da procissão pregou o Revmo.Pe.Gustavo Ernesto Coelho, digno commissario da Ordem. Em todas as solemnidades houve sempre a maior concurrencia de fieis, reinando a maior ordem.” (O Combate, n.2, 18/07/1900)

- “7 de setembro, a data da nossa emancipação politica, foi aqui festejada com festiva alvorada ao amanhecer, pela esplendida banda do 28 Batalhão, com um TE DEUM na Matriz, abrilhantado com a orchestra Ribeiro Bastos, com embandeiramento em varios edifícios públicos e particulares durante o dia e finalmente com iluminação de varios edifícios públicos e particulares á noite.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- “Circo Chileno. Com animadora concurrencia e agradando cada vez mais, continua n’esta cidade a dar excelentes espectaculos a Companhia Chilena, que conta no seu elenco artistas de mérito incontestável e que nas suas sortes tem sido irreprehensiveis. A musica nesses ultimos espectaculos tem agradado bastante, tudo enfim está concorrendo para o bom renome da Companhia Chilena, por cuja prosperidade fazemos votos.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- A Confraria de São Gonçalo Garcia lança na imprensa um pedido de ajuda financeira e aos confrades o pagamento de anuidades atrasadas, visando arregimentar fundos, pois a igreja “vai entrar em importantes obras”[2]. (O Combate, n.13, 26/09/1900)

- “12 de outubro. Com as notas festivas do costume passou ante-hontem a data nacional da comemoração da descoberta da America. Os estabelecimentos tiveram içadas as bandeiras da nação, e a banda do 28º Batalhão ao amanhecer e a tarde abrilhantou as festas.” (O Combate, n.16, 14/10/1900)

1901:
- No evento em homenagem ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em São João del-Rei, no ano de 1901, a imprensa ressaltou a destacada presença do Sr. Major José Moreira Carneiro Fellipe[3], Presidente da Associação Beneficente Portugueza e do Sr. Dr. Francisco de Paula Moreira Mourão, Presidente da Companhia Agricola e Industrial Oeste de Minas. (O Combate, n.59, 27/04/1901)

- “Theatro de fantoches. Como estava annunciado, realizou-se sabado ultimo, mais um explendido espectaculo, pela interessante companhia de Fantoches, com a chistosa comedia – os dois surdos e o entre-acto Mulher nervosa, que foram habilmente ensaiadas pelo sympatico Camargo. Domingo repetiu-se o mesmo espectaculo e tal foi a concurrencia, neste dia, que muitas famílias que ali foram tiveram de voltar por já se achar completa a lotação do Theatrinho. O publico que ali esteve aplaudiu enthusiasmado o bom desempenho das peças tendo sido chamados a scena o ensaiador Camargo, o sempre querido Lulú e os mechanicos irmãos Panain, V.Guerra e os dois irmãos Humberto e José. A orchestra Ribeiro Bastos muito concorreu para o brilhantismo das funcções. Felicitamos ao empresario de tão interessante companhia, o nosso particular amigo Juca Pimentel pela merecida acceitação que tem tido a sua feliz ideia.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Asylo de S. Francisco[4]. Neste importantissimo estabelecimento, dirigido pelo virtuoso e desinteressando sacerdote Padre João Baptita do Sacramento, acha-se estabelecida e funccionando uma grande fabrica de sabão e sabonetes, que pode abastecer a toda esta zona. O gênero é de primeira qualidade, podendo rivalizar com os melhores vindos do estrangeiro.” (Etc.) (O Combate, n.79, 13/07/1901)

- A lei n.83, de 29/01/1901 prorrogou por um ano o prazo de concessão da exploração de manganês, mica e areias, em São João del-Rei, concedido a Geraldo Rodrigues da Fonseca, para fazer a instalação definitiva. Não há citação ao local exato da atividade. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A lei n.86, de 29/04/1901 ratificou o contrato da luz elétrica firmado entre o agente executivo municipal e o cidadão Dr. Francisco de Assis Fonseca, em, 23 de fevereiro do mesmo ano. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A resolução s/nº, de 23/06/1901 dispensou pagamento de licença para realização de um espetáculo equestre realizado a 02 de abril daquele ano em benefício da Igreja do Rosário. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A resolução n.259, de 29/04/1901 autorizou despesas no conserto da ponte em frente à estação do Rio das Mortes. (O Combate, n.87, 13/08/1901). A edição seguinte do mesmo jornal, datada de 15 de agosto, fala em reconstrução da dita ponte. O valor orçado era de 6:498$100. A obra foi arrematada pelo Major Carneiro Felippe[5], único concorrente. A provocação da necessidade de construir uma nova "ponte do Rio das Mortes, chamada do Congo Fino", partiu do Vereador Tenente Euzébio de Rezende, representante distrital de Conceição da Barra. (O Combate, n.95, 31/08/1901). Alguns meses depois a imprensa noticia sobre o andamento da obra: "está sendo realizada por arrematação do Major Carneiro Fellipe, cujas habilitações, como diretor da construção, é uma garantia de perfeição e segurança da obra". (O Combate, n.119, 02/11/1901). A bênção e inauguração da Ponte do Congo Fino, na Estação do Rio das Mortes, a 49km ferroviários da cidade de São João del-Rei, se deu no dia 25 de novembro de 1901. Pelas 8 horas partiu um trem especial, com um vagão de primeira conduzindo as autoridades. Foram recebidos pela banda do arraial e por descargas de fogos de artifício. A ponte estava enfeitada. A bênção foi dada pelo Padre João Trindade. Dr. Leite de Castro, Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal (cargo equivalente ao de Prefeito) entregou simbolicamente a ponte aos cuidados do conselho distrital, ante vivas da assistência. (O Combate, n.128, 30/11/1901).  A qualidade dessa ponte foi testada pouco depois pela força da natureza: três semanas depois, ela resistiu fortemente a enchentes imensas, ficando submersa por três dias, sem sofrer danos. (O Combate, n.133, 18/12/1901)

- No dia 17 de setembro de 1901, o operário José dos Santos, da Ferrovia Oeste de Minas, teve a mão direita esmigalhada na plaina a vapor nas oficinas ferroviárias, resultando em amputação. (O Combate, n.103, 19/09/1901)

- “Botequim do Theatro. Segundo deliberação da Câmara, em sua última sessão, vae ser posto em hasta publica o arrendamento annuo do Botequim do Theatro. A base do preço é de seis mil réis (6$000) por dia ou parte do espetaculo, sem mais pagamento algum." (O Combate, n.121, 07/11/1901)

- “Rio das Mortes. Realisa-se a 24 do corrente mez no districto do Rio das Mortes, arrojada festa de Santa Cecilia. Segundo nos informaram há muitas confissões e communhões n’esse dia. Damos a agradavel nova que tanto deve alegrar aquelles que se satisfazem com os progressos e diarias conquistas da Religião, a que pertencemos.” (O Combate, n.123, 12/11/1901)

- “Bento Luiz Frazão[6]. Após longos e dolorosos padecimentos, faleceu n’esta cidade o estimado cavalheiro  snr. Bento Luiz Frazão, homem muito bem quisto n’esta cidade, onde, ao que consta, não tinha uma única antypathia  siquer. Portuguez de nascimento, brasileiro de coração, sanjoanense pela família, o snr. Bento Luiz Frazão, veio a esta cidade, a anos, aqui casou-se e aqui tinha a rêde de todas as suas relações. A sua morte foi geralmente sentida e as provas disso teve-as ele durante a sua molestia e por occasião de seu fallecimento. O O Combate, que sempre considerou o sr. Frazão um homem trabalhador, honesto e de bem, cumpridor exacto de seus deveres. O Combate lamentando essa morte que vem roubar-nos um pae de família exemplar e um cidadão distinctissimo, pranteando a falta que nos vae fazer e a família e aos amigos, envia sentidos pezames a sua digna e virtuosa esposa e aos seus desolados filhos.” (O Combate, n.123, 12/11/1901)

- A Câmara Municipal lança edital para serviços, pondo em hasta pública o serviço de limpeza urbana, "e para o transporte de carnes verdes, devendo as carroças de lixo trazer tampa de madeira ou de zinco." (O Combate, n.132, 14/12/1901)

- Morre na Santa Casa de São João del-Rei o sr. João Pinto Alves, "o Coronel", tipo popular, "crioulo honrado e digno de confiança", sineiro de São Francisco. "Era muito estimado e todos tinham-lhe dó pelas maneiras afáveis. Julgava-se rico embora morasse no telheiro da Igreja de São Francisco. A morte de João Pinto abre um claro na phalange dos typos de rua." (O Combate, n.134, 21/12/1901)

1902:
- O carnaval de 1902 correu desanimado. No coreto da esquina da Rua Direita, armado no meio da rua, tocou a banda militar do 28º Batalhão durante três dias. Foi feito um passeio para o desfile dos mascarados, pouco numerosos naquele ano. No Club Sanjoannense o baile à fantasia esteve ótimo, tocando a Orquestra Ribeiro Bastos. (O Combate, n.149, 12/02/1902).

- "Em Carrancas, districto da cidade de Lavras, preparam-se grandes festas em Junho e para ellas estão se apromptando os populares divertimentos das Cavalhadas[7]. Ha grande animação para taes festas." (O Combate, n.160, 22/03/1902, nota sem título)

- “Festa de Ramos. Com a pompa de sempre, realisou-se no Domingo, o officio de Ramos e a noite teve logar a Procissão do Triumpho que fez o gyro costumado entrando na Matriz, de onde havia sahido." (O Combate, n.161, 26/03/1902)

1905:
- Resolução nº317, 25/02/1905, assinada pelo Diretor da Câmara Dr. João Salustiano Moreira Mourão[8], autoriza o agente executivo municipal despender a despesa necessária para concerto, melhoramento ou remoção do atual matadouro municipal com os valores colhidos do imposto de sangue. (O Repórter, n.12, 09/04/1905)

1906:
- Nos jardins do Largo de São Francisco a Câmara manda instalar na praça duas lâmpadas de arco voltaico, melhoramento deveras aplaudido. (O Repórter, n.6, 11/03/1906)

- Aniversário. “Hoje, é o Sr. Coronel José Moreira Carneiro Felippe, illustre capitalista e provedor do Asylo de São Francisco de Assis, desta cidade. Portuguez de nascimento, mas s.joannense de coração, porque aqui reside elle a longos annos; aqui constituiu família, e aqui trabalha, com esforço sempre, pelo desenvolvimento de nossa cidade, empregando seus capitaes, muita vez, sem outro fim, que não seja contribuir para o progresso e o adiantamento desta terra. Gosa o sr. Carneiro Felippe, entre nós, de muita estima, e, certamente, hoje terá mais um ensejo de testemunhar o que acabamos de referir. Ao sr. Coronel Carneiro Felippe e demais aniversariantes as nossas felicitações.” (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- “Cinematographo fallante. Tivemos a visita do sr. Antonio de Souza Machado, que pretende dar uma serie de sessões de cinematographo falante. Possuindo machinismo os mais aperfeiçoados e modernos, no gênero, acreditamos que deverão ser bem concorridas as suas sessões, dado o bom gosto do publico s.joannense, que sabe auxiliar sempre os artistas de mérito.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

- “Club Dramatico Familiar. Deve ser no dia 12 a partida deste excellente club, que constará de uma excellente comedia de costumes Lisbonenses, de um entreato especialmente escripto para esta partida, pelo sr. coronel Severiano de Rezende e escolhidos intermedios pelos amadores e amadoras.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

- “Theatro Infantil 15 de Novembro. A directoria deste club teve a gentileza de nos convidar para assistir a representação, dedicada ao Club Dramatico Familiar e que se effectua hoje, as 9 horas da noite, no prédio n.16, á rua de S.Antonio. Vem o convite assignado pelos intelligentes meninos Antonio Guerra, Marcondes Neves e Altamiro Neves. Agradecemos o convite.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

1907:
- O carnaval de 1907 reuniu grande multidão de mascarados na esquina da Rua Arthur Bernardes (ex- Moreira César) e Getúlio Vargas (ex- Duque de Caxias e primitiva Rua Direita), onde um coreto foi armado e nele se alternaram as bandas de música do Asilo de São Francisco e a da Oeste de Minas, que "estiveram esplendidas, executando bonitos e festivos dobrados, saltitantes polkas, ternas valsas e magnificos tangos." Não desfilou o famoso Clube X, aliás, nem no ano anterior, embora prometido para o ano seguinte; os "Dominós Fúnebres" fizeram um desfile de destaque. "O tiroteio de confetti, bisnagas e lança perfumes esteve fortissimo, entretanto, tudo na melhor ordem." (O Repórter, n.3, 17/02/1907)

- “Cooperação Operaria Oeste de Minas. No mez passado foi organizada, nesta cidade, uma associação de auxílios mútuos da classe operaria, com a denominação acima, cujos principais fins são: promover a união dos operários, defender legalmente os direitos da classe, criar escolas e bibliotecas, fundar cooperativas, etc. A sua directoria é a seguinte: Presidente, Manuel da Cunha Lima; Vice-presidente, João Francisco A. Ferber; 1º Secretario, Augusto Marques dos Santos; 2º Secretario, Gregorio Barcellos; Thesoureiro, Osvaldo Sichert; Procurador, Raphael T. da Costa Moreira.” (O Repórter, n.3, 17/02/1907)

- “13 de maio. Corre, amanhã, mais um aniversario da Lei aurea, que extiguiu a escravidão no Brasil. Segundo disposição municipal, de 19 de Setembro de 1906, o commercio deve, ao meio dia, cerrar suas portas, em comemoração ao grande acontecimento.” (O Repórter, n.14, 12/05/1907).

- “No dia 13 do passado mez de maio, no visinho arraial do Rio das Mortes, por iniciativa do liberto Antonio Francisco Tavares, foi festejada de maneira condigna a gloriosa data nacional da libertação dos captivos. Houve missa em acção de graças pelo auspicioso anniversario e por intensão de Izabel, a Redemptora, Terço e Te-Deum, não tendo sido esquecido o velho monarca, que teve requiem por seu descanso eterno. Não é tarde para darmos noticia deste facto que tanto ennobrece os sentimentos dos libertos do Rio das Mortes. Convem salientar que desde muitos annos, é a data ali festejada com suas mesmas festas que estamos agora noticiando.” (O Repórter, n.19, 13/06/1907)

- Lei municipal n.165, de 17/04/1907, muda o nome do tradicional Largo de São Francisco para Praça Dom Pedro II.[9] (O Repórter, n.24, 29/06/1907)

- Anúncio: “Casa de Banhos. Só fica sujo quem quer. 500 rs. um banho frio e 10 tostões um quente. A fregação corre por conta do proprietário. Das 4 da manhã ás 10 da noite. Rua Paysandú, 3. S.João d’El-Rey – Estado de Minas.” (Ten-Ten! n.5, 10/11/1907)

1908:
- “Festa finda. Effectuaram-se com deslumbrante pompa, nesta cidade, os festejos em homenagem ao martyr S.Sebastião. Foi o procurador das festas o Sr. José Trindade, que é merecedor de encômios pela boa organização e solicitude que houve nas novenas; porem, não deixando de nos tirar maldosamente os leilões já tradicionais e imensamente apreciados; por isso quanto a essa parte o José que aguente a piada leviana do Ten-Ten! para não acontecer a mesma cousa no anno vindouro.” (Ten-Ten! n.4, 25/01/1908)

- “O reverendo Padre Francisco Rocha, auxiliado por bons amigos, trata de obter meios para augmentar a Capella de Santo Antonio do Rio das Mortes mais trinta palmos. É uma ideia louvável, visto como a igreja já é pequena para acolher o numero de fieis. No dia 17 do próximo mez deve partir daqui um mestre de obras encarregado de fazer o orçamento respectivo e Deus queira que não appareçam obstáculos a generosa ideia.” (O Repórter, n.45, 03/12/1905)

1917:
- “Carneiro Felippe. Na egreja de S.Francisco realisou-se hontem ás 9 horas da manhã a missa de primeiro anniversario por alma do saudoso coronel Carneiro Felippe. Ao sumptuoso templo compareceu grande numero de amigos do finado que lhe foi mais uma vez tributar a amizade. É mais um preito de gratidão que a população sanjoannense prestou á memoria de quem tanto trabalhou para o engrandecimento desta cidade. Paz à sua alma!” (A Nota, n.11, 15/05/1917)

- “Cemiterio capinzal. Diversas pessoas que ante-hontem acompanharam um enterro ate o cemitério da Matriz não puderam reprimir um gesto de protesto ante o desleixo em que se acha aquella necrópole. O capinzal ali viceja fazendo enveja ás mais cuidadas plantações de “jaraguá”. Pedimos providencias a quem de direito.” (A Nota, n.28, 04/06/1917)

- “O Capim no cemiterio. Cremos que sera necessario appelar para o bispo, como havíamos promettido. A irmandade do S.Sacramento mandou capinar o quadro onde jazem os seus irmãos; mas o cemiterio da Matriz pertence também a três outras irmandades [10] e essas, segundo nos consta, não tomaram ainda nenhuma providencia.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)

1925:
- “Momo ahi vem... O Club X, a symphatica agremiação carnavalesca que tantos benefícios vem prestando ás pugnas de Momo nesta cidade, fêz sair, no dia 4 deste um suculento préstito em que o veterano deu provas bem solidas, do quanto se encontra preparado para se apresentar ao publico nos dias de carnaval. Dois lindos carros allegoricos, caprichosamente confeccionados e mais dois de critica e reclame da bôa Bavaria, foram os trophéos em que o Club X, se inscreveu na lista dos que garbosamente entrarão em lucta vencedora nas pugnas do Momo este anno. O Clube X e sua digna directoria, desde já, contem com nossas palmas e parabéns. Os “Egypcianos”, o querido bloco do pavilhão preto e branco, já deu inicio aos seus ensaios, para se apresentarem este anno, no certamen da Folia. Queremos vel-o ganhar o torneio mais uma vez. Avante, pois, Egypcianos!” (A Defesa, n.2, 11/01/1925)

- Uma nota jornalística dá conta de vandalismo na Capela do Bonfim, pintada de pouco tempo e alvejada com frases obscenas escritas por indivíduos inescrupulosos em suas paredes. (A Tribuna, n.648, 21/05/1925)

1932:
- “Fonte luminosa. Já se encontra concluída a “FONTE LUMINOSA”, que a prefeitura vai colocar na Avenida Rui Barbosa. Esse novo ornamento da nossa principal via publica será montada tão logo iniciem os serviços de remodelação da nossa “beira-rio.” (Folha Nova, n.10, 08/05/1932)

1936:
- Alunos do prof. Pinheiro Campos, do Ginásio São Francisco, dentre várias comemorações realizaram "às 13 horas, grande pic-nic [11] no aprazivel local denominado Briguente". Houve também missa, baile e concerto pela Sinfônica no teatro, etc, além de uma visita à usina de eletricidade. (A Tribuna, n.1.331, 28/06/1936)

1938:
- “A demolição do antigo Mercado e a construção do edifício do Forum. A Prefeitura Municipal está construindo no local denominado “Tanque”, sob a direção de Luís Baccarini, chefe do Departamento de Obras Públicas, um amplo barracão, medindo 30 metros de comprimento por 12 de largura, para onde serão transferidos todos os serviços atualmente localizados no antigo Mercado Municipal, que está sendo demolido. No novo prédio a ser inaugurado, serão localizadas as oficinas de marcenaria, carpintaria e ferraria da Prefeitura, além de garage e deposito publico. No terreno onde se encontra o antigo Mercado Municipal, que está sendo demolido seria conveniente a construção do edifício do Forum de São João del-Rei. Os servidores da Justiça da Comarca estão presentemente mal instalados no edifício da Prefeitura Municipal, que não dispõe de acomodações bastantes para atender as necessidades de uma e de outra.” (Diário do Comércio, n.53, 07/05/1938) 

1939:
- Anúncio: “Mijadeira é uma molestia que ataca os burrinhos recem nascidos e os mata em poucos dias. O curso [12] nos bizerros é o maior flagelo dos rebanhos. Para ambas doenças usem o PO BARÃO, o mais eficaz remédio até hoje aparecido. A venda na CASA AZEVEDO. S.João del-Rei.” (Diário do Comércio, n.252, 07/01/1939)

Ponte do Teatro vista da Av.Pres.Tancredo Neves. São João del-Rei/MG.

Notas e Créditos

* Não deixe de ler também outros trabalhos semelhantes clicando nos links seguintes:
** Texto, fotografias (2013) e pesquisa: Ulisses Passarelli
*** Obs.: as fotografias que ilustram esta postagem são de caráter meramente ilustrativo do patrimônio histórico edificado de São João del-Rei com vistas à sua valorização e não guardam qualquer vínculo direto ou indireto com o conteúdo textual abordado. 


Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Nomenclatura de ruas de São João del-Rei. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1988. Separata, 24p.
GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. Contagem: FUMARC, 1994. 55p.




[1] - A Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos eram corporações musicais de São João del-Rei que tinham a banda e a orquestra. Desde longa data extinguiram-se as respectivas bandas, permanecendo as orquestras homônimas, bicentenárias.
[2] - Estas obras foram de reestruturação da então capela setecentista, mudando completamente sua configuração arquitetônica para a igreja que atualmente vemos. As obras se concluíram em 1903. Para saber mais leia a postagem: SÃO GONÇALO GARCIA (in Tradições Populares das Vertentes).
[3] - Nas fontes hemerográficas seu sobrenome aparece grafado “Felippe” ou “Fellipe”. Carneiro Felipe foi o nome da principal avenida da cidade de 1907 a 1918, denotando o prestígio deste renomado cidadão na sociedade são-joanense. Seu nome na citada via substituiu a designação anterior, Rua Paisandu, motivado pela Guerra do Paraguai. Em 1918 a avenida foi alterada para “Rui Barbosa”, correspondendo à atual Avenida Presidente Tancredo Neves.
[4] - Funcionava no casarão histórico setecentista da Praça Duque de Caxias, onde nasceu Otto Lara Resende e hoje funciona o DAMAE.
[5] - José Carneiro Felippe, são-joanense, filho deste major e da Sra. Virginia da Trindade Felippe, também seguiu o setor de obras. Um jornal são-joanense noticiou anos mais tarde sua conclusão do curso de engenharia na Escola de Minas de Ouro Preto, destacando seu brilhantismo (A Reforma, n.11, 13/06/1914). Tornou-se uma grande personalidade das ciências no Brasil.
[6] - Sobre este cidadão, de nacionalidade portuguesa, morador de São João del-Rei onde casou e constituiu família, as efemérides de Cintra registram importante nota que dá conta de sua excelência como ferroviário, merecendo uma condecoração pelo Presidente Floriano Peixoto.
[7] - As tradicionais cavalhadas que existiram em São João del-Rei, Tiradentes, Lagoa Dourada, Prados, Conceição da Barra de Minas e Carrancas, estão desaparecidas a muitas décadas. Sobre elas leia a postagem: ELEMENTOS FESTIVOS (item 4; in Matosinhos: história & festas)
[8] - Falecido em 04/08/1906. O jornal O Repórter prestou-lhe intensa homenagem dedicando na sua edição nº27, de 12 do mesmo mês e ano, entre lutuosas tarjas pretas, a primeira e a segunda página completas e quase metade da terceira na cobertura do fato.
[9] - Lei assaz curiosa e até extemporânea, nomeando a mais imponente praça da urbe com o nome maior da monarquia, em pleno regime republicano. Veja-se também o caso da festa do treze de maio no Rio das Mortes, com réquiem para Dom Pedro. São João del-Rei, a tradicionalista cidade que expulsou o republicano Silva Jardim, dava ainda em 1907 sinais de fidelidade à coroa...
[10] - Boa Morte, São Miguel e Senhor dos Passos. Mais tarde foi inclusa a Irmandade de Santo Antônio, fundada em 1939.
[11] - Um dos costumes mais arraigados era o dos piqueniques, acorrendo famílias e amigos ao campo, sempre com inseparáveis atividades musicais e comilança. Os lugares mais queridos eram as paragens serranas (Lenheiro e São José), Casa da Pedra, Senhor dos Montes e Águas Santas. Eram momentos importantes de confraternização e estreitamento dos laços de relacionamento.
[12] - Curso: diarreia forte, na linguagem pecuarista.  

domingo, 14 de junho de 2015

Canta, canta, meu surrão!

O picuá e o homem do saco

O mineiro, muito desconfiado por natureza, tem receio dos andarilhos. Deduz que possam ter cometido algum delito em terras distantes e fugido, aparecendo localmente como um pobre coitado, pedinte, mas na verdade pode ser um criminoso.

Em vista deste temor logo ensina às crianças para se afastarem dele pois fariam mal a elas e em sua figura, mitificou um personagem do imaginário popular chamado homem do saco. Numa visão mais ao viés da folclorística, o homem do saco é um mito que pertence ao ciclo da angústia infantil. As narrativas o descrevem andrajoso, sujo, cabelo e barbas grandes, ensebados e desgrenhados, olhar sombrio, quase sem vida, andar lento e trôpego, fala pouca ou nenhuma... Jogado sobre os ombros e pendente nas costas, um saco encardido cheio de trastes, no meio dos quais mete crianças teimosas, "rueiras" (que só gostam de ficar fora de casa), desobedientes. Leva a criança no saco, para algum lugar ermo, onde a mata e devora. Eis o mito. E que pavor provoca nos pequeninos! Quando suas peraltices extrapolam, logo surge alguém para falar do tal homem do saco que já vem pegar o pequeno. E logo como que uma sombra se abate sobre o semblante pueril e os ânimos esfriam.

Foi então muito fácil personificar o mito na figura do pobre mendigo, ainda que o fato em si só aumente a discriminação. 

Independente de ser um morador de rua, qualquer estranho andando com um bolsa às costas já é alvo de suspeitas e temor por parte do povo interiorano. "Cuidado com esses homem de picuá nas costas...", logo sentenciam. Picuá é um saco pequeno, cuja boca tem uma corda de correr, embainhada, que faz fechar sua entrada e serve também para se pendurar às costas para transporte, à tiracolo ou em diagonal, trespassando o peito. Viajantes sem rumo certo, vindo de terras distantes carregam os poucos pertences no picuá, daí se ter cisma de acudir pedidos de homem com picuá às costas, símbolo de gente suspeita, quiçá de má índole. A roupa boa ou razoável, a higiene e a boa prosa não enganam: homem de picuá nas costas não merece confiança ... é o que reza a cartilha da cultura popular. 

E no afã de ensinar essas coisas aos filhos, netos, sobrinhos, qualquer criança enfim, os mais velhos saíam com narrativas lendárias. Uma delas, assaz conhecida Brasil afora é a do "homem do surrão" (surrão valendo saco ou picuá, bolsa rude), aliás muito antiga. Também aqui foi conhecido este conto. Nina Rodrigues registrou uma versão a mais de um século, com o nome de "A menina dos brincos de ouro", dizendo-a conhecida na Bahia e Maranhão, que em linhas gerais é a seguinte: uma menina ganhou da mãe uns brincos de ouro. Quando ia na fonte se banhar e buscar água numa cabaça, tirava-os e os deixava sobre uma pedra, até que um dia, ao chegar em casa, deu pela falta dos brincos. Havia esquecido na pedra. Com medo da mãe xingar pois era brava, voltou à fonte para buscá-los, mas foi capturada por um velho mal, que a meteu num saco (surrão), costurou a boca do mesmo para ela não fugir e disse-lhe que ganharia dinheiro com ela. De casa em casa, dizia que seu surrão era mágico, que cantava sozinho quando ameaçado de pancadas com o bordão (porrete, bengala, escora do velho). A menina no interior, com medo das batidas do bordão cantava. Então o homem do surrão ganhava algum dinheiro pela apresentação e partia para outra paragem. A sua fala era a seguinte: 

"Canta, canta, meu surrão, 
senão te meto este bordão."

E a menina muito triste cantava dentro: 

"Neste surrão me meteram,
neste surrão hei de morrer,
por causa duns brincos d'ouro
que na fonte eu deixei."

Ocorre que um dia ele foi levar o surrão para cantar justo na casa da mãe da menina, que reconheceu a voz dela. Usou então do estratagema de agradar ao estranho, dando-lhe de comer e beber com toda hospitalidade e sendo tarde o convenceram a dormir naquela casa. Durante seu sono pesado, abriram o saco, tiraram a menina já muito debilitada e encheram o surrão de excrementos. Logo cedo ele acordou, pegou o surrão, pôs nas costas e se foi. Na primeira casa que parou, mandou o surrão cantar e nenhuma voz saiu. Mandou de novo. Nada de cantar. Meteu o porrete no surrão repetidas vezes até rebentá-lo e o estrume caiu no chão revelando como fora ludibriado, o que o deixou furioso.

Pois bem. Este conto, a que Nina Rodrigues creditava a procedência africana, tem uma versão local, ouvida em Santa Cruz de Minas (*). A estória se processa de forma quase idêntica, diferenciando apenas por alguns detalhes. A menina ganhara dos pais uma pulseira de contas de ouro e ao esquecê-la na pedra da fonte, teimou com a mãe e foi buscá-la, apesar da hora já imprópria. Então o restante se processa igual. Apenas os dizeres dos personagens é que mudam. Assim, o homem anuncia: 

"Canta, canta, meu surrão,
meu bordão eu te darei..." (**)

E a criança no saco (surrão) canta lamuriosamente: 

"Continhas de ouro... vidinha,
que lá na fonte deixei!"

O excremento da versão nordestina com que enchem o saco ao tirar a menina, aqui é expressamente citado como esterco seco, de cavalo.


Referências Bibliográficas

RODRIGUES, (Raimundo) Nina. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. Coleção Brasiliana, v.9. 283p.il. p.191-192. 

Notas e Créditos

* Informante: Maria Aparecida de Salles, 08/06/2015, lembrança fragmentária, de narrativa ouvida na infância por meio de sua mãe, Elvira Andrade de Salles. 
** Obs.: outra informante local descreveu o dístico do velho do surrão nessa variante: "Toca, toca, meu surrão, / bom bordão eu te darei..."
*** Texto: Ulisses Passarelli