Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Tradições acerca dos ciganos

Não obstante a característica vida em condição de semi-nomadismo e da vivência um tanto fechada ao grupo, ficaram algumas heranças culturais dos ciganos em nosso meio popular. Habitualmente não se usa apontar esta ou aquela herança cultural com sendo de influência cigana, como acontece com outras etnias. Suas características identitárias é que marcaram as impressões sociais a seu respeito.

Quando um acampamento cigano se estabelecia nas imediações de uma cidade, logo se via as mulheres com seus vestidos coloridos, longos e rodados com profusão de babados e rendas, a pele de bela cor morena, andarem em grupos pelas ruas convidando os transeuntes à leitura da mão; os homens pelas portas ofertando cordões dourados e tachos reluzentes.

Os tachos de cobre dos ciganos gozam da reputação de serem os melhores, sendo por isto valorizados. Por esta qualidade são ambicionados para a produção caseira de doces. 

Outra vertente relevante é a ourivesaria. Faz parte da tradição cigana o habilidoso trabalho com correntes e pingentes, e ainda, o uso dos "dentes de ouro". É grande a procura por serviços de profissionais para aplicações de trabalhos protéticos em liga à base de ouro, sob a forma de coroas totais ou parciais, incrustações (inlay e onlay) e facetas, caracterizando no largo sorriso a ostentação de seu brilhante gosto pelo fulvo metal. 

Negócios de barganha e mesmo compra e venda de animais, cavalos sobretudo, é uma das peculiaridades que mais impregnaram a alma popular na caracterização do povo cigano. Criou-se então a imagem do negociante arguto, ativo, cuja esperteza sempre conflui para o lucro do cigano, embora na aparência a outra parte imagine ter lucrado. Esse dom do negócio, da lábia de convencer sobre qualidades de uma montaria que não chega a tanto, fixou-se na mentalidade popular. O povo então diz que "cigano dá manta", expressão que indica que dá prejuízo a quem negocia com ele, mas o sujeito sai pensando que foi bom negócio. Ninguém trapaceia cigano, diz o povo. Essa sagacidade e não propriamente desonestidade fixou-se noutra expressão popular de uso comum: para indicar que uma pessoa é muito esperta diz-se "fulano é um cigano...", mesmo não o sendo. Com igual sentido é a palavra "ciganagem" para indicar negócios confusos, múltiplos, com volta de uma compensação.

A padroeira do povo cigano é Santa Sara Kali.

Sua vida é cercada de fatos lendários que a ligam de forma muito próxima ao círculo de parentes de Jesus ou a seus amigos próximos. Elementos espiritualistas intervieram em sua veneração, que assim passou a muitos devotos sem nenhuma ligação direta com os ciganos. Nesse processo de absorção desta devoção, a imagem da santa ganhou nos altares domésticos ou nos terreiros, oferendas tais como flores, frutas, taças de vinho branco, lenços coloridos e velas azuis que a ligam de imediato à imagem da água, com a qual teria grande força. Seus devotos a invocam sobretudo no auxílio em questões amorosas e para fortalecer e trazer à tona a clarividência. 

Nos terreiros de umbanda, uma das sete linhas de trabalho espiritual é a Linha do Oriente. A linha reúne inclusive os guias ciganos, espíritos de luz que trabalham em geral na direita, com velas amarelas, mas podem atuar eventualmente também na esquerda, com velas vermelhas.  Em São João del-Rei ouvimos os pontos abaixo: 

"Já chegou a ciganinha
da sandália de pau;
quando ela chega no reino,
faz o bem, desmancha o mal..."

Os pontos narram o poder dos ciganos: 

"Peguei meu facão dourado,
com o cigano eu fui brigar,
quando foi na sexta-feira
na calunga eu fui morar..." (*)

Os ciganos trabalham firme nos descarrego dos males: 

"Cigano dá, cigano tira, 
cigano leva, pras ondas do mar..."

A esperteza dos ciganos ficou consignada nestes versos de terreiro:

"Eu vendi a minha casa
com tudo que era meu
o que é meu, é do cigano, 
o que é do cigano, não é meu..."

Ficou evidente na tradição sobre os ciganos a grande habilidade em "ler a sorte", ou seja, prever o futuro, sobretudo pela quiromancia e pela cartomancia, o que também passou ao universo do folclore.

Nos cantares do povo, uma quadrinha chorosa de congado, do notável Capitão José Camilo da Silva, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei (**), marcou a habilidade de ler o futuro:

"A cigana leu minha sorte,
tô com sina de morrê...
coração dos outros bate,
só o meu não quer bater, ai, ai!"

O sofrimento desse povo, a poesia popular registrou assim, numa jomba moçambiqueira (***): 

"A cigana chorou, 
chorou, chorou, chorou!
Sentada na beira do mar, 
chorou, chorou, chorou..."

Sobre suas andanças sem paradeiro fixo, uma narrativa popular busca explicação: Jesus andando no mundo, deparou certa vez com um cigano e pediu pouso. O cigano negou e disse-lhe:" _ Vá andando!" E Cristo exclamou: " _ Pois andando há de viver tu e toda a tua geração..." Por isso os ciganos são um povo nômade (****)

Por fim é mister recordar das ciganas como personagens humanas femininas do folguedo natalino das pastorinhas, elementos típicos do catolicismo popular, interpretadas por meninas que em verdade não pertencem à etnia cigana. Trajam-se de vestido longo, estampado, de cores vivas, lenço à cabeça, no geral adornado por cordões dourados, batendo pandeiros pequenos e enfeitados de fitas coloridas. Usam sandálias ou tamancos. Os adereços incluem correntões, grandes brincos de argola e medalinhas pendentes no lenço sobre a testa. Cantam anunciando que vão à Belém louvar o Menino Deus, mas sem ter o que comer, pedem esmolas para o pão, estendendo pandeiro de bojo para cima, para ali depositar-se o óbolo. Ocorrência em São João del-Rei (Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, 1992) e Tiradentes (Bairro Vargem de Baixo, 1995; 1996; 1999). Em São João eram duas: uma representando a adulta e outra a Ciganinha; em Tiradentes, quatro.

Ciganas, personagens das Pastorinhas da Vargem de Baixo, Tiradentes.
Mestra: Ana de Meneses. Captura de imagem de vídeo de Ulisses Passarelli, 25/12/1995.

O canto das ciganas em São João del-Rei era: 

Refrão: (bisado)
"Ai, ai, ai, amor!
É dia, meu Senhor!
Está chegando a hora
do Divino Redentor!"

Estrofes: 
"Eu sou a cigana,
que vivo a esmolar,
peço uma caridade
pra meus filhos sustentar. 

Tomara que chova,
na cidade de Belém,
para plantar o trigo
e colhê-lo também.

Dai uma esmola
pelo amor de Deus,
que a pobre da cigana
ainda hoje não comeu...

Canta a Ciganinha:

Seja ouro ou prata, 

seja prata ou cobre,

nós aceitamos tudo,

porque somos muito pobres..." 

Em Tiradentes, no grupo da Vargem de Baixo:

Refrão: (bisado)
"Nos causa gosto, 
nos causa alegria, 
ver que é nascido 
Filho de Maria!"
Estrofes: (bisadas)
"Dai uma esmola
à pobre cigana, 
pois vós bem sabes
que ela não engana.

Eu peço uma esmola, 
pelo amor de Deus,
que a pobre cigana
hoje não comeu!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um vintém,
que a pobre cigana
chegou de Belém!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um tostão,
que a pobre cigana
hoje não tem pão!"

Personagem comum noutras versões do Brasil. Ocorrem em reisados congêneres, nos quais as ciganas folclóricas são as personagens centrais, como por exemplo, no Terno das Ciganas (Januária / MG) e no Reis da Ciganinha (Macaúbas / BA). Essa presença reiseira representa um eco do passado, um esforço catequético simbolizado em personagens figurados. 

Fica assim marcado neste post as tradições que se construíram sobre os ciganos, impressões sentidas pela população que não é cigana, mas que no processo reinterpretação folclórica, criou uma série de tradições que aludem e rememoram os ciganos, senão mesmo e de alguma forma os homenageia, talvez por reconhecer o heroísmo de sua saga, a dor das perseguições e discriminações que já sofreram. 

Referências na Web

Santa Sara Kali. In: Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Sara_Kali (acesso em 25/02/2015, 07h 55min)

Notas e Créditos

* No linguajar específico existe a "calunga-pequena" (campo santo) e a "calunga-grande" (mar). Calunga é pois o cemitério. O Capitão de Congado Luís Santana, de São João del-Rei, certa feita por mim interpelado porque o mar também era chamado de calunga, respondeu-me tristonho: "meu filho, quer cemitério maior que o mar?! Olha quanta gente afundou nos barcos e as caveiras estão lá no fundo... quanto escravo morreu sobre o mar nos navios negreiros... o mar é um cemitério, é calunga sim!"
** Coletado em 1994. Outros grupos da região também cantam esta quadra.
*** Moçambiques de Perdões e Ibituruna/MG. 
**** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1996.
*****Sobre os ciganos ver como leitura indispensável:
DORNAS FILHO, João. Ciganos em Minas Gerais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, v.3, 1948.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. Verbete: Ciganos.
****** Texto e foto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Caveiras: a morte tratada com bom humor

A caveira é o símbolo mais contundente da morte (*). De tão universal, qualquer um entende que uma vez riscada num frasco indica que o conteúdo é venenoso e põe a vida em risco. Pois bem. Nem sempre, apesar disso, o assunto "caveira" é necessariamente tão sério. Muitas vezes o povo brinca com a morte (**). 

Talvez brinque com a morte porque dela não tem como escapar. Dá asas ao seu medo sob o viés da irreverência. E por aí extravasa... 


Em São João del-Rei o que há de mais notório nessa inter-relação de elementos é sem dúvidas o bloco típico Os Caveiras, uma agremiação carnavalesca muito tradicional, primando pelo humor através do horror, tematizado nos fatos sobrenaturais, além-túmulo, satirizando a morte com um desfile de foliões metidos em cáfitas pretas, brancas ou roxas, portando máscaras de caveiras, ao som de marchas fúnebres. Arrastando correntes, ossos bovinos, caixões com eventuais críticas ao político sujo do momento (nunca faltam) é um dos mais queridos blocos da cidade. Os participantes, com foices de papelão, fazem a voz cavernosa, fingem-se de coxos, fazem que vão atacar a platéia. Múmias, monstros e seres sobrenaturais advindos do imaginário local ou sob a influência dos filmes de terror, também fazem parte do bloco. Destaque pelo valor folclórico para as máscaras de papel-machê, pintadas de branco, com detalhes de contorno em preto e em cor vermelha uma imitação de sangue escorrido. De dentes arreganhados, olhos esbugalhados e tudo o mais que imprime má impressão. O desfile d'Os Caveiras é sempre um dos momentos mais aguardados do carnaval, desde os anos sessenta, segundo se diz, 1961, embora o registro cartorial tenha vindo mais tarde. 


Alegoria do bloco Os Caveiras.

São João del-Rei, 03/03/2014. 

Além do bloco, esse contexto da morte ironizada pode ser visto noutra manifestação, totalmente desvinculada do carnaval: é o costume de se fazer as caveiras-de-fingimento. Brincadeira que as crianças faziam até a década de 1970, com abóboras e sobretudo mamões verdes, escavando-os até ocarem, abrindo-lhes os olhos, nariz e boca de aspecto medonho e para mais atemorizar, a faziam iluminar por meio de uma vela acesa no interior. Assim preparada era posta em locais ermos, notadamente na quaresma, para, vista à distância, simular uma assombração, ou sobre muros e mourões à beira dos caminhos, beirando porteiras mal afamadas, para assuntar os transeuntes. De praxe ficavam por perto fazendo barulhos supostamente misteriosos e jogando pedrinhas sem se revelar, rindo daqueles que acreditavam no seu jogo inocente. 


Muitos se indagarão porque marquei uma data limite aproximada se até hoje se faz isto por aí. É porque somente até essa década pode-se afirmar com segurança que eram feitas essas cabeças de frutos normalmente como qualquer outro brinquedo nacional, mas daí por diante, sobretudo nos anos noventa, de forma avassaladora, sofreu influência dos chamados haloween’s e já não se faz da forma como o conheci em minha infância, exceção feita a algum lugar recôndito. 


Para concluir a questão dos brinquedos com a morte arremato com uma anedota que mais uma vez a memória prodigiosa de meu saudoso avô materno me comunicou (***): certa feita, um padre tinha que fazer um sermão mas estava muito sem inspiração. Desanimado, não sabia o que falar aos fiéis. Pensou, pensou... resolveu passar pelo cemitério nos fundos da igreja e no ossuário pegou uma caveira. Saiu com o crânio debaixo do braço e o escondeu no púlpito da igreja. Na hora do sermão subiu, olhou para o povo lá em baixo, raspou a garganta, gaguejou e foi falando espaçado:


_ é meus caros fiéis... esse mundo é enganador! A vida é incerta. Hoje agente está vivo, amanhã está igual essa caveira aqui. Tem que respeitar muito os mortos. Porque essa caveira aqui, oh, ninguém sabe de quem foi... pode ter sido de teu pai, d'um tio, irmão, ...

Enquanto enumerava possíveis parentes deixou a caveira cair do púlpito e ela bateu lá em baixo bem no alto da cabeça de um careca, e os dentes do maxilar ossudo rasgaram sua pele, que imediatamente sangrou. No mesmo tom que o padre vinha falando, o malfadado devoto, cheio de raiva, falou com voz alta e irritada, e foi-se embora: 


_ é... pode ter sido da puta que te pariu também! 



Notas e Créditos

* Uma das sete linhas da quimbanda é a "Linha das Caveiras", chefiada pelo respeitadíssimo exu "seu" João Caveira, fiel ordenança do orixá sr. Omulu. Muito ligada à Linha das Almas. As entidades dessa linha se apresentam nas vidências dos médiuns como esqueletos: Manuel Caveira, Tata Caveira, Chico Caveira, Exu Caveira, etc.

** Na região estudada é atitude comum quando uma pessoa sofre um repentino calafrio, inesperado arrepio, se persignar e dizer em tom descontraído mas no fundo exorcisório: "passa morte, que eu tô forte!"
*** Aluísio dos Santos, Centro, São João del-Rei, 1993.
**** Texto: Ulisses Passarelli
***** Foto: Iago C.S. Passarelli
****** Leia também: SÃO PEDRO E A CAVEIRA  

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Gameleira

Gameleira ou figueira-brava é uma grande árvore morácea do gênero Ficus, cuja madeira clara e macia é usada em artesanato para esculpir artefatos de cozinha, tais como colher de pau e outros, e principalmente gamelas, donde procede seu nome. 

Na crença popular a gameleira é como uma árvore sagrada, morada do orixá Irôco além de ser domínio dos exus. Na raiz de gameleira se faz feitiço para amarrar o inimigo.

Um ponto de congado de São João del-Rei, que ouvi o saudoso Capitão Luís Santana cantar, aludia à árvore em questão: 


“Êh, gamelêra! 
Gamelêra é gaio só...” - bis 


O sentido é meramente provocativo: a gameleira é frondosa, agigantada, de bela copa, mas a madeira é fraca, de pouco valor, apodrece fácil. Daí se aplicar ao congado rival, que só tem beleza externa ("galho só...") mas não tem bom cerne, essência, força. 

Da gameleira o povo extrai a seiva para produção de uma espécie cola levada ao fogo em fervura, o visgo, que noutros tempos se usava para pegar pássaros, esfregando a substâncias nos poleiros habituais, onde, ao posar, as pobres aves ficavam coladas. Felizmente a consciência ecológica tem abolido tal prática. 

Tronco e raízes de uma gameleira.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli, out./2014.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Aldeia Africana

Ofereço a José Cláudio Henriques, incansável estudioso da história de Matosinhos
Agradeço a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo apoio à pesquisa



Setenta e sete anos atrás um novo bloco desfilava em São João del-Rei, sob o enfático nome de "Aldeia Africana". Fora criado pelo folião de momo "Zé da Igrejinha", em Matosinhos e lamentavelmente a história não lhe registrou detalhes para a posteridade, tão pouco o próprio nome de batismo de nosso protagonista.

Seja como for, o Zé da Igrejinha já era um carnavalesco conhecido e antes tinha o Bloco do Tatu, de que este blog já se ocupou, e que se pode ver em foto abaixo, datada de 1937(*), na qual ele aparece bem ao centro, sentado, tocando sanfona.

Bloco do Tatu em 1937, na Vila Santa Teresinha. 

No ano de 1938, Zé da Igrejinha fundou uma nova agremiação carnavalesca que buscava valorizar valores da negritude no carnaval da cidade. Até o momento não veio a lume fotografia de época desse bloco ou maiores detalhes descritivos para avaliar o que de fato trouxe às ruas. Mas a modesta notícia jornalística abaixo, publicada nesta cidade, pode trazer algumas pistas:


"Aldeia Africana. É mais um rancho que se filia á galeria dos novos. Surgiu bem disposto na arena dos peleadores, trazido pelas mãos desse esforçado folião, o Zé da Igrejinha.
Ao aprecial-o é mister levar em conta o esforço de seu creador, que vencendo obices de toda sorte, veio do antigo 'Capão da Traição'  para mostrar que mesmo lá é sempre fiel aos seus impulsos carnavalescos, fazendo por isso questão de apresentar a sua parceirada em forma, empunhando cantaros e lanças precedidos de uma porta bandeira do barulho e escoltada por um chôro daquelle geito. 
Agradou." 

Notícia jornalística d'Aldeia Africana.

O jornalista previne o leitor para considerar as dificuldades enfrentadas para por o grupo à rua, mas diz que o desfile agradou. Na notícia, Matosinhos surge entre aspas com a alcunha de "antigo Capão da Traição", fruto da ideia equivocada mas então em voga, que o mais sangrento episódio da Guerra dos Emboabas, conhecido sob este nome, teria acontecido nesse bairro. 

A porta-bandeira era "do barulho" e um coro de vozes fazia acompanhamento, sob a forma de "um choro daquele jeito". Está aqui insinuada a musicalidade e a ginga que herdamos do africano, que tanto engrandece a cultura nacional. 

A citação específica à presença de cântaros e lanças evoca de imediato valores africanos. Os cântaros ou potes cerâmicos, são muito usados no cerimonial dos terreiros de religião de matriz africana, as quartinhas, contendo água perfumada com ervas votivas próprias de cada orixá, concentrando o axé; jarras cheias desse preparo perfumoso com que se lavam as escadarias de algumas igrejas, a mais clássica de todas, a do Bonfim na capital baiana. No passado houve mesmo, em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e donde se trouxe também ao Rio de Janeiro, um préstito de mulheres afro-descendentes chamadas originalmente "talheiras", porque traziam à cabeça no ato do desfile, talhas ou potes de barro, com seus líquidos preparados. As talhas ao longo dos anos foram abandonadas. Logo o nome foi corrompido para "taieiras" e tiveram sua importância como matriz das agremiações do final do século XIX (**).

Quanto às lanças parece que Zé da Igrejinha quisesse simbolizar alegoricamente elementos tribais e não é possível resistir à tentação muito forte de rememorar o desfile carioca (embora os houvesse também em Salvador, donde possivelmente procedem) dos cucumbis ou quicumbis, espécie de congados, digamos assim por questão didática de mera assimilação. Eram grupos formados por negros que também difundiam valores culturais africanos no carnaval oitocentista e entre seus vários grupos no Rio de Janeiro à época da abolição, havia um cujo nome de batismo era "Lanceiros Cucumbis". Em São João del-Rei a terminologia não é desconhecida, tanto que no Bairro das Fábricas no final do século XIX havia a Chácara do Quicumbi, entrecortada por um diminuto córrego homônimo, hoje quase sem água e perdido no escuro das galerias urbanas. Esta chácara foi desapropriada para dar lugar ao Cemitério Municipal, ainda hoje conhecido popularmente por "Cemitério do Quicumbi". 

É mera cogitação, leviana até, mas tentadora, ou provocadora de novas pesquisas: o que foi realmente essa Aldeia Africana? Um bloco ou rancho que figurasse na medida das possibilidades uma reprodução dos quicumbis e talheiras cariocas que acaso o Zé da Igrejinha tivesse conhecido? Ou nada disso, apenas coincidência de alegorias... Seja como for ele teve a coragem de naquela época afirmar publicamente seus valores étnico-culturais, deixando consignado que o carnaval também é do negro, que muito contribuiu para o momo. É bastante arrojada sua iniciativa numa época que se buscava o luxo dos desfiles e o que se tentava era imitar o carnaval carioca através de seus famosos clubes e cordões e buscar inspirações no glamouroso carnaval europeu.

Está claro que o elemento cultural evocador do africano estava vivo no carnaval daquela época. A mesma fonte jornalística nos diz que no mesmo ano saiu também às ruas da cidade o Bloco Esperança do Amor, do qual disse expressamente: 

"É outro iniciante que vem de alcançar satisfactorio successo. Pequeno, porem bem ensaiado, com jogos e evoluções interessantes, fazendo recordar o vilão, dança de origem africana, como a cuíca, usada pelos congadeiros, e agora trazida para o carnaval. Mereceu palmas, que o povo não lhe regateou."

Pelas curtas notas acima fica consignada a homenagem ao negro, que seja nesta terra seja em muitas outras, deixou e deixa seu imenso legado cultural para contribuir amplamente com a construção da identidade brasileira. 

Referência Hemerográfica

O Correio, n.595, 06/03/1938, São João del-Rei


Referência na Web

BRASIL, Eric. Cucumbis Carnavalescos: Áfricas, carnaval e abolição (Rio de Janeiro, década de 1880). In: Afro-Asia. 

Notas e Créditos

* Fotografia cedida gentilmente para reprodução pelo sr. Luís Pereira dos Santos, cujo pai e avô dele participaram do grupo. Autor não identificado. 
** Um dos últimos ou talvez o último grupo remanescente de taieira resiste em Laranjeiras/SE, agregado à Festa de São Benedito e Santos Reis, a 6 de janeiro. 
*** Texto e fotomontagem da nota de jornal: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Assombrações e Penitência

A quaresma começou ...


Vencida a Terça-feira Gorda, concluiu-se mais um ciclo festivo anual. O primeiro é o natalino, que nas tradições populares começa no dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e vai até o de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro), data limite, já cruzando com as batucadas carnavalescas.

Se o primeiro é o tempo da esperança, o segundo da alegria extravasadora, o terceiro, o quaresmal, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é o período da penitência, do recolhimento. A admoestação voeja em redor dos pecadores, pesando-lhes os abusos cometidos no carnaval, e convida-os sob a imposição da cinza na testa, diante dos altares, a voltar-se ao Criador. 

São dias de penitência todas as sextas-feiras, e ainda e em especial, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão.

Na penitência o cristão evita a carne vermelha. Deve substituí-la pelo ovo ou pelo peixe. É tradição muito antiga, inalienável ao fiel tradicionalista. Obviamente a penitência não se resume apenas a esse gesto alimentar.

O povo acredita que não fazendo penitência na quaresma ou cometendo abusos em horas impróprias na rua, entregando-se à jogatina ou à bebedeira, aos bailes e cantorias, se tornará alvo fácil dos espíritos do mal, que surgem sob os mais diferentes aspectos. Alguns, por sinal, bastante curiosos. 

Assim, na região, ouvimos falar da pinto pelado, uma aparição demoníaca de um pintinho misterioso, desacompanhado de sua mãe, piando sem parar, implume, imortal, arrepiante... (*)

Tanto mais aparecerá ao incauto a porca com os pintinhos, uma assombração que surge na quaresma, sobretudo a horas mortas, pelos caminhos e encruzilhadas. A disparidade se evidencia no nome do espectro, com mães trocadas. Assim pode surgir também como a galinha com os leitões. Um canto de calango alude a este assombro (**): 

“Calango tango, 
no calango dessidão, 
nunca vi cantá calango 
Sexta-feira da Paixão... 
vem a Porca co’os Pintinho 
e a Galinha co’os leitão!” 

São bichos fantasmagóricos, d'outro mundo. Em São Paulo corre um mito equivalente, a “porca dos sete leitões”. E assim a velha quaresma era povoada dos mais estranhos seres sobrenaturais, tais como o saci-pererê com suas traquinagens, a mula-sem-cabeça chispando fogo, o lobisomem ameaçador com sua dentaria aguçada. A modernidade baniu o sobrenatural. A incredulidade é o assombro hodierno. 

De volta à penitência é de se lembrar nesse tempo de pouca chuva, que outrora era usual a Procissão da Penitência, destinada a redimir as faltas da comunidade, para que Deus, num ato de perdão, cesse um determinado flagelo - seca, enchente, peste, fome, etc. Procede-se de ordinário em horários de calor, por longas extensões, estradas ruins, justamente para aumentar o grau de sacrifício penitencial.

Uma dessas procissões de antanho, partiu da primitiva Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, na Serra de São José, desde longa data demolida. Num tempo de seca a procissão seguiu para Tiradentes, levando a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz de Santo Antônio. Ocorre que naquele caso específico a irmandade também se transladou e nunca mais voltou à pequena capela em questão, que terminou em ruínas (***). 

Bem menos dramático e contudo mais caricato é o causo de uma procissão da penitência, também para atrair chuva. Contava-me meu avô (****), que num tempo de calor implacável o padre dissera em sermão do púlpito aos fiéis, que a culpa da seca era deles, por causa do acúmulo de pecados. Deus estava bravo. Daí, só tinha um jeito: penitência. Marcou a data e a hora, 15 horas _ 3 da tarde _ sol no máximo. O sacerdote foi na sombra durante toda a procissão, protegido pelo pálio. Todos os demais torrando no calor. No momento de um canto religioso, após o refrão, o padre entrou em voz solista, no ritmo da música, dando ordem para soltar os fogos de artifício, mas mudando os versos para provocar o sacristão, com quem andava meio enraivecido pelo roubo do vinho eclesiástico: 

"Seu sacristão, 

solte essas bomba, 
vocês vai no sol,
eu vou na sombra..."

Na virada da estrofe o sacristão não deixou por menos e no mesmo tom retrucou em reclamação aos abusos do padre: 

"É isso mesmo 

que vancê tá dizêno,
nóis que trabáia,
você vai comendo..."

Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. 

Notas e Créditos

* Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
** Informante: idem, referindo-se a uma cantoria da zona rural de Bias Fortes, informada em 1997. 
*** SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego - memória histórica. In: Inconfidências. Tiradentes: Sociedade Amigos de Tiradentes, ano1, n.6, jul./1996. p.3. 
**** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1994.
***** Texto: Ulisses Passarelli
****** Foto: Iago C.S. Passarelli 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Folclore do Tabaco: as múltiplas faces do fumo na cultura popular

O tabaco ou fumo procede da América. É o nome de várias espécies de plantas solanáceas do gênero Nicotiana cujo cultivo se esparramou pelo mundo levado pelos colonizadores no século XVI. Fato é, que o uso pelos indígenas inspirou os europeus. Diferentes formas de uso das folhas secas e enroladas, em tubo ou em corda se difundiram amplamente.

A origem da palavra deixa algumas dúvidas, talvez indígena segundo uma versão, possivelmente árabe, segundo outra, de tabbaq. Já a palavra fumo tem procedência latina.

A produção agrícola do fumo no Brasil concentra-se sobretudo no sul, que responde em seus três estados com 96% da produção nacional. O restante procede sobretudo da Bahia e Alagoas. O país é o seu maior exportador e o segundo maior produtor.

Afora a produção em larga escala, pequenos produtores plantam o fumo para conservar uma produção artesanal, com algumas peculiaridades que podem mudar conforme a região. Nesse sistema, aqui nas Vertentes, após a colheita, as folhas de fumo são postas a secar protegidas da chuva e sol diretos, sob uma área coberta de telhas, prendendo-se as grandes folhas em jiraus de bambu, chamados pindoba, entre duas lascas. Ali se desidratam, por oito dias. 

Depois, num trabalho que exige destreza, são torcidas formando uma espécie de corda, com o auxílio de mecanismos de madeira em forma de carretéis e manivelas. A corda será enrolada em torno de um pau constituindo um rolo de fumo, posto em descanso por alguns meses, podendo então ser molhado na medida e tempo certo, por água em alguns lugares, por garapa em outros. Nesta fase de maturação e secagem, deixa escorrer e pingar uma substância escura e viscosa, de odor forte, conhecida como mel de fumo, altamente tóxica, que pode levar à morte caso ingerida.

O consumidor do fumo de rolo (ou de corda como também se diz), sabe escolher o produto com a qualidade de sua preferência, analisando a textura, a cor, o cheiro, o sabor no ato de fumar. Entre fortes e fracos, claros e escuros, uma vasta gama de fumos formam um cenário peculiar nos mercados e feiras populares das cidades interioranas. 

Na terminologia própria conforme anotado em São João del-Rei, além do fumo de rolo, ouvimos:

fumo-confete: tabaco de qualidade superior, especial, picado em lascas pequenas à guisa de escamas, próprio para uso em cachimbo.

fumo-de-paçoca: tabaco de qualidade inferior, socado em pilão (daí o nome, devido à soca, como na produção do doce paçoca), aproveitando-se restos de diversos fumos da produção, descartados. Usa-se para confecção de cigarros grosseiros.

fumo-de-quilombo: tabaco de rolo, grosso, bem escuro, muito forte. “Fumo de quilombo, cada tragada é um tombo!”, diz a expressão popular.

O uso do fumo nos meios populares vai além do simples consumo tabagista. Vício aliás que houve tempo não era considerado como tal, mas sim, como um gesto chique, um charme, um diferencial da pessoa refinada e alinhada com a boa sociedade. 

Ao jovem, não se admitia fumar quando ainda menor de idade e muito menos diante dos pais, considerando-se uma grande falta de respeito com os progenitores.

Mas sem aprofundar nessa linha, voltemos aos usos propriamente folclóricos, conforme anotado em São João del-Rei, mas certamente usados noutros municípios: 

- o fumo na agricultura é usado como inseticida, fervido intensamente até produzir uma calda, com que se borrifa as plantas após esfriar, coar e diluir, para espantar pragas (pulgões, ácaros, cochonilhas, percevejos, tripes);
- como remédio da medicina popular, que este blog não aconselha, apenas registra o uso tradicional pelo valor etnográfico, é usado após fervuras para banhar feridas, calos, além dos afetamentos causados pelo bicho de pé (Tunga penetrans, inseto da ordem siphonaptera), passando por intermédio de um algodão embebido. O fumo desfiado e misturado à urina forma uma calda usada para banhar machucados com dificuldades de cicatrização e ferimentos por objetos metálicos. Se a urina for de criança abaixo de nove anos é considerado remédio mais eficaz;
- é oferenda tradicional que os pescadores carregam na canoa, para jogar no rio ao caboclo d'água, impedindo assim que esse ser mitológico ataque-os, virando a embarcação e puxando-os para o fundo das águas;
- guardar um pedaço de fumo de rolo escondido entre os pertences atrai boa sorte, fartura.

Tem largo uso nos terreiros de umbanda. Usado também como oferenda e firmeza para os guias caboclos, negros-velhos e boiadeiros, seja na forma do pedaço de fumo de rolo em si, seja sob a forma de uso em cachimbo, cigarro de palha e charuto. Tem uso também fervido e adotado como banho de descarrego, misturado a diferentes ervas específicas de cada linha.

O tabaco aparece ainda em algumas expressões:

- Levar fumo / tomar fumo / levar fumada: dar-se mal numa situação; ter prejuízo; ser xingado pelo superior hierárquico.
- Fumo: 1- situação difícil; 2- Pessoa complicada de se conviver:"é fumo!"
- Fumo bravo: mesmo sentido do item anterior, com a conotação depreciativa intensificada.
- Fumarada: baforada, muita fumaça de cigarro.
- Fumal: 1- plantação de fumo; 2- nome de uma localidade no município de Resende Costa. Não confundir com o termo fumeiro, nome de um jirau improvisado sobre o fogão à lenha para se pendurar linguiça e toicinho a defumar.

Não é sem tempo lembrar de duas formas muito tradicionais de se usar o fumo nos meios populares _ cheirar rapé e mascar fumo.

O rapé é o fumo moído em pó, que se usa cheirando diretamente um pequenino punhado, preso entre os dedos, levando diretamente às narinas. Muitos há que o cheiram vez por outra, mas muitos viciam no rapé. De ordinário se tampa a narina de um lado e se aspira do outro, logo em seguida a operação se repete mudando o lado. O rapé é conservado em latinhas para se trazer ao bolso e outrora, em pequenas bolsas de couro chamadas bolsetas. O rapé é famoso por provocar espirros e de tal forma, acredita o povo que sirva para expectorar. Outros há que lhe acrescem pós homeopáticos, tal como a imburana, um rapé muito apreciado. Atribui-se ao rapé um elemento de firmeza espiritual na linha africana. 

O costume de mascar o fumo é muito antigo e noutros tempos não era raro de se ver senhoras e senhores mordendo por muito tempo, uma lasca de fumo de rolo, de tanto em tanto cuspindo um punhado de saliva. Imaginavam com semelhante prática prevenir cáries e verminoses. 

Longe de incentivar o tabagismo ou o suposto uso medicinal aqui anotado, esta postagem espera apenas ter contribuído modestamente para registro da etnografia do tabaco em nossa região.

1- A palha de milho no bolso traseiro da calça denuncia o hábito de enrolar cigarros artesanais
 de fumo de rolo. Caquende (São João del-Rei/MG), 04/05/2014. 
2- Plantio de fumo em Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG), 31/01/2016. 

Referências na Web


Tabaco. Site da Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Tabaco (acesso em 12/02/2015, 06h)

Produção de Fumo. Site da Abifumo, http://www.abifumo.org.br/produ.htm (acesso em 12/02/2015, 06h 36m)

Fumo de corda produção. Leandro Waidemam, You Tube, https://www.youtube.com/watch?v=o4v8nKbA6Eg (acesso em 12/02/2015, 07h 05m)

Homem toma mel de fumo e morre na Colônia Treze. Lagartense, http://www.lagartense.com.br/?irPara=noticias&cod=4557 (acesso em 12/05/2015, 07h 13m)

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2- Ulisses Passarelli

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O querido carnaval são-joanense

O tempo do carnaval, o imenso ciclo festivo da batucada de verão chegou a vários dias, extrapolando os quatro dias tradicionais ou oficiais. Várias cidades da região já tem suas atividades começando, com excelentes carnavais, mas de todas, São João del-Rei é que tem um pré-carnaval gigante. 

Desde dia 31 de janeiro os blocos começaram seu desfile. As escolas de samba com seus animados ensaios vem troando seus tambores por diversas noites. Enfim, não é fácil conservar o título honroso de um dos maiores carnavais do Brasil e um dos melhores de Minas Gerais, que tantas vezes ouvimos ao longo dos anos. E esse título não é definitivamente novo como pensávamos ou não procede unicamente do tempo áureo das magníficas e memoráveis escolas dos anos 70. No remoto 1932 um jornal da terra já o chamava de "melhor carnaval de Minas", como o prova o recorte abaixo. 



E não pensem que essa história de carnaval comprido é de pouco tempo para cá. Quem diria, no passado já tínhamos alguns prazos dilatados. Ainda em 1932, além do carnaval tivemos a micareme, em março, em pleno período quaresmal! Desfilaram as agremiações da cidade e o povo foi convocado, mostra o Folha Nova.





Na época, a Prefeitura mandou iluminar e enfeitar a Avenida Tancredo Neves (então chamada Rui Barbosa) e armar coretos para as bandas de música. Os carros antigos desfilaram no corso. 

Desde sempre esta avenida foi a artéria-mestra de nosso carnaval. Todos os antigos cordões, ranchos, blocos, escolas de samba, desde os zé-pereiras e blocos de sujos até as agremiações de hoje, desfilam pelo centro histórico e confluem para a via em questão. 

Novamente a história se repete. Repiniques e surdos, tamborins e bumbos batucam por aí, pelos morros, pelo centro, pela alma da cidade, ecoando entre essas montanhas das Vertentes, enaltecendo os foliões e carnavalescos, de ontem e de hoje. 

* Textos e fotos: Ulisses Passarelli
** Fonte: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG. 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Capitães de Areia

A tradição popular nos transmite a cada geração uma profunda essência religiosa que dita as regras do relacionamento entre o sagrado e o profano, o cotidiano e a festividade. Neste sentido, desde remota antiguidade, o respeito aos antepassados, aos pioneiros, aos mestres que partiram dos folguedos do povo, permanece como um laço de carinho. Nossa complexa formação étnica recebeu esse legado de muitas fontes, que se mesclaram num saber bem à brasileira. 

Em especial no caso dos congados corre a crença em alguns grupos ou entre certos dirigentes por ventura mais espiritualistas, que a alma do capitão de congado que já desencarnou a algum tempo, tendo passado pelos estágios necessários de correção, arrependimento e aprendizado no plano espiritual do purgatório, tornando-se um espírito capaz de ajudar a quem lhe roga auxílios, caso invocado pelo nome que teve na Terra, na devoção ao rosário, poderá ajudar àqueles que dão seguimento à sua prática missionária. São os "capitães de areia".

Não se trata de um culto, mas antes uma lembrança; nem tão pouco se equipara a uma veneração como à dos santos, mas sim uma sintonia de continuidade. É seguramente um gesto de irmandade estendido àqueles que se esforçaram no fazer e no manter, que se espera continuem próximos na memória, através da evocação de sua sabedoria. Também não é prática mediúnica de terreiro, pois os capitães de areia não são guias nem orixás e não incorporam. Só se lida com eles com preces e no máximo uma vela branca, tal como se reza por qualquer alma de antepassado. 

Neste contexto alguns ternos cantam versos a capitães que morreram. Como se fossem homenagens, gravei em São João del-Rei, em 1996, de um catupé daqui os seguintes dísticos: 

“Eh, João Lopes! Êh, João Lopes! 
Zé Francisco e Barnabé!” - bis; 

“Êh, Zé Elias! Êh, Zé Elias! 
Carioca, Capitão!” - bis. 

João Lopes e José Francisco eram capitães regentes de congo no Bairro Tijuco, em São João del-Rei, até a década de 1940, o primeiro no terno da “Rua das Flores” (Rua Maestro Batista Lopes) e o segundo no da Rua São João; José Elias era capitão-meirinho da cidade de Ritápolis (do catupé, do capitão Pedro Ribeiro); Carioca foi capitão afamado de catupé em Coronel Xavier Chaves, da Vila Fátima, e Barnabé de um antigo grupo que existiu no seu distrito de Cachoeira. 

A prática das manifestações folclóricas não é mera repetição de algo treinado. Demanda uma vivência, temperada pelo elemento cultural e movida pela religiosidade. Existe a crença comum de que assim como nós progredimos na vida terrena, também a alma progride na espiritual. As fases da vida trazem seu ensinamento, perpetuado na memória, cantado nos versos do povo e transmitido a quem que está em redor ouvindo ... 

"Oi, Nossa Senhora me disse, 
que esse mundo não é tão cruel.
Eu já fui joão-de-barro da terra, 
eu já fui saracura do brejo, 
hoje eu sou periquito do céu ...” 
(moçambique, Passa Tempo/MG, 2000)

Caixas de Congado.
Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli  
*** Leia também: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA DOS CONGADOS

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bandeireiro

Bandeireiro é um personagem importante dos folguedos do povo. É aquele que carrega a bandeira ou o estandarte do grupo folclórico. Embora o termo “porta-bandeira”  e “porta-estandarte” existam nos meios folclóricos, vindos porém de fonte culta, bandeireiro é sempre o termo que prevalece. Tem como sinônimos: bandeirista, bandeira (2), alferes e alferes-da-bandeira (*). 

Geralmente carrega uma sacolinha ou embornal para depositar os óbolos oferecidos voluntariamente à bandeira ou pedidos pelo grupo em cantoria. 

Nem sempre usa uniforme, mas em geral é o mesmo fardamento do grupo ou, noutros casos, semelhante, porém mais simples. Não deve dançar. É a regra geral, embora conheça exceções notórias. Seu comportamento exige postura exemplar, com seriedade, máximo respeito ao símbolo religioso que carrega. Deve saber executar os rituais próprios que exigem a participação da bandeira em cada folguedo que participa; saber o momento de entregar e recolher a bandeira a um devoto que a pede para segurar, ou que o mestre do folguedo determina que segure. Precisa reparar se alguém lhe tirou algum enfeite ou acresceu outro e desta sorte avisar ao mestre. Tanto mais se foram afixadas cédulas monetárias, ex-votos ou jogado perfume, para que o mesmo providencie o ritual de resposta  em versos de cada fato destes. 

Compete ao bandeireiro conhecer todos os sinais e gestos do chefe do folguedo. Saber receber outra bandeira e passar a que carrega, no caso do encontro entre grupos rivais ou amigos. Em algumas folias de Reis e folias de São Sebastião das Vertentes, o palhaço faz papel de bandeireiro, fato inadmissível noutras regiões. 

Ainda nas folias, seja ela de qual santo for, por vezes o bandeireiro passa temporariamente sua função a uma pessoa que não faz parte do grupo, por razão devocional. Por exemplo: um morador pede ao mestre para carregar a bandeira até a próxima casa a ser visitada, ou nas próximas três, ou por toda aquela noite. É autorizado. Enquanto carrega vai rezando e pedindo as graças ou pagando promessa e o bandeireiro, ladeando-o, zela por ela e orienta o devoto no que for necessário para o cumprimento temporário do papel.  

Em algumas circunstâncias surgem outras personagens:

- madrinha da bandeira: aquela que confecciona uma nova bandeira ao grupo e a doa, ou apenas a reforma, carinhosa e devotamente;
rainha da bandeira: bandeireira que nalguns congados vem vestida de rainha e tem a mesma dignidade das demais;
rainha da sacolinha: rainha de congado que anda ao lado do bandeireiro propriamente dito, carregando uma pequena sacola onde os devotos que beijam a bandeira depositam espórtulas. Habitualmente esta função é acumulada pelo bandeireiro (**).

Por fim é mister informar que alguns grupos folclóricos trazem na dianteira mais de uma bandeireiro, por terem duas ou três bandeiras. 

Bandeireiro de Congado. 2014.
Moçambique Afro-descendentes, Macaia (Bom Sucesso/MG).
Bandeireiro de Folia. 1995.
Folia de São Sebastião, Barreiro (Coronel Xavier Chaves/MG).



* Alferes da bandeira pode ter outro sentido no contexto de algumas festas populares. É o indivíduo responsável pela bandeira emoldurada que se levantará no topo do mastro. 
** Madrinha da bandeira: São João del-Rei, 1994; rainha da bandeira e rainha da sacolinha, Resende Costa, 1998. São personagens pouco frequentes. 
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotos: congado, Iago C.S. Passarelli; folia, Ulisses Passarelli

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 9

Abilolado – sem juízo perfeito; doido; de baixo intelecto e ações inconsequentes.

Andaço – virose; epidemia. O povo a vincula ao extremo climático de frio ou calor.

Beleza de Creuza – expressão de intensificação da estética: maravilhoso, excelente.

Boca de siri! – expressão de solicitação de segredo, silêncio absoluto sobre um fato.

Branquinha – cachaça, aguardente de cana de açúcar.

Cagaço – medo extremado. “Passou um cagaço”: teve muito medo.

Cheio de banca – fazendo-se de poderoso, influente, rico, sem de fato o ser.

Deixar a vaca ir pro brejo – perder o controle de uma situação; ser derrotado; falir.

É fria! – expressão que indica uma complicação intensificada, risco ou prejuízo iminente: “_ não aceita esse negócio que é fria!”

Encher o rabo1-embriagar-se; 2- comer demais, empanturrar-se; 3- ter um lucro imenso.

Esbudegar – estragar, dar grande desgaste a algo. “Esbudegou o carro”.

Escreveu, não leu, pau comeu! – Expressão indicativa que a desobediência a um aviso terá consequência extremada, sem chance de novo alerta.

Estar comendo o gambá errado – diz-se de quando se atribui a culpa a alguém que de fato não está envolvido no caso. Culpar um inocente.

Fazer de bobo para viver – fingir-se de desentendido para se dar bem na situação.

Gambiarra1- reparo ou serviço provisório, feito sem esmero;  2- amante, concubina.

Guéri-guéri – frescura, mania, cerimonial desnecessário. “Fulano é cheio de guéri-guéri”.

Ideia de girico – pensamento ruim, ideia infrutífera, solução inadequada para um caso, ação inconsequente.

Influenza – gripe ou resfriado, indistintamente. “Peguei uma influenza”. “Estou de influenza”. Referência ao vírus Influenza, causador da gripe.

Lambisgóia – termo pejorativo aplicado a mulheres com baixo conceito em educação, comportamento social, reputação, personalidade.

Lavar a égua – se dar bem numa situação; alcançar elevado lucro; ser beneficiado. “Casou com um ricaço, lavou a égua.”

Lestreque – ótimo; delicioso. “Almoço lestreque”. Bonito, bem aparentado: “terno lestreque”.

Macacoa – urucubaca, azar, agouro, zebra, indaca, ziquizira, quizumba.

Mais velho que a mãe do sarampo – antiguíssimo; muito velho.

Mala e cuia – completo; com tudo o que pertence. “Mudou de mala e cuia” (não deixou nada para traz, levou tudo o que tinha).

Mamão com açúcar – muito bom, favorável, fácil. “A avaliação foi mamão com açúcar”.

Mandinga – feitiço, magia, ebó, trabalho espiritual. Referência à etnia mandinga, grupo de africanos islamizados trazidos escravos ao Brasil. Mandingueiro: quem faz mandinga.

Manduca – pejorativo: sujeito de aparência roceira, acaipirado. Cara de bobalhão.

Maniento – cheio de manias; quem ritualiza as ações mais simples da vida.

Manota – gafe; equívoco, embaraço.

Mão de vaca – sovina, usurário, ganancioso.

Mão na roda – facilidade, conveniência. “Sua ajuda foi uma mão na roda”.

Marafo(a) – cachaça. Africanismo. A palavra tem largo uso como terminologia dos terreiros de umbanda.

Maritaca – prolixo. Pessoa que fala muito como uma maritaca, ave que faz muito barulho, palradora.

Marmota1- feio, sem combinação estética: “essa roupa ficou uma marmota”; 2- atitude execrável: “fez uma marmota no meio da reunião”. Marmotagem: fazer marmota, comportamento ruim.

Matinada – grande barulho, gritaria, algaravia. Um dos orixás guerreiros de umbanda: Ogum Matinada, sincretizado com Santo Antônio de Pádua.

Matraca – falação. Conversa excessiva e sem sentido. Alusão ao instrumento idiofônico homônimo que produz muito barulho. “Fecha a matraca!” (cala a boca!)

Meganha – policial, guarda, na gíria popular, em tom um tanto depreciativo.

Meia-colher – diz-se do pedreiro que faz serviços de má qualidade. Pedreiro ruim. Mau profissional.

Melzinho na chupeta – o mesmo que “mamão com açúcar”. Situação muito favorável; coisa fácil demais; caso cuja resolução não tem a menor dificuldade.

Meter a boca no trombone – contar segredos a alta voz; revelar ao público questões ocultas; contar situações embaraçosas e comprometedoras sobre algo ou alguém. Denunciar.

Meter a língua nos dentes – tem o mesmo sentido de “Meter a boca no trombone”. Dedurar.

Mexer em caixa de marimbondo – envolver com algo perigoso; aproximar-se de uma pessoa perigosa; entrar numa situação arriscada.

Mingau das Almas – remela. Secreção mole e esbranquiçada, que se forma no canto dos olhos, logo cedo ao se acordar ou nos casos de certas inflamações. A expressão é uma comparação grosseira à oferenda dada às almas nos dias de segunda-feira (seu dia votivo) nos cruzeiros, constituída por um mingau de farinha de trigo bem ralo, servido num prato branco.

Miolo mole – “cabeça fraca”, “ideia runhe”: pessoa de pensamentos volúveis, inconstante, inconsequente.

Mironga – firmeza espiritual secreta, que não se revela a ninguém por questão de segurança, pois em seu segredo reside sua força protetora. Pode ser um patuá ou um objeto qualquer contendo o axé. Talismã. Mirongueiro: quem faz mirongas para si ou por encomenda para outrem.

Miserê – miséria; falta de dinheiro, crise financeira. “Vive no miserê”.

Mistereco – pouco, quase nada, resto. “Tem de fazer as compras do mês. Só tem um mistereco de mantimento na dispensa.”

Mixuruco – insignificante, desqualificado, de má qualidade, parco.

Mocorongo – cujo comportamento social se mostra desalinhado com as tendências modernas e urbanas; antiquado. Referente ao caipirismo. Retrógrado.

Modo de comer – expressão que equivale a “algo de comer”, comestível. “Estou com fome. Vou caçar um modo de comer.