Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 28 de dezembro de 2014

Dança da Pururuquinha



Folia de Reis "Embaixada Santa", Bairro Araçá, São João del-Rei/MG.
Apresentação no Largo do Rosário no Dia de Reis, 06/01/2011. 
Em torno dos bastões colocados no chão os palhaços dançam a pururuquinha ou chulinha. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Gravação: Maria Aparecida de Salles Passarelli

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Boas Festas!!!

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES deseja a todos os seus leitores um felicíssimo Natal e um excelente ano novo! Que a paz de Jesus irradie sobre esta Terra cheia de injustiças, guerras e atrocidades iluminando a mente dos homens para que construam um mundo melhor, na fé, na fraternidade, na paz e na caridade. Desejamos uma bênção especial para a saúde e o fortalecimento de todos os combalidos, que se encontram nos leitos de dor dos hospitais, ou mergulhados nas sarjetas da vida e nos vícios em geral. Que a Divina Providência e a Divina Misericórdia do Todo Poderoso nos ampare amplamente em 2015.





Notas e Créditos

* Fotografia: Maria Aparecida de Salles Passarelli, 2009, São João del-Rei
** Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Criação de Aves Domésticas

A fixação do homem no campo foi possível graças às atividades de agricultura e pecuária, que lhe deram uma perspectiva além do extrativismo que o fazia nômade. Desde remota antiguidade o ser humano domesticou animais para uso como alimento e trabalho de carga, montaria, tração, ou ainda, fornecimento de matéria-prima. 

A forma de criar, cuidar, cultivar... é do interesse dos estudos etnográficos e adentra pelo mundo da cultura popular em suas práticas e crendices. 

A criação de aves domésticas para fornecimento de carne e ovos é tão arraigada que muitas vezes, com o êxodo rural, as famílias ainda criam galinhas, patos, marrecos, gansos, perus e angolas, juntas no mesmo espaço, mesmo nas cidades, pelos quintais suburbanos. Mas independente de qual é a ave, o espaço do criatório se chama sempre galinheiro. 

Cercado de tela de arame, de fatura industrial, ou totalmente artesanal, feito de uma cerca de bambus postos bem juntos para que as aves não fujam, o galinheiro é uma forma de criação semi-extensiva das aves, onde recebem milho, restos de alimento humano, folhas descartadas de verduras e por vezes ração. Um vasilhame d'água, caixotes para servir de ninho (forrado de capim cortado) e um telheiro para servir de dormitório, completam o criatório rústico. 

Ninho de galinhas: trançado de cipó em suporte de bambu.
Forramento com capim-membeca. 

Nos ninhos usa-se esparramar sobre o capim um pouco de folhas verdes de erva de santa maria (Chenopodium ambrosioides), uma amarantácea (*) de cheiro muito forte, que age como repelente natural contra piolhos de galinha, praga que infesta as aves que estão chocando ovos. Como artifício para as galinhas botarem, deixam um ovo em cada ninho, chamado "indez", indutor da postura, recolhendo-se os demais para consumo. A galinha que inicia a chocar os ovos, diz-se "chóca"ou "impirriada", tendo um comportamento próprio, diferente das demais. Quando a galinha por algum motivo perde os ovos e continua impirriada, ela se alimenta mal, enfraquece e não bota mais. Continua deitada no ninho, como a chocar ovos imaginários. Usam então do artifício do "quebra-choco": a galinha é molhada para esfriar o corpo (em geral é mergulhada três vezes seguidas) e a seguir é presa num espaço limitado que a impede de voltar ao ninho. Assim fica durante alguns dias até que volte a se comportar normalmente, quando pode ser solta com as demais. 

Quando o espaço permite, é comum se soltar as galinhas durante o dia, deixando a porta do galinheiro aberta para que voltem à noite para dormir e botar. Mas nesta circunstância as mais ariscas acabam se aninhando no mato e localizar seu ninho é uma tarefa de rastrear pelo grito da galinha poedeira, buscando-se a direção e com olhar atento para se ver de que moita ela saiu. Tem sempre cuidado neste sentido pois é comum que essas desgarradas sirvam de alimento (ou seus ovos) para animais silvestres. Aos filhotes (pintos) se reserva cuidado dobrado pela fragilidade, sendo por exemplo alvo fácil de uma espécie de gavião acipitrídeo, Buteo magnirostris, que com freqüência rapina pintos. Por isto é odiado pelos sitiantes. O chamam “pega-pinto”, “papa-pinto” e “gavião-carijó”.

Muitos criadores então reservam os pintos num cercado próprio, o "pinteiro", para se prender a galinha com os pintinhos novos, onde receberão maiores cuidados e estarão mais protegidos de predadores e intempéries. Feito de tela industrial ou de forma rude num gradeado de bambu lascado.

Pinteiro. 

A mescla genética da galinha caipira é imensa porque diferentes raças vão sendo criadas juntas possibilitando os cruzamentos entre as garnizés, índias, rodes (Rhode Island Reds), sapateiras (com penas nos pés), barbudas, de topete, nanicas, suras, dentre outras. As variações de cor vão ganhando nomes, tais como carijós (pintalgadas de branco e cinza escuro ou preto), prata, vermelha, branca, preta, etc. Aliada a esta mescla a alimentação variada possibilita uma qualidade própria da carne e ovos que elevam seu valor como "galinha caipira", queridíssima na mesa e responsável por excelentes pratos de nossa culinária típica: galopé - galo cozido com pé de porco; galinha ensopada (cozida, com caldo grosso, por vezes com legumes), frita, assada ou como ingrediente para canja. O povo atribui à galinha caipira maior valor nutritivo que à de granja, de criação intensiva, exclusivamente na ração. 

Diz-se que no terreiro que se cria galinhas deve se ter uma preta no meio. A galinha preta protegeria toda a criação de mau olhado. Galo preto tem a mesma prerrogativa. Outra medida que livra o terreiro de um quebranto bravo é ter três galos, independente do padrão de cor das penas. Para livrar a criação de malefícios outro artifício é consagrar um galo sempre virgem a São Roque. O povo acredita ainda que no terreiro de criação, um galo cantando fora do horário habitual representa mal agouro. Galinheiro é local frequentado por espíritos imundos a horas mortas. Barulhos dentro dele pela madrugada não devem ser investigados, pois se a pessoa vai nele fora de hora, pode ser vitimada por um desses espectros, que passa a azucrinar a vida do indivíduo na qualidade de encosto. 

Dormitório de um galinheiro.

* A erva de santa maria, também chamada "mastruz" por vezes classificada no gênero Dysphania também é usada como repelente de pulgas e assim desfolhada nos canis e até por cima do colchão de dormir. Esfregada em água e usada como banho em cães e gatos afugenta as pulgas. Na medicina popular tem uso regional como vermífuga, fervida ao leite, mas seu uso interno é arriscado e não deve ser empregado sem acompanhamento de um especialista em fitoterapia. 
** Texto e fotos (Brumado de Baixo - pinteiro e dormitório; Brumado de Cima - ninho; São João del-Rei, 2009): Ulisses Passarelli 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Oração do Esporão e remédio para osteoporose

Sob o nome de "medicina popular" os folcloristas englobam uma série de práticas e formulações que o povo empiricamente adota e propaga como mecanismo de tratamento de certas doenças. 

Sempre que aborda tal assunto, este blog frisa o risco de semelhantes usos pelo eventual dano que pode trazer à saúde, pois tais receitas não foram cientificamente testadas e não se sabe seu real potencial de cura ou dano à saúde. Por isto, não se recomenda. Apenas se registra, pelo valor etnográfico e para que futuros estudos possam elucidar mais a questão.

Desta feita, seguem duas receitas populares coligidas em São João del-Rei no corrente ano, recolhidas de fonte familiar, difundidas informalmente por via manuscrita, distribuídas em cópias, aqui reproduzidas. Muitas vezes a perpetuação destas práticas se dá apenas por via oral, ficando neste caso consignada ao mesmo tempo uma prática de folk-comunicação. 

Uma curiosidade é que os dois exemplares adotam pés de galinha como matéria prima. A primeira em especial exige que seja de galo, pela necessidade da presença das esporas, que quanto maiores, tanto mais eficiência emprestarão à simpatia.

A espora do galo é um símbolo de virilidade. Quando a espora é grande e aguçada, maior o valor é atribuído à ave. A espora cortada e posta a secar, uma vez conservada com a pessoa se torna um amuleto capaz de repelir uma série de males. Uma arma córnea contra quebranto. Tanto mais se for de galo preto. Trespassada numa guia evoca a força da linha esquerda, dos exus. 

Quanto ao esporão é uma espícula (ponta) de osso que surge no osso do calcanhar (calcâneo) e provoca inflamação da estrutura das fáscias, gerando dor. É um incômodo terrível que aflige a muitas pessoas. 

No caso da primeira receita, ou antes, simpatia, existe uma analogia entre o esporão do pé e a espora do galo, que passada sobre o pé do paciente com o enunciado próprio, tiraria supostamente o problema, uma vez que enterrada. Esta simpatia conserva elementos típicos, por magia simpática. Enterrar equivale a exterminar o mal. A recomendação de ser onde a pessoa não passará é uma tradicional medida de segurança para evitar que o mesmo mal retorne. Os pés do galo são esfregados sobre a pele três vezes, e o número de preces também é regulada em três, de valor especial no folclore. 

Eis a transcrição:

"Oração do esporão. Dois pés de galo que tenham esporão, passe dos joelhos para baixo nos dois pés, mesmo que não esteja doente e reze: 'esporão, esporão! Leve este mal para onde eu não vejo', e de três vezes, reze três pai-nosso, três ave Maria, pede a Jesus que leve essa enfermidade. Enterra os pés em lugar onde a pessoa não vai passar."




É preciso frisar que não existe objeção a consumir o galo desta simpatia como alimento. Apenas os pés são usados.

A receita seguinte não se prende à pretensão mágica da simpatia. Apela em verdade para a química dos componentes, retirado o óleo que sobrenada no ato da fervura dos pés de galinha, fonte específica para fornecimento de cálcio nesta prática popular. O produto é ingerido parcimoniosamente, tomando-se de cada vez em medidas de colher, para o combate à osteoporose, segundo a crença.  

Receitas como esta são comuns no seio popular. Eis a que está em questão: 

"Remédio para osteoporose 

2 Kg de pés de galinha;
2 litros de água ou mais, se precisar;
1 copo e meio de açúcar;
2 cavacos de canela;
2 nozes moscadas pequenas
2 copos americanos de caldo de laranja;
2 folhas de gelatina sem sabor;
1/2 copo americano de vinho branco seco.

Modo de preparar
Cozinhar bem os pés com 2 litros de água. Se precisar, acrescente mais. Deixar na panela de um dia para o outro. Retirar o óleo que fica por cima e jogar fora. Levar novamente ao fogo. Colocar os demais ingredientes e deixar ferver bastante. A gelatina pode ser dissolvida no próprio caldo. Tomar às colheradas, ao dia." 



A "medicina popular" é uma vertente riquíssima da cultura popular e em cada região tem suas próprias características, componentes, formulações... fonte inesgotável para estudo e pesquisa do folclore. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Terra de Jesus

Em São João del-Rei, em plena zona urbana, três velhas igrejas setecentistas foram erigidas como que nos vértices de um triângulo imaginário, consagradas ao Senhor Bom Jesus, sob diferentes invocações: numa colina ao sul, aquela singela capelinha branca, dedicada ao Senhor do Bonfim (1769); ao norte, também num morro elevado, a do Senhor do Monte, de data exata incerta; na baixada da várzea da Água Limpa, à beira do antiquíssimo Caminho Geral do Sertão e já bem mais imponente que as anteriores, surgiu em 1770 a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

Contraponteando quatro igrejas coloniais dedicadas a Maria, no Centro Histórico, estas consagradas ao Cristo ficaram à margem do núcleo urbano principal, pelos então chamados arrabaldes. Apesar da distância e aclive, nem por isto, deixaram de ser prestigiadas pelos devotos, sendo alvo de romarias ao longo dos anos e animadas festividades, conforme atestam antigas fontes jornalísticas da cidade. 

Capela do Senhor Bom Jesus do Bonfim, São João del-Rei, set./1998. 

Sobre a Capela do Bonfim (*) o que se sabe é que no ano de 1769, segundo CINTRA, a 06 de maio ...

"O Senado da Câmara da Vila de S.João del-Rei concede a José Garcia de Carvalho 'dezesseis braças de terra que pede pagando de foro a este Senado em cada ano meia oitava de ouro'. 'O suplicante como devoto do Senhor do Bonfim pretende fazer uma capelinha para se celebrar missa, a qual pretende fazer no morro por detrás da Intendência' (etc.)".

Pela data, fica claro então que a afirmação de que este templo é o mais antigo da cidade, ainda corrente entre muitas pessoas, não procede de forma alguma. Sabe-se que antes dele houve uma igreja no Bonfim, mas dedicada à padroeira Nossa Senhora do Pilar, "edificada no Morro da Forca, mais ou menos no lugar onde se encontram as duas caixas de água velhas e o Grupo Escolar Inácio Passos à Praça Guilherme Milward", segundo ALVARENGA.  Foi construída logo depois da Guerra dos Emboabas (1707-1709), quando a primitiva, da época da fundação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar (1705), situada no morro oposto, encosta das Mercês, junto às lavras, foi incendiada numa das refregas entre paulistas e emboabas. Bem, a Igreja do Pilar que existiu no Bonfim foi demolida em detrimento da atual Matriz do Pilar (Catedral Basílica desde 1965), em 1721 e seus materiais aproveitados na obra desta, definitiva. 

Interior da Capela do Bonfim vendo-se nas laterais as imagens de
São Francisco de Assis (esq.) e São Benedito (dir.). Setembro/1998. 

O Morro do Bonfim na parte mais baixa possui um cruzeiro antigo, possivelmente do fim do século XIX, marcando o centro da Praça Guilherme Milward, popularmente chamada até hoje "Morro da Forca", local onde no passado erguia-se o cadafalso da vila. Neste cruzeiro até uns anos eram afamadas as Festas de Santa Cruz pelo mês de maio, hoje desaparecidas. Afamaram-se também no bairro as barraquinhas do padroeiro, que se concluem no primeiro domingo de agosto, conforme mostra esta notícia d'A Opinião nº 23: “Começaram no dia 20 deste as novenas do senhor do Bom-fim, que terminarão no dia 29 do corrente, havendo todos os dias, após as novenas, leilão de prendas”.

Sua capela em São João del-Rei recebeu um sino novo em 1919, vindo de São Paulo, graças aos esforços de Severiano Rodrigues, dentre outros, conforme A Tribuna, nº255.

Cruzeiro do Morro da Forca. Ao fundo, a Capela do Bonfim. 

Já a igrejinha do Senhor dos Montes certamente foi erigida em data não precisada, devido à ausência de documentos primitivos, decerto perdidos. É possível deduzir que seja do final do século XVIII ou começo do seguinte, com base nesta citação de CINTRA, referente à data 23/02/1801:

"Para constituição do patrimônio da Capela do Senhor Bom Jesus do Monte, Manoel de Sá Peixoto e sua mulher Bernarda de S.José adquirem do Pe. Antônio Gonçalves de Siqueira, zelador e provedor do citado templo, 'uma chácara sita ao sopé do Senhor do Monte desta Vila com seus pertences, horta, quintal, pasto que ao presente se acha cercado de muros e valo', (etc.)". 

Cruzeiro e Igreja do Senhor Bom Jesus do Monte, São João del-Rei, 1998. 

Ora, o patrimônio de uma capela era formado no ato de sua construção ou imediatamente antes, por ocasião do planejamento da obra, mas habitualmente não décadas antes. No mais o texto supra-transcrito diz "ao sopé do Senhor do Monte desta Vila". O nome veio com a capela, não antes. O sistema antigo de denominação de logradouros era assim. O nome primitivo mudava com a construção da igreja do lugar, do qual existem muitos exemplos. 

É frequente se afirmar que foi construída na década de 1840. Se assim foi, o quer dizer da citação de 1801? É possível que tenha havido uma capela primitiva, substituída ou ampliada nos meados dos oitocentos? A capela original é certamente dos setecentos. Luís Antônio do Sacramento Miranda, em gentil colaboração, informou-me, pessoalmente, acerca da possibilidade do nome original dessa devoção ser "Bom Jesus de Trás os Montes", uma referência à geografia portuguesa, mais tarde alterada para Senhor dos Montes. 

BURTON, em 1867, escreveu sobre esta construção:

"À nossa esquerda, fica a horrorosa capela de Nossa Sra.(sic) do Monte, parecida com os templos das modernas colonias espanholas, com duas janelas (com persianas pintadas de vermelho) e uma só porta, dando a impressão de um rosto sem nariz."

No ano de 1900 foi construída sua única torre, conforme noticia o jornal O Combate:

"Graças aos esforços do zeloso encarregado da capella do Senhor Bom Jesus do Monte o estimado sr. Emilio Viegas - foi levantada uma torre que está prompta na referida Capella. É um trabalho sólido e elegante que muito realça a bellesa da poetica Egrejinha."

Em maio de 1905, um jornal da cidade (O Repórter, n.19) registrou em nota intitulada "Senhor dos Montes":

"Com muita concurrencia e sempre animadas correram as festas que se fizeram nos dias 21, 22 e 23, na bella capellinha do Senhor Bom Jesus dos Montes, pitoresco arrabalde desta cidade. São procuradores das festas do anno de 1906, os senhores Lucio Justino de Andrade do 1º dia; José Machado do 2º e Francisco de Paula Assis do 3º."

Os zeladores da capela eram então os srs. Capitão Francisco Balbino de Mello e Emílio Viegas (O Repórter, nº27).

A Câmara por esta época tocava obras de abastecimento d'água no Senhor dos Montes. Em setembro de 1905 ficou pronto o chafariz provisório do bairro, obra de canalização de José Francisco de Athaydes, jorrando água abundante e de melhor qualidade que a do restante da cidade, nos diz O Repórter nº35.

No ano seguinte a imprensa registrou nas páginas d'O Repórter nº15, a  animação dos quatro dias festivos, com grande aglomeração de povo. Foi destacada a boa ordem dos festejos. Tocou a Orquestra e Banda Lira Sanjoanense sob a regência de Luiz Batista Lopes. O celebrante foi o Padre Custódio Sabino Franklin.

No cruzeiro fronteiriço, desde longa data, as romarias de maio eram coroadas com fervorosas festas em honra à Santa Cruz. Tais festejos alcançaram celebridade e sendo o local considerado um arrabalde à época, os melhoramentos que chegavam eram inaugurados ao tempo desses festejos, como a chegada da luz elétrica tardiamente, em 1926, marcada a inauguração para o primeiro dia dessa festa no "Senhor-dos-Montes" (como se intitula a nota d'A Tribuna), que anunciava também promessa de canalização de água potável para o ano seguinte, pelos esforços do Deputado Estadual (na época se dizia Provincial) Sr. Basílio de Magalhães. Em outra nota do mesmo jornal e com o mesmo título, em julho, anunciava-se a nova pintura externa da igreja, elogiada pelo resultado e motivo de celebrações locais.   

A Igreja do Bonfim ainda é ligada aos franciscanos da Paróquia de São Francisco de Assis e a do Senhor do Monte desvinculou-se em 1999 da do Pilar, tornando-se em nova paróquia a 26 de novembro daquele ano.

Augusto Viegas, em parágrafo magistral, assim se referiu às capelas do Bonfim e Senhor do Monte sobranceiras à cidade:

"Muito brancas, armadas de argênteos campanários que ressoam a distâncias imensas e da cruz, que se projeta até o infinito, dir-se-iam, ante o esplêndido destino a que as consagrou a tradição, cândidas sentinelas morais a velarem pela fé e pelo civismo da população que no vale entre elas moureja." (sic, p.265)

Noutro lado da cidade, em Matosinhos, destaca-se o santuário onde concorrem fiéis desde os setecentos. No platô do grande bairro, edificou-se a partir de 1770 uma bela igreja, de cuja primeira festividade já se tem notícia quatro anos depois, por ocasião de Pentecostes. A devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos se disseminou com grande vigor, bem mais que outras invocações aqui populares. Ainda hoje a Procissão do Senhor de Matosinhos é das mais concorridas, sem exagero, uma das cinco maiores da cidade em volume de fiéis, se não for a maior... No santuário destacam-se as comemorações da Semana Santa, crescentes em vigor e dois jubileus, um consagrado ao Divino Espírito Santo e outro ao padroeiro. Além, destas, correm várias outras comemorações anuais. 


Frontispício e interior da primitiva Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. São João del-Rei.
Autor e data não identificados. Fotos gentilmente cedidas por Osni Paiva. 

Lamentavelmente a igreja primitiva do Senhor de Matosinhos foi demolida por ocasião de seu bicentenário e substituída pela atual que se vê parcialmente na fotografia abaixo.

Santuário do Senhor Bom  Jesus de Matosinhos, set.2004.
São João del-Rei/MG.

Na zona rural de São João del-Rei, a devoção ao Cristo também se nota fortemente. No povoado do Chaves, extremo sul do município, no alto de uma colina aplainada no topo, desde ao longe se avista a Capela do Monte Calvário, dos meados do século XX, onde o Senhor Bom Jesus é festejado anualmente, em animado evento que congrega toda aquela comunidade e demais sitiantes e moradores dos povoados circunvizinhos. Na Cananéia e na Colônia do José Teodoro existem duas capelas centenárias sob orago do Sagrado Coração de Jesus (**).


Capela do Sagrado Coração de Jesus, Colônia José Teodoro,
em vista frontal e posterior. Fevereiro/2004. 
Sá Luíza da Cananéia, foi uma senhora cuja dedicação à vida religiosa, bem se poderia, de certa forma e guardadas as proporções, por analogia, comparar-se à de Nhá Chica. É uma personagem popular ainda lembrada pelo povo fiel do distrito de Emboabas que está a merecer uma pesquisa aprofundada e urgente das fontes memorialísticas. Foram seus esforços que encabeçaram as obras de edificação daquela capela rural.

Na colônia, a igrejinha simpática parece olhar do morro para a antiga estrada para Ritápolis e para o leito da extinta Linha do Sertão, da EFOM. Foi construída em 1909 e as famílias de migrantes italianos tiveram força decisiva no processo de sua construção.


Referências Bibliográficas

ALVARENGA, Luís de Melo. Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Juiz de Fora: Esdeva, 1971. 80p.il.
BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. 
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. 
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1969. 


Referências Hemerográficas

O Combate, n.10, 05/09/1900
O Repórter, n.19, 25/05/1905
O Repórter, n.27, 16/07/1905
O Repórter, n.35, 17/09/1905
O Repórter, n.15, 20/05/1906
A Opinião, n.23, 21/09/1907
A Tribuna, n.255, 18/05/1919
A Tribuna, n.744, 29/04/1926
A Tribuna, n.737, 18/07/1926

Notas e Créditos

* Segundo GAIO SOBRINHO (2010), na Rua Marechal Bittencourt (antiga Rua da Cachaça), no Centro Histórico de São João del-Rei, houve um Oratório do Senhor do Bonfim, conforme notícia de 1815 (p.211). Os oratórios eram pequeninas capelas, à semelhança dos passinhos.
**A devoção ao Sagrado Coração de Jesus difundiu-se bastante pelas igrejas rurais da região: Penedo (Ritápolis), Igreja do Gaspar, no Elvas (Tiradentes), São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei) - junto com o padroeiro, etc.
*** Texto e fotografias (Bonfim, Cruzeiro, Senhor do Monte, Sagrado Coração de Jesus, Matosinhos 2004): Ulisses Passarelli
**** Obs.: as referências hemerográficas foram tomadas de jornais editados em São João del-Rei, do site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, a cujo acervo pertencem.

domingo, 14 de dezembro de 2014

João Teimoso

As crianças de hoje em dia, desde muito cedo vivenciam a modernidade dessa vida digital e vêem nos brinquedos eletrônicos uma das principais fontes de lúdica. Muito diferente de poucas décadas atrás que a infância era embalada por brincadeiras tradicionais e brinquedos típicos hoje inimagináveis. 

Longe de querer julgar valores ou abrir uma infindável discussão nesse rumo, apenas lembrei-me hoje de um deles: o simplório joão teimoso, ou joão bobo, um boneco que via de regra sempre voltava à posição inicial mesmo que se forçasse outra. 

Por trás de sua simplicidade, revelava a engenhosidade de seu projeto. Era um boneco em peça única, que tinha a parte de baixo do corpo bojuda e arredondada, como uma semi-esfera, sem pernas, e a superior estreita. Como o peso se concentrava na parte inferior ele não tombava fácil quando batido com a mão. Girava, balançava e tornava a ficar em pé sozinho, recuperando aos poucos a posição original com movimentos cada vez mais lentos e curtos, até parar. Parecia ter vontade própria ... Originalmente tinha construção artesanal, feito em madeira, mas a oras tantas foi reproduzido em plástico ou borracha, pela indústria, inclusive exemplares infláveis. 

Outro modelo, também em madeira, era formado de duas peças: montava-se em meio corpo, terminado em ponta rombuda, em equilíbrio sobre uma coluna de madeira, numa concavidade que se encontrava num de seus extremos. Com os braços abertos segurava um arco de arame, com abertura para baixo, tendo um bola em cada ponta. Batido com as mãos, descrevia movimentos de pêndulo, que aos poucos perdiam força para alcançar de novo o equilíbrio. 

Suas imagens aqui reproduzidas à guisa de esboço, não me vem de nenhum modelo ao alcance dos olhos, mas de fugidias lembranças da inocente infância e portanto podem apresentar alguma inexatidão do tracejado. 

Ao artesão que se habilitava a construir um joão teimoso, implicava um conhecimento quase intuitivo de física, devendo calcular com exatidão as dimensões e espessuras das partes do boneco para permitir o reequilíbrio e movimentos harmônicos. Não era fácil nem é fora de senso dizer que seria um bom exercício prático (e lúdico!) para estudantes se familiarizarem com o universo das leis da física. Bem poderia ser um brinquedo utilitário, educativo, filosófico ...

Por fim é mister dizer que a linguagem popular reserva por analogia a alcunha de "joão teimoso" ou joão teimosia, um tanto pejorativa por sinal, ao indivíduo que não arreda do lugar, recusando mudar de postura de vida mesmo tangido pelas vicissitudes. Permanece estático, não evolui; ou, então, se agita temporariamente, mas passada a provocação, pouco a pouco retorna à sua inércia. João teimoso é pois a pessoa teimosa com a própria vida. 

* Texto e desenhos: Ulisses Passarelli 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Santo Antônio... de Caltagirone ou de Noto?

A uns quinhentos anos nasceu em terras africanas um negro, filho de pais muçulmanos, cujo itinerário de vida o conduziu virtuosamente à santidade.

O protagonista desta postagem nasceu na cidade de Barca, no nordeste da Líbia, na costa oriental daquele país, região chamada Cirenaica.

De espírito religioso, este islamita foi capturado como escravo e forçado às galés da Sicília, na costa italiana. Foi vendido a um fazendeiro das imediações da cidade siciliana de Noto, na província de Siracusa. Nos dizeres de Gaio Sobrinho,

"arrematado por João Landávula, este, ao casaram-se-lhe as filhas, deu-o aos genros como parte do dote. Teve, então, o destino de cuidar dos rebanhos de seus novos senhores, como vaqueiro e retireiro. De boa índole, recebeu de bom grado os ensinamentos cristãos, abjurou o Islamismo e deixou-se batizar tomando o nome de Antônio, por homenagem a Santo Antônio de Lisboa". Devoto do rosário de Nossa Senhora, distinguiu-se pelas virtudes da temperança, penitência, docilidade e trabalho."

Consta pela mesma fonte, que era caridoso e dava leite das ovelhas de seu senhor aos pobres e que trabalhava na pastorícia sem reclamar de nada. 

Mais tarde foi alforriado e tornou-se franciscano, ingressando na Ordem dos Frades Seculares. Sem esquecer as orações, dedicou-se então à prática da caridade, dando assistências aos doentes. 

Por fim tornou-se eremita, em vida contemplativa no deserto. 

Festejado a 14 de março, este milagroso santo não teve o corpo corrompido. Ainda Gaio Sobrinho, diz: “muitas vezes era surpreendido em êxtase diante do altar, envolto de luz, com o corpo irradiando chamas (...) quando morreu, em 1549, os sinos de todas as igrejas de Noto, na Sicília, puseram-se a tocar sem ninguém que os tangesse.”

Ao que parece, salvo engano, ingressou no mosteiro da cidade siciliana de Caltagirone, na província de Catania. O nome desta cidade é motivo de muitas corruptelas na pronúncia do brasileiro: Calatagirona, Catagerona, Catalgerona, Catalagerona, Cartilagerona, Cartagerona, Catigerol, Catigeró, Categeró (talvez a mais comum), Catigerá, Catigeraba, Catiberá. 

Em razão do acima exposto este santo foi denominado Santo Antônio de Noto, em referência à cidade onde foi escravizado, ou Santo Antônio de Caltagirone, em referência à cidade onde ficava seu mosteiro, depois de alforriado. É ainda conhecido por "Santo Antônio de Cartago".

Paira, entretanto, uma nuvem sobre a sua identidade. O autor já citado nesta postagem acredita que Santo Antônio de Noto e de Caltagirone são dois diferentes e não o mesmo. Segundo Gaio Sobrinho, o de Noto faleceu em 1549 e o de Caltagirone em 1515.

Como não encontrei base convincente para esta assertiva prefiro por oras considerar que se trata do mesmo santo. Seria como o famoso Santo Antônio, o de 13 de junho, "o Casamenteiro", que agente festeja com fogueiras votivas: Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu, em Portugal) ou Santo Antônio de Pádua (onde morreu, na Itália). 

Nos tempos do cativeiro, foi padroeiro dos escravos, junto com Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, São Benedito e Santo Elesbão. Em São João del-Rei há uma bela imagem sua na Igreja do Rosário que o representa como um homem negro com hábito de frade. Segura o Menino Jesus ao colo e traz um resplendor prateado à cabeça. 

É destaque também sua imagem na setecentista Igreja de São Benedito de Tiradentes/MG. 

Na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, em São João del-Rei, os congados erguem-lhe um mastro votivo, em cujo extremo, um quadro emoldurado com a pintura de sua efígie, abençoa a praça em festa. Está entre os padroeiros dos congados, reconhecido por muitos capitães que rezam a ele, embora raramente lhe dirijam cantorias: 

“Me ajuda meu Sant’Antônho! 
Sant’Antônho de Catigerá! 
Êh ... Santo Antônho! 
Não me deixa a cangira virá!...” 
(Moçambique, Passa-Tempo / MG, 2001). 

Diz sua oração: 

“Oh, milagroso Santo Antônio de Categeró, / valei-me nesta hora de aflição! / Preciso da vossa ajuda para vencer as lutas do dia a dia / e as forças malignas que procuram tirar-me a paz. / Libertai-me das doenças e de todas as bactérias infecciosas / que querem contaminar o meu corpo colocando-me enfermidades. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / estendei as vossas mãos agora mesmo sobre mim, / livrando-me dos desastres, da inveja e de todas as obras malignas. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / iluminais os meus passos, a fim de que, / onde quer que eu vá, não encontre empecilhos, / e guiado pela vossa luz me desvie de todas armadilhas preparadas pelos meus adversários. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / abençoai a milha família, / o meu pão e a minha casa, / cobrindo-nos com o véu da prosperidade, do amor, da saúde e da felicidade. / Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém!” (c/aprovação eclesiástica). 
(Fontes: São João del-Rei, Bairro Tijuco, 1993 - santinho /  impresso em jornal da cidade, classificados, 2001). 

  
Mastro de "Santo Antônio de Categeró" no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei, durante os festejos congadeiros em honra ao rosário. 

Imagem de Santo Antônio de Caltagirone. Igreja do Rosário, São João del-Rei.
Acervo da Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário. 

Existe ainda uma discussão acerca da verdadeira existência deste santo, posta em dúvida por alguns. Há ainda que atribua a difusão de sua devoção a uma dissidência do catolicismo romano. Controvérsias à parte, o santo segue em seu prestígio, querido pelo povo.


Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il. p.35-37. 


Referências na Web

BETTENCOURT, Estêvão, Dom. Quem é Santo Antônio de Categerõ. InCatólicos on-line (acesso em 11/12/2014, 13:05 h)

Wikipédia, verbetes: Antônio de Categeró, Cirenaica, Noto (Itália), Caltagirone (acesso em 07/12/2014, 09:20 h)


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 11/12/2014 (imagem); 18/09/2016 (mastro).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Superstições do espelho

Os Irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm) num trabalho memorável, coligiram na Alemanha versões de contos e fábulas, que eternizaram em livro nas primeiras décadas do século XIX e que ainda hoje, encantam adultos e crianças. Dentre eles, um dos mais conhecidos é a Branca de Neve.

Tornado um grande clássico cinematográfico em 1937, sob a genialidade extraordinária de Walt Disney, marcou-nos com cenas sublimes e aprimorada técnica, e uma frase antológica: "Espelho, espelho meu...", com a qual a madrasta de Branca de Neve, possuída das piores características humanas, fitando um espelho mágico, perguntava-o quem era a mulher mais bela do reino. Sempre fidedigno, respondia o espelho por meio de uma voz, que era ela, a rainha, a de maior beleza. Mas um dia, a enteada, Branca de Neve, alcançou no vigor da juventude, uma beleza ainda maior, anunciada pelo espelho mágico e motivo de cruel perseguição pela madrasta invejosa. 

Além dos contos de fada, na mitologia a sereia aparece sentada numa pedra à beira-mar, observando, vaidosa, sua própria beleza irresistível num pequeno espelho de mão. Dentre os orixás, a prestigiada Iemanjá também tem o seu espelho. O espelho, rodeado de búzios brancos, preso a uma capa com capuz, é fetiche do orixá Dadá, protetor dos vegetais.

Desde tempos mais antigos até aos dias atuais, o espelho é um objeto ligado a algumas superstições. A título de exemplo, em São João del-Rei é corrente (e aliás, na circunvizinhança): 


 Palhaços de folia de Reis de Ritápolis/MG, vendo-se o típico chapéu de cone
com aplicação de espelhos. 1996 (esquerda, com a bandeira) e 1995 (direita). 


- quebrar um espelho representa mal presságio, sorte ruim. Quebrar um vidro comum já não tem o mesmo significado, considerando-se sinal de boa sorte, pois se quebrou um mal iminente, inveja, demanda. Um umbandista explicou-me certa feita, que os exus protetores usam os cacos de vidro como armas contra espíritos sem luz (quiumbas). O mesmo não acontece com o espelho; 

- não é bom olhar num espelho quebrado, pois confunde a mente ao se ver a própria imagem distorcida; 

- dá azar conservar um espelho quebrado em casa. Atrai coisas ruins, espanta a boa sorte. Deve-se livrar dele; 

- olhar concentradamente um espelho, em prece ao anjo da guarda, para mostrar um fato que está acontecendo e no qual se pensa com firmeza, pode permitir a vidência do mesmo, revelado como uma cena diante do espelho;

- pessoa que se transforma de estado emocional ao se ver no espelho, por exemplo, passando de calma a agitada ou nervosa, está acompanhada de encosto (espírito perturbador em companhia); 

- xingar, falar palavrões, impropérios diante do espelho, ou olhar nele com ódio e rancor, faz com que o mal retorne para a própria pessoa;

- não se deve segurá-lo ou nele olhar durante uma tempestade pois atrai raios; 

- para prevenir a atração dos raios, deve-se cobri-lo completamente com um pano durante a chuva; 

- reflete mal-olhado para quem enviou. Rebate as más influências. Por isto é muito usado preso aos chapéus de dançantes de folguedos populares. Certos folcloristas tem interpretado o fato como uma inconsciente representação solar, pelo brilho refletido, velhíssima herança astrolátrica. Respeitosamente, não endosso esta visão. A causa é mais espiritualista: exus, quiumbas, eguns, almas aflitas, sacis, pombas-gira e outros espíritos da linha esquerda, sobretudo os inferiores, malfazejos, não olham de forma alguma no espelho, pois não toleram ver suas próprias formas desarmônicas, que espantariam a si mesmos. Logo o espelho nos chapéus não permite sua aproximação. De fato, se é mais comum fixá-lo na área frontal do chapéu, mas não é raro vê-lo também nas laterais e atrás, cortando a aproximação por todos os lados. 

Espelho ao centro do chapéu de um congadeiro
de Santa Cruz de Minas. 2014. 

Cascudo registrou muitos exemplos supersticiosos acerca do espelho, atestando sua universalidade e ancestralidade, ligando-o à mitologia e explicando que a imagem representa o duplo, o outro eu, no ponto de vista psicanalítico, passível de males como a própria matéria. 


Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli (congado) e Ulisses Passarelli (folias)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Garapa, o doce caldo da cana

Garapa é o caldo da cana-de-açúcar, riquíssimo em sacarose. É extraída moendo-se o colmo deste vegetal em moendas, em pequenas quantidades para o consumo in natura, ou em quantidades maiores para servir de matéria-prima para a fabricação de etanol, cachaça, melado, açúcar e rapadura. 

As moendas podem ser elétricas, de fabricação industrial (movidas a motor com polias) ou manuais, de fabricação artesanal, que são as que interessam a este blog. Estas são chamadas engenhos (as maiores) ou engenhocas (as menores). 

A garapa é muito usada como bebida refrigerante consumida com temperatura ambiente ou resfriada. O povo a considera uma bebida forte, nutritiva, que fortalece o sangue e a musculatura. Também é misturada à cachaça, como aperitivo. 

Alguns versos populares registram o seu consumo e predileção: 


“O engenho moeu. 
A garapa é minha. 
O bagaço é seu ...” 
(Terceto infantil, Santa Cruz de Minas, 1997). 


Na umbanda a garapa é bebida preferida de muitos Negros Velhos, ofertada em cuias feitas com a metade de um coco-da-baía seco, cabaça ou cuité. Esta oferenda deixou reflexo num canto congadeiro de catupé de São João del-Rei (2005), com duas versões atuais: 


“Ai, eu quebrei coco, 
pra cuia fazê, 
pra levar aguinha, 
pro vovô bebê!” 

“O engenho tá muendo! 
Deixa o engenh’ muê! 
Pra fazê garapa, 
pro vovô bebê!”. 


Na gíria própria, Vovô é sinônimo de Negro Velho, entidade de umbanda. Note ainda o outro eufemismo, "aguinha", por garapa. 

Garapa é ainda uma espécie de árvore leguminosa, Apuleia leiocarpa, da família das fabáceas, usada em marcenaria, caibros, construção civil, soalhos, tacos, postes, carroças, carrocerias, dormentes, vigas, moirões e canoas.
  
Engenho de bolandeira ou engenho de manjarra.
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei/MG). 

* Texto e foto (1996): Ulisses Passarelli

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Azeites

Segundo o verbete dicionarizado, originalmente é o nome do óleo extraído da azeitona (oliva), fruto da oliveira. Por extensão, a palavra se aplica a outros óleos. O termo procede do árabe, azzait

De uso antiquíssimo na humanidade, nos meios populares o azeite verdadeiro, ou seja, o de oliva, é conhecido por azeite-doce. Além do uso culinário normal, sobretudo para temperos de saladas, e outros usos na cozinha, é muito adotado na cultura popular na composição de remédios. Tomar a medida de uma colher das de sopa cheia de azeite puro resolveria o intestino preso numa constipação; um cálice de azeite bebido após uma ressaca curaria os efeitos sintomáticos da bebida alcoólica.

Azeiteira artesanal produzida do aproveitamento de uma lata de óleo de soja.
São João del-Rei, 1999. 

Outro "azeite" muito conhecido é o de dendê, óleo espesso e forte extraído dos frutos de uma palmeira de origem africana, o dendezeiro (Elaeis guineensis), aclimatada no Brasil. O azeite de dendê tem pequeno uso na culinária típica regional e liga-se mais ao uso ritual na cozinha de santo, ou seja na produção de alimentos que serão oferecidos aos orixás e demais entidades em sessões religiosas nos terreiros de matriz africana, nos ebós, despachos, trabalhos. O dendê dá um azeite considerado "quente", ou seja, forte, calórico, capaz de atrapalhar o organismo não habituado ao seu consumo, gerando diarreia e intoxicação. Por isto seu uso deve ser moderado.

O azeite de mamona não é comestível. Tem uso medicinal na cultura popular, na produção de unguentos, ou puro, em fricções, às quais se atribui o poder de arrefecer doenças de pele. Uma massa de farinha de mandioca pura (branca, não torrada), azeite de mamona e maceração das minúsculas folhas de parentalha (= paretária), teria propriedades de, se aplicada como emplasto sobre a pele por meia hora pelo menos, puxar do interior do corpo o processo inflamatório e a friagem. Quem usa tal emplastro deve a seguir ter a parte coberta por um pano branco ou faixa, justa ao local e guardar repouso.

Também é usado para iluminação, ardendo como combustível em rudes lamparinas, candeias e candeeiros. Segundo GAIO SOBRINHO (2010), na ata da sessão nº31 da Câmara de Vereadores de São João del-Rei, datada de 13/07/1854, cuidaram os edis da iluminação pública urbana, pelo que "foram colocados vários lampiões de azeite em diversos locais da cidade, como no sobrado novo de João Antônio da Silva Mourão" (atual sede do Museu Regional).

Empregado outrossim como lubrificante pelos carreiros, que trazem na lateral do carro de bois um reservatório (azeiteira) feito de chifre de boi, cheio desse azeite, para de tanto em tanto passar nas cantadeiras, diminuindo o atrito excessivo entre eixo e cocão e assim prevenindo o desgaste das peças.


Azeiteira de carro de bois.
Tiradentes, 2013. 

A produção do azeite de mamona é artesanal, extraído após maceração e fervura das sementes.

Estes são os azeites conhecidos nos Campos das Vertentes, embora noutras regiões surjam outros óleos como tais conhecidos: para o norte do Brasil foi muito usado o criminoso azeite de peixe-boi, extraído do mamífero hoje ameaçado de extinção; no Pantanal, o azeite de peixe, tirado de caldeirões que lamentavelmente fervem miríades de lambaris.

Por fim não é demais lembrar que as receitas etnográficas aqui registradas, de uso entre os remédios do povo, são fórmulas folclóricas e não científicas, não sendo portanto recomendado seu uso pelos riscos que podem trazer à saúde.


Referências Bibliográficas

Dicionário Prático Ilustrado. Atualizado e aumentado por José Lello e Edgar Lello. Porto: Lello & Irmão, 1970. 3v. v.1, p.1-680; v.2, p.681-1312. 

GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.135.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Aroeira, árvore brava

Aroeira é o nome dado a várias espécies de árvores das quais o povo guarda certo temor pois causariam uma suposta reação alérgica nas pessoas sensíveis, marcando fortemente a pele com eritemas, pápulas, vesículas, vergões, prurido, ardência. O vigor das reações dermatológicas varia conforme o tipo de aroeira e a sensibilidade da pessoa. 

Aqui na região algumas árvores anacardiáceas recebem o nome de aroeira: 

- Aroeira-salsa (Schinus molle): espécie muito usada em arborização urbana.
- Aroeira-branca (Schinus terebinthifolius): também chamada aroeira-mole (por causa da madeira fraca), aroeira-fria (porque causa irritações de pele de menor intensidade) e aroeira-mansa; 
- Aroeira-preta (Lithraea molleoides): conhecida ainda por aroeira-brava e aroeira-quente (causa irritações fortes e grande queimor na pele, com empolados que por vezes deformam a fisionomia da pessoa temporariamente);
- Aroeira do sertão (Myracrodruon urundeuva): árvore antes classificada no gênero Astronium, muito ameaçada pelo corte excessivo. Fornece madeira de excelente qualidade para várias benfeitorias rurais, tais como esteios, postes, moirões, peças de mecanismos hidráulicos e pilares de ponte, como as que sustentavam a Ponte do Porto Real da Passagem, construída a mando de Marçal Casado Rotier, sobre o Rio das Mortes, de que ainda se podem ver vestígios, mergulhados nas águas desde 1735. Sobre esta aroeira, disse Eurico Santos: "a madeira, quando seca, é difícil de ser trabalhada, cegando a ferramenta. Madeira imputrescível, rija, pesada. (...) Imune ao cupim." (p.82)

Tocos de aroeira do sertão dentro do Rio das Mortes entre São João del-Rei e Santa Cruz de Minas
revelam vestígios dos pilares da primitiva Ponte do Porto. Foto durante a estação seca de 1998. 

Em torno da aroeira desenvolveram-se algumas manifestações do folclore brasileiro. Num calango recolhido em 1996 em Barbacena, saiu esta quadrinha cantada: 

“Embaúba é pau do mato, 
aroeira é do sertão
dei um tapa no caixote
esfolei a minha mão!” 

No mesmo ano, de um calango em São João del-Rei:

"O meu carro é de aroeira, 
eixo é de jacarandá,
uma junta é de boi preto, 
outra de boi-araçá."

É uma referência à espécie urundeúva, dura e de secular duração. As outras duas aroeiras (preta e branca) dão pouco uso, sobretudo lenha e escora de pouca duração. A preta é usada para mourão.

A dermatose alérgica que causam, o povo chamada "sapecado", que se trata com benzeção nos meios folclóricos, ao modo do cobreiro. Se não benzer não sara, diz o povo. As lesões vão se ampliando e tomam conta da pessoa gerando grande sofrimento e comprometendo o aspecto físico. Na verdade exigem intervenção médica especializada.

Crê-se que galho seco não sapeca e pode ser usado como lenha sem dano a quem o carrega. 

Outrora havia grande temor pela "surra de aroeira", quando o castigado era submetido a açoites leves com ramos de aroeira, que contudo rendiam grandes lesões de pele.

Pessoa sensível não pode nem passar perto da aroeira. Já a certa distância é acometido. Se passar inadvertidamente debaixo de uma árvore dessas é certo ser afetado. Para não ser sapecado, deve-se chamar a árvore de "madrinha", com a fórmula: "dá licença, minha madrinha!". Outros receitam dar uma surra de vara no tronco da aroeira e com este castigo ela não sapecaria.

Na crença congadeira a aroeira é consagrada a São Benedito. A árvore é dele, como ouvi em Coronel Xavier Chaves em 1997:

"Êh, aroeira-ah!
Aroeira é de São Benedito"


No seu pé rezam para ele, pedindo ajuda para o bom andamento do congado, ou acendem velas a São Benedito junto ao seu tronco.

Já na tradição umbandista a aroeira é votiva dos exus (*). Por causa deles a pessoa é sapecada. É por força e influência deles, atingindo a quem não respeita sua árvore cortando ou quebrando galhos sem pedir licença primeiro ("dá licença, compadre!"); ou um castigo àqueles que transgrediram normas religiosas, que estão em dívida espiritual, que não receberam "agô", "malême" (perdão, digamos assim). Na aroeira se oferenda a exu. Na aroeira se faz trabalho de amarração, com fitas de cetim em número tal (3, 7, 9, dependendo do pedido), dando-se a volta no tronco e fechando com nó cego, sempre pronunciando o nome da pessoa que se quer afetar: "(fulano), na aroeira amarro teus caminhos!"

Troncos de aroeira: preta (esquerda) e branca (direita). 
São João del-Rei, dez./2014. 

Aroeira é árvore de respeito. Porrete, bastão ou manguara dessa madeira é firmeza forte para se ter em segredo, guardada num canto fora da vista dos curiosos, para livrar de todo malefício.


Referência Bibliográfica

SANTOS, Eurico. Nossas Madeiras. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. 313p.il.

Notas e Créditos

* Além da aroeira-preta, também são árvores votivas dos exus: sete-casacas e gameleira (figueira-brava).
** Texto: Ulisses Passarelli.
*** Fotos: Iago C.S. Passarelli (aroeiras) e Ulisses Passarelli (tocos no rio).
**** Informantes de calango: Barbacena, "Dona Josefina"; São João del-Rei, Bairro São Dimas, Luís Santana.
***** Leia também a postagem APADRINHAMENTO